31 de ago de 2015

O matrimônio é um sinal do Amor de Deus

Deus criou o homem à sua imagem e semelhança (Gn 1,26): chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amorDeus é amor (1 Jo 4,8) e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano.

Enquanto espírito encarnado, isto é, alma que se exprime no corpo informado por um espírito imortal, o homem é chamado ao amor nesta sua totalidade unificada. O amor abraça também o corpo humano e o corpo torna-se participante do amor espiritual.

A Revelação cristã conhece dois modos específicos de realizar a vocação da pessoa humana na sua totalidade ao amor: o Matrimônio e a Virgindade. Quer um quer outro, na sua respectiva forma própria, são uma concretização da verdade mais profunda do homem, do seu ser à imagem de Deus.

Por consequência a sexualidade, mediante a qual o homem e a mulher se doam um ao outro com os atos próprios e exclusivos dos esposos, não é em absoluto algo puramente biológico, mas diz respeito ao núcleo íntimo da pessoa humana como tal. Esta realiza-se de maneira verdadeiramente humana, somente se é parte integral do amor com o qual homem e mulher se empenham totalmente um para com o outro até à morte. A doação física total seria falsa se não fosse sinal e fruto da doação pessoal total, na qual toda a pessoa, mesmo na sua dimensão temporal, está presente: se a pessoa se reservasse alguma coisa ou a possibilidade de decidir de modo diferente para o futuro, só por isto já não se doaria totalmente.

Esta totalidade, pedida pelo amor conjugal, corresponde também às exigências de uma fecundidade responsável, que, orientada como está para a geração de um ser humano, supera, por sua própria natureza, a ordem puramente biológica, e abarca um conjunto de valores pessoais, para cujo crescimento harmonioso é necessário o estável e concorde contributo dos pais.

O lugar único, que torna possível esta doação segundo a sua verdade total, é o matrimônio, ou seja o pacto de amor conjugal ou escolha consciente e livre, com a qual o homem e a mulher recebem a comunidade íntima de vida e de amor, querida pelo próprio Deus que só a esta luz manifesta o seu verdadeiro significado. A instituição matrimonial não é uma ingerência indevida da sociedade ou da autoridade, nem a imposição extrínseca de uma forma, mas uma exigência interior do pacto de amor conjugal que publicamente se afirma como único e exclusivo, para que seja vivida assim a plena fidelidade ao desígnio de Deus Criador. Longe de mortificar a liberdade da pessoa, esta fidelidade põe-na em segurança em relação ao subjetivismo e relativismo, fá-la participante da Sabedoria Criadora.

A comunhão de amor entre Deus e os homens, conteúdo fundamental da Revelação e da experiência de fé de Israel, encontra uma sua significativa expressão na aliança nupcial, que se instaura entre o homem e a mulher.

É por isto que a palavra central da Revelação, Deus ama o seu povo, é também pronunciada através das palavras vivas e concretas com que o homem e a mulher se declaram o seu amor conjugal. O seu vínculo de amor torna-se a imagem e o símbolo da Aliança que une Deus e o seu povo (Jr 3, 6-13; Is 54). E o mesmo pecado, que pode ferir o pacto conjugal, torna-se imagem da infidelidade do povo para com o seu Deus: a idolatria é prostituição (Ez 16, 25), a infidelidade é adultério, a desobediência à lei é abandono do amor nupcial para com o Senhor. Mas a infidelidade de Israel não destrói a fidelidade eterna do Senhor e, portanto, o amor sempre fiel de Deus põe-se como exemplo das relações do amor fiel que devem existir entre os esposos (Os 3).

-- Seções 11 e 12 da Exortação Apóstólica Familiaris Consortium, de São João Paulo II (1981)

30 de ago de 2015

22º Domingo do Tempo Comum - 30/08/2015

Mc 7,1-8.14-15.21-23

Naquele tempo, 1os fariseus e alguns mestres da Lei vieram de Jerusalém e se reuniram em torno de Jesus.2Eles viam que alguns dos seus discípulos comiam o pão com as mãos impuras, isto é, sem as terem lavado.3Com efeito, os fariseus e todos os judeus só comem depois de lavar bem as mãos, seguindo a tradição recebida dos antigos. 4Ao voltar da praça, eles não comem sem tomar banho. E seguem muitos outros costumes que receberam por tradição: a maneira certa de lavar copos, jarras e vasilhas de cobre.
5Os fariseus e os mestres da Lei perguntaram então a Jesus: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?”
6Jesus respondeu: “Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas, como está escrito: ‘Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim. 7De nada adianta o culto que me prestam, pois as doutrinas que ensinam são preceitos humanos’. 8Vós abandonais o mandamento de Deus para seguir a tradição dos homens”.
14Em seguida, Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: “Escutai, todos, e compreendei: 15o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. 21Pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, 22adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. 23Todas estas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem”.
Comentário:
Este trecho do Evangelho guarda dois sentidos: o primeiro é com relação fariseus e suas tradições, qualificadas como humanas, não divinas, pois não ajudam a observar os mandamentos, mas servem para disfarçar a maldade dos fariseus, que assim afastavam as pessoas da religião. 
O segundo é relação aos seus discípulos e seguidores: conseguiriam eles ver que se tratava do Filho de Deus vivo, a quem deveriam escutar, ou estavam com os ouvidos fechados e coração endurecido a ponto de nào reconhecer as maravilhas que testemunhavam.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Êxodo 22, 21-23
  • Deuteronômio 4,1-8
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Eclesiástico 15, 11-20
Evangelhos
  • Mateus 7, 24-27
  • João 1, 12-13
Cartas
  • Romanos 2, 13
  • 1 Coríntios 10, 13
  • Tiago 1, 17-27
  • 1 Pedro 1,12-13

