14 de jan de 2017

A Genealogia de Jesus

Ícone ortodoxo para a Genealogia de Jesus. Deitado à
sombra do carvalho deMambré, está Abraão.  No centro,
Maria e seu filho Jesus, em torno algusn antepassados
mais importantes, como Jacó, Davi e Salomão.
O Evangelho de São Mateus inicia com a genealogia de Jesus. A maioria acha este trecho chato e desnecessário, mas há algumas pérolas escondidas. Então, começamos com o trecho do Evangelho (Mat 1, 1-17):

1 Livro da geração de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão.
2 Abraão gerou a Isaac; e Isaac gerou a Jacó; e Jacó gerou a Judá e a seus irmãos;
3 E Judá gerou, de Tamar, a Perez e a Zerá; e Perez gerou a Esrom; e Esrom gerou a Arão;
4 E Arão gerou a Aminadabe; e Aminadabe gerou a Naassom; e Naassom gerou a Salmom;
5 E Salmom gerou, de Raab, a Boaz; e Boaz gerou de Rute a Obede; e Obede gerou a Jessé;
6 E Jessé gerou ao rei Davi; e o rei Davi gerou a Salomão da que foi mulher de Urias.
7 E Salomão gerou a Roboão; e Roboão gerou a Abias; e Abias gerou a Asa;
8 E Asa gerou a Josafá; e Josafá gerou a Jorão; e Jorão gerou a Uzias;
9 E Uzias gerou a Jotão; e Jotão gerou a Acaz; e Acaz gerou a Ezequias;
10 E Ezequias gerou a Manassés; e Manassés gerou a Amom; e Amom gerou a Josias;
11 E Josias gerou a Jeconias e a seus irmãos na deportação para babilônia.
12 E, depois da deportação para a babilônia, Jeconias gerou a Salatiel; e Salatiel gerou a Zorobabel;
13 E Zorobabel gerou a Abiúde; e Abiúde gerou a Eliaquim; e Eliaquim gerou a Azor;
14 E Azor gerou a Sadoque; e Sadoque gerou a Aquim; e Aquim gerou a Eliúde;
15 E Eliúde gerou a Eleazar; e Eleazar gerou a Matã; e Matã gerou a Jacó;
16 E Jacó gerou a José, marido de Maria, da qual nasceu JESUS, que se chama o Cristo.
17 De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze gerações; e desde Davi até a deportação para a babilônia, catorze gerações; e desde a deportação para a babilônia até Cristo, catorze gerações.

Para os judeus, a genealogia, a lista dos antepassados, era fundamental. Então, para apresentar Jesus, São Mateus começa justamente pela genealogia. A lista inicia com Abraão, o pai da fé, a quem Deus se revelou como o único Deus. Passa pelo Rei Davi, fundamental na história da Israel pois unificou o país e  conquistou Jerusalém. Seu filho, o Rei Salomão, construiu o primeiro Templo de Jerusalém, em torno do qual a vida religiosa dos judeus gravita. Daí até chegar a José, marido de Maria, mas não o pai biológico de Jesus. 

A lista repete três vezes quatorze gerações. Por que? Em hebraico, cada palavra pode ser representada por um número e as vogais não são escritas. Assim, o Rei David é escrito como DVD. Cada letra corresponde um número, no caso D=4 e V=6, resultando DVD = 4+6+4 = 14. Ao repetir o número catorze três vezes, Mateus enfatiza a ligação de Jesus com o Rei David, o ungido por Deus para liderar o povo de Israel.

As mulheres na genealogia
Para chegar ao número catorze, a lista é um pouco diferente da sucessão de reis do Antigo Testamento, e nela aparecem cinco mulheres:  Tamar, Raab, Rute, Betsabéia (mulher de Urias) e Maria. 

Tamar era cananéia e foi escolhida por Judá para ser a esposa do seu primeiro filho Her, que morreu sem descendentes (Gn 38). Como era costume, casou-se com o segundo filho, Onã, que também morreu sem descendentes, por culpa do marido que não consumava o ato sexual. Judá, então, recusou-se a deixar o terceiro filho casar com ela, pensando que ela seria de alguma maneira almaldiçoada. Para garantir seus direitos de viúva, ela disfarçou-se de prostituta e deitou-se com Judá, gerando dois filhos gêmeos. Considerando a situação, Judá acabou por reconhecer as ações de Tamar como justas.  

