14 de abr de 2018

Os salmos de subida - Que alegria é estar com o Senhor

Os Salmos de Subida formam um conjunto de 15 salmos (120-134). Sem dúvida eram salmos cantados pelos judeus peregrinos que iam à Jerusalém em uma das três grandes festas anuais. São chamados "de subida" exatamente por que Jerusalém está nas montanhas, enquanto a maioria da população preferia morar nos vales mais férteis, ou seja, ir a Jerusalém, ainda hoje, é subir a montanha para encontrar o Senhor no alto. 
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Jerusalém no tempo de Cristo, no alto das montanhas e cercada por muralhas.
Para proteção suas portas eram estreitas e sempre guardadas. 
No Livro do Deuteronômio (16, 16), assim está ordenado: "Três vezes ao ano, todo homem deverá comparecer diante de Yahweh teu Deus, no lugar que Ele houver escolhido: na festa dos Ázimos, na festa das Semanas e na festa das Tendas". Se hoje, de carro e por auto-estradas, esta subida pode levar uma hora ou mais, nos tempos bíblicos eram necessários dias. É em uma destas visitas a Jerusalém que o menino Jesus perdeu-se dos pais, e é ao final de uma destas subidas que Jesus é festivamente saudado pelo povo no Domingo de Ramos.

Se cada salmo já é uma benção de Deus, vê-los em conjunto nos ajuda a entender melhor a experiência de um judeu peregrino que ia a Jerusalém, deixando seu trabalho e bens por alguns dias, arriscando um pouco da sua vida, saindo do seu conforto diário.

Salmo 120: é o primeiro dos salmos de subida, o personagem deste salmo ainda está na planície, cercado por inimigos, por um povo que quer guerra, mas, no coração, este judeu já é um peregrino, pronto para partir. Esta acampado em Cedar, atual Síria, muito longe de Jerusalém, mas grita a Deus e pede seu auxílio.

Salmo 121: Ao pé da montanha, pronto para iniciar a subida, o peregrino diz: "Ergo os olhos para os montes, de onde virá meu socorro? Não deixará meu pé tropeçar, o teu guarda jamais dormirá". A subida pelas montanhas era dificil, era necessário dormir ao ar livre, onde animais poderiam atacar, por isto era importante que os guardas não dormissem. Também havia o risco de ladrões em busca do dinheiro que seria usado para pagar o dízimo no templo. O Sol durante o dia e o frio à noite são desafios, é necessário confiar em Deus durante a subida e em todos momentos da vida.

Salmo 122: Mas se o caminho é difícil, a esperança de chegar a Jerusalém, de chegar à presença de Deus, enche o coração de alegria. O peregrino canta: "Que alegria quando me disseram: vamos a casa do Senhor!". Para lá se dirijem todas tribos de Israel, que Deus guarde Jerusalém de seus inimigos, pelos séculos dos séculos.

Salmo 123: Já chegando a Jerusalém, o peregrino se pergunta: será que sou digno de entrar em teus palácios, ó Senhor? Reconhece seus erros, seus pecados, e suplica "Piedade, Senhor! Tenha Piedade!".

Salmo 124: E vendo que o caminho estava completo, que passara por perigos, mas Deus o protegera, o peregrino pode dizer: "Não estivesse Iahweh ao nosso lado quando os homens nos assaltaram,ter-nos-iam tragados vivos". "Bendito seja Iahweh, não nos entregou como presas aos seus dentes, mas fugimos vivos". "Nosso socorro é o Senhor, que fez o céu e a terra!"

Salmo 125: Quase o mesmo tema do salmo anterior, Deus protege seus filhos, eles podem confiar que chegarão ao monte Sião, onde está Jerusalém, que também indica os céus. Na certeza da ressurreição, podemos confiar que estaremos ao lado de Deus. Os justos, de bom coração, não temem a Deus, mas o que preferem outros caminhos serão expulsos da Jerusalém celeste.

Salmo 126: Já em frente à Jerusalém, uma cidade esplendorosa, muito acima da sua experiência diária no pequeno vilarejo em que morava, o peregrino pode olhar a sua vida, ver como Deus agiu lhe salvando muitas vezes, e dizer que Deus fez grandes coisas por ele. Esta experiência de Deus vai mudar sua vida, por que chegou a Jerusalém chorando seus pecados, sem saber se merecia estar ali, mas sairá renovado, alegre e cantando. São os frutos que colherá, "por que ao ir, se vai chorando, levando as sementes, mas ao voltar, se volta cantando, trazendo os feixos".  

Salmo 127: Embora a cidade seja grandiosa, é necessário dizer que se o Senhor não constrói a casa, o trabalho dos homens é inútil, se o Senhor não guarda a cidade, os guardas vigiam a cidade em vão. A própria história de Israel é um exemplo, pois quando o povo substituiu o Senhor por outros deuses, mesmo a invencível Jerusalém foi derrotada, o povo tornou-se escravo na Babilônia e o templo vandalizado. Coloca tuas forças em Deus e nunca precisarás temer o inimigo.
Interior do templo em Jerusalém, imenso e riquíssimo. Imagine a experiência
de um camponês simples, vivendo em uma terra desértica, ao entrar neste prédio
Salmo 128: Esta é  benção para o fiel: terá uma boa esposa, bons filhos, uma casa e saúde para trabalhar. Poderá peregrinar a Jerusalém, encontrar-se com o Senhor todos anos.

Salmo 129: Ainda que o fiel seja ameaçado, atacado pelos inimigos, poderá contar com o Senhor e dizer: "Os inimigos lavram minhas costas, mas o Senhor é justo, cortou os chicotes dos ímpios".  Estes inimigos ainda irão se envergonhar dos seus pecados, reconhecer sua fraqueza, reconhecer a Deus e dizer aos que fiéis que no passado atacaram: "Que o Senhor vos abençoe".

Salmo 130: Ao chegar em Jerusalém, o peregrino está aflito, do profundo do seu peito sai um grito e pede que os ouvidos do Senhor lhe ouçam. Não é digno,de fato  ninguém é digno de estar ali, mas com esperança de ser ouvido, pede que Deus perdoe seus pecados, e não apenas os dele, mas os de todo Israel, pois a graça de Deus é abundante.

