30 de jan de 2016

Alimentai vosso corpo com a Palavra de Deus

Além das orações habituais da manhã e da noite, exorto-vos que empregueis também algum tempo na leitura de algum livro que trate das coisas espirituais, como a Imitação de Cristo, a Filotéia de São Francisco de Sales, a Preparação para a Morte de Santo Alfonso de Ligório, vidas de santos ou outros semelhantes.

A leitura de trechos desses livros será de muito grande proveito para a vossa, alma. Teríeis ainda mérito redobrado diante de Deus se contásseis aos outros o que haveis lido, ou se leres para os outros, sobretudo para os que não sabem ler. 

Assim como o nosso corpo sem alimento adoece e morre, do mesmo modo acontece com a nossa alma, se a privamos do seu alimento. Nutrição e alimento da. nossa alma é a palavra. de Deus, isto é, as pregações, explicação do Evangelho e o catecismo. 

Fazei pois toda a diligência para chegardes a tempo à igreja, e lá prestai toda a atenção e procurai aplicar a vós mesmos o que julgardes apropriado para o vosso estado. Além disso é muito importante que freqüenteis o catecismo. Não alegueis o pretexto de que já o sabeis porque vostes admitidos à sagrada comunhão.

Guardai vossa alma, bem como o vosso corpo, ele também agora necessita de alimento. Se privais vossa alma desse alimento, ficais expostos ao perigo de graves danos espirituais. 

Guardai-vos igualmente do embuste do demônio quando sugere: Isso cai bem no meu companheiro Pedro, aquilo é para Paulo. Não, meus caros, o pregador fala a todos e entende aplicar a todos as verdades que expõe. Ademais o que não servir para corrigir o passado, servirá para vos preservar de algum pecado no futuro. 

Quando ouvirdes algum sermão, procurai conservá-lo na memória durante o dia, e especialmente a noite, antes de vos deitardes, recolhei-vos -m pouco e refleti sobre o que ouvistes. Se assim fizerdes, tirareis grande proveito para a vossa alma. 

Recomendo-vos que procureis fazer todo o possível para cumprirdes estes vossos deveres nas vossas próprias paróquias, pois o vosso Pároco foi de modo especial destinado por Deus para cuidar de vossa alma. 

-- São João Bosco, presbítero (século XIX)

28 de jan de 2016

Na cruz não falta nenhum exemplo de virtude

28 de Janeiro, dia de São Tomás de Aquino
Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para ser remédio contra o pecado e para exemplo do que devemos praticar.

Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio contra todos os males que nos sobrevêm por causa dos nossos pecados.

Mas não é menor a utilidade em relação ao exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar nossa vida inteira. Quem quiser viver na perfeição, nada mais tema fazer do que desprezar aquilo que Cristo desprezou na cruz e desejar o que ele desejou. Na cruz, pois, não falta nenhum exemplo de virtude.

Se procuras um exemplo de caridade: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Assim fez Cristo na cruz. E se ele deu sua vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por causa dele.

Se procuras um exemplo de paciência, encontras na cruz o mais excelente! Podemos reconhecer uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora, Cristo suportou na cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque atormentado, não ameaçava (1Pd 2,23); foi levado como ovelha ao matadouro e não abriu a boca (cf. Is 53,7; At 8,32).

É grande, portanto, a paciência de Cristo na cruz. Corramos com paciência ao combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia (cf. Hb 12,1-2).

Se procuras um exemplo de humildade, contempla o crucificado: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.

Se procuras um exemplo de obediência, segue aquele que se fez obediente ao Pai até à morte: Como pela desobediência de um só homem, isto é, de Adão, a humanidade toda foi estabelecida numa condição de pecado, assim também pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça (Rm 5,19).

Se procuras um exemplo de desprezo pelas coisas da terra, segue aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e que na cruz está despojado de suas vestes, escarnecido, cuspido, espancado, coroado de espinhos e, por fim, tendo vinagre e fel como bebida para matar a sede.

Não te preocupes com as vestes e riquezas, porque repartiram entre si as minhas vestes (Jo 19,24); nem com honras, porque fui ultrajado e flagelado; nem com a dignidade, porque tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na em minha cabeça (cf. Mc 15,17); nem com os prazeres, porque em minha sede ofereceram-me vinagre (Sl 68,22).

-- Das Conferências de Santo Tomás de Aquino, presbítero (séc. XIII)

27 de jan de 2016

Os ardis do demônio par afastar a juventude de Deus

Dois são os principais ardis de que se vale o demônio para afastar os jovens da virtude. 

O primeiro é fazê-los acreditar que para servir o Senhor é preciso levar uma vida triste e longe de qualquer divertimento e prazer. Não é assim, queridos jovens. Vou indicar-vos um método de vida cristã que vos tome alegres e contentes e ao mesmo tempo vos de a conhecer quais os verdadeiros divertimentos e os verdadeiros prazeres de modo que possais dizer corno o santo profeta Davi: Sirvamos ao Senhor em santa alegria

O outro engano é dar-lhes esperança de uma vida longa e de se converterem mais tarde, na velhice ou na hora da morte. Atenção meus filhos, porque muitos se deixaram enganar. Quem nos assegura que chegaremos a velhice? Seria preciso firmar um pacto corn a morte para que nos espere até lá por que a vida e a morte estão nas mãos de Deus, que delas pode dispor como Lhe aprouver. E ainda quando vos concedesse vida dilatada, ouvi o grande aviso que vos dá: o homem segue na velhice e até a morte o caminho que principiou a trilhar em sua adolescência. Vale dizer que se agora que somos jovens começarmos a viver bem, seremos bons quando entrarmos em anos, boa também será a nossa morte e princípio de uma felicidade eterna. Se, pelo contrário, deixarmos que os vícios se apoderem de nós durante a mocidade, é muito provável que assim continuemos até a morte, presságio funesto de muito infeliz eternidade.

