18 de abr de 2017

Era necessário Cristo ressucitar?

Ressurreição de Cristo, de Rafael Sanzio (cc. 1500).
Acervo do MASP.

Era necessário que Cristo ressuscitasse, por cinco razões:


Para a manifestação da justiça divina, a qual compete exaltar aos que se humilham por amor de Deus, segundo aquilo do Evangelho: Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes (Lc 1,52). Tendo, pois, Cristo, levado pela caridade e obediência, se humilhado até à morte da cruz, importava que  fosse exaltado por Deus até a ressurreição gloriosa. 

Para confirmação da nossa fé, pois, a sua ressurreição confirmou a nossa fé na divindade de Cristo. Como diz o Apóstolo: Se Cristo não ressuscitou é vã a nossa pregação, é também vã a nossa fé (1Cor 15,14). E noutro lugar diz a Escritura: Que proveito há no meu sangue, i. é, na efusão do meu sangue, se desço à corrupção, como que por degraus de males?(Sl 29) Quase se respondesse: Nenhum. Pois, se não ressurgir logo e se me corromper o corpo, a ninguém anunciarei, ninguém seria beneficiado.

Para sustentar a nossa esperança, pois, vendo Cristo ressuscitar, ele que é nossa cabeça, esperamos que também nós ressuscitaremos. Donde o dizer o Apóstolo: Se se prega que Cristo ressuscitou dentre os mortos, como dizem alguns entre vós outros que não há ressurreição de mortos? (1Cor 15,2) E noutro lugar da Escritura: Eu sei, isto é, pela certeza da fé, que o meu Redentor, isto é, Cristo vive, tendo ressurgido dos mortos, e portanto, eu no derradeiro dia surgirei da terra: esta minha esperança esta depositada no meu peito. (Jó 19,25-27)

Para nos dar um modelo pelo qual possamos regular a nossa vida, segundo fala o Apóstolo: Como Cristo ressurgiu dos mortos pela glória do Padre, assim também nós levemos uma vida nova (Rm 6,4). E mais abaixo: Tendo Cristo ressurgido dos mortos, já não morre, nem a morte terá sobre ele mais domínio; assim também vós considerai-vos que estais certamente mortos ao pecado, porém vivos para Deus (Rm 9, 11)

Para complemento da nossa salvação, pois, assim como sofreu tantos males e morreu, para dos males nos livrar, assim também foi glorificado ressurgindo, para nos dar a posse do bem, segundo o Apóstolo: Foi entregue por nossos pecados e ressuscitou para nossa justificação. (Rm 4, 25)

-- adaptado da Suma Teológica (Tertia Pars, questão 53), São Tomás de Aquino

8 de abr de 2017

Vamos participar da festa da Páscoa

Vamos participar da festa da Páscoa, por enquanto ainda em figuras, embora mais claramente do que na antiga lei (a Páscoa legal era, por assim dizer, uma figura muito velada da própria figura). Mas, em breve, participaremos de modo mais perfeito e mais puro, quando o Verbo vier beber conosco o vinho novo no reino de seu Pai, revelando definitivamente o que até agora só em parte nos mostrou. A nossa Páscoa é sempre nova.

Qual é essa bebida e esse conhecimento? A nós compete dizê-lo; e ao Verbo compete ensinar e comunicar essa doutrina a seus discípulos. Porque a doutrina daquele que alimenta é também alimento.

Quanto a nós, participemos também dessa festa ritual, não segundo a letra mas segundo o Evangelho; de modo perfeito, não imperfeito; para a eternidade, não temporariamente. Seja a nossa capital, não a Jerusalém terrestre, mas a cidade celeste; não a que é agora arrasada pelos exércitos, mas a que é exaltada pelo louvor e aclamação dos anjos.

Sacrifiquemos não novilhos ou carneiros com chifres e cascos, vítimas sem vida e sem inteligência; pelo contrário, ofereçamos a Deus um sacrifício de louvor sobre o altar celeste, em união com os coros angélicos. Atravessemos o primeiro véu, aproximemo-nos do segundo e fixemos o olhar no Santo dos Santos.

Direi mais: imolemo-nos a Deus, ou melhor, ofereçamo-nos a ele cada dia, com todas as nossas ações. Façamos o que nos sugerem as palavras: imitemos com os nossos sofrimentos a Paixão de Cristo, honremos com o nosso sangue o seu sangue, e subamos corajosamente à sua cruz.

Se és Simão Cireneu, toma a cruz e segue a Cristo.

