18 de ago de 2015

Magnificat: acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia

O Deus onipotente fez duas criaturas no princípio do mundo, o anjo e o homem: o anjo no céu, o homem na terra. Ambos foram tão ingratos que se revoltaram contra o seu Criador: o anjo pela soberba, e o homem, pela desobediência ao mandamento de seu Deus. O pecado do anjo, sendo um pecado de soberba, foi tão grande diante de Deus que sua divina justiça O obrigou a expulsá-lo do paraíso e lançá-lo no inferno.

Mas a sua misericórdia, vendo que o homem caíra no pecado pela tentação e sedução de Satanás, teve compaixão dele e tomou a resolução de retirá-lo do estado miserável a que se achava reduzido, e até se comprometeu a isso pela promessa que lhe fez. E todos os gravíssimos e inúmeros pecados cometidos depois dessa promessa, pelos judeus, pelos gentios e por todos os homens, não foram capazes de impedir-lhe a execução; mas retardaram-na de muitos séculos, durante os quais toda a raça de Adão, condenada e reprovada por Deus, achava-se mergulhada em um abismo de trevas e redemoinho de males infinitos e inexplicáveis, sendo-lhe impossível sair por si mesma.

Mas, finalmente, o Filho de Deus se lembrou de suas misericórdias: "recordou-se de Sua misericórdia e da promessa que fizera a Adão, a Abraão", a Davi e a outros Profetas de retirar o gênero humano desse abismo de males. Ele mesmo desce do céu ao seio virginal da divina Maria, onde une à sua divina Pessoa a natureza tão miserável que abandonara, faz-Se homem para salvar todos os homens que quiserem pertencer ao número dos verdadeiros israelitas, isto é, que quiserem crer nEle e ama-Lo.

Eis o que a Bem-aventurada Virgem nos anuncia pelas palavras: acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia. É a conclusão de seu divino Cântico; uma recapitulação dos inefáveis mistérios nele encerrados; é o fim da Lei e dos Profetas; a realização das sombras; a consumação das figuras. É o mesmo se Ela dissesse: Eis o efeito da predição dos Profetas; eis o que as sombras assinalaram; eis o que os Patriarcas esperaram; eis o que me faz cantar do mais profundo de meu coração: proclama a minha alma a grandeza do Senhor. Eis o grande motivo de minhas alegrias e de meus sofrimentos: exulta meu espírito em Deus meu Salvador. Eis o que fará com que todas as nações me proclamem Bem-aventurada. Eis o que exaltará os humildes e confundirá os soberbos: acolheu a Israel seu servo.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

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