22 de jun de 2018

Nós, filhos de Deus, permaneçamos na paz de Deus

Cristo acrescentou claramente uma lei que nos obriga a determinada condição: que peçamos a remissão das dívidas, se nós mesmos perdoarmos aos nossos devedores, sabendo que não podemos alcançar o perdão pedido a não ser que façamos o mesmo em relação aos que nos ofendem. Por esta razão, diz em outro lugar: Com a mesma medida com que medirdes, sereis medidos. E aquele servo que, perdoado de toda a dívida por seu senhor, mas não quis perdoar o companheiro, foi lançado ao cárcere. Por não ter querido ser indulgente com o companheiro, perdeu a indulgência com que fora tratado por seu senhor.
Caim matando Abel, de Peter Paul Rubens

Cristo propõe o perdão com preceito mais forte e censura ainda mais vigorosa: Quando fordes orar, perdoai se tendes algo contra outro, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe os pecados. Se, porém, não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, não vos perdoará os pecados. Não te restará a menor desculpa no dia do juízo, quando serás julgado de acordo com tua própria sentença e o que tiveres feito, o mesmo sofrerás.

Deus ordenou que sejamos pacíficos, concordes e unânimes em sua casa. Mandou que sejamos tais como nos tornou pelo segundo nascimento; assim também ele nos quer renascidos e perseverantes. Deste modo nós, filhos de Deus, permaneçamos na paz de Deus e os que possuem um só Espírito tenham uma só alma e um só coração.

Deus não aceita o sacrifício do que vive em discórdia e ordena deixar o altar e ir primeiro reconciliar-se com o irmão, para que, com preces pacíficas, possa Deus ser aplacado. Maior serviço para Deus é a nossa paz e concórdia fraterna e o povo que foi feito uno pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo.

Nos sacrifícios que Abel e Caim foram os primeiros a oferecer, Deus não olhava os dons, mas os corações, de forma que lhe agradava pelo dom aquele que lhe agradava pelo coração. Abel, pacífico e justo, sacrificando com inocência a Deus, ensinou os outros a depositar seus dons no altar com temor de Deus, simplicidade de coração, empenho de justiça e de concórdia. Aquele que assim procedeu no sacrifício de Deus tornou-se merecidamente sacrifício para Deus. Sendo o primeiro a dar a conhecer o martírio, iniciou pela glória de seu sangue a paixão do Senhor, por ter mantido a justiça e a paz do Senhor. Esses serão, no fim, coroados pelo Senhor; esses, no dia do juízo, triunfarão com o Senhor.

Quanto aos discordantes, aos dissidentes, aos que não mantêm a paz com os irmãos, mesmo que sejam mortos pelo nome de Cristo, não poderão, conforme o testemunho do santo Apóstolo e da Sagrada Escritura, escapar do crime de desunião fraterna, pois está escrito: Quem odeia seu irmão é homicida. Não chega ao reino dos céus nem vive com Deus um homicida. Não pode estar com Cristo quem preferiu a imitação de Judas à de Cristo.

-- Do Tratado sobre a Oração do Senhor, de São Cipriano, bispo e mártir (século III)

10 de jun de 2018

Mórmons são cristãos? Não, mas é complicado.

Após Lutero e o Rei Henrique VIII surgiram diversas igreja saídas da Católica, com menores ou maiores diferenças doutrinárias e teológicas em relação à Católica. Este processo continuou, com mais e mais novas divisões, até a situação atual com milhares de igrejas que podem ser chamadas cristãs, acreditam em Deus Pai, seu filho Jesus Cristo e o Espírito Santo, e utilizam traduções da Bíblia que encontram suas raízes no trabalho de São Jerônimo. 

Uma diferença prática importante: a ISUD não batiza
recém-nascidos, apenas pessoas com um mínimo de
compreensão dos seus ensinamentos. marcado pela
idade de oito anos e sem deficiências mentais.
A Igreja Católica aceita plenamente o Batismo de outras igrejas cristãs, isto é, caso uma pessoa que tenha sido batizada, digamos, na Igreja Luterana converta-se a Igreja Católica, não será necessário batizá-la novamente por que o Batismo é feito com a mesma forma e intenção. Diferenças de natureza doutrinária não são suficientes para invalidar o Batismo, e isto é uma posição muito anterior à Lutero, com raízes numa decisão do Papa Estevão I no ano de 256, quando já ocorriam as primeiras separações da Católica.  

A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (ISUD), popularmente como  mórmons, surgiu a partir de um movimento liderado por Joseph Smith em torno de 1830. No início, o Batismo ministrado pelos mórmons foi aceito pela Igreja Católica, mas conforme seus ensinamentos foram alterados pelos seus líderes e melhor compreendidos por todos, tornou-se óbvio que esta decisão deveria ser revista. Hoje a Igreja Católica não aceita o Batismo ministrado pelos mórmons, ou seja, basicamente afirma que são tão diferentes do Cristianismo que já não podem ser chamados cristãos.

E por que isto é complicado? O problema é que a ISUD também batiza em nome do Pai, Filho e o Espírito Santo utilizando a água como sinal do batismo, ou seja, na aparência externa, seria um Batismo cristão, mas as semelhanças terminam aí, na exterioridade.

A invocação não é realmente da Santíssima Trindade por que o Pai, Filho e Espírito Santo são considerados não como as três pessoas de Deus, mas três deuses separados que existiam da maneira separada e, livremente, decidiram formar uma divindade. Ou seja, até mesmo a idéia de divindade só começaria  a existir a partir do momento em que os três deuses decidiram se unir. E ainda mais, Deus trata-se um ser nativo de outro planeta que se transformou em um ser humano e morreu de uma maneira humana, sendo esea um modo válido de transformar-se em Deus, também acessível a todos outros homens. Deus Pai tem ancestrais e uma esposa, a Mãe Celestial, com quem dividiu a responsabilidade da criação. Jesus Cristo é o primeiro filho desta união, assim como o Espírito Santo, nascidos após a criação do mundo. Para os mórmos há, no mínimo, quatro deuses, sendo que três deles decidiram unir-se para formar a divindade. Ou seja, as diferenças são tão profundas que não podem nem mesmo ser consideradas como uma heresia, mas como vindas de uma matriz teológica separada do cristianismo. 

