26 de jun de 2016

O argumento teológico de Henrique VIII

Nestes tempos de rompimento da Inglaterra com a Europa, vamos rever um rompimento realmente histórico que ocorreu a quase 500 anos: o Rei Henrique VIII brigou com o Papa e criou a Igreja da Inglaterra, separando-a da Igreja Católica. 

Todos aprendemos, meio por alto, que o Rei gostaria de casar novamente por que a primeira esposa não conseguia ter filhos. Mas como o Igreja Católica nunca aprovou o divórcio e o Rei tinha pessoas inteligentes para auxiliá-lo, o pedido para o Papa tinha que ser algo mais aceitável. De fato, o Rei nunca pediu para o Papa aprovar o divórcio, isto seria negado rapidamente, sem muitas discussões. Na verdade foi pedido que a Igreja reconhecesse que o casamento seria nulo por que transgrediria a lei divina.

Rei Henrique VIII quando assumiu
o trono aos 18 anos (1509).
Antes de entrar no cerne do argumento, um pouco mais de história para entender o contexto. O jovem Henrique não era o sucessor natural de seu pai, Henrique VII, pois tinha um irmão mais velho, Artur. Como era típico nas famílias reais, seus pais começaram a negociar o casamento do futuro rei quando ele ainda era criança, afinal sua esposa seria a futura Rainha da Inglaterra. Artur foi prometido para Catarina de Aragão, filha dos reis espanhois Fernando e Isabela em 1488, quando Artur tinha dois anos e Catarina apenas três anos! O casamento ocorreu em Londres quando ambos atingiram os 15 anos. 

Os problemas começaram meses depois quando Artur adoeceu e morreu, deixando Catarina viúva aos 16 anos. Henrique, aos 12 anos, tornou-se o príncipe sucessor e não havia planos ainda para seu casamento. Para manter a aliança com a Espanha estável, a solução foi fácil pois Catarina já estava ali a disposição. 

Mas havia um impedimento no direito canônico da época: casar a viúva do irmão não era permitido, exceto se a Igreja concedesse uma permissão especial. Feito o pedido e as devidas tratativas políticas, o Papa Julio II permitiu a realização do casamento. Do ponto de vista canônico, estava tudo perfeito.

Infelizmente Catarina não conseguiu ter filhos saudáveis e o Rei estava sem um sucessor; foram 5 bebês que morreram durante ou logo após o parto, apenas Maria sobreviveu. Conforme Catarina envelhecia, Henrique ficava mais e mais ansioso com a situação, até que decidiu casar novamente. É neste momento que importa apresentar um argument  teológico aceitável, não apenas um "eu quero por que quero por que souno o Rei da Inglaterra". Isto não impressionaria o Papa. 

Henrique pediu a anulação do casamento, não o divórcio, alegando um erro do Papa Júlio II, pois ao permitir seu casamento com Catarina, teria se colocado contra a lei divina, baseando-se em Levítico 20, 21: 

Se um homem tomar a mulher de seu irmão, será uma impureza; ofenderá a honra de seu irmão: não terão filhos. 
Rainha Catarina de Aragão, a primeira
esposa legítima de Henrique VIII.

Veja que os fatos estão favoráveis ao Rei, de fato o casal não teve filhos saudáveis. Assim como o Rei Davi, Henrique estaria sendo punido com a morte dos seus, por que o casamento jamais deveria ter sido autorizado pela Igreja. Por óbvio, se a Igreja reconhecesse o erro, o casamento perderia sua validade e o Rei Henrique poderia escolher uma nova esposa, conforme sua conveniência. 

A questão fundamental do julgamento passou a ser: a proibição de casamento com a viúva do irmão é uma lei divina ou criado pelos homens? Se fosse uma lei divina, o Papa teria ultrapassado seus limites, estabelecendo-se acima de Deus. Se fosse uam lei de conveniência humana, o Papa teria agindo dentro dos seus limites e o casamento continuaria válido. 

Apesar da citação do Levítico, outro versículo de Deuteronômio (25, 5) diz exatamente o contrário: Se um irmão morrer sem deixar filhos, a viúva não se casará com um estranho, seu cunhado a desposará.

Após algum tempo, o Papa Clemente VII respondeu a Henrique VIII que o casamento havia sido válido. O Rei declarou-se acima do Papa em assuntos da Igreja na Inglaterra e terminou por casar-se com Ana Bolena em uma cerimônia realizada secretamente. Catarina foi exilada e morreu em 1539, sua filha Maria casou-se com o Príncipe Felipe da Espanha em 1553 e tornou-se rainha da Inglaterra em 1556.

