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12 de mai. de 2012

Cristo nos confiou o ministério da reconciliação


São Cirilo de Alexandria

Os que possuem o penhor do Espírito e vivem na esperança da ressurreição, como se já possuíssem aquilo que esperam,podem dizer que desde agora não reconhecem a ninguém segundo a carne; pois somos todos espirituais e isentos da corrupção da carne. Com efeito, desde que brilhou para nós a Luz do Unigênito de Deus, fomos transformados no próprio Verbo que dá vida a todas as coisas. E assim como nos sentíamos acorrentados pelos laços da morte, quando reinava o pecado, agora ficamos livres da corrupção, ao chegar a justiça de Cristo.

Por conseguinte, doravante ninguém vive mais sob o domínio da carne, isto é, sujeito à fraqueza carnal. A ela com certeza, entre outras coisas, deve ser atribuída a corrupção. Neste sentido afirma o apóstolo Paulo: Se uma vez conhecemos Cristo segundo a carne,agora já não o conhecemos assim (2Cor 5,16). Como se quisesse dizer: O Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), sujeitando-se à morte segundo a carne, para a salvação de todos. Foi deste modo que o conhecemos; todavia, desde este momento, já não é mais assim que o reconhecemos. É verdade que ele conserva a sua carne, pois resuscitou ao terceiro dia, e vive no céu, à direita do Pai; mas a sua existência é superior à vida da carne. Tendo morrido uma vez, Cristo não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive, é para Deus que vive (Rm 6,9-10).

Então, se ele se apresentou diante de nós como modelo de vida, é absolutamente necessário que também nós, seguindo seus passos, façamos parte daqueles que não vivem mais na carne mas acima da carne. É o que diz o grande Paulo, com toda razão: Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo (2Cor 5,17). Fomos justificados pela fé em Cristo e terminou o domínio da maldade. Uma vez que ele resuscitou por nossa causa, calcando aos pés o poder da morte, nós conhecemos aquele que por sua própria natureza é o verdadeiro Deus. É a ele que prestamos culto em espírito e verdade, por intermédio de seu Filho que distribui sobre o mundo as bênçãos divinas do Pai.

Por esse motivo, São Paulo diz com muita sabedoria: Tudo vem de Deus que, por Cristo, nos reconciliou consigo (2Cor 5,18). Realmente, o mistério da encarnação e a renovação a que ela deu origem não se realizaram sem a vontade do Pai. É por Cristo que temos acesso ao Pai, como ele próprio afirma: ninguém pode ir ao Pai senão por ele. Portanto, tudo vem de Deus que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação.

-- Dos Comentários sobre a Segunda Carta aos Coríntios, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V)

