12 de abr. de 2026

As nove posições para rezar

 As formas de oração de São Domingos despertaram a curiosidade de seus irmãos. Diz-se que eles o observavam rezar. Faziam-no de uma janela superior. Viram o que foi registrado como as nove formas de oração de Domingos: nove posturas ou gestos distintos. Frequentemente, ouviam-no recitar ou exclamar palavras das Escrituras. Essas nove formas são incomuns em nossos tempos atuais; portanto, uma breve intodução pode ser útil.

De uma perspectiva histórica, surgiu na Igreja da Espanha, no final do século XII, um grupo religioso que exerceu grande influência sobre o povo. Sua crença de que o corpo era mau e a alma boa, era pregada tanto em palavras quanto em ações. Esse grupo religioso era extremamente austero e praticava a autopenitência. Algumas das formas de oração de Domingos refletiam esse modo de pensar.

De uma perspectiva filosófica, o dominicano São Tomás de Aquino ensinou que certas atitudes e gestos corporais podem nos predispor à oração e que, inversamente, uma oração intensa pode irromper em uma expressão corporal.

De uma perspectiva psicológica, a Irmã Catherine Aubin, autora de Sobre a Oração com o Corpo, Segundo São Domingos, sugere que, quando alguém ama, esse amor se manifesta por meio de gestos, palavras e sorrisos. O mesmo ocorre na oração.

De uma perspectiva antropológica bíblica, Aubin recorda que funções específicas e dinâmicas são atribuídas às diferentes partes do corpo. Por exemplo, o pescoço pode simbolizar o lugar de honra, de peso — mas também de afeto ou humildade; daí a inclinação da cabeça. É dentro desses diversos contextos que examinamos as nove formas de oração de Domingos.

A PRIMEIRA MANEIRA DE ORAR É A INCLINAÇÃO

Na Tradição Dominicana, existem três formas desse gesto: a simples inclinação da cabeça, uma inclinação a partir dos ombros, e a inclinação profunda, a partir da cintura.


Antigos desenhos de São Domingos em oração diante do altar de Cristo crucificado mostram-no fazendo uma inclinação profunda. Vários textos relatam que, permanecendo ereto, Domingos inclinava a cabeça e contemplava humildemente a cabeça inclinada de Cristo crucificado. Ele se humilhava diante do Cristo que assumiu a humilhação da cruz. E os irmãos o ouviam rezar: 

  • “Eu não sou digno de que entres sob o meu teto.” [Mt 8:8]
  • “Fui profundamente humilhado diante de Ti, ó Senhor.” [Sl 118:107]
  • “Ó Senhor, Deus, a oração dos humildes e mansos sempre Te agradou.” [Jd 9:16]

São Domingos ensinou os irmãos a se humilharem diante de Cristo crucificado e a se humilharem diante da Trindade enquanto entoavam o Glória ao Pai. Esse mesmo gesto perdura, ainda hoje, em algumas congregações dominicanas.

ESTENDIDO NO CHÃO

Domingos deitava-se de bruços, estendido no chão. Dizia-se que ele assumia essa postura quando tomado por uma grande tristeza, e então chorava. Às vezes, com a voz alta o suficiente para ser ouvida, ele orava: “Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador.” [Lucas 18:13]

São Domingos orava com todo o seu corpo, foi assim que ensinou seus irmãos a rezar pela misericórdia de Deus.

Ele ainda exortava: “Se não puderem chorar pelos seus próprios pecados, chorem pelos pecados dos outros.”

Dessa maneira, São Domingos invocava a misericórdia de Deus para todos.

AJOELHADO EM AUTOFLAGELAÇÃO

Erguendo-se de sua prostração até ficar de joelhos — conforme descrito na segunda forma de oração —, Domingos se flagelava com uma corrente de ferro. Esta terceira maneira de orar era uma forma de penitência. É preciso recordar o contexto da época em que São Domingos viveu, o que nos permite compreender o que, hoje, poderia parecer uma forma de oração inaceitável.

Em memória de seu exemplo, a Ordem decretou que todos os frades deveriam receber a disciplina — com varas de madeira sobre os ombros. Tal prática devia ser observada nos dias em que não houvesse festas litúrgicas, enquanto, curvados, recitavam: “Tende piedade de mim, ó Deus, em vossa bondade; [...] apagai as minhas ofensas” [Miserere, Sl 51]; ou: “Das profundezas clamo a vós, Senhor; Senhor, ouvi a minha voz!” [De Profundis, Sl 130].

A flagelação era realizada em penitência pelas próprias faltas do frade, bem como pelas faltas alheias.

Humildade, misericórdia e autodisciplina caracterizam as três primeiras maneiras de orar de São Domingos. De que modo a humildade, a misericórdia e a autodisciplina servem como meio para superar as faltas?

A GENUFLEXÃO

Enquanto contemplava a cruz, Domingos genufletia frequentemente. Tomado de reverência diante do Cristo crucificado, ele se levantava e, em seguida, ajoelhava-se — erguendo-se e ajoelhando-se repetidas vezes.

E, nessas posturas, uma transformação operava-se nele; ele sentia uma imensa confiança na misericórdia de Deus para consigo mesmo, para com seus irmãos e para com todos os pecadores. Por vezes, podia-se ouvi-lo murmurar: “A ti clamo, ó Senhor! Ó meu Deus, não permaneças em silêncio para comigo...” [Sl 27,1]

Em outros momentos, permanecia em genuflexão silenciosa, e parecia que uma grande alegria o levava às lágrimas. Então, mais uma vez, levantava-se e, novamente, ajoelhava-se. Tornou-se a forma íntima e pessoal de adoração de Domingos. Ele ensinou seus irmãos a rezar dessa maneira por meio de seu próprio exemplo, pois orava assim não apenas em seu quarto, mas também durante suas viagens.

São Domingos — por vezes chamado de “atleta de Cristo” — rezava de modos fisicamente exigentes, marcados por uma rigorosa disciplina corporal. E o fazia com grande graça e agilidade.

Hoje em dia, habitualmente genufletimos ao entrar e sair da igreja ou capela. Talvez o façamos como uma forma de etiqueta eclesiástica. Se essa é a sua prática, o que lhe vem à mente no momento em que dobra o joelho?