Além disso há outras distinções importantes: para a Igreja Católica, o Batismo cancela não apenas os pecados pessoais, como também o pecado original. Já a ISUD sequer aceita a existência do pecado original e o pecado de Adão e Eva teria sido parte do plano de Deus. Também é possível batizar os antepassados já mortos e que isto conduz a salvação de suas almas. Na prática, isto leva os mórmons a cuidadosamente investigarem a história familiar em busca de pessoas a serem salvas. 

Joseph Smith, que iniciou o ISUD, acreditava na Bíblia mas afirmava que ela havia sido degenerada pela Igreja Católica que teria omitido livros e introduzido erros no texto. A partir daí completou uma revisão da Bíblia em 1833, incluindo o que considerou correções e seus próprios comentários. Também escreveu o Livro dos Mórmons, que explica seus ensinamentos e fundamenta sua teologia, sendo que este tem um status igual ao da Bíblia. 

Em síntese, embora na forma o Batismo da ISUD pareça ser cristão, as diferenças são muito grandes a ponto de não ser aceito pela Igreja Católica. Se algum mórmom se converter ao catolicismo, terá que ser batizado e declarar sua adesão ao Credo Niceno-Constantinopolitano: Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis.

-- autoria própria, com base em um documento publicado pela Congregação da Doutrina da Fé escrito por Pe. Luis Ladaria em 1o. de Agosto de 2011. 

4 de jun de 2018

A Teologia da Libertação, seus erros e o ensinamento da Igreja

A expressão "Teologia da Libertação" designa primeiramente uma preocupação privilegiada, geradora de compromisso pela justiça, voltada para os pobres e para as vítimas da opressão. A aspiração pela libertação, como o próprio termo indica, refere-se a um tema fundamental do Antigo e do Novo Testamento. Por isso, tomada em si mesma, a expressão "Teologia da Libertação" é uma expressão perfeitamente válida: designa, neste caso, uma reflexão teológica centrada no tema bíblico da libertação e da liberdade e na urgência de suas incidências práticas.
Na época, Papa João Paulo e Cardeal Joseph Ratzinger

A experiência radical da liberdade cristã constitui aqui o principal ponto de referência. Cristo, nosso Libertador, libertou-nos do pecado e da escravidão da lei e da carne, que constitui a marca da condição do homem pecador. Ê pois a vida nova da graça, fruto da justificação, que nos torna livres. Isto significa que a mais radical das escravidões é a escravidão do pecado. As demais formas de escravidão encontram pois, na escravidão do pecado, a sua raiz mais profunda. É por isso que a liberdade, no pleno sentido cristão, caracterizada pela vida no Espírito, não pode ser confundida com a licença de ceder aos desejos da carne.

A libertação é antes de tudo e principalmente libertação da escravidão radical do pecado. Seu objetivo e seu termo é a liberdade dos filhos de Deus, que é dom da graça. Ela exige, por uma consequência lógica, a libertação de muitas outras escravidões, de ordem cultural, econômica, social e política, que, em última análise, derivam todas do pecado e constituem outros tantos obstáculos que impedem os homens de viver segundo a própria dignidade. Discernir com clareza o que é fundamental e o que faz parte das consequências, é condição indispensável para uma reflexão teológica sobre a libertação.

Na verdade, diante da urgência dos problemas, alguns são levados a acentuar unilateralmente a libertação das escravidões de ordem terrena e temporal, dando a impressão de relegar ao segundo plano a libertação do pecado e portanto de não atribuir-lhe praticamente a importância primordial que lhe compete. A apresentação dos problemas por eles proposta torna-se por isso confusa e ambígua.

Não se pode tampouco situar o mal unicamente ou principalmente nas estruturas econômicas, sociais ou políticas, como se todos os outros males derivassem destas estruturas como de sua causa: neste caso a criação de um "homem novo" dependeria da instauração de estruturas econômicas e socio-políticas diferentes. Há, certamente, estruturas iníquas e geradoras de iniquidades, e é preciso ter a coragem de mudá-las. Fruto da ação do homem, as estruturas boas ou más são consequências antes de serem causas. A raiz do mal se encontra pois nas pessoas livres e responsáveis, que devem ser convertidas pela graça de Jesus Cristo, para viverem e agirem como criaturas novas, no amor ao próximo, na busca eficaz da justiça, do auto-domínio e do exercício das virtudes.

O sentimento angustiante da urgência dos problemas não pode levar a perder de vista o essencial, nem fazer esquecer a resposta de Jesus ao Tentador (Mt 4, 4):  "Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que procede da boca de Deus" (Dt 8, 3). Assim, sucede que alguns, diante da urgência de repartir o pão, são tentados a colocar entre parênteses e a adiar para amanhã a evangelização: primeiro o pão, a Palavra mais tarde. É um erro fatal separar as duas coisas, até chegar a opô-las. O senso cristão, aliás, espontaneamente sugere a muitos que façam uma e outra. A alguns parece até que a luta necessária para obter justiça e liberdade humanas, entendidas no sentido econômico e político, constitua o essencial e a totalidade da salvação. Para estes, o Evangelho se reduz a um evangelho puramente terrestre.

Aplicados à realidade econômica, social e política de hoje, certos esquemas de interpretação tomados de correntes do pensamento marxista podem apresentar, à primeira vista, alguma verosimilhança na medida em que a situação de alguns países oferece analogias com aquilo que Marx descreveu e interpretou, em meados do século passado. No entanto, lembremos que o ateísmo e a negação da pessoa humana, de sua liberdade e de seus direitos, encontram-se no centro da concepção marxista. Esta contém de fato erros que ameaçam diretamente as verdades de fé sobre o destino eterno das pessoas. O desconhecimento da natureza espiritual da pessoa, aliás, leva a subordiná-la totalmente à coletividade e deste modo a negar os princípios de uma vida social e política em conformidade com a dignidade humana.