Salmo 131: O peregrino é como uma criança que coloca seus pedidos no colo do Pai, pois sabe que sua esperança não será em vão, pois o Pai lhe ama muitíssimo.

Salmo 132: As promessas feitas por Deus de que construiria um templo, um lugar permanente para a Arca da Aliança, foram cumpridas. Disto o peregrino é testemunha, pois está ali no Templo, vendo os sacerdotes, as procissões, os cantos e todo povo reunido ao redor de Deus. Iahweh prometeu a Davi e cumpriu. Que Deus continue abençoando o povo, seus filhos e colheitas, pois esta é a segurança de Israel.

Salmo 133: Estar ali no Templo é bom, é agradável estar juntos com os irmãos na fé. É como o orvalho, a umidade que cai sobre o deserto, é uma benção para a vida, já uma antevisão da vida eterna. 

Salmo 134: Por fim, basta apenas pedir a benção de Deus sobre todo povo de Israel. Os sacerdotes conduzem a liturgia e o povo responde reconhecendo que o Senhor fez o céu e a terra. Dali o peregrino sairá feliz, tendo visto o Senhor e experimentado um pouquinho do céu ainda na terra. Estes são os frutos que colheu ao peregrinar até a cidade no alto, até Jerusalém.

Nós, cristãos em 2018, somos chamados à esta mesma experiência: peregrinar, abandonar um pouco seu trabalho e bens, e se arriscar em busca do Senhor. Fisicamente, podemos ir a Jerusalém, Roma ou aos grandes santuários marianos, mas não com espírito de turismo, mas para entrar em oração, vendo nossas fraquezas, pedindo ao Pai ajuda e louvando por tudo que tem realizado em nossas vidas.

-- autoria própria

24 de mar de 2018

O sofrimento de Cristo na cruz

A Cruz é um escândalo
Como disse São Paulo, "a Cruz é um escândalo" por que é impossível entender que alguém com poder para evitá-la, prefira, conscientemente, passar por todo sofrimento. É um escândalo por que a razão humana não a aceita. E assim é com todo sofrimento, sempre buscamos a tranquilidade, a felicidade e a alegria, mas, em muitos momentos da vida, encontramos o sofrimento. A Cruz de Cristo só pode ser explicada se você olhar além dela, para a Ressurreição. É ela que lança uma nova luz sobre o sofrimento de Cristo, é ela que pode lançar uma nova luz para explicar nossos sofrimentos diários.

A descida da Cruz, de Jean Jouvenet
Sempre que estamos doentes, percebemos nossos limites. Se a doença for mais grave, vemos a morte de perto. Se estamos sofrendo por que uma pessoa amada faleceu, então é exatamente a morte que estamos contemplando, estamos contemplando nossos limites temporais, que um dia nossos dias na Terra terminarão, que nossos dias de tranquilidade, felicidade e alegria são necessariamente limitados. Não sofremos apenas por doença, sofremos emocionalmente em muitas situações, por exemplo, se uma pessoa amada nos abandona ou trai, se sofremos uma injustiça, uma falsa acusação que nos leva a perder o emprego. Muitas pessoas, frente ao sofrimento, caem no desespero, perdem a esperança de uma vida melhor, e terminar por tirar a própria vida.

O sofrimento no Antigo Testamento
No Antigo Testamento há muitos exemplos de pessoas que sofreram. José foi vendido pelos irmãos para ser levado ao Egito como escravo, traído pela própria família que ele amava. No Egito foi acusado falsamente por uma mulher e posto na cadeia. Jó tinha filhos, muitos bens, uma vida estável. Perdeu a saúde, tinha feridas, os ex-amigos o abandonaram, perdeu filhos, esposa, os bens. Mas, anos depois, José entende o plano de Deus, como tinha que estar no Egito e ser preso para conhecer o chefe da guarda, saber dos sonhos do Faraó, para se tornar o administrador do reino, salvar sua família e perdoar os irmãos. Jó, um homem inocente que sofreu, louvava a Deus por tudo, reconhecia o poder de Deus, sabia que Deus lhe havia dado a vida e tudo mais, e também tinha poder para retirá-la. Mantendo sua fé, recuperou tudo que possuía, mas agora não por seu esforço, mas pela compaixão de Deus. José, traído pelos seus irmãos para salvá-los, prefigura Cristo traído por seu discípulo; Jó, o homem inocente sofredor, prefigura Cristo, inocente e sofredor.

A Paixão de Cristo
Cristo, o filho de Deus nascido homem, nos amou até o extremo, até perder todas as forças, até morrer na Cruz, aceitou o sofrimento de maneira total e perfeita. Na Última Ceia, Cristo mesmo explicou: Ninguém tem maior amor do que este, de dar alguém a sua vida pelos seus amigos (Jo 15, 13). Cristo sofreu na Cruz para nos dar a vida definitiva, a vida eterna. Naquela noite Cristo venceu a morte e dos infernos retornou vitorioso, ó noite maravilhosa (Pregão Pascal). Nesta noite nascemos novamente, livres do mal e do pecado, perdemos o medo da morte e podemos enfrentar o sofrimento de frente. É a ressurreição que explica a Cruz. 

Sendo obediente ao Pai até o final, até sua morte, Jesus elimina a raiz de todos os sofrimentos. É o ápice de todos os milagres, pois até ali Jesus havia curados a muitos, ressuscitado alguns, tocado outros com sua palavra, mas na Cruz realizou um milagre que beneficia a todos, inclusive a nós que estamos há dois mil anos longe de Jerusalém. É nesta cruz que Cristo cura nossas fraquezas físicas e espirituais. 