Se, qual o ladrão, estás crucificado com Cristo, como homem íntegro, reconhece a Deus. Se por tua causa e por teu pecado ele foi tratado como malfeitor, torna-te justo por seu amor. Adora aquele que foi crucificado por tua causa. Preso à tua cruz, aprende a tirar proveito até da tua própria iniquidade. Adquire a tua salvação com a sua morte, entra com Jesus no paraíso, e saberás que bens perdeste com a tua queda. Contempla as belezas daquele lugar, e deixa que o ladrão rebelde fique dele excluído, morrendo na sua blasfêmia.

Se és José de Arimatéia, pede o corpo a quem o mandou crucificar; e assim será tua a vítima que expiou o pecado do mundo. Se és Nicodemos, aquele adorador noturno de Deus, unge-o com perfumes para a sua sepultura.

Se és Maria, ou a outra Maria, ou Salomé, ou Joana, derrama tuas lágrimas por ele. Levanta-te de manhã cedo, procura ser o primeiro a ver a pedra do túmulo afastada, e a encontrar talvez os anjos, ou melhor ainda, o próprio Jesus.

-- Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo (século IV)

17 de mar de 2017

Os milagres que salvaram a vida de São Bento

São Bento foi fundamental para a Igreja Católica por que em torno do ano de 540 organizou a vida de monges e monjas, com regras que ainda são utilizadas hoje em dia. Até então, monges viviam isolados, longe das cidades, mendigando, indo para onde desejassem e rezando conforme lhes aprazia, o que nem sempre resultava em bons exemplos. 

São Bento (de Núrsia) nasceu em 480
e faleceu em 547.
São Bento instituiu os monastérios sob a responsabilidade de um abade ou abadessa, os três votos - castidade, pureza e obediência - e uma vida em comunidade que combinava horas de orações com momentos de trabalho em favor de todos.  Embora levasse uma vida santa, por duas vezes teve sua vida ameaçada e salva por milagres.

Certa ocasião, o abade de um monastério morreu e os monges convidaram o santo para assumir a função. Como era seu hábito, impôs as suas regras, o que desgostou os monges que estavam acostumados com uma vida mais livre e tranquila. Decidiram então matar São Bento envenenando o vinho que ele consagraria na Missa. Mas ao fazer o Sinal da Cruz, o cálice se partiu em pedaços, derramando todo o vinho, e salvando o Santo.

Em outra ocasião, um padre que morava perto do monastério caiu no pecado da inveja, por que seus paroquianos admiravam mais o Santo do que a ele. Este padre enviou-lhe um pão envenenado. Na época o Santo tinha o hábito de dar migalhas de pão a um corvo que fizera ninho próximo ao monastério. Avisado em sonho que o pão que receberia estava envenenado, naquele dia o Santo foi até o pátio, recomendou à ave que não comesse do pão, mas que o depositasse em frente à porta do padre, que assim soube que seu plano falhara.

Então o padre resolveu desacreditar São Bento enviando sete mulheres nuas para o Monastério. Novamente a idéia lhe foi revelada por milagre, temendo por seus monges mais jovens ou fracos, pediu que todos se reunissem em oração. Mas o padre não conseguiu completar seus planos, pois o teto da casa em que morava desabou sobre sua cabeça, matando-o. Um dos monges soube do acontecimento e correu alegre para contar ao santo. Este repreendeu-lhe duramente, pois o padre havia morrido em pecado e sua alma estava em perigo grave, este não era um bom motivo para alegria. Ao monge impôs dura penitência e foi até a Igreja onde o tal padre era pároco para celebrar a Missa e pedir por sua alma. 

Embora pareçam improváveis, estes milagres foram narrados por São Gregório Magno, doutor da Igreja, que sucedeu São Bento como abade do Monastério de Monte Cassino, antes de ser eleito Papa. 

-- autoria própria

26 de fev de 2017

Três parábolas: o joio e o trigo; o grão de mostarda e o fermento

O capítulo 13 de Mateus é uma sequência de 7 parábolas muito conhecidas. Esta catequese é sobre três delas (Mt 13, 24-43):


O joio e o trigo: Propôs-lhes outra parábola, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao homem que semeia a boa semente no seu campo; Mas, dormindo os homens, veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se. E, quando a erva cresceu e frutificou, apareceu também o joio. E os servos do pai de família, indo ter com ele, disseram-lhe: Senhor, não semeaste tu, no teu campo, boa semente? Por que tem, então, joio?

