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6 de jun. de 2022

Maria, Mãe da Igreja

 

Considerando as estreitas relações de Maria com a Igreja, para a glória da Santa Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima Mãe da Igreja, isto é, de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis como dos Pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que, com este título suavíssimo, a Mãe de Deus seja doravante ainda mais honrada e invocada por todo o povo cristão.

Trata-se de um título que não é novo para a piedade dos cristãos; pois é justamente com este nome de Mãe, de preferência a qualquer outro, que os fiéis e a Igreja toda costumam dirigir-se a Maria. Na verdade, ele pertence à genuína substância da devoção a Maria, achando sua justificação na própria dignidade da Mãe do Verbo Encarnado.

Efetivamente, assim como a Maternidade divina é o fundamento da especial relação de Maria com Cristo e da sua presença na economia da salvação operada por Cristo Jesus, assim também essa Maternidade constitui o fundamento principal das relações de Maria com a Igreja, sendo ela a Mãe daquele que, desde o primeiro instante da sua Encarnação, no seu seio virginal, uniu a si, como Cabeça, o seu Corpo Místico, que é a Igreja. Maria, pois, como Mãe de Cristo, também é Mãe dos fiéis e de todos os Pastores, isto é, da Igreja.

Portanto, é com ânimo cheio de confiança e de amor filial que elevamos o olhar para ela, não obstante a nossa indignidade e fraqueza. Ela, que em Jesus nos deu a fonte da graça, não deixará de socorrer a Igreja com seu auxílio materno, sobretudo neste tempo em que a Esposa de Cristo se empenha, com novo alento, na sua missão salvadora.

A nossa confiança é ainda mais reavivada e corroborada quando consideramos os laços estreitíssimos que prendem esta nossa Mãe celeste ao gênero humano. Embora na riqueza das admiráveis prerrogativas com que Deus a adornou para fazê-la digna Mãe do Verbo Encarnado, ela está, todavia, pertíssimo de nós. Filha de Adão, como nós, e por isto nossa irmã por laços de natureza, ela é, entretanto, a criatura preservada do pecado original em vista dos méritos de Cristo, e que, aos privilégios obtidos junta a virtude pessoal de uma fé total e exemplar, merecendo o elogio evangélico de: Bem-aventurada és tu, porque acreditaste (Lc 1,45).

Na sua vida terrena, ela realizou a perfeita figura do discípulo de Cristo, espelho de todas as virtudes, e encarnou as bem-aventuranças evangélicas proclamadas por Cristo Jesus. Por isso, toda a Igreja, na sua incomparável variedade de vida e de obras, encontra nela a forma mais autêntica de perfeita imitação de Cristo.

--  Do Discurso de São Paulo VI, papa, no encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II (21 de novembro de 1964)

14 de mar. de 2021

Maria no Mistério Pascal - Homília de Quaresma

Antes de concluir esta catequese sobre Maria no mistério pascal, próxima à cruz,  gostaria de dedicar um pouco de tempo para Maria, modelo de esperança. Sempre há um tempo na vida em que precisamos da fé e esperança de Maria. Quando parece que Maria não escuta mais nosssas súplicas, quando parece que Ele não cumprirá suas promessas,quando nos faz experimentar derrota após derrota, quando parece que os poderes da escuridão são vitoriosos e tudo é amedontrador, como a escuridão que cobriu toda terra (Mt 27,45). Como diz um dos salmos, parece que Deus "não tem misericórdia para com o justo" (Salmo 76, 9). É nesta hora que devemos lembrar de Maria, sua fé e esperança, e clamar como outros fizeram: "Pai, eu não consigo entender teus desígnios, mas eu confio em vós!"

Talvez Deus esteja pedindo para que sacrifiquemos nosso Isaac, como Abraão, sacrificar aquela pessoa, um bem, um projeto, uma fundação, uma tarefa que gostamos, que Deus confiou a nós e para o qual temos dedicado nossas vidas. Esta é a ocasião que Deus está oferecendo para mostrar que confiamos nele, mais do que nos presentes, mais do que em nossas idéias.

Deus disse a Abraão, "Eu te fiz pai de muitas nações" (Gn 17,5) e após o teste de Isaac, diz, “Juro por mim mesmo, diz o Senhor: pois que fizeste isto, e não me recusaste teu filho, teu filho único, eu te abençoarei. Multiplicarei a tua posteridade como as estrelas do céu, e como a areia na praia do mar. Ela possuirá a porta dos teus inimigos, e todas as nações da terra desejarão ser bendita como ela, porque obedeceste à minha voz” (Gn 22,16-18). Ele disse o mesmo a Maria, e ainda mais: Eu te farei mãe de todas nações da terra, mãe da Igreja! Todas as gerações te chamarão abençoada e por ti serão abençoadas. 

Um dos líderes do Protestantismo, Calvino, enquanto comentaca o livro do Gênesis 12,3 ("todas as famílias da terra serão benditas em ti”), diz que "Abraão não é apenas um exemplo, mas é uma fonte de bençãos". Isto ajuda a esclarecer a afirmação de Santo Irineu para todos cristãos, que disse "Assim como Eva, pela sua desobediência, tornou-se causa de morte para todos homens, Maria, pela sua obediência, tornou-se motivo de salvação para si mesma e todos nós". Também Maria não é apenas um exemplo, mas uma fonte de bençãos, por que foi instrumento de Deus, pela Sua graça, não pelo seu mérito.