As Teologias da Libertação fazem um amálgama pernicioso entre o pobre da Escritura e o proletariado de Marx. Perverte-se deste modo o sentido cristão do pobre e o combate pelos direitos dos pobres transforma-se em combate de classes na perspectiva ideológica da luta de classes. A Igreja dos pobres significa então Igreja classista, que tomou consciência das necessidades da luta revolucionária como etapa para a libertação e que celebra esta libertação na sua liturgia. A partir de semelhante concepção da Igreja, elabora-se uma crítica das próprias estruturas da Igreja. Não se trata apenas de uma correção fraterna dirigida aos pastores da Igreja, trata-se, sim, de pôr em xeque a estrutura sacramental e hierárquica da Igreja, tal como a quis o próprio Senhor. Teologicamente, esta posição equivale a afirmar que o povo é a fonte dos ministérios e portanto pode dotar-se de ministros à sua escolha, de acordo com as necessidades de sua missão revolucionária histórica. A doutrina social da Igreja é rejeitada com desdém. Esta procede, afirma-se, da ilusão de um possível compromisso, próprio das classes médias, destituídas de sentido histórico.

Para a Igreja, uma defesa eficaz da justiça deve apoiar-se na verdade do homem, criado à imagem de Deus e chamado à graça da filiação divina. O reconhecimento da verdadeira relação do homem com Deus constitui o fundamento da justiça, enquanto regula as relações entre os homens. Esta é a razão pela qual o combate pelos direitos do homem, que a Igreja não cessa de promover, constitui o autêntico combate pela justiça.

A verdade do homem exige que este combate seja conduzido por meios que estejam de acordo com a dignidade humana. Por isso o recurso sistemático e deliberado à violência cega, venha essa de um lado ou de outro, deve ser condenado. Pôr a confiança em meios violentos na esperança de instaurar uma maior justiça é ser vítima de uma ilusão fatal. Violência gera violência e degrada o homem. Rebaixa a dignidade do homem na pessoa das vítimas e avilta esta mesma dignidade naqueles que a praticam. É pois igualmente ilusão fatal crer que novas estruturas construídas de maneira violenta darão origem por si mesmas a um "homem novo". O cristão não pode desconhecer que o Espírito Santo que nos foi dado é a fonte de toda verdadeira novidade e que Deus é o senhor da história.

* partes do documento Instrução sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação, publicado pela Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em 6 de Agosto de 1984, na Festa da Transfiguração do Senhor, assinado pelo então Cardeal Joseph Ratzinger e sebscrito por São João Paulo II, papa. 

29 de mai de 2018

Adão, julgamento e a misericórdia de Deus

Todos nós conhecemos a história de Adão e Eva, mas é interessante ver alguns detalhes:

Gn 2, 9: Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conehcimento do bem e do mal.

Gn 2, 15-17: Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no meio do jardim de Éden para o cultivar e guardar. E Iahweh Deus deu ao homem este mandamento: "Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer".
Detalhe de "A Queda", pintura de Hugo van der Goes (após 1479).

Gn 3, 9-13: Iahweh Deus chamou o homem: "Onde estás?" disse ele: "Ouvi teu passo no jardim", respondeu o homem, "tive medo porque estou nu, e me escondi." Ele retomou: "E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer?" O homem respondeu: "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!". 

Do versículo 2,9 vemos claramente que havia duas árvores especiais que foram citadas em separado: (1) a árvore da vida e a (2) do conhecimento do bem e do mal. A árvore da vida representava a imortalidade, estar junto de Deus; repousar na sombra da árvore da vida é acreditar na vida eterna. A árvore do conhecimento do bem e do mal representa a faculdade de decidir por si mesmo o que é bom e o que é mal, reinvidicar para si mesmo a autoridade moral e negar que Deus, como Criador, está acima da pessoa humana, comer dos furtos desta árvore é um pecado de orgulho, que querer se comparar a Deus.

Dos versículos 2-17, Deus deixa claro que todas as árvores estão ao dispor de Adão, mas ele deveria evitar o pecado do orgulho, isto é, comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Os frutos da árvore da vida estão à disposição do homem, ele não é, de modo algum, proibida. Como um sinal da vida eterna, está sempre a disposição do homem, basta ir procurá-la. Já desde o início da Igreja, a Cruz de Cristo passa a ser considerada como uma nova árvore da vida, donde obtemos a vida eterna.

Os versículos  do capítulo 3 narram o diálogo de Deus com Adão. Perguntado se havia pecado, comido o fruto da árvore proibida, Adão prontamente responde:  "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!" Ou seja, para Adão há dois culpados: a mulher, que deu o fruto proibido, e Deus, que criou a mulher. Adão julga a Deus e a mulher para se fazer inocente. Como resuultado, Adão e Eva são expulsos do paraíso.  

Mas poderia Adão ter agido diferente? Claro que sim! Não digo não apenas comer o fruto, isto é seguir aos conselhos de Deus. Adão poderia ter respondido diferente, poderia ter admitido a sua culpa e implorado perdão. Não é preciso citar a Jesus Cristo perdoando a vários pecadores, basta olhar os dois próximos episódios no livro de Gênesis, para ver que Deus agiria diferente:

Gn 4, 9-15: Caim matou seu irmão Abel por ciúmes e Deus também inicia um diálogo com Caim perguntando-lhe: "Onde está o teu irmão Abel?" Ao perceber que Caim havia matado Abel, Deus lhe condena, mas Caim, ao contrário de Adão, admite seu erro: "Minha culpa é muito pesada para suportá-la" e teme que seja morto por vingança: "o primeiro que me encontrar me matará".  Deus então colocou um sinal sobre Caim, a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse, ou seja, os homens não deveriam fazer justiça contra Caim, mas aguardar a justiça de Deus. 