29 de nov. de 2011

Os dons da profecia e línguas


São Jerônimo prestou grande serviço
a Igreja quando trduziu a Bíblia do
grego para o latim.
1a. Carta aos Coríntios: 14,5-12
Por exemplos, já das flautas, já dos homens, ensina que a profecia sobrepuja ao dom de línguas.
5. Desejo que faleis todos em línguas; prefiro, contudo, que profetizeis. Pois o que profetiza supera ao que fala em línguas, a não ser que este também interprete, para que a assembléia toda receba edificação.
6. E agora, irmãos, suponhamos que eu vá até vós falando-lhes em línguas: Em que lhes aproveitaria eu se minha palavra não vos traz nem revelação, nem ciência, nem profecia, nem ensinamento?
7. Assim sucede com as coisas inanimadas que dão vozes tais como a flauta ou a cítara. Si não dão distintamente os sons, como se conhecerá o que toca a flauta ou a cítara?
8. E se a trombeta não dá senão um som confuso, quem se preparará para a batalha?
9. Assim também vós: se ao falar não pronunciais palavras inteligíveis, como se entenderá 10. Há no mundo não sei quantas variedades de línguas, e nenhuma carece de sentido.
10. Há no mundo não sei quantas variedades de línguas, e nenhuma carece de sentido.
11. Mas se eu desconheço o valor dos sons, serei um bárbaro para o que me fala; e o que me fala, um bárbaro para mim.
12. Assim, pois, já que aspirais aos dons espirituais, procurai abundar neles para edificação da assembléia. O que dizes? É como se falásseis ao vento.
Aqui o Apóstolo rechaça a objeção ao falso entendimento que pudesse haver acerca do que previamente explicamos: com efeito, alguns poderiam crer que por preferir o Apóstolo a profecia ao dom de línguas deveria desdenhar-se o dom de línguas. Pelo qual, para excluir tal coisa, disse:Desejo que faleis,  etc.
Donde primeiramente se vê o que trata de insinuar; e logo dá a razão dele: O que profetiza supera... a não ser que, etc. Assim é que disse: Os digo, não obstante o que já disse acima, que não desejo que desdenheis o dom de línguas, pois quero que todos vós faleis em línguas; mas desejo que profetizeis. Quem me dera que todo o povo de Yawhé profetizasse. . ? (Ez 1,29) E o explica dizendo: mas supera, etc., como se dissera: desejo que mais bem profetizeis, porque o que profetiza supera, etc. E a razão disto é que às vezes alguns são movidos pelo Espírito Santo a falar algo místico que eles mesmos não entendem; e é assim como estes tem o dom de línguas. Mas às vezes não só falam em línguas senão que ademais interpretam o que dizem. Pelo qual adiciona o Apóstolo: A não ser que este também interprete. Porque o dom de línguas com sua interpretação é melhor que só a profecia; porque, como já se disse, a interpretação de algo elevado pertence à profecia. Assim é que quem fala e interpreta é profeta, pois tem tanto o dom de línguas como o da interpretação para edificação da Igreja de Deus; pelo qual disse o Apóstolo: para que toda assembléia receba edificação, ou seja, que não sozinho se entenda senão que também edifique a Igreja: Procuremos o que seja para mútua edificação (Rm 14,19). E: Que cada um agrade bem ao seu próximo para sua edificação (Rm 15,2).