A Bíblia nos conta que Judite, após arriscar sua vida em favor do povo judaico, retornou a sua cidade e o povo correu para encontrá-la, o sumo sacerdote a abençoou dizendo:  “Minha filha, tu és bendita do Senhor, Deus Altíssimo, mais que todas as mulheres da terra. Bendito seja o Senhor, criador do céu e da terra, que te guiou para cortar a cabeça de nosso maior inimigo! Ele deu neste dia tanta glória ao teu nome, que nunca o teu louvor cessará de ser celebrado pelos homens, que se lembrarão eternamente do poder do Senhor. Ante os sofrimentos e a angústia de teu povo, não poupaste a tua vida, mas salvaste-nos da ruína, em presença de nosso Deus." (Judite 13, 23-25)

Recordemos a presença de Maria no Mistério Pascal, considerando que as palavras de São Paulo resumindo a missão de Cristo, também podem ser aplicadas a ela, pois são como um resumo da vida cristã: 

Maria, embora fosse a Mãe do Deus, não considerou isto como um privilégio para ser usado, mas se considerava a menor, chamando a si mesma, serva, e viveu como todas as mulheres do seu tempo. Ela humilhou-se a si mesma, obediente a Deus, até a morte de seu Filho, e morte de Cruz. 

Por isso Deus a exaltou e lhe deu um nome pelo qual, após a morte de Jesus, todos a chamarãom todos irão inclinar sua cabeça frente a ela, nos céus e na terra, e embaixo da terra, e toda língua confessará que Maria é a Mãe de Deus, para glória de Deus, seu Pai. Amém!

-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte III, 3 de Abril de 2020. 

 -- tradução própria

7 de mar. de 2021

Maria Santíssima Mãe da Igreja - homília de Quaresma


 A doutrina católica tradicional sobre Maria, Mãe dos Cristãos, foi renovada pela Igreja no Concílio Vaticano II, onde o papel de Maria foi incluído dentro da história da salvação e o mistério de Cristo. A Igreja explicou que predestinada pela Palavra a ser Mãe de Deus, a Virgem Maria era nesta terra a virgem mãe do Salvador e, acima de todos e de maneira singular, estava generosa e humildemente associada ao Senhor. Ela O concebeu, trouxe à vida e alimentou Cristo. Ela apresentou-O ao Pai no templo e permaneceu unido à Ele até morrer na Cruz. Desta maneira única, ela cooperou através da sua obediência, fé, esperança e caridade com a missão do Salvador de trazer à luz a alma dos pecadores. Neste sentido, ela é nossa mãe pela graça.

O Concílio explicou o papel maternal de Maria desta maneira:  A Virgem Santíssima, predestinada para Mãe de Deus desde toda a eternidade simultâneamente com a encarnação do Verbo, por disposição da divina Providência foi na terra a nobre Mãe do divino Redentor, a Sua mais generosa cooperadora e a escrava humilde do Senhor. Concebendo, gerando e alimentando a Cristo, apresentando-O ao Pai no templo, padecendo com Ele quando agonizava na cruz, cooperou de modo singular, com a sua fé, esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça (Lumen Gentium, 61). 

E também: Com efeito, todo o influxo salvador da Virgem Santíssima sobre os homens se deve ao beneplácito divino e não a qualquer necessidade; deriva da abundância dos méritos de Cristo, funda-se na Sua mediação e dela depende inteiramente, haurindo aí toda a sua eficácia; de modo nenhum impede a união imediata dos fiéis com Cristo, antes a favorece (Lumen Gentium, 60).

Além dos títulos de Mãe de Deus e Mãe dos Fiéis, o Concílio também utilizou termos como tipo e figura (exemplo) para explicar o papel de Maria: Pelo dom e missão da maternidade divina, que a une a seu Filho Redentor, e pelas suas singulares graças e funções, está também a Virgem intimamente ligada, à Igreja: a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja, na ordem da fé, da caridade e da perfeita união com Cristo (Lumen Gentium, 63).

A novidade destes ensinamentos sobre Maria, como sabemos, é a sua inclusão num documento da Igreja. Como é comum nestes casos, não foi sem aglum sofrimento e conflito que o Concílio renovou a Mariologia convencional dos últimos séculos. Maria não é mais tratada separadamente, como um papel de intermediária entre Cristo e a Igreja. Ela foi ligada à Igreja, como nos dias dos Santos Padres. Como Santo Agostinho disse Maria é o mais importante membro da Igreja, mas ainda assim, um membro da Igreja, não está acima dela, não está fora dela. Maria é santa, Maria é abençoada, mas a Igreja é mais importante que Maria. Por que? Por que Maria é parte da Igreja, um santo e exceptional membro, mais santo e abençoado que os demais, mas ainda é um membro da Igreja. Se ela é um membro do corpo, por consequência, conclui-se que o corpo é mais importante que seus membros.

Logo após o Concílio, o Papa Paulo VI aprofundou a idéia da maternidade de Maria para todos fiéis declarando-a explicita e solenemente com o título de Mãe da Igreja: Portanto, para glória da Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima Mãe da Igreja, isto é, de todo o Povo de Deus, tanto dos fiéis como dos pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que com este título suavíssimo seja a Virgem doravante honrada e invocada por todo o povo cristão (Paulo VI, 21 de Novembro de 1964).

-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte I, 3 de Abril de 2020. 

 -- tradução própria do texto em inglês.

27 de fev. de 2021

Eis aí o teu filho - homília de Quaresma

Quando Jesus viu sua mãe e o discípulo que amava ao pé da cruz, Ele disse "Mulher, eis aí teu filho! e então disse ao discípulo "Eis aí tua mãe!". E a partir daquele momento, o discípulo considerou-a sua mãe. (João 19, 26-27). Em outra catequese, falamos de Maria como Mãe de Deus ,hoje falarei sobre Maria, Mãe dos Cristãos, nossa mãe.

Devemos imediatamente ressaltar que não estamos lidando com dois títulos e duas verdades do mesmo nível. Mãe de Deus é um título solenemente atribuído a Maria e é baseado na maternidade real. Tem uma conexão essencial com a principal verdade da nossa fé, pois Jesus é ao mesmo tempo Deus e homem, na mesma pessoa, Mãe de Deus é um título proclamado por toda igreja. Mãe dos Cristãos ou Nossa Mãe indica a maternidade espiritual, não tão relacionado às principais verdades da nossa fé, não podemos dizer que utilizado por todos cristãos, em qualquer lugar e sempre, mas reflete a doutrina e devoção de algumas Igrejas, em especial da Igreja Católica.