Por que Cristo escolheu a Cruz? Sendo Filho de Deus Onipotente e Onisciente, Cristo poderia salvar a todos com um estalar de dedos, um momento mágico, não precisaria escolher o caminho da Cruz. Mas esta solução tiraria toda nossa liberdade de escolha, o livre arbítrio que nos faz humanos e não robôs. Ao mesmo tempo seria como dizer que nossos pecados não são importantes, que nossas escolhas são irrelevantes, seria como como dizer: "Tudo bem, é só uma criancinha mesmo." Como adultos precisamos entender que nossas escolhas tem consequência, que nossos pecados nos afastam da Salvação de Jesus Cristo. Não está sempre tudo bem, muitas vezes é preciso retormar o caminho, e por isso a Igreja nos oferece o sacramento da Reconciliação.

Nossos sofrimento, a nossa Cruz
Muitos santos mudaram sua vida ao passar por uma enfermidade grave, como São Francisco e Santo Inácio de Loiola, que se converteram enquanto estavam convalecendo. Esta é uma experiência também comum para nós, pois certamente já ouvimos algo como "Fulano se curou de um câncer e agora é uma ppessoa mudada". Para estes santos, foi na doença em que Cristo lhes convidou: "Siga-me! Toma tua Cruz, una-se a Mim, encontre tua Salvação!".

Nesta Semana Santa, é isto que Cristo está nos dizendo também: olhe para a tua Cruz, seja ela qual for, talvez um marido bêbado e violento, talvez uma traição, uma doença, uma injustiça, o desemprego, abraça a tua Cruz, esta é a Cruz da tua Salvação, identifique tua cruz, precisas saber qual é a tua cruz por que ela é essencial para ti. Abrace esta Cruz e siga a Juesus, ame a tua Cruz e tua vida mudará, por que após a Cruz está a Ressurreição de Cristo, a vitória sobre a morte!

-- co-autoria com minha esposa após lermos a Carta Apóstólica Salvifici Doloris, do Papa João Paulo II. 

22 de mar de 2018

A Igreja, sacramento visível da unidade salvífica

Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança... Imprimirei minha lei em suas entranhas, e hei de inscrevê-la em seu coração; serei seu Deus e eles serão meu povo... Todos me conhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor (cf. Jr 31,31.33.34).

Foi essa aliança nova que Cristo instituiu, isto é, a nova aliança no seu sangue, chamando judeus e pagãos para formarem um povo que se reunisse na unidade, não segundo a carne, mas no Espírito, e constituísse o novo povo de Deus.

Os que creem em Cristo, renascidos não de uma semente corruptível, mas incorruptível, pela palavra do Deus vivo, não da carne, mas da água e do Espírito Santo, são por fim constituídos a raça escolhida, o sacerdócio do Reino, a nação santa, o povo que ele conquistou... que antes não eram povo, agora, porém, são povo de Deus (1Pd 2,9.10).

Este povo messiânico tem por cabeça Cristo, que foi entregue por causa de nossos pecados e foi ressuscitado para nossa justificação (Rm4,25) e agora, tendo recebido um nome que está acima de todo nome, reina gloriosamente nos céus.

Este povo tem a dignidade e a liberdade dos filhos de Deus, em cujos corações o Espírito Santo habita como em seu templo.

Tem como lei o novo mandamento de amar como o próprio Cristo nos amou.

Tem como fim o Reino de Deus, que ele mesmo iniciou na terra, e deve desenvolver-se sempre mais, até ser no fim dos tempos consumado pelo próprio Deus, quando Cristo, nossa vida, aparecer e a criação for libertada da escravidão da corrupção e, assim, participar da liberdade e da glória dos filhos de Deus (Rm 8,21).

Portanto, o povo messiânico, embora não abranja atualmente todos os homens e apareça muitas vezes como um pequeno rebanho, é entretanto, para todo o gênero humano, fecundíssima semente de unidade, de esperança e de salvação.

Constituído por Cristo para uma comunhão de vida, de amor e de verdade, e por ele assumido para ser instrumento da redenção universal, é enviado ao mundo inteiro como luz do mundo e sal da terra.

Assim como Israel segundo a carne, que peregrinava no deserto, já é chamado Igreja de Deus, também o novo Israel, que caminha neste mundo em busca da cidade futura e permanente, é chamado Igreja de Cristo, pois foi ele que a adquiriu com o seu sangue, encheu-a de seu Espírito e dotou-a de meios aptos para uma união visível e social.

 Deus convocou todos aqueles que olham com fé para Jesus, autor da salvação e princípio da unidade e da paz, e com eles constituiu a Igreja, a fim de que ela seja, para todos e para cada um, o sacramento visível desta unidade salvífica.

-- Da Constituição Dogmática Lumen Gentium sobre a Igreja, do Concílio Vaticano II (século XX)

12 de mar de 2018

Sobre a participação dos católicos na vida política

Em dois mil anos de história os cristãos tem participado na vida comunitária de diversas formas, incluindo na vida política. Nas sociedades democráticas atuais, os cristãos podem participar de diversas maneiras através do voto consciente, do cumprimento dos seus deveres civis, no respeito às autoridades constituídas, sempre guiados pela sua consciência cristã. Os cristãos não podem deixar de participar da política e de promover o bem comum, buscando um ambiente que haja ordem pública e a paz, a liberdade e a igualdade, o respeito da vida humana e do ambiente, a justiça e a solidariedade.
São Tomás Moro foi primeiro ministro da Iglaterra,
morreu condenado por se manter fiel à Santa
Igreja Católica, contrariando o Rei Henrique VIII.

Na sociedade civil constata-se hoje um relativismo cultural, que defende um pluralismo ético que sanciona a decadência e a dissolução da razão e dos princípios da lei moral natural, não é raro ouvir afirmações que defendem que esse pluralismo ético é condição para a democracia. Segundo esta falsa tese pluralista  não existiria uma norma moral, radicada na própria natureza do ser humano e a cujo ditame deva submeter-se toda a concepção do homem, do bem comum e do Estado. Invocando de maneira distorcida o valor da tolerânci, pedem a uma boa parte dos cidadãos – entre eles, aos católicos – que renunciem aos conceitos de pessoa e bem comum que consideram humanamente verdadeiro e justo.