27 de ago de 2015

Roteiro da visita do Papa Francisco aos Estados Unidos - 22-27 de Setembro

22 de Setembro (Terça)
16:00 - Chegada na Base Aérea de Andrews, Washington

23 de Setembro (Quarta)
9:15 - Cerimônia na Casa Branca
11:30 - Encontro com os bispos na Catedral São Mateus Apóstolo
16:15 - Missa de canonização do Beato Junípero Serra na Basílica Nacional da Imaculada Conceição

24 de Setembro (Quinta)
9:20 - Visita ao Congresso Nacional
11:15 - Visita à Igreja de São Patrício e encontro com sem-teto
16:00 - Saída de Washington
17:00 - Chega à Nova Iorque
18:45 - Celebração das Vésperas com padres, monges e monjas na Catedral de São Patrício

25 de Setembro (Sexta)
8:30 - Visita às Nações Unidas
11:30 - Encontro interreligioso no Memorial 9/11
16:00 - Visita à Escola Nossa Sra Rainha dos Anjos no Harlem e encontro com crianças e famílias imigrantes
18:00 - Missa no Madison Square Garden

26 de Setembro (Sábado)
9:30 - Chegada à Filadélfia
10:30 - Missa com bispos, padres e religiososna Catedral de São Pedro e São Paulo
16:45 - Encontro com a comunidade hispânica no Independece Mall
19:30 - Festival das Famílias e vigília de oração

27 de Setembro (Domingo)
9:15 - Encontro com os bispos no Seminário São Carlos Borromeu
11:00 - Visita aos prisioneiros no Presídio de Curran-Fromhold
16:00 - Missa de encerramento do Encontro das Famílias
19:00 - Encontro com os organizadores e voluntários
19:45 - Partida para Roma

* Portanto a única missa em local aberto, com capacidade para milhões, será no Domingo às 16:00 na Filadélfia.

23 de ago de 2015

21º Domingo do Tempo Comum - 23/08/2015

Jo 6,60-69
Naquele tempo, 60muitos dos discípulos de Jesus, que o escutaram, disseram: “Esta palavra é dura. Quem consegue escutá-la?”
61Sabendo que seus discípulos estavam murmurando por causa disso mesmo, Jesus perguntou: “Isto vos escandaliza? 62E quando virdes o Filho do Homem subindo para onde estava antes? 63O Espírito é que dá vida, a carne não adianta nada. As palavras que vos falei são espírito e vida. 64Mas entre vós há alguns que não creem”.
Jesus sabia, desde o início, quem eram os que não tinham fé e quem havia de entregá-lo.
65E acrescentou: “É por isso que vos disse: ninguém pode vir a mim, a não ser que lhe seja concedido pelo Pai”.66A partir daquele momento, muitos discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele. 67Então, Jesus disse aos doze: “Vós também vos quereis ir embora?”
68Simão Pedro respondeu: “A quem iremos, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna. 69Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és o Santo de Deus”.
Comentário:
Neste Evangelho Jesus pede aos seus discípulos para tomarem uma decisão: estariam eles dispostos a seguirem-no? Só podem segui-lo àqueles que recebem o dom da fé, que vem do Pai e por isso são capazes de julgar de acordo com o Espírito Santo. A mesma escolha já havia sido proposta ao povo judeu no Antigo Testamento, quando escolheram a Deus (Dt, 81-8; Js 24, 1-18), mas agora muitos fraquejaram. Já a Igreja (Pedro) faz a sua confissão de fé em Cristo, filho de Deus (At 3,14).
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Deuteronômio 8, 1-6
  • Josué 24, 1-18
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 33 (32)
Evangelhos
  • Mateus 8, 18-21
  • Mateus 16, 13-20
Cartas
  • Atos 3, 11-16
  • 1 Coríntios 15, 45-48
  • 2 Coríntios 3, 1-6

20 de ago de 2015

Magnificat: conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e sua posteridade, para sempre

Os homens falam muito e são extremamente hábeis em prometer muitas coisas; mas suas palavras e promessas não são, no mais das vezes, senão mentira e embustes. Deus fala pouco; Ele tem uma só palavra, mas, com esta só palavra, governa todas as coisas e cumpre verdadeira e fielmente todas as suas promessas. São as promessas que fez a Adão, a Abraão e aos outros Pais e Patriarcas, as mencionadas pela Bem-aventurada Virgem nessas últimas palavras de seu divino Cântico: Conforme tinha dito a nossos pais, a Abraão e à sua posteridade para sempre; promessas que cumpriu ao encarnar-Se em seu bendito seio. Foi o que Ele declarou aos judeus quando lhes disse: "Abraão desejou ardentemente ver o meu dia", isto é, o dia da minha Encarnação, de meu nascimento e permanência na terra, do qual esperava a sua salvação e a salvação do mundo.

