13 de dez de 2017

Perguntas sobre a Eucaristia - Alimento Sagrado

Ao longo da Bíblia, em diversas ocasiões, se apresenta um banquete proporcionado por Deus. Adão e Eva tem todas as frutos e alimentos do Paraíso ao seu dispor, o povo do deserto alimentou-se do maná por quarenta anos, Cristo multiplicou pães e peixes para alimentar uma multidão, e há a Última Ceia, na Páscoa Judaica, que Cristo compartilha com seus apóstolos. Em todas estas pcasoões, o alimento é útil para matar a fome corporal, mas também cria uma comunhão espiritual com Deus. Estas perguntas são exatamente sobre este Sacrum Convivium, o Banquete Sagrado. 

1. Que graças a Eucaristia confere àqueles que a recebem?

A Comunhão aumenta a nossa união com Cristo. Receber a Eucaristia na comunhão traz consigo, como fruto principal, a união íntima com Cristo Jesus. De fato, o Senhor diz: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele» (Jo 6, 56). A vida em Cristo tem o seu fundamento no banquete eucarístico: «Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim» (Jo 6, 57):

Quando, nas festas do Senhor, os fiéis recebem o corpo do Filho, proclamam uns aos outros a boa-nova: "Cristo ressuscitou!". Eis que também agora a vida e a ressurreição são conferidas àquele que recebe Cristo. Este alimento também conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo. A vida cristã precisa de ser alimentada pela Comunhão eucarística até à hora da morte, em que nos será dado como viático.

A Comunhão afasta-nos do pecado. O corpo de Cristo que recebemos na Comunhão é entregue por nós e o sangue que nós bebemos é derramado pela multidão, para remissão dos pecados. É por isso que a Eucaristia não pode unir-nos a Cristo sem nos purificar, ao mesmo tempo, dos pecados cometidos, e nos preservar dos pecados futuros:

A Eucaristia preserva-nos dos pecados mortais futuros. Quanto mais participarmos na vida de Cristo e progredirmos na sua amizade, mais difícil nos será romper com Ele pelo pecado mortal. 

A Eucaristia faz a Igreja. Os que recebem a Eucaristia ficam mais estreitamente unidos a Cristo. Por isso mesmo, Cristo une todos os fiéis num só corpo: a Igreja. No Batismo fomos chamados a formar um só corpo. A Eucaristia realiza esta vocação: "O cálice da bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque participamos desse único pão" (1 Cor 10, 16-17).

* Resposta baseada no Catecismo da Igreja Católica (CIC) parágrafos 1391-1397.

2. O que o Profeta Isaías fala sobre a Celebração da Missa?

Em Isaías (2,1-5), o profeta prediz que todas as nações se reunirão no Monte Santo, onde a Palavra de Deus será ensinada e ouvida por todo se Deus governará acima muitos povos. Esta é uma descrição de uma Santa Missa nos dias atuais: a mesma Missa, o meso sacrifício eucarístico é oferecido em todas as nações, a mesma Palavra de Deus é proclamada diariamente na Ásia, África, Europa, Oceânia e Américas. Muitos fiéis se deixam governar mansamente por este justo juiz, Deus.

3. Como São Mateus foi chamado a ser apóstolo?

Em Mateus 9, 9-13, temos este relato: "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto do pagamento das taxas. Disse-lhe: Segue-me. O homem levantou-se e o seguiu. Como Jesus estivesse à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com ele e seus discípulos. Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos: "Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?" Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes: "Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores."

Daí se vê claramente que o São mateus foi chamado para participar deste Banquete Sagrado, não para ser discípulo, apóstolo ou pescador de homens, isto viria no futuro. Em primeiro lugar, foi chamado para se alimentar com Jesus. E não apenas Mateus, mas também outros pecadores, como nós, foram e são chamados a receber a Eucaristia. A Igreja é para os pecadores, não é um grupo selecionado de almas santas, como pensavam os fariseus.

4. Como Adão e Eva pecaram contra a Eucaristia?

Adão e Eva foram convidados a participar deste Banquete Sagrado que Deus lhes preparara, podiam comer todas as frutas e animais, tudo estava ao seu dispor exceto uma árvore. Imagine agora você numa grande festa, com os melhores pratos e bebidas sendo servidos, pois nesta posição estavam Adão e Eva. Mas eles insistiram em não participar do Banquete, preferiram outra comida, sobre a qual foram advertidos que estava contaminada. É como se você, em vez de continuar na festa, resolvesse sair do salão e se alimentar daquilo que já está sendo jogado no lixo. Assim, Adão e Eva romperam a aliança que Deus lhes propusera.

5. Qual a relação entre a Última Ceia e a Eucaristia?

Além da óbvia relação de que a Sagrada Eucaristia foi estabelecida durante a Última Ceia, quando Cristo santificou o pão e vinho, declarou serem seu corpo e sangue, repartiu-os com seus apóstolos e ordenaou que isto seja feito sempre em sua memória, há uma relação espiritual importante:

A Última Ceia foi uma Páscoa judaica, na qual todos os milagres realizados por Deus são relembrados pelo povo judeu. Toda Ceia judaica é uma grande ação de graças pela vida que tem. Nela canta-se o Dayenu, um canto onde recorda-se que Deus salvou seus primigênitos da morte, retirou o povo do Egito, abriu o mar para o povo passar e fugir dos soldados do Faraó, os alimentou com o maná e água no deserto,  deu os mandamentos no Monte Sinai, deu-lhes a Terra Prometida e construiu o Santo Templo em Jerusalém. Por tudo isto, deve-se dar graças ao Senhor. 