Meus caros, eu vos amo de todo coração, e basta que sejais jovens para que vos ame muito. O Senhor esteja sempre convosco e vos conceda a graça de poderdes salvar vossas almas, e, assim, aumentar a glória de Deus. Sede felizes e o santo temor de Deus seja a vossa riqueza durante toda a vossa vida.

-- São João Bosco, padre (século XIX)

23 de jan de 2016

Sermão sobre a parábola do filho pródigo

Do Evangelho segundo São Lucas 15, 11-32

Disse Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte do patrimônio que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua herança vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome: e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrando então em si e refletiu: "Quantos empregados há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome! Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados". Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse então: "Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho". Mas o pai disse aos servos: "Trazei-me depressa a melhor (primeira) veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também o bezerro cevado e matai-o; comamos e festejemos. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido e foi achado". E começaram a festa...
O Filho Pródigo, de Rembrandt.

I. Não é necessário determo-nos em assunto de que já tratamos; mas se não é o caso de nos demorarmos, sim o é de rememorarmos. Vossa prudência ainda lembra que no domingo passado comentei a parábola, lida no Evangelho de hoje, a do filho pródigo, comentário que no entanto não pude concluir. Deus Nosso Senhor quis, porém, que, passada aquela tribulação, possamos hoje continuar a falar.

Sinto-me obrigado a pagar a dívida do sermão, porque as dívidas de amor sempre devem ser pagas. Assista-me Deus para que meus poucos recursos possam satisfazer a vossa expectativa.

II. O homem que tem dois filhos é Deus que tem dois povos: o filho mais velho é o povo judeu; o menor, os gentios (NT: atualizando, os que estão na Igreja e os que estão fora).

O patrimônio que este recebeu do Pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo o que Deus nos deu para que O conhecêssemos e Lhe déssemos culto. Tendo recebido este patrimônio, o filho menor "partiu para um país muito distante". Distância significa: o esquecimento de seu Criador. "Dissipou sua herança vivendo dissolutamente": gastando e não ajuntando; malbaratando tudo o que tinha e não adquirindo o que não tinha, isto é, consumindo toda sua capacidade em luxúria, em ídolos, em todo tipo de desejos perversos, aos que a Verdade denominou meretrizes.

III. Não é de admirar que essa orgia acabasse em fome. "Sobreveio àquela região uma grande fome"; fome não de pão visível mas da verdade invisível. E, por causa da fome, "foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região": entenda-se o diabo, o senhor dos demônios, sob cujo poder caem todos os curiosos, pois a curiosidade é o pestilento abandono da verdade.

À margem de Deus, por entregar-se a seus próprios recursos, foi submetido à servidão e lhe tocou o ofício de apascentar porcos, o que significa a servidão mais extrema e imunda que costuma alegrar os demônios: não foi por acaso que o Senhor, quando expulsou a legião dos demônios, permitiu que entrassem na piara de porcos.

Alimentava-se então das vagens de porcos sem poder saciar-se. Vagens são as vistosas doutrinas do mundo: servem para ostentar mas não para sustentar; alimento digno para porcos, mas não para homens: próprias para dar aos demônios deleitação, mas não aos fiéis justificação.

IV. Até que, por fim, tomou consciência do lugar em que tinha caído; do quanto tinha perdido; Quem tinha ofendido e a quem se tinha submetido. Reparai no que diz o Evangelho: "Entrando em si..."; primeiramente, voltou-se para si e só assim pôde voltar para o pai. Dizia talvez: "O meu coração me abandonou (isto é: saí de mim mesmo)" (Sl 40,13); daí que fosse necessário, antes, voltar para si mesmo e assim perceber que se encontrava longe do pai. É o que diz a Escritura quando corrige a alguns, dizendo: "Voltai, pecadores, ao coração! (isto é: voltai, pecadores, a vós mesmos!)" (Is 46,8). Voltando para si mesmo, encontrou-se miserável: "Encontrei, diz ele, a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor" (Sl 116,3-4). "Quantos empregados, diz ele, há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome!" (...)

V. Levantou-se e voltou. Ele, caído por terra depois de contínuos tropeços. O pai o vê ao longe e sai-lhe ao encontro. É dele que fala o Salmo: "Entendeste meus pensamentos de longe" (Sl 139,2). Que pensamentos? Aqueles que o filho tinha em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados". Ele ainda nada tinha dito, só pensava em dizer. O pai, porém, ouvia como se o filho já o estivesse dizendo.

Por vezes, em meio a uma tribulação ou tentação, alguém pensa em orar, e, no próprio ato de pensar o que irá dizer a Deus na oração, considera que é filho e que, como tal, tem direito a reivindicar a misericórdia do Pai. E diz de si para si: "Direi a meu Deus isto e aquilo; não temo que, em lhe dizendo isto, e chorando, não seja eu atendido pelo meu Deus". Geralmente, Deus já o está atendendo quando ele diz estas coisas; e mesmo antes, quando as cogita, pois mesmo o pensamento não está oculto ao olhar de Deus. Quando o homem delibera orar, já lá está Aquele que lá estará quando ele começar a oração.

E assim se diz em outro Salmo: "Eu disse: confessarei minha iniqüidade ao Senhor" (Sl 32,5). Vede como se trata ainda de algo interior a ele, de um mero projeto e, contudo, acrescenta imediatamente: "E tu já perdoaste a impiedade de meu coração" (Sl 32,5). Quão próxima está a misericórdia de Deus daquele que se confessa! Não, Deus não está longe de quem tem um coração contrito, como está escrito: "Deus está próximo dos que trituram seu coração" (Sl 34,19). E neste triturar seu coração no país da penúria, retornava ao coração para moê-lo. Soberbo, abandonara seu coração; irado com santa indignação, a ele retorna.