Vemos assim como Deus é verdadeiro em suas palavras e em suas promessas, o que deve causar­nos uma grande consolação. Pois essa fidelíssima realização das promessas de Deus nos dá uma certeza infalível de que se cumprirão perfeitissimamente todas as outras promessas que nos fez.

Ora, o nosso adorável Salvador não é o único a quem se chama o Fiel e o Verdadeiro; pois a santa Igreja atribui também essa qualidade à sua divina Mãe, a Virgem fiel. Escutemo-­la nas palavras do Espírito Santo: "Vinde todos a mim". Todos, não só alguns; todos, homens e mulheres, grandes e pe­quenos, ricos e pobres, jovens e velhos, saudáveis e enfermos, justos e pecadores, fiéis e infiéis, sábios e ignorantes; pois desejo aliviar-vos em todas as necessidades e alcançar a salvação de todos. Vinde a mim com grande confiança; pois Deus me concedeu todo o poder no céu e na terra, e tenho mais amor e ternura por vós do que é possível existir nos corações de todas as mães, passadas, presentes e futuras. Vinde a mim, pois, assim como dei a vida à vossa adorável cabeça que é o meu Filho Jesus, posso dá-la também a seus membros; estarei convosco para conduzir-vos sempre e por toda a parte, em todas as coisas. Eu vos consolarei nas aflições; protegerei entre todos os perigos dessa vida; defenderei de todos os inimigos visíveis e invisíveis; iluminarei as trevas; fortalecerei nas fraquezas; darei amparo nas tentações. Assistir-vos-ei na hora da morte; receberei vossas almas na saída do corpo para apresentá-las a meu Filho. Enfim, dar-vos-ei lugar em meu regaço e em meu Coração maternal; ter-vos-ei sempre presentes diante de meus olhos e mostrar-vos-eis que tenho um verdadeiro coração de Mãe.

E, terminando, eis o que me resta dizer-vos: lançai os olhares sobre a vida que leveis na terra e sobre todas as virtudes que então pratiquei pela graça de Deus: são outras tantas vozes que vos fa­lam e vos dizem: Bem-aventurados os que seguem o caminho que Eu segui, isto é, os que seguem o caminho da fé, da esperança, da caridade, da humildade, da obediência, da pureza, da paciência e das outras virtudes que na terra pratiquei. Abraçai pois todas essas virtudes, de todo o vosso coração. E meu Filho Jesus abençoar-vos-á, Se O amardes e guardardes fielmente todos os seus mandamentos.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

18 de ago de 2015

Magnificat: acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia

O Deus onipotente fez duas criaturas no princípio do mundo, o anjo e o homem: o anjo no céu, o homem na terra. Ambos foram tão ingratos que se revoltaram contra o seu Criador: o anjo pela soberba, e o homem, pela desobediência ao mandamento de seu Deus. O pecado do anjo, sendo um pecado de soberba, foi tão grande diante de Deus que sua divina justiça O obrigou a expulsá-lo do paraíso e lançá-lo no inferno.

Mas a sua misericórdia, vendo que o homem caíra no pecado pela tentação e sedução de Satanás, teve compaixão dele e tomou a resolução de retirá-lo do estado miserável a que se achava reduzido, e até se comprometeu a isso pela promessa que lhe fez. E todos os gravíssimos e inúmeros pecados cometidos depois dessa promessa, pelos judeus, pelos gentios e por todos os homens, não foram capazes de impedir-lhe a execução; mas retardaram-na de muitos séculos, durante os quais toda a raça de Adão, condenada e reprovada por Deus, achava-se mergulhada em um abismo de trevas e redemoinho de males infinitos e inexplicáveis, sendo-lhe impossível sair por si mesma.

Mas, finalmente, o Filho de Deus se lembrou de suas misericórdias: "recordou-se de Sua misericórdia e da promessa que fizera a Adão, a Abraão", a Davi e a outros Profetas de retirar o gênero humano desse abismo de males. Ele mesmo desce do céu ao seio virginal da divina Maria, onde une à sua divina Pessoa a natureza tão miserável que abandonara, faz-Se homem para salvar todos os homens que quiserem pertencer ao número dos verdadeiros israelitas, isto é, que quiserem crer nEle e ama-Lo.