A Igreja entende que a via da democracia é a que melhor exprime a participação direta dos cidadãos nas escolhas políticas, mas isso só é possível se existir uma concepção da pessoa adequada. O empenho dos católicos é não deixar comprometer seus valores morais,  faltando com o testemunho da fé cristã no mundo. A estrutura democrática será um frágil se não tiver como seu fundamento a centralidade da pessoa.  A liberdade política não é nem pode ser fundada sobre a ideia relativista, segundo a qual, todas as concepções do bem do homem têm a mesma verdade e o mesmo valor. 

O fato de haver várias soluções para os mesmos problemas justifica a existência de vários partidos, mas o cristão deve escolher entre as alternativas moralmente aceitáveis.  Não cabe à Igreja formular soluções concretas para questões temporais, que Deus deixou ao juízo livre e responsável de cada um, embora seja seu direito e dever pronunciar juízos morais sobre realidades temporais, quando a fé ou a lei moral o exijam. O cristão tem liberdade de escolha entre as alternativas existentes, mas seus valores éticos não são “negociáveis”.

Os católicos têm o direito e o dever de intervir, apelando para o sentido mais profundo da vida, têm a “clara obrigação de se opor” a qualquer lei que represente um atentado à vida humana, como aborto e eutanásia. Para todo o católico é uma impossibilidade participar em campanhas de opinião em favor de semelhantes leis, não sendo a ninguém consentido apoiá-las com o próprio voto. A consciência cristã não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a atuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos. Uma vez que a fé constitui como que uma unidade indivisível, não é lógico isolar um só dos seus conteúdos em prejuízo da totalidade da doutrina católica.

Isto se aplica às leis civis em matéria de aborto e de eutanásia, que restrigem o direito primário à vida, desde o seu concebimento até ao seu termo natural, deve-se respeitar e proteger os direitos do embrião humano. Analogamente, devem ser salvaguardadas as famílias, fundada no matrimónio monogâmico entre pessoas de sexo diferente e protegida na sua unidade e estabilidade, perante as leis modernas em matéria de divórcio: não se pode, de maneira nenhuma, pôr juridicamente no mesmo plano com a família outras formas de convivência, nem estas podem receber, como tais, um reconhecimento legal. Igualmente, a garantia da liberdade de educação, que os pais têm em relação aos próprios filhos, é um direito inalienável. No mesmo plano, devem incluir-se a tutela social dos menores e a libertação das vítimas das drogas e da exploração da prostituição. Também inclui o direito à liberdade religiosa e o progresso para uma economia que esteja ao serviço da pessoa e do bem comum. Deve-se, por fim, buscar-se a paz, fruto da justiça e efeito da caridade”; que exige a recusa radical e absoluta da violência e do terrorismo e requer um empenho constante e vigilante da parte de quem está investido da responsabilidade política. 

São Luis governou a França por 56 anos, sempre mantendo
uma vida devota e se deixando guiar por príncipios cristãos
ao decidir os rumos do país.
Todos os fiéis têm plena consciência de que os atos especificamente religiosos (profissão da fé, prática dos atos de culto e dos sacramentos, doutrinas teológicas, comunicação recíproca entre as autoridades religiosas e os fiéis, etc.) permanecem fora das competências do Estado, que nem deve intrometer-se neles nem, de forma alguma, exigi-los ou impedi-los, a menos de fundadas exigências de ordem pública.

O ensinamento social da Igreja não é uma intromissão no governo de cada País. Não há dúvida, porém, que põe um dever moral de coerência aos fiéis leigos, no interior da sua consciência. “Não pode haver, na sua vida, dois caminhos paralelos: de um lado, a chamada vida ‘espiritual’, com os seus valores e exigências, e, do outro, a chamada vida ‘secular’, ou seja, a vida de família, de trabalho, das relações sociais, do empenho político e da cultura.

Escolhas e participação política que contrariem os princípios basilares da consciência cristã, não são compatíveis com a pertença a associações ou organizações que se definem católicas. Também devem recusar as posições e comportamentos que se inspiram numa visão utópica que resulta em uma espécie de profetismo sem Deus, orientando a paessoa para uma esperança unicamente terrena. Ao contrário, os cristãos são chamados a se empenharem decididamente na construção de uma cultura que proponha o património de valores e conteúdos da Tradição católica.

Convém ainda recordar uma verdade que hoje nem sempre é bem entendida: o direito à liberdade religiosa está fundado sobre a dignidade da pessoa humana e, de maneira nenhuma, sobre uma inexistente igualdade entre as religiões e sistemas culturais humanos. Governos e a sociedade não devem, de modo algum submeter as pessoas à leis ou ações que visam restringir a procura da  religião e a adesão à mesma.

Por fim, lembramos São João Paulo II: “Queiram os fiéis exercer as suas atividades terrenas, unindo numa síntese vital todos os esforços humanos, familiares, profissionais, científicos e técnicos, com os valores religiosos, sob cuja altíssima hierarquia tudo coopera para a glória de Deus”

-- este texto é um resumo da "Nota Doutrinal sobre algumas questões relativas à participação e comportamento dos católicos na vida política" publicada pela Congregação para Doutrina da Fé, em 21 de Novembro de 2002, quando ainda era presidida pelo então Cardeal Ratzinger.



17 de fev de 2018

Beato Frade Angélico, o patrono dos pintores

Guido di Pietronasceu em 1395, próximo da cidade de Fiesole, Itália. Sobre seus pais, família e infância não há nenhum registro. Em 17 de Outubro de 1417, ele foi registrado como membro da Paróquia de Carmine, já tendo declarado que por profissão era pintor, o que é confirmado por dois recibos de pagamento por seus trabalhos na Igreja de Santo Estevão. O próximo registro, datado de 1423, já informado que era um frade dominicano e havia mudado o nome para João, em honra ao evangelista. Mas, nos dias atuais, é conhecido como Fra Angélico, pois seus trabalhos eram tão perfeito que só poderiam ter sido feitos por anjos.
A Anunciação

Seu primeiro trabalho conhecido foi o altar da Igreja de São Domingos, em Fiesole. No início de 1425 pintou a Anunciação, que hoje está no Museu do Prado em Madri. Em primeiro plano, o anjo anuncia a Maria que está grávida do Filho de Deus, ao fundo Adão e Eva se afastam da presença de Deus. Ali Deus inicia sua obra de salvação através de Jesus Cristo, Maria, iluminada pelo Espírito Santo, aceita sua missão, tudo em contraste com o que aconteceu no Jardim do Édem.