 Calvário, de Josse Lieferinxe (c. 1500)

Santo Agostinho nos ajuda a entende as semelhanças e diferenças entre estas duas maternidades. Fisicamente, Maria é apenas Mãe de Jesus, enquanto, espiritualmente, por fazer a vontade de Deus, ela é nossa irmã e mãe. Ela não foi a mãe espiritual de Jesus, a cabeça da Igreja, nosso Salvador, mas ela certamente é a mãe espiritual de todos nós, membros do corpo de Cristo, por que sua caridade cooperou para o nascimento da igreja da qual todos nós somos memberos.

Nesta meditação, gostaria de trazer à luz toda riqueza e o dom de Cristo, que está contido neste título, não apenas para que utilizemos estes títulos para honrar Maria, mas para edificar nossa fé e imitarmos a Cristo.

Assim como a maternidade física, a espiritual ocorre em dois momentos diferentes: concepção e nascimento. Apenas um não é suficiente. Maria experimentou ambos, ela espiritualmente nos concebeu e nos trouxe a luz. Ela nos concebeu, isto é, nos recebeu, quando entendeu que seu filho não era como os outros meninos, compreensão esta iniciou na Anunciação do anjo e progrediu na medida que Jesus gradualmente avançava na sua missa. Ele era o Messias em torno do qual uma comunidade estava sendo formada. Este tempo da concepção de Maria ocorreu através de seu "sim", foi um tempo de alegria.

Ao pé da cruz, Maria teve seu tempo de sofrimento. Jesus, naquele momento, referiu-se a ela como "Mulher". Sabendo que o João Evangelista, além do discurso direto, utilizou muitos alusões, símbolos e referências, estas palavras fazem-nos pensar em outras passagens, como quando Jesus disse: Quando a mulher está para dar à luz, sofre porque veio a sua hora (Jo 16, 21) e, no livro do Apocalipse: uma mulher ... estava grávida, e já com as dores de parto, e gritava na ânsia de dar à luz (Ap 12, 1-2).

Mesmo que entendamos esta mulher como sendo a Igreja, a comunidade da nova aliança dando à luz ao novo homem e nova mulher, Maria estava pessoalmente envolvida com esta comunidade inicial de fiéis. Esta comparação entre Maria e a Mulher foi aceita pela Igreja desde o inicio. Santo Irineu, um dos discípulos de São Policarpo, e este de São João, ja falava de Maria como a nova Eva, a nova "mãe de todos viventes".

Examinemos agora o texto de São João para ver se há alguma referência nele para o que estamos dizendo. As palavras de Jesus para Maria "Mulher, eis teu filho" e para João, "Eis tua mãe", tem um significado direto e real. Jesus confiou João a Maria e Maria a João.

Mas este não é o significado completo da cena. A exegêse moderna, que tem feito enormes progressos na compreensão da linguagem e expressões do quarto Evangelho, está ainda mais convencida disto que os Santos Padres estavam. Se apenas lermos a passagem de maneira simples e direta, considerando apeans o que está escrito, parece algo fora do lugar, algo que não combina com o restante do texto. Para João, o momento da morte era o momento da glorificação de Jesus, o cumprimento final das Escrituras.

Então, dado este fato, é muito estranho que o texto contenha algo privado e pessoal, não um comentário universal e eclesial ligando esta mulher às mulheres de Genêsis 3,15 e Apocalipse 12. O significado eclesial é que o discípulo não era apenas João, mas representava todos os discípulos de Cristo, a sua Igreja. Cristo morrendo nos deixou ao cuidado de Maria como seus filhos, assim como Maria foi dada a nós como nossa mãe.

As vezes as palavras de Jesus descrevem algo presente e revelam aquilo que já era uma verdade; outras, criam e trazem a existência aquilo que elas expressam. As palavras de Jesus morrendo na cruz para Maria e João são do segundo tipo. Neste sentido, são semelhantes a quando ele disse, "Este é meu corpo", ali Jesus fez Maria mãe de João e João, filho de Maria. Ele não proclamou a nova maternidade de Maria, ele a instituiu. Não é uma palavra que tenha vindo de Maria, é uma Palavra de Deus, não se baseia nos méritos de Maria, mas na graça de Deus.

Aos pés da cruz, Maria se torna a filha de Sião, que após a perda do seu filho, recebe uma nova e numerosa família de Deus, mas uma família no Espírito, não na carne. Um salmo, que a liturgia aplica a Maria, diz: "Ajuntarei Raab e Babilônia aos que me honram; eis a Filisteia e Tiro com a Etiópia, lá todos nasceram. Será dito de Sião: “Um por um, todos esses homens nela nasceram; foi o próprio Altíssimo quem a fundou. O Senhor inscreverá então no registro dos povos: 'Aquele também nasceu em Sião'"  (Sl 87, 4-6). E, de fato, é verdade, todos nascemos em Sião! Isto deve ser dito de Maria, a nova Sião, este e aquele são nascidos dela. Eu, você, cada pessoa, até mesmo aqueles que ainda não sabem, esta escrito no registro de Deus: "Este homem nasceu em Sião"

Mas, não fomos "nascidos ... pela palavra de Deus, viva e eterna" (1Pd 1,23)? Não somos todos "nascidos de Deus" (Jo 1,13), renascidos pela "água e Espírito" (Jo 3,5)? Tudos isto é verdade, mas não deixa de ser verdade de que, em outro sentido, somos filhos de Maria, sua fé e sofrimento. Se São Paulo, um apóstolo de Cristo, pode dizer a seus seguidores, "fui eu que vos gerei em Cristo Jesus pelo Evangelho" (1Cor 4,15), não poderia Maria, com ainda mais razão, eu me tornei tua mãe em Cristo? Quem tem mais direito de dizer as palavras do apóstolo: "Filhinhos meus, por quem de novo sinto dores de parto, até que Cristo seja formado em vós" (Gal 4,19)? Ela deu a luz novamente ao pé da cruz, por que ela já havia dado a luz antes, na alegria, não no sofrimento, quando deu a luz à palavra viva e eterna, Cristo, do qual renascemos.