Eis o que a Bem-aventurada Virgem nos anuncia pelas palavras: acolheu a Israel, seu servo, lembrando da sua misericórdia. É a conclusão de seu divino Cântico; uma recapitulação dos inefáveis mistérios nele encerrados; é o fim da Lei e dos Profetas; a realização das sombras; a consumação das figuras. É o mesmo se Ela dissesse: Eis o efeito da predição dos Profetas; eis o que as sombras assinalaram; eis o que os Patriarcas esperaram; eis o que me faz cantar do mais profundo de meu coração: proclama a minha alma a grandeza do Senhor. Eis o grande motivo de minhas alegrias e de meus sofrimentos: exulta meu espírito em Deus meu Salvador. Eis o que fará com que todas as nações me proclamem Bem-aventurada. Eis o que exaltará os humildes e confundirá os soberbos: acolheu a Israel seu servo.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

17 de ago de 2015

Magnificat: Derrubou do trono os poderosos, exultou os humildes, saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos

Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Essas palavras da Bem-aventurada Virgem, segundo as explicações dos santos Doutores, aplicam-­se aos bons e aos maus anjos, aos anjos humildes e aos anjos soberbos, aos anjos obedientes a Deus e aos revoltados contra Ele. Os bons anjos reconhecem que Deus os tirou do nada e que de sua divina bondade receberam todas as perfeições que a Deus atribuem, rendendo-Lhe homenagem por elas e só reservando para si o nada. Razão pela qual Deus os faz passar do estado de graça, em que se acham, ao estado de glória, cumulando-os com os bens inestimáveis que se encerram na bem-aventurada eternidade.

Os maus anjos, ao contrário, contemplando as excelências com que Deus os ornou em sua criação, nelas se comprazem e delas se apropriam e glorificam como se as possuíssem por si mesmos, por uma soberba e uma insuportável arrogância que obrigam a divina justiça a despojá-los de todas as suas perfeições e claridade, reduzi-los a uma extrema miséria e pobreza, e precipitá-los no fundo do inferno.

Santo Agostinho aplica essas mesmas palavras, humildes e soberbos. Os humildes, diz ele, reconhecem que nada possuem de si mesmos e que tem necessidade extrema do auxílio e da graça do céu; mas os soberbos se persuadem de que estão cheios de graça e de virtude. Por isso, Deus se compraz em derramar seus dons sobre aqueles e em retirá-los destes.

Essas mesmas palavras se entendem ainda, conforme o pensamento de vários santos Doutores, a respeito de todos os pobres que têm o coração desapegado das coisas da terra, e que amam e abraçam a pobreza por amor dAquele que, possuindo todos os tesouros da Divindade, quis fazer-Se pobre por nosso amor, a fim de nos dar a posse das riquezas eternas. Mas, é necessário estendê-las especialmente aos que se despojaram voluntariamente de todas as coisas, pelo santo voto de pobreza, a fim de imitar mais perfeitamente o nosso divino Salvador e sua Mãe santissima, em seu estado de pobreza, pobreza tão grande que o Filho de Deus pronunciou as palavras: As raposas tem seus covis, as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça.

Eis outra explicação destas palavras, a qual é de grande consolação. É ainda uma profecia da sacrossanta Mãe de Deus, a qual compreende uma conversão extraordinária que se deve realizar por todo o mundo, conversão dos infiéis, dos judeus, dos hereges e dos falsos cristãos, conversão predita e anunciada desde muito tempo pelo oráculo das santas Escrituras. Essa grande conversão foi revelada pelo Espírito Santo, não só aos Profetas da antiga Lei, mas também aos mais santos e santas da Lei nova. Não nos assegura o grande Apóstolo São Paulo que todos os judeus se converterão e que sua conversão será seguida pela de todo o mundo? A esse respeito, rogo-vos considerardes que não existem no mundo homens mais opostos a Deus, mais contrários ao nosso Salvador, mais inimigos de sua religião, e por conseguinte mais afastados da conversão, que eles. Se, não obstante tudo isto, Deus lhes deve fazer essa misericórdia, há grandes motivos para crer que não a recusará a todos os outros homens.

Então se realizará a grande profecia da Rainha dos Profetas: Derrubará do trono os poderosos, exultará os humildes; não talvez em toda a perfeição que seria de desejar, e de modo a não restar pessoa alguma na terra sem o conhecimento e o amor de Deus. Mas, embora essa conversão não seja talvez geral, será todavia um magnífico e delicioso banquete para todos quantos tem uma grande fome e ardente sede da glória de Deus e da salvação das almas.

Oh! que grandes tesouros encerra a pobreza voluntária, pois disse Nosso Senhor: Bem-aventurados os pobres, tanto que deles é o reino dos céus. Oh! quão perigosa é a posse das riquezas, pois disse Aquele que é a verdade eterna: "Ai de vós, ó ricos! porque tendes aqui a vossa consolação". Por isso, se amais as riquezas, não ameis as falsas riquezas da terra; amai porém as verdadeiras riquezas do céu, que são o temor e o amor de Deus, a caridade para com o próximo, a humildade, a obediência, a paciência, a pureza e as outras virtudes cristãs que vos estabelecerão na posse de um eterno império.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

16 de ago de 2015

Magnificat: Manifestou o poder do seu braço: desconcertou o coração dos soberbos

Tendo a Bem-aventurada Virgem louvado e glorificado, no versículo precedente, os efeitos da divina Misericórdia, que se originam da Encarnação do Salvador, e se estendem de geração em geração sobre aqueles que temem a Deus, glorifica e exalta no presente versículo os prodígios do divina Poder, que refulgem de maneira admirável no mesmo mistério.