Indignou-se contra si mesmo, contra o mal que há em si, para se emendar; retornou para merecer o bem do pai. Indignou-se conforme a sentença: "Irai-vos para não pecar" (Sl 4,5). Pois quem está arrependido fica irado e, por estar indignado consigo mesmo, se pune.

Daí surgem aquelas práticas próprias do penitente que verdadeiramente se arrepende, verdadeiramente se dói, sente ira contra si mesmo. Certamente, é indício dessa ira o bater no peito: o que a mão faz externamente, a consciência o faz internamente: golpeia-se nos pensamentos, ou melhor, produz a morte em si mesmo. E, matando-se, oferece a Deus o "sacrifício de um espírito atribulado. Deus não despreza um coração contrito e humilhado" (Sl 51,19). E, assim, raspando, quebrando, humilhando seu coração, leva-o à morte.

VI. Embora tivesse ainda somente a disposição de falar ao pai, cogitando em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei...", o pai, que de longe já conhece essas cogitações, foi ao seu encontro.

Que significa "ir ao encontro" senão antecipar-se pela misericórdia? Pois, "estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro". Por que foi movido pela misericórdia? Porque o filho tinha confessado sua miséria. "E correndo-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço", isto é, pôs o braço sobre o pescoço dele.

Ora, o braço do Pai é o Filho: deu-lhe, portanto, Cristo para carregar: uma carga que não pesa, mas alivia. "Meu jugo é suave, diz Cristo, e meu fardo é leve" (Mt 11,30). Ele se apoiava sobre o que estava de pé e, por apoiar-se, impedia-o de tornar a cair. Tão leve é o fardo de Cristo que não só não pesa, mas, pelo contrário, até ergue.

Não que o fardo de Cristo seja uma carga dessas que se chamam leves (não há carga, por mais leve que seja, que não tenha algum peso). Pode-se carregar um fardo pesado, um fardo leve ou, ainda, não carregar fardo algum. Anda oprimido quem carrega fardo pesado; menos oprimido quem leva uma carga leve (embora também ande oprimido); com os ombros totalmente desembaraçados, quem não carrega fardo algum. Não é dessa ordem o fardo de Cristo, mas um fardo tal que convém carregá-lo para sentir-se aliviado; se nos desvencilharmos dele, mais carregados nos sentiremos.

E que esta nossa afirmação, irmãos, não vos pareça absurda! Talvez encontremos alguma comparação que vos torne plausível, até em termos de nossa experiência sensível, o que estou dizendo. Um caso, também ele, espantoso e totalmente incrível.

É o seguinte: considerai as aves. Toda ave carrega o peso de suas asas: não reparastes como, quando descem ao chão, recolhem as asas para poder descansar e como que as levam nos costados? Julgais que estão oprimidas pelo peso das asas? Tirai-lhe este peso e cairão: quanto menos pesarem as asas, menos pode a ave voar.

Alguém que, a título de misericórdia, as privasse deste peso, não estaria sendo misericordioso. A verdadeira misericórdia está em poupar-lhes esta privação e, se já perderam as asas, em dar-lhes alimento para que readquiram asas pesadas e possam arrancar-se da terra e voar. É bem este o peso que desejava o salmista: "Quem me dará asas como as da pomba para que eu voe e encontre meu repouso?" (Sl 55,7)

Assim, o peso do braço do pai sobre o pescoço do filho não o carregou, mas o aliviou; foi-lhe honroso e não oneroso. Como é, pois, o homem capaz de carregar consigo a Deus se não é porque o está carregando, o Deus que ele carrega?

VII. E o pai ordena que o vistam com a primeira veste, aquela que Adão perdera ao pecar. Tendo recebido o filho em paz, tendo-o beijado, ordena que lhe dêem uma veste: a esperança de imortalidade, conferida no batismo. Ordena que lhe dêem um anel, penhor do Espírito Santo; calçado para os pés, como preparação para o anúncio do Evangelho da paz, para que sejam formosos os pés dos que anunciam a boa nova.

Estas coisas Deus faz através de seus servos, isto é, os ministros da Igreja. Acaso eles podem, por si próprios, dar veste, anel e calçados? Não, apenas cumprem seu ministério, desempenham seu ofício; quem dá é Aquele de cujo depósito e de cujo tesouro são extraídos estes dons.

Mandou também matar o bezerro cevado, isto é, que fosse admitido à mesa em que o alimento é Cristo morto. Mata-se o bezerro para todo aquele que, de longe, vem para a Igreja, na qual se prega a morte de Cristo e no Seu corpo o que vem é admitido. Mata-se o bezerro cevado porque o que se tinha perdido foi encontrado.

-- De Santo Agostinho, bispo (século V)

22 de jan de 2016

Só a Deus amarás

Não pode amar a Deus quem ama a si mesmo. Pelo contrário, quem não se prefere por causa das incomparáveis riquezas do amor de Deus, este ama a Deus. Daí decorre que jamais busque a própria glória, mas a glória de Deus. Pois quem se ama, procura sua glória, mas quem ama a Deus, ama a glória de seu Criador.

Bispo Diádoco de Foticéia, séc. V
É próprio da alma sensível ao amor e a Deus procurar sempre a glória de Deus, deleitando-se em realizar todos os preceitos com submissão. Porque a Deus, por causa de sua magnificência, convém a glória. Ao homem, porém, convém a submissão que nos faz familiares de Deus. Quando procedemos assim, nós nos alegraremos com a glória do Senhor e, a exemplo de João Batista, começaremos a dizer sem nunca cessar: É preciso que ele cresça e que nós diminuamos.

