28 de fev de 2014

Missas Ad Orientem e Versus Populorum


As expressões "Ad Orientem" e "Versus Populorum" dizem respeito à maneira que o padre posiciona-se durante a missa. "Versus Populorum" é a mais conhecida e utilizada atualmente: a mesa do altar está num local que permite o padre se colocar  de frente para o povo. De acordo com o Missal Romano é a forma preferencial; ao construir uma igreja ou reformar uma antiga, a mesa do altar deve ser posicionada de maneira a permitir a celebração "Versus Populorum".


"Ad Orientem" é a posição em que o padre celebra de frente para o sacrário, que está na parede de fundo da igreja, em consequência o padre fica de costas para o povo. Pela tradição, as igrejas eram construídas no sentido leste-oeste, voltadas para Jerusalém, que em várias passagens bíblicas refere-se ao céus, onde se encontra Jesus Cristo sentado à direita de Deus Pai. É claro que nem sempre é possível construir igrejas seguindo este alinhamento, mas a idéia de voltar-se para os céus, todos participantes da celebração, presbíteros e fiéis prevalece.


Papa Francisco celebrando Eucarístia na Capela Sistina
"Ad Orientem" é utilizada nas tradicionais missas em latim e por algumas outras igrejas cristãs, como a Luterana e Metodista. Mas o caso é que em alguns locais é a única forma possível, mesmo utilizando o Ritual Romano atual. Por exemplo, a Capela Sistina no Vaticano, é óbvio que ninguém vai propor uma reforma para adaptá-la para permitir missas utilizando "Versus Populorum". Assim, é público que o Papa Francisco já celebrou duas missas "Ad Orientem", uma em 1o de Novembro de 2013 em frente a tumba de Jão Paulo II, outra na Festa do Batismo de Jesus, na Capela Sistina. Vejam na foto que o altar é junto a parede do fundo e outro arranjo não é possível. E provavelmente outras missas papais ocorrerão ao longo do tempo, mas comparando com o número de celebrações "Versus Populorum" vemos claramente a preferência expressa pela Igreja.


26 de fev de 2014

Santo Alexandre de Alexandria, 26 de Fevereiro

Alexandre foi o 19o. Patriarca de Alexandria. Durante seu governo teve que lidar com algumas controvérsias, em especial sobre a data da Páscoa e a natureza divina de Jesus Cristo. A solução destes problemas é absolutamente central para a Igreja e ainda praticada na forma do Credo Niceno-Constantinopolitano (aquele Creio mais longo) e, obviamente, no calendário litúrgico.

Pouco é conhecido sobre os anos iniciais de presbiterato, exceto que teve que enfrentar as perseguições dos imperadores Galério e Maximiano Daia. Assumiu o patriarcado sucedendo Áquila, em um período que a Igreja já contava com a proteção do Imperador Constantitno, ainda vivo e atuante.

O mais importante problema que enfrentou foi o Arianismo, heresia liderada por Ário, que era padre na igreja mais antiga de Alexandria e também candidato ao cargo de Patriarca. A questão surgiu quando Alexandre declarou a unidade da Santíssima Trindade durante um sermão. Ário contra-argumentou que o Filho de Deus era subordinado a Deus Pai, sendo de uma natureza diferente. O Filho não teria existido desde sempre, mas teria sido criado pelo Pai.

Inicialmente Alexandre convocou duas assembléias de presbíteros de sua região para decidir sobre a controvérsia, mas não puderam chegar a uma conclusão. Ário teve sucesso em convencer dois bispos, de Mareotis e Libia, de suas idéias, além de ordenar novos presbíteros, tornando as chances de um cisma formal bastante reais.

Em 321 Alexandre organizou um Concílio Geral do Patriarcado, no qual ambos puderam defender suas idéias na presença de uma centena de padres e bispos. Este Concílio condenou as idéias de Ário, que preferiu fugir para a Palestina, onde convenceu mais bispos, em especial, Eusébio de Nicomédia, que convocou um Concílio com bispos da Igreja na Síria favoráveis a Ário. 

Finalmente em 325 foi realizado o Concílio Ecumênico de Nicéia, contando com a presença de 318 bispos representando toda Igreja. Cada bispo pode trazer dois padres e três diáconos, totalizando cerca de 1800 pessoas. Foi o primeiro Concílio a ser organizado em que livremente todos puderam comparecer pois as perseguições à Igreja haviam terminado poucos anos antes, em 313. Por larga maioria, cerca de 250 bispos, o Concílio concordou com Alexandre e declarou Cristo consubstancial ao Pai, isto é, tem a mesma substância, e existente desde o princípio dos tempos. O Credo Niceno foi composto como forma resumida de afirmar esta crença. 

O Arianismo foi refutado novamente no Concílio de Constantinopla em 381. Com o tempo desapareceu da Igreja, tendo, de certa forma, ressurgido apenas na Reforma Protestante quando algumas Igrejas optaram por posições não-trinitárias. A mais proeminente, hoje em dia, é a Igreja dos Santos dos Últimos Dias (conhecidos como mórmons). 

Quanto a questão da data da Páscoa, o Concílio decidiu por não seguir estritamente o calendário judaico, preferindo calcular a data de forma que a Páscoa seja celebrada sempre após o equinócio da Primavera. Alguns ajustes foram feitos ao longo do tempo, mas a Páscoa ainda ocorre após o equinócio. 

Alexandre morreu entre 326 e 328, em data incerta, sendo venerado pelas Igrejas Cópta, Católica e Ortodoxa. Pouquíssimos escritos foram preservados, embora sabe-se ter escrito várias cartas e exortações a cerca da Santíssima Trindade. Santo Alexandre de Alexandria é celebrado em 26 de Fevereiro. 

-- Autoria própria

25 de fev de 2014

Salmo 148: Glorificação de Deus Senhor e Criador

O Salmo 148 que agora elevámos a Deus constitui um verdadeiro "cântico das criaturas", uma espécie de Te Deum do Antigo Testamento, um aleluia cósmico que envolve tudo e todos no louvor divino. Assim comenta um exegeta contemporâneo:  "O salmista, chamando-os pelo nome, ordena os seres:  em cima o céu, dois astros segundo os tempos, e, separadas, as estrelas; de um lado as árvores de fruto, do outro os cedros; num plano os répteis, e noutro as aves; aqui os príncipes e além os povos; em duas filas, talvez dando as mãos, jovens e moças... Deus estabeleceu-os atribuindo-lhes um lugar e uma função; o homem acolhe-os, dando-lhes lugar na linguagem, e assim dispostos os conduz à celebração litúrgica. O homem é "pastor do ser" ou liturgo da criação" (L. Alonso Schökel, Trinta Salmos:  poesia e oração, Bolonha 1982, pág. 499).

Sigamos também nós este coro universal, que ressoa no firmamento do céu e que tem como templo todo o cosmos. Deixemo-nos conquistar pelo alcance do louvor que todas as criaturas elevam ao seu Criador.

No céu encontramos os cantores do universo estrelar:  os astros mais distantes, as esteiras dos anjos, o sol e a lua, as estrelas reluzentes, os "céus dos céus" (cf. v. 4), isto é, o espaço estrelar, as águas superiores que o homem da Bíblia pensa que estão conservadas em depósitos antes de caírem como chuva sobre a terra.
O aleluia, ou seja, o convite a "louvar o Senhor", ressoa pelo menos oito vezes e tem como meta final a ordem e a harmonia dos seres celestes:  "estabeleceu-lhes leis a que não faltam" (v. 6).

O olhar dirige-se depois para o horizonte terrestre onde se segue uma procissão de cantores, pelo menos vinte e dois, isto é, uma espécie de alfabeto de louvor, espalhado no nosso planeta. Eis os monstros marinhos e os abismos, símbolos do caos aquático sobre o qual a terra está fundada (cf.Sl 23, 2), segundo a concepção cosmológica dos antigos semitas.

O Padre da Igreja, São Basílio, observa:  "Nem sequer o abismo foi considerado desprezível pelo salmista, que o acolheu no coro geral da criação, aliás, com uma linguagem própria, também ele completa harmoniosamente o hino ao Criador".

A procissão continua com as criaturas  da  atmosfera:   o  fogo  dos  relâmpagos, o granizo, a neve, o nevoeiro e o vento da tempestade, considerado um veloz mensageiro de Deus (cf. Sl 148, 8). Entram depois em cena os montes e as colinas, consideradas popularmente as criaturas mais antigas da terra (cf. v. 9a). O reino vegetal está representado pelas árvores de fruto e pelos cedros (cf. v. 9b). Ao contrário, o mundo animal está presente através das feras, dos animais, dos répteis e das aves (cf. v. 10). E por fim, eis o homem que preside à liturgia da criação. Ele é definido de acordo com todas as idades e distinções:  crianças, jovens e idosos, príncipes, reis e nações (cf. vv. 11-12).

Confiemos agora a São João Crisóstomo a tarefa de lançar um olhar de conjunto sobre este imenso coro. Ele faz isto com palavras que reenviam também para o cântico dos três jovens na fornalha ardente, por nós meditado na última catequese.

O grande Padre da Igreja e patriarca de Constantinopla afirma:  "Devido à sua grande rectidão de alma os santos, quando se preparam para dar graças a Deus, costumam chamar muitos para participar no seu louvor, exortando-os a empreender juntamente com eles esta bonita liturgia. Também os três jovens na fornalha ardente fizeram isto, quando chamaram toda a criação para louvar o benefício recebido e para cantar hinos a Deus (Dn 3).