Raab também era cananéia, vivia em Jericó, onde era prostituta. Quando Josué e seu grupo de espiões foi investigar Jericó, Raab os protegeu, por acreditar em Deus (Js 2,1-21). Quando as muralhas de Jericó caíram e Josué invadiu a cidade, apenas Raab e sua família foram poupados (Js 6, 17-25).

Rute é outra estrangeira na lista que escolheu acreditar no Deus de Israel e que experimenta a bondade e misericórida de Deus. Por conselho de sua mãe Noemi, decidiu casar-se com Booz, em vez do noivo a quem fora prometida por seu pai. Certa noite, enquanto Booz dormia, Rute deitou-se ao seu lado, que acabou por aceitá-la como esposa, depois de resolver a questão do primeiro noivado. Rute foi bisavó de Davi e autora de um dos livros da Bíblia. 

Betsabéia era a mulher de Urias, ambos estrageiros. Urias era um dos guerreiros destacados de exército de Davi. Enquanto o marido estava lutando, foi seduzida por Davi e engravidou do futuro Rei Salomão. Na tentativa de esconder o pecado, Davi ordenou que Urias recebesse uma missão suicida, para que morresse sem saber que a esposa engravidara de outro homem (2Sm 11). 

Quatro mulheres estão na lista, nenhuma teve filhos com o marido prometido, como era o esperado na época. Esta é a ligação óbvia, por que Maria também não teve um filho com José. Mas há outros aspectos importantes a considerar.

Os antepassados de Jesus não eram uma família perfeita, sua história também acomodava pecadores. Todos nós temos pecados na nossa vida, assim como esta quatro mulheres, e Deus redime o pecado, pois concedeu a elas o fruto da vida, seus filhos. Perdoar os pecados cometidos por mulheres é constante na vida de Cristo, tanto adúlteras como prostitutas. E isto já está explícito desde o início do Evangelho de Matues.

Além disso, estas estrangeiras marcavam o alcance de Jesus, ao indicar que Ele não era um judeu "puro" que viria para salvar exclusivamente os judeus, mas incluía, desde antes do seu  nascimento, os estrangeiros.

Desde o início do Evangelho de Mateus temos este anúncio essencial a todas as nações: Jesus perdoa os pecados, ninguém é excluído por nascimento ou qualquer outra condição.

-- este texto é quase uma transcrição da catequese dada pelo Pe. Pat Angelucci no Curso sobre o Evangelho de São Mateus, na minha paróquia.

8 de jan de 2017

O batismo de Cristo

O Batismo do Senhor, Piero de la Francesca.
Galeria Nacional, Londres.
Cristo é iluminado no batismo, recebemos com ele a luz; Cristo é batizado, desçamos com ele às águas para com ele subirmos.
João batiza e Jesus se aproxima; talvez para santificar igualmente aquele que o batiza e, sem dúvida, para sepultar nas águas o velho Adão. Antes de nós, e por nossa causa, ele que é Espírito e carne santificou as águas do Jordão, para assim nos iniciar nos sacramentos mediante o Espírito e a água.
João reluta, Jesus insiste. Eu é que devo ser batizado por ti (cf. Mt 3,14), diz a lâmpada ao Sol, a voz à Palavra, o amigo ao Esposo, diz o maior entre todos os nascidos de mulher ao Primogênito de toda criatura, aquele que estremecera de alegria no seio materno ao que fora adorado no seio de sua Mãe, o que era e seria precursor ao que já tinha vindo e de novo há de vir. Eu é que devo ser batizado por ti. Podia ainda acrescentar: e por causa de ti. Pois sabia que ia receber o batismo de sangue ou que, como Pedro, não lhe seriam apenas lavados os pés.
Jesus sai das águas, elevando consigo o mundo que estava submerso, e vê abrirem-se os céus de par em par, que Adão tinha fechado para si e sua posteridade, assim como o paraíso lhe fora fechado por uma espada de fogo.
O Espírito, acorrendo àquele que lhe é igual, dá testemunho da sua divindade. Vem do céu uma voz, pois também vinha do céu aquele de quem se dava testemunho. E ao mostrar-se na forma corporal de uma pomba, o Espírito glorifica o corpo de Cristo, já que este, por sua união com a divindade, é o corpo de Deus. De modo semelhante, muitos séculos antes, uma pomba anunciara o fim do dilúvio.
Veneremos hoje o batismo de Cristo e celebremos dignamente esta festa.
Permanecei inteiramente puros e purificai-vos sempre mais. Nada agrada tanto a Deus quanto o arrependimento e a salvação do homem, para quem se destinam todas as suas palavras e mistérios. Sede como luzes no mundo, isto é, como uma força vivificante para os outros homens. Permanecendo como luzes perfeitas diante da grande luz, sereis inundados pelo esplendor dessa luz que brilha no céu e iluminados com maior pureza e fulgor pela Trindade. Dela acabastes de receber, embora não em plenitude, o único raio que procede da única Divindade, em Jesus Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo (século IV)