Conheci uma pessoa que, embora chorando por não amar a Deus como quereria, de tal forma o amava que seu espírito era constantemente presa do veemente desejo de que Deus nela encontrasse sua glória, ela mesma era como nada. Quem vive assim não será louvado por palavras, mas se conhecerá por quem de fato é. Pelo imenso desejo humilde, nem pensava em sua dignidade, apesar de servir a Deus conforme prescreve a lei para os sacerdotes. Pela intensa vontade de amar a Deus, começou a esquecer-se de seus títulos, ocultando na profunda caridade para com Deus, pela humildade de espírito, a glória de sua posição, a ponto de sentir-se sempre servo inútil, indiferente a seu valor, ansiando pela humildade. Também nós assim deveríamos proceder, fugindo de toda honra e glória, por causa das inestimáveis riquezas do amor para com o Deus que verdadeiramente nos ama.

Quem ama a Deus no íntimo do coração é por ele conhecido. Pois de toda a caridade de Deus que alguém guarda no fundo da alma, nesta mesma medida o ama. Por isso, vem a amar com extremos a luz do conhecimento, a ponto de senti-la até nos ossos. Já não se conhece mais a si mesmo. Está todo transformado pela caridade.

Aquele que chegou a este ponto, vive, sim, mas como se não vivesse; vive no corpo, mas, pela caridade, peregrina nos eternos caminhos para Deus. Abrasado o coração pelo fogo da caridade, facho ardente de desejo, une-se a Deus, liberto de todo apego a si mesmo pela caridade de Deus: Se somos arrebatados fora de nós, é por Deus: se somos sóbrios, é para vós, como diz o Apóstolo.

-- Dos Capítulos sobre a perfeição espiritual, de Diádoco de Foticéia, bispo

18 de jan de 2016

Católicos podem receber a comunhão de não-católicos?

Quando católicos assistem a uma cerimônia na Igreja Anglicana, Luterana ou outras próximas, digamos que seja um funeral ou casamento, tudo parece muito semelhante à uma missa católica. O presidente da cerimônia está vestido como um padre, as palavras da consagração do corpo e sangue são muito parecidas e a forma de distribuição da Eucaristia é basicamente igual. E, ainda, o celebrante anuncia que todos são bem-vindos a receber a comunhão. Nesta situação, o que fazer?

O canon 844.1, de maneira geral, especifica que sacramentos católicos são para católicos; e católicos devem receber os sacramentos de seus ministros também católicos, com raríssimas exceções, como em caso de morte iminente. 

Nós católicos acreditamos que Jesus Cristo ordenou os doze primeiros apóstolos como bispos de sua igreja; e estes ordenaram novos bispos, e novos bispos até os dias atuais, sem perda de continuidade. Ou seja, quelquer bispo hoje poderia retroceder sua sucessão até algum dos doze apóstolos e, por fim, Jesus Cristo. Dentro desta linha sucessória, a validade das ordenações não é questionada. 

A Igreja Católica reconhece que os bipos ordenados pela Igreja Ortodoxa também seguem esta mesma linha sucessória, podendo remontar suas origens até o Apóstolo Santo André. Assim, todos os sacramentos ministrados pelos bispos ortodoxos são plenamente reconhecidos como válidos pela Católica, incluindo a ordenação de padres e novos bispos. Em consequência, uma missa ortodoxa é uma missa com a presença real do Corpo e Sangue de Jesus Cristo. A Eucaristia Ortodoxa é uma Eucaristia plena. Assim, receber a comunhão em missa Ortodoxa está plenamente em acordo com a Igreja Católica.

Mas a Igreja Anglicana, Luterana e todas que surgiram no contexto da Reforma ou a partir delas, tem um status totalmente diferente e católicos não devem receber a comunhão quando atendo uma celebração em uma destas igrejas. Isto por que a Católica não reconhece que seus pastores e bispos tenham sido legitimamente ordenados, não podendo celebrar uma legítima consagração do Corpo e Sangue de Cristo na Eucaristia.

Por que a diferença entre Ortodoxos e os demais? Ambos não reconhecem a autoridade do Papa para governar a Igreja, mas a doutrina Ortodoxa quanto aos sacramentos concorda plenamente com a Católica, enquanto Anglicanos, Luteranos e os demais negam a existência de certos sacramentos, alguns inclusive que a hóstia e o vinho transsubtanciam-se em Corpo e Sangue de Cristo. A palavra-chave para Ortodoxos é "cisma", isto é, estão separados da Igreja Católica; enquanto para outras denominações é "heresia", ou seja, os ensinamentos são contrários a fé católica.

Então, sendo totalmente claro, católicos não devem receber a comunhão em uma cerimônia Anglicana, Luterana ou de qualquer outra igreja "protestante". A hóstia oferecida é apenas um pedaço de pão não consagrada. Não há por que recebê-lo.

Apenas para facilitar, eis o texto do cânon 844 e parágrafos primeiro e segundo. O texto completo do Código Canônico está aqui.

Cân. 844 — § 1. Os ministros católicos só administram licitamente os sacramentos aos fiéis católicos, os quais de igual modo somente os recebem licitamente dos ministros católicos, salvo o preceituado nos §§ 2, 3 e 4 deste cânon e do cân. 861, § 2.

§ 2. Todas as vezes que a necessidade o exigir ou a verdadeira utilidade espiritual o aconselhar, e desde que se evite o perigo de erro ou de indiferentismo, os fiéis a quem seja física ou moralmente impossível recorrer a um ministro católico, podem licitamente receber os sacramentos da penitência, Eucaristia e unção dos doentes dos ministros não católicos, em cuja Igreja existam aqueles sacramentos válidos 

-- autoria própria.