Também este Salmo faz o mesmo, chamando as duas partes do mundo, a que está no alto e a que está em baixo, a sensível e a inteligente. Assim fez também o profeta Isaías, quando disse:  "Cantai, ó Céus, exulta de alegria ó terra... porque o Senhor consola o seu povo" (Is 49, 13). E o Saltério exprime-se de novo assim:  "Quando Israel saiu do Egipto, a casa de Jacob dum povo estranho, os montes saltaram como carneiros, as colinas como cordeiros" (Sl 113, 1.4). E em Isaías:  "As nuvens façam chover a justiça" (Is 45, 8). De fato, os santos, considerando-se eles próprios insuficientes para louvar o Senhor, dirigem-se a todas as partes envolvendo todos na hinologia comum" (Expositio in psalmum CXLVIII:  PG 55, 484-485).

Também nós somos convidados a associar-nos a este coro imenso, tornando-nos voz explícita de cada criatura e louvando a Deus nas duas dimensões fundamentais do seu mistério. Por um lado, devemos adorar a sua grandeza transcendente, "porque só o Seu nome é excelso, a sua majestade está acima do céu e da terra", como diz o nosso Salmo (v. 13). Por outro lado, reconhecemos a sua bondade condescendente, porque Deus está próximo das suas criaturas e vem, sobretudo, em ajuda do seu povo:  "Ele enalteceu o poder do seu povo... povo da sua amizade" (v. 14), como ainda afirma o Salmista.

Face ao Criador onipotente e misericordioso aceitemos, então, o convite de Santo Agostinho para o louvar, exaltar e celebrar através das suas obras:  "Quando observas estas criaturas e por isso te regozijas e te elevas até ao Artífice de tudo e, através do intelecto, contemplas os atributos invisíveis das coisas criadas, então eleva-se a sua confissão sobre a terra e no céu... Se as criaturas são belas, quanto mais não o será o Criador?" (Exposições sobre os Salmos, IV, Roma 1977, págs. 887-889).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 17 de Julho de 2002

21 de fev de 2014

Uma breve história do casamento cristão - parte final

No século XVI vários grupos que aderiram à Reforma Protestante negaram em diferentes graus a natureza sacramental de vários sacramentos, inclusive do casamento. Em resposta, o Concílio de Trento confirmou a lista de sete sacramentos, reafirmando o casamento. O documento da 24a. sessão dedica-se ao matrimônio e inicia citando as Escrituras, lembrando passagens como "quando um homem e mulher unem-se, devem abandonar a casa dos seus pais e viver conjuntamente" e "agora são uma só carne"; também que Deus explicou à Adão, "o que o Deus uniu, homem nenhum pode separar"

Nas clausulas canônicas, negar o matrimônio como sacramento, autorizar um homem a ter várias mulheres, que casar com parentes consangüinos, entre outros motivos, é explicitamente citado como anátema, possível motivo para excomunhão. Além disso, clérigos e monjes continuam proibidos de contrair matrimônio e a virgindade é considerada em igual condição às pessoas casadas.

Casamentos clandestinos continuaram proibidos, mas caso tenham ocorrido na presença de um padre, são válidos. Preferencialmente, a cerimônia deve ocorrer na paróquia de um dos noivos e casamentos de pessoas sem endereço conhecido deveria ser realizado com cautela. Por fim, estabeleceu que casamentos podem ser realizados em qualquer tempo exceto Quaresma, Oitava de Páscoa e Advento. Além disso, as paróquias deveriam registrar os casamentos de forma escrita para resolver eventuais dúvidas.

A questão dos casamentos mistos, com pessoas não católicas, tornou-se importante na Europa. Inicialmente eles foram proibidos pelo Concílio, mas apenas em países que publicassem o decreto chamado Tametsi. Casamentos celebrados por um pastor tornavam-se inválidos, por que atendiam às normas canônicas, isto é, ser celebrado por um padre e em frente a duas testemunhas. Mas, na prática, implantar o decreto em toda potencialidade não foi possível, em especial nos países em que outras igrejas predominavam. Progressivamente os papas decretaram dispensas e regras especiais para estas áreas, iniciando por Holanda e Bélgica em 1741, depois Irlanda, Alemanha e Austria. Isto funcionou até que o código canônico fosse atualizado, incluindo a necessidade de solicitar ao bispo local autorização para casar com pessoas de outra fé. 

Na forma atual, um casamento é definido como  a união de um homem e mulher que livremente expressam seu consentimento não estando sobre nenhuma coerção legal ou de qualquer outra natureza e não estando impedidos por nenhuma lei eclesial. O consentimento é um ato humano e livre, em que os noivos declaram escolher o conjuge como esposo/esposa de maneira indissolúvel. Não há nenhuma possibilidade de substituir os noivos neste ato. Eventualmente a Igreja pode examinar os fatos e decidir que o casamento nunca existiu. Unidade, indissolubilidade e abertura à vida são essenciais ao casamento, divórcios não são autorizados e a família é o lugar ideal onde as crianças devem receber os primeiros ensinamentos e exemplos de fé.



20 de fev de 2014

Carta de Guigo I - A um amigo sobre a Vida Solitária

* Guigo I (1083-1106) foi um monge cartuxo e quinto prior do Monastério Grande Cartuxa, ao norte de Grenoble, França. Foi eleito ainda jovem, em 1109, aos 29 anos e governou a comunidade até a morte. Guigo I escreveu muitos textos e cartas sobre a vida monástica e oração em silêncio. Esta carta, que ele endereçou a um membro da corte, é como um resumo de suas idéias.

Ao Reverendo…, Guigo, o menor dos servos da Cruz que estão em Chartreuse:  "Viver e morrer por Cristo" ( Fl 1,21).

Um homem imagina feliz o outro. A meu ver, aquele que é verdadeiramente feliz não é o ambicioso que luta para conseguir honras altivas num palácio, mas aquele que escolhe levar uma vida simples e pobre no deserto, que gosta de aplicar-se à sabedoria e deseja com ardor permanecer sentado e solitário no silêncio (Cf. Lm 3,28).

Porque, brilhar nas honras, estar elevado em dignidade, é, a meu ver, coisa pouco tranqüila, exposta a perigos, sujeita a cuidados, suspeita para muitos, e para ninguém segura. Alegre no princípio, equívoca com a prática, é triste no seu termo. Aplaude os indignos, indigna-se contra os bons, e a maioria das vezes, zomba de uns e de outros. Fazendo muitos infelizes, não faz ninguém feliz, nem satisfeito.

Em compensação, a vida pobre e solitária, pesada no começo, fácil no seu curso, torna-se no fim celeste. Está firme nas provas, confiante nas incertezas, modesta no êxito. É frugal na alimentação, simples no vestir, reservada nas palavras, casta nos costumes, e objeto dos maiores desejos porque não deseja absolutamente nada. Sente muitas vezes o aguilhão do arrependimento pelos seus pecados passados, evita-os no presente e previne-se contra eles no futuro. Espera na misericórdia, mas não contam com os seus méritos. Aspirando vivamente aos bens celestiais, rejeita os da terra. Esforça-se por adquirir uma conduta provada, mantém-se nela com perseverança, e guarda-a para sempre. Entrega-se aos jejuns pelo hábito da Cruz, mas aceita alimentos por exigência do corpo. Dispõe uma e outra coisa com a mais perfeita medida; com efeito, domina a gula sempre que decide comer, e o orgulho, sempre que quer jejuar. Dedica-se ao estudo, mas sobretudo das Escrituras e de obras religiosas nas quais o miolo do sentido a mantém mais ocupada que a escuma das palavras. E, o que é mais surpreendente e mais admirável, permanece sem cessar no repouso, e, ao mesmo tempo, nunca está ociosa. Multiplica as suas ocupações, de modo a faltar-lhe a maioria das vezes o tempo mais que atividades diversas. E lamenta-se mais freqüentemente da falta de tempo que do aborrecimento do trabalho.

E que mais dizer? É um belo tema aconselhar o repouso, mas semelhante exortação exige um espírito senhor de si que, cuidadoso com o seu próprio bem, desdenhe intrometer-se nos assuntos públicos ou alheios; um espírito que sirva sob Cristo na paz de forma a evitar ser simultaneamente soldado de Deus e defensor do mundo, e que saiba perfeitamente que não pode gozar aqui com este século e reinar no outro com o Senhor.

Mas estas coisas e outras semelhantes são muito pouco se te lembras do que bebeu sobre o patíbulo Jesus que te convida a reinar com Ele. De bom ou mal grado, importa-te seguir o exemplo de Cristo na sua pobreza, se queres ter parte em Cristo nas suas riquezas. "Se participamos nos seus sofrimentos", diz o Apóstolo, "reinaremos também com Ele" (Rm 8,17), "Se morremos com Cristo, viveremos também com Ele" (2Tim 2, 11-12). O próprio Mediador respondeu aos dois discípulos que Lhe pediam para se sentarem um à sua direita e o outro à sua esquerda:  "Podeis beber o cálice que Eu vou beber?" (Mt. 20, 21-22). Mostrava-nos deste modo que se chega aos festins prometidos dos Patriarcas e ao néctar das taças celestes pelos cálices das amarguras terrestres.

E porque a amizade já alimenta a confiança e que tu, meu apreciado amigo em Cristo, sempre me foste caro desde o dia em que te conheci, exorto-te, animo-te e peço-te, visto que és prudente, ponderado, sábio e muito hábil, que subtraias ao mundo esse pouco da tua vida que ainda não foi consumido; não tardes em queimá-lo para Deus, como um sacrifício vespertino (Sl 140,2), depondo-o sobre o fogo da caridade (Cf. Lv 1,17), a fim de que, a exemplo de Cristo, sejas tu próprio sacerdote e também "Vitima (em sacrifício de) agradável odor para Deus"  (Ef 5,2)5 e para os homens.

Mas, a fim de compreenderes mais plenamente para onde tende o ardor de todo este discurso, indico brevemente ao teu juízo qual é o voto do meu coração e ao mesmo tempo o meu conselho: como homem de coração generoso e nobre, abraça o nosso gênero de vida, tendo em vista a tua salvação eterna, e, feito novo recruta de Cristo, vigiarás, fazendo uma guarda santa no campo da milícia celeste, depois de teres posto à cinta a tua espada (2Tm 2,11-12), por causa dos temores da noite (Ct 3,8).