E agora, irmãos, etc. Aqui prova com exemplos, e de três classes, que o dom da profecia supera o dom de línguas.
Primeiro com um exemplo tomado de si mesmo; logo mediante um tomado das coisas inanimadas: Assim sucede com os instrumentos inanimados, etc.; e por último com um tomado da diversidade de línguas dos homens: Há no mundo não sei quantas variedades de línguas, etc.
Enquanto a ele mesmo, argumenta desta maneira: É patente que eu não possuo menos que vós o dom de línguas; mas se somente lhes falar em línguas, sem interpretá-las, de nada aproveitariam. Logo tampouco vos aproveitais mutuamente. O disse com estas palavras: Suponhamos que eu vá até vós falando em línguas. O qual pode entender-se de duas maneiras, isto é, ou em línguas desconhecidas, ou a letra com qualquer sinais não entendidos. Em que vos aproveitaria se minha palavra não traz nem revelação? etc. E aqui devemos observar que estas quatro coisas, a saber, nem revelação, nem ciência, nem profecia, nem ensinamento, podem diferenciar-se de duas maneiras.
De um modo segundo o poder de quem seja. Pois devemos saber que a ilustração da mente mediante o conhecimento é de quatro coisas, porque o é das coisas divinas, e tal ilustração pertence ao dom de sabedoria. Mas o conhecimento das coisas divinas é a revelação, porque as coisas que são de Deus nada se conhece, etc. Pelo qual disse o Apóstolo nem revelação, pela qual é iluminada a mente para conhecer as coisas divinas.
Ou o conhecimento é de coisas terrenas, mas não de qualquer for, senão só das que são para edificação da fé, e tal conhecimento pertence ao dom da ciência, pelo qual disse: nem ciência, não de geometria, nem de astrologia, porque estas não tem a ver com a edificação da fé, senão a ciência das coisas santas. Lhe deu a ciência das coisas santas (Sb 10,10). Ou é conhecimento de coisas futuras, e este pertence ao dom da profecia, pelo qual disse: nem profecia. Interpreta-lhes sinais e os prodígios antes que ocorram, e a sucessão dos tempos e dos sinais (Sb 8,8). Mas é de notar-se que aqui não se toma a profecia em sentido geral, ou seja, conforme ao que se foi dito, senão de maneira particular tão somente enquanto é a manifestação de coisas futuras. E enquanto a isto define assim Cassiodoro: A profecia é a divina inspiração de coisas futuras para declarar a imutável verdade. Quero derramar minha doutrina como profecia (Sl 24,46). Ou é de ordem da moral, no qual pertence a instrução ou doutrina, pelo qual disse o Apóstolo m Romanos (Rm 12,7) e no Livro dos Provébios (Pr 13,15).
De outro modo podem-se distinguir as diversas maneiras de adquirir o conhecimento. Com efeito, é de saber-se que todo conhecimento ou provém de um princípio sobrenatural, isto é, de Deus, ou de um natural, ou seja, da luz natural de nosso entendimento. Mas o primeiro pode ser de duas maneiras: ou infundindo-se a luz divina por súbita apreeensão, e assim teremos a revelação; ou se infunde sucessivamente, e assim é a profecia, pois não a tiveram subitamente os profetas, senão sucessivamente e por partes, como mostram suas profecias.
Mas se a instrução se adquire mediante um princípio natural, isto ocorre ou mediante estudo próprio, e assim pertenece a ciência; ou se recebe de outro, e assim pertence a doutrina. E assim sucede com coisas inanimadas, etc. Isto mesmo se mostra com exemplos tomados de coisas inanimadas, isto é, de instrumentos que parecem ter voz. E primeiramente por instrumentos de gozo; e em segundo por instrumentos de combate: E se a trombeta não dá senão um sonido, etc. Pois disse: não só pelo que já foi dito acima, senão também porquanto há coisas que carecendo de alma dão sons, é evidente que somente falar em línguas não aproveita aos demais. E assim sucede com coisas inanimadas que dão sons. Pelo contrário, a voz é um sonido que sai de uma boca animal, formado por órgãos naturais. Assim é que as coisas que carecem de alma não dão vozes.
Devemos dizer que ainda quando a voz não pertence senão a animais, contudo, se pode dizer, por certa semelhança, de certos instrumentos que tem certa consonância e melodia, pelo que faz menção deles, isto é da cítara, que ao tato dá sons, e da flauta, soprando. Portanto, se estas coisas dão sons confusos como se entenderão?
Com efeito, sendo que o homem mediante instrumentos deseja expressar algo, isto é, com algumas melodias, que se ordenam ou ao pranto ou ao gozo, Vós cantareis como na noite em que celebra a festa, com alegria de coração, como que ao som da flauta vai entrar no monte de Yahwéh, (Is 30,29), ou também a sensualidade, não se poderia julgar com que finalidade se toca a flauta, ou com qual a cítara, se o som é confuso e obscuro.
Da mesma maneira, se o homem fala em línguas, e não as interpreta, é impossível saber o que quer dizer. Se não dá senão um som confuso, etc. Isso mesmo se vê pelos exemplos das coisas inanimadas, e dos instrumentos próprios para o combate. E esta semelhança se toma do capítulo 10 do livro dos Números. Ali se lê que o Senhor ordenou a Moisés que fizesse duas trombetas de prata para convocar o povo, para pôr em movimento os acampamentos e para o combate. Mas para cada uma destas finalidades teriam certo modo de tocar, pois de uma maneira era a voz para juntar-se na assembléia, outra era para mover o campamento, e outra quando lutavam. Pelo qual argumenta o Apóstolo que assim como se a trombeta não dá senão um som confuso, isto é, ininteligível, não se sabe se devem preparar para a guerra, assim também vós, se falais somente em línguas, sem uma clara exposição que interprete o dito, nada saberá do que é dito. Por trombeta se pode entender que se trata do pregador. Como trombeta clama a voz no grito (Is 58,1).
Porque não se pode saber o que se diz é que falareis ao vento, ou seja, inútilmente. E exerço o pugilismo não como dando golpes no vazio (1Cor 9,26). Há no mundo não sei quantas variedades de línguas. Aqui toma o exemplo das diversas línguas que se falam. E acerca disto procede de três maneiras.
Primeiro mostra a diversidade das línguas; logo, a inutilidade de falar-se mutuamente em línguas estranhas: Mas se desconheço o valor dos sons; e finalmente conclui com o que deseja: Assim pois, já que aspiramos aos dons espirituais.
Com efeito, primeiramente disse: Muitas e diversas línguas há no mundo, e cada quem pode falar a que queira; mas se não fala uma determinada, não se entende. Pelo qual disse: há não sei quantas variedades. Pode-se expor isto de duas maneras, porque pode continuar com o que precede, de modo que diga: Falareis ao vento; e há não sei quantas variedades, como se dissera: ao vento, isto é, inutilmente falais em todas as línguas, porque falais sem entende-las, não obstante que para serem entendidas tem as significações próprias das vozes. Pois nada carece de voz.