Assim como aplicamos a Maria, aos pés da cruz, a lamentação de Sião, que bebeu do cálice da ira divina, também, confiando no poder infinito da palavra de Deus, que vai muito além dos nossos esquemas exegéticos, também podemos aplicar a Maria o hino de Sião reconstruída após o exílio, que maravilhada, olha por todos seus filhos e exclama: "'Quem me gerou estes filhos?'. Não tinha filhos, era estéril: 'Quem os criou?'. Eis que eu estava desamparada e só: 'De onde vieram eles?'" (Is 49,21).


-- Padre Raniero Cantalamessa, quarta homília de Quaresma, parte I, 3 de Abril de 2020. 

-- tradução própria 

Nota: nos próximos publicarei as segunda e terceira parte da homília.

15 de out. de 2020

O Sorriso de Maria

Ontem [NE: 14 de Setembro, dia da Santa Cruz] celebramos a Cruz de Cristo, instrumento da nossa salvação, que nos revela em plenitude a misericórdia do nosso Deus. A Cruz é realmente o lugar onde se manifesta perfeitamente a compaixão de Deus pelo nosso mundo. Hoje, ao celebrarmos a memória de Nossa Senhora das Dores, contemplamos Maria que partilha a compaixão do Filho pelos pecadores. Como afirmava São Bernardo, a Mãe de Cristo entrou na Paixão do Filho através da sua compaixão (cf. Homilia do Domingo na Oitava da Assunção). Ao pé da Cruz cumpre-se a profecia de Simeão: o seu coração de Mãe é trespassado (cf. Lc 2, 35) pelo suplício infligido ao Inocente, nascido da sua carne. Tal como Jesus chorou (cf. Jo 11, 35), também Maria terá certamente chorado diante do corpo torturado do Filho. Todavia, a sua discrição impede-nos de medir o abismo da sua dor; a profundidade desta aflição é apenas sugerida pelo tradicional símbolo das sete espadas. Como sucedeu com seu Filho Jesus, é possível afirmar que este sofrimento levou-A também a Ela à perfeição (cf. Heb 2, 10), de modo a torná-La capaz de acolher a nova missão espiritual que o Filho Lhe confia imediatamente antes de “entregar o espírito” (cf. Jo 19, 30): tornar-Se a Mãe de Cristo nos seus membros. Naquela hora, através da figura do discípulo amado, Jesus apresenta cada um dos seus discípulos à Mãe dizendo-Lhe: “Eis o teu filho” (cf. Jo 19, 26-27).

Maria vive hoje na alegria e glória da Ressurreição. As lágrimas derramadas ao pé da Cruz transformaram-se num sorriso que nada mais apagará, embora permaneça intacta a sua compaixão materna por nós. Atesta-o a intervenção da Virgem Maria em nosso socorro ao longo da história e não cessa de suscitar por Ela, no povo de Deus, uma confidência inabalável: a oração Memorare (“Lembrai-Vos”) exprime muito bem este sentimento. Maria ama cada um dos seus filhos, concentrando a sua atenção de modo particular naqueles que, como o Filho d’Ela na hora da Paixão, se acham mergulhados no sofrimento; ama-os, simplesmente porque são seus filhos, por vontade de Cristo na Cruz.

O Salmista, vislumbrando de longe este vínculo materno que une a Mãe de Cristo e o povo crente, profetiza a respeito da Virgem Maria: “Os grandes do povo procurarão o teu sorriso” (Sal 44, 13). E assim, solicitados pela Palavra inspirada da Escritura, sempre os cristãos procuraram o sorriso de Nossa Senhora, aquele sorriso que os artistas, na Idade Média, tão prodigiosamente souberam representar e engrandecer. Este sorriso de Maria é para todos: no entanto, dirige-se de modo especial para os que sofrem, a fim de que nele possam encontrar conforto e alívio. Procurar o sorriso de Maria não é uma questão de sentimentalismo devoto ou antiquado; antes, é a justa expressão da relação viva e profundamente humana que nos liga Àquela que Cristo nos deu por Mãe.

Desejar contemplar este sorriso da Virgem não é de forma alguma deixar-se dominar por uma imaginação descontrolada. A própria Escritura nos revela tal sorriso nos lábios de Maria, quando canta o Magnificat: “A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc 1, 46-47). Quando a Virgem Maria dá graças ao Senhor, toma-nos por suas testemunhas. Maria, como que por antecipação, partilha com os futuros filhos, que somos nós, a alegria que mora no seu coração, para que uma tal alegria se torne também nossa. E cada proclamação do Magnificat faz de nós testemunhas do seu sorriso. Aqui em Lourdes, durante a aparição de 3 de Março de 1858, Bernadete contemplou de maneira muito especial este sorriso de Maria. Foi esta a primeira resposta dada pela Bela Senhora à jovem vidente, que queria saber a sua identidade. Antes de apresentar-Se-lhe alguns dias mais tarde como “a Imaculada Conceição”, Maria fez-lhe conhecer antes de mais nada o seu sorriso, como se tal fosse a porta mais apropriada para a revelação do seu mistério.