O grande Deus, diz Ela, manifestou o poder de seu braço. Qual é este braço? Santo Agostinho, São Fulgêncio e São Boaventura dizem que é o Verbo encarnado, pois, assim como é pelo braço que o homem faz as suas ações, é também pelo seu Filho que Deus faz todas as coisas. Assim como o braço do homem, diz Alberto Magno, origina-se do corpo, e a mão do corpo e do braço: o Filho de Deus origina-Se do Pai, e o Espírito Santo procede do Pai e do Filho.
Mas que significam as palavras: manifestou o poder de seu braço? Significam que Deus operou poderosamente e produziu efeitos admiráveis de seu poder, por seu Filho único e seu Verbo encarnado, que é o seu braço. É por Ele que seu Pai criou todas as coisas; por Ele que remiu o mundo inteiro; por Ele que venceu o demônio; por Ele que triunfou do inferno; por Ele que nos ofereceu o céu; por Ele que fez uma infinidade de outros milagres. Nada faço de Mim mesmo, diz o Filho de Deus, mas é o meu Pai que, permanecendo em Mim, faz tudo quanto Eu faço. Quantas maravilhas opera a divina Providência nesse mistério da Encarnação! Que milagre ver o Verbo encarnado sair das sagradas entranhas de uma Virgem, sem afetar-Lhe a integridade! Quantos milagres na instituição do Santíssimo Sacramento do Altar! Que milagre, enfim, do divino Poder, ter elevado uma neta de Adão à dignidade infinita de Mãe de Deus, e havê-la estabelecido Rainha de todos os Anjos e de todo o universo!

Eis ainda duas coisas extremamente consideráveis. A primeira é nada haver em que o divino Poder mais apareça do que na remissão e destruição do pecado, segundo as palavras da santa Igreja: O Deus, que manifestais a vossa onipotência em perdoar-nos os pecados e em fazer-nos misericórdia, mais que em qualquer outra coisa. A razão é que a injúria feita a Deus pelo pecado é tão grande que só o poder infinito de uma imensa bondade a pode perdoar; e que o pecado é um monstro tão horrendo que só o braço do Onipotente o pode esmagar.

A segunda coisa na qual refulge maravilhosamente esse adorável Poder é a virtude e a força que dá aos santos Mártires e a todas pessoas que sofrem penas extraordinárias, a fim de suportá-las generosa e cristãmente pelo amor dAquele que sofreu os tormentos e a morte da cruz.

Eis um pequeno resumo dos inúmeros milagres que o braço onipotente do Verbo encarnado operou e opera para glória de seu divino Pai, para honra de sua Mãe sacratíssima, para salvação e santificação dos homens e para os animar a servi-lO e amá-lO de todo o coração, assim como Ele os ama de todo o seu.

Mas quais são os soberbos de que fala a Virgem Maria, ao dizer: Dispersou aqueles que se orgulhavam nos pensamentos de seu coração? Os santos Padres dão diversas explicações. Dizem alguns que esses soberbos são os anjos rebeldes que Deus expulsou do céu e precipitou no inferno por causa de seu orgulho. Santo Agostinho escreve que, por esses soberbos, podem entender-se os judeus que desprezaram o humilde advento de nosso Salvador, motivo pelo qual foram condenados.

Mas, segundo o pensamento de vários autores, isso significa que não só Deus dissipa e aniquila os pensamentos malignos e perniciosos desígnios que os maus maquinam contra Ele e contra os seus amigos; mas age também de tal modo que todas as suas pretensões redundam em confusão própria, para glória de sua divina Majestade e para acréscimo da santidade e felicidade eterna daqueles que O servem.

E o que é mais ainda é que os derrota com as suas próprias armas. Pois Ele faz com que as flechas despedidas por sua malícia contra Ele e os seus filhos, voltem-se contra eles próprios. Faz com que os desígnios deles sirvam para realização dos seus; faz com que as invenções malignas de sua impiedade redundem em perdição própria e proveito dos seus servos. Transforma os obstáculos que eles opõem às obras de sua glória em meios poderosíssimos de que se serve para dar-­lhes maior firmeza, maior perfeição e maior brilho.

Não se voltou a malícia de Satanás contra o primeiro homem, contra ele mesmo para sua confusão, e para proveito não só daquele homem mas de toda a sua posteridade? Pois Deus tirou tantos e tão grandes bens do mal em que a tentação do demônio fez cair o primeiro homem, que a Igreja canta na noite de Páscoa: Ó feliz culpa, ó feliz culpa que conheceu tão grande Redentor.

Não serviu a maldita inveja e a má vontade dos irmãos de José, como um meio da divina Providência para elevá-lo até à participação no trono real do Egito, e para dar-lhe o glorioso título de deus do Faraó?

De que serviu ao sucessor desse mesmo Faraó a dureza e crueldade que exerceu contra o povo de Deus, senão para abismá-lo, com todo o seu exército, no fundo do Mar Vermelho, e para melhor manifestar a proteção de Deus sobre os seus?