16 de jan de 2016

Beato Gonçalo de Amarante

Gonçalo nasceu de uma família de nobres portugueses em 1187, tendo efetuado os primeiros estudos com um sacerdote, como era costume à época. Reconhecendo seu valor, o arcebispo de Braga admitiu-o na escola-catedral da arquidiocese, onde cursou as discipinas de Teologia e Filosofia, vindo a ser ordenado sacerdote e nomeado pároco da freguesia de São Paio de Vizela, onde tinha uma vida confortável.
Desejoso de visitar os túmulos dos apóstolos São Pedro e São Paulo e os Lugares Santos em Israel, obteve licença do bispo e deixou a paróquia aos cuidados de um sobrinho sacerdote, partindo em peregrinação, primeiro a Roma e, depois, até Jerusalém. Neste período, acostumou-se a uma vida mais simples e pobre.
Após 14 anoos, regressou a Portugal para retomar as atividades na paróquia, mas seu sobrinho escandalizou-se com as práticas ascéticas de Gonçalo, não aceitando viver na pobreza. Acabou por escorraçá-lo da paróquia, dizem até que teria soltado os cachorros contra o tio. É certo que mediante documentos falsos, convenceu o novo bispo que o verdadeiro Gonçalo falecera e este seria um impostor, obtendo assim a nomeação como pároco da freguesia.
Gonçalo, resignado com os fatos, deixou São Paio de Vizela e, pregando o Evangelho, chegou às margens do Rio Tâmega, onde ergueu uma pequena ermida. Ali viveu como eremita, consagrando o tempo à oração e à penitência, e saindo esporadicamente a pregar nos arredores.
Sentindo necessidade de encontrar um caminho mais seguro de modo a alcançar a glória eterna, Gonçalo decidiu passar os quarenta dias da Quaresma apenas a pão e água. Sentindo-se fraco, suplicou fervorosamente a Nossa Senhora que lhe alcançasse essa graça. Conta-se que teve uma visão da Virgem Maria, que recomendou procurar a Ordem dos Dominicanos, pois iniciavam o seu Ofício das Horas com a Ave-Maria.
Gonçalo dirigiu-se então ao Convento de Guimarães, recentemente fundado. Ali fez seu noviciado e foi admitido à ordem. Após algum tempo recebeu licença para, com outro religioso, voltar à sua ermida em Amarante.
Durante este período, Gonçalo realizou muitas conversões, conduzindo o povo à prática de uma autêntica vida cristã, também ajudando os pobres a melhorar suas condições de vida. Nesse particular sobressai a construção de uma ponte em granito sobre o Rio Tâmega, angariando pessoalmente donativos em terras próximas e levando os moradores mais abastados a darem vultosas ajudas para s obra. 
O povo atribui-lhe muitos milagres ligados a esta construção. Em certa ocasião, não tendo mais dinheiro para pagar os construtores que ameaçavam abandonar a obra, foi até uma pedra, bateu com seu cajado, e dali jorrou um vinho da melhor qualidade, que pode ser vendido. Em outra vez que faltava alimento para os trabalhadores; foi até a margem do rio e pediu ajuda para Deus. Os peixes teriam saltado para as margens implorando a honra de ajudá-lo. 
Outro milagre atribuído a ele ocorreu durante uma catequese. Para demonstrar os efeitos de uma sentença da Igreja; ele "excomungou" uma cesta de pães e frutas; que teriam imediatamente apodrecidas. Então, para mostrar o poder do perdão de Deus, retirou a "excomunhão", e as frutas e os pães reavivaram, podendo ser consumidos por todos.
Diz-se que Nossa Senhora lhe revelou o dia da sua morte, 10 de Janeiro de 1262, para a qual se preparou com a recepção dos Sacramentos da Igreja. O seu corpo, após a celebração das exéquias por sua alma, foi sepultado na ermida. Muitos milagres de cura são, ainda hoje, atribuídos à sua intercessão. Foi beatificado em 16 de Setembro de 1561, pelo Papa Pio IV.
Mais tarde a primitiva ermida foi substituída por uma igreja. Sobre esta, em  1540, o Rei João III determinou erguer a igreja e convento que ainda hoje existe.
Embora tenha falecido em 10 de Janeiro, os dominicanos pediram que sua festa litúrgica fosse transferida para 17 de Janeiro, evitando a coincidência com o Batismo de Cristo, que por certo teria prioridade. Embora oficialmente beato, é comum ser chamado de São Gonçalo.

-- autoria própria

14 de jan de 2016

O Verbo do Pai tudo criou e governa

O Pai santíssimo de Cristo – sem comparações mais excelente do que toda a criatura – como ótimo criador, tudo governa, dispõe e faz convenientemente o que lhe parece justo, por sua sabedoria e por seu Verbo, Cristo, nosso Senhor e Salvador. Assim é bom que tudo tenha sido e venha a ser feito como vemos. Que ele o tenha querido assim, ninguém pode duvidar. Porque, se o movimento dos seres criados se fizesse desordenadamente e o mundo girasse ao acaso, com toda a razão se negaria crédito ao criador. Mas, se com medida, sabedoria e ciência o mundo foi criado e enriquecido de toda beleza, não há como fugir que este criador e aperfeiçoador é o próprio Verbo de Deus.

Afirmo que o Verbo do Deus do universo e de todo o bem é o Deus vivo e eficaz que existe por si próprio. Distinto de tudo criado, ele é o próprio e único Verbo do Pai de bondade, por cuja providência o mundo inteiro, por ele feito, é iluminado. Ele, que é o bom Verbo do bom Pai, estabeleceu a ordem de todas as coisas, uniu entre si os contrários, compondo assim grande harmonia. Este único e unigênito é Deus: a bondade que procede do Pai, como de fonte do bem, e adorna, dispõe e mantém todo o universo.

Aquele que por seu eterno Verbo tudo fez, fazendo existir as criaturas cada qual conforme a própria natureza, não permitiu que elas se movessem arbitrariamente, a fim de que não retornassem ao nada; por isso, ele, que é o bem, por meio do seu Verbo, Deus como ele, governa e conserva toda a criação. Deste modo, a criação, iluminada pelo governo, providência e administração do Verbo, pode permanecer firme e manter-se coesa. Portanto, a criação, obra do Verbo do Pai – Verbo que é o próprio ser – dele participa e é por ele auxiliada, a fim de não cessar de existir, o que aconteceria, caso não fosse guardada pelo Verbo, que é a imagem do Deus invisível, primogênito de toda criatura. 