Nós cristãos, também devemos dar graças a Deus que nos deu seu único filho em favor de nossos pecados, nos conduz à vida eterna pela Ressuirreição, perdoa nossos pecados, nos alimenta com seu corpo e sangue a cada Eucaristia, nos dá a sua palavra para orientar a nossa vida, nos livra de cometermos pecados mortais, alimenta nossa alma. É esta ação de graças, tudo isto que temso para agradecer a Deus a cada Missa.

* autoria própria.







12 de dez de 2017

Os milagres no manto da Virgem de Guadalupe

Em 12 de Dezembro de 1531, o índio mexicano Cuauhtlatoatzin que havia se convertido ao Catolicismo e mudado de nome para Juan Diego, estava indo até a cidade para buscar um confessor para seu tio que estava muito doente. Ele já havia visto a virgem três vezes e contado ao Bispo, não acreditara na sua história e pedira um sinal.

Sentindo vergonha da virgem por seu fracasso com o Bispo, decidiu ir por outro caminho, mas a Virgem lhe apareceu mesmo assim, disse que não temesse pois seu tio já estava curado e devia ir ao alto do monte para colher rosas novas, este seria o sinal para o Bispo, pois já era inverno e as rosas "normais" já estavam todas queimadas. Ao chegar no monte, encontrou um lindo jardim de rosas, colheu algumas, enrolou-as no seu poncho e foi até o Bispo, Ao tirar as rosas, viu-se que no poncho havia uma imagem de Nossa Senhora, que até hoje está em exposição na Basílica de Guadalupe, próximo à cidade do México.

Os significados da imagem

Sobre esta imagem, há vários detalhes importantes que foram imediatamente reconhecidos pelos astecas, detalhes que ainda não eram bem compreendidos pelos espanhóis que estavam no país: 

A túnica de Nossa Senhora de Guadalupe: a túnica da Virgem Maria é semelhante às usadas pelas mulheres astecas. 

As flores na túnica: a túnica de Nossa Senhora de Guadalupe tem vários outros tipos de flores. Cada flor nasce numa determinada região do México. 

O laço de Nossa Senhora de Guadalupe: O laço que a Virgem tem acima da cintura e abaixo de suas mãos postas era o sinal que as mulheres indígenas usavam para mostrarem que estavam grávidas. 

A flor de quatro pétalas: logo abaixo do laço e sobre o ventre da Virgem de Guadalupe há uma flor de quatro pétalas. Este era um símbolo muito conhecido dos astecas e significa: "O lugar onde Deus habita". Portanto, a Virgem de Guadalupe está grávida e seu ventre é o lugar onde Deus habita. Ela está grávida de um ser divino.

O sol atrás de Nossa Senhora de Guadalupe: Em volta de toda a imagem da Virgem de Guadalupe aparecem raios do sol, dando a entender que o sol, embora não apareça, está atrás dela. O sol, para os astecas, era o símbolo da divindade mais importante cultuada por eles. Colocando-se em frente ao Sol, a Virgem indica que a velha religião asteca deve ficar para trás e a nova religião, o Cristianismo, assumir o seu lugar.

A cruz no colarinho de Nossa Senhora de Guadalupe: Com este símbolo, Nossa Senhora define para os americanos que o ser divino que está em seu ventre, que vai nascer e que iluminará os povos, é Jesus Cristo, morto numa cruz e ressuscitado para a salvação de todos.

Os cabelos da Virgem: os cabelos soltos sob o véu de Nossa Senhora indicam para os astecas que ela é virgem, pois as mulheres casadas usavam o cabelo em outro estilo. Nossa Senhora de Guadalupe é mãe e virgem, em consonância com toda a Doutrina Católica.

A lua negra debaixo dos pés: Esta lua negra simbolizava para os astecas todas as forças do mal. Com esta imagem, Nossa Senhora mostra que pisa sobre o mal, graças ao poder que recebe de seu Filho Divino, Jesus Cristo. É também uma referência ao Livro do Apocalipse: Apareceu uma mulher vestida como o Sol, tendo a Lua sob seus pés. 

O anjo debaixo da Virgem de Guadalupe: para os astecas, apenas reis e rainhas eram carregados, o anjo carregando Maria indica a sua realeza. Para os europeus mostra que se trata da mesma Virgem Maria, Mãe de Deus, que está no céu e que eles veneravam na Europa. 

O manto de Nossa Senhora de Guadalupe: a cor azul do manto representa o céu e as estrelas nele representadas correspondem exatamente, precisamente, à posição das estrelas e constelações visíveis no céu daquela região no dia da aparição. As estrelas no lado direito estão ao sul, as do lado esquerdo no norte do céu. Os astecas eram bons conhecedores das estrelas pois marcavam suas datas festivas com base nas estrelas, por isso, quando viram as estrelas no manto da Virgem de Guadalupe, compreenderam imediatamente que aquela mulher vinha do céu, do divino, de Deus.

As mãos: a mão direita é mais escura e representa os indígenas, nativos das Américas, a mão direita é mais clara e representa os brancos vindos da Europa. As duas mãos juntas em sinal de oração simbolizam que brancos e índios devem se unir e rezar, para a paz e o crescimento de todos.