Enfim, pode dizer-se com verdade de todos quantos perseguem e afligem os servos de Deus o que Santo Agostinho disse do ímpio Herodes, quando mandou matar tantos Inocentes a fim de matar Aquele que viera para salvar todo o mundo: "Eis uma coisa maravilhosa, o ódio e crueldade desse ímpio inimigo de Deus e dos homens foram de muito maior proveito a essas bem-aventuradas crianças que toda a amizade que pudesse ter por elas e todos os favores que lhes pudesse ter feito".

É assim que o braço onipotente do Verbo encarnado derruba os empreendimentos dos soberbos pelo próprio pensamento de seus corações; e é à Virgem que cabe o papel de esmagar a cabeça da serpente, isto é, esmagar o orgulho e a soberba. Por isto, dEla se pode dizer com toda a razão: "Vós sois a glória de Jerusalém, vós sois a alegria de Israel, vós sois a honra do povo cristão, porque combatestes generosamente e gloriosamente vencestes os inimigos de sua salvação".

A primeira palavra é a voz dos anjos: Vós sois a glória de Jerusalém cujas ruínas foram reparadas por meio de Maria. A segunda é a voz dos homens: Vós sois a alegria de Israel cuja tristeza se transformou em alegria por seu intermédio. A terceira é a voz das mulheres: Vós sois a honra do povo cristão cuja infâmia foi apagada pelo fruto bendito de suas entranhas. A quarta é a voz das almas santas prisioneiras nos limbos, que foram libertadas do cativeiro pelo seu Filho bem-amado, o Redentor do mundo: Combatestes e gloriosamente vencestes.

Chegando o tempo em que aprouve ao Pai das misericórdias cumprir o seu eterno desígnio de salvar o gênero humano, a sua divina Sabedoria quis empregar, para tal fim, meios aparentemente sem aptidão alguma e em nada conformes à elevação dessa grande obra. 

Quais são? Ei-los: envia seu Filho único a este mundo em um estado passível e mortal, e em tal abjeção e baixeza a que E!e mesmo diz: Sou um verme da terra e não homem; e traz por titulo de honra em suas Escrituras: o último de todos os homens. Esse Pai adorável quer que seu Filho, nascido desde toda a eternidade em seu seio, e que é Deus como Ele, tome nascimento de uma Mãe, santíssima na verdade, mas tão abjeta e pequenina aos próprios olhos e aos olhos do mundo, que se considera como a última de todas as criaturas.

Além disso, esse Pai divino, querendo dar a seu Filho coadjutores e cooperadores para trabalharem com Ele na grande obra da redenção do universo, dá-Lhe doze pobres pescadores sem ciência, sem eloqüência e sem qualidades que os exaltem diante dos homens. Envia esses doze pescadores por toda a terra para destruir uma religião inteiramente conforme às inclinações humanas e enraizada desde muitos anos nos corações de todos os homens, e para estabelecer outra completamente nova, oposta à primeira e contrária a todos os sentimentos da natureza.

Os doze pobres pescadores se vão por todo o mundo para pregar e estabelecer a nova religião, e para destruir a primeira. Mas como são recebidos? Todo o mundo se ergue contra eles, grandes e pequenos, ricos e pobres, homens e mulheres, sábios e ignorantes, filósofos, sacerdotes dos falsos deuses, reis e príncipes; todos empregam a sua habilidade para opor-se à pregação do Evangelho que os doze pescadores se esforçam por publicar. São capturados, lançados nas prisões, acorrentados de pés e mãos, tratados como celerados e feiticeiros, açoitados, esfolados vivos, queimados, lapidados, crucificados, em uma palavra, submetidos aos mais atrozes suplícios.

E que acontece? Por fim alcançam a vitória, triunfam gloriosamente dos grandes, dos poderosos, dos sábios e de todos os monarcas da terra. Aniquilam a religião, ou antes, a irreligião e a abominável idolatria que o inferno estabelecera por toda a terra, e estabelecem por todo o mundo a fé e a religião cristãs. Enfim, permanecem senhores do universo e Deus lhes dá o principado da terra: Constitui-os principes sobre toda terra. O Senhor derruba os tronos dos reis e as cátedras dos filósofos; dá o primeiro império do mundo a um pobre pescador, elevando-o a tão alto grau de poder e glória, que os reis e os príncipes consideram uma grande honra beijar o pó de seu sepulcro e os pés de seus sucessores. Que é tudo isso, senão a realização da profecia da Bem-aventurada Virgem: Depôs do trono os poderosos, e elevou os humildes

Observai que, embora essas palavras, assim como as outras contidas nesse cântico, abrangem o passado, o presente e o futuro, porque são pronunciadas por espírito profético. E com efeito, a realização dessa profecia apareceu manifestamente nos séculos passados, e aparecerá cada vez mais nos séculos futuros, até o fim do mundo.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

15 de ago de 2015

Magnificat: Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem

Jan Provoost: o tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia

Depois de ter glorificado a Deus pelos favores infinitos com que A cumulou, e de ter feito a admirável profecia: "todas as gerações me chamarão Bem-aventurada", profecia que compreende um mundo  de maravilhas que o Onipotente operou e há de operar em todos os séculos e por toda a eternidade, para tornar essa Virgem Mãe gloriosa e venerável em todo o universo: eis uma outra profecia, cheia de consolação para todo o gênero humano, especialmente para aqueles que temem a Deus, pois essa divina Maria nos declara que a misericórdia de Deus se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem.