Gn 6, 5-8: A história do Dilúvio inicia com Deus reconhecendo que o homem havia se perdido, que a maldade dominava a terra. Deus é claro e estava decidido: "Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei". Mas vendo que havia um justo sobre a terra, apenas um homem justo, um homem que reconhecia estar abaixo de Deus, que não se deixava guair pelo mesmo orgulho de Adão, Deus muda de idéia, salva a Noé e sua família. 

Houvesse Adão dito algo como: "Sim, pequei! Fui preguiçoso, poderia ter estado ao lado de Eva, mas preferi descansar e isto deu a oportunidade que a serpente procurava", Deus poderia ter agido diferente, mas Adão preferiu não assumir a culpa, preferiu acusar a Eva e até mesmo Deus. Na verdade, Adão não confiou na misericórdia divina. 

Neste sentido, Jesus Cristo foi o perfeito contrário de Adão, não apenas não tinha culpa, como ainda justificou seus assassinos e pediu por eles quando já estava próximo a morrer na cruz: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem!" (Lucas 23, 34). A cruz de Cristo é dita ser a árvore da vida na qual podemos repousar nossos pecados e aflições. Pois é esta árvore da vida que Adão e Eva não procuraram, pois prefiriram a outra árvore que lhes era proibida.  

E esta é uma lição que pode ser de muito proveito para nós, pois todos pecamos e a todos Deus estende a sua misericórdia, não importa o pecado que tenhamos cometido. Admitir a própria culpa é admitir que não agiu conforme os mandamentos, ou seja, que Deus instituiu-os para nossa orientação, e ajuda, por que nos ama.

-- autoria própria


14 de abr de 2018

Os salmos de subida - Que alegria é estar com o Senhor

Os Salmos de Subida formam um conjunto de 15 salmos (120-134). Sem dúvida eram salmos cantados pelos judeus peregrinos que iam à Jerusalém em uma das três grandes festas anuais. São chamados "de subida" exatamente por que Jerusalém está nas montanhas, enquanto a maioria da população preferia morar nos vales mais férteis, ou seja, ir a Jerusalém, ainda hoje, é subir a montanha para encontrar o Senhor no alto. 
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Jerusalém no tempo de Cristo, no alto das montanhas e cercada por muralhas.
Para proteção suas portas eram estreitas e sempre guardadas. 
No Livro do Deuteronômio (16, 16), assim está ordenado: "Três vezes ao ano, todo homem deverá comparecer diante de Yahweh teu Deus, no lugar que Ele houver escolhido: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas e na festa das Tendas". Se hoje, de carro e por auto-estradas, esta subida pode levar uma hora ou mais, nos tempos bíblicos eram necessários dias. É em uma destas visitas a Jerusalém que o menino Jesus perdeu-se dos pais, e é ao final de uma destas subidas que Jesus é festivamente saudado pelo povo no Domingo de Ramos.

Se cada salmo já é uma benção de Deus, vê-los em conjunto nos ajuda a entender melhor a experiência de um judeu peregrino que ia a Jerusalém, deixando seu trabalho e bens por alguns dias, arriscando um pouco da sua vida, saindo do seu conforto diário.

Salmo 120: é o primeiro dos salmos de subida, o personagem deste salmo ainda está na planície, cercado por inimigos, por um povo que quer guerra, mas, no coração, este judeu já é um peregrino, pronto para partir. Esta acampado em Cedar, atual Síria, muito longe de Jerusalém, mas grita a Deus e pede seu auxílio.

Salmo 121: Ao pé da montanha, pronto para iniciar a subida, o peregrino diz: "Ergo os olhos para os montes, de onde virá meu socorro? Não deixará meu pé tropeçar, o teu guarda jamais dormirá". A subida pelas montanhas era dificil, era necessário dormir ao ar livre, onde animais poderiam atacar, por isto era importante que os guardas não dormissem. Também havia o risco de ladrões em busca do dinheiro que seria usado para pagar o dízimo no templo. O Sol durante o dia e o frio à noite são desafios, é necessário confiar em Deus durante a subida e em todos momentos da vida.

Salmo 122: Mas se o caminho é difícil, a esperança de chegar a Jerusalém, de chegar à presença de Deus, enche o coração de alegria. O peregrino canta: "Que alegria quando me disseram: vamos a casa do Senhor!". Para lá se dirijem todas tribos de Israel, que Deus guarde Jerusalém de seus inimigos, pelos séculos dos séculos.

Salmo 123: Já chegando a Jerusalém, o peregrino se pergunta: será que sou digno de entrar em teus palácios, ó Senhor? Reconhece seus erros, seus pecados, e suplica "Piedade, Senhor! Tenha Piedade!".

Salmo 124: E vendo que o caminho estava completo, que passara por perigos, mas Deus o protegera, o peregrino pode dizer: "Não estivesse Iahweh ao nosso lado quando os homens nos assaltaram,ter-nos-iam tragados vivos". "Bendito seja Iahweh, não nos entregou como presas aos seus dentes, mas fugimos vivos". "Nosso socorro é o Senhor, que fez o céu e a terra!"

Salmo 125: Quase o mesmo tema do salmo anterior, Deus protege seus filhos, eles podem confiar que chegarão ao monte Sião, onde está Jerusalém, que também indica os céus. Na certeza da ressurreição, podemos confiar que estaremos ao lado de Deus. Os justos, de bom coração, não temem a Deus, mas o que preferem outros caminhos serão expulsos da Jerusalém celeste.

Salmo 126: Já em frente à Jerusalém, uma cidade esplendorosa, muito acima da sua experiência diária no pequeno vilarejo em que morava, o peregrino pode olhar a sua vida, ver como Deus agiu lhe salvando muitas vezes, e dizer que Deus fez grandes coisas por ele. Esta experiência de Deus vai mudar sua vida, por que chegou a Jerusalém chorando seus pecados, sem saber se merecia estar ali, mas sairá renovado, alegre e cantando. São os frutos que colherá, "por que ao ir, se vai chorando, levando as sementes, mas ao voltar, se volta cantando, trazendo os feixos".  