E ele lhes disse: Um inimigo é quem fez isso. E os servos lhe disseram: Queres pois que vamos arrancá-lo? Ele, porém, lhes disse: Não; para que, ao colher o joio, não arranqueis também o trigo com ele. Deixai crescer ambos juntos até à ceifa; e, por ocasião da ceifa, direi aos ceifeiros: Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, ajuntai-o no meu celeiro.


O grão de mostarda: Outra parábola lhes propôs, dizendo: O reino dos céus é semelhante ao grão de mostarda que o homem, pegando nele, semeou no seu campo. O qual é, realmente, a menor de todas as sementes; mas, crescendo, é a maior das plantas, e faz-se uma árvore, de sorte que vêm as aves do céu, e se aninham nos seus ramos.


O fermento: Outra parábola lhes disse: O reino dos céus é semelhante ao fermento, que uma mulher toma e introduz em três medidas de farinha, até que tudo esteja levedado. Tudo isto disse Jesus, por parábolas à multidão, e nada lhes falava sem parábolas. 


Explicação do joio e do trigo: Para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta, que disse: Abrirei em parábolas a minha boca; Publicarei coisas ocultas desde a fundação do mundo. Então, tendo despedido a multidão, foi Jesus para casa. E chegaram ao pé dele os seus discípulos, dizendo: Explica-nos a parábola do joio do campo. E ele, respondendo, disse-lhes: O que semeia a boa semente, é o Filho do homem; O campo é o mundo; e a boa semente são os filhos do reino; e o joio são os filhos do maligno; O inimigo, que o semeou, é o diabo; e a ceifa é o fim do mundo; e os ceifeiros são os anjos. 


Assim como o joio é colhido e queimado no fogo, assim será na consumação deste mundo. Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniqüidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Jesus está falando em parábolas, pequenas histórias com uma moral, para que todos possam entender mais facilmente suas lições. Talvez não sejam óbvias para os nossos tempos, onde a maioria trabalha nas cidades, não em plantações, nem assa seus pães. Mas eram tarefas diárias, de homens e mulheres que precisavam conhecer bem as plantações e alimentos para sobreviver.

Joio e trigo

Trigo e joio, notou a diferença? 
A parábola do trigo e o joio inicia com o bom semeador plantando o trigo, então o inimigo planta o joio. O problema é que, no princípio, não há como separar as duas plantas, elas são idênticas. Como o joio tem raízes muito espalhadas, arrancá-lo inicialmente irá trazer junto o trigo, que tem raízes menos profundas. Então o plantador pede para que os funcionários tenham paciência, pois o tempo irá tornar o trabalho mais fácil. Conforme o trigo amadurece, as plantas carregadas de grãos verga, se inclina, pois está pesado. O joio, no entanto, desenvolve apenas uns grãos muito pequenos, sem o peso, permanece ereto. Além disso, as raízes do joio se aprofundam ainda mais, enquanto o trigo, com raízes superficiais, está quase caindo; muito fácil de separar o joio e o trigo.

O trigo caído, o joio não se curva.
Jesus mesmo diz que ambos representam as pessoas, alguns são bons, outros seguem o mal. Mas o dono da lavoura, Deus, diz que é preciso esperar que amadureçam, pois no final dos tempos, será fácil separar os bons dos maus. Os trabalhadores na lavoura, todos os questão na Igreja, são convidados a esperar, não julgar nem usar de violência, pois perderão os bons, embora a intenção seja boa, os resultados não são agradáveis a Deus. 

Além disso, enquanto o joio e o trigo são o que são pela sua natureza, e podem apenas seguir sua natureza, os homens podem escolher, mudar, converter-se em novos homens, novo trigo; ou escolher o mal, tornando-se joio. Deus criou a humanidade, ele é o bom semeador que age no início, e também é que agirá no final quando julgar aos homens, aqui na terra não é nossa tarefa julgar a ninguém, mas amar ao próximo e esperar que possa ser dar bons frutos.

Outra analogia possível diz que o trigo se verga na presença de Deus, humilde, pronto a dar seu fruto em favor do povo e Deus. O joio, orgulhoso, permanece reto, como o diabo que o semeou. Embora desagrável, mesmo o joio tem sua utilidade: ele serve para alimentar o fogo do forno onde os pães são cozidos. Sem as tribulações e problemas do mundo, não há como o cristão amadurecer, ser sinal no mundo.

O grão de mostarda

Um grão de mostarda
O grão de mostarda é realmente pequeno, a menor das sementes, mas floresce muito rápido, produz arbustos grandes. É como a Igreja, que iniciou com 12 apóstolos num cantinho do Império Romano, e hoje está presente em quase todos os lugares. 