Por ele e nele tudo existe, tanto as coisas visíveis quanto as invisíveis. Ele é também a cabeça da Igreja, como ensinam os ministros da verdade nas Sagradas Escrituras.

Por conseguinte, este todo-poderoso e santíssimo Verbo do Pai, penetrando em tudo, desdobra por toda a parte as suas forças, e ilumina todas as coisas visíveis e invisíveis. Em si mesmo contém e abraça todas, de modo que não deixa nada alheio a seu poder, mas em tudo e por tudo, a cada um em particular e a todos em conjunto concede a vida e a proteção.

-- Do Discurso contra os gentios, de Santo Atanásio, bispo (século IV)

12 de jan de 2016

Santa Margarida Bourgeoy, fundadora de Montreal

Retrato de Santa Margarida Bourgeoy,
pintado por Pierre Le Ber, em 1700.
MARGARIDA BOURGEOY nasceu em Troyes em Champagne (França), numa sexta-feira santa, 17 de abril de 1620. Ela foi batizada no mesmo dia, na Igreja de São João, ao lado da casa da família. Sexta dos doze filhos de Abraão Bourgeoys e Guillemette Garnier, ela cresceu em um ambiente cristão.

Com dezenove anos de idade, ela perdeu a mãe. No ano seguinte, no domingo 7 de outubro de 1640, durante uma procissão em honra de Nossa Senhora do Rosário, apreciando uma estátua da Virgem, ela recebe uma graça que a inspira a retirar-se do mundo para dedicar-se ao serviço de Deus. Decide então seguir o plano de Deus em sua vida, mas ainda insegura de qual seria sua própria vocação.

Seu primeiro ato é inscrever-se em uma associação de jovens piedosos e de caridade dedicada ao ensino de crianças de áreas pobres de sua cidade. Lá soube, em 1642, da fundação da Vila Maria (atual Montreal), no Canadá, que torna-se sua primeira chamada para a vida missionária. Esta chamada será esclarecida em 1652, durante uma reunião com Sieur de Maisonneuve, fundador e governador deste posto avançado da Nova França, que estava em busca de professores leigos para instruir as crianças francesas e índias. A própria Virgem lhe aparece e confirma sua vocação: "Vai, eu não vou deixar você", disse ela.

Assim tranquilizada, Margarida deixou Troyes em fevereiro de 1653, chegando em Montreal em 16 de Novembro. Sem demora, ela começa a trabalhar e se torna a alma da colônia, que gradualmente, vem à vida. Considera-se, com razão, co-fundadora de Montreal, com Jeanne Mance, enfermeira, e o supervisor Maisonneuve.

Para estimular a piedade dos colonos, foi construída uma Cruz em Monte Real, que acabou baleada por índios hostis. Após ela empreendeu a construção de uma capela dedicada a Nossa Senhora do Bom Socorro. Convencida da importância das famílias na construção do novo país, ela vê o papel fundamental das mulheres e resolve esforçar-se para melhor prepará-las para a vida. Em 1658, em um estábulo que cedido pelo governador, ela abriu a primeira escola em Montreal. Em seguida, ela fundou uma congregação para leigos inspirada na sua experiência em Troyes, mas adaptada às novas necessidades, para atender às necessidades de mulheres e meninas cuja ignorância religiosa e secular poderia comprometer a boa educação das crianças e o futuro da colônia . A partir de 1659, envia cartas aos sacerdotes na França pedindo que meninas sejam recrutadas enviadas para casar-se em Montreal, acolhe-as na chegada e passa a comportar-se como sua uma nova mãe. Assim nasceu um sistema escolar e tece uma rede de obras sociais que, gradualmente, será estendida a todo o país, o que lhe valeu o título de "Mãe da Colônia" e co-fundadora da igreja no Canadá.

Três vezes, ela volta para a França para procurar ajuda. Desde 1658, o grupo de professores que seguiram em sua vida de oração, pobreza e incansável dedicação heróica ao serviço dos outros, tem a aparência de um verdadeiro instituto religioso. Ela é inspirado pela "vida viajando" de Maria e quer, portanto, não clausura: uma inovação para a época. Do sofrimento inerente a tal fundação não será poupada aquela que tomou a iniciativa. Mas o trabalho está progredindo: Congregação de Nossa Senhora (Notre-Dame) recebe o reconhecimento civil do Rei Luis XIV em 1671, e do bispo de Quebec em 1676 e, finalmente, a aprovação de suas Constituições religiosas em 1698, assegurando o caráter de uma congregação voltado ao trabalho externo, não à oração de clausura.

Ela morreu pacificamente em Montreal, 12 de janeiro de 1700, em grande fama de santidade depois de oferecer a sua vida para a cura de uma irmã mais nova.

O trabalho educativo e apostólico de Marguerite Bourgeoys se perpetua graças ao empenho de suas filhas. Mais de 2.600 irmãs da Congregação de Nossa Senhora trabalham nas mais diversas áreas de atividade: escolas, faculdades ou universidades, promoção social para o ministério da família em várias paróquias ou dioceses. Elas são encontradas no Canadá, Estados Unidos, Japão, América Latina, Camarões e, mais recentemente, em França.

Marguerite Bourgeoys foi beatificada pelo Papa Pio XII em 12 de novembro de 1950. O Papa João Paulo II canonizou a 31 de outubro de 1982 e, portanto, dá a Igreja do primeiro santo do Canadá. Sua festa liturgica é em 12 de Janeiro.

-- Tradução própria, a partir do original em francês no site do Vaticano

9 de jan de 2016

Lectio Divina

A Lectio Divina é a leitura crente e orante da Palavra de Deus. Na sua origem, ela nada mais é que a leitura que os cristãos faziam da Bíblia para animar sua fé, esperança e amor. Ela é tão antiga quanto a própria Igreja, que vive da Palavra de Deus e dela depende como a água da sua fonte (Dei Verbum 7.10.21).