Salmo 127: Embora a cidade seja grandiosa, é necessário dizer que se o Senhor não constrói a casa, o trabalho dos homens é inútil, se o Senhor não guarda a cidade, os guardas vigiam a cidade em vão. A própria história de Israel é um exemplo, pois quando o povo substituiu o Senhor por outros deuses, mesmo a invencível Jerusalém foi derrotada, o povo tornou-se escravo na Babilônia e o templo vandalizado. Coloca tuas forças em Deus e nunca precisarás temer o inimigo.
Interior do templo em Jerusalém, imenso e riquíssimo. Imagine a experiência
de um camponês simples, vivendo em uma terra desértica, ao entrar neste prédio
Salmo 128: Esta é  benção para o fiel: terá uma boa esposa, bons filhos, uma casa e saúde para trabalhar. Poderá peregrinar a Jerusalém, encontrar-se com o Senhor todos anos.

Salmo 129: Ainda que o fiel seja ameaçado, atacado pelos inimigos, poderá contar com o Senhor e dizer: "Os inimigos lavram minhas costas, mas o Senhor é justo, cortou os chicotes dos ímpios".  Estes inimigos ainda irão se envergonhar dos seus pecados, reconhecer sua fraqueza, reconhecer a Deus e dizer aos que fiéis que no passado atacaram: "Que o Senhor vos abençoe".

Salmo 130: Ao chegar em Jerusalém, o peregrino está aflito, do profundo do seu peito sai um grito e pede que os ouvidos do Senhor lhe ouçam. Não é digno,de fato  ninguém é digno de estar ali, mas com esperança de ser ouvido, pede que Deus perdoe seus pecados, e não apenas os dele, mas os de todo Israel, pois a graça de Deus é abundante.

Salmo 131: O peregrino é como uma criança que coloca seus pedidos no colo do Pai, pois sabe que sua esperança não será em vão, pois o Pai lhe ama muitíssimo.

Salmo 132: As promessas feitas por Deus de que construiria um templo, um lugar permanente para a Arca da Aliança, foram cumpridas. Disto o peregrino é testemunha, pois está ali no Templo, vendo os sacerdotes, as procissões, os cantos e todo povo reunido ao redor de Deus. Iahweh prometeu a Davi e cumpriu. Que Deus continue abençoando o povo, seus filhos e colheitas, pois esta é a segurança de Israel.

Salmo 133: Estar ali no Templo é bom, é agradável estar juntos com os irmãos na fé. É como o orvalho, a umidade que cai sobre o deserto, é uma benção para a vida, já uma antevisão da vida eterna. 

Salmo 134: Por fim, basta apenas pedir a benção de Deus sobre todo povo de Israel. Os sacerdotes conduzem a liturgia e o povo responde reconhecendo que o Senhor fez o céu e a terra. Dali o peregrino sairá feliz, tendo visto o Senhor e experimentado um pouquinho do céu ainda na terra. Estes são os frutos que colheu ao peregrinar até a cidade no alto, até Jerusalém.

Nós, cristãos em 2018, somos chamados à esta mesma experiência: peregrinar, abandonar um pouco seu trabalho e bens, e se arriscar em busca do Senhor. Fisicamente, podemos ir a Jerusalém, Roma ou aos grandes santuários marianos, mas não com espírito de turismo, mas para entrar em oração, vendo nossas fraquezas, pedindo ao Pai ajuda e louvando por tudo que tem realizado em nossas vidas.

-- autoria própria

24 de mar de 2018

O sofrimento de Cristo na cruz

A Cruz é um escândalo
Como disse São Paulo, "a Cruz é um escândalo" por que é impossível entender que alguém com poder para evitá-la, prefira, conscientemente, passar por todo sofrimento. É um escândalo por que a razão humana não a aceita. E assim é com todo sofrimento, sempre buscamos a tranquilidade, a felicidade e a alegria, mas, em muitos momentos da vida, encontramos o sofrimento. A Cruz de Cristo só pode ser explicada se você olhar além dela, para a Ressurreição. É ela que lança uma nova luz sobre o sofrimento de Cristo, é ela que pode lançar uma nova luz para explicar nossos sofrimentos diários.

A descida da Cruz, de Jean Jouvenet
Sempre que estamos doentes, percebemos nossos limites. Se a doença for mais grave, vemos a morte de perto. Se estamos sofrendo por que uma pessoa amada faleceu, então é exatamente a morte que estamos contemplando, estamos contemplando nossos limites temporais, que um dia nossos dias na Terra terminarão, que nossos dias de tranquilidade, felicidade e alegria são necessariamente limitados. Não sofremos apenas por doença, sofremos emocionalmente em muitas situações, por exemplo, se uma pessoa amada nos abandona ou trai, se sofremos uma injustiça, uma falsa acusação que nos leva a perder o emprego. Muitas pessoas, frente ao sofrimento, caem no desespero, perdem a esperança de uma vida melhor, e terminar por tirar a própria vida.

O sofrimento no Antigo Testamento
No Antigo Testamento há muitos exemplos de pessoas que sofreram. José foi vendido pelos irmãos para ser levado ao Egito como escravo, traído pela própria família que ele amava. No Egito foi acusado falsamente por uma mulher e posto na cadeia. Jó tinha filhos, muitos bens, uma vida estável. Perdeu a saúde, tinha feridas, os ex-amigos o abandonaram, perdeu filhos, esposa, os bens. Mas, anos depois, José entende o plano de Deus, como tinha que estar no Egito e ser preso para conhecer o chefe da guarda, saber dos sonhos do Faraó, para se tornar o administrador do reino, salvar sua família e perdoar os irmãos. Jó, um homem inocente que sofreu, louvava a Deus por tudo, reconhecia o poder de Deus, sabia que Deus lhe havia dado a vida e tudo mais, e também tinha poder para retirá-la. Mantendo sua fé, recuperou tudo que possuía, mas agora não por seu esforço, mas pela compaixão de Deus. José, traído pelos seus irmãos para salvá-los, prefigura Cristo traído por seu discípulo; Jó, o homem inocente sofredor, prefigura Cristo, inocente e sofredor.