Ainda, a mostarda não é uma planta que possa ser plantada no jardim por que as sementes caem, florescem facilmente e novas plantas nascem, quase sem controle do plantador. Na época, era plantada no lado de fora, não necessariamente muito bem vista, outro sinal do que seria a Igreja no mundo. 
A árvore de mostarda, onde os pássaros
podem repousar.

Mas na sua sombra todos os pássaros buscam refúgio, a humanidade pode buscar na Igreja o repouso dos seus problemas do mundo. Não o excesso de atividade, mas na calma de uma árvore que está lá para prover o tempero do mundo com o qual a comida, a vida, fica melhor ainda.

O fermento

O pão precisa apenas um pouquinho de fermento para crescer, em excesso põe o trabalho a perder. Depois que o processo inicia, o pão começa a crescer, é imparável e não há mais nada a fazer, apenas esperar que o pão ficará pronto. Como imagem da Igreja, lembre que não precisa muito para melhorar o mundo, apenas poucos missionários e fiéis já podem ajudar na salavação de muitos.

Um ponto interessante é quanto a quantidade. A Igreja não precisa de muitas palavras, mas nunca devemos esquecer o essencial, o Kerigma: Deus nos deu seu único Filho, Jesus Cristo, que morreu pelos nossos pecados, venceu a morte, e ressuscitou abrindo as portas do Céu para todos nós.

Conclusão

Por fim, uma palavra de Santo Agostinho: Eu vos contarei uma verdade, meus queridos, mesmo nos mais altos cargos há tanto trigo como joio. Que o bom tolere o mal, que o mal se transforme e imite o bom.  Vamos todos alcançar a Deus, vamos todos escapar do mal deste mundo por sua Misericórdia. Vamos procurar bons dias, pois estamos agora entre os maus, contudo, em maus dias, não blasfememos para que possamos alcançar os bons. 

-- este texto é quase uma transcrição da catequese dada por Márcia Fornari no Curso sobre o Evangelho de São Mateus, na minha paróquia.


18 de fev de 2017

São Jerônimo e a tradução da Bíblia

São Jerônimo nasceu na Dalmácia, próximo a atual capital da Eslovênia, provavelmente no ano de 347, em uma família com boas condições financeiras que pode custear seus estudos. 
São Jerônimo em seu estúdio, pintado por
Domenico Ghirlandaio (1480)

Em torno do ano 360 foi enviado a Roma para estudar retórica e filosofia, também aprendeu latim e um pouco de grego para ler os autores clássicos na língua original. Em Roma conheceu a fé católica, mas tinha a vida despreocupada de um jovem, cometendo os pecados habituais da juventude, como ele mesmo relatou em seus escritos. 

Quando enfim converteu-se, passou a ter um vida asceta, viajou para a Alemanha a fim de estudar Teologia, até decidir por uma vida de eremita nos desertos da Síria. Em um sonho, foi advertido por Deus que deveria abandonar totalmente a leitura dos poetas clássicos e se concentar unicamente em livros teológicos. Com o auxílio de judeus convertidos, aprendeu o hebraico e conheceu a versão hebraica do Velho Testamento e Evangelhos. 

Em 378 ou 379 foi ordenado em Antioquia e viajou para Constantinopla onde estudou as Sagradas Escrituras com São Gregório Nazianzeno. Em 382 foi a Roma para participar de um Concílio que discutiria a composição da Bíblia. Na capital permaneceu por três anos, auxiliando o Papa Dâmaso e traduzindo o Novo Testamento do grego para o latim. Suas catequeses atraíram algumas mulheres ricas para uma vida de austeridade e oração, incluindo Santa Paula, mas, no geral, tornaram-no antipático para a maioria do povo.

Em agosto de 385, Jerônimo partiu para a Terra Santa, passando a morar próximo de Belém até sua morte em 420. Graças a caridade, em especial de Santa Paula, podia adquirir muitos livros, o que foi essencial para a sua grande herança: uma nova tradução da Bíblia. 

A tradução da Bíblia

Até aquele momento, todas as traduções para o latim dos livros do Antigo Testamento eram baseadas em livros gregos, a chamada versão dos Setenta (ou Septuaginta). A Bíblia dos Setenta foi traduzida do hebraico para o grego por rabinos morando em Atenas, por cerca de 200 anos (300 AC-100 AC), ou seja, muitos se envolveram no trabalho, a qualidade variava bastante e algumas idéias da sociedade grega se infiltraram no texto. Acrescente-se a possibilidade de erros na tradução adicional do grego para o latim e a qualidade do texto resultante não era ideal.