Portanto, como se trata para ti duma coisa boa no seu empreendimento, fácil na sua realização e feliz no seu acabamento, peço-te que ponhas na consecução de um tão justo “negócio” tanta aplicação quanta a graça divina para tal te conceder. Onde e quando deves fazê-lo, deixo a escolha decisiva disso à tua sagacidade. Mas não creio de forma nenhuma que um prazo ou demora nisso seja algo vantajoso para ti.

Mas não me alongarei mais sobre tal assunto, receoso de que este discurso rude e deselegante te moleste como freqüentador do Palácio e da Corte. Tenha, pois, esta carta um fim e uma medida, coisa que não terá nunca o meu grande afeto por ti.

18 de fev de 2014

Da Virgindade Perpétua de Maria - parte I

* A virgindade de Nossa Senhora e os fatos que cercam o nascimento de Jesus costumam ser razão de muitas dúvidas. Neste texto, que agora publico a parte inicial, São Jerônimo refuta argumentos que ainda são repetidos. Vale a pena ler.

1. INTRODUÇÃO

CAPÍTULO I

Há algum tempo, recebi o pedido de alguns irmãos para responder a um panfleto escrito por um tal Helvídio. Demorei para fazê-lo, não porque fosse tarefa difícil defender a verdade e refutar um ignorante sem cultura, que dificilmente tomou contato com os primeiros graus do saber, mas porque fiquei preocupado em oferecer uma resposta digna, que desmoronasse os seus argumentos.

Havia ainda a preocupação de que um discípulo confuso (o único sujeito do mundo que se considera clérigo e leigo; único também, como se diz, que pensa que a eloquência consiste na tagarelice, e que falar mal de alguém torna o testemunho de boa fé) poderia passar a blasfemar ainda mais, caso lhe fosse dada outra oportunidade para discutir. Ele, então, como se estivesse sobre um pedestal, passaria a espalhar suas opiniões em todos os lugares. Também temia que, quando caísse na realidade, passasse a atacar seus adversários de forma ainda mais ofensiva.

Mas, mesmo que eu achasse justos todos esses motivos para guardar silêncio, muito mais justamente deixaram de me influenciar a partir do instante em que um escândalo foi instaurado entre os irmãos, que passaram a acreditar nesse falatório. O machado do Evangelho deve agora cortar pela raiz essa árvore estéril, e tanto ela quanto suas folhagens sem frutos devem ser atiradas no fogo, de tal maneira que Helvídio - que jamais aprendeu a falar - possa aprender, finalmente, a controlar a sua língua.

CAPÍTULO II

Invoco o Espírito Santo para que Ele possa se expressar através da minha boca e, assim, defenda a virgindade da bem-aventurada Maria. Invoco o Senhor Jesus para que proteja o santíssimo ventre no qual permaneceu por aproximadamente dez meses, sem quaisquer suspeitas de colaboração de natureza sexual. Rogo também a Deus Pai para que demonstre que a mãe de Seu Filho - que se tornou mãe antes de se casar - permaneceu Virgem ainda após o nascimento de seu Filho.

Não desejamos entrar no campo da eloquência, nem usar de armadilhas lógicas ou dos subterfúgios de Aristóteles. Usaremos as reais palavras da Escritura; [Helvídio] será refutado pelas mesmas provas que empregou contra nós, para que possa ver que lhe foi possível ler conforme está escrito, e, ainda assim, foi incapaz de perceber a conclusão de uma fé sólida.


2. JOSÉ ERA O SUPOSTO MARIDO DE MARIA, NÃO ERA MARIDO DE FATO

CAPÍTULO III

Sua primeira declaração é: "Mateus diz: 'O nascimento de Jesus Cristo foi assim: quando sua mãe Maria estava prometida a José, antes de coabitarem, encontrou-se grávida pelo Espírito Santo. E José, seu marido, sendo um homem justo e não desejando denunciá-la publicamente, pensou em repudiá-la em segredo. Mas enquanto pensava essas coisas, um anjo do Senhor lhe apareceu em sonho e disse: 'José, filho de Davi, não temas em tomar para ti Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espirito Santo'. Notem" - continua ele - "que a palavra empregada é 'prometida' e não 'confiada', como vocês dizem; é óbvio que a única razão para estar prometida é porque deveria se casar um dia. E o Evangelista não iria dizer 'antes de coabitarem' se eles não viessem a coabitar no futuro, já que ninguém usaria a frase 'antes de jantar' se certa pessoa não fosse jantar. Também o anjo a chama 'tua esposa' e se refere a ela como unida a José. A seguir, somos chamados a ouvir a declaração da Escritura: 'E José despertou do seu sono e fez como o anjo do Senhor lhe havia ordenado, tomando-a para si como esposa; e não a conheceu até que deu à luz a seu filho'".

CAPÍTULO IV

Consideremos cada um desses pontos, pois seguindo o caminho dessa impiedade mostraremos que ele [Helvídio] está se contradizendo. Admite que [Maria] estava "prometida" e que o próximo passo seria se tornar esposa daquele homem a quem estava prometida. Novamente, ele a chama de "esposa" e diz que a única razão para estar prometida seria pelo fato de casar-se um dia. E, temendo que não o compreendêssemos suficientemente bem, ainda diz: "a palavra usada é 'prometida' e não 'confiada', isto é, ela ainda não se tornara esposa, nem mesmo havia sido unida pelo contrato de casamento".

Mas quando ele continua: "o Evangelista jamais usaria tais palavras se eles não viessem a se juntar futuramente, já que não se usa a frase 'antes de jantar' se certa pessoa não for jantar", sinceramente não sei se devo lamentar ou rir. Deveria acusá-lo de ignorância ou de imprudência? Como se isto, supondo que uma pessoa dissesse: "Antes de jantar no porto, naveguei para a África", significasse que tais palavras obrigatoriamente demonstrassem que essa pessoa alguma vez já jantou no porto. Se eu preferisse dizer: "o apóstolo Paulo, antes de ir para a Espanha, foi preso em Roma", ou (como também acho provável) "Helvídio, antes de se arrepender, morreu"; acaso teria Paulo obrigatoriamente estado na Espanha [após a prisão], ou Helvídio se arrependeria após a morte, ainda que a Escritura diga: "No Sheol quem vos dará graças?"?

Não podemos entender a preposição "antes" - ainda que muitas vezes signifique ordem no tempo - como também ordem de pensamento? Portanto, não há necessidade que nossos pensamentos se concretizem, se alguma causa suficiente vier a evitá-los (sua concretização). Logo, quando o Evangelista diz "antes que coabitassem", indica apenas o tempo imediatamente precedente ao casamento, e mostra que estava em estado bem adiantado, pois ela já estava prometida, a ponto de estar próximo o momento de se tornar esposa. Conforme diz [o Evangelista], antes de se beijarem e se abraçarem, antes da consumação do casamento, ela se encontrou grávida. E ela foi determinada para pertencer a ninguém mais a não ser José, que guardou com zêlo o ventre cada vez maior de sua prometida, com olhar inquieto mas que, a esta altura, quase que com o privilégio de um marido.

Ainda que possa parecer - conforme o exemplo citado - que ele teve relações sexuais com Maria após o seu parto, o seu desejo poderia ter desaparecido pelo fato dela já ter concebido anteriormente. E, embora encontremos que foi dito a José em um sonho: "Não temas em receber Maria por tua esposa" e, de novo: "José despertou do seu sono e fez conforme o anjo lhe ordenara, tomando-a por sua esposa", não devemos nos preocupar com isto, pois ainda que seja chamada "esposa", ela somente deixou de ser prometida, pois sabemos que é usual na Escritura dar esse título para aqueles que são noivos.

A seguinte evidência, retirada do Deuteronômio, assim o indica: "Se um homem" - diz o Escritor [sagrado] - "encontra uma mulher prometida no campo e a violenta, deve ser morto porque humilhou a esposa do seu próximo"; e, em outro lugar: "Se uma virgem é prometida a um marido, e um homem a encontra na cidade e a violenta, então deveis trazê-los para fora do portão da cidade e os apedrejareis até à morte; a mulher porque não gritou, estando na cidade, e o homem porque humilhou a esposa do seu próximo. Fareis isto para eliminar o mal do meio de vós"; e também, em outra parte: "Que tipo de homem é este que possui uma esposa prometida e ainda não a recebeu? Que volte para sua casa, para que não morra na batalha, e que outro homem a despose".

Mas se alguém guarda dúvidas do porquê a Virgem concebeu após estar prometida [a José], uma vez que não estava prometida a mais ninguém, ou, para usar os termos da Escritura, estava sem marido, deixe-me explicar três razões: [1ª] Pela genealogia de José, Maria possuía parentesco com ele, e a origem de Maria também precisava ser demonstrada; [2ª] Porque ela não poderia ser enquadrada na Lei de Moisés para ser apedrejada como adúltera; [3ª] Porque em sua fuga para o Egito ela precisava de segurança, o que poderia ser obtido com a ajuda de um guardião, de preferência um marido.

Quem, naquele tempo, acreditaria na palavra da Virgem, de que teria concebido pelo poder do Espírito Santo, e que o anjo Gabriel lhe teria aparecido para anunciar o propósito de Deus? Todos não a chamariam de adúltera, como fizeram com Suzana? Ainda nos tempos presentes, quando praticamente toda a terra abraçou a Fé, não vêm os judeus afirmar que as palavras de Isaías: "Eis que a 'Virgem' conceberá e dará à luz um filho" são equívocas porque o termo hebraico almah que aparece na frase, significa mulher jovem, enquanto que o termo bethulah, que significa virgem não é usado? Tal posição, abordaremos com mais detalhes adiante.