Ou se pode pensar desta maneira: É como se falásseis ao vento. Pois tantos são os gêneros de línguas, isto é, de cada língua. Com isto mostra sua inutilidade. O disse com estas palabras: Se falasse todas as línguas. Mas se desconheço o valor dos sons, ou seja, a significação das vozes, serei um bárbaro para meu interlocutor.
Observe-se que segundo alguns são bárbaros aqueles cujo idioma discorda totalmente do latino. Embora outros dizem que todo estranho ou estrangeiro é um bárbaro para qualquer outro estranho quando não é entendido por ele. Mas isto não é assim, porque segundo Isidoro, a Barbaria é uma certa nação. Em Cristo não há bárbaro nem escravo, (Cl. 3,2). Mas, segundo mais verdadeiramente se disse, bárbaros são propriamente aqueles que gozam de vigor corporal sendo deficientes no vigor da razão, e estão como na margem das leis e sem regime jurídico. E isto concorda com o que Aristóteles disse em sua Política. Consequentemente, quando o Apóstolo disse: assim como conclui o que pretende, isto se pode construir de duas maneiras. Primeiramente para certificar como se dissera: Tão bárbaro seria eu para vós se falasse sem significação nem interpretação, como bárbaros serieis vós mutuamente; logo aspiráis aos dons espirituais.
Ou de outro modo, dizendo-se tudo com claridade, como se dissera: Não sejais, pois, bárbaros; senão que, tal como eu procedo, posto que estais ansiosos das coisas do espirito, isto é, dos dons do Espírito Santo, pedí-los a Deus, para que abundeis. Na abundante justiça está a virtude máxima (Pr 15,5). Na qual justiça é edificar aos demais. Pedi e vos será dado; buscais e achareis; batei e vos será aberto (Mt 7,7).
-- Dos Comentários a Primeira Epístola aos Coríntios, de São Tomás de Aquino (século XIII)

10 de nov. de 2011

Primazia do dom da Profecia sobre o dom de línguas.