Inicialmente, não era uma leitura organizada e metódica, mas era a própria Tradição que se transmitia, de geração em geração, através da prática do povo cristão. A expressão Lectio Divina vem de Orígenes. Ele diz que, para ler a Bíblia com proveito, é necessário um esforço de atenção e de assiduidade: "Cada dia, de novo, como Rebeca, temos de voltar à fonte da Escritura!" E o que não se consegue com o próprio esforço, assim ele diz, deve ser pedido na oração, "pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas". Deste modo, assim ele concluiu, chegaremos a experimentar o que esperamos e meditamos.

Para São Bento, a LD conduz à perfeição: para São Bernardo, infunde sabedoria; para São Ferreolo, cria o fervor espiritual; para Bernardo Ayglier, dissipa a cegueira da monte, ilumina o entendimento, sana a debilidade do espírito, sacia a fome da alma produz a contrição do coração. 

Seus frutos são:

1 . Viver, pensar e falar como a Bíblia: As idéias, expressões, imagens da Escritura se convertem no patrimônio espiritual . A Bíblia passa a formar parte integrante da personalidade. Ao apropriar-se da palavra de Deus, a pessoa vive, pensa e fala com a Bíblia e como a Bíblia. 

2. Maturidade na fé: a LD edifica e constrói a alma porque o homem é o que lê. O homem novo que cada um se empenha ser no batismo, chega, pela LD, à maturidade. O homem novo, para ser interlocutor válido de Deus precisa ter a Escritura enraizada em si, isto é, se torna a própria substância da pessoa e conceber continuamente a Palavra de Deus no coração. 

3. Piedade objetiva: a LD edifica-se sobre acontecimentos, modelos e mistérios reais com que o cristão procura identificar-se e não se baseia em imaginação e sentimentalismo.

4. Vida de oração: Ao responder às interpelações de Deus, em sua Palavra a pessoa ora, fala com Deus louvando, agradecendo, suplicando e intercedendo, de acordo com a sua situação.

5. Experiência de Deus: significa estar unido a Deus por meio de Cristo. A alma da pessoa sente-se íntima e fortalecida com a presença dele. A pessoa sabe, percebe, saboreia a sua presença.

6. Alegria interior: São Paulino de Nola assim descreve a prática da LD: "Viver com a palavra de Deus, meditá-las sem saber nada fora delas, não te parece que é ter aqui na terra uma morada do reino celeste?".

MÉTODO DOS QUATRO DEGRAUS

A sistematização da LD em quatro degraus veio no séc XII, Por volta do ano 1150, através de um monge cartuxo, chamado Guigo. Disse ele: "Certo dia, durante o trabalho manual, quando estava refletindo sobre a atividade do espírito humano, de repente se apresentou à minha mente a escada dos quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação. É verdade, a escada tem poucos degraus, mas ela é de uma altura tão imensa e inacreditável que, enquanto a sua extremidade inferior se apoia na terra, a parte superior penetra nas nuvens e investiga os segredos do céu"

1. Leitura

A leitura é o primeiro passo para se conhecer e amar a Palavra de Deus. Não se ama o que não se conhece. É o primeiro passo para familiarizar-se com a Bíblia, para que ela se torne nossa palavra, capaz de expressar nossa vida e nossa história, pois ela “foi escrita para nós que tocamos o fim dos tempos” (1Cor 10,11).

A leitura é o ponto de partida, não é o ponto de chegada. Recomenda Orígenes: “Vejam se seguram as palavras divinas de forma a não deixá-las cair, escapar das mãos, e assim perdê-las. Quero exortá-los com um exemplo tirado dos costumes religiosos. Quem assiste habitualmente aos Divinos Mistérios sabe com que precaução, cheia de respeito, segura o Corpo do Senhor, quando lhe é entregue; não vá cair alguma migalha e perder-se uma parte do tesouro sagrado. Sentir-se-ia culpado, e com razão, se por negligência alguma coisa se perder: Se quando se trata do Corpo do Senhor se tem tanto cuidado, como pensar que negligenciar a Palavra de Deus tem menos importâcia?” 

Todos temos dificuldades em ler. Há o vício de ler em diagonal, ler depressa demais, ler para encher o tempo, falta de gosto pela leitura, falta de tempo, de interesse, de método. Pertencemos à civilização da imagem, espectadores passivos da TV ou das revistas. Ler, copiar o texto mais de uma vez. Ler os lugares paralelos indicados na Bíblia ou nas notas. “A Escritura se interpreta por si mesma” é o grande critério rabínico da LD.

A Palavra pode ser difícil, estranha, exigente, não dizer nada. Há vazios, silêncios. Não fugir do vazio da tentação de escutar rádio ou folhear revista é lamentável. Não ter medo de sentir a incapacidade de rezar e de o experimentar é uma graça. Não leias simplismente com os olhos, mas procura imprimir o texto em teu coração

O objetivo da leitura é ler e estudar o texto até que ele, sem deixar de ser ele mesmo, se torne espelho para nós mesmos e nos reflita algo da nossa própria experiência de vida. A leitura deve familiarizar-nos com o texto a ponto de ele se tornar nossa palavra. Cassiano dizia: “Penetrados dos mesmos sentimentos em que foi escrito o texto, tornamo-nos, por assim dizer, os seus autores”. E aí, como que de repente, damo-nos conta de que, por meio dele, Deus está querendo falar conosco e nos dizer alguma coisa. Nesse instante, dobramos a cabeça, fazemos silêncio a brimos o ouvido: “Vou ouvir o que o Senhor nos tem a dizer!” (Sl 85,9). É nesse momento que a leitura se transforma em meditação. 

2. Meditação

A meditação vai responder à pergunta: o que diz o texto para mim, para nós? A meditação indica o esforço que se faz para atualizar o texto e trazê-lo para dentro do horizonte da nossa vida e realidade tanto pessoal como social. O texto deve falar-nos. 