Milagres que cercam o manto

A durabilidade do manto: o poncho onde está a imagem é feito das fibras de um cacto que, em condições ideais, dura, no máximo, 20 anos. Mas este poncho já tem quase 500 anos e continua intacto, tendo ficado mais de 200 anos exposto no tempo, sem qualquer tipo de proteção. Réplicas que foram feitas ao longo dos séculos foram perdidas, decompostas por processos naturais.

Ácido derramado: em 1785, um trabalhador acidentalmente derramo ácido nítrico sobre o manto, o que normalmente deveria corroê-lo, mas ele permanece intacto.

Bomba: em 1921 uma bomba foi colocada próximo ao manto. Todos os vidros ao redor foram despedaçados, mas o vidro no qual está o manto atualmente não sofreu nada. Até um crucifixo de ferro que estava ao pé da Virgem ficou todo retorcido, mas o manto está intacto.

Pintura: não nenhum sinal de tinta, natural ou artificial, não há sinais de pinceladas ou qualquer outra técnica usada por pintores. Examinada em microscópio, a imagem parece flutuar a três décimos de milímetros do tecido, sem tocá-lo.

Os olhos da Virgem: quando exposta à luz intensa, os olhos da Virgem se contraem, como ocorre com nossos olhos. Além disso, usando computadores, a imagem dos olhos da Virgem foram ampliadas milhares de vezes revelando que o Bispo e outras doze pessoas estão olhada para ela. Ampliando os olhos do Bispo ainda mais, aparece Juan Diego, que estava em frente ao Bispo. Isto se repete nos dois olhos, mas em ângulos ligeiramente diferentes, como seria esperado do olho humano. Não há técnica de pintura possível para fazer estes reflexos microscópicos.

Temperatura do tecido: o tecido mantém uma temperatura constante de 36.5 graus, como uma pessoa com boa saúde.

Batidas de coração: ao colocar um estetoscópio no ventre da Virgem, escuta-se batidas de um coração ao ritmo de 115 batidas por minuto, como o coração de um bebê saudável.

11 de dez de 2017

Perguntas sobre Eucaristia - introdução

1. Qual o significado da palavra "Eucaristia"?

Segundo o Catecismo da Igreja Católica (CIC), item 1328, chama-se Eucaristia, porque é uma ação de graças a Deus. Provém das palavras gregas "eucharistein" (Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24) e "eulogein" (Mt 26, 26; Mc 14, 22) que lembram as bênçãos judaicas que proclamam – sobretudo durante a refeição – as obras de Deus: a criação, a redenção e a santificação.

A Eucaristia  é um sacrifício de louvor em ação de graças pela obra da criação. Neste sacrifício toda a criação, amada por Deus, é apresentada ao Pai, através da morte e ressurreição de Cristo. É um louvor em ação de graças por tudo o que Deus fez de bom, belo e justo, na criação e na humanidade.

A Eucaristia é um sacrifício oferecido por Cristo na cruz, com Cristo presente na hóstia e vinho, que é aceito em memória de Cristo.

* baseado no Catecismo da Igreja Católica (CIC), parágrafos 1328, 1359-61.

2. Por quais outros nomes a Eucaristia é também conhecida?

Utiliza-se vários outros nomes para significar a Eucaristia:

  • Ceia do Senhor, porque se trata da ceia que o Senhor comeu com os discípulos na véspera da sua paixão.
  • Fração do Pão, porque este rito, próprio da refeição dos judeus, foi utilizado por Jesus quando abençoava e distribuía o pão como chefe de família, sobretudo na última ceia. É por este gesto que os discípulos O reconheceram depois da sua ressurreição.
  • Assembleia eucarística, porque a Eucaristia é celebrada em assembleia de fiéis, expressão visível da Igreja.
  • Santo Sacrifício, porque atualiza o único sacrifício de Cristo Salvador e inclui a oferenda da Igreja; ou ainda santo Sacrifício da Missa, Sacrifício de louvor (Heb 13, 15), Sacrifício espiritual, Sacrifício puro e santo, pois completa e ultrapassa todos os sacrifícios da Antiga Aliança.
  • Santa e divina Liturgia, porque toda a liturgia da Igreja é centrada neste sacramento; no mesmo sentido se lhe chama também celebração dos Santos Mistérios. Fala-se igualmente do Santíssimo Sacramento, porque é o sacramento dos sacramentos. E, com este nome, se designam as espécies eucarísticas guardadas no sacrário.
  • Comunhão, pois é por este sacramento que nos unimos a Cristo, o qual nos torna participantes do seu corpo e do seu sangue, para formarmos um só corpo.
  • Santa Missa, porque a liturgia em que se realiza o mistério da salvação termina com o envio dos fiéis («missio»), para que vão cumprir a vontade de Deus na sua vida quotidiana.
* CIC: 1329-1333

3. O que relembramos na Eucaristia?


A Eucaristia é o memorial da Páscoa de Cristo, a atualização e a oferenda sacramental do seu único sacrifício, na liturgia da Igreja que é o seu corpo. No sentido que lhe dá a Sagrada Escritura, o memorial não é somente a lembrança dos acontecimentos do passado, mas a proclamação das maravilhas que Deus fez pelos homens.

Na celebração litúrgica destes acontecimentos, eles se tomam presentes e atuais. É assim que Israel entende a sua libertação do Egipto: sempre que se celebrar a Páscoa, os acontecimentos do Êxodo tornam-se presentes à memória dos crentes, para que conformem com eles a sua vida.