Quanto ao Direito Canônico (canons 1089-1092), o impedimento de casar a viúva do irmão foi retirado em 1983 pelo Santo Papa João Paulo II. Porém continua proibido o casamento entre pais, filhos e irmãos; sogros, genros e noras; além de outros casos que incluem ações criminais, como assassinar ou sequestrar o atual cônjuge.

-- autoria propria

18 de jun de 2016

Não apenas com palavras, mas ainda com atos se deve orar

Não é de admirar, irmãos caríssimos, que a oração, tal como Deus a ensinou, enfeixe, por seu ensinamento, toda a nossa prece numa breve palavra de salvação. Já pelo profeta Isaías isto tinha sido predito, quando, cheio do Espírito Santo, falava da majestade e bondade de Deus: Verbo que completa e abrevia na justiça, porque Deus fará uma palavra abreviada em todo o orbe da terra. Pois a palavra de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, veio para todos e, reunindo doutos e ignorantes, sexos e idades, lhes deu preceitos salutares, resumindo de tal maneira seus mandamentos, que a memória dos discípulos não sentisse dificuldade com o ensinamento celeste, mas rapidamente aprendesse o que era necessário à simples fé.

            Do mesmo modo, ao ensinar-nos o que seja a vida eterna, condensou o mistério da vida com grande e divina brevidade, dizendo: Esta é a vida eterna, que te conheçam a ti, único e verdadeiro Deus, e a quem enviaste, Jesus Cristo. E ainda, querendo salientar os primeiros e maiores preceitos da lei e dos profetas, diz: Ouve, Israel. O Senhor, teu Deus, é um só Senhor; e Amarás o Senhor, teu Deus, com todo o teu coração, com toda a tua alma e com todas as tuas forças. Este é o primeiro; e o segundo é semelhante a este: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas. E de novo: Tudo quanto quiserdes que vos façam os homens, fazei-o a eles. Isto é a lei e os profetas.

            Deus não nos ensinou a orar apenas com palavras, mas também com atos. Ele próprio com frequência orou e suplicou, mostrando-nos com seu exemplo o que temos de fazer. Está escrito: Ele se afastava para os lugares solitários e adorava. E ainda: Saiu para o monte a fim de orar e passou a noite inteira em oração a Deus.

            O Senhor orava e pedia não para si – que pediria, o inocente, para si? – mas por nossos delitos, como ele mesmo o declarou ao dizer a Pedro: Eis que Satanás procurava joeirar-vos como trigo. Mas eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça. E pouco depois rogou ao Pai por todos, dizendo: Não rogo apenas por estes, mas também por aqueles que irão crer em mim pelas palavras deles, a fim de que todos sejam um, como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós.

            Imensa benignidade e piedade de Deus para nossa salvação! Não contente de redimir-nos com seu sangue, ainda quis com tanta generosidade rogar por nós. Considerai o desejo daquele que rogou, para que do mesmo modo como o Pai e o Filho são um, assim também nós permaneçamos na mesma unidade.

-- Do Tratado sobre a Oração do Senhor, de São Cipriano, bispo e mártir (século III)

11 de jun de 2016

Santa Luísa de Marillac, uma santa dedicada à caridade

Luísa de Marillac nasceu em 12 de Agosto de 1591, concebida fora de um casamento, jamais conheceu sua mãe, mas adotada por Luis de marillac, na época já viúvo. Seu pai e vários tios trabalhavam na corte, convivendo com a aristocracia da época. Apesar dos bens materiais, Luísa nunca teve uma família estável, quando seu pai casou-se pela segunda vez, foi viver com sua tia, uma irmã dominicana, em um monastério, por exigência da nova esposa.

Quando tinha 15 anos sentiu-se chamada a vida reclusa e pediu ingresso às irmãs capuchinhas, mas foi recusada. O diretor espiritual escreveu que Deus tinha outros planos para ela. A moça ficou devastada com a resposta e somente quando já tinha 22 anos aceitou casar-se com Antoine Le Gras, secretário da Rainha.

O casal teve um filho em 1513, chamado Michel, e Luísa passou a cuidar da casa. Na sua Paróquia, participava de um grupo chamado Irmãs da Caridade, formado por mulheres ricas que auxiliavam os pobres.