Em 1436, Fra Angélico foi transferido para o Convento de São Marcos, em Florença. Esta mudança o colocou no centro artístico da época, patrocinado pela riquíssima família dos Medici. Em 1939, ele completou o Altar da Igreja, onde aparece ao centro Nossa Senhora com o Menino Jesus, ao redor deles estão vários santos da Igreja. Esta pintura marca uma mudança importante, pois o comum na época era mostrar Maria nos céus cercada de anjos, e não numa cena  mais natural e humana.

Em 1445, Fra Angélico foi chamado pelo Papa Eugênio IV para pintar a Capela de São Pedro, trabalho que foi perdido com a demolição do prédio cerca de 100 anos depois. Nesta época foi-lhe oferecido o Arcebispado de Florença, que Fra Angélico recusou. A partir daí, dividiu sua vida entre Florença e Roma, pintando em diversas igrejas em ambas cidades. 

Faleceu em 1455 quando estava vivendo no convento dos dominicanos em Roma e foi enterrado na Igreja de Santa Maria Sopra Minerva. Fra Angélico viveu uma vida de obediência dentro da Ordem dos Dominicanos, nunca usou de sua fama para assumir cargos importantes, era exemplar na oração e não retocava sua obras pois considerava que haviam sido pintadas sobre a inspiração do Espírito Santo. 

Em seu túmulo está escrito:

Quando cantares minhas honrarias, não compare meus talentos aos de Apeles(*). Diga, sempre, que em nome de Cristo, que eu dei tudo o que tinha aos pobres. Os atos que contam na Terra não são os mesmos que importam no céus. 

Na sua beatificação em 03 de Outubro de 1982, Santo Papa João Paulo II disse:

O Beato Frade Angélico sempre lembrava que "aquele que faz as obras de Cristo, deve permanecer sempre com Cristo". Viveu sua vida desta maneira e ficou conhecido como "Angélico", devido a sua perfeita integridade e beleza quase divina de suas obras, honrando a Nossa Senhora. 

Beato Fra Angélico é celebrado pela igreja em 18 de Feveereiro, data de sua morte.

(*) Apeles é considerado o melhor pintor da Grécia Clássica.

-- autoria própria

5 de fev de 2018

Sadoc, o Sacerdote



Sadoc foi nomeado sacerdote pelo Rei Davi (2Sm 8, 17). Quando Davi teve que fugir de Jerusalém, Sadoc e outros sacerdotes seguiram-no levando a Arca da Aliança, mas o Rei ordenou que permanecessem na cidade, onde ajudaram muitíssimo pois puderam contar ao Rei os planos de Absalão (2Sm 15, 24-35) e, também, como porta-voz do Rei junto aos anciãos, coonvencendo-os a apoiar o retorno do Rei.

Nos últimos dis do Rei, que já estava muito velho, seu filho Abiatar fez-se o novo rei, sem a aprovação do pai. Davi, então, tornou pública sua decisão ao nomear seu filho Salomão para o cargo. Em uma cerimônia presidida por Sadoc,  Salomão foi ungido, que ali iniciou o reinado, e, por sua vez, nomeou Sadoc como sumo sacerdote em retribuição à sua fidelidade ao Rei Davi. Assim a Bíblia narra a coroação de Salomão (1 Reis 1:38-40):

O sacerdote Sadoc desceu com o profeta Natã, Banaías, filho de Jojada, os cereteus e os feleteus; fizeram montar Salomão na mula de Davi e conduziram-no a Gião. Tomou o sacerdote Sadoc no tabernáculo o chifre de óleo e ungiu com ele Salomão. A trombeta soou e todo o povo pôs-se a gritar: Viva o rei Salomão! Depois toda a gente voltou atrás dele, tocando flauta e fazendo grandes festas, de modo que a terra vibrava com suas aclamações.

Inspirado por este trecho bíblico, em 1727 George Handel compôs "Sadoc, o Sacerdote" para a coroação do Rei George II, e desde então tem sido utilizado em todas coroações, incluindo a mais recente da Rainha Elizabete II. O texto é curto:

Zadok the Priest, and Nathan the Prophet anointed Solomon King.
And all the people rejoiced, and said:
God save the King! Long live the King!
May the King live for ever,
Amen, Allelujah.

Tradução:
Sadoc, o Sacerdote; e Natã, o Profeta, ungiram Salomão como Rei.
E todo povo se alegrou e disse:
Deus salve o Rei! Vida longa ao Rei!
Possa o Rei viver para sempre!
Amém! Aleluia!

Na liturgia pode ser utilizada não apenas em coroações ou quando as leituras se referem ao tema específico, mas também para os noivos em um casamento, trocando King e Queen na letra, conforme o caso.

-- autoria própria

9 de jan de 2018

Perguntas e respostas sobre a Eucaristia


A Sagrada Eucaristia é central na Igreja Católica, que acredita na presença real de Cristo na forma de Corpo e Sangue. Não é um símbolo, não é um alimento para ser compartilhado, é infinitamente muito mais que isso.

Tomando por base perguntas formuladas pelo Padre Robert Barron, resolvi publicar minhas respostas numa sucessão de cinco posts, ao ver tamanha riqueza de ensinamentos. Espero que também vejam o amor de Deus neste sacramento.

Basta clicar no título de cada parte para ler minhas respostas. 

1. Qual o significado da palavra "Eucaristia"?
2. Por quais outros nomes a Eucaristia é também conhecida?
3. O que relembramos na Eucaristia?
4. Por que a Eucaristia é a fonte de toda vida cristã?
5. Quando a Igreja começou a celebrar a Eucaristia?