Quando a Igreja celebra a Eucaristia, faz memória da Páscoa de Cristo, e esta torna-se presente: o sacrifício que Cristo ofereceu na cruz uma vez por todas, continua sempre atual: Todas as vezes que no altar se celebra o sacrifício da cruz, no qual "Cristo, nossa Páscoa, foi imolado", realiza-se a obra da nossa redenção.

* CIC 1362-1364

4. Por que a Eucaristia é a fonte de toda vida cristã?

A Eucaristia é fonte e ponto central de toda a vida cristã. Tudo mais que acontece na Igreja, outros sacramentos, todos os ministérios eclesiásticos e obras de apostolado, estão vinculados com a sagrada Eucaristia e a ela se orientam. Com efeito, na santíssima Eucaristia está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, nossa Páscoa.

Nela se encontra o cume, ao mesmo tempo, da ação pela qual Deus, em Cristo, santifica o mundo, e do culto que no Espírito Santo os homens prestam a Cristo e, por Ele, ao Pai. Pela celebração eucarística, unimo-nos desde já à Liturgia do céu e antecipamos a vida eterna. (1 Cor 15, 18 ).

* CIC 1324-1327

5. Quando a Igreja começou a celebrar a Eucaristia?

Desde o princípio a Igreja foi fiel à ordem do Senhor. Da Igreja de Jerusalém está escrito:
Eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à união fraterna, à fracção do pão e às orações. [...] Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração (At 2, 42.46).
6. A Igreja sempre celebrou Eucaristia como faz hoje?

 Desde o século II, temos o testemunho de São Justino sobre a forma da celebração eucarística e permaneceram as mesmas até aos nossos dias. Veja o testemunho do santo escrito cerca do ano 155:
No dia que chamam Dia do Sol, realiza-se a reunião num mesmo lugar de todos os que habitam a cidade ou o campo.
Lêem-se as memórias dos Apóstolos e os escritos dos Profetas, tanto quanto o tempo o permite.
Quando o leitor acabou, aquele que preside toma a palavra para incitar e exortar à imitação dessas belas coisas.
Em seguida, levantamo-nos todos juntamente e fazemos orações por nós mesmos [...] e por todos os outros, [...] onde quer que estejam, para que sejamos encontrados justos por nossa vida e ações, e fiéis aos mandamentos, e assim obtenhamos a salvação eterna.
Terminadas as orações, damo-nos um ósculo uns aos outros.
Depois, apresenta-se àquele que preside aos irmãos pão e uma taça de água e vinho misturados.
Ele toma-os e faz subir louvor e glória ao Pai do universo, pelo nome do Filho e do Espírito Santo, e dá graças  longamente, por termos sido julgados dignos destes dons.
Quando ele termina as orações e ações de graças, todo o povo presente aclama:Ámen.[...] Depois de aquele que preside ter feito a ação de graças e de o povo ter respondido, aqueles a que entre nós chamamos diáconos distribuem a todos os que estão presentes pão, vinho e água "eucaristizados" e também os levam aos ausentes.
 Ou seja, a ordem seguida na celebração já era próxima da atual: leituras bíblicas, homília, preces da comunidade, consagração do pão e vinho, e distribuição da Eucaristia.

* CIC 1342, 1345.

* autoria própria, totalmente baseado no Catecismo da Igreja Católica (CIC).

* outras quatro partes estão para ser publicadas.

21 de nov de 2017

Eis que vem a ti teu rei, justo e salvador

Digamos também nós a Cristo: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 21,9), rei de Israel (Mt 27,42). Levantemos para ele, quais folhas de palmeira, as derradeiras palavras na cruz. Vamos com entusiasmo para a frente, não com ramos de oliveira, mas com as honras das esmolas de uns aos outros. Estendamos a seus pés, como vestes, os desejos do coração. Deste modo, pondo seus passos em nós,esteja dentro de nós, e nós inteiros nele; e se manifeste ele totalmente em nós. Repitamos para Sião a aclamação do Profeta: Tem confiança, filha, não temas. Eis que vem a ti teu rei, manso e montado no jumentinho, filho da que leva o jugo (cf. Zc 9,9).
 
Jesus entra em Jerusálem, de Giotto(século XIV)
Vem aquele que está presente em todo o lugar e ocupa tudo, para realizar em ti a salvação  de tudo. Vem aquele que não veio chamar os justos, mas os pecadores à conversão (Mt 9,13), para fazer voltar os desviados pelo pecado. Não temas, pois. Está Deus no meio de ti, não serás abalada (cf. Dt 7,21).

De mãos erguidas, recebe-o, a ele que gravou nas próprias mãos tuas muralhas. Acolhe-o, a ele que cavou em suas palmas teus fundamentos. Recebe-o, a ele que tomou para si tudo o que é nosso, à exceção do pecado, a fim de mergulhar tudo que é nosso no que é dele. Alegra-te, cidade-mãe, Sião; não temas. Celebra tuas festas (Na 2,1). Glorifica por sua misericórdia quem em ti vem para nós. Mas também tu, rejubila-te com entusiasmo, filha de Jerusalém, canta, dança de alegria. Resplandece, resplandece (assim aclamamos junto com Isaías, o clarim sagrado), porque chegou tua luz e nasceu sobre ti a glória do Senhor (Is 60,1).