Qual é essa misericórdia? "É o nosso boníssimo Salvador", diz Santo Agostinho. Por isto, o Pai eterno é chamado Pai das misericórdias, porque Pai do Verbo encarnado, que é a própria misericórdia. É desta misericórdia que o profeta pedia a Deus, em nome de todo o gênero humano, a vinda a este mundo pelo mistério da Encarnação, quando dizia: "Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos o vosso Salvador"

Pois, como o Verbo encarnado é todo amor e todo caridade, é também todo misericórdia. Deus é sempre misericordioso por natureza e por essência, diz São Jerônimo, e sempre pronto a salvar por sua clemência os que não pode salvar por sua justiça. Mas somos tão desgraçados e tão inimigos de nós mesmos que, quando a misericórdia se nos apresenta para salvar-nos, nós lhe voltamos as costas e a desprezamos.

É pela Encarnação que o Filho de Deus exerceu a sua misericórdia, segundo as palavras do Príncipe dos Apóstolos: "que nos regenerou segundo a sua grande misericórdia" (I Pedro, I, 3). Pois todos os efeitos de misericórdia que o Salvador operou sobre os homens, desde o início do mundo até agora, e operará por toda a eternidade, procederam e procederão do adorável mistério de sua Encarnação, como de sua fonte e princípio primeiro. é por isso que Davi, pedindo perdão de seus pecados, ora desta maneira: "ó meu Deus, tende piedade de mim segundo a vossa grande misericórdia".

Três coisas são necessárias à misericórdia. A primeira é ter compaixão da miséria alheia; pois é misericordioso quem traz no coração, por compaixão, as misérias dos miseráveis. A segunda, é ter uma grande vontade de socorrê-los em suas misérias. A terceira, é passar da vontade à ação. Ora, o nosso bom Redentor encarnou-Se para exercer em nós a sua grande misericórdia.

Pois, fazendo-se homem, e tomando um corpo e um coração capaz de sofrimento e dor como o nosso, Ele se encheu de tal compaixão de nossas misérias e as levou em seu coração com tanta dor, que não há palavras para exprimi-la. Pois, de um lado, tendo um amor infinito por nós, como um pai boníssimo por seus filhos; e, de outro lado, tendo sempre diante dos olhos todos os males do corpo e do espírito, todas as angústias, todas as tribulações, todos os martírios e tormentos que seus filhos deveriam padecer até o fim do mundo; seu Coração foi dilacerado por mil dores, extremamente sensíveis e penetrantes, as quais Lhe teriam dado mil vezes a morte, se o seu amor, mais forte que a morte, não Lhe houvesse conservado a vida, a fim de sacrificá-la por nós na cruz.

Na verdade, o que não fez Ele e o que não sofreu para livrar-nos efetivamente de todas as misérias temporais e eternas nas quais nos tinham mergulhado os nossos pecados? Todas as ações de sua vida, e de uma vida de trinta e três anos, e de uma vida divinamente humana e humanamente divina; todas as virtudes que praticou, todos os passos e peregrinações que fez sobre a terra, todos os trabalhos que passou e todas as humilhações, privações e mortificações que suportou; todos os seus jejuns, preces, vigílias, pregações; todos os seus sofrimentos, chagas, dores, a sua morte crudelíssima e cheia de opróbrio, o seu precioso Sangue derramado até à última gota; todas essas coisas, digo eu, não foram todas essas coisas empregadas, não só para libertar-nos de toda espécie de males, mas também para dar-nos a posse de um império eterno, cheio de uma imensidade de glória, grandezas, alegrias, felicidades e bens inconcebíveis e inefáveis?

Mas que significam as palavras seguintes: Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem? Significam, segundo a expressão dos santos Doutores, que, assim como o nosso Salvador encarnou-Se e morreu por todos os homens, derrama também os tesouros de suas misericórdias sobre todos aqueles que não lhes opõem obstáculos, mas que O temem. De modo que, assim como me é uma fonte inexaurível de graça e de misericórdia, acha também um soberano prazer em comunicá-las continuamente a seus filhos, em todo tempo e em todo lugar.

Mas não quis fazer inteiramente só essa grande obra. Pois, além de fazer todas as coisas com o seu Pai e o seu divino Espirito, quis ainda associar a sua Mãe santissima nas grandes obras de sua misericórdia. Não é bom que o homem esteja só, disse Deus, quando quis dar a primeira mulher ao primeiro homem: façamos-lhe um adjutório semelhante a Ele. Assim, o novo homem, que é Jesus, quer ter um adjutório que é Maria, e seu Pai eterno Lhe concede para ser sua coadjutora e cooperadora na grande obra da salvação do mundo, que é a obra de sua grande misericórdia.