No sorriso da mais eminente de todas as criaturas, que a nós se dirige, reflecte-se a nossa dignidade de filhos de Deus, uma dignidade que nunca se extingue em quem está doente. Aquele sorriso, verdadeiro reflexo da ternura de Deus, é a fonte duma esperança invencível. Acontece infelizmente – bem o sabemos – que o sofrimento prolongado quebre os equilíbrios melhor consolidados duma vida, abale as mais firmes certezas da confiança e chegue por vezes até a fazer desesperar do sentido e valor da vida. Há combates que o homem não pode sustentar sozinho, sem a ajuda da graça divina. Quando a palavra já não consegue encontrar expressões adequadas, subentra a necessidade duma presença carinhosa: procuramos então a solidariedade não só daqueles que compartilham o nosso próprio sangue ou estão ligados connosco por vínculos de amizade, mas também a solidariedade de quantos se acham intimamente unidos a nós pelo laço da fé. E quem de mais íntimo poderíamos nós ter além de Cristo e da sua santa Mãe, a Imaculada? Mais do que qualquer outrem, Eles são capazes de nos compreender e perceber a dureza do combate que travamos contra o mal e o sofrimento. A Carta aos Hebreus, referindo-se a Cristo, afirma que Ele não é alguém incapaz de “compadecer-Se das nossas fraquezas; pelo contrário, Ele mesmo foi provado em tudo” (Heb 4, 15).

Queria, humildemente, dizer àqueles que sofrem e a quantos lutam e se sentem tentados a virar as costas à vida: Voltai-vos para Maria! No sorriso da Virgem, encontra-se misteriosamente escondida a força para continuar o combate contra a doença e a favor da vida. Junto d’Ela, encontra-se igualmente a graça para aceitar, sem medo nem mágoa, a despedida deste mundo na hora querida por Deus. 

O sorriso de Maria é uma fonte de água viva. “Do seio daquele que acredite em Mim – disse Jesus –, correrão rios de água viva” (Jo 7, 38). Maria é Aquela que acreditou e, do seu seio, correram rios de água viva, que vêm regar a história dos homens. A fonte indicada por Maria a Bernadete, aqui em Lourdes, é o sinal humilde desta realidade espiritual. Do seu coração de crente e de mãe corre uma água viva que purifica e cura. Inúmeros são aqueles que, mergulhando nas piscinas de Lourdes, descobriram e experimentaram a doce maternidade da Virgem Maria, agarrando-se a Ela para melhor se prenderem ao Senhor! Na sequência litúrgica desta festa de Nossa Senhora das Dores, Maria é honrada sob o título de “Fons amoris”, “Fonte de amor”. Realmente, do coração de Maria, brota um amor gratuito que suscita uma resposta filial, chamada a aperfeiçoar-se sem cessar. Como toda a mãe, e melhor do que qualquer outra mãe, Maria é a educadora do amor. É por isso que tantos doentes vêm aqui, a Lourdes, para dessedentar-se nesta “Fonte de amor” e deixar-se conduzir até à única fonte da salvação, o seu Filho, Jesus Salvador.  

Ao concluir, desejo unir-me à oração dos peregrinos e dos doentes e retomar juntamente convosco um pedaço da oração a Maria feita para a celebração deste Jubileu:

Porque Vós sois o sorriso de Deus, o reflexo da luz de Cristo, a habitação do Espírito Santo,

porque Vós escolhestes Bernadete na sua miséria, Vós que sois a estrela da manhã, a porta do céu e a primeira criatura ressuscitada,

Nossa Senhora de Lourdes”, com os nossos irmãos e as nossas irmãs cujos corações e corpos estão a sofrer, nós Vos rezamos!

-- Papa Bento XVI, homília na Festa de Nossa Senhora das Dores, 15 de Setembro de 2008

25 de dez. de 2019

O pranto do homem em Deus, e no homem a alegria

Quando foi chegado o tempo
Em que de nascer havia,
Assim como o desposado,
Do seu tálamo saía
Abraçado à sua esposa,
Que em seus braços a trazia;
Ao qual a bendita Mãe
Em um presépio poria
Entre pobres animais
Que então por ali havia.

Os homens davam cantares,
Os anjos a melodia,
Festejando o desposório
Que entre aqueles dois havia.

Deus, porém, no presépio
Ali chorava e gemia;
Eram jóias que a esposa
Ao desposório trazia;
E a Mãe se assombrava
Da troca que ali se via:
O pranto do homem em Deus,
E no homem a alegria;
Coisas que num e no outro
Tão diferente ser soía.

-- São João da Cruz, Romance Cristológico e Trinitário, 9o. romance (século XVI)

21 de nov. de 2018

Maria acreditou em virtude da fé, também pela fé concebeu

Prestai atenção, rogo-vos, naquilo que Cristo Senhor diz, estendendo a mão para seus discípulos: Eis minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de meu Pai que me enviou, este é meu irmão, irmã e mãe (Mt 12,49-50). Acaso a Virgem Maria, que creu pela fé, pela fé concebeu, foi escolhida dentre os homens para que dela nos nascesse a salvação e que foi criada por Cristo antes que Cristo nela fosse criado, não fez a vontade do Pai? Sim! Ela o fez! Santa Maria fez totalmente a vontade do Pai e por isto mais valeu para ela ser discípula de Cristo do que mãe de Cristo; maior felicidade gozou em ser discípula do que mãe de Cristo. Assim Maria era feliz porque, já antes de dar à luz o Mestre, trazia-o na mente.

Vede se não é assim como digo. O Senhor passava acompanhado pelas turbas, fazendo milagres divinos, quando certa mulher exclamou: Bem-aventurado o seio que te trouxe. Feliz o ventre que te trouxe! (Lc 11,27) O Senhor, para que não se buscasse a felicidade na carne, que respondeu então? Muito mais felizes os que ouvem a palavra de Deus e a guardam (Lc 11,28). Por conseguinte, também aqui é Maria feliz, porque ouviu a palavra de Deus e a guardou. Guardou a verdade na mente mais do que a carne no seio. Verdade, Cristo; carne, Cristo; a verdade-Cristo na mente de Maria; a carne-Cristo no seio de Maria. É maior o que está na mente do que o trazido no seio.

Santa Maria, feliz Maria! Contudo, a Igreja é maior que a Virgem Maria. Por quê? Porque Maria é porção da Igreja, membro santo, membro excelente, membro supereminente, mas membro do corpo total. Se ela pertence ao corpo total, logo é maior o corpo que o membro. A cabeça é o Senhor; e o Cristo total, é a cabeça e o corpo. Que direi? Temos cabeça divina, temos Deus por cabeça!