A Paixão de Cristo
Cristo, o filho de Deus nascido homem, nos amou até o extremo, até perder todas as forças, até morrer na Cruz, aceitou o sofrimento de maneira total e perfeita. Na Última Ceia, Cristo mesmo explicou: Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). Cristo sofreu na Cruz para nos dar a vida definitiva, a vida eterna. Naquela noite Cristo venceu a morte e dos infernos retornou vitorioso, ó noite maravilhosa (Pregão Pascal). Nesta noite nascemos novamente, livres do mal e do pecado, perdemos o medo da morte e podemos enfrentar o sofrimento de frente. É a ressurreição que explica a Cruz. 

Sendo obediente ao Pai até o final, até sua morte, Jesus elimina a raiz de todos os sofrimentos. É o ápice de todos os milagres, pois até ali Jesus havia curados a muitos, ressuscitado alguns, tocado outros com sua palavra, mas na Cruz realizou um milagre que beneficia a todos, inclusive a nós que estamos há dois mil anos longe de Jerusalém. É nesta cruz que Cristo cura nossas fraquezas físicas e espirituais. 

Por que Cristo escolheu a Cruz? Sendo Filho de Deus Onipotente e Onisciente, Cristo poderia salvar a todos com um estalar de dedos, um momento mágico, não precisaria escolher o caminho da Cruz. Mas esta solução tiraria toda nossa liberdade de escolha, o livre arbítrio que nos faz humanos e não robôs. Ao mesmo tempo seria como dizer que nossos pecados não são importantes, que nossas escolhas são irrelevantes, seria como como dizer: "Tudo bem, é só uma criancinha mesmo." Como adultos precisamos entender que nossas escolhas tem consequência, que nossos pecados nos afastam da Salvação de Jesus Cristo. Não está sempre tudo bem, muitas vezes é preciso retormar o caminho, e por isso a Igreja nos oferece o sacramento da Reconciliação.

Nossos sofrimento, a nossa Cruz
Muitos santos mudaram sua vida ao passar por uma enfermidade grave, como São Francisco e Santo Inácio de Loiola, que se converteram enquanto estavam convalecendo. Esta é uma experiência também comum para nós, pois certamente já ouvimos algo como "Fulano se curou de um câncer e agora é uma ppessoa mudada". Para estes santos, foi na doença em que Cristo lhes convidou: "Siga-me! Toma tua Cruz, una-se a Mim, encontre tua Salvação!".

Nesta Semana Santa, é isto que Cristo está nos dizendo também: olhe para a tua Cruz, seja ela qual for, talvez um marido bêbado e violento, talvez uma traição, uma doença, uma injustiça, o desemprego, abraça a tua Cruz, esta é a Cruz da tua Salvação, identifique tua cruz, precisas saber qual é a tua cruz por que ela é essencial para ti. Abrace esta Cruz e siga a Juesus, ame a tua Cruz e tua vida mudará, por que após a Cruz está a Ressurreição de Cristo, a vitória sobre a morte!

-- co-autoria com minha esposa após lermos a Carta Apóstólica Salvifici Doloris, do Papa João Paulo II. 

22 de mar de 2018

A Igreja, sacramento visível da unidade salvífica

Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança... Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo... Todos me conhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor (cf. Jr 31,31.33.34).

Foi essa aliança nova que Cristo instituiu, isto é, a nova aliança no seu sangue, chamando judeus e pagãos para formarem um povo que se reunisse na unidade, não segundo a carne, mas no Espírito, e constituísse o novo povo de Deus.

Os que creem em Cristo, renascidos não de uma semente corruptível, mas incorruptível, pela palavra do Deus vivo, não da carne, mas da água e do Espírito Santo, são por fim constituídos a raça escolhida, o sacerdócio do Reino, a nação santa, o povo que ele conquistou... que antes não eram povo, agora, porém, são povo de Deus (1Pd 2,9.10).

Este povo messiânico tem por cabeça Cristo, que foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação (Rm4,25) e agora, tendo recebido um nome que está acima de todo nome, reina gloriosamente nos céus.

Este povo tem a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações o Espírito Santo habita como em seu templo.

Tem como lei o novo mandamento de amar como o próprio Cristo nos amou.

Tem como fim o Reino de Deus, que ele mesmo iniciou na terra, e deve desenvolver-se sempre mais, até ser no fim dos tempos consumado pelo próprio Deus, quando Cristo, nossa vida, aparecer e a criação for libertada da escravidão da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus (Rm 8,21).

Portanto, o povo messiânico, embora não abranja atualmente todos os homens e apareça muitas vezes como um pequeno rebanho, é entretanto, para todo o gênero humano, fecundíssima semente de unidade, de esperança e de salvação.

Constituído por Cristo para uma comunhão de vida, de amor e de verdade, e por ele assumido para ser instrumento da redenção universal, é enviado ao mundo inteiro como luz do mundo e sal da terra.

Assim como Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus, também o novo Israel, que caminha neste mundo em busca da cidade futura e permanente, é chamado Igreja de Cristo, pois foi ele que a adquiriu com o seu sangue, encheu-a de seu Espírito e dotou-a de meios aptos para uma união visível e social.

 Deus convocou todos aqueles que olham com fé para Jesus, autor da salvação e princípio da unidade e da paz, e com eles constituiu a Igreja, a fim de que ela seja, para todos e para cada um, o sacramento visível desta unidade salvífica.