Finalmente, com exceção de José, Isabel e da própria Maria - e talvez de mais alguns poucos que podemos supor ouviram a verdade da boca deles - todos supunham que Jesus era filho de José. E de tal modo era essa a suposição que até mesmo os Evangelistas, expressando a opinião corrente - que é a regra correta para qualquer historiador - o chamavam de pai do Salvador, como, por exemplo: "Movido pelo Espírito, ele (isto é, Simeão) veio ao Templo. Então os pais trouxeram o menino Jesus para cumprir as prescrições da Lei a seu respeito"; e, em outro lugar: "E seus pais iam todos os anos a Jerusalém por ocasião da festa da Páscoa"; e, mais adiante: "Tendo completado os dias, eles retornaram, mas o menino Jesus permaneceu em Jerusalém, e seus pais não sabiam disso".

Note-se que a própria Maria respondeu ao [anjo] Gabriel com as seguintes palavras: "Como se sucederá isso, se não conheço varão?", dizendo isto a respeito de José; e, mais: "Filho, por que fizeste isto conosco? Teu pai e eu estávamos à tua procura". Não fazemos uso aqui, como muitos fazem, do discurso dos judeus ou dos escarnecedores. Os Evangelistas chamam José de "pai" e Maria confessa que ele era pai. Não - como já disse antes - que José fosse realmente o pai do Salvador, mas, preservando a reputação de Maria, todos o viam como sendo o pai [de Jesus], pois ouvira a advertência do anjo: "José, filho de Davi, não temas em tomar para ti Maria como tua esposa, pois o que nela foi gerado provém do Espírito Santo", pois pensava em repudiá-la em segredo; tudo isto bem demonstrando que o filho não era dele.

Ao dizermos tudo isto, mais com o objetivo de oferecer uma instrução imparcial do que responder a um oponente, mostramos o porquê José era chamado de pai de Nosso Senhor e o porquê Maria era chamada de esposa de José. Isto também responde ao porquê de certas pessoas serem chamadas de "seus irmãos".

CAPÍTULO V

Entretanto, este último ponto encontrará seu lugar apropriado mais adiante.

-- São Jerônimo, presbítero, Doutor da Igreja (século IV)

17 de fev de 2014

Uma breve história do casamento cristão - parte III

Durante a Idade Média, a Igreja continuou a reconhecer o matrimônio como um sacramento, termo já utilizado por Santo Agostinho, como dito anteriormente. Apesar da separação com a Igreja Oriental, nunca houve discussões acerca deste ponto. Apenas naquela época a Igreja não considerava todos sacramentos como tendo igual importância, pois os principais eram os de formação cristã: Batismo, Eucaristia e Crisma. 

Com o desenvolvimento da teologia sacramental, o matrimônio foi incluído numa lista estrita de sete sacramentos, ainda utilizada hoje em dia. A classificação explícita veio na forma de uma condenação ao ensinamentos contrários da heresia catarista (ou neo-maniqueístas), para quem casamentos e procriação era maus pois perpetuavam o sofrimento neste mundo material. A primeira declaração oficial veio no Concílio de Verona, em 1184.  Em 1208, Papa Inocente III requereu que membros de outro grupo herético, os Waldesianos, reconhecessem o sacramento do matrimônio como uma das condições necessárias para sua reconciliação com a Igreja. O Quarto Concílio Laterano, em 1215, afirmou que não apenas virgens mas também pessoas casadas podem receber as graças de Deus pelas suas boas ações e merecerem a vida eterna. 

Além disso, estabeleceu algumas normas práticas: sacerdotes poderiam manter seu casamento mas deveriam ser santos e castos; sacerdotes não poderaim casar após a ordenação; e proibir casamentos entre parentes de segundo e terceiro graus, bem como entre meio-irmãos; proibir casamentos clandestinos, isto é, os pedidos de matrimônio deveriam ser anunciados publica e previamente; e em caso de dúvidas quanto a legalidade, não ser realizados.

Estas normas práticas procuravam resolver problemas importantes: quanto aos casamentos clandestinos, era dificil, provar a sua realização devido à ausência de testemunhas confiáveis, facilitando a bigamia para alguns espertos. Também havia o problema dos filhos já prometidos pelos pais, alguns quando ainda eram crianças, que casavam escondidos - algo no estilo Romeu e Julieta - sem o consentimento dos pais.

O Concílio de Florença (1431-1445)  reiterou: o sétimo sacramento é o matrimônio, que é um sinal da união de Cristo com a Igreja, de acordo com as palavras do apóstolo. A causa eficiente do matrimônio é o consentimento mútuo expresso em palavras utilizadas no tempo presente ("eu aceito" ou "eu caso"; não "eu casarei"). Três benefícios advém deste sacramento: o primeiro é o nascimento de crianças para prestarem culto ao Senhor; o segundo é a mútua fidelidade dos esposos; o terceiro é a indissolubilidade, sinal visível da união eterna de Cristo com a Igreja. Embora a separação seja aceitável em casos de adultério, não é aceitável contrair novo matrimônio, pois os laços contraídos são perpétuos. Em outro trecho, reitera-se que segundo, terceiro e outros tantos casamentos são aceitáveis se não houver nenhum impedimento eclesial, embora seja mais meritório permanecer na castidade, em especial numa viuvez casta.

Outra questão discutida durante este período foi a diferença entre matrimônio consentido (o "sim" na Igreja) e consumado através do primeiro ato sexual. A solução encontrada resume-se nesta frase: O matrimônio inicia com o consentimento e aperfeiçoa-se no ato sexual." e foi publicada por um decreto cerca de 1140. Na prática, o consentimento cria o vínculo, mas apenas com a consumação torna-se indissolúvel. A não-consumação é, ainda hoje, uma causa legítima de anulação. 

No próximo texto, temos o Lutero e outros protestantes que explicitamente desqualificaram o casamento como um sacramento e reaçãoo católica, cujas decisões ainda são válidas na sua maioria.

-- Autoria própria

O concílio de Nicéia não aprovou o divórcio

No Concilio de Nicéia, realizado em 325, a heresia montanista foi condenada. Uma das idéias cismáticas era a proibição do segundo casamento, como entendido na época: viúvos casando novamente. Como diz São Paulo, se uma pessoa não consegue manter-se casta, solteiro ou viúva, melhor casar-se. Interpretar a expressão "segundo casamento" como utilizada no sentido atual, ou seja, estando o primeiro esposo ou esposa vivos, divorciar-se e casar novamente com outra pessoa, é um artifício apenas para confundir os menos informados.

15 de fev de 2014

Daniel 3 - Cântico das Criaturas

No capítulo 3 do Livro de Daniel encontra-se inserida uma luminosa oração litânica, um verdadeiro e peculiar Cântico das criaturas, que a Liturgia das Laudes nos propõe várias vezes, em diversos fragmentos.

Ouvimos agora a parte fundamental, um grandioso coro cósmico, emoldurado por duas antífonas que o resumem:  "Bendito sois no firmamento dos céus, digno de louvor e glória eternos! Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor, a ele glória e louvor eterno!" (vv. 56-57).

Entre estas duas aclamações desenvolve-se um solene hino de louvor, que se exprime com o convite repetido "bendizei":  formalmente, trata-se apenas de um convite a bendizer a Deus dirigido a toda a criação; na realidade, trata-se de um cântico de agradecimento que os fiéis elevam ao Senhor por todas as maravilhas do universo. O homem faz-se voz da criação inteira para louvar e agradecer a Deus.

Este hino, cantado por três jovens hebreus que convidam todas as criaturas a louvar a Deus, nasce numa situação dramática. Os três jovens, perseguidos pelo soberano da Babilónia, encontram-se imersos na fornalha ardente devido à sua fé. E contudo, mesmo se estavam prestes a sofrer o martírio, eles não hesitam em cantar, em rejubilar, em louvar. O sofrimento áspero e violento da prova desaparece, parece que se dissolve na presença da oração e da contemplação.

É precisamente esta atitude de abandono confiante que suscita a intervenção divina.

De fato, como afirma a sugestiva narração de Daniel, "O anjo do Senhor, porém, tinha descido até Azarias e seus companheiros, na fornalha, e afastava o fogo. Mudou o lugar da fornalha em lugar onde soprava como que uma brisa matinal:  o fogo nem sequer os tocou e nem lhes causou qualquer mal nem a menor dor" (vv. 49-50). Os pesadelos desaparecem como o nevoeiro ao sol, os receios dissipam-se, o sofrimento é eliminado quando todo o ser humano se torna louvor e confiança, expectativa e esperança. Eis a força da oração quando é pura, intensa, abandono total a Deus, providencial e redentor.

O cântico dos três jovens faz desfilar diante dos nossos olhos uma espécie de procissão cósmica, que parte do céu povoado de anjos, onde também brilham o sol, a lua e as estrelas. Lá de cima Deus derrama sobre a terra o dom das águas que estão acima dos céus (cf. v. 60), isto é, as chuvas e a brisa matinal (cf. v. 64).
Contudo, eis que começam também a soprar os ventos, a explodir os relâmpagos e a irromper as estações com o calor e com o gelo, com o fervor do verão, mas também com a geada, o gelo, a neve (cf. vv. 65-70.73). O poeta insere no cântico de louvor ao Criador também o ritmo do tempo, o dia e a noite, a luz e as trevas (cf. vv. 71-72). No final o olhar poisa também sobre a terra, partindo dos cumes dos montes, realidades que parecem unir terra e céu (cf. vv. 74-75).

Eis que então se unem no louvor a Deus as criaturas vegetais que germinam na terra (cf. v. 76), as nascentes que trazem vida e frescor, os mares e os rios com as suas águas abundantes e misteriosas (cf. vv. 77-78). De facto, o cantor evoca também "os monstros marinhos" ao lado dos peixes (cf. v. 79), como sinal do caos aquático primordial ao qual Deus impôs regras para serem observadas (cf. Sl 3-4; Job 38, 8-11; 40, 15; 41, 26).