30 de dez de 2016

As lições de Nazaré

Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho.

Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo.

Papa Paulo VI
Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem é o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: os lugares, os tempos, os costumes, a linguagem, as práticas religiosas, tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.

Aqui, nesta escola, compreende-se a necessidade de uma disciplina espiritual para quem quer seguir o ensinamento do Evangelho e ser discípulo do Cristo.

Ó como gostaríamos de voltar à infância e seguir essa humilde e sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos, junto a Maria, de recomeçar a adquirir a verdadeira ciência e a elevada sabedoria das verdades divinas.

Mas estamos apenas de passagem. Temos de abandonar este desejo de continuar aqui o estudo, nunca terminado, do conhecimento do Evangelho. Não partiremos, porém, antes de colher às pressas e quase furtivamente algumas breves lições de Nazaré.

Primeiro, uma lição de silêncio. Que renasça em nós a estima pelo silêncio, essa admirável e indispensável condição do espírito; em nós, assediados por tantos clamores, ruídos e gritos em nossa vida moderna barulhenta e hipersensibilizada. O silêncio de Nazaré ensina-nos o recolhimento, a interioridade, a disposição para escutar as boas inspirações e as palavras dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor das preparações, do estudo, da meditação, da vida pessoal e interior, da oração que só Deus vê no segredo.

Uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o que é a família, sua comunhão de amor, sua beleza simples e austera, seu caráter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré o quanto a formação que recebemos é doce e insubstituível: aprendamos qual é sua função primária no plano social.

Uma lição de trabalho. Ó Nazaré, ó casa do “filho do carpinteiro”! É aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei, severa e redentora, do trabalho humano; aqui, restabelecer a consciência da nobreza do trabalho; aqui, lembrar que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas que sua liberdade e nobreza resultam, mais que de seu valor econômico, dos valores que constituem o seu fim. Finalmente, como gostaríamos de saudar aqui todos os trabalhadores do mundo inteiro e mostrar-lhes seu grande modelo, seu divino irmão, o profeta de todas as causas justas, o Cristo nosso Senhor.

-- Das Alocuções do papa Paulo VI (Alocução pronunciada em Nazaré a 5 de janeiro de 1964)

26 de dez de 2016

As armas da caridade

Ontem, celebrávamos o nascimento temporal de nosso Rei eterno; hoje celebramos o martírio triunfal do seu soldado. Ontem o nosso Rei, revestido de nossa carne e saindo da morada de um seio virginal, dignou-se visitar o mundo; hoje o soldado, deixando a tenda de seu corpo, parte vitorioso para o céu.

O nosso Rei, o Altíssimo, veio por nós na humildade, mas não pôde vir de mãos vazias. Trouxe para seus soldados um grande dom, que não apenas os enriqueceu imensamente, mas deu-lhes uma força invencível no combate: trouxe o dom da caridade que leva os homens à comunhão com Deus.

Ao repartir tão liberalmente o que trouxera, nem por isso ficou mais pobre: enriquecendo do modo admirável a pobreza dos seus fiéis, ele conservou a plenitude dos seus tesouros inesgotáveis.

Assim, a caridade que fez Cristo descer do céu à terra, elevou Estevão da terra ao céu. A caridade de que o Rei dera o exemplo logo refulgiu no soldado.

Estêvão, para alcançar a coroa que seu nome significa, tinha por arma a caridade e com ela vencia em toda parte. Por amor a Deus não recuou perante a hostilidade dos judeus, por amor ao próximo intercedeu por aqueles que o apedrejavam. Por esta caridade, repreendia os que estavam no  erro para que se emendassem, por caridade orava pelos que o apedrejavam para que não fossem punidos.