COM AS MÃOS ESTENDIDAS

Na quinta maneira de rezar, São Domingos permanecia de pé, com as mãos estendidas diante de si, como se estivesse lendo um livro. Diz-se que ele se mantinha em tal reverência, como se estivesse lendo a própria presença de Deus.

Em seguida, por algum tempo, ele unia as mãos; em outros momentos, erguia-as, tal como faz o sacerdote na liturgia. Parecia que São Domingos se postava como um profeta que, primeiro, falava com Deus, ouvia atentamente a resposta divina e, depois, detinha-se em reflexão silenciosa sobre aquilo que lhe fora revelado.


OS BRAÇOS ESTENDIDOS EM FORMA DE CRUZ

Na sexta maneira de orar,  São Domingos permanecia de pé, com os braços estendidos, em forma de cruz. Diz-se que ele orava dessa maneira na expectativa de um milagre que Deus realizaria.

Foi assim que São Domingos suplicou a Deus quando um menino foi ressuscitado na Igreja de São Sisto, em Roma; quando o próprio São Domingos foi elevado do solo durante a celebração da Missa; e quando um grupo de peregrinos foi salvo de se afogar em um rio próximo a Toulouse. Aqueles que observavam essa forma de oração ficavam tão impressionados que acabavam por não se lembrar do que São Domingos dizia.

Nessa reverente súplica, São  Domingos parecia conhecer a intenção de Deus de fazer brotar, da morte na cruz, uma nova vida. “Estendi as minhas mãos para ti... Ouve-me depressa, ó Senhor.” (Sl 142, 1-7)

Nessa imitação de Cristo na Cruz, São  Domingos inspirava os irmãos; contudo, não os encorajava nem os desencorajava a orar dessa maneira.

Experimente! É sério! Você consegue manter essa postura por um minuto? Por dois?

AS MÃOS ELEVADAS AO CÉU

A sétima posição para orar consistia na súplica, na qual todo o ser de São Domingos era visto como uma flecha disparada de um arco, dirigida para o céu. Erguidas acima de sua cabeça, as mãos de Domingos permaneciam unidas ou levemente afastadas, como se estivessem a receber algo do céu. Dessa forma, São Domingos reconhecia que todos os bons dons provêm de Deus.

Enquanto mantinha essa postura,São  Domingos parecia entrar em um estado de êxtase; e, ao recobrar a consciência terrena, orava: “Ouve, ó Senhor, a voz da minha súplica que a Ti dirijo, quando elevo as minhas mãos para o Teu santo templo.” (Sl 27,2)


LEITURA ORANTE

A oitava forma de oração — a leitura orante ou reflexiva — poderia ser descrita como São Domingos em conversa à mesa com a Palavra. O santo retirava-se para algum lugar tranquilo e, sentado à mesa, fazia o sinal da cruz e começava a ler um livro.

Pouco depois, parecia que estava a dialogar com um amigo; mostrava-se, alternadamente, a escutar em silêncio, a discutir e argumentar, a rir e a chorar, e, em seguida, a inclinar-se e, falando em voz baixa, a bater no peito. Era como se São Domingos descobrisse que Deus, de alguma forma, lhe falava por meio das palavras que lia.

Diz-se que ele parecia transitar da leitura para a oração, da oração para a meditação e da meditação para a contemplação.

A NONA MANEIRA DE ORAR: CAMINHANDO

Orar durante uma jornada consiste em caminhar na solidão. Enquanto São Domingos e seus companheiros viajavam a pé de um país a outro, ele se afastava da companhia deles e caminhava sozinho.


Esse era um tempo de meditação para Domingos. Era o momento de meditar sobre as Escrituras e comungar com o Espírito Santo. Referindo-se às suas longas caminhadas solitárias, ele costumava citar aos seus companheiros: “Eu a conduzirei (minha esposa) ao deserto e lhe falarei ao ouvido.” (Oséias 2:16) Essa era a preparação para a santa pregação de Domingos.

Caminhe. Sozinho. Ouça os sons do ambiente ao seu redor: aviões sobrevoando, carros no tráfego distante, ruídos da indústria. Volte seu foco para os sons da natureza: o chilrear dos pássaros, o farfalhar das folhas ao vento, o canto dos grilos. Direcione sua atenção para o som de seus passos, para sua respiração, para a sensação do bater de seu coração.

Caminhe agora para a parte mais profunda de si mesmo e ouça. Você consegue ouvir a voz de Deus?


-- tradução própria da página St. Dominic's Nine Ways of Prayer by S. Chris Broslavick

4 de abr. de 2026

A Ressurreição - Páscoa 2026

Evangelho da Vigília de Páscoa, Mateus 28, 1-10.

Comentários de São Jerônimo sobre o Evangelho de São Mateus

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 Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.

O fato de serem descritos momentos diferentes para essas mulheres nos Evangelhos não é sinal de falsidade, como objetam os ímpios. Pelo contrário, isso demonstra uma visitação persistente. Pois elas iam e voltavam frequentemente e não conseguiam suportar ficar ausentes do sepulcro do Senhor, nem mesmo por um breve momento.

De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.

Nosso Senhor é um só e o mesmo Filho de Deus e Filho do homem. Segundo ambas as naturezas — divindade e carne —, Ele manifesta sinais: ora de sua grandeza, ora de sua humildade. É por isso que, na presente passagem — embora seja um homem aquele que foi crucificado, sepultado e encerrado no sepulcro, a quem uma pedra retinha como obstáculo —, no entanto, os eventos que ocorrem do lado de fora o revelam como o Filho de Deus: o sol se retira, a escuridão cai, a terra treme, o véu do templo se rasga, as rochas se fendem, os mortos ressuscitam; há o serviço dos anjos, os quais, já desde o momento de seu nascimento, provaram que Ele era Deus. 

Por exemplo: Gabriel vem a Maria; um anjo fala com José; o mesmo anjo anuncia a notícia aos pastores; mais tarde, ouve-se um coro de anjos cantando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Ele é tentado no deserto e, imediatamente após sua vitória, os anjos o servem. Agora, também, um anjo vem atuar como guarda do sepulcro do Senhor. Por meio de suas vestes resplandecentes, ele expressa a glória Daquele que triunfou. E, além disso, quando o Senhor ascende aos céus, dois anjos são vistos no Monte das Oliveiras, prometendo a segunda vinda do Salvador aos
apóstolos.


Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos. Então o anjo disse às mulheres: "Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado.

Os guardas estão completamente aterrorizados pelo medo. Jazem ali, estupefatos como mortos; e, no entanto, o anjo não consola a eles, mas sim às mulheres: “Não tenhais medo.” Que eles tenham medo, diz ele. O pânico persiste naqueles em quem habita a incredulidade. Mas quanto a vós, já que buscais o Jesus crucificado, ouvi isto: Ele ressuscitou e cumpriu as suas promessas.

Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos".







Assim, se não acreditais nas minhas palavras, deveis acreditar no sepulcro vazio. Ide com passos rápidos e anunciai aos seus discípulos que Ele ressuscitou. E Ele vai adiante de vós para a Galileia — isto é, para o pântano dos Gentios, onde outrora havia erro e instabilidade, e onde anteriormente Ele não havia deixado a sua pegada com pé firme e estável.

As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 

Dois sentimentos distintos ocupavam as mentes das mulheres: o medo e a alegria. O primeiro provinha
da grandeza do milagre; o segundo, da sua saudade do Ressuscitado. E, no entanto, ambos os sentimentos aceleravam os seus passos femininos. Elas foram aos apóstolos para que, por meio deles,
o celeiro da fé fosse espalhado.

De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: 'Alegrai-vos!' As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés.

Aquelas que buscavam dessa maneira, aquelas que corriam desse modo, mereceram encontrar o Senhor ressuscitado e ser as primeiras a ouvir: “Salve!” Assim, a maldição da mulher Eva foi quebrada entre as mulheres. Aquela que buscava o vivente entre os mortos e que ainda não sabia que o Filho de Deus havia ressuscitado, ouve, merecidamente: “Não me toques, pois ainda não subi para meu Pai.”

10 Então Jesus disse a elas: "Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão".

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, deve-se sempre observar o seguinte: Quando surge uma visão de maior majestade, o medo é, a princípio, afastado. Assim, uma vez que a mente tenha sido acalmada dessa maneira, as palavras proferidas podem ser ouvidas.

Ele também falou a esses irmãos em outra passagem: “Anunciarei o teu nome aos meus irmãos.” Não é na Judeia que eles verão o Salvador, mas na multidão dos Gentios.

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A Ressurreição, gravura de Giulio Bonasone, Metropolitan Museus on Art, New York.

A gravura mostra a cena fundamental da fé cristã, Jesus Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte. Os guardas estão no chão, caídos, mal podem olhar o vitorioso Cristo. Abaixo de Cristo, sua tumba agora vazia, não mãos de Cristo estão os sinais de sua vitória, uma bandeira branca, sinal de pureza, e a cruz. 







24 de fev. de 2026

O Milagre Eucarístico de Montserrat, Espanha

O milagre eucarístico de Montserrat nos leva a refletir sobre a realidade do Purgatório e nos lembra que cada Missa tem valor infinito, pois torna presente o sacrifício de Cristo, que sofreu no Calvário. Este milagre eucarístico foi relatado pelo padre beneditino Francis de Paula Crusell em seu livro Nueva historia del Santuario y Monasterio de Nuestra Señora de Montserrat.

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Nossa Senhora de Montserrat



Em 1657, Bernardo de Ontevieros, Superior Geral da Ordem Beneditina na Espanha, e o Abade Millán de Mirando estavam no Mosteiro de Nossa Senhora de Montserrat para participar de algumas conferências. Durante uma delas, uma mulher e sua filha pequena apareceram no mosteiro. A filha começou a implorar ao Abade Millán que celebrasse três Missas por seu falecido pai, convicta de que, por meio dessas Missas, a alma de seu pai seria libertada das penas do Purgatório. O bom abade, comovido pelas lágrimas da menina, celebrou a primeira missa de sufrágio no dia seguinte, e a menina, que estava presente com a mãe, disse ter visto o pai ajoelhado, rodeado por chamas assustadoras, no degrau do altar principal durante a Consagração.

O Padre Geral, para verificar a veracidade da história, pediu à menina, com certa hesitação, que aproximasse um lenço das chamas que envolviam o pai. A pedido dele, a menina colocou o lenço no fogo, que só ela podia ver. Imediatamente, todos os monges viram o lenço pegar fogo.

Durante a segunda missa, a menina disse ter visto o pai vestido com uma túnica de cores vivas, ao lado do diácono. Na terceira e última missa, o pai apareceu à filha vestido com uma túnica branca como a neve. Assim que a missa terminou, a menina exclamou: "Ali está meu pai, partindo e subindo para o Céu!" Em seguida, a menina agradeceu à comunidade de monges em nome de seu pai, como ele havia lhe pedido. O Padre Geral da Ordem Beneditina na Espanha, o Bispo de Astorga e numerosos cidadãos da cidade estavam presentes.

23 de fev. de 2026

Os Milagres Eucarísticos de Florença, Itália

Os relicários de dois milagres eucarísticos ocorridos em 1230 e 1595 são guardados na Igreja de Santo Ambrósio, em Florença. Em 1230, um padre distraído deixou algumas gotas do Preciosíssimo Sangue no cálice após a missa. No dia seguinte, ao retornar para celebrar a missa na mesma igreja, encontrou no cálice gotas de Sangue vivo coaguladas e transformadas em carne. O Sangue foi imediatamente colocado em uma galheteira de cristal. O outro milagre eucarístico ocorreu na Sexta-feira Santa de 1595, quando várias hóstias consagradas saíram milagrosamente ilesas de um incêndio na igreja.

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Afresco na Igreja de Santo Ambrósio mostrando o momento em que
padre Ugoccione mostra para os presentes o milagre recém ocorrido.