Portanto, irmãos, dai atenção a vós mesmos. Também vós sois membros de Cristo, também vós sois corpo de Cristo. Vede de que modo o sois. Diz: Eis minha mãe e meus irmãos (Mt 12,49). Como sereis mãe de Cristo? Todo aquele que ouve e faz a vontade de meu Pai que está nos céus, este é meu irmão e irmã e mãe (cf. Mt 12,50). Pensai: entendo irmão, entendo irmã; é uma só a herança, e é essa a misericórdia de Cristo que, sendo único, não quis ficar sozinho; quis que fôssemos herdeiros do Pai, co-herdeiros seus.

-- Santo Agostinho, bispo (s;eculo V)

14 de jan. de 2017

A Genealogia de Jesus

Ícone ortodoxo para a Genealogia de Jesus. Deitado à
sombra do carvalho deMambré, está Abraão.  No centro,
Maria e seu filho Jesus, em torno algusn antepassados
mais importantes, como Jacó, Davi e Salomão.
O Evangelho de São Mateus inicia com a genealogia de Jesus. A maioria acha este trecho chato e desnecessário, mas há algumas pérolas escondidas. Então, começamos com o trecho do Evangelho (Mat 1, 1-17):

1 Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
2 Abraão gerou a Isaac; e Isaac gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos;
3 E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;
4 E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom;
5 E Salmom gerou, de Raab, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé;
6 E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias.
7 E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa;
8 E Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias;
9 E Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias;
10 E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias;
11 E Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para babilônia.
12 E, depois da deportação para a babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel;
13 E Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor;
14 E Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde;
15 E Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó;
16 E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo.
17 De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações.

Para os judeus, a genealogia, a lista dos antepassados, era fundamental. Então, para apresentar Jesus, São Mateus começa justamente pela genealogia. A lista inicia com Abraão, o pai da fé, a quem Deus se revelou como o único Deus. Passa pelo Rei Davi, fundamental na história da Israel pois unificou o país e  conquistou Jerusalém. Seu filho, o Rei Salomão, construiu o primeiro Templo de Jerusalém, em torno do qual a vida religiosa dos judeus gravita. Daí até chegar a José, marido de Maria, mas não o pai biológico de Jesus. 

A lista repete três vezes quatorze gerações. Por que? Em hebraico, cada palavra pode ser representada por um número e as vogais não são escritas. Assim, o Rei David é escrito como DVD. Cada letra corresponde um número, no caso D=4 e V=6, resultando DVD = 4+6+4 = 14. Ao repetir o número catorze três vezes, Mateus enfatiza a ligação de Jesus com o Rei David, o ungido por Deus para liderar o povo de Israel.

As mulheres na genealogia
Para chegar ao número catorze, a lista é um pouco diferente da sucessão de reis do Antigo Testamento, e nela aparecem cinco mulheres:  Tamar, Raab, Rute, Betsabéia (mulher de Urias) e Maria. 

Tamar era cananéia e foi escolhida por Judá para ser a esposa do seu primeiro filho Her, que morreu sem descendentes (Gn 38). Como era costume, casou-se com o segundo filho, Onã, que também morreu sem descendentes, por culpa do marido que não consumava o ato sexual. Judá, então, recusou-se a deixar o terceiro filho casar com ela, pensando que ela seria de alguma maneira almaldiçoada. Para garantir seus direitos de viúva, ela disfarçou-se de prostituta e deitou-se com Judá, gerando dois filhos gêmeos. Considerando a situação, Judá acabou por reconhecer as ações de Tamar como justas.  

Raab também era cananéia, vivia em Jericó, onde era prostituta. Quando Josué e seu grupo de espiões foi investigar Jericó, Raab os protegeu, por acreditar em Deus (Js 2,1-21). Quando as muralhas de Jericó caíram e Josué invadiu a cidade, apenas Raab e sua família foram poupados (Js 6, 17-25).

Rute é outra estrangeira na lista que escolheu acreditar no Deus de Israel e que experimenta a bondade e misericórida de Deus. Por conselho de sua mãe Noemi, decidiu casar-se com Booz, em vez do noivo a quem fora prometida por seu pai. Certa noite, enquanto Booz dormia, Rute deitou-se ao seu lado, que acabou por aceitá-la como esposa, depois de resolver a questão do primeiro noivado. Rute foi bisavó de Davi e autora de um dos livros da Bíblia. 

Betsabéia era a mulher de Urias, ambos estrageiros. Urias era um dos guerreiros destacados de exército de Davi. Enquanto o marido estava lutando, foi seduzida por Davi e engravidou do futuro Rei Salomão. Na tentativa de esconder o pecado, Davi ordenou que Urias recebesse uma missão suicida, para que morresse sem saber que a esposa engravidara de outro homem (2Sm 11). 

Quatro mulheres estão na lista, nenhuma teve filhos com o marido prometido, como era o esperado na época. Esta é a ligação óbvia, por que Maria também não teve um filho com José. Mas há outros aspectos importantes a considerar.

Os antepassados de Jesus não eram uma família perfeita, sua história também acomodava pecadores. Todos nós temos pecados na nossa vida, assim como esta quatro mulheres, e Deus redime o pecado, pois concedeu a elas o fruto da vida, seus filhos. Perdoar os pecados cometidos por mulheres é constante na vida de Cristo, tanto adúlteras como prostitutas. E isto já está explícito desde o início do Evangelho de Matues.

Além disso, estas estrangeiras marcavam o alcance de Jesus, ao indicar que Ele não era um judeu "puro" que viria para salvar exclusivamente os judeus, mas incluía, desde antes do seu  nascimento, os estrangeiros.

Desde o início do Evangelho de Mateus temos este anúncio essencial a todas as nações: Jesus perdoa os pecados, ninguém é excluído por nascimento ou qualquer outra condição.

-- este texto é quase uma transcrição da catequese dada pelo Pe. Pat Angelucci no Curso sobre o Evangelho de São Mateus, na minha paróquia.