Profeta Elias
1a. Carta aos Coríntios, capítulo 14, 1-4
1. Empenhai-vos pelo amor e aspirai aos dons do Espírito, principalmente à profecia..
2. Pois aquele que fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus; ninguém o entende, pois ele fala, em êxtase espiritual, coisas misteriosas.
3. Mas aquele que profetiza fala aos homens, edificando, exortando, confortando.
4. Aquele que fala em línguas edifica a si mesmo, porém o que profetiza edifica a Igreja.
Uma vez afirmada a excelência da caridade à respeito dos demais dons, logicamente o Apóstolo compara os demais dons entre si, e mostra a excelência da profecia sobre o dom das línguas. E para isto faz duas coisas. Primeiro mostra a excelência da profecia sobre o dom das línguas, e logo como se deve usar tanto do dom das línguas como o da profecia.
Primeiramente, faz duas coisas. Faz ver que o dom da profecia é mais excelente que o dom das línguas, em primeiro lugar por razões relativas aos infiéis, e em segundo por razões da parte dos fiéis.
A primeira parte se divide por sua vez em duas: primeiro mostra como o dom da profecia é mais excelente que o dom das línguas pelo uso daquele nas exortações ou ensinamentos; e segundo, pelo que vê do uso das línguas, que é para orar. Com efeito, para estas duas coisas é o uso das línguas. Por isso aquele que fala em línguas peça para poder interpretar (14,13).

Enquanto ao primeiro, ainda há duas coisas. Dito está que a caridade excede a todos os dons. Logo se isto é assim, buscai esforçadamente, a caridade, que é o doce e proveitoso vínculo dos espiritos. Ante todas as coisas a caridade, etc. (1P 4,7). Sobre todas as coisas tenham caridade (Cl. 3,14).
Em segundo lugar adiciona: empenhai-vos pelo amor, etc. Como se dissera: embora a caridade seja o maior de todos os dons, contudo os demais não são desdenháveis, senão que desejáveis, desejai com vontade, ardentemente, amando os dons espirituais do Espírito Santo. E quem os fará mal se vos esforçais pelo bem? (1P 3,13). Pois embora o desejo às vezes se toma por fervoroso amor, as vezes por inveja, contudo aqui não tem equivoco: um procede do outro, porque, com efeito, zelar e desejar designam um fervoroso amor a determinada coisa.
Mas ocorre que a coisa amada de maneira tão fervorosa é amada por alguém que não suporta coparticipação, senão que a quer somente para ela e exclusivamente. E isto é o zelo, que segundo alguns é um intenso amor que não suporta coparticipação na coisa amada. Mas nas coisas espirituais ocorre que muitos podem participar delas perfeitissimamente, em vez de um só.
Assim é que na caridade não se dá esse zelo que não tolera coparticipação no que se ama e que só se encontra enquanto deseja coisas corporais, se alguém tem aquilo que ele mesmo zela, sofre; do qual resulta um desejo que vem a ser inveja. De modo que se eu amo honra e riquezas, sofro se alguém as possui, e consequentemente o invejo. E assim é patente que do zelo surge à inveja.
Em consequência, quando se disse: Desejai os dons espirituais, não se trata da inveja, porque as coisas espirituais podem ser possuidas por muitos; e se disse que deve-se desejar é só para induzir a um fervente amor de Deus.
Mas como nas coisas espirituais existem certos graus, porque a profecia excede o dom de línguas, se disse: especialmente a profecia, como se dissera: entre os dons espirituais desejai com maior  vontade o dom da profecia. Não extingais o Espirito; não desprezeis a profecia (1Filem 5,19-20).
Mas para a explicação de todo o capítulo devem-se ter desde agora em conta três coisas, a saber: o que é profecia, de quantos modos se designa a profecia na Sagrada Escritura, e o que é falar em línguas.
Acerca do primeiro se deve saber que profeta é algo assim como o que vê ao longe, e em segundo lugar alguns o entendem como falar prognósticos, mas todavia melhor se toma por guia, faról, que é o mesmo que ver.
Pelo qual em 1 Reis 9,9 se disse que a quem agora se chama profeta em outro tempo se chamava vidente. Daqui que a visão daquelas coisas que estão distantes, ou que são futuros incertos, ou que estão por cima da nossa razão, se designa com o nome de profecia.
É, pois, a profecia, a visão ou manifestação de futuros incertos ou do que excede a inteligência humana. Mas para tal visão se requerem quatro coisas.
Com efeito, como nosso conhecimento é mediante as coisas corporais e por espectros ou imagens tomadas das coisas sensíveis, primeiramente se necessita que na imaginação se formem semelhanças corporais das coisas que se mostram, como ensina Dionísio, pelo qual é impossível que nos ilumine a luz divina se não seja mediante a diversidade das coisas sagradas envoltas em véus.