Que luz é esta? Só pode ser aquela que ilumina a todo homem que vem ao mundo (cf. Jo 1,9). A luz eterna, luz que não conhece o tempo e revelada no tempo, luz manifestada pela carne e oculta por natureza, luz que envolveu os pastores e se fez para os magos guia do caminho. Luz que desde o princípio estava no mundo, por quem foi feito o mundo e o mundo não a conheceu. Luz que veio ao que era seu, e os seus não a receberam.

Glória do Senhor. Qual glória? Na verdade, a cruz em que Cristo foi glorificado. Ele, esplendor da glória do Pai, como ele próprio, estando próxima a paixão, disse: Agora é glorificado o Filho do homem e Deus é glorificado nele; e o glorificará sem demora (cf. Jo 13,31-32). Chama de glória neste passo sua exaltação na cruz. Porque a cruz de Cristo é glória e, realmente, sua exaltação. Por isto diz: Eu, quando for exaltado, atrairei todos a mim (Jo 12,32).

-- Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo (século VIII)

18 de nov de 2017

Milagres e o processo de canonização

Os primeiros santos da Igreja foram mártires que permaneceram firmes à fé em Jesus Cristo mesmo sob a ameaça de torturas e mortes quando suas comunidades começaram a relembrar anualmente o martírio de seus conhecidos. Daí surgiu a necessidade de organizar calendários litúrgicos e escrever a história de cada santo, pois com o passar dos anos, o número de santos aumentava, e aqueles que haviam testemunhado os acontecimentos pessoalmente, faleciam.

O martírio de Santa Felicidade, testemunhado por cristãos
e não cristãos.
Neste contexto, não havia processo legal para definir a canonização dos santos, apenas era óbvio para os seus conhecidos que a pessoa havia sido martirizada por sua fé e, sem dúvida, havia entrado nos céus após fazer um sacrifício similar do próprio Jesus Cristo. Ou seja, o povo sabia que era uma santo por que havia testemunhado de sua santificação.

Mas nem todo cristão que havia tido uma vida justa morria martirizado. Por exemplo, alguns bispos que haviam sido eleitos por sua comunidade pelo seu exemplo de fé, quando faleciam por doenças, velhice ou algum acidente, também eram considerados santos. Logo, as comunidades passaram também a reconhecer a santidade de viúvas e virgens.

Com o passar dos séculos, o aumento no número de cristãos e o fim das perseguições, tornou-se impossível para os bispos conhecer seu rebanho intimamente a ponto de poder afirmar que haviam tido uma vida santificada. Passou então ser necessário algum tipo de investigação por parte das autoridades locais para melhor se informar dos fatos antes de declarar alguém santo. Como não havia ainda um processo formal, o método poderia variar bastante, mas há poucos registros para entender os detalhes de cada caso.

É certo que na Idade Média iniciou-se a considerar milagres realizados pela intercessão do santo como clara comprovação que a pessoa estava no céus pois somente estando nos céus uma alma poderia pedir diretamente a Deus que auxiliasse na cura ou qualqueroutro problema do fiel que pedia a graça. 

O Papa Alexandre III (1159-1181) centralizou o processo de canonização em Roma para resolver abusos que ocorriam na distante Suécia. O caso em consideração era claro, a igreja local começara a venerar um homem que havia sido morto enquanto estava bêbado, dando como verdadeiros certos relatos de milagres que ocorreram próximos ao túmulo do sujeito. Em uma carta ao Rei da Suécia, o Papa comunicou que novos santos só deveriam ser venerados após autorização de Roma.  

Papa Inocente II
Em 1198, Papa Inocente II definiu claramente os critérios para canonização: "duas coisas são necessárias para que uma pessoa seja considerada santa pela Igreja Militante, trabalhos de piedade durante sua vida e milagres após sua morte". Mais tarde esclareceu que "apenas os méritos acumulados em vida sem milagres ou apenas os milagres sem méritos não são evidência suficiente de santidade... pois um anjo do demônio pode se por um anjo de luz para enganar os homens, enquanto certas pessoas são muitos caridosas apenas para serem apreciadas pelos homens."  Note-se que nada foi dito quanto a quantidade de milagres ou sua natureza, mas os bispos locais passaram a coletar as informações e enviar à Roma para que o Papa desse sua aprovação final. 

Com a expansão do Cristianismo para novas áreas como América, Ásia e sul da África, relatos de martírios voltaram a se tornar comuns. O Papa Urbano VIII (1623-1644) constituiu uma comissão de teólogos com o objetivo de discutir se bastava o martírio ou a Igreja deveria continuar exigindo milagres dos novos mártires. O caso em questão era o Arcebispo de Polotsk (atual Bielorússia) Josafá Kuntsevych que fora morto por uma multidão de cristãos ortodoxos. O Papa reconhecia o martírio, mas até o momento não havia relatos de milagres.

Após discussões, o painel concluiu que nos casos claros de martírio público, como ocorria com os primeiros cristãos nos tempos da perseguição romana, milagres não eram necessários. Mas se os acontecimentos não fossem tão claros, os milagres seriam a confirmação da santidade e martírio, afinal havia a possibilidade de alguém, nos minutos finais, se arrepender de estar arriscando sua vida, o que invalidaria o martírio. Desta maneira, os milagres funcionavam como uma espécie de "seguro" de que o martírio tinha sido legítimo. Desta resposta percebe-se que o processo de canonização tinha se tornado bem mais legalístico e complexo, com documentos, testemunhas e decisões em cômites, algo bem diferente da espontaneidade dos primeiros cristãos.