Depois  é  a  vez  do  grande  e  variado  reino  animal,  que  vive  e  se  move nas águas, na terra e nos céus (cf. Dn 3, 80-81).

O último ator da criação que entra na cena é o homem. Primeiro, o olhar alarga-se a todos os "filhos do homem" (cf. v. 82); depois, a atenção concentra-se em Israel, o povo de Deus (cf. v. 83); a seguir, é a vez de quantos se consagraram totalmente a Deus não só como sacerdotes (cf. v. 84), mas também como testemunhas de fé, de justiça e de verdade. São os "servos do Senhor", os "espíritos e as almas dos justos", os "mansos e humildes de coração" e, entre eles, sobressaem os três jovens, Ananias, Azarias e Misael, que deram voz a todas as criaturas num louvor universal e perene (cf. vv. 85-88).

Ressoaram constantemente os três verbos da glorificação divina, como numa ladainha:  "bendizei, louvai, exaltai" o Senhor. Esta é a alma autêntica da oração e do cântico:  celebrar o Senhor sem parar, na alegria de pertencer a um coro que engloba todas as criaturas.

Gostaríamos de concluir a nossa meditação dando voz aos Padres da Igreja,  como  Orígenes,  Hipólito,  Basílio de Cesareia e Ambrósio de Milão, que comentaram a narração dos seis dias da criação (cf. Gn 1, 1-2, 4a) precisamente em conexão com o Cântico dos três jovens.

Limitamo-nos a citar o comentário de Santo Ambrósio, o qual, ao referir-se ao quarto dia da criação (cf. Gn 1, 14-19), imagina que a terra fala e, ao falar sobre o sol, encontra todas as criaturas unidas no louvor a Deus:  "Bom é deveras o sol, porque serve, ajuda a minha fecundidade, alimenta os meus frutos. Ele foi-me dado para o meu bem, está submetido comigo às canseiras. Geme comigo, para que chegue a adopção dos filhos e a redenção do género humano, para que possamos ser, também nós, libertados da escravidão. Ao meu lado, juntamente comigo louva o Criador, juntamente comigo eleva um hino ao Senhor nosso Deus. Onde o sol bendiz, ali bendiz a terra, bendizem as árvores de fruto, bendizem os animais, bendizem comigo as aves".

Ninguém é excluído da bênção do Senhor, nem sequer os monstros do mar (cf. Dn 3, 79). Com efeito, Santo Ambrósio prossegue:  "Até as serpentes louvam o Senhor, porque a sua natureza e o seu aspecto revelam aos nossos olhos alguma beleza e mostram ter a sua justificação".

Com mais razão nós, seres humanos, devemos acrescentar a este concerto de louvor a nossa voz feliz e confiante, acompanhada por uma vida coerente e fiel.

-- Papa João Paulo II, 10 de Julho de 2002

14 de fev de 2014

Fazei crescer a vossa Igreja e a todos reuni na unidade

São Cirilo monge, e São Metódio Bispo
14 de fevereiro
Constantino Cirilo, fatigado por muitos trabalhos, caiu doente; e quando já havia muitos dias que suportava a enfermidade, teve uma visão de Deus e começou a cantar: “O meu espírito alegrou-se e o meu coração exultou, quando me disseram: Vamos para a casa do Senhor”.

Depois de ter revestido as vestes de cerimônia, assim permaneceu todo aquele dia, cheio de alegria e dizendo: “A partir de agora, já não sou servo nem do imperador nem de homem algum na terra, mas unicamente do Deus todo-poderoso. Eu não existia, mas agora existo e existirei para sempre. Amém”. No dia seguinte, vestiu o santo hábito monástico e, acrescentando luz à luz, impôs-se o nome de Cirilo. E assim permaneceu durante cinquenta dias.

Chegada a hora de encontrar repouso e de emigrar para as moradas eternas, erguendo as mãos para Deus, orava com lágrimas: “Senhor meu Deus, que criastes todos os anjos e os espíritos incorpóreos, estendestes o céu, fixastes a terra e formastes do nada todas as coisas que existem; vós que sempre ouvis aqueles que fazem vossa vontade, vos temem e observam vossos preceitos, atendei a minha oração e conservai na fidelidade o vosso rebanho, a cuja frente me colocastes, apesar de incompetente e indigno servo.

Livrai-o da malícia ímpia e pagã dos que blasfemam contra vós; fazei crescer a vossa Igreja e a todos reuni na unidade. Tornai o povo perfeito, concorde na verdadeira fé e no reto testemunho; inspirai aos seus corações a palavra da vossa doutrina; porque é dom que vem de vós ter-nos escolhido para pregar o Evangelho de vosso Cristo, encorajando-nos a praticar as boas obras e a fazer o que é de vosso agrado. Aqueles que me destes, a vós entrego, porque são vossos; governai-os com vossa mão poderosa e protegei-os à sombra de vossas asas, para que todos louvem e glorifiquem o vosso nome, Pai, Filho e Espírito Santo. Amém”.

Depois de ter beijado a todos com o ósculo santo, disse: “Bendito seja Deus que não nos entregou como presa aos dentes de nossos invisíveis adversários, mas rompeu suas armadilhas e nos libertou do mal que tramavam contra nós”. E assim adormeceu no Senhor, com quarenta e dois anos de idade.

O Sumo Pontífice ordenou que todos os gregos que estavam em Roma, juntamente com os romanos, se reunissem junto de seu corpo com velas acesas e cantando; e que suas exéquias fossem celebradas do mesmo modo como se celebram as do próprio Papa. E assim foi feito.

-- Da Vida eslava de Constantino

SÃO CIRILO, MONGE, E SÃO METÓDIO, BISPO

Memória

Cirilo, natural de Tessalônica, recebeu uma excelente formação em Constantinopla. Juntamente com seu irmão, Metódio, dirigiu-se para a Morávia, a fim de pregar a fé católica. Ambos compuseram os textos litúrgicos em língua eslava, escritos em letras que depois se chamaram “cirílicas”. Chamados a Roma, ali morreu Cirilo, a 14 de fevereiro de 869. Metódio foi então ordenado bispo e partiu para a Panônia, onde exerceu intensa atividade evangelizadora. Muito sofreu por causa de pessoas invejosas, mas sempre contou com o apoio dos Pontífices Romanos. Morreu no dia 6 de abril de 885 em Velehrad (República Tcheca). O Papa João Paulo II proclamou-os patronos da Europa junto com São Bento.

O Altar de Ghent

O Altar de Ghent também conhecido como o altar do Cordeiro de Deus, é composto por 12 painéis pintados no século XV, pelos irmãos Van Eyck entre 1430-32. Hoje está na Catedral de São Bavo, em Ghent; aos domingos e dias festivos é exposto aberto, nos demais dias permanece fechado. Como ospainéis são pintados em ambos os lados, o resultado é totalmente diferente. 

Em termos artísticos, é um rompimento com a tradição medieval, pois as figuras humanas são bastante realistas. Jan Van Eick era um pintor miniaturista, capaz de reproduzir pequenos detalhes de maneira magnífica. As roupas, jóias, a fonte, a natureza, tudo é pintado com uma riqueza de detalhes fantástica. A iluminação é complexa e inovadora, utilizando técnicas de sombreamento inovadoras, e que combinava com as luzes que entravam pelas janelas da capela para a qual foi projetada. Além disso, muitas obras semelhantes foram perdidas quando fanáticos religiosos as destruíram no século XVI; o Altar foi salvo por que os reis resolveram colocar uma guarda especial dentro da Igreja para salvá-la. 

Na visão aberta, a figura central é a Santíssima Trindade, identificada pela tripla tiara na cabeça. A esquerda está Nossa Senhora, vestida com uma noiva, e a direita São João Batista.  Este trio está cercado por anjos musicais, cantando glórias a Deus. Nos extremos, envergonhados, olhando para baixo, estão Adão e Eva, nus. Na parte de baixo, temmos a cena da adoraçãoo do Cordeiro de Deus, as pessoas todas se reunindo ao seu redor, agrupadads de acordo com sua missão: homens mártires, escritores e profetas judeus, homens santos e mulheres mártires. Nos painéis menores temos os cavaleiros de Cristo, justos juízes, confessores e mártires, apóstolos e papas.

Na visão fechada, a cena principal é a Anunciação da Virgem Maria, com o Anjo e Nossa Senhora. Acima deles estão representados profetas do Antigo Testamento que previram a vinda do Filho de Cristo. Na linha de baixo, como se fossem estátuas, São Joãoo Batista e São João Evangelista. Ajoelhados, o casal que financiou a obra. 

Durante a invasão napoleônica, o altar foi levado para Paris. AS figuras nuas de Adão e Eva fora retiradas da Igreja e transferidas para um museu em Bruxelas. Com a derrota em Waterloo, restituído para a Bélgica. Em 1815 os painéis laterais foram vendidos para um colecionador inglês, que revendeu para o Rei da Prússia. Na I Guerra Mundial, os alemães levaram a obra para Berlim, mas atendendo ao Tratado de Versailles, restituíram as peças roubadas. Em 1934, o painel dos Justos Juízes foi roubado. Em 1940, foi decidido transferir o Altar para o Vaticano e estava a caminho quando a Itália declarou guerra aliando-se ao alemães. A obra ficou num museu na cidade de Pau, França, até 1942 quando Hitler ordenou que fosse trazida para a Alemanha. A obra foi recuperada pelo Exército Americano, por um grupo especial cuja história é contada no filme/livro Caçadores de Obras-Primas, que está estreando hoje.

Após ser restaurada e uma cópia do painel roubada ser confeccionada, uma cerimônia foi realizada presidida pelo Rei da Bélgica. Oficiais dos governos alemães e franceses não foram convidados.