-- Da Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II (século XX)

12 de mar de 2018

Sobre a participação dos católicos na vida política

Em dois mil anos de história os cristãos tem participado na vida comunitária de diversas formas, incluindo na vida política. Nas sociedades democráticas atuais, os cristãos podem participar de diversas maneiras através do voto consciente, do cumprimento dos seus deveres civis, no respeito às autoridades constituídas, sempre guiados pela sua consciência cristã. Os cristãos não podem deixar de participar da política e de promover o bem comum, buscando um ambiente que haja ordem pública e a paz, a liberdade e a igualdade, o respeito da vida humana e do ambiente, a justiça e a solidariedade.
São Tomás Moro foi primeiro ministro da Iglaterra,
morreu condenado por se manter fiel à Santa
Igreja Católica, contrariando o Rei Henrique VIII.

Na sociedade civil constata-se hoje um relativismo cultural, que defende um pluralismo ético que sanciona a decadência e a dissolução da razão e dos princípios da lei moral natural, não é raro ouvir afirmações que defendem que esse pluralismo ético é condição para a democracia. Segundo esta falsa tese pluralista  não existiria uma norma moral, radicada na própria natureza do ser humano e a cujo ditame deva submeter-se toda a concepção do homem, do bem comum e do Estado. Invocando de maneira distorcida o valor da tolerânci, pedem a uma boa parte dos cidadãos – entre eles, aos católicos – que renunciem aos conceitos de pessoa e bem comum que consideram humanamente verdadeiro e justo.

A Igreja entende que a via da democracia é a que melhor exprime a participação direta dos cidadãos nas escolhas políticas, mas isso só é possível se existir uma concepção da pessoa adequada. O empenho dos católicos é não deixar comprometer seus valores morais,  faltando com o testemunho da fé cristã no mundo. A estrutura democrática será um frágil se não tiver como seu fundamento a centralidade da pessoa.  A liberdade política não é nem pode ser fundada sobre a ideia relativista, segundo a qual, todas as concepções do bem do homem têm a mesma verdade e o mesmo valor. 

O fato de haver várias soluções para os mesmos problemas justifica a existência de vários partidos, mas o cristão deve escolher entre as alternativas moralmente aceitáveis.  Não cabe à Igreja formular soluções concretas para questões temporais, que Deus deixou ao juízo livre e responsável de cada um, embora seja seu direito e dever pronunciar juízos morais sobre realidades temporais, quando a fé ou a lei moral o exijam. O cristão tem liberdade de escolha entre as alternativas existentes, mas seus valores éticos não são “negociáveis”.

Os católicos têm o direito e o dever de intervir, apelando para o sentido mais profundo da vida, têm a “clara obrigação de se opor” a qualquer lei que represente um atentado à vida humana, como aborto e eutanásia. Para todo o católico é uma impossibilidade participar em campanhas de opinião em favor de semelhantes leis, não sendo a ninguém consentido apoiá-las com o próprio voto. A consciência cristã não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a atuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos. Uma vez que a fé constitui como que uma unidade indivisível, não é lógico isolar um só dos seus conteúdos em prejuízo da totalidade da doutrina católica.

Isto se aplica às leis civis em matéria de aborto e de eutanásia, que restrigem o direito primário à vida, desde o seu concebimento até ao seu termo natural, deve-se respeitar e proteger os direitos do embrião humano. Analogamente, devem ser salvaguardadas as famílias, fundada no matrimónio monogâmico entre pessoas de sexo diferente e protegida na sua unidade e estabilidade, perante as leis modernas em matéria de divórcio: não se pode, de maneira nenhuma, pôr juridicamente no mesmo plano com a família outras formas de convivência, nem estas podem receber, como tais, um reconhecimento legal. Igualmente, a garantia da liberdade de educação, que os pais têm em relação aos próprios filhos, é um direito inalienável. No mesmo plano, devem incluir-se a tutela social dos menores e a libertação das vítimas das drogas e da exploração da prostituição. Também inclui o direito à liberdade religiosa e o progresso para uma economia que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum. Deve-se, por fim, buscar-se a paz, fruto da justiça e efeito da caridade”; que exige a recusa radical e absoluta da violência e do terrorismo e requer um empenho constante e vigilante da parte de quem está investido da responsabilidade política. 

São Luis governou a França por 56 anos, sempre mantendo
uma vida devota e se deixando guiar por príncipios cristãos
ao decidir os rumos do país.
Todos os fiéis têm plena consciência de que os atos especificamente religiosos (profissão da fé, prática dos atos de culto e dos sacramentos, doutrinas teológicas, comunicação recíproca entre as autoridades religiosas e os fiéis, etc.) permanecem fora das competências do Estado, que nem deve intrometer-se neles nem, de forma alguma, exigi-los ou impedi-los, a menos de fundadas exigências de ordem pública.

O ensinamento social da Igreja não é uma intromissão no governo de cada País. Não há dúvida, porém, que põe um dever moral de coerência aos fiéis leigos, no interior da sua consciência. “Não pode haver, na sua vida, dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida ‘espiritual’, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida ‘secular’, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura.

Escolhas e participação política que contrariem os princípios basilares da consciência cristã, não são compatíveis com a pertença a associações ou organizações que se definem católicas. Também devem recusar as posições e comportamentos que se inspiram numa visão utópica que resulta em uma espécie de profetismo sem Deus, orientando a paessoa para uma esperança unicamente terrena. Ao contrário, os cristãos são chamados a se empenharem decididamente na construção de uma cultura que proponha o património de valores e conteúdos da Tradição católica.

Convém ainda recordar uma verdade que hoje nem sempre é bem entendida: o direito à liberdade religiosa está fundado sobre a dignidade da pessoa humana e, de maneira nenhuma, sobre uma inexistente igualdade entre as religiões e sistemas culturais humanos. Governos e a sociedade não devem, de modo algum submeter as pessoas à leis ou ações que visam restringir a procura da  religião e a adesão à mesma.

Por fim, lembramos São João Paulo II: “Queiram os fiéis exercer as suas atividades terrenas, unindo numa síntese vital todos os esforços humanos, familiares, profissionais, científicos e técnicos, com os valores religiosos, sob cuja altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus”

-- este texto é um resumo da "Nota Doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política" publicada pela Congregação para Doutrina da Fé, em 21 de Novembro de 2002, quando ainda era presidida pelo então Cardeal Ratzinger.