No Código Canônico de 1917, a complexidade legal persistiu. A Lei passou a requerer para a beatificação dois, três ou quatro milagres para beatificação, dependendo da confiabilidade e número de testemunhas diretas ou indiretas, e mais dois milagres para a canonização. Portanto, em alguns casos era possível que até seis milagres fossem necessários, embora já havia uma previsão no canon 2116.2 de que o Papa poderia dispensar a obrigatoriedade dos milagres em casos específicos.

A partir dos anos 70, com o Papa Paulo VI, e depois São João Paulo II, tornou-se habitual beatificar com apenas um milagre e canonizar com mais outro. Também ajudou que era muito mais fácil documentar os casos e, com o avanço da ciência, separar milagres legítimos que ocorreram por intervenção divina, de outros acontecimentos explicáveis cientificamente. No entanto, isto criou a necessidade de utilizar cientistas para analisar os casos, envolvendo leigos, não apenas padres e teólogos na decisão. Embora o número de milagres tenha sido reduzido na prática, mesmo para os mártires, pelo menos dois milagres era o número "mágico".

Funeral de São João Paulo II, o povo reconhecendo que
havia sido santo.
No atual Código Canônico, o canon 1403.1 apenas indica que o processo de canonização deve ser guiado através de orientações claras estabelecidas pelo Papa. Em 1983, São João Paulo II publicou a Constituição Apostólica Divinus Perfectionis Magister que estabeleceu o processo em uso nos dias atuais, prevendo, formalmente, uma vida exemplar, um milagre para beatificação e um milagre para canonização. O martírio comprovado dispensa a necessidade de milagres, mas o processo ainda é complicado, involve muitas pessoas e pode ser bem custoso.

O caso do próprio Papa João Paulo II representa uma evolução interessante com o povo em seu funeral já pedindo sua canonização pois sua vida tinha sido tão pública quanto possível graças aos meios de comunicação. Formalmente ainda foram documentados dois milagres, mas num ritmo muito mais rápido que o habitual. Santa Teresa de Cálcuta também seguiu o mesmo processo acelerado. Ainda, se assim desejar, o Papa tem poder para dispensar a exigência de milagres e acelerar o processo.

-- autoria própria


11 de nov de 2017

A morte de São Martinho

São Martinho, ainda soldado, encontra o pobre
que mudaria sua vida.   
Martinho soube com muita antecedência o dia da sua morte e comunicou aos irmãos estar iminente a dissolução de seu corpo. Entretanto, surgiu a necessidade de ir à diocese de Candax, pois os eclesiásticos desta Igreja estavam em discórdia. Desejando restabelecer a paz, embora não ignorasse o fim de seus dias, não recusou partir, julgando que seria um excelente fecho de suas obras deixar a Igreja em paz.

Demorou-se por algum tempo na aldeia e na Igreja aonde fora, e a paz voltou para os clérigos. Quando já pensava em regressar ao mosteiro, começaram de repente a faltar-lhe as forças e, chamando os irmãos, disse-lhes que ia morrer. Diante disto todos se entristeceram grandemente, chorando e dizendo, a uma só voz: “Por que, pai, nos abandonas? A quem nos entregas, desolados? Lobos vorazes invadem teu rebanho; quem, ferido o pastor, nos livrará de seus dentes? Sabemos que desejas a Cristo, mas teus prêmios já estão seguros e não diminuirão com o adiamento! Tem compaixão de nós, a quem desamparas!” 

Comovido com estas lágrimas, ele que sempre possuíra entranhas de misericórdia, também chorou, segundo contam. Voltando-se então para o Senhor, respondeu aos queixosos somente com estas palavras: “Senhor, se ainda sou necessário a teu povo, não recuso o trabalho. Que se faça tua vontade”.

Que homem incomparável! O trabalho não o vence, a morte não o vencerá! Ele, que não se inclinava para nenhum dos lados, não temeria morrer e nem recusaria viver! No entanto, olhos e mãos sempre erguidos para o céu, não abandonava a oração o espírito invicto; e quando os presbíteros, que se haviam reunido junto dele, lhe pediram aliviar o frágil corpo, virando-o para o lado, disse: “Deixai-me, deixai-me, irmãos, olhar para o céu de preferência à terra, para que o espírito já se dirija ao caminho que o levará ao Senhor”. Dito isto, viu o demônio ali perto. “Por que estás aqui, fera nefasta? Nada em mim, ó cruel, encontrarás! O seio de Abraão me acolhe”.

Com estas palavras entregou o espírito ao céu. Martinho, feliz, é recebido no seio de Abraão; Martinho, pobre e humilde, entra rico no céu.

-- Das Cartas de Sulpício Severo, século V

São Martinho era soldado do exército quando num dia de inverno encontrou um pobre que estava passando frio. Martinho cortou metade de sua túnica e deu para o pobre. Naquela noite teve uma visão em que entrava nos céus carregado por anjos e lá encontrava Jesus Cristo que lhe agradeceu por ter sido salvo naquele dia tão frio. Foi então que resolveu mudar de vida e entrar em um convento.

8 de nov de 2017

O poder da fé ultrapassa as forças humanas

A fé tem um só nome, mas duas maneiras de ser. Há um gênero de fé que se relaciona com os ensinamentos de Cristo, inclui a elevação de uma pessoa e sua concordância sobre determinado assunto; diz respeito ao interesse pessoal, conforme o Senhor: Quem ouve minhas palavras e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna e não incorre em condenação (Jo 5,24); e de novo: Quem crê no Filho não será julgado, mas passa da morte para a vida (cf. Jo 3,18.24). 