O que em segundo lugar se necessita é uma luz intelectual que ilumine o entendimento sobre coisas que se devem conhecer acima de nossa natural cognição. Com efeito, como a luz intelectual não se dá senão sobre as semelhanças sensíveis formadas na imaginação para serem entendidas, aquele a quem tais semelhanças se mostram não pode ser chamado profeta, mas senão um sonhador, como o Faraó, que embora tenha visto espigas e vacas, as quais indicavam certos fatos futuros, como não entendeu o que viu, não se chama profeta, senão que o é, aquele José, que fez a interpretação. E o mesmo há que dizer de Nabucodonosor, que viu a estátua, mas não entendeu. Pelo qual tampouco ele foi chamado profeta, senão a Daniel. Pelo qual se disse em Daniel 10,1: Lhe foi dada na visão sua inteligência.
O que em terceiro lugar se necessita é ousadia para anunciar o revelado. Pois para isto fez Deus suas revelações: para que sejam manifestadas aos demais. Eis que eu ponho minhas palavras na tua boca (Jr. 1.9).
O quarto são os milagres, que são para a certeza da profecia. Pois se não fizerem alguns, que excedam as forças naturais, não crerão naquilo que está por cima da cognição natural.
Pelo que aponta ao segundo, os modos da profecia, sabemos que existem diversos modos de ser profeta. Com efeito, às vezes se diz que alguém é profeta porque tem estas quatro coisas, a saber: que vê visões imaginárias, e têm a compreensão delas, e ousadamente as manifesta aos demais e também faz milagres.
Chama-se também às vezes profeta o que só tem as visões imaginárias, mas impropriamente e muito de longe.
Também se diz às vezes profeta ao que tem a luz intelectual para explicar também as visões imaginárias, ou feitas a ele mesmo, ou a outros; ou para expor os ditos dos profetas ou as Escrituras dos Apóstolos.
Profeta Jonas
E assim diz-se profeta a todo o que discerne as escrituras dos doutores, porque se interpretam com o mesmo Espírito com que são declaradas. Pelo qual se podem chamar profetas a Salomão e a David, enquanto tiveram luz intelectual para uma clara e sutíl penetração; mas a visão de Davi foi tão só intelectual.
Se diz também que alguém é profeta pelo único fato de que declare ditos de profetas, ou os exponha, ou os cante na Igreja, e deste modo se diz que Saul se contava entre os profetas (I Rs 19,23-24), ou seja, entre aqueles que cantaram os ditos dos profetas.
Diz-se também que alguém é profeta se faz milagres, segundo aquilo de que o corpo morto de Eliseu profetizou (Sl 48,14), ou seja, que fez um milagre.
Mas o que aqui diz o Apóstolo em todo o capítulo sobre os profetas deve-se entender do segundo modo, isto é, do que se diz que profetiza aquele que explica em virtude da luz divina intelectual as visões recebidas por ele mesmo ou por outros. É claro que aqui se trata desta classe de profetas.
Quanto ao dom de línguas devemos saber que como na Igreja primitiva eram poucos os consagrados para pregar pelo mundo a fé de Cristo, a fim de que mais facilmente e a muitos anunciassem a palavra de Deus, o Senhor deu-lhes o dom de línguas, para que a todos ensinassem, não de modo que falando uma só língua fossem entendidos por todos, como alguns dizem, mas sim, bem literalmente, de maneira que nas línguas dos diversos povos falassem as de todos. Pelo qual disse o Apóstolo: Dou graças a Deus porque falo as línguas de todos vós (1Cor 14,18). E em Atos 2,4, se disse: Falavam em várias línguas, etc. E na Igreja primitiva muitos alcançaram de Deus este dom.
Mas os corintios, que eram de indiscreta curiosidade, preferiam esse dom que o da profecia. E aqui por falar em língua, o Apóstolo entende que em língua desconhecida e não explicada: como se alguem falasse em língua teutônica a um galês, sem explicá-la, esse tal fala em língua. E também é falar em língua o falar de visões somente, sem explicá-las. De modo que toda locução não entendida, não explicada, qualquer que seja? Seja, propriamente falar em língua.
Visto estas coisas, dediquemo-nos à exposição da carta, que é clara. E para isto faz o Apóstolo duas coisas. Primeramente prova que o dom de profecia é mais excelente que o dom de línguas; e em segundo lugar rechaça qualquer objeção. Desejo que faleis todos em línguas; prefiro, contudo, que profetizeis (1Cor 14,5). Que o dom de profecia exceda o dom de línguas o prova com duas razões, das quais toma a primeira da comparação de Deus com a Igreja; e a segunda razão se toma da comparação dos homens com a Igreja.
primeira razão é a seguinte: Aquilo pelo qual faz o homem as coisas que não são unicamente em honra de Deus, mas também para utilidade dos próximos é melhor que aquilo que se faz tão unicamente em honra de Deus. É assim que a profecia é não unicamente em honra de Deus, mas também para a utilidade do próximo, e pelo dom de línguas se faz unicamente o que é em honra de Deus. 
E esta razão se desenvolve, primeiramente enquanto ao que o que é dito em língua, tão unicamente honra à Deus. O expressa com essas palavras: Pois aquele que fala em línguas não fala aos homens, mas a Deus; ninguém o entende, pois ele fala, em êxtase espiritual, coisas misteriosas, isto é, tão unicamente em honra de Deus (1Cor 14,2). Ou à Deus, porque o mesmo Deus entende: O ouvido de Deus zeloso escuta tudo. (Sb 1,10). E o que não se disse ao homem, adiciona: Nada ele ouve, isto é, nada ele entende. Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça (Mt 13,9). Mas o que só a Deus é falado, compreende-se que o próprio Deus fala. Pelo qual disse: ele fala, em êxtase espiritual, coisas misteriosas (1Cor 14,2). Porque não sereis vós que falarão, senão o Espírito de vosso Pai é que falará em vós. (Mt 10,20).
Em segundo lugar prova que a profecia é em honra de Deus e para utilidade dos próximos. Pelo qual disse: Porque quem profetiza, etc. (1Co 14,3), isto é, o que explica visões ou escrituras, lhes fala aos homens, quer dizer, ao entendimento dos homens, e isto para edificação dos principiantes, e para exortação dos fiéis e consolo dos aflitos.