1. Que graças a Eucaristia confere àqueles que a recebem?
2. O que o Profeta Isaías fala sobre a Celebração da Missa?
3. Como São Mateus foi chamado a ser apóstolo?
4. Como Adão e Eva pecaram contra a Eucaristia?
5. Qual a relação entre a Última Ceia e a Eucaristia?

1. O que é uma aliança no sentido bíblico?
2.  Qual foi a Aliança de Deus com Abraão?
3. Por que sacrifícios do Antigo Testamento foram incompletos?
4. Por que o sacrifício de Cristo é perfeito?
5. Por que o sacrifício de Cristo é definitivo e dispensa todos os outros?
6. Como entender que a Missa é um sacrifício?

1. Como Cristo está presente no mundo e na Igreja?
2.  Como Cristo está presente na Eucaristia?
3. Por que a hóstia e o vinho não são meros sinais? 
4. Como os apóstolos aceitaram esta realidade?
5. Como a Eucaristia beneficia a Igreja?

1. O que é um sacramento?
2. Por que é importante receber os sacramentos?
3. Por que a Eucaristia é o principal sacramento da Igreja?
4. Como Cristo está presente de modo real, em corpo e sangue, na Eucaristia?
5. Como a Eucaristia é um sinal dos tempos futuros?

--autoria própria

Perguntas sobre Eucaristia - Sacramento

A Igreja Católica têm sete sacramentos: Batismo, Crisma, Eucaristia, Penitência, Casamento, Ordem e Unção dos Enfermos, mas a Eucaristia é o principal deles.

1. O que é um sacramento?

Os sacramentos são ações do Espírito Santo que opera no seu corpo que é a Igreja, os sacramentos são "nas obras-primas de Deus", na nova e eterna Aliança. 

Os sacramentos são sinais eficazes da graça de Deus, instituídos por Cristo e confiados à Igreja, pelos quais nos é dispensada a vida divina. Os ritos visíveis, com os quais são celebrados os sacramentos, significam e realizam as graças próprias de cada sacramento. Eles dão fruto naqueles que os recebem de maneira adequada.

* segundo Catecismo da Igreja Católica (CIC), parágrafos 116 e 1131.

2. Por que é importante receber os sacramentos?

Os sacramentos conferem a graça que prometem e são eficazes, porque neles é o próprio Deus que realiza a promessa. O Pai atende sempre a oração da Igreja, que em cada sacramento, exprime a sua fé no poder do Espírito. Tal como o fogo transforma em si tudo quanto atinge, assim o Espírito Santo transforma em vida divina tudo quanto se submete ao seu poder.

Os sacramentos são necessários para a salvação. A cada sacramento corresponde uma graça específica dada por Cristo e ministrada pelo Espírito Santo que transforma aqueles que O recebem, conformando-os com o Filho de Deus. O fruto da vida sacramental é que o Espírito de adoção  que faz com que os fiéis unam-se vitalmente ao Filho único, o Salvador.

O sacramento não é realizado pela justiça do sacerdote que o dá ou que do fiel que recebe, mas pelo poder de Deus. Desde que um sacramento seja celebrado conforme a intenção da Igreja, o poder de Cristo e do seu Espírito age nele e por ele, independentemente da santidade pessoal do ministro. 

* CIC 1127-1129

3. Por que a Eucaristia é o principal sacramento da Igreja?

Na Eucaristia está presente, em Corpo e Sangue, o próprio Cristo, Filho de Deus e Supremo Sacerdote da sua Igreja. Os demais seis sacramentos são como estradas que conduzem à Eucaristia. A Eucaristia celebrada ao redor do mundo une toda Igreja à Cristo, garantindo a sua unidade. 

O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela "como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos" (São Tomás de Aquino, Suma Teológica). No Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo (Concílio de Trento). 

* CIC 1324, 1326 e 1374

4. Como Cristo está presente de modo real, em corpo e sangue, na Eucaristia?

São João Crisóstomo declara:
"Não é o homem que faz com que as coisas oferecidas se tomem corpo e sangue de Cristo, mas o próprio Cristo, que foi crucificado por nós. O sacerdote, figura de Cristo, pronuncia estas palavras, mas a sua eficácia e a graça são de Deus.Isto é o Meu corpo, diz ele. Esta palavra transforma as coisas oferecidas" .
E Santo Ambrósio diz a respeito da mesma conversão:
"Estejamos bem convencidos de que isto não é o que a natureza formou, mas o que a bênção consagrou, e de que a força da bênção ultrapassa a da natureza, porque pela bênção a própria natureza é mudada. A Palavra de Cristo, que pôde fazer do nada o que não existia, não havia de poder mudar coisas existentes no que elas ainda não eram? Porque não é menos dar às coisas a sua natureza original do que mudá-la.

* CIC 1375 

5. Como a Eucaristia é um sinal dos tempos futuros?

Cada vez que se celebra a Eucaristia, realiza-se a obra da nossa redenção e nós "partimos o mesmo pão, que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, mas viver em Jesus Cristo para sempre" (Santo Agostinho). Como esperamos alcançar a redenção da vida eterna, a Eucaristia é um sinal deste futuro que nos aguarda.

Numa antiga oração, a Igreja aclama assim o mistério da Eucaristia: "Ó sagrado banquete, em que se recebe Cristo e se comemora a sua paixão, em que a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória". Ou seja, na Eucaristia, Cristo nos garante a futura glória.

* CIC 1402-1405

-- autoria própria

7 de jan de 2018

Perguntas sobre a Eucaristia - Presença Real

Para os orientais, a palavra é a ação. Quando Deus disse: "que se faça o mundo", o mundo foi criado. Vendo a ação de Deus, entendemos que Deus existe. Hoje nós podemos perceber Deus na criação, ao observarmos o mar, as montanhas, os céus, toda natureza, muitos testemunharam Deus vivo em Jesus Cristo, o Filho de Deus encarnado em forma humana. Muitos poderiam pensar que estamos, então, nunca espécie de desvantagem, por não termos o mesmo privilégio dos apóstolos, Maria e outros daquela época. Isto é pensar pouco de Deus, pois na Eucaristia manifesta-se a presença real de Cristo, que é presente em Corpo e Sangue. Como acreditamos nisto? Por que Cristo mesmo disse: 

"Vossos pais, no deserto, comeram o maná e morreram. Este é o pão que desceu do céu, para que não morra todo aquele que dele comer. Eu sou o pão vivo que desceu do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão, que eu hei de dar, é a minha carne para a salvação do mundo. A essas palavras, os judeus começaram a discutir, dizendo: Como pode este homem dar-nos de comer a sua carne? 