Ó bondade imensa de Deus para com os homens! Com efeito, os justos foram agradáveis a Deus pelo trabalho de muitos anos. Mas aquilo que alcançaram entregando-se corajosamente e por muitos anos ao serviço de Deus, isto mesmo em uma simples hora, Jesus te concede. Porque se creres que Jesus Cristo é Senhor e que Deus o ressuscitou dos mortos, serás salvo e levado ao paraíso por aquele que nele introduziu o ladrão. E não hesites em acreditar ser isto possível, pois quem salvou o ladrão neste santo Gólgota, pela fé de uma só hora, pode também salvar-te a ti, se creres. 

O outro gênero é a fé que Cristo concede por graça especial. Pois a uns pelo Espírito é dada a palavra da sabedoria, a outros a palavra da ciência, segundo o mesmo Espírito. A outros a fé, no mesmo Espírito, a outros o dom de curar (1Cor 12,8-9). 

Este carisma da fé dado pelo Espírito não se relaciona apenas com a palavra; torna ainda capaz de realizar coisas acima das forças humanas. Quem tiver uma fé assim, dirá a este monte: Vai daqui para ali; e irá (Mt 17,20). Quando, pois, pela fé, alguém disser isto, crendo que acontecerá sem hesitar em seu coração, então é sinal de que recebeu esta graça.  

Dela se disse: Se tivésseis fé como um grão de mostarda(Mt 17,20). Como o grão de mostarda, tão pequenino, possui uma força de fogo, e semeado em estreito pedaço de terra produz grandes ramos, que depois de crescidos podem dar sombra às aves do céu, assim também, num abrir e fechar de olhos, a fé realiza as maiores coisas na pessoa. Porque lhe dá uma ideia sobre Deus e o vê tanto quanto é capaz, inundada pela luz da fé. Percorre os confins da terra; e antes da consumação do mundo, já prevê o juízo e a entrega das recompensas prometidas. 

Guarda então a fé que de ti depende e que te leva a ele; para que recebas de suas mãos também aquela que age muito além das forças humanas.

-- Das catequeses de São Cirilo de Jerusalém, bispo (século IV) 

2 de nov de 2017

Morramos com Cristo, para vivermos com ele

Santo Ambrósio, bispo
Percebemos que a morte é lucro, e a vida, castigo. Por isso Paulo diz: Para mim, viver é Cristo, e morrer é lucro (Fl 1,21). Como unir-se a Cristo, espírito da vida, senão pela morte do corpo? Morramos então com ele, para com ele vivermos. Morramos diariamente no desejo e em ato, para que, por este sacrifício, nossa alma aprenda a se subtrair das concupiscências corporais. Que ela, como se já estivesse nas alturas, onde não a alcançam os desejos terrenos, aceite a imagem da morte para não incorrer no castigo da morte. Pois a lei da carne luta contra a lei do espírito e apoia-se na lei do erro. Mas qual o remédio? Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24) A graça de Deus, por Jesus Cristo, nosso Senhor (cf. Rm 7,25s).

Temos o médico, usemos o remédio. Nosso remédio é a graça de Cristo, e corpo de morte é o nosso corpo. Portanto afastemo-nos do corpo e não se afaste de nós o Cristo! Embora ainda no corpo, não lhe obedeçamos, não abandonemos as leis naturais, mas prefiramos os dons da graça.

E que mais? Pela morte de um só, o mundo foi remido. Cristo, se quisesse, poderia não ter morrido. Não julgou, porém, dever fugir da morte como coisa inútil nem que nos salvaria melhor, evitando a morte. Com efeito, sua morte é a vida de todos. Somos marcados com sua morte, ao orar anunciamos sua morte, ao oferecer o sacrifício pregamos sua morte. Sua morte é vitória, é sacramento, é a solenidade anual do mundo.

Não diremos ainda mais sobre a sua morte, se provarmos pelo exemplo divino que dela resultou a imortalidade, e que a morte se redimiu a si mesma? Não se deve lastimar a morte, que é causa da salvação do povo. Não se deve fugir da morte, que o Filho de Deus não rejeitou, e da qual não fugiu.

Na verdade, a morte não era da natureza, mas converteu-se em natureza. No princípio, Deus não fez a morte, mas deu-a como remédio. Pelo pecado, condenado ao trabalho de cada dia e ao gemido intolerável, a vida dos homens começou a ser miserável. Era preciso dar fim aos males, para que a morte restituísse o que a vida perdera. Pois a imortalidade seria mais penosa que benéfica, se não fosse promovida pela graça [a uma vida nos céus].

Por isso, tem o espírito de afastar-se logo da vida tortuosa e das nódoas do corpo terreno, e lançar-se para a celeste assembléia, embora pertença só aos santos lá chegar, e cantar a Deus o louvor, descrito no livro profético, que os salmistas cantam: Grandes e maravilhosas tuas obras, Senhor Deus onipotente; justos e verdadeiros teus caminhos, ó Rei das nações! Quem não temeria e não glorificaria teu nome? Porque só tu és santo; todos os povos irão e se prostrarão diante de ti (Ap 15,3-4). Contemplar também, ó Jesus, tuas núpcias, nas quais a esposa, ao canto jubiloso de todos, é conduzida da terra ao céu – a ti virá toda carne (Sl 64,3) – já não mais manchada pelo mundo, mas unida ao espírito.