A vida tranquila começou a mudar quando os tios foram presos após mudanças no governo e morreram. Em torno de 1521 seu marido Antoine contraiu uma doença crônica que acabou por mantê-lo na cama. Luísa teve que cuidar do marido, filho e negócios da casa. Deprimida, buscou ajuda na oração. No dia de Pentecostes em 1523, enquanto estava rezando na Igreja, teve uma visão que lhe pediu para cuidar do marido até a morte dele; e afirmou que ainda entraria em uma comunidade de irmãs sob orientação de um novo diretor espiritual. Aos seus cuidados, o marido ainda resistiu por três anos. 

Quando se tornou viúva, escreveu a "Regra para uma Vida no Mundo" onde organizava o dia entre momentos de oração, afazeres domésticos, atender à Missa e receber convidados na sua casa. Quando encontrou-se com São Vicente de Paulo, reconheceu-o da visão que tivera em Pentecostes. Pediu para ser seu diretor espiritual, mas ele estava muito ocupado com todas suas obras de caridade.  

Em 1632, Luísa fez um retiro, onde sentiu-se chamada a intensificar sua vida religiosa. Mais ou menos na mesma época, São Vicente percebeu que era necessário organizar melhor suas obras. Embora muitas senhoras ricas ajudassem com dinheiro, elas não tinham temperamento para realmente envolver-se com os pobres. O contraste, até visual, entre as vestes luxuosas das damas e as roupas esfarrapadas dos pobres já criava uma dificuldade intransponível para a época.

Luísa passou a participar uma paróquia da classe trabalhadora, onde organizou as Filhas da Caridade. Ali conheceu algumas jovens que haviam vindo da área rural e queriam  ajudar os pobres. Com a concordância de São Vicente de Paulo, levou-as para sua casa e passou a dar uma formação de acordo com suas regras, que combinavam tempo de trabalho ativo e momentos de oração. A partir daí nasceu uma congregação totalmente inovadora para a época, voltada ao serviço, composta por irmãs não-enclausuradas, livres para ajudar onde necessário. Nas palavras de São Vicente, deveriam ter “por mosteiro a casa do doente, por cela um quarto de aluguel, por claustro as ruas da cidade, ou as salas dos hospitais".

Na prática, faziam um acordo com um hospital, asilo, sanatório ou escola já existente para irem trabalhar ali, enquanto fossem úteis, sob comando dos médicos ou diretores. Os talentos de organização de Luísa auxiliaram muitíssimo a ordem, e logo as irmãs se tornaram populares em toda França. O amor à obra ajudou também a cuidar da formação espiritual das irmãs, por quem tinha grande amor.

Santa Luísa de Marillac liderou a Ordem até sua morte em 15 de março de 1660, seis meses após a de São Vicente de Paulo. Foi beatificada pelo Papa Bento XV, em 1920, e canonizada pelo Papa Pio XI em 11 de Março de 1934. Seus restos mortais encontram-se na sede original da Ordem, na Rua du Bac 140, Paris. Foi declarada patrona do trabalhadores sociais pelo Papa João XXII em 1960.

-- autoria própria

6 de jun de 2016

Não seja eu cristão de nome, mas, de fato

Em frente ao imperador e toda multidão reunida para assitir seu martírio, Santo
Inácio de Antioquia proclamou: Hoje me torno o puro pão de Cristo. 
A ninguém jamais seduzistes, mas ensinastes a outros. Quanto a mim também quero que continue firme o que ensinais e prescreveis. Pedi apenas para mim as forças interiores e exteriores, a fim de que não só fale, mas o queira; para que não só seja chamado de cristão, mas reconhecido como tal. Se me reconhecerem, então serei chamado cristão e minha fé será manifesta, quando não mais aparecer aos olhos do mundo. Nada do que é aparente é bom. Pois o nosso Deus, Jesus Cristo, ele mesmo, de novo vivo no Pai, agora se manifesta sempre mais. O cristianismo não é resultado de persuasão, mas de grandeza, quando é objeto de ódio para o mundo.

            Tenho escrito a todas as Igrejas e a todas elas faço saber que com alegria morro por Deus, contanto que vós não mo impeçais. Suplico-vos: não demonstreis por mim uma benevolência intempestiva. Deixai-me ser alimento das feras, porque, através delas, pode-se alcançar a Deus. Sou trigo de Deus: que seja eu triturado pelos dentes das feras para tornar-me puro pão de Cristo!