OBS: O livro que originou o filme é muito interessante e conta algumas histórias realmente heróicas. Por exemplo, os americanos encontraram uma igreja medieval com bombas ao seu redor prontas para explodir, como uma armadilha para quem resolvesse entrar na Igreja. Um especialista em artes, mesmo com pouco treinamento em desarmar bombas, mas conhecendo o valor histórico e artístico da Igreja, resolve que vale a pena arriscar sua vida para tentar salvar a Igreja. 

-- Autoria própria

13 de fev de 2014

Uma breve história do casamento cristão - parte II

Continuando este breve apanhado histórico, vou abordar os ensinamentos dos primeiros padres da Igreja. Por muito tempo na história da Igreja não houve um ritual específico para celebrar casamentos. Na Didaqué, documento que descreve a vida nas primeiras comunidades, não há nenhuma referência a esta celebração e casais podiam dar-se em casamento em qualquer local. No entanto, Santo Inácio de Antioquia, ao escrever para o Bispo Policarpo de Esmirna, em torno de 110, comentou: "Quando um homem e uma mulher se unem, é importante que estejam em acordo com o bispo, que seu casamento seja agradável a Deus e não apenas para satisfazer seus desejos." 

Tertuliano (c.160-c.255) fala de cristãos pedindo "permissão" para casar aos seus padres e escreveu nestes termos: Como poderia descrever adequadamente a felicidade do casamento em comunhão com a Igreja, no qual sacrifício se fortalece, a benção acrescenta um selo ao casal, os anjos estão presentes como testemunhas e o Pai dá seu consentimento? Pois nem mesmo na Terra os filhos podem casar-se legalmente sem  o consentimento de seus pais. Quão belo então, o casamento de dois cristãos, dois unidos em uma mesma esperança, um desejo, um caminho na direção da vida que seguirão, um só na prática da religião. São como irmão e irmã, servos do mesmo Mestre. Nada pode dividi-los, nem a carne nem o espírito. Os noivos são, em verdade, dois em uma só carne e também um só espírito. Podem rezar juntos, culturar a Deus juntos, jejuar juntos, instruirem um ao outro, encorajar um ao outro. Lado a lado podem visitar a Igreja e participar do banquete de Deus, lado a lado enfrentam as dificuldades e perseguições, compartilham a consolação de Deus. Não devem ter segredos um para o outro, não evitam a companhia do outro nem querem mal ao seu companheiro. Podem visitar os doentes e assistir aos necessitados, dar esmolas tranquilamente, realizar exercícios de piedade diariamente. Não precisam fazer o sinal da Cruz furtivamente, nem temer o companheiro, nem silenciar sobre as bençãos de Deus. Salmos e hinos podem cantar juntos, dedicando-se para ver quem canta melhor para agradar a Deus. Vendo tal casal, Cristo rejubila de alegria e a eles concede Sua paz. Onde estiverem dois ou mais presentes, ali também está Jesus, e onde está Jesus, o mal não prevalecerá.

São Cipriano, Bispo de Cártago, recomenda que cristãos não devem casar com pagãos para mais livremente poderem exercer sua fé. Dirigindo-se às virgens consagradas, exorta-as a evitarem vestimentas extravagantes, atividades como festas excessivas e ir aos banhos públicos acompanhada de homens. Assim escreveu: O primeiro desejo de Deus foi de crescer e multiplicar-vos, o segundo é controlar seus desejos. Enquanto o mundo era ainda inabitado, era importante sermos fertéis afim de habitarmos a terra. Agora que o mundo já está ocupado, podemos aceitar a virgindade, viver à maneira dos eunucos, desde que eunucos em favor do reino de Deus. O Senhor não apenas ordena isto, como também exorta, mas também não impõe como uma ordem, um peso, pois concede liberdade para escolhermos.  

Argumentando contra a heresia maniqueísta, que condenava o casamento, São Jerônimo argumentou: Não concordamos com as opiniões de Maniqueu e seguidores, que são contrários ao casamento, nem nos deixamos levar pelo erro de Taciano, que pensa que todo intercurso é um ato impuro; eles condenam e rejeitam não apenas o casamento mas também todo alimento que Deus criou para uso dos homens. Sabemos que em uma grande casa há não apenas vasos de ouro e prata, mas também há os de madeira e barro. Enquanto honramos o casamento, preferimos a virgindade, que é um fruto do casamento sadio. Ou por acaso a prata deixará de ser prata apenas por que o ouro é mais valioso? E também escreveu: Alguém pode dizer: "Como podes condenar o casamento que é abençoado por Deus? Não é necessário condenar o casamento apenas por que a virgindade é preferível. Não trata-se aqui de igualar o mal ao bem. A glória de Deus está reservada também às mulheres casadas, pois o Senhor ordenou: crescei e multiplicai-vos. O lugar dos que seguem a Deus é o céu.

São Jerônimo argumentou ainda que o casamento poderia distrair a pessoa da oração e que, neste aspecto, a virgindade é preferível: Se pretendermos rezar todo tempo, nunca poderemos dar a atenção devida ao conjuge, pois neste tempo não estariamos rezando. Referindo-se aos clérigos, disse: Um padre deve oferecer sacrifícios permanentemente em favor do povo, portanto deve permanecer em oração. E se deve permanecer em oração, não pode atender às obrigações do casamento.

Santo Agostinho (354-430) desenvolveu uma teologia sacramental do casamento, em especial no livro Sobre os Dons do Matrimônio. Para ele, três valores são fundamentais no matrimônio: fidelidade, como sendo algo mais profundo que o mero aspecto sexual; filhos, que devem ser aceitos com amor, nutridos com afeto e ensinados sobre os preceitos da religião Cristã; e o sacramento, cuja indissolubilidade é um sinal de abençoada união eterna de Deus. Quanto à virgindade, comentou: Eu sei o que dizem por aí: "Suponha que todos decidissem pela virgindade, como poderia a raça humana sobreviver? Desejaria apenas que tivessem uma preocupação sincera com a caridade, um coração puro e boa consciência, pois aí, então, a Cidade de Deus (a Igreja) espalharia-se mais rapidamente e o fim dos tempos adviria gloriosamente. Tendo sido seguidor do Maniqueísmo em sua juventude, conhecia bem os ensinamentos desta seita, e sobre virgindade/casamento afirmou: Casamento e fornicação não são dois males, pois tem naturezas diferentes; casamento e virgindade são duas bençãos, embora a segunda seja melhor.  

Como vimos, vários santos e doutores da Igreja defenderam o casamento como algo abençoado por Deus, ordenado deste o princípio como sendo entre um homem e uma mulher. E dentro de um casamento, ambos podem ajudar-se e crescer na fé. A virgindade era considerada como superior, e de acordo com São Jerônimo, necessária para os sacerdotes. Santo Agostinho fala em fidelidade, prole e sacramento indissolúvel, e seu pensamento irá influenciar a Idade Média, como veremos na próxima parte. 

-- Autoria própria

Forme-se Cristo em vós

Diz o Apóstolo: Sede como eu. Embora judeu por nascimento, desprezo em meu espírito as prescrições segundo a carne. Porque também eu, como vós, sou homem. Em seguida, com delicadeza, ele os faz reconsiderar sua caridade, para que não o tratem como inimigo. Assim fala: Irmãos, suplico-vos, não me ofendestes em nada. Como se dissesse: “Não julgueis que desejo ofender-vos”.

Por isto diz ainda: Filhinhos, para que o imitem como pai. A quem, continua, dou de novo à luz até que Cristo se forme em vós. Fala principalmente na pessoa da santa mãe Igreja, pois declara em outro lugar: Tornei-me pequenino entre vós, como mãe que acalenta seus filhos.

Santo Agostinho em seu escritório, de Sandro Boticelli.
Igreja de Todos os Santos, Florença, Itália
No crente, Cristo se forma, pela fé, no homem interior, chamado à liberdade da graça, manso e humilde de coração, que não se envaidece pelos méritos de suas obras, que são nulas. Se ele começa a ter algum mérito, deve-o à própria graça. A este pode chamar seu mínimo e identificá-lo consigo aquele que disse: O que fizestes a um dos mínimos meus, a mim o fizestes. Cristo é formado naquele que recebe a forma de Cristo. Recebe a forma de Cristo quem adere a Cristo com espiritual amor.

Disto decorre que, imitando-o, se torne o que ele é, na medida que lhe é possível. Quem diz estar em Cristo, fala João, deve caminhar como também ele caminhou.

Visto como os homens são concebidos pelas mães para se formar e, uma vez formados, são dados à luz do nascimento, surpreendem-nos as palavras: De novo dou à luz até que Cristo se forme em vós. Temos de entender este novo parto como a aflição dos cuidados que ele suporta por aqueles pelos quais sofre até que Cristo nasça. De novo sofre as dores do parto por causa da sedução perigosa que os perturba. Semelhante solicitude a respeito deles, que o faz dizer estar em dores do parto, pode continuar até que cheguem à medida da idade perfeita de Cristo, de maneira que já não se deixem levar por todo vento de doutrina. Não está solícito, portanto, em relação à fé inicial deles, pois já haviam nascido, mas quanto a seu fortalecimento e perfeição. Assim é que ele diz: A quem de novo dou à luz, até que Cristo se forme em vósCom outras palavras refere-se ao mesmo sofrimento: Os meus cuidados de todos os dias, a solicitude por todas as Igrejas. Quem se enfraquece sem que eu também me torne fraco? quem tropeça, que eu não me ponha a arder?

-- Do Comentário sobre a Carta aos Gálatas, de Santo Agostinho, bispo (século V)

11 de fev de 2014

Uma breve história do casamento cristão - parte I

Tendo em vista a convocação para um Sínodo sobre Famílias e Evangelização, que será realizado em Outubro deste ano, e cujos trabalhos, de certa forma, já iniciaram com o envio de um questionário a todos dioceses e cristãos, vou escrever aqui alguns textos sobre a história do casamento na Igreja Católica. Se alguma novidade brotar do Sínodo, ela certamente será baseada em dois milênios de tradição.