17 de fev de 2018

Beato Frade Angélico, o patrono dos pintores

Guido di Pietronasceu em 1395, próximo da cidade de Fiesole, Itália. Sobre seus pais, família e infância não há nenhum registro. Em 17 de Outubro de 1417, ele foi registrado como membro da Paróquia de Carmine, já tendo declarado que por profissão era pintor, o que é confirmado por dois recibos de pagamento por seus trabalhos na Igreja de Santo Estevão. O próximo registro, datado de 1423, já informado que era um frade dominicano e havia mudado o nome para João, em honra ao evangelista. Mas, nos dias atuais, é conhecido como Fra Angélico, pois seus trabalhos eram tão perfeito que só poderiam ter sido feitos por anjos.
A Anunciação

Seu primeiro trabalho conhecido foi o altar da Igreja de São Domingos, em Fiesole. No início de 1425 pintou a Anunciação, que hoje está no Museu do Prado em Madri. Em primeiro plano, o anjo anuncia a Maria que está grávida do Filho de Deus, ao fundo Adão e Eva se afastam da presença de Deus. Ali Deus inicia sua obra de salvação através de Jesus Cristo, Maria, iluminada pelo Espírito Santo, aceita sua missão, tudo em contraste com o que aconteceu no Jardim do Édem.

Em 1436, Fra Angélico foi transferido para o Convento de São Marcos, em Florença. Esta mudança o colocou no centro artístico da época, patrocinado pela riquíssima família dos Medici. Em 1939, ele completou o Altar da Igreja, onde aparece ao centro Nossa Senhora com o Menino Jesus, ao redor deles estão vários santos da Igreja. Esta pintura marca uma mudança importante, pois o comum na época era mostrar Maria nos céus cercada de anjos, e não numa cena  mais natural e humana.

Em 1445, Fra Angélico foi chamado pelo Papa Eugênio IV para pintar a Capela de São Pedro, trabalho que foi perdido com a demolição do prédio cerca de 100 anos depois. Nesta época foi-lhe oferecido o Arcebispado de Florença, que Fra Angélico recusou. A partir daí, dividiu sua vida entre Florença e Roma, pintando em diversas igrejas em ambas cidades. 

Faleceu em 1455 quando estava vivendo no convento dos dominicanos em Roma e foi enterrado na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Fra Angélico viveu uma vida de obediência dentro da Ordem dos Dominicanos, nunca usou de sua fama para assumir cargos importantes, era exemplar na oração e não retocava sua obras pois considerava que haviam sido pintadas sobre a inspiração do Espírito Santo. 

Em seu túmulo está escrito:

Quando cantares minhas honrarias, não compare meus talentos aos de Apeles(*). Diga, sempre, que em nome de Cristo, que eu dei tudo o que tinha aos pobres. Os atos que contam na Terra não são os mesmos que importam no céus. 

Na sua beatificação em 03 de Outubro de 1982, Santo Papa João Paulo II disse:

O Beato Frade Angélico sempre lembrava que "aquele que faz as obras de Cristo, deve permanecer sempre com Cristo". Viveu sua vida desta maneira e ficou conhecido como "Angélico", devido a sua perfeita integridade e beleza quase divina de suas obras, honrando a Nossa Senhora. 

Beato Fra Angélico é celebrado pela igreja em 18 de Feveereiro, data de sua morte.

(*) Apeles é considerado o melhor pintor da Grécia Clássica.

-- autoria própria

5 de fev de 2018

Sadoc, o Sacerdote



Sadoc foi nomeado sacerdote pelo Rei Davi (2Sm 8, 17). Quando Davi teve que fugir de Jerusalém, Sadoc e outros sacerdotes seguiram-no levando a Arca da Aliança, mas o Rei ordenou que permanecessem na cidade, onde ajudaram muitíssimo pois puderam contar ao Rei os planos de Absalão (2Sm 15, 24-35) e, também, como porta-voz do Rei junto aos anciãos, coonvencendo-os a apoiar o retorno do Rei.

Nos últimos dis do Rei, que já estava muito velho, seu filho Abiatar fez-se o novo rei, sem a aprovação do pai. Davi, então, tornou pública sua decisão ao nomear seu filho Salomão para o cargo. Em uma cerimônia presidida por Sadoc,  Salomão foi ungido, que ali iniciou o reinado, e, por sua vez, nomeou Sadoc como sumo sacerdote em retribuição à sua fidelidade ao Rei Davi. Assim a Bíblia narra a coroação de Salomão (1 Reis 1:38-40):

O sacerdote Sadoc desceu com o profeta Natã, Banaías, filho de Jojada, os cereteus e os feleteus; fizeram montar Salomão na mula de Davi e conduziram-no a Gião. Tomou o sacerdote Sadoc no tabernáculo o chifre de óleo e ungiu com ele Salomão. A trombeta soou e todo o povo pôs-se a gritar: Viva o rei Salomão! Depois toda a gente voltou atrás dele, tocando flauta e fazendo grandes festas, de modo que a terra vibrava com suas aclamações.

Inspirado por este trecho bíblico, em 1727 George Handel compôs "Sadoc, o Sacerdote" para a coroação do Rei George II, e desde então tem sido utilizado em todas coroações, incluindo a mais recente da Rainha Elizabete II. O texto é curto:

Zadok the Priest, and Nathan the Prophet anointed Solomon King.
And all the people rejoiced, and said:
God save the King! Long live the King!
May the King live for ever,
Amen, Allelujah.

Tradução:
Sadoc, o Sacerdote; e Natã, o Profeta, ungiram Salomão como Rei.
E todo povo se alegrou e disse:
Deus salve o Rei! Vida longa ao Rei!
Possa o Rei viver para sempre!
Amém! Aleluia!

Na liturgia pode ser utilizada não apenas em coroações ou quando as leituras se referem ao tema específico, mas também para os noivos em um casamento, trocando King e Queen na letra, conforme o caso.

-- autoria própria

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