Guigo dizia: “A meditação é uma diligente atividade da mente que, com a ajuda da própria razão, procura conhecimento da verdade oculta”. Através da leitura, descobrimos o contexto da época. No entanto, a fé nos diz que esse texto, apesar de ser de outra época e de outro contexto, tem algo a nos dizer hoje.

Uma primeira forma de se realizar a meditação é sugerida pelo próprio Guigo. Ele manda usar a mente e a razão para poder descobrir a “verdade oculta”. Entra-se em diálogo com o texto, com Deus, fazendo perguntas que obrigam a esar a razão e que procuram trazer o texto para dentro do horizonte da nossa vida. Por exemplo: Quais os conflitos de ontem que existem hoje? 

A outra forma é repetir o texto, ruminá-lo até descobrir o que ele tem anos dizer. É o que Maria fazia quando ruminava as coisas no coração (Lc 2,19-51). É o que recomenda o salmo ao justo: “Meditar dia e noite na lei do Senhor” (Sl 1,2). É o que Isaías define com tanta precisão: “Sem Iahweh, o teu nome e a lembrança de ti resumem todo o desejo da nossa alma” (Is 26,8). 

Após ter feito a leitura e ter descobrido o seu sentido para nós, é bom procurarmos resumir tudo numa frase, de preferência do próprio texto bíblico, para ser levada conosco na memória e ser repetida e mastigada durante o dia, até se misturar com o nosso próprio ser.

A meditação aprofunda a dimensão pessoal da Palavra de Deus. Na Bíblia, quem dirige a Palavra é Deus, E Ele o faz com muito amor. Uma palavra de amor recupera forças, libera energias, recria a pessoa, o coração se dilata até adquirir a dimensão do próprio de Deus, que pronuncia a Palavra. “Pela leitura se atinge a casca da letra, e se tenta atravessá-la para, na meditação, atingir o fruto do Espírito” (São Jerônimo). O Espírito age dentro da Escritura (2Tm 3,16). Através da meditação, ele se comunica a nós, nos inspira, cria em nós os sentimentos de Jesus Cristo (Fl 2,5), ajuda-nos a descobrir o sentido pleno das palavras de Cristo (Jo 16,13). É o mesmo Espírito que enche a vastidão da terra (Sb 1,7). No passado ele animava os Juízes e Profetas, hoje ele também nos anima.

A meditação é uma atividade pessoal e também comunitária. A partilha do que cada um sente, descobre e assume no contato com a Palavra de Deus é muito mais do que só a soma das palavras de cada um, é o sentido Eclesial da Bíblia.

3. Oração

O que o texto me faz dizer, nos faz dizer a Deus? Guigo descreve a importância da oração: ”vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura do conhecimento e da experiência, e que, “quando mais se aproxima do fundo do coração” (Sl 63,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 63,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: “Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te ao menos um pouco”.

A oração, provocada pela meditação, inicia-se por uma atitude de admiração silenciosa e de adoração ao Senhor. A partir daí brota a nossa resposta à Palavra de Deus. Fala agora a Deus, responde-lhe, responde aos convites, aos apelos, às inspirações, aos pedidos, às mensagens que te dirigiu através da Palavra compreendida no Espírito Santo. Não vês que foste escolhido no seio da Trindade, no inefável colóquio entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Não te detenhais mais a refletir demasiado; entra em diálogo e fala como um amigo fala a seu amigo (Dt 34,10). Não procureis mais confirmar teus pensamentos com os seus, mas busca a Ele. 

A meditação tinha por fim a oração. É agora o momento. Enzo Bianchi recomenda: Nada de tagarelice, fala-lhe com segurança, com confiança e sem medo, longe de todo olhar sobre ti mesmo, mas encantado com seu rosto que emergiu do texto no Cristo Senhor. Dá livre curso a tuas capacidades criativas de sensibilidade, de emoção, evocação, e coloca-se a serviço do Senhor. Não posso dar-te muitas indicações porque cada qual sabe reconhecer o encontro com seu Deus, mas não pode ensiná-lo aos outros, nem descrevê-lo em si mesmo. Que se pode dizer do fogo, quando este está dentro dele? Que se pode dizer da oração-contemplação no fim da Lectio Divina, a não ser que é a sarça ardente na qual o fogo queima? 

É importante que esta oração espontânea não seja só individual, mas também tenha sua expressão comunitária em forma de partilha. Na oração reflete-se ainda o itinerário pessoal de cada um no seu caminhar em direção a Deus e no seu esforço de se esvaziar-se de si para dar lugar a Deus, ao irmão, à comunidade. É aqui que se situam as noites escuras com suas crises e dificuldades, com seus desertos e tentações, rezadas, meditadas e enfrentadas à luz da Palavra de Deus (Mt 4,1-11).

4. Contemplação

Cada vez, porém, que se chega ao último degrau, este se torna patamar para um novo começo. Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, faz-lhe esquecer tudo que é terretre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e, embriagando-se, torna-a sóbria.

São Paulo, na carta aos Romanos, depois de falar da História da Salvação, do chamado dos pagãos, que erámos nós, e da salvação final dos judeus, exclama: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetravéis seus caminhos! Quem conhece o pensamento do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro?”. É um grito de admiração. De louvor, de adoração, de contemplação. 

Contemplação é também a capacidade de perceber a presença de Deus em tudo, nos acontecimentos, na história, nos outros. Esta presença unifica os casos da vida. Guigo diz: “A leitura busca a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede e a contemplação a saboreia. A leitura leva comida sólida à boca, a meditação a mastiga e rumina, a oração prova o seu gosto e a contemplação é o gosto da doçura já alcançada”. O que mais chama a atenção nos escritos de Guigo é a insistência em descrever a contemplação como uma saborosa curtição da doçura que relativiza tudo e, como que por um instante, antecipa algo da alegria que “Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

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