O casamento é citado no Novo Testamento. O primeiro milagre de Jesus Cristo é feito exatamente numa festa de casamento em Caná (Jo 2), indicando a aprovação de Jesus Cristo à esta instituição bem como à sua celebraçãoo pública. Além disso, Jesus Cristo proíbe o divórcio e explica que "dois se fazem uma carne"

No tempo de Jesus, o casamento era considerado uma passagem obrigatória à vida adulta e aprovada pela fé judaica. No entanto, tanto para  a cultura judaica quanto para a grego-romana, os ensinamentos da Igreja logo se constituíram em uma grande novidade, com notável elevação do papel da mulher. Na Carta aos Hebreus encontramos: Vós todos considerai o matrimônio com respeito e conservai o leito conjugal imaculado, porque Deus julgará os impuros e os adúlteros (Hb 13,4). Na Primeira Carta aos Coríntios, temos: cada homem tenha sua mulher, e cada mulher tenha seu marido. O marido cumpra o seu dever para com a sua esposa e da mesma forma também a esposa o cumpra para com o marido. A mulher não pode dispor de seu corpo: ele pertence ao seu marido. E da mesma forma o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa. Não vos recuseis um ao outro, a não ser de comum acordo, por algum tempo, para vos aplicardes à oração; e depois retornai novamente um para o outro, para que não vos tente Satanás por vossa incontinência (I Cor 7,2b-5).

E quanto a questão do divórcio, aceito pelos judeus, diz: Aos casados mando (não eu, mas o Senhor) que a mulher não se separe do marido. E, se ela estiver separada, que fique sem se casar, ou que se reconcilie com seu marido. Igualmente, o marido não repudie sua mulher (I Cor 7,10-11).

Um pouco depois: A mulher está ligada ao marido enquanto ele viver. Mas, se morrer o marido, ela fica livre e poderá casar-se com quem quiser, contanto que seja no Senhor (I Cor 7,39).

Ao mesmo tempo, o celibato era considerado com um estado mais "elevado", pois este tinha sido o exemplo de Jesus. Também considerava-se que a vinda de Cristo era eminente, neste caso o casamento seria uma distração para o aperfeiçoamento da alma, um apego a questões temporais. No mesmo capítulo da Carta aos Coríntios, São Paulo recomenda o celibato mas reconhece que não é apropriado para todos: Aos solteiros e às viúvas, digo que lhes é bom se permanecerem assim, como eu. Mas, se não podem guardar a continência, casem-se. É melhor casar do que abrasar-se (I Cor 7,8-9). 

Alguns escritores interpretaram esta passagem qualificando o casamento como uma medida de urgência para garantir a salvação frente à fraqueza pela carne, que impediria os casados a conterem seus impulsos e manterem a castidade. Em conseqüência, a família seria colocada em um segundo plano. Em termos práticos, o direito de escolher entre uma vida celibatária ou casamento também foi uma grande novidade, pois filhos e, principalmente as moças, poderiam ser obrigadas a casaram-se devido a arranjos feitos pelos seus pais. A história de Santa Inês é um exemplo claro, pois ela foi martirizada por recusar o casamento arranjado com o filho do Prefeito. Santa Pontamiema, que era escrava, ao não entregar seu corpo para satisfazer os desejos de seu proprietário, é levada a julgamento e condenada. Ao juiz responde: Eu prefiro sofrer tudo o que vosso furor puder vos inspirar a obedecer aos infames desejos de meu senhor

Este desejo de pureza corporal, levou aos hereges gnosticistas a um extremo perigoso, de considerar qualquer atividade corporal, em especial a procriação, como indesejável. E isto levou os padres da Igreja a responderem de maneira brilhante, defendendo o casamento, como pretendo expor na sequencia. Por ora, basta ressaltar que o casamento cristão representou um progresso ao impedir o adultério, aumentar a importância da mulher e dar aos jovens a escolha entre casamento e virgindade.

-- Autoria própria

Unidade da Igreja, de São Cipriano

São Cipriano de Cartago converteu-se ao Cristianismo devido ao testemunho dos mártires no norte da África. Frente ao seu exemplo de fé e perseveran''ca, foi rapidamente eleito bispo. Enfrentou duas perseguições aos cristãos e acabou por tendo que se esconder. Mas denunciado, foi preso e martirizado em 258.

Durante o seu bispado, teve que enfrentar a questão da unidade da Igreja e aqueles que frente a perseguição negavam a sua fé, ou "caídos". Demonstrou grande caridade por eles, aceitando seu retorno após uma penitência apropriada.  Para a ele, a Igreja deve ser como a túnica de Cristo, inteira, sem costuras; e atinge a perfeição na Eucaristia, onde se vê  a um só Deus, uma só Igreja. Como resposta, rezamos o Pai-Nosso, onde totdos declaramos termos o mesmo Pai, sermos uma mesma família, numa mesma Igreja.

Neste contexto, escreveu sobre a Unidade da Igreja, que publiquei aqui em partes:

Parte I: Vigiai o inimigo vem disfarçado
Parte II: figuras do Antigo Testamento
Parte III: a origem das heresias
Parte IV: a lei do amor e unidade
Parte V: não ceder ao escândalo dos hereges
Parte VI: menos grave é o pecado dos caídos
Parte VII: o pecado dos confessores
Parte final: exortação para uma vida cristã:

9 de fev de 2014

Mensagem do Papa aos Jovens

Ao proclamar as Bem-aventuranças, Jesus convida-nos a segui-Lo, a percorrer com Ele o caminho do amor, o único que conduz à vida eterna. Não é uma estrada fácil, mas o Senhor assegura-nos a sua graça e nunca nos deixa sozinhos. Na nossa vida, há pobreza, aflições, humilhações, luta pela justiça, esforço da conversão quotidiana, combates para viver a vocação à santidade, perseguições e muitos outros desafios. Mas, se abrirmos a porta a Jesus, se deixarmos que Ele esteja dentro da nossa história, se partilharmos com Ele as alegrias e os sofrimentos, experimentaremos uma paz e uma alegria que só Deus, amor infinito, pode dar.

As Bem-aventuranças de Jesus são portadoras duma novidade revolucionária, dum modelo de felicidade oposto àquele que habitualmente é transmitido pelos mass media, pelo pensamento dominante. Para a mentalidade do mundo, é um escândalo que Deus tenha vindo para Se fazer um de nós, que tenha morrido numa cruz. Na lógica deste mundo, aqueles que Jesus proclama felizes são considerados «perdedores», fracos. Ao invés, exalta-se o sucesso a todo o custo, o bem-estar, a arrogância do poder, a afirmação própria em detrimento dos outros.

O termo grego usado no Evangelho é makarioi, bem-aventurados. E "bem-aventurados" quer dizer felizes. Mas dizei-me: vós aspirais deveras à felicidade? Num tempo em que se é atraído por tantas aparências de felicidade, corre-se o risco de contentar-se com pouco, com uma ideia pequena da vida. Vós, pelo contrário, aspirai a coisas grandes! Ampliai os vossos corações! Como dizia o Beato Pierjorge Frassati, "viver sem uma fé, sem um património a defender, sem sustentar numa luta contínua a verdade, não é viver, mas ir vivendo. Não devemos jamais ir vivendo, mas viver".

Se verdadeiramente fizerdes emergir as aspirações mais profundas do vosso coração, dar-vos-eis conta de que, em vós, há um desejo inextinguível de felicidade, e isto permitir-vos-á desmascarar e rejeitar as numerosas ofertas «a baixo preço» que encontrais ao vosso redor. Quando procuramos o sucesso, o prazer, a riqueza de modo egoísta e idolatrando-os, podemos experimentar também momentos de inebriamento, uma falsa sensação de satisfação; mas, no fim de contas, tornamo-nos escravos, nunca estamos satisfeitos, sentimo-nos impelidos a buscar sempre mais. É muito triste ver uma juventude saciada, mas fraca.

-- Papa Francisco, em 21 de Janeiro de 2014. Texto completo aqui.

5 de fev de 2014

Unidade da Igreja - final

Apelo aos que foram enganados

Quanto a mim, irmãos diletíssimos, não deixo de exortar e insistir, porque desejo que, se for possível, nenhum dentre os irmãos pereça, e a mãe feliz (a Igreja) abranja no seu regaço o seu povo, unido na concórdia como um só corpo. Se, todavia, este salutar conselho não consegue reconduzir ao caminho da salvação certos chefes de cismas e certos autores de dissensão, preferindo eles obstinar-se em sua cega demência, ao menos os demais, os que foram surpreendidos na sua simplicidade, ou se deixaram desviar por algum equívoco, ou foram enganados pelo ardil de uma astúcia dissimulada, ao menos vós sacudi os laços falaciosos, livrai dos erros os vossos passos extraviados, sabei reconhecer o caminho reto que conduz ao céu.

Ouvi a voz do Apóstolo, que clama: "Em nome de nosso Senhor Jesus Cristo, nós vos mandamos, diz ele, que vos afasteis de todos os irmãos que andam desordenadamente e não segundo a tradição que receberam de nós" (2Tes 3,6). E de novo: "Ninguém vos engane com vãs palavras. Por causa disto veio a ira de Deus sobre os filhos da contumácia. Não estejais, pois, ao lado deles" (Ef 5,6-7).

Deveis evitar os delinqüentes e até fugir deles, para que não aconteça que, juntando-se aos que trilham os caminhos do erro e do crime, alguém se desvie também da verdade e se torne culpado de igual delito.