Então Jesus lhes disse: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia. Pois a minha carne é verdadeiramente uma comida e o meu sangue, verdadeiramente uma bebida. 5Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele. Assim como o Pai que me enviou vive, e eu vivo pelo Pai, assim também aquele que comer a minha carne viverá por mim." (Jo 6, 49-57)

1. Como Cristo está presente no mundo e na Igreja?

Jesus Cristo está presente na sua Igreja de múltiplos modos: na sua Palavra, na oração da sua Igreja, "onde dois ou três estão reunidos em Meu nome" (Mt 18, 20), nos pobres, nos doentes, nos prisioneiros, nos seus sacramentos, dos quais é o autor, no sacrifício da missa e na pessoa do ministro. Mas está presente sobretudo sob as espécies eucarísticas.

* segundo Catecismo da Igreja Católica (CIC), parágrafo 1373.

2.  Como Cristo está presente na Eucaristia?

O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos (São Tomás de Aquino, Suma Teológica). No Santíssimo Sacramento da Eucaristia estão contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo. "Esta presença chama-se "real", não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem "reais", mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem"(Papa Paulo VI, Misterium Fides).

*CIC 1374

3. Por que a hóstia e o vinho não são meros sinais? 

Porque Cristo, nosso Redentor, disse que o que Ele oferecia sob a espécie do pão era verdadeiramente o seu corpo, sempre na Igreja se teve esta convicção que o sagrado Concílio de novo declara: pela consagração do pão e do vinho opera-se a conversão de toda a substância do pão na substância do corpo de Cristo nosso Senhor, e de toda a substância do vinho na substância do seu sangue; a esta mudança, a Igreja católica chama, de modo conveniente e apropriado, transubstanciação.

Que era capaz de realizar milagres, Cristo deu provas ainda vida na multiplicação dos pães e transformar a água em vinho nas bodas de Canaã. Se a pessoa aceitar estes milagres, torna-se menos difícil aceitar que Deus é capaz de transformar hóstia e vinho em Corpo e Sangue cada vez que uma Missa é celebrada.

*CIC 1376, 1335

4. Como os apóstolos aceitaram esta realidade?

O primeiro anúncio da Eucaristia dividiu os discípulos, tal como o anúncio da paixão os escandalizou: "Estas palavras são insuportáveis! Quem as pode escutar?" (Jo 6, 60). A Eucaristia e a cruz causam dúvidas até hoje. Tendo amado os seus, o Senhor amou-os até ao fim. Sabendo que era chegada a hora de partir deste mundo para regressar ao Pai, lhes deixou uma garantia deste amor, e para jamais se afastar dos seus e para os tornar participantes da sua Páscoa, instituiu a Eucaristia como memorial da sua morte e da sua ressurreição, e ordenou aos seus Apóstolos que a celebrassem até ao seu regresso.

*CIC 1336-1337

5. Como a Eucaristia beneficia a Igreja?

Os que recebem a Eucaristia ficam mais estreitamente unidos a Cristo. Por isso mesmo, Cristo une todos os fiéis num só corpo: a Igreja. A Comunhão renova, fortalece e aprofunda esta incorporação na Igreja já realizada pelo Batismo.  A Eucaristia realiza esta vocação: "O cálice da bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque participamos desse único pão" (1 Cor 10, 16-17). 

Quando ouvimos esta palavra: "O corpo de Cristo"; e respondemoss: "Ámen", então, confirmamos nosso Batismo, confirmamos sermos membros do Corpo de Cristo que é a Igreja. Sem a Sagrada Eucaristia, não haveria Igreja.

* CIC 1396.



6 de jan de 2018

Perguntas sobre Eucaristia - Aliança e Sacrifício de Cristo

A origem da palavra "sacrifício" é literalmente "fazer algo santo", isto é, retornar para Deus algo que ele criou. Quase todas as religiões tem este conceito, como o sacrifício de animais para agradar a Deus, ou os melhores frutos da colheita, bens preciosos, etc... Mas, na Igreja Católica há este conceito único de que o sacrifício é feito por Deus, para Deus, em Cristo, na Eucaristia. E esta á uma aliança que Deus fez conosco, válida para toda eternidade.

1. O que é uma aliança no sentido bíblico?

 De todas as criaturas visíveis, só o homem é capaz de conhecer e amar o seu Criador; só ele é chamado a partilhar, pelo conhecimento e pelo amor, a vida de Deus. 

Porque é imagem de Deus, o indivíduo humano possui a dignidade de pessoa: ele não é somente alguma coisa, mas alguém. É capaz de se conhecer, de se possuir e de livremente se dar e entrar em comunhão com outras pessoas. 

A Aliança Bíblica é uma espécie de acordo com Deus, onde Deus cria o homem, lhe dá os recursos necessários para preservar a vida, por que Lhe ama como um pai ama seu filho e, em troca, o homem de decide amá-lo como uma resposta ao amor de Deus. A Aliança Bíblica começa com uma ação de Deus a qual o homem responde por livre vontade.

Na Bíblia, a primeira Aliança foi com Adão e Eva, que poderiam ter permanecido no Paraíso, mas duvidaram do amor de Deus quando aceitaram as mentiras do Demônio e terminaram se afastando da presença de Deus. 

* segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC) parágrafos 356-358.

2.  Qual foi a Aliança de Deus com Abraão?

Abraão e Sara eram velhos e não tinham filhos, não tinham para quem deixar sua herança, a família terminaria ali com os dois velhos morrendo. Deus promete a Abraão filhos, aumentar sua herança, manter seu nome na terra por mil gerações, exatamente o que Abraão temia que não seria mais possível. Em troca Deus pediu que confiassem nele, abandonassem o que haviam construído onde moravam, pois Deus lhe daria uma terra maravilhosa, cheia de frutos e mel. 