Fortificado pela caridade, venceu Saulo, enfurecido e cruel, e mereceu ter como companheiro no céu aquele que tivera como perseguidor na terra.  Sua santa e incansável caridade queria conquistar pela oração, a quem não pudera converter pelas admoestações.

E agora Paulo se alegra com Estêvão, com Estêvão frui da glória de Cristo, com Estêvão exulta, com Estêvão reina. Aonde Estêvão chegou primeiro, martirizado pelas pedras de Paulo,  chegou depois Paulo, ajudado pelas orações de Estevão.

É esta a verdadeira vida, meus irmãos, em que Paulo não se envergonha mais da morte de Estêvão, mas Estevão se alegra pela companhia de Paulo, porque em ambos triunfa a caridade. Em Estêvão, a caridade venceu a crueldade dos perseguidores, em Paulo, cobriu uma multidão de pecados; em ambos, a caridade mereceu a posse do reino dos céus.

A caridade é a fonte e origem de todos os bens, é a mais poderosa defesa, o caminho que conduz ao céu.  Quem caminha na caridade não pode errar nem temer.  Ela dirige, protege, leva a bom termo.

Portanto, meus irmãos, já que o Cristo nos deu a escada da caridade pela qual todo cristão pode subir ao céu, conservai fielmente a caridade verdadeira, exercitai-a uns para com os outros e, subindo por ela, progredi sempre mais no caminho da perfeição.

-- Dos sermões de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (século VI)

22 de dez de 2016

Magnificat, o cântico de Maria


E Maria disse: A minh’alma engrandece o Senhor e exulta meu espírito em Deus, meu Salvador (Lc 1,46-47).

O Senhor, diz ela, elevou-me por um dom tão grande e inaudito, que nenhuma palavra o pode descrever e mesmo no íntimo do coração é difícil compreendê-lo. Por isso dedico todas as forças de meu ser ao louvor e à ação de graças, contemplando a grandeza daquele que é eterno, e ofereço com alegria minha vida, tudo que sinto e penso, porque meu espírito rejubila pela divindade eterna de Jesus, o Salvador, que concebi e é gerado em meu seio.

O Poderoso fez em mim maravilhas, e santo é o seu nome! (Lc 1,49).

Estas palavras se relacionam com o início do cântico que diz: A minh’alma engrandece o Senhor. De fato, só a alma em quem o Senhor se dignou fazer maravilhas pode engrandecê-lo e louvá-lo dignamente e dizer, exortando os que compartilham seus desejos e aspirações:Comigo engrandecei ao Senhor Deus, exaltemos todos juntos o seu nome (Sl 33,4).

Quem conhece o Senhor e é negligente em proclamar sua grandeza e santificar o seu nome, será considerado o menor no Reino dos Céus(Mt 5,19). Diz-se que santo é o seu nome porque, pelo seu poder ilimitado, transcende toda criatura e está infinitamente separado de todas as coisas criadas.

Acolhe Israel, seu servidor, fiel ao seu amor (Lc 1,54).

Israel é, com razão, denominado servidor do Senhor, porque, sendo obediente e humilde, foi por ele acolhido para ser salvo, como diz Oséias: Quando Israel era criança, eu já o amava (Os 11,1). Aquele que recusa humilhar-se não pode certamente ser salvo, nem dizer com o Profeta: Quem me protege e me ampara é meu Deus; é o Senhor quem sustenta a minha vida! (Sl 53,6). Mas, quem se fizer humilde como uma criança, esse é o maior no Reino dos Céus (cf. Mt 18,4).

Como havia prometido a nossos pais, em favor de Abraão e de seus filhos para sempre (Lc 1,55).

Trata-se da descendência de Abraão segundo o espírito e não segundo a carne, isto é, não apenas dos filhos segundo a natureza, mas de todos que seguiram o exemplo da sua fé, fossem eles circuncidados ou incircuncisos. Pois o próprio Abraão, ainda incircunciso, acreditou e isto lhe foi imputado como justiça.

A vinda do Salvador foi, portanto, prometida a Abraão e a seus filhos para sempre, isto é, aos filhos da promessa, dos quais se diz: Sendo de Cristo, sois então descendência de Abraão, herdeiros segundo a promessa (Gl 3,29).

É com razão que, antes do nascimento do Senhor e de João, suas mães profetizam, para que, tendo o pecado começado pela mulher, os bens comecem igualmente por ela; e se foi pela sedução de uma só mulher que a morte foi introduzida no mundo, agora é pela profecia de duas mulheres que se anuncia ao mundo a salvação.

-- Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de São Beda Venerável, presbítero (século VIII)

* para lembrar, também já publicamos os Comentários de São João Eudes sobre o Magnificat.

14 de dez de 2016

Quatro enganos comuns sobre o Sacramento da Reconciliação

Todos cometemos pecados e precisamos do
Sacramento da Reconciliação, a exemplo do
nosso Papa Francisco. 
O Sacramento da Reconciliação é essencial para o cristão por propiciar uma reaproximação com Cristo ao dar uma oportunidade ao fiel católico de reconhecer as suas faltas e, se delas estiver arrependido, ser perdoado por Deus. É um hábito salutar para  a alma procurar este sacramento com certa frequência ou sempre que houver algo pesando na consciência, pois considera-se que seu efeito purificador é salutar, sendo benéfico para a saúde espíritual e, muitas vezes, também para a saúde psicológica e física. 

No entanto, há algumas objeções que as pessoas costumam fazer, que gostaria de esclarecer, com a ajuda de São Tomás de Aquino.

1. A confissão não é necessária pois basta a graça de Deus

O sacramento da Reconciliação apaga os pecados que a pessoa tenha cometido e estes pecados podem ser um impedimento real para a Salvação da Alma, logo é um sacramento necessário para a Salvação. Assim como o Batismo apaga o pecado original, a confissão e a penitência apagam os pecados cometidos ao longo da vida. E, sim, todos nós cometemos pecados, maiores ou menores, mais ainda assim pecados.

Na confissão o penitente expia seus pecados temporais humilhando-se, reconhecendo-se fraco, e se submetendo ao padre, que representa a Deus, que tem o poder concedido por Deus de recomendar uma justa penitência e perdoar os pecados. Como apenas o sacerdote tem este poder, é importante confessar para um padre, não basta "falar com Deus".

2. Cristo perdoou alguns, como Pedro, Maria Madalena e Paulo, sem nem mesmo confessarem, pois Ele já sabia os pecados cometidos.

Se queres que um doutor cure tuas doenças é necessário que explique teus problemas. Se queres que Deus cure tuas fraquezas, fortaleça tua saúde espiritual, é necessário que confesses estas fraquezas, teus pecados. 

Além disso, os Evangelhos são como um resumo da vida de Cristo, como São Lucas diz, não haveria livros para contar todos os milagres e maravilhas realizados por Cristo. Assim é bem possível que eles tenham confessado seus pecados, apenas que este fato não tenha sido registrado. Além disso, apenas Cristo, enquanto Deus, tem o poder da onisciência, não nossos padres. 

3.  A confissão não é necessária por que a pessoa pode desculpar seus próprios erros, afinal são "seus" pecados. 

É verdade que a pessoa, por sua própria e livre vontade, resolveu cometer más ações, e que, neste sentido, pode ser o único causador dos seus pecados. Mas seus pecados nunca estão restritos apenas a ele, sempre afetam outras pessoas. Por exemplo, contar uma mentira atinge outra pessoa, que agirá de acordo com o que ouviu, não de acordo com a verdade. 

Alguns pecados tem uma grande repercussão, outros menor, mas sempre outros são afetados. Neste sentido, o homem não basta a si mesmo, é necessário que escute a outro, que irá analisar a situação e recomendar o remédio (penitência) adequado. Assim, confessar para um padre é fundamental.

4. O padre sempre repete a mesma penitência, já posso ir rezando uns Pai-Nossos pelos meus pecados. Ou a penitência é sempre "levezinha", eu mesmo acho merecer algo bem maior.

Achar que a penitência sempre deve ser proporcional à gravidade do pecado é comparar um sacramento ao processo judicial, onde crimes mais graves são punidos de maneira mais forte, esquecendo a Misericórdia de Deus. O sacramento é eficaz não pelo tamanho da penitência, mas pelo poder do sacramento, que só é possível se efetivamente ministrado por um sacerdote.

-- texto adaptado da Suma Teológica (suplemento da 3a. parte, questão 6, artigo 1), de São Tomás de Aquino.  


10 de dez de 2016

João é a voz, Cristo, a Palavra

São João Batista pregando no deserto, de Mássimo Stanzione
João era a voz, mas o Senhor, no princípio, era a Palavra (Jo 1,1). João era a voz passageira, Cristo, a Palavra eterna desde o princípio.