O primeiro milagre ocorreu em 30 de dezembro de 1230. Um padre chamado Uguccione, após terminar de celebrar a missa, não percebeu que algumas gotas de vinho consagrado ainda estavam no cálice. O historiador Giovanni Villani oferece uma descrição precisa do milagre: "Um dia depois, ao pegar o cálice, encontrou Sangue vivo coagulado... e isso foi mostrado a todas as freiras e moradores locais presentes, ao bispo e a todo o clero. Em seguida, o Preciosíssimo Sangue foi mostrado a todos os florentinos, que se reuniram com grande devoção para contemplá-lo. Retiraram o Preciosíssimo Sangue do cálice e o colocaram em uma galheteira de cristal, que foi novamente mostrada ao povo com grande reverência." O bispo Ardingo de Pavia ordenou que o relicário lhe fosse trazido. Ele guardou o Preciosíssimo Sangue por várias semanas antes de devolvê-lo às irmãs no mosteiro para que o guardassem na Igreja de Santo Ambrósio. O Papa Bonifácio IX, em 1399, concedeu a mesma indulgência aos fiéis que visitassem a Igreja de Santo Ambrósio e contribuíssem para adornar o relicário do milagre.


O 750º aniversário do milagre foi celebrado em 1980. A relíquia do Sangue Coagulado (várias gotas de Sangue com cerca de um centímetro e meio de lado) é conservada em um relicário dentro de um tabernáculo de mármore branco construído por Mimo da Fiesole.

Relicário onde as hóstias e gotas de Sangue estão guardadas.

Na Sexta-feira Santa de 1595, uma vela acesa no altar de uma capela lateral chamada "O Sepulcro" caiu no chão e provocou um incêndio. As pessoas correram imediatamente para apagar o fogo e conseguiram salvar o Santíssimo Sacramento e o cálice. Na grande comoção, seis Hóstias consagradas caíram sobre o tapete em chamas, mas miraculosamente permaneceram intactas. 

O Arcebispo Marzio Medici de Florença examinou as Hóstias, econstatou estarem incorruptas. Ele mandou colocar as Sagradas Espécies em um precioso relicário. Todos os anos, em maio, durante as Quarenta Horas de devoção, as duas relíquias são expostas juntas em um relicário que também contém uma Hóstia consagrada para adoração. 

-- autoria própria

22 de fev. de 2026

O Milagre Eucarístico de Fiecht, Austria

Uma pintura mostrando o milagre eucarístico em Fiecht


A pequena vila de St. Georgenberg-Fiecht, no Vale do Inn, é muito conhecida, por causa de um milagre eucarístico que ali ocorreu em 1310. Durante a missa, um sacerdote foi tomado por dúvidas quanto à presença real de Jesus nos elementos consagrados. Logo após a consagração, o vinho transformou-se em sangue e começou a ferver e transbordar do cálice. Em 1480, após 170 anos, o Preciosíssimo Sangue ainda estava "fresco como se jorrasse de uma ferida", escreveu o cronista da época.

O Preciosíssimo Sangue é preservado intacto até hoje em um relicário no Mosteiro de St. Georgenberg.

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Perto da lateral da igreja do mosteiro, há uma placa com a seguinte inscrição: "No ano da graça de 1310, sob o abade Ruperto, um sacerdote celebrava a Santa Missa nesta igreja dedicada ao santo mártir Jorge e ao santo apóstolo Tiago. Após consagrar o vinho, foi tomado por dúvidas sobre se o Sangue de Cristo estava realmente presente sob as espécies de vinho. Subitamente, o vinho transformou-se em sangue vermelho que começou a ferver no cálice e a transbordar. O abade e seus monges, que por acaso estavam no coro, e os numerosos peregrinos presentes na celebração aproximaram-se do altar e perceberam o que havia acontecido. O sacerdote, aterrorizado, não conseguiu beber todo o Preciosíssimo Sangue, então o abade colocou o restante em um recipiente, junto com o pano usado para enxugar o cálice, no tabernáculo do altar principal. Assim que a notícia deste evento milagroso começou a se espalhar, cada vez mais peregrinos vieram adorar o Preciosíssimo Sangue. Tão grande era Ele, Preciosíssimo!" 

Em 1472, o bispo Georg von Brixen enviou o abade de Wilten, Johannes Lösch, e os pastores Sigmund Thaur e Kaspar de Absam para estudar melhor o fenômeno. Como resultado dessa investigação, a adoração do Preciosíssimo Sangue foi incentivada e o milagre foi declarado autêntico.

Uma segunda placa documental relata como a Relíquia do Preciosíssimo Sangue ajudou a preservar a fé católica durante o cisma protestante: "Em 1593, quando os ensinamentos de Lutero se espalhavam por todo o Tirol, os monges de São Georgenberg foram incumbidos de pregar a fé em todos os lugares." O abade Michael Geisser pregava com grande sucesso diante de uma grande multidão na igreja paroquial de Schwaz e não hesitou em recordar o Santo Milagre do Sangue como prova da Presença Real de Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento do Altar. Ele argumentou de forma tão convincente que seus adversários foram obrigados a deixar o local. Esta vitória total sobre o falso ensinamento foi considerada pelos fiéis como uma graça especial que o Senhor concede aos seus fiéis, os adoradores eram do Preciosíssimo Sangue."



O monastério de Feicht

Interior da igreja de Feicht


-- autoria própria



18 de mai. de 2025

Como se preparar para Pentecostes?


O próximo Pentecostes é uma oportunidade única para um renovado derramamento do Espírito sobre nós e sobre toda a Igreja. O objetivo desta e das duas reflexões subsequentes que me foram solicitadas pela comissão coordenadora é justamente o de apoiar e estimular com motivações bíblicas e teológicas o empenho na oração com que muitos irmãos e irmãs desejam contribuir para o sucesso espiritual do evento.

Como os apóstolos se prepararam para a vinda do Espírito Santo? Rezando! “Todos estes perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (Atos 1:14). A oração dos apóstolos reunidos no Cenáculo com Maria é a primeira grande epiclese, é a inauguração da dimensão epiclética da Igreja, daquele "Vinde, Espírito Santo" que continuará a ressoar na Igreja por todos os séculos e que a liturgia precederá todas as suas ações mais importantes.

Enquanto a Igreja orava, “de repente veio do céu um som como de um vento impetuoso… E todos ficaram cheios do Espírito Santo” (Atos 2:2-4). Repete-se o que aconteceu no batismo de Cristo: “Depois que Jesus também foi batizado, e estava orando, o céu se abriu e o Espírito Santo desceu sobre ele” (Lc 3,21-22). Parece que para São Lucas foi a oração de Jesus que rasgou os céus e fez o Espírito descer sobre ele. A mesma coisa aconteceu no Pentecostes.