Esta é a Aliança de Deus com Abraão: Deus dá tudo, filhos, saúde, bens materiais; Abraão teria que confiar em Deus, sair da Babilônia onde morava e seguir às orientações de Deus até chegar à Terra Prometida. 

3. Por que sacrifícios do Antigo Testamento foram incompletos? 

Os Judeus, segundo a sua própria confissão, não puderam nunca cumprir integralmente a Lei sem violação do mínimo preceito (Jo 7, 19; At 13, 38-41; 15, 10), pois são humanos. Por isso é que, em cada festa anual da Expiação, pedem a Deus perdão pelas suas transgressões da Lei. Com efeito, a Lei constitui um todo e, como lembra São Tiago, "quem observa toda a Lei, mas falta num só mandamento, torna-se réu de todos os outros" (Tg 2, 10).

Este princípio da integralidade da observância da Lei, não só na letra mas também no espírito, era caro aos fariseus. Tomando-o extensivo a Israel, conduziram muitos judeus do tempo de Jesus a um zelo religioso extremo (Rm 10, 2). 

O cumprimento perfeito da Lei só podia ser obra de quem escreveu a Lei, Deus mesmo, nascido sujeito à Lei na pessoa do Filho (Gl 4, 4). Em Jesus, a Lei já não aparece gravada em tábuas de pedra, mas "no íntimo do coração" (Jr 31, 33), o qual, proclamando "fielmente o direito" (Is 42, 3), se tornou "a aliança do povo" (Is 42, 6). 

* CIC 578-580

4. Por que o sacrifício de Cristo é perfeito?

A morte de Cristo é, ao mesmo tempo, o sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens (1 Cor 5, 7; Jo 8, 34-36), restabelecendo a comunhão entre o homem e Deus (Ex 24, 8), reconciliando-o com Ele pelo "sangue derramado pela multidão, para a remissão dos pecados" (Mt 26, 28; Lv 16, 15-16). 

Este sacrifício de Cristo é único, leva à perfeição e ultrapassa todos os sacrifícios (Heb 10, 10). Antes de mais, é um dom do próprio Deus Pai: é o Pai que entrega o seu Filho para nos reconciliar consigo (1 Jo 4, 10). Ao mesmo tempo, é um sacrifício do Filho de Deus, que livremente e por amor (Jo 15, 13) oferece a sua vida (Jo 10, 17-18) ao Pai pelo Espírito Santo (Heb 9, 14) para reparar a nossa desobediência.

* CIC 613, 614

5. Por que o sacrifício de Cristo é definitivo e dispensa todos os outros? 

Nenhum homem, ainda que fosse o mais santo, estava em condições de tornar sobre si os pecados de todos os homens e de se oferecer em sacrifício por todos. A existência, em Cristo, da pessoa divina do Filho, que ultrapassa e ao mesmo tempo abrange todas as pessoas humanas e O constitui cabeça de toda a humanidade, é que torna possível o seu sacrifício redentor por todos.

A morte redentora de Jesus deu cumprimento sobretudo à profecia do Servo sofredor (Is 53. 7-8; At 8, 32-35). O próprio Jesus apresentou o sentido da sua vida e da sua morte à luz do Servo sofredor (Mt 20, 28). Após a sua ressurreição, deu esta interpretação das Escrituras aos discípulos de Emaús (450) e depois aos próprios Apóstolos (Lc 24, 25-27).

Consequentemente, Pedro pôde formular assim a fé apostólica no plano divino da salvação: fostes resgatados da vã maneira de viver herdada dos vossos pais, pelo sangue precioso de Cristo, como de um cordeiro sem defeito nem mancha, predestinado antes da criação do mundo e manifestado nos últimos tempos por nossa causa (1 Pe 1, 18-20). 

É o "amor até ao fim" (Jo 13, 1) de Deus por todos seus filhos que confere ao sacrifício de Cristo o valor de redenção e reparação, de expiação e satisfação. "O amor de Cristo nos pressiona, ao pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto, morreram" (2 Cor 5, 14). 

* CIC 601, 602, 616

6. Como entender que a Missa é um sacrifício?

 Porque é o memorial da Páscoa de Cristo, a Eucaristia é também um sacrifício. O carácter sacrificial da Eucaristia manifesta-se nas próprias palavras da instituição: "Isto é o meu corpo, que vai ser entregue por vós" e "este cálice é a Nova Aliança no meu sangue, que vai ser derramado por vós" (Lc 22, 19-20). Na Eucaristia, Cristo dá aquele mesmo corpo que entregou por nós na cruz, aquele mesmo sangue que "derramou por muitos em remissão dos pecados" (Mt 26, 28).

A Eucaristia é, pois, um sacrifício, porque torna presente o sacrifício da cruz, porque é dele memorial: porque após a morte de Cristo não se devia extinguir o seu sacerdócio (Heb 724-27), na última ceia, "na noite em que foi entregue" (1 Cor 11, 13), Ele quis deixar à Igreja um sacrifício visível, em que fosse representado o sacrifício cruento que ia realizar uma vez por todas na cruz, perpetuando a sua memória até ao fim dos séculos e aplicando a sua eficácia salvífica à remissão dos pecados que nós cometemos cada dia. (Concílio de Trento, Doutrina da Santa Missa)

O sacrifício de Cristo e o sacrifício da Eucaristia são um único sacrifício: é uma só e mesma vítima e Aquele que agora Se oferece pela ação dos sacerdotes é o mesmo que outrora Cristo ofereceu a Si mesmo na cruz; só a maneira de oferecer é que é diferente. E porque neste divino sacrifício, que se realiza na missa, aquele mesmo Cristo, que a Si mesmo Se ofereceu outrora de modo cruento sobre o altar da cruz, agora está contido e é imolado de modo incruento, este sacrifício é verdadeiramente salvador (Santo Inácio de Antioquia).

* CIC 1365-1367
-- autoria própria






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