Ao compararem a versão latina com o texto hebraico e identificarem notáveis diferenças, os estudiosos da época tomaram uma posição muito curiosa: os judeus estariam alterando os textos para confundir os católicos. 

Foi neste ponto que São Jerônimo tomou uma decisão fundamental: não apenas utilizou os textos hebraicos originais, abandonando a tradução dos Setenta, como pediu auxílio aos rabinos de Jerusalém para compreender as passagens mais difíceis. Em várias cartas, São Jerônimo dedicou-se a explicar suas escolhas e, muitas vezes, recomendava que consultassem os rabinos acerca do Velho Testamento pois eles conheciam o texto melhor que muitos cristãos. 

A tradução de São Jerônimo, chamada Vulgata, no início foi duramente criticada pois diferia bastante dos livros utilizados na época. Santo Agostinho, que também tinha estudado os textos clássicos e falava latim e grego, foi fundamental pelo apoio que deu a São Jerônimo ao notar a qualidade do trabalho. Por fim, a Vulgata foi plenametne aceita na Igreja e utilizada ao longo dos séculos, servindo de base para as primeiras traduções em outras línguas, inclusive as de Martinho Lutero e outros protestantes. Apenas nos séculos XIX e XX, com o uso de técnicas mais de tradução e novos achados arqueolóogicos, que o trabalho de São Jerônimo começou a ser aprimorado, mas certamente ainda é uma influência fundamental na Bíblia que lemos diriamente.

-- autoria própria

7 de fev de 2017

O sacrifício de Abraão

Abraão tomou a lenha do sacrifício e colocou-a sobre os ombros de seu filho Isaac. Tomou na mão o fogo e o cutelo, e foram ambos juntos. Ora, Isaac, carregando a lenha para o próprio holocausto, é uma figura de Cristo carregando sua cruz. No entanto levar a lenha para o holocausto é ofício de sacerdote. Torna-se então ele mesmo a vítima e o sacerdote. O que se segue: e foram ambos juntos refere-se a essa realidade, porque Abraão, como sacrificador, leva o fogo e o cutelo; mas Isaac não vai atrás e sim a seu lado, para que se veja que, juntamente com ele, exerce igual sacerdócio.

         E depois? Disse Isaac a seu pai Abraão: Pai! Neste momento, uma palavra assim parece uma tentação. Como terá abalado o coração paterno esta palavra do filho que ia ser imolado! Mesmo endurecido pela fé, Abraão responde com voz branda: Que queres, filho? E ele: Vejo o fogo e a lenha, mas onde está a ovelha para o holocausto? Abraão respondeu: Deus providenciará uma ovelha para o holocausto, meu filho.

         Impressiona-me a resposta cuidadosa e prudente de Abraão. Não sei o que via em espírito, pois responde olhando para o futuro e não para o presente: Deus mesmo providenciará uma ovelha. Assim fala do futuro ao filho que indaga pelo presente. O Senhor providenciava para si um cordeiro em Cristo.

         Abraão estendeu a mão para pegar a faca e imolar o filho. O anjo do Senhor chamou-o do céu, dizendo: Abraão, Abraão. Respondeu ele: Eis-me aqui. Tornou o anjo: Não toques no menino nem lhe faças nenhum mal. Agora sei que temes a Deus.

         Comparemos estas palavras com as do Apóstolo a respeito de Deus: Ele não poupou seu Filho, mas entregou-o por todos nós. Vede Deus rivalizando com os homens em magnífica generosidade. Abraão, mortal, ofereceu a Deus o filho mortal, que não morreria então. Deus entregou à morte por todos o Filho imortal.

         Olhando Abraão para trás, viu um carneiro preso pelos chifres entre os espinhos. Dissemos acima, creio, que Isaac figurava Cristo e, no entanto, também o carneiro parece figurar Cristo. É muito importante ver como ambos se relacionam a Cristo: Isaac que não foi morto e o carneiro que o foi. Cristo é o Verbo de Deus, mas o Verbo se fez carne.

         Padece, portanto, Cristo, mas, na carne; morre enquanto homem do qual o carneiro é figura; já dizia João: Eis o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. O Verbo, porém, permanece incorrupto, isto é, Cristo segundo o espírito; a imagem deste é Isaac. Por isto ele é vítima e também pontífice segundo o espírito. Pois aquele que oferece a vítima ao Pai, segundo a carne, este mesmo é oferecido no altar da cruz.