22 de dez. de 2016

Magnificat, o cântico de Maria


E Maria disse: A minh’alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,46-47).

O Senhor, diz ela, elevou-me por um dom tão grande e inaudito, que nenhuma palavra o pode descrever e mesmo no íntimo do coração é difícil compreendê-lo. Por isso dedico todas as forças de meu ser ao louvor e à ação de graças, contemplando a grandeza daquele que é eterno, e ofereço com alegria minha vida, tudo que sinto e penso, porque meu espírito rejubila pela divindade eterna de Jesus, o Salvador, que concebi e é gerado em meu seio.

O Poderoso fez em mim maravilhas, e santo é o seu nome! (Lc 1,49).

Estas palavras se relacionam com o início do cântico que diz: A minh’alma engrandece o Senhor. De fato, só a alma em quem o Senhor se dignou fazer maravilhas pode engrandecê-lo e louvá-lo dignamente e dizer, exortando os que compartilham seus desejos e aspirações:Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome (Sl 33,4).

Quem conhece o Senhor e é negligente em proclamar sua grandeza e santificar o seu nome, será considerado o menor no Reino dos Céus(Mt 5,19). Diz-se que santo é o seu nome porque, pelo seu poder ilimitado, transcende toda criatura e está infinitamente separado de todas as coisas criadas.

Acolhe Israel, seu servidor, fiel ao seu amor (Lc 1,54).

Israel é, com razão, denominado servidor do Senhor, porque, sendo obediente e humilde, foi por ele acolhido para ser salvo, como diz Oséias: Quando Israel era criança, eu já o amava (Os 11,1). Aquele que recusa humilhar-se não pode certamente ser salvo, nem dizer com o Profeta: Quem me protege e me ampara é meu Deus; é o Senhor quem sustenta a minha vida! (Sl 53,6). Mas, quem se fizer humilde como uma criança, esse é o maior no Reino dos Céus (cf. Mt 18,4).

Como havia prometido a nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos para sempre (Lc 1,55).

Trata-se da descendência de Abraão segundo o espírito e não segundo a carne, isto é, não apenas dos filhos segundo a natureza, mas de todos que seguiram o exemplo da sua fé, fossem eles circuncidados ou incircuncisos. Pois o próprio Abraão, ainda incircunciso, acreditou e isto lhe foi imputado como justiça.

A vinda do Salvador foi, portanto, prometida a Abraão e a seus filhos para sempre, isto é, aos filhos da promessa, dos quais se diz: Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa (Gl 3,29).

É com razão que, antes do nascimento do Senhor e de João, suas mães profetizam, para que, tendo o pecado começado pela mulher, os bens comecem igualmente por ela; e se foi pela sedução de uma só mulher que a morte foi introduzida no mundo, agora é pela profecia de duas mulheres que se anuncia ao mundo a salvação.

-- Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de São Beda Venerável, presbítero (século VIII)

* para lembrar, também já publicamos os Comentários de São João Eudes sobre o Magnificat.

21 de nov. de 2015

Sobre a Encarnação de Cristo

Antes da vinda de Cristo, os Patriarcas, os Profetas e João Batista falaram algumas verdades a respeito de Deus. Os homens, porém, não acreditaram nelas como acreditaram em Cristo, que este com Deus e, mais do que isso, constituía um só ser com Ele. Eis porque a nossa fé foi muito mais confirmada pelas verdades transmitidas por Cristo. Lê-se em São João: Ningém jamais viu a Deus. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, nos revelou (Jo 1,18). Muitos mistérios da fé, que estavam escondidos, foram revelados após o advento de Cristo.

Sabemos que o Filho de Deus não foi elevado sem motivo, assumindo a nossa carne, mas para grande benefício nosso. Para tanto, fez uma troca: assumiu um corpo animado e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar a sua divindade; fez-se homem, para fazer o homem, Deus. Lê-se em São Paulo: Por quem temos acesso pela fé nessa graça, na qual permanecemos, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus (Rm 5,2).

Nenhum indício é mais evidente da caridade divina do que o Deus, criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se filho de homem. Diz São João: Tanto Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho (Jo 3,16). Pela consideração dessa verdade, deve ser reacendido e de novoem nós afervorado, o nosso amor para com Deus.

A nossa natureza foi a tal ponto enobrecida e exaltada pela união com Deus que foi assumida para consorciar-se com uma Pessoa Divina. O homem, reconsiderando e atendendo à sua própria exaltação, deve perceber como pelo pecado se degrada e avilta a si e à própria natureza. Por isso escreve São Pedro: O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo (2Pe 1,3-4).

A meditação dos mistérios da Encarnação aumenta em nós o desejo de nos aproximarmos de Cristo. Se alguém, digamos um irmão do rei, viesse nos visitar, naturalmente desejaríamos aproximarmo-nos dele, estar com ele, nem que fosse por interesse. Ora, sendo Cristo nosso irmão e mais benéfico que um rei, devemos desejar estar com Ele e nos unirmos a Ele. Sigamso o exemplo de São Paulo que desejava dissolver-se para estar com Cristo: esse desejo cresce também em nós pela consideração do mistério da Encarnação.

-- São Tomás de Aquino, Sermão sobre o Credo (século XIII)

11 de ago. de 2015

Magnificat: Meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador

Essas divinas palavras, em latim Et exultavit sprritus meus in Deo salutari meo, pronunciadas pelos sagrados lábios da Mãe do Salvador, nos declaram a alegria inefável e incompreensível que Lhe encheu e santamente Lhe inebriou o coração, o espírito e a alma, no momento da Encarnação do Filho de Deus e enquanto O levou em suas benditas entranhas; e até por todo o resto de sua vida, segundo Santo Alberto Magno e alguns outros Doutores. 