            Instigai, ao contrário, os animais para que neles encontre o meu sepulcro e nada reste de meu corpo para não ser pesado a ninguém, depois de adormecer. Então serei verdadeiro discípulo de Cristo, quando o mundo não mais vir sequer o meu corpo. Suplicai a Deus por mim,que por este meio me torne uma hóstia para Deus. Não vos dou ordens como Pedro e Paulo. Eles são apóstolos, eu, um condenado; eles, livres, eu, escravo até agora. Mas se eu sofrer, serei um liberto de Jesus Cristo e nele ressurgirei livre. Agora algemado, aprendo a nada cobiçar. Desde a Síria até Roma venho lutando, com as feras, de dia e de noite, por terra e mar, amarado a dez leopardos, isto é, ao grupo de soldados. Eles, ao receberem benefício tornam-se ainda piores. Aprendo mais com suas injúrias, mas só por isso não sou justificado.

            Quem me dera alegrar-me com as feras preparadas para mim! Desejo-as bem velozes. Afagá-las-ei para que me devorem depressa. Não aconteça comigo como a alguns nos quais nem sequer, medrosas, tocaram. Se elas resistirem e não quiserem, eu as obrigarei à força. Perdoai-me! Eu sei o que me convém. Agora começo a ser discípulo. Que nada, tanto das coisas visíveis quanto das invisíveis, segure o meu espírito, a fim de que eu possa alcançar a Jesus Cristo. Que o fogo, a cruz, um bando de feras, os dilaceramentos, os cortes, a deslocação dos ossos, o esquartejamento, as feridas pelo corpo todo, os duros tormentos do diabo venham sobre mim para que eu ganhe unicamente a Jesus Cristo!

-- Da Carta aos Romanos, de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir (século I)

4 de jun de 2016

Ícone da Santíssima Trindade - o significado de suas cores e formas

Um ícone tem uma série de referênciais visuais com profundo significado teólogico. As formas e cores não são escolhidas ao acaso, mas resultado de oração e reflexão. No ícone do Espírito Santo há algumas formas geométricas importantes:

  • retângulo: na concepção da época, a terra era plana, um grande retângulo. A mesa é um retângulo e sobre ela repousa o cálice da salvação, portanto esta não é apenas uma mesa comum, é um altar cuja forma representa a Terra. Colocado no centro da Terra está Jesus Cristo, salvação do mundo.
  • triângulo: unindo os extremos da mesa ao ponto acima do anjo central há um triângulo de lados iguais, chamado triângulo equilátero. Este é perfeitamente equilibrado, como os lados e ângulos são iguais, não há distinção entre eles. Este triângulo representa perfeita união da Santíssima Trindade, pois onde está presente o Pai, também estão o Filho e o Espírito Santo.
  • círculo: acompanhando os braços dos anjos laterais, é possível completar um círculo, uma figura geométrica que não tem um ponto de ínicio, nem final. Ele representa o infinito, Deus que existe desde o princípio, agora e sempre, pelos séculos dos séculos.
  • cruz: no centro do ícone está uma das barras, unindo a cabeça dos anjos, a outra barra. Nesta cruz, está o cálice, o sacrifício de Cristo; para ela convergem os olhares e os gestos dos anjos.

Assim como a forma, as cores também de um significado especial. Antes de tudo, não há sombras, não há tons escuros. O quadro parece iluminado pelo Sol, que representa o poder de Deus. A mesa/terra branca é purificada pela salvação/cálice que está no centro. As auréolas são de ouro, é a riqueza da santidade, o destaque merecido aos anjos de Deus, a Santíssima Trindade. Os três anjos vestem um azul celestial, que evoca os céus, onde habita Deus. Além do azul, cada anjo tem sua cor, que o diferencia. Assim, pelo azul todos participam da mesma unidade, mas também se distinguem de maneira harmônica. 

O ícone é uma visão escatológica, é uma antecipação do Reino de Deus. Está banhado em luz, mas a Santíssima Trindade está ao redor da mesa, da Terra, protegedo-a e sacrificando-se pela sua salvação. A terra não está queimada, está branca e purificada. 

* Já havia publicado dois outros posts sobre o mesmo ícone: breve explicação da Santíssima Trindade, e o significado dos anjos

-- adaptado do original em espanhol


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