É impressionante como, nos Atos dos Apóstolos, a vinda do Espírito Santo é constantemente ligada à oração. O papel determinante do batismo não é ignorado (cf. At 2,38), mas ainda mais ênfase é colocada no da oração. Saulo “estava orando” quando o Senhor lhe enviou Ananias para que recuperasse a vista e fosse cheio do Espírito Santo (cf. At 9,9.11). Quando os apóstolos ouviram que Samaria tinha recebido a Palavra, enviaram Pedro e João; eles “desceram e oraram para receber o Espírito Santo” (Atos 8:15).

Quando, na mesma ocasião, Simão, o Mago, tentou obter o Espírito Santo mediante pagamento, os apóstolos reagiram com indignação (cf. At 8,18ss). O Espírito Santo não pode ser comprado, só pode ser implorado através da oração. O próprio Jesus tinha, de fato, ligado o dom do Espírito Santo à oração, dizendo: «Se vós, pois, sendo maus, sabeis dar boas dádivas aos vossos filhos, quanto mais o vosso Pai celeste dará o Espírito Santo àqueles que lho pedirem!» (Lucas 11:13). Ele a ligou não só à nossa oração, mas também e sobretudo à sua, dizendo: «Eu rogarei ao Pai e ele vos dará outro Consolador» (Jo 14, 16). Entre a oração e o dom do Espírito há a mesma circularidade e interpenetração que há entre a graça e a liberdade. Precisamos receber o Espírito Santo para orar, e precisamos orar para receber o Espírito Santo. No início há o dom da graça, mas depois devemos rezar para que esse dom seja conservado e aumente.

Mas tudo isso não deve permanecer como um ensinamento abstrato e genérico. Tem que me dizer algo individualmente. Você quer receber o Espírito Santo? Você se sente fraco e deseja ser revestido de poder do alto? Você está se sentindo aquecido e quer se aquecer? É árido e quer ser irrigado? Duro e quer ser dobrado? Insatisfeito com sua vida passada e quer se renovar? Reze, reze, reze! Que o clamor baixo nunca morra dos teus lábios: Veni Sancte Spiritus, vem Espírito Santo! Se uma pessoa ou um grupo de pessoas, com fé, entra em oração e retiro, determinados a não se levantar até que sejam revestidos de poder do alto e batizados no Espírito, essa pessoa ou grupo não se levantará sem ter recebido o que pediu e muito mais. Foi o que aconteceu naquele primeiro retiro em Duquesne, onde a Renovação Carismática Católica começou.

Assim como a oração de Maria e dos apóstolos, a nossa também deve ser uma oração "concorde e perseverante". Concorde ou unânime significa literalmente feito com um só coração (con-corde) e com uma só “alma”. Jesus disse: “Em verdade vos digo que, se dois de vós concordarem na terra sobre qualquer coisa que pedirem, isso lhes será feito por meu Pai que está nos céus” (Mt 18,19).

A outra característica da oração de Maria e dos apóstolos é que era uma oração “perseverante”. O termo grego original que expressa essa qualidade da oração cristã indica uma ação tenaz, insistente, estar ocupado com assiduidade e constância em algo. É traduzido como perseverante ou assíduo na oração. Também poderia ser traduzido como "apegar-se tenazmente" à oração.

Esta palavra é importante porque é a que ocorre com mais frequência em todo o Novo Testamento.


-- Padre Raniero Cantalamessa, pregador da casa papal


10 de mai. de 2025

O significado da palavra Conversão


No Evangelho, a palavra conversão aparece em dois contextos diferentes e é dirigida a dois tipos diferentes de ouvintes. O primeiro é dirigido a todos, o segundo àqueles que já aceitaram o seu convite e o acompanham há muito tempo. Referimo-nos ao primeiro apenas para compreender melhor o segundo, que é o que mais nos interessa, neste período de transição na vida da Renovação Carismática Católica. A pregação de Jesus começa com as palavras programáticas: “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo. Arrependam-se e creiam na Boa Nova” (Marcos 1:15).

Antes de Jesus, conversão sempre significou “retornar” (o termo hebraico, shub, significa mudar de rumo, refazer os passos). Indicava o ato de alguém que, em determinado momento da vida, percebe que está “fora do caminho”. Então ele para, reconsidera, decide voltar a observar a lei e retornar à aliança com Deus. Ele faz uma “mudança de direção” genuína e verdadeira. A conversão, neste caso, tem um significado fundamentalmente moral e sugere a ideia de algo doloroso de se realizar: mudança de hábitos.

Este é o significado usual de conversão na boca dos profetas, até e incluindo João Batista. Mas nos lábios de Jesus esse significado muda. Não porque ele goste de mudar o significado das palavras, mas porque com sua chegada as coisas mudaram. “O tempo está cumprido, e o Reino de Deus está próximo!” Arrependimento não significa mais retornar à antiga aliança e à observância da lei, mas sim prosseguir e entrar no reino, alcançando a salvação que veio gratuitamente aos homens, pela livre e soberana iniciativa de Deus.

Conversão e salvação trocaram de lugar. Não primeiro a conversão e depois, como consequência disso, a salvação, mas, ao contrário: primeiro a salvação, depois, como uma exigência dela, a conversão. Não: convertam-se e o Reino virá entre vocês, o Messias virá, como diziam os últimos profetas, mas: convertam-se porque o Reino chegou, ele está entre vocês. Converter-se é tomar a decisão salvadora, a “decisão agora”, como a descrevem as parábolas do reino.

“Arrependei-vos e crede” não significa duas coisas diferentes e sucessivas, mas a mesma ação fundamental: arrependei-vos, isto é, crede! Converta-se crendo! Tudo isso requer uma verdadeira conversão, uma mudança profunda na maneira como entendemos nosso relacionamento com Deus. É preciso passar da ideia de um Deus que exige, que comanda, que ameaça, para a ideia de um Deus que estende as mãos cheias para nos dar tudo. É a conversão da lei à graça que São Paulo tanto apreciava.

Ouçamos agora o segundo contexto em que o Evangelho fala novamente de conversão:

“Naquele tempo, os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram-lhe: “Quem é, pois, o maior no Reino dos céus?” Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles e disse: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus” (Mt 18,1-4).