Alegria que foi tão excessiva, especialmente no momento da Encarnação que, assim como a sua santa alma separou-se do corpo no último instante de sua vida, pela força de seu amor a Deus e pela abundância de sua alegria ao ver-se prestes a ter com o seu Filho no Céu; Ela teria também morrido de alegria em vista das indescritíveis bondades de Deus para com Ela e para com todo o gênero humano, se a vida não Lhe fosse conservada por milagre. Pois se a história nos afirma que a alegria causou a morte de muitas pessoas, em razão de algumas vantagens temporais que lhes haviam sucedido, é para crer-se que a divina Virgem teria morrido também se não fora sustentada pela virtude do divino Menino que trazia em seu seio, visto que Ela possuía os maiores motivos de alegria que jamais existiram e existirão. Pois

1. Ela se rejubilava em Deus porque Deus é infinitamente poderoso, sábio, bom, justo e misericordioso, e porque faz resplandecer, de maneira tão admirável, o seu poder, a sua bondade e todos os outros divinos atributos, no mistério da Encarnação e da Redenção do mundo.

2. Rejubilava-se em Deus seu Salvador, por ter vindo a este mundo, para salvá-lo e remi-lo, em primeiro lugar e principalmente, preservando-A do pecado original e cumulando-A de suas graças e favores, com tanta plenitude que A tornou, consigo, a Medianeira e cooperadora na salvação de todos os homens.

3. Seu coração achava-se cumulado de alegria porque Deus A contemplara com os olhos de sua benignidade, isto é, amara e aprovara a humildade de sua serva, na qual achou singularíssima satisfação e complacência. É esta, diz S. Agostinho, a causa da alegria de Maria, porque Ele olhou a humildade de sua serva; como se Ela dissesse: Rejubi­lo-me com a graça que Deus me fêz, porque dEle recebi o motivo desta alegria; e nEle me rejubilo, porque amo o seu amor.

4. Rejubilava-se pelas grandes coisas que a sua onipotente bondade nEla operara, que são as maiores maravilhas de quantas Ele jamais fêz em todos os séculos passados e fará em todos os séculos vindouros.

5. Rejubilava-se, não só pelos favores que recebera de Deus, mas também pelas graças e misericórdias por Ele derramadas sobre todos os homens que se dispõem a recebê-las.

6. - Rejubilava-se não só com a bondade de Deus em relação aos que não lhe opõem obstáculo, mas também com os efeitos de sua justiça sobre os soberbos, que Lhe desprezam as liberalidades.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

4 de ago. de 2015

Uma Explicação do Magnificat, por São João Eudes

Fundador da Congregação de Jesus e de Maria, atualmente conhecida pelo nome de Congregração dos Eudistas, S. João Eudes consagrou sua vida a suscitar e desenvolver a devoção aos dois Corações que abraçava no mesmo amor, o do Filho de Deus e o de sua Bem-aventurada Mãe, tão estreitamente uni­dos no mistério da Encarnação.

Nascido em Rye, na diocese de Séez, João Eu­des manifestou, desde a mais tenra infância, uma piedade tão pura e uma humildade tão profunda que, a fim de perfazer a sua formação espiritual, entrou muito jovem ainda para a Congregação do Oratório. Sob a direção do Padre de Bérule, cuja elevadisima estima logo conquistou, a tal ponto aperfeiçoou o seu talento da palavra que lhe confiaram certas missões importantes, antes mesmo de receber as sagradas Ordens. 

Faleceu em Caen, em 1660, deixando grande nú­mero de obras; as principais são: Exercícios de pie­dade para viver cristã e santamente (1636); A vi­da e o reino de Jesus (1637); A vida do cristão (1641); e O contrato do homem com Deus pelo Ba­tismo (1654). A  explicação detalhada do Magnificat, canto de Maria, é ex­traída do capítulo X de uma obra que compôs no fim de sua vida, obra que tem por título O Coração admi­rável da Sacratíssima Mãe de Deus, e na qual trata detalhadamente das razões de ser da devoção ao Co­ração de Maria. O capítulo no qual prefere comentar o Magnificat e cantar as maravilhas da "Vir­gem fiel", foi terminado algumas semanas antes de sua morte. "Hoje, vinte e cinco de julho de 1660, escreve êle, Deus me fêz a graça de terminar o meu livro" ­.

Faleceu três semanas após, em 19 de agosto, no seminário de Caen, com sentimentos de uma paz. profunda e de confiança sem limites na misericórdia de Jesus e de Maria.

Eis os comentários de São João Eudes sobre Magnificat:



18 de dez. de 2014

4º Domingo do Advento - Domingo 21/12/2014

Lc 1,26-38
Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria.28O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!”
29Maria ficou perturbada com essas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação. 30O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.
34Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?”
35O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este já é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37porque para Deus nada é impossível”. 38Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” E o anjo retirou-se.
Comentário:
Este trecho do Evangelho de São Lucas indica na anunciação do anjo a Maria o cumprimento da procmessa feita por Deus a Davi (2Sm 7,14-16; 1Cr 17,12-14); além disso, com a referência a Jacó, quer mostrar em Jesus a realização de todas as promessas. Também este texto, assim como Mt 1,18-25 lembra que Jesus descende de Davi através de José, enquanto no diálogo entre Maria e o anjo se vê o cumprimento de Is 7, 14.: uma virgem, permanecendo virgem, dará à luz um filho. A realização das promesses em Jesus é obra exclusiva de Deus e não do homem, embora não se dê sem a participação humana representada pelo "Sim" de Maria.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • 2 Samuel 7, 14-16
  • 1 Crônicas 17, 12-14
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 88
  • Isaias 7, 14
  • Amos 9, 11
  • Ezequiel 34, 23-25
  • Miqueis 5, 1
Evangelhos
  • Mateus 1, 18-25

15 de dez. de 2014

Leituras de preparação para o Natal


Nesta época especial do ano é importante lembrarmos que o Natal é o nascimento de Cristo, não mera troca de presentes. 

Para ajudar a entrar no clima, uma boa idéia é seguir a sequência de textos, todos escritos por santos, sobre o nascimento de Jesus, como proposta pela Igreja na Liturgia das Horas. 


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