Era isto que o santo Davi desejava, acima de tudo, contemplar e admirar, quando dizia: Uma só coisa pedi ao Senhor, a ela busco: habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida e ver as delícias do Senhor (Sl 26,4).

-- Do Livro sobre a morte de seu irmão Sátiro, de Santo Ambrósio, bispo (Séc.IV)

25 de out de 2017

No mundo, mas não do mundo

São Gregório Magno foi papa de 590 até 604.
Desejaria exortar-vos a deixar tudo, mas não me atrevo. Se não podeis deixar as coisas do mundo, fazei uso delas de tal modo que não vos prendam a ele, possuindo os bens terrenos sem deixar que vos possuam. Tudo o que possuís esteja sob o domínio do vosso espírito, para que não fiqueis presos pelo amor das coisas terrenas, sendo por elas dominados.

Usemos as coisas temporais, mas desejemos as eternas. As coisas temporais sejam simples ajuda para a caminhada, mas as eternas, o termo do vosso peregrinar. Tudo o que se passa neste mundo seja considerado como acessório. Que o olhar do nosso espírito se volte para frente, fixando-nos firmemente nos bens futuros que esperamos alcançar.

Extirpemos radicalmente os vícios, não só das nossas ações mas também dos pensamentos. Que o prazer da carne, o ardor da cobiça e o fogo da ambição não nos afastem da Ceia do Senhor!

Até as coisas boas que realizamos no mundo, não nos apeguemos a elas, de modo que as coisas agradáveis sirvam ao nosso corpo sem prejudicar o nosso coração.

Por isso, irmãos, não ousamos dizer-vos que deixeis tudo. Entretanto, se o quiserdes, mesmo possuindo-as, deixareis todas as coisas se tiverdes o coração voltado para o alto. Pois quem põe a serviço da vida todas as coisas necessárias, sem ser por elas dominado, usa do mundo como se dele não usasse. Tais coisas estão ao seu serviço, mas sem perturbar o propósito de quem aspira às do alto. Os que assim procedem têm à sua disposição tudo o que é terreno, não como objeto de sua ambição, mas de sua utilidade. Por conseguinte, nada detenha o desejo do vosso espírito, nenhuma afeição vos prenda a este mundo.

Se amarmos o que é bom, deleite-se o nosso espírito com bens ainda melhores, isto é, os bens celestes. Se tememos o mal, ponhamos diante dos olhos os males eternos. Desse modo, contemplando na eternidade o que mais devemos amar e o que mais devemos temer, não nos deixaremos prender ao que existe na terra.

Para assim procedermos, contamos com o auxílio do Mediador entre Deus e os homens. Por meio dele logo obteremos tudo, se amarmos realmente aquele que, sendo Deus, vive e reina com o Pai e o Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Das Homilias sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, papa (século V)

9 de out de 2017

Deve-se orar especialmente por todo o Corpo da Igreja


Imola a Deus um sacrifício de ação de graças e cumpre teus votos ao Altíssimo (Sl 49,14). Louvar a Deus é fazer um voto de louvor e cumpri-lo. Por isto o samaritano se sobressai aos demais porque, ao ser purificado com os outros nove da lepra, pela palavra do Senhor, voltou sozinho a Cristo e engrandeceu a Deus com ação de graças. Dele disse Jesus: Não houve dentre eles quem voltasse e desse graças a Deus a não ser este estrangeiro. E dirigindo-se a ele: Levanta-te e vai;tua fé te salvou (Lc 17,18-19).

O Senhor de modo divino também te ensinou a bondade do Pai que sabe dar coisas boas, para que ao Bom peças tudo o que é bom. E aconselhou a orar com instância e repetidamente; não em prece fastidiosa pela duração, mas continuada pela freqüência. Futilidades afogam, as mais das vezes, a longa oração, e na muito interrompida facilmente se insinua o descuido.

Exorta ainda a que, quando lhe pedes perdão para ti, saibas que será concedido sobretudo aos outros, na medida em que apoiares o pedido coma voz de tuas obras. O Apóstolo também ensina que se deve orar sem ira nem contestação, para que não se turve, não se altere tua súplica. E ainda ensina que se há de rezar em todo lugar (cf. 1Tm 2,8), pois disse o Salvador: Entra em teu quarto (Mt 6,6).

Não entendas, porém, um quarto cercado por paredes, onde teu corpo fica fechado, mas o quarto que existe dentro de ti, onde são encerados teus pensamentos, onde moram teus sentimentos. Este quarto de tua oração em toda parte está contigo, em toda parte é secreto, sem outro juiz que não Deus só.
  
Aprendeste também que se deve rezar principalmente pelo povo, quer dizer, pelo Corpo inteiro, por todos os membros de tua Mãe, onde se nota a mútua caridade. Se, pois, pedes por ti, somente por ti rogarás. E se apenas por si roga cada qual, será menor a graça do pecador do que a do intercessor. Agora, porém, já que cada um pede por todos, então todos rezam por cada um.

Portanto, para resumirmos, se apenas pedes por ti somente, como dissemos, pedirás por ti. Ao passo que se pedes por todos, todos pedirão por ti. Na verdade também tu estás em todos. É assim grande a recompensa: que pela intercessão de um se beneficie o povo inteiro. Não há nisto nenhuma arrogância; porém, há maior humildade e mais copiosos frutos.

-- Do Tratado sobre Caim e Abel, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

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