Desta vez, converter significa voltar para quando você era criança! O mesmo verbo usado, strefo, indica inverter a direção da viagem. Esta é a conversão de alguém que já entrou no Reino, creu no Evangelho e serviu a Cristo por muito tempo. É a nossa conversão, a de nós que estamos na Renovação Carismática há anos, talvez desde o início.

O que aconteceu com os apóstolos? O que implica o argumento sobre quem é o maior? Que a maior preocupação não é mais o reino, mas a posição de cada um nele, o próprio eu. Cada um deles tinha algum direito de aspirar a ser o maior: Pedro havia recebido a promessa da primazia, Judas a bolsa de dinheiro, Mateus podia dizer que havia renunciado a mais que os outros, André que havia sido o primeiro a segui-lo, e João que havia estado com ele no Tabor... Os frutos dessa situação são evidentes: rivalidade, suspeitas, confrontos, frustração.

Para os apóstolos, tornar-se crianças significava voltar a ser como eram no momento da chamada à beira do lago ou à coletoria de impostos: sem pretensões, sem direitos, sem conflitos entre si, sem inveja, sem rivalidade. Rico apenas de uma promessa (“Eu vos farei pescadores de homens”) e de uma presença, a de Jesus. Volte ao tempo em que eles ainda eram parceiros de aventura, não competidores pelo primeiro lugar. Para nós também, tornar-se crianças significa retornar ao momento em que tivemos pela primeira vez uma experiência pessoal do Espírito Santo e descobrimos o que significa viver no senhorio de Cristo. Quando dissemos: “Só Jesus basta!” e nós acreditamos.

Fico impressionado com o exemplo do apóstolo Paulo descrito em Filipenses 3. Tendo descoberto Jesus como seu Senhor, ele considera todo o seu passado glorioso como perda, como lixo, a fim de ganhar a Cristo e se vestir com a justiça que vem pela fé nele. Mas um pouco mais adiante, ele faz esta declaração: “Irmãos, não penso que já o tenha alcançado. Uma coisa faço: esqueço-me das coisas que ficaram para trás e avanço para as que estão diante de mim” (Fp 3:13). Que passado? Não mais a do fariseu, mas a do apóstolo. Ele sentiu o perigo de se ver com um novo ganho, uma nova justiça toda sua, derivada do que havia feito a serviço de Cristo. Ele anula tudo com esta decisão: “Eu esqueço o passado e salto para o futuro”.

Como não ver em tudo isso uma lição preciosa para nós na Renovação Carismática Católica? Um dos muitos slogans que circularam nos primeiros anos da Renovação – uma espécie de grito de guerra – era: “Devolvam o poder a Deus!” Talvez ele tenha se inspirado no versículo do Salmo 68:35, “Reconhecei o poder de Deus”, que na Vulgata foi traduzido como “Restaurai (reddite) o poder de Deus”. Durante muito tempo considerei essas palavras como a melhor maneira de descrever a novidade da Renovação Carismática. A diferença é que durante um tempo pensei que o clamor era dirigido ao resto da Igreja e que éramos nós os responsáveis ​​por fazê-lo ressoar; Agora, creio que isso é dirigido a nós que, talvez sem perceber, nos apropriamos parcialmente do poder que pertence a Deus.

Em vista de um novo começo do fluxo de graça da Renovação Carismática, é necessário esvaziar os bolsos, começar do zero, repetir com profunda convicção as palavras sugeridas pelo próprio Jesus: “Somos servos inúteis; fizemos o que fomos chamados a fazer” (Lc 17,10). Façamos nosso o propósito do Apóstolo: "Esqueço-me das coisas que ficam para trás e avanço para as que estão à frente". Imitemos os vinte e quatro anciãos do Apocalipse, que "lançaram as suas coroas diante do trono, dizendo: Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder" (Ap 4, 10-11).

A palavra de Deus a Isaías continua relevante: "Pois eis que eu o renovo; ele já está a caminho; você não o reconhece?" (Is 43, 19). Bem-aventurados seremos se permitirmos que Deus renove o que Ele tem em mente neste momento para nós e para a Igreja.

Minha sugestão para a corrente de oração: repita várias vezes ao dia uma das invocações dirigidas ao Espírito Santo na sequência de Pentecostes, aquela que cada um sentir que melhor responde à sua necessidade:

Regar a terra na seca,

cura o coração doente,

lava manchas, infunde

calor da vida no gelo,

domar o espírito indomável,

guia para aquele que entorta o caminho

-- Padre Raniero Cantalamessa O.F.M Cap.

-- A imagem é o quadra A Conversão de São Paulo, de Caravaggio



9 de mai. de 2025

Venha e veja!!!.... Venha conhecer a Cristo!

Este texto foi publicado no boletim da Diocese de Chiclayo, no inicio de 2021, quando o agora Papa Leao XIV ainda era o bispo da diocese. 


Queridos irmãos,

A nossa missão de anunciar Cristo a todos os povos reúne-nos novamente para iniciarmos juntos um novo ano pastoral. É o Senhor que mais uma vez sai ao nosso encontro, que fala ao nosso coração e nos convida a partilhar a sua mensagem de paz e de comunhão. O Salmo 26 contém algumas palavras que mostram o mistério da proximidade de Deus com cada um de nós: ouço no meu coração: “Buscai a minha face”. Buscarei a tua face, Senhor, não escondas de mim a tua face. Quão grande é o amor de Deus que sempre toma a iniciativa, e como é – ao mesmo tempo – delicada e suave a sua voz, que requer silêncio e meditação para ser ouvida, porque essa voz só se ouve no fundo do próprio coração.

Ter que ouvir Deus e anunciá-lo pode parecer até certo ponto inoportuno no meio de uma crise tão grande como a causada pela pandemia, porém, se quisermos dar uma resposta cristã, humana e autêntica à crise que vivemos e que nos desafia enormemente, não podemos fazer outra coisa senão entrar em comunhão com Deus e dizer-lhe: mostra-nos o teu rosto, não te escondas, mostra-nos o que devemos fazer! Uma pandemia, vista a partir da fé, pode ser também uma ocasião para procurar Deus, para escutá-lo, para anunciá-lo.