-- Das Homilias sobre o Gênesis, de Orígenes, presbítero (século III)

29 de jan de 2017

Os mártires macabeus

Em torno do ano 200 AC Israel era um país teocrático, comandado pela elite dos sacerdotes, que dominava uma área pequena, cerca de 20-30km ao redor de Jerusalém. Após Alexandre, o Grande, os gregos não se interessaram pelo território, deixando os israelitas livres para exercer sua religião. Neste período, o Livro do Eclesiástico foi escrito consolidando os ensinamentos da religião em uma série de pequenas frases, fáceis de serem ensinadas e lembradas.
Judas Macabeus retoma jerusalém no ano de 164AC. Este acontecimento
é relembado pelos judeus anualmente na FEsta de Hannukah, que ocorre
nas últimas semanas do mês de Dezembro

Esta existência tranquila foi interrompida no ano 175AC quando o Rei Antíoco IV decidiu helenizar a região, isto é, forçar todos habitantes a adotarem a cultura e língua grega. Ele fundou em Jerusalém uma escola, que ensinava língua, matemática,  filosofia e esportes gregos. Enquanto os sacerdotes de Jerusalém relaxaram o rigores do Judaísmo, os habitantes da parte rural organizaram um movimento contrário que buscava manter as tradições. Foram chamados de Hasidim, que significava "Santos".

Em 170AC, o Rei Antíoco resolveu helenizar a religião. Colocou uma imagem de Zeus no Templo de Jerusalém, identificando-o como o Deus de Israel, apenas com outro nome, proibiu as circuncisões e as restrições alimentares por crença religiosa. 

Esta história é contada nos Livros de Macabeus, quando relata que o Rei forçou o povo a abandonar as leis judaicas e sacrificar aos deuses carne suína, ordenando que todos que desobedecessem seriam mortos. Muitas mulheres foram mortas por circuncidar seus filhos, outros por se recusar a conhecer Zeus como o Deus de Israel. 

A revolta foi comandada por Judas Macabeu, um líder militar inteligente, que primeiro reconquistou Jerusalém e depois, ativamente, combateu o exército de Antíoco em outras regiões. Além de expandir o território de Israel, negociou com Roma a autonomia completa da região. Seu irmão tornou-se sumo sacerdote de Jerusalém e seus descendentes mantiveram o cargo até o tempo de Cristo.

O episódio mais conhecido do Livro de Macabeus é a história da mãe e seus sete filhos que foram torturados e mortos, um a um, sempre na presença dos demais, por se recusarem a comer carne de porco. A história retrata a questão principal para o judeus da época: aceitar a cultura grega ou manter as tradições judaícas. 

Com a crença na ressurreição, a mãe e os filhos preferiram a tortura e morte, na certeza da vida eterna ao lado de Deus. Esta crença não era aceita por todos judeus, por exemplo os saduceus dos Evangelhos não a aceitavam totalmente

Houvessem os Macabeus falhado e a religião grega teria dominado Jerusalém e todo Israel, Cristo teria nascido em um ambiente totalmente distinto. O sangue dos mártires judeus não apenas salvou o Judaísmo, mas também serviu como semente para o Cristianismo. 

-- texto adaptado a partir do livro História da Filosofia Ocidental, de Bertrand Russel, livro II, capítulo II. 

Nota: é difícil ter absoluta certeza da historicidade dos livros iniciais do Antigo Testamento, porém dos mais novos há outros registros de autores independentes que atestam a correção da Bíblia. 


28 de jan de 2017

Na cruz não falta nenhum exemplo de virtude

Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para ser remédio contra o pecado e para exemplo do que devemos praticar.
Cristo na Cruz, de Carl Heinrich Bloch

Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio contra todos os males que nos sobrevêm por causa dos nossos pecados.

Mas não é menor a utilidade em relação ao exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar nossa vida inteira. Quem quiser viver na perfeição, nada mais tema fazer do que desprezar aquilo que Cristo desprezou na cruz e desejar o que ele desejou. Na cruz, pois, não falta nenhum exemplo de virtude.

Se procuras um exemplo de caridade: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Assim fez Cristo na cruz. E se ele deu sua vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por causa dele.

Se procuras um exemplo de paciência, encontras na cruz o mais excelente! Podemos reconhecer uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora, Cristo suportou na cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque atormentado, não ameaçava (1Pd 2,23); foi levado como ovelha ao matadouro e não abriu a boca (cf. Is 53,7; At 8,32).

É grande, portanto, a paciência de Cristo na cruz. Corramos com paciência ao combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia (cf. Hb 12,1-2).