Suprimi a palavra, o que se torna a voz? Esvaziada de sentido, é apenas um ruído. A voz sem palavras ressoa ao ouvido, mas não alimenta o coração. Entretanto, mesmo quando se trata de alimentar nossos corações, vejamos a ordem das coisas. Se penso no que vou dizer, a palavra já está em meu coração. Se quero, porém, falar contigo, procuro o modo de fazer chegar ao teu coração o que já está no meu.

Procurando então como fazer chegar a ti e penetrar em teu coração o que já está no meu, recorro à voz e por ela falo contigo. O som da voz te faz entender a palavra; e quando te fez entendê-la, esse som desaparece, mas a palavra que ele te transmitiu permanece em teu coração, sem haver deixado o meu.

Não te parece que esse som, depois de haver transmitido minha palavra, está dizendo: É necessário que ele cresça e eu diminua? (Jo 3,30). A voz ressoou, cumprindo sua função, e desapareceu, como se dissesse: Esta é a minha alegria, e ela é completa (Jo 3,29). Guardemos a palavra; não percamos a palavra concebida em nosso íntimo.

Queres ver como a voz passa e a palavra divina permanece? Que foi feito do batismo de João? Cumpriu sua missão e desapareceu; agora é o batismo de Cristo que está em vigor. Todos cremos em Cristo e esperamos dele a salvação: foi o que a voz anunciou.

Justamente porque é difícil não confundir a voz com a palavra, julgaram que João era o Cristo. Confundiram a voz com a palavra. Mas a voz reconheceu o que era para não prejudicar a palavra. Eu não sou o Cristo (Jo 1,20), disse João, nem Elias nem o Profeta. Perguntaram-lhe então: Quem és tu? Eu sou, respondeu ele, a voz que grita no deserto: “Aplainai o caminho do Senhor" (Jo 1,19.23). É a voz do que grita no deserto, do que rompe o silêncio. Aplainai o caminho do Senhor, como se dissesse: “Sou a voz que se faz ouvir apenas para levar o Senhor aos vossos corações. Mas ele não se dignará vir aonde o quero levar, se não preparardes o caminho”.

O que significa: Aplainai o caminho, senão: Orai como se deve orar? O que significa ainda: Aplainai o caminho, senão: Tende pensamentos humildes? Imitai o exemplo de João. Julgam que é o Cristo e ele diz não ser aquele que julgam; não se aproveita do erro alheio para uma afirmação pessoal. Se tivesse dito: “Eu sou o Cristo”, facilmente teriam acreditado nele, pois já era considerado como tal antes que o dissesse. Mas não disse; pelo contrário, reconheceu o que era, disse o que não era, foi humilde. Viu de onde lhe vinha a salvação; compreendeu que era uma lâmpada e temeu que o vento do orgulho pudesse apagá-la.

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

3 de dez de 2016

Os ícones na Igreja Ortodoxa

Uma parede tradicional com ícones pintados em madeira e utilizando
tintas feitas pelo artista a partir de componentes naturais, como fazem os
monges a séculos. 
Ao entrar em uma Igreja Ortodoxa, você imediatamente notará que uma parede separa o altar do restante da Igreja; é a parede dos ícones. Esta parede não existe em Igrejas Católicas, mas seu significado é muito importante para todos os cristãos. Ela tem uma porta central dupla, a Porta Sagrada ou Porta dos Céus. Tipicamente o primeiro ícone à direita da porta é Cristo Criador de Todas as Coisas, o "Cristo Pancrator", e ao lado esquerdo o Ícone de Maria, Mãe de Deus, segurando Jesus em seus braços.  O ícone nas portas é da Anunciação da Virgem Maria, quando o Arcanjo Gabriel lhe anuncia Imaculada Conceição. Ao redor deles há variados ícones dos evangelistas e outros santos. 

As portas são o caminho para os céus, o Ícone da Anunciação nos recorda que Cristo se fez homem para nossa salvação; Maria foi o ponto de passagem para que Cristo entrasse no mundo; e é também a porta de passagem para que entremos nos céus. Os ícones dos evangelistas lembram que conhecemos a Cristo através de suas Sagradas Palavras registradas nos Evangelhos.