Enfrentar uma situação tão difícil como a que enfrentamos há quase um ano nos lembra que nossa vida é uma luta constante e que precisamos de forças suficientes para não desistir, para perseverar, para sairmos vitoriosos. No Novo Testamento podemos ouvir da boca de São João Batista as seguintes palavras apontando para o Senhor: Este é o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo! (Jo 1,29). E também da mesma boca de nosso Senhor que nos diz: No mundo tereis aflições; mas confie, eu venci o mundo (Jo 16,33).

Realizemos a Palavra de Deus, iniciemos com entusiasmo um novo Ano Pastoral de encontro com Jesus e anúncio da sua mensagem; Redescobrimos juntos que o Evangelho é sempre novo, sempre atual. Se Jesus Cristo derrotou o pecado, a morte e todo o mal que pode ser encontrado no mundo, como não anunciá-lo? Como poderíamos esconder – nesta hora – a única luz que ilumina as trevas? Como não partilhar o sal do mundo que tudo preserva e tudo melhora? Hoje, mais do que nunca, é tempo de partir, de redescobrir a beleza da fé, a vitalidade da Palavra de Deus, a força da presença do Senhor entre nós.

O nosso Papa Francisco ensinou-nos na sua última encíclica que o segredo está em trabalhar juntos, em superar as nossas próprias divisões e enfrentar todas as provações e dificuldades como irmãos, não como estranhos: “Entre todos: aqui está um lindo segredo para sonhar e fazer da nossa vida uma bela aventura. (nº 8).

Que o Senhor fortaleça e renove a nossa vocação cristã e abençoe a vocação particular que cada um desempenha na Igreja de Chiclayo. Caminhemos juntos! Evangelizemos juntos! Vamos todos ao encontro do Senhor!

+Robert F. Prevost. O.S.A.

Bispo de Chiclayo

23 de abr. de 2025

A Última Mensagem do Papa Francisco


Esta é a mensagem Urbi et Orbi, a cidade de Roma e para todo mundo, escrita pelo Papa Francisco para o Domingo de Pásoca (20 de Abril de 2025). No dia seguinte ele faleceu, logo estes são os seus últimos ensinamentos: 


Cristo ressuscitou, aleluia!

Queridos irmãos e irmãs, Feliz Páscoa!

Hoje, finalmente, o canto do Aleluia volta a ouvir-se na Igreja, passando de boca em boca, de coração em coração, e isto faz com que o povo de Deus no mundo inteiro derrame lágrimas de alegria.

Do túmulo vazio em Jerusalém, ouvimos uma boa notícia inesperada: Jesus, que foi crucificado, "não está aqui, ressuscitou" (Lucas 24,5). Jesus não está no túmulo, ele está vivo!

O amor triunfou sobre o ódio, a luz sobre as trevas e a verdade sobre a falsidade. O perdão triunfou sobre a vingança. O mal não desapareceu da história; permanecerá até o fim, mas não terá mais vantagem; já não tem poder sobre aqueles que aceitam a graça deste dia.

Irmãs e irmãos, especialmente aqueles que experimentam dor e tristeza, o seu grito silencioso foi ouvido e as suas lágrimas foram contadas; nenhum deles foi perdido! Na paixão e morte de Jesus, Deus tomou sobre si todo o mal deste mundo e na sua infinita misericórdia o derrotou. Ele arrancou o orgulho diabólico que envenena o coração humano e espalha violência e corrupção por todos os lados. O Cordeiro de Deus é vitorioso! É por isso que hoje podemos gritar com alegria: “Cristo, nossa esperança, ressuscitou!” (Sequência de Páscoa).

A ressurreição de Jesus é de fato a base da nossa esperança. Pois à luz deste acontecimento, a esperança já não é uma ilusão. Graças a Cristo — crucificado e ressuscitado — a esperança não decepciona! Spes non confundit! (Romanos 5:5). Essa esperança não é uma evasão, mas um desafio; não ilude, mas nos capacita.

Todos aqueles que colocam sua esperança em Deus colocam suas mãos fracas em sua mão forte e poderosa; deixaram-se elevar e partiram em viagem. Juntamente com Jesus Ressuscitado, tornam-se peregrinos de esperança, testemunhas da vitória do amor e da força desarmada da Vida.

Cristo ressuscitou! Estas palavras captam todo o sentido da nossa existência, pois não fomos feitos para a morte, mas para a vida. Páscoa é a celebração da vida! Deus nos criou para a vida e quer que a família humana ressuscite! Aos seus olhos, toda vida é preciosa! A vida de uma criança no ventre da mãe, bem como a vida dos idosos e dos doentes, que em cada vez mais países são vistos como pessoas a serem descartadas.

Que grande sede de morte, de matar, testemunhamos todos os dias nos numerosos conflitos que assolam as diversas partes do nosso mundo! Quanta violência vemos, muitas vezes até dentro das famílias, dirigida contra mulheres e crianças! Quanto desprezo às vezes é despertado em relação aos vulneráveis, aos marginalizados e aos migrantes!

Neste dia, gostaria que todos nós renovássemos a esperança e reavivássemos a confiança nos outros, inclusive naqueles que são diferentes de nós, ou que vêm de terras distantes, trazendo costumes, modos de vida e ideias desconhecidos! Pois todos nós somos filhos de Deus!

Gostaria que renovássemos a nossa esperança de que a paz é possível! Do Santo Sepulcro, Igreja da Ressurreição, onde este ano a Páscoa é celebrada no mesmo dia por católicos e ortodoxos, a luz da paz irradie por toda a Terra Santa e por todo o mundo. Exprimo a minha proximidade aos sofrimentos dos cristãos na Palestina e em Israel, e a todo o povo israelita e ao povo palestino. O crescente clima de anti-semitismo em todo o mundo é preocupante. Mas, ao mesmo tempo, penso no povo de Gaza, e na sua comunidade cristã em particular, onde o terrível conflito continua a causar morte e destruição e a criar uma situação humanitária dramática e deplorável. Apelo às partes em conflito: convoquem um cessar-fogo, libertem os reféns e venham em socorro de um povo faminto que aspira a um futuro de paz!

Rezemos pelas comunidades cristãs no Líbano e na Síria, que vivem atualmente uma delicada transição na sua história. Aspiram à estabilidade e à participação na vida das suas respectivas nações. Exorto toda a Igreja a manter os cristãos do amado Médio Oriente nos seus pensamentos e orações.