Se procuras um exemplo de humildade, contempla o crucificado: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.

Se procuras um exemplo de obediência, segue aquele que se fez obediente ao Pai até à morte: Como pela desobediência de um só homem, isto é, de Adão, a humanidade toda foi estabelecida numa condição de pecado, assim também pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça (Rm 5,19).

Se procuras um exemplo de desprezo pelas coisas da terra, segue aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e que na cruz está despojado de suas vestes, escarnecido, cuspido, espancado, coroado de espinhos e, por fim, tendo vinagre e fel como bebida para matar a sede.

Não te preocupes com as vestes e riquezas, porque repartiram entre si as minhas vestes (Jo 19,24); nem com honras, porque fui ultrajado e flagelado; nem com a dignidade, porque tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na em minha cabeça (cf. Mc 15,17); nem com os prazeres, porque em minha sede ofereceram-me vinagre (Sl 68,22).

-- Das Conferências de Santo Tomás de Aquino, presbítero (século XII)

24 de jan de 2017

A devoção deve ser praticada de modos diferentes

Na criação, Deus Criador mandou às plantas que cada uma produzisse fruto conforme sua espécie. Do mesmo modo, ele ordenou aos cristãos, plantas vivas de sua Igreja, que produzissem frutos de devoção, cada qual de acordo com sua categoria, estado e vocação.
São Francisco de Sales, 24 de Janeiro

A devoção deve ser praticada de modos diferentes pelo nobre e pelo operário, pelo servo e pelo príncipe, pela viúva, pela solteira ou pela casada. E isto ainda não basta. A prática da devoção deve adaptar-se às forças, aos trabalhos e aos deveres particulares de cada um.

Dize-me, por favor, Filotéia, se seria conveniente que os bispos quisessem viver na solidão como os cartuxos; que os casados não se preocupassem em aumentar seus ganhos mais que os capuchinhos; que o operário passasse o dia todo na igreja como o religioso; e que o religioso estivesse sempre disponível para todo tipo de encontros a serviço do próximo, como o bispo. Não seria ridícula, confusa e intolerável esta devoção?

Contudo, este erro absurdo acontece muitíssimas vezes. E no entanto, Filotéia, a devoção quando é verdadeira não prejudica a ninguém; pelo contrário, tudo aperfeiçoa e consuma. E quando se torna contrária à legítima ocupação de alguém, é falsa, sem dúvida alguma.

A abelha extrai seu mel das flores sem lhes causar dano algum, deixando-as intactas e frescas como encontrou. Todavia, a verdadeira devoção age melhor ainda, porque não somente não prejudica a qualquer espécie de vocação ou tarefa, mas ainda as engrandece e embeleza.

Toda a variedade de pedras preciosas lançadas no mel, tornam-se mais brilhantes, cada qual conforme sua cor; assim também cada um se torna mais agradável e perfeito em sua vocação quando esta for conjugada com a devoção: o cuidado da família se torna tranquilo, o amor mútuo entre marido e mulher, mais sincero, o serviço que se presta ao príncipe, mais fiel, e mais suave e agradável o desempenho de todas as ocupações.

É um erro, senão até mesmo uma heresia, querer excluir a vida devota dos quartéis de soldados, das oficinas dos operários, dos palácios dos príncipes, do lar das pessoas casadas. Confesso, porém, caríssima Filotéia, que a devoção puramente contemplativa, monástica e religiosa de modo algum pode ser praticada em tais ocupações ou condições. Mas, para além destas três espécies de devoção, existem muitas outras, próprias para o aperfeiçoamento daqueles que vivem no estado secular.
Portanto, onde quer que estejamos, devemos e podemos aspirar à vida perfeita.

-- Da Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales, bispo - (Séc.XVII)

14 de jan de 2017

A Genealogia de Jesus

Ícone ortodoxo para a Genealogia de Jesus. Deitado à
sombra do carvalho deMambré, está Abraão.  No centro,
Maria e seu filho Jesus, em torno algusn antepassados
mais importantes, como Jacó, Davi e Salomão.
O Evangelho de São Mateus inicia com a genealogia de Jesus. A maioria acha este trecho chato e desnecessário, mas há algumas pérolas escondidas. Então, começamos com o trecho do Evangelho (Mat 1, 1-17):

1 Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
2 Abraão gerou a Isaac; e Isaac gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos;
3 E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;
4 E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom;
5 E Salmom gerou, de Raab, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé;
6 E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias.
7 E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa;
8 E Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias;
9 E Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias;
10 E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias;
11 E Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para babilônia.
12 E, depois da deportação para a babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel;
13 E Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor;
14 E Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde;
15 E Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó;
16 E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo.
17 De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações.