Os monges sempre ensinaram que é impossível retratar a verdadeira natureza de Deus, pois nunca o vimos, pouco o conhecemos.  No entanto, Deus veio ao mundo na forma de uma pessoa, tornou-se carne e sangue. Este é o milagre da Incarnação, fundamental para a fé cristã. Podemos pintar uma imgem de Cristo por que ele esteve no meio de nós como uma pessoa. Neste sentido, todo ícone de Cristo lembra que Deus se fez homem.

Uma versão um pouco mais moderna da parede de ícones.
Em uma imagem, mesmo que o Sol ou a Lua não estejam representados, é possível dizer a hora do dia pois observando as luzes e sombras. Em um ícone, a iluminação provêm da imutável luz de Deus, não há luzes e sombras, tudo é uniformemente iluminado por Deus. Ícones são pintados desta maneira proposidatamente pois são uma janela para os céus. Não é o ícone que é venerado, mas a pessoa, o Santo, Nossa Senhora ou o próprio Deus, visto através desta janela que é venerado. 

Como disse São João Damasceno: "Um ícone é um hino de triunfo, uma revelação, um monumento duradouro à vitória dos Santos e a desgraça dos demônios".

-- adaptado de um texto de Tony Holden 

24 de nov de 2016

São Paulo Le-Bao Tinh

Paulo Le-Bao Tinh nasceu em 1793 em uma família rica na vila de Trinh-Ha, no Vietnã. Estudou com mestres confucionistas, mas quando  conheceu os padres do Seminário tornou-se católico. Aos 12 anos entrou no Seminário, com a aprovação de seus pais. Agradava-lhe especialmente ler sobre a vida dos santos, era muito zeloso com as orações e estudos. Em certo momento, sentiu-se chamado a viver como heremita e abandonou o Seminário para morar numa caverna, sobrevivendo de frutas e arroz, passando dias em oração.

Assim ficou por muitos anos, até que o Bispo lhe pediu para ajudar no trabalho missionário. Paulo, que ainda não fora ordenado, se dirigiu às montanhas do Laos, combinando trabalho de evangelização com períodos de oração solitária e reclusão.

Em 1841 iniciou-se uma brutal perseguição aos cristãos na Provínca onde Paulo residia. O Vaticano considera os sofrimentos impostos como sendo um dos piores da história, com anos de torturas contínuas e uso de drogas para mantê-los vivos mas submissos às ordens dos torturdores.  Após sete anos na prisão, Paulo recebeu uma sentença de morte. Foi quando recebeu autorização para escrever uam última carta, que ele enviou aos seminaristas de Ke-Vinh. A carta inicia assim:

Eu, Paulo, preso pelo nome de Cristo, quero levar ao vosso conhecimento as minhas tribulações louvá-lo, porque a sua misericórdia é eterna (Sl 117,1).

O meu cárcere é verdadeiramente uma imagem do fogo eterno. Aos cruéis suplícios de todo gênero, como grilhões, algemas e ferros, juntam-se ódio, vingança, calúnias, palavrões, acusações, maldades, falsos testemunhos, maldições e, finalmente, angústia e tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os três jovens da fornalha acesa, sempre me assiste e libertou-me dessas tribulações, que se tornaram suaves, porque a sua misericórdia é eterna!

No entanto, o Imperador Thieu Tri transformou a sentença de morte em exílio, enviando Paulo para a Província de Phu Yen. Ao final do ano, um novo imperador, Tu Duc, anistiou todos exilados, permitindo seu retorno. De volta ao Seminário, Paulo terminou seus estudos e foi ordenado.


Nova mudança na política e, em 1855, todos padres cristãos foram presos e condenados a morte. Paulo escreveu:

Catedral de Nossa Senhora, na cidade
de Ho-Chi-Minh
Em meio aos tormentos que fazem a todos se desesperar, pela graça de Deus estou cheio de alegria e felicidade, por que não estou sozinho. Cristo está ao meu lado. Ele, meu Mestre, sustenta todo o peso da minha cruz, deixando para mim apenas uma parte pequena, mas decisiva.

Na manhã seguinte Paulo foi trazido ao local de execução. Sua últimas palavras foram: "A religião do Mestre é perfeitamente verdadeira, mesmo que reis e imperadores persigam-na e tentem destruí-la. Ao final, esta religião será vitoriosa e, no futuro, haverá muitas conversões, muito mais fiéis que em todo passado." De fato, esta profecia cumpriu-se: hoje há mais de 5 milhões de católicos no país, representado quase 7% da população.