Deus é um, Cristo é um, uma é a sua Igreja, uma a fé e o povo (cristão) é também um, aglutinado pela concórdia como na compacta unidade de um corpo. Esta unidade não pode ser quebrada. Um corpo não pode ser dividido, desarticulando as suas junturas. Não pode ser reduzido a pedaços, dilacerando e arranhando as suas vísceras. Tudo o que se separa do centro vital não pode continuar a viver ou a respirar porque fica privado do alimento indispensável à vida.

Vista do alto da Catedral de São Pedro - Vaticano
Bem-aventurados os pacíficos

O Espírito Santo assim nos fala: "Quem é o homem que quer viver e deseja ver dias excelentes? Refreia do mal a tua língua, e os teus lábios não falem insidiosamente. Evita o mal e faze o bem, busca a paz e segue-a" (Sl 33,13-15). O filho da paz deve buscar a paz, deve procurá-la. Quem conhece e ama o vínculo da caridade deve guardar a sua língua do flagelo da dissensão.

O Senhor, já próximo à paixão, entre outros preceitos e ensinamentos salutares, acrescentou o seguinte: "Eu vos entrego a paz, eu vos dou a minha paz" (Jo 14,27). Esta é a herança que nos deixou. Todos os dons e todos os prêmios das suas promessas estão incluídos nisto: a inviolabilidade da paz.

Se somos co-herdeiros de Cristo [Rom 8,17], permaneçamos na paz de Cristo. Se somos filhos de Deus, sejamos pacíficos. "Bem-aventurados os pacíficos, diz, porque serão chamados filhos de Deus" (Mt 5,9). Convém, pois, que os filhos de Deus sejam pacíficos, mansos de coração [Mt 11,29], simples quando falam, concordes nos afetos, sempre ligados uns aos outros pelos laços da unidade de espírito.

O exemplo dos primeiros cristãos

Essa unidade reinou ao tempo dos Apóstolos e a nova plebe, o povo dos que acreditaram, guardava os preceitos do Senhor e ficava fiel à sua caridade. Prova-o a divina Escritura, dizendo: "A multidão daqueles que acreditaram se comportava como se fossem todos uma só alma e uma só mente" (At 4,32).

E antes: "Estavam perseverando todos unânimes na oração com as mulheres e Maria, a mãe de Jesus, e seus irmãos" (At 1,14). Por isto oravam de modo eficaz e podiam confiar em alcançar o que estavam pedindo à misericórdia divina.

Basílica de São Pedro, Vaticano.
Exortação para uma vida cristã integral

Entre nós, ao contrário, esta união está demasiado relaxada, e ao mesmo tempo aparece muito enfraquecida a generosidade nas obras (boas). Então vendiam as suas casas e as suas propriedades e entregavam o preço aos Apóstolos, para que fosse distribuído aos pobres: assim colocavam seus tesouros no céu [Mt 6,19]. Hoje nem se dão os dízimos dos patrimônios e, enquanto o Senhor diz "vendei" [Lc 12,33], nós preferimos comprar e possuir mais. Como, entre nós, murchou o vigor da fé, como esmoreceu a força daqueles que crêem!

Por isto o Senhor, falando destes nossos tempos, diz no Evangelho: "Quando vier o Filho do homem, pensas que encontrará fé na terra?" (Lc 18,8). Vemos que está acontecendo o que ele predisse. No que diz respeito ao temor de Deus, à lei da justiça, ao amor, às obras, não há mais fé. Ninguém se preocupa com as coisas que hão de vir, ninguém pensa no dia do Senhor, na ira de Deus, nos futuros suplícios dos incrédulos, nos eternos tormentos destinados aos pérfidos. Se crêssemos, a nossa consciência teria medo de tudo isto. Se não temos medo é sinal que não cremos. Quem acredita se acautela, quem se acautela se salva.

Despertemos, irmãos diletíssimos, quebremos o sono da inércia rotineira e, por quanto for possível, sejamos vigilantes em guardar e cumprir os preceitos do Senhor. Sejamos prontos, como ele seja, quando diz: "Estejam cingidos os vossos rins, e as lâmpadas acesas nas vossas mãos, e vós sede semelhantes a homens que esperam o seu dono, quando voltar das núpcias, para lhe abrirem logo que ele chegar e bater. Bem-aventurados os servos que o Senhor, chegando, encontrar vigilantes" (Lc 12,35-37). É necessário que estejamos cingidos, a fim de que, quando vier o dia da partida, não sejamos surpreendidos cheios de impedimentos e de embaraços. Fique sempre viva a nossa luz e brilhe em boas obras, para nos guiar da noite deste mundo aos esplendores da claridade eterna. Sempre solícitos e cautos, fiquemos à espera da chegada repentina do Senhor. Quando ele bater, encontre a nossa fé vigilante com uma tal vigilância que mereça receber o prêmio do mesmo Senhor.

Se forem observados esses mandamentos, se forem postas em prática essas exortações, não acontecerá que sejamos vencidos, no sono, pela falácia do demônio, mas, como servos bons e vigilantes, reinaremos com Cristo glorioso.

-- São Cipriano de Cártago (século III)

2 de fev de 2014

Cristo chamou-nos para seu reino glorioso

(Carta de) Inácio, o Teóforo, à Igreja de Deus Pai e de Jesus Cristo, o dileto, rica de todos os dons da misericórdia, repleta de fé e de caridade, sem que lhe falte qualquer graça, muito amada por Deus, portadora da santidade, à Igreja que está em Esmirna na Ásia, efusivas saudações no Espírito imaculado e no Verbo de Deus.

Santo Inácio de Antioquia
Rendo glória a Jesus Cristo, Deus, que vos deu tanta sabedoria; pois notei como sois perfeitos na fé inabalável, como que, de corpo e alma, presos por cravos à cruz do Senhor Jesus Cristo e firmes na caridade pelo sangue de Cristo, crendo com fé plena e segura que nosso Senhor é em verdade oriundo da estirpe de Davi segundo a carne, Filho de Deus pela vontade e poder de Deus. Crendo de igual modo que verdadeiramente nasceu da Virgem, foi batizado por João para que nele se cumprisse toda a justiça. Crendo que verdadeiramente, foi, sob Pôncio Pilatos e o tetrarca Herodes, crucificado na carne por nós – a cujo fruto nós pertencemos por sua bem-aventurada paixão – a fim de, por sua ressurreição, elevar pelos séculos a bandeira que reúne seus santos e seus fiéis, judeus ou gentios, no único corpo de sua Igreja.

Tudo padeceu por nós para alcançarmos a salvação; e padeceu de verdade, como também de verdade ressuscitou a si mesmo.

Eu também sei que, depois da ressurreição, vive em seu corpo e creio estar ele ainda agora com seu corpo. Ao se encontrar com Pedro e seus companheiros, disse-lhes: Pegai, apalpai-me e vede que não sou um espírito incorpóreo. E logo o tocaram e creram, unidos à sua carne e a seu espírito. Por esta razão, desprezaram também a morte e da morte saíram vitoriosos. Depois da ressurreição, comeu e bebeu com eles como qualquer ser corporal, embora, espiritualmente, unido ao Pai.

Exorto-vos, portanto, caríssimos, embora bem saiba que pensais do mesmo modo.

-- Da Carta aos Esmirnenses, de Santo Inácio de Antioquia, bispo e mártir. (século I)

1 de fev de 2014

O Mistério da Morte

Em face da morte, o enigma da condição humana atinge o seu ponto máximo. O homem não apenas é atormentado com a dor e o progressivo declínio do corpo, mas com muito maior força pelo temor da destruição perpétua. Pelo acertado instinto de seu coração, afasta com horror e rejeita a ideia da total ruína e da morte definitiva de sua pessoa. A semente de eternidade que traz em si, irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as conquistas da técnica, por mais úteis que sejam, não conseguem acalmar a angústia humana, pois o prolongamento biológico da vida não pode satisfazer o desejo inelutavelmente presente em seu coração de viver sempre.

Já que diante da morte toda imaginação fracassa, a Igreja, instruída pela Revelação, afirma ter sido o homem criado por Deus para uma finalidade feliz, para além dos limites da miséria terena. E não só, mas a fé cristã ensina que a morte corporal, que lhe seria poupada se não houvesse pecado, será vencida quando o homem recuperar a salvação, perdida por culpa sua, pelo onipotente e compadecido Salvador. Com efeito, Deus chamou e continua a chamar o homem a aderir com sua natureza integral à perpétua comunhão na incorruptível vida divina. Cristo conseguiu esta vitória, libertando o homem da morte por meio de sua morte e ressurgindo para a vida. Para quem reflete, a fé baseada em sólidos argumentos oferece uma resposta a sua ansiedade sobre a sorte futura. Ao mesmo tempo dá a possibilidade de comunicar-se com os caros irmãos já arrebatados pela morte em Cristo, despertando a esperança de possuírem eles, desde agora, a verdadeira vida junto de Deus.

Certamente incumbe ao cristão o dever urgente de lutar contra o mal através de muitas tribulações e de aceitar a morte; mas unido ao mistério pascal, configurado à morte de Cristo, firme na esperança, chegará à ressurreição.

Tudo isto vale para os cristãos e também para todos os homens de boa vontade em cujos corações a graça age invisivelmente. Tendo, pois, Cristo morrido por todos, e sendo uma só a vocação última do homem, isto é, a divina, devemos afirmar que o Espírito Santo oferece a todos a possibilidade, de modo só conhecido por Deus, de se associarem ao mistério pascal.

De tal valia e tão grande é o mistério do homem, que se esclarece pela Revelação cristã aos fiéis. Por conseguinte, por Cristo e em Cristo, ilumina-se o enigma da dor e da morte que, fora de seu Evangelho, nos esmaga. Cristo ressuscitou, por sua morte destruiu a morte e deu-nos a vida para que , filhos no Filho, clamemos no Espírito: Abá, Pai!

-- Da Constituição Pastoral Gaudium et spes sobre a Igreja no mundo de hoje, do Concílio Vaticano II (século XX)

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