Para os judeus, a genealogia, a lista dos antepassados, era fundamental. Então, para apresentar Jesus, São Mateus começa justamente pela genealogia. A lista inicia com Abraão, o pai da fé, a quem Deus se revelou como o único Deus. Passa pelo Rei Davi, fundamental na história da Israel pois unificou o país e  conquistou Jerusalém. Seu filho, o Rei Salomão, construiu o primeiro Templo de Jerusalém, em torno do qual a vida religiosa dos judeus gravita. Daí até chegar a José, marido de Maria, mas não o pai biológico de Jesus. 

A lista repete três vezes quatorze gerações. Por que? Em hebraico, cada palavra pode ser representada por um número e as vogais não são escritas. Assim, o Rei David é escrito como DVD. Cada letra corresponde um número, no caso D=4 e V=6, resultando DVD = 4+6+4 = 14. Ao repetir o número catorze três vezes, Mateus enfatiza a ligação de Jesus com o Rei David, o ungido por Deus para liderar o povo de Israel.

As mulheres na genealogia
Para chegar ao número catorze, a lista é um pouco diferente da sucessão de reis do Antigo Testamento, e nela aparecem cinco mulheres:  Tamar, Raab, Rute, Betsabéia (mulher de Urias) e Maria. 

Tamar era cananéia e foi escolhida por Judá para ser a esposa do seu primeiro filho Her, que morreu sem descendentes (Gn 38). Como era costume, casou-se com o segundo filho, Onã, que também morreu sem descendentes, por culpa do marido que não consumava o ato sexual. Judá, então, recusou-se a deixar o terceiro filho casar com ela, pensando que ela seria de alguma maneira almaldiçoada. Para garantir seus direitos de viúva, ela disfarçou-se de prostituta e deitou-se com Judá, gerando dois filhos gêmeos. Considerando a situação, Judá acabou por reconhecer as ações de Tamar como justas.  

Raab também era cananéia, vivia em Jericó, onde era prostituta. Quando Josué e seu grupo de espiões foi investigar Jericó, Raab os protegeu, por acreditar em Deus (Js 2,1-21). Quando as muralhas de Jericó caíram e Josué invadiu a cidade, apenas Raab e sua família foram poupados (Js 6, 17-25).

Rute é outra estrangeira na lista que escolheu acreditar no Deus de Israel e que experimenta a bondade e misericórida de Deus. Por conselho de sua mãe Noemi, decidiu casar-se com Booz, em vez do noivo a quem fora prometida por seu pai. Certa noite, enquanto Booz dormia, Rute deitou-se ao seu lado, que acabou por aceitá-la como esposa, depois de resolver a questão do primeiro noivado. Rute foi bisavó de Davi e autora de um dos livros da Bíblia. 

Betsabéia era a mulher de Urias, ambos estrageiros. Urias era um dos guerreiros destacados de exército de Davi. Enquanto o marido estava lutando, foi seduzida por Davi e engravidou do futuro Rei Salomão. Na tentativa de esconder o pecado, Davi ordenou que Urias recebesse uma missão suicida, para que morresse sem saber que a esposa engravidara de outro homem (2Sm 11). 

Quatro mulheres estão na lista, nenhuma teve filhos com o marido prometido, como era o esperado na época. Esta é a ligação óbvia, por que Maria também não teve um filho com José. Mas há outros aspectos importantes a considerar.

Os antepassados de Jesus não eram uma família perfeita, sua história também acomodava pecadores. Todos nós temos pecados na nossa vida, assim como esta quatro mulheres, e Deus redime o pecado, pois concedeu a elas o fruto da vida, seus filhos. Perdoar os pecados cometidos por mulheres é constante na vida de Cristo, tanto adúlteras como prostitutas. E isto já está explícito desde o início do Evangelho de Matues.

Além disso, estas estrangeiras marcavam o alcance de Jesus, ao indicar que Ele não era um judeu "puro" que viria para salvar exclusivamente os judeus, mas incluía, desde antes do seu  nascimento, os estrangeiros.

Desde o início do Evangelho de Mateus temos este anúncio essencial a todas as nações: Jesus perdoa os pecados, ninguém é excluído por nascimento ou qualquer outra condição.

-- este texto é quase uma transcrição da catequese dada pelo Pe. Pat Angelucci no Curso sobre o Evangelho de São Mateus, na minha paróquia.

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