São Paulo Le-Bao Tinh foi canonizado em 19 de Junho de 1988 pelo Papa João Paulo II e sua memória é celebrada em 6 de Abril. Além dele, mais de 130.000 cristãos foram martirizados no Vietnã, sendo todos são celebrados em 24 de Novembro, dia dos Mártires Vietnamitas.

-- autoria própria

A participação dos mártires na vitória de Cristo Rei

Paulo le Bao-Tinh morreu
martirizado em 1857 após muitos
anos na prisão e exílio.
Eu, Paulo, preso pelo nome de Cristo, quero levar ao vosso conhecimento as minhas tribulações cotidianas que me assaltam de todos os lados, para que, inflamados pelo amor de Deus, possais louvá-lo, porque a sua misericórdia é eterna (Sl 117,1).

O meu cárcere é verdadeiramente uma imagem do fogo eterno. Aos cruéis suplícios de todo gênero, como grilhões, algemas e ferros, juntam-se ódio, vingança, calúnias, palavrões, acusações, maldades, falsos testemunhos, maldições e, finalmente, angústia e tristeza. Mas Deus, que outrora libertou os três jovens da fornalha acesa, sempre me assiste e libertou-me dessas tribulações, que se tornaram suaves, porque a sua misericórdia é eterna!

Graças a Deus, no meio desses tormentos que continuam a apavorar os outros, sinto-me alegre e contente, pois não me julgo só, mas com Cristo. Nosso Mestre suporta todo o peso da cruz, deixando-me apenas uma pequena e ínfima parte: não é só testemunha do meu combate, mas combatente, vencedor e consumador de toda luta. Assim, sobre sua cabeça é que foi colocada a coroa da vitória, de cujo triunfo participam também os seus membros.

Como, porém, Senhor, suportar tal espetáculo, ao ver diariamente os imperadores, os mandarins e seus soldados blasfemarem vosso santo nome, quando estais acima dos querubins e serafins? (cf. Sl 79,3). Eis que a vossa cruz é calcada pelos pagãos! Onde está a vossa glória? Ao ver tudo isso, me inflamo por vós, preferindo morrer com os membros amputados, em testemunho do vosso amor!

Mostrai,  Senhor, o vosso poder, salvando-me e protegendo-me. Que a força se manifeste na minha fraqueza e seja glorificada ante os gentios, pois, se eu vacilar no caminho, vossos inimigos, cheios de orgulho, poderão levantar as cabeças.

Caríssimos irmãos, ao ouvirdes tudo isto, dai alegremente graças imortais a Deus, do qual procedem todos os bens. Bendizei comigo o Senhor, porque a sua misericórdia é eterna! Minha alma engrandeça o Senhor e meu espírito exulte de alegria em Deus, meu Salvador; porque olhou para a humildade de seu servo (cf. Lc 1,46-48), todas as gerações me proclamarão bendito, porque a sua misericórdia é eterna!

Cantai louvores ao Senhor, todas as gentes, povos todos, festejai-o (Sl 116,1), porque Deus escolheu o que é fraco no mundo para confundir os fortes, e o que é vil e desprezível (1Cor 1,27-28), para confundir os nobres. Pelos meus lábios e inteligência, Deus confunde os filósofos, os discípulos dos sábios deste mundo, porque a sua misericórdia é eterna!

Tudo isto vos escrevo, para unirdes à minha a vossa fé. No meio desta tempestade lanço a âncora, a viva esperança que trago no coração, até ao trono de Deus.

Caríssimos irmãos, correi de tal modo que possais alcançar a coroa: revesti-vos com a couraça da fé (1Ts 5,8), tomai as armas de Cristo, à direita e à esquerda, segundo os ensinamentos de São Paulo, meu patrono. É melhor para vós entrar na posse da vida comum só olho ou privados de algum membro (cf. Mt 5,29), do que serdes lançados fora com todos eles.

Vinde em meu auxílio com vossas preces, para que possa combater, segundo a lei, o bom combate, e combater até o fim, encerrando gloriosamente a minha carreira. Se já não nos podemos ver nesta vida, tal felicidade nos está reservada para o futuro, quando, junto ao trono do Cordeiro imaculado, exultantes com a alegria da vitória, cantaremos em uníssono eternamente os seus louvores. Assim seja.

-- Da Carta de Paulo Le Bao-Tinh aos alunos do Seminário de Ke-Vinh, de 1843

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...