Maria é pois a administradora da misericórdia, porque Deus A encheu inteiramente de uma bondade, de uma doçura, de uma liberalidade extraordinária e de um poder sem igual, a fim de que Ela queira e possa assistir, proteger, amparar e consolar todos os aflitos, todos os miseráveis, e todos quantos a Ela recorrerem em suas necessidades. É o que Ela faz continuamente para com os indivíduos, os reinos, as províncias, as cidades, as casas e até para com todo o mundo, segundo as palavras de um dos mais santos e mais sábios Padres da Igreja, São Fulgêncio: "Há muito que o céu e a terra se teriam reduzido ao nada de que foram tirados, se Maria os não sustentasse".

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

14 de ago de 2015

Magnificat: realizou em mim maravilhas, santificado seja o seu nome

Tendo a Bem-aventurada Virgem dito no versículo precedente que todas as gerações A chamarão Bem-aventurada, neste declara as causas, que são as grandes coisas que Deus Lhe fez.

Quais são essas grandes coisas? Escutemos Santo Agostinho: "É uma grande coisa que uma Virgem seja mãe sem pai. É uma grande coisa que tenha levado em seu seio o Verbo de Deus Pai, revestido de sua carne. É uma grande coisa tornar-Se Mãe de seu Criador aquela que só se atribui a qualidade de serva".

Deus fez portanto coisas tão grandes a essa divina Virgem, que não pôde fazer-Lhe maiores. Pois que bem maior pode fazer no mundo, diz São Boaventura, seria possível uma Mãe maior e mais nobre que uma Mãe de Deus? Pois, se pudesse fazer maior, seria necessário dar-Lhe um Filho mais excelente. Ora, pode achar-se mais digno filho que o próprio Filho de Deus, de quem a Bem­aventurada Virgem Maria é a Mãe?

Que mais direi? Deus elevou tão alto essa Virgem incomparável e Lhe deu privilégios tão extraordinários que se pode dizer ter Ela dado à sua divina Majestade, se é permitido falar assim, coisas de certo modo maiores que as recebidas. De Deus, Ela recebeu ser sua criatura, ser-Lhe agradável, cheia de graça, bendita acima de tôdas as mulheres, etc. Mas a Deus, Ela deu ser o nosso Emanuel, isto é, Deus conosco; ser Deus e homem; o Redentor dos homens pelo precioso sangue que dEla recebeu; ter todo o poder no céu e na terra enquanto homem; ser o chefe da Igreja enquanto homem; ser o chefe dos anjos enquanto homem; perdoar os pecados enquanto homem.

Se o nosso Salvador deu a seus Apóstolos o poder de fazer milagres maiores que os feitos por Ele próprio, segundo o testemunho do Evangelho (João 14, 12), não é para admirar que tenha dado à sua Mãe santíssima o poder de Lhe dar coisas maiores que as dEle recebidas. Pois esse poder é uma das grandes coisas de que Ela fala ao dizer que o Todo-Poderoso Lhe fez grandes coisas ...

Depois de tudo isso, quem não admirará as grandes e maravilhosas coisas que Deus fez à gloriosa Virgem? E quem não reconhecerá que foi o Espírito Santo quem Lhe fez pronunciar as palavras: Faça-se em mim segundo a tua vontade? Oh! quantos prodígios e milagres compreendem essas palavras! Oh! como é grande ser Virgem e Mãe de um Deus! Oh! como é grande dar nascimento temporal em um seio virginal, Aquele que nasceu antes de todos os séculos no seio do Pai das misericórdias! Oh! como é grande para uma criatura mortal dar a vida Aquele de quem a recebeu! Oh! como é grande ter um poder e autoridade de Mãe sobre Aquele que é o soberano Monarca do universo! Oh! como é grande ser a nutridora, a guardiã e a governante dAquele que conserva e governa o mundo inteiro por sua imensa Providência! Oh! como é grande ser a Mãe de tantos filhos quantos cristãos tem existido e existirão para sempre na terra e no céu.

Eis muitas coisas grandes e maravilhosas, feitas por Deus à Rainha do céu. Mas eis o milagre dos milagres: é que, sendo tão grande quanto é, Ela se considera como se nada fosse.

Tendo a Bem-aventurada Virgem dito que o Onipotente Lhe fez grandes coisas, acrescenta em seguida as palavras: E santo é o seu Nome. O mistério assinalado por estas palavras consiste em que a humanidade santa do divino Menino, que a Bem-aventurada Virgem concebeu em suas entranhas, é santificada pela união intima em que Ela entrou com a santidade essencial, que é a Divindade; o que se acha também designado pelas palavras de São Gabriel: O que nascer de Ti, será chamado Santo.

O mistério consiste também em que esse Menino Deus é assim santificado e constituido Santo dos santos, a fim de santificar e glorificar o Nome do tres vezes Santo, tanto quanto Ele o merece; e ainda, a fim de fazê-lO santificado e glorificado na terra, no céu e em todo o universo, cumprindo, desta forma, o que se acha determinado nas palavras: seja santificado o vosso Nome.

Vede e admirai quantas maravilhas se acham contidas nessas poucas palavras, pronunciadas pelos sagrados lábios da Mãe do Santo dos santos, cujo santo Nome seja santificado, louvado e glorificado, por toda a eternidade.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

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