Penso também em particular no povo do Iémen, que vive uma das crises humanitárias mais graves e prolongadas do mundo devido à guerra, e convido todos a encontrar soluções através de um diálogo construtivo.

Que Cristo ressuscitado conceda à Ucrânia, devastada pela guerra, o dom pascal da paz, e encoraje todas as partes envolvidas a prosseguirem os esforços tendentes a alcançar uma paz justa e duradoura.

Neste dia festivo, recordemos a região do Cáucaso e rezemos para que um acordo de paz final entre a Arménia e o Azerbaijão seja em breve assinado e implementado, e conduza à tão esperada reconciliação na região.

Que a luz da Páscoa inspire esforços para promover a harmonia nos Balcãs e apoiar os líderes políticos nos seus esforços para aliviar tensões e crises e, juntamente com os países vizinhos na região, para rejeitar ações perigosas e desestabilizadoras.

Que Cristo Ressuscitado, nossa esperança, conceda a paz e a consolação aos povos africanos vítimas da violência e dos conflitos, especialmente na República Democrática do Congo, no Sudão e no Sudão do Sul. Apoie quantos sofrem as tensões no Sahel, na região da Somália e dos Grandes Lagos Africanos, assim como aqueles cristãos que em muitos lugares não conseguem professar livremente a sua fé.

Não pode haver paz sem liberdade de religião, liberdade de pensamento, liberdade de expressão e respeito pelas opiniões dos outros.

Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A exigência de que cada povo providencie a sua própria defesa não deve transformar-se numa corrida ao rearmamento. A luz da Páscoa impele-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e estão repletas de graves consequências políticas e econômicas. Impulsiona-nos a cuidar uns dos outros, a aumentar a nossa solidariedade mútua e a trabalhar pelo desenvolvimento integral de cada pessoa humana.

Durante este tempo, não deixemos de ajudar o povo de Mianmar, atormentado por longos anos de conflito armado, que, com coragem e paciência, enfrenta as consequências do devastador terramoto em Sagaing, que causou a morte de milhares de pessoas e grande sofrimento a muitos sobreviventes, incluindo órfãos e idosos. Rezamos pelas vítimas e pelos seus entes queridos e agradecemos de coração a todos os generosos voluntários que realizam as operações de socorro. O anúncio de um cessar-fogo  no país é um sinal de esperança para todo o Mianmar.

Apelo a todos aqueles que ocupam posições de responsabilidade política no nosso mundo, a não ceder à lógica do medo, que só leva ao isolamento dos outros, mas antes a utilizar os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, para combater a fome e para encorajar iniciativas que promovam o desenvolvimento. Estas são as armas da paz: armas que constroem o futuro, em vez de semear sementes de morte!

Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser a marca das nossas ações diárias. Perante a crueldade dos conflitos que envolvem civis indefesos e atacam escolas, hospitais e trabalhadores humanitários, não podemos permitir-nos esquecer que não são os alvos que são atingidos, mas sim pessoas, cada uma dotada de uma alma e de uma dignidade humana.

Neste ano jubilar, a Páscoa seja também uma ocasião propícia para a libertação dos prisioneiros de guerra e dos presos políticos!

Queridos irmãos e irmãs,

No Mistério Pascal do Senhor, a morte e a vida lutaram numa luta estupenda, mas o Senhor agora vive para sempre (cf. Sequência Pascal). Ele nos enche da certeza de que também nós somos chamados a participar da vida que não tem fim, quando não mais se ouvirão o choque das armas e o estrondo da morte. Confiemos-nos a ele, pois só ele pode fazer novas todas as coisas (Apocalipse 21:5)!

Feliz Páscoa para todos!

20 de abr. de 2025

O Batismo, sinal da paixão de Cristo


 

Fostes conduzidos à santa fonte do divino Batismo, como Cristo, descido da cruz, foi colocado diante do sepulcro. 

        A cada um de vós foi perguntado se acreditava no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Vós professastes a fé da salvação e fostes por três vezes mergulhados na água e por três vezes dela saístes; deste modo, significastes, em imagem e símbolo, os três dias da sepultura de Cristo. 

        Assim como nosso Senhor passou três dias e três noites no seio da terra, também vós, na primeira emersão, imitastes o primeiro dia em que Cristo esteve debaixo da terra; e na imersão, a primeira noite. De fato, como aquele que vive nas trevas não enxerga nada, pelo contrário, aquele que anda de dia está envolvido em plena luz. Assim também vós, na imersão, como que mergulhados na noite, nada vistes; mas na emersão, fostes como que restituídos ao dia. Num mesmo instante, morrestes e nascestes, e aquela água de salvação tornou-se para vós, ao mesmo tempo, sepulcro e mãe. 

        Apesar de situar-se em outro contexto, a vós se aplica perfeitamente o que disse Salomão: Há um tempo para nascer e um tempo para morrer (Ecl 3,2). Convosco sucedeu o contrário: houve um tempo para morrer e um tempo para nascer. Num mesmo instante realizaram-se ambas as coisas e, com a vossa morte, coincidiu o vosso nascimento.  

        Ó fato novo e inaudito! Na realidade, não morremos nem fomos sepultados nem crucificados nem ainda ressuscitamos. No entanto, a imitação desses atos foi expressa através de uma imagem e daí brotou realmente a nossa salvação. 

        Cristo foi verdadeiramente crucificado, verdadeiramente sepultado e ressuscitou verdadeiramente. Tudo isto foi para nós um dom da graça, a fim de que, participando da sua paixão através do mistério sacramental, obtenhamos na realidade a salvação. 

        Ó maravilha de amor pelos homens! Em seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a salvação. 

        Ninguém, portanto, julgue que o batismo consista apenas na remissão dos pecados e na graça da adoção filial. Assim era o batismo de João que concedia tão-somente o perdão dos pecados. Pelo contrário, sabemos perfeitamente que o nosso batismo não só apaga os pecados e confere o dom do Espírito Santo, mas é também o exemplar e a expressão dos sofrimentos de Cristo. É por isso mesmo que Paulo exclama: Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele (Rm 6,3-4).


-- Das Catequeses de Jerusalém (século IV)

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