Mas a edificação corresponde a uma disposição espiritual. Em quem também vós estais sendo juntamente edificados (Ef. 2,22). E a exortação é para induzir a boas ações, porque se a disposição é boa, boa será tambem a ação. Estas coisas ensinam e exortam (Tt. 2,1,4). A consolação induz a paciência ante os males. Tudo quanto foi escrito, para nos ensinar se escreveu (Rm 15,4).
Pois bem, a estas três coisas induzem os proclamadores da Divina Escritura.
A segunda razão é esta: o que é útil tão somente para quem o faz é menor que aquilo que também a outros aproveita. É assim que o falar em línguas é somente para a utilidade de quem as fala, ao invés, o profetizar aproveita a outros.
Averigua esta razão, e primeiramente enquanto a sua primeira parte, para o qual disse: O que fala em línguas edifica-se a si mesmo (1Cor 14,4). Dentro de mim meu coração ardia (Sl. 38,4). Em segundo lugar enquanto a sua segunda parte, para o qual disse: Mas o que profetiza edifica, instruindo, a Igreja, isto é, aos fiéis. Edificados sobre o fundamento dos Apóstolos e dos Profetas (Ef. 2,20).

-- Dos Comentários à Carta aos Coríntios, livro de São Tomás de Aquino , bispo (século XIII)

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