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21 de mai. de 2016

Ícone da Santíssima Trindade - o significado dos três anjos


O ícone da Santíssima Trindade foi pintado pelo monge André Rublev em 1425. Uns cento e cinquenta anos após, o Concílio da Igreja Ortodoxa definiu-o como modelo para todas representações da Trindade.

O ícone possui três níveis de representação:

1. Em primeiro lugar, lembra o relato bíblico da visita dos três peregrinos a Abraão (Gn 18, 1-5). O bem-aventurado Abraão recebe os três anjos em sua tenda, como se fossem a divindade una e trina. Abraão e Sara não estão representados, ficam em segundo plano, para que se possa apreciar mais profundamente Trindade que visita a humanidade, um fato realmente surpreendente.

2. Os três anjos celestes formam um conselho celeste; a tenda de Moisés é um alto palácio; o carvalho de Mambré é a árvore da vida; e no centro da mesa está o cálice de vinho, sinal da presente de Cristo como alimento eterno.

Os três anjos estão sentados, mas são altos, as asas se elevam ao céus, há algo de impossível na composição que desafia a gravidade. A perspectiva irreal elimina a distância, mostra que não apenas Deus está presente, como também está próximo, em primeiro plano. 

As três pessoas estão conversando, mas sobre o que? A Palavra de Deus sempre se torna real, o cálice do sacrifício está no centro. Os anjos estão a conversar sobre o Cristo, pois Deus amou o mundo de tal maneira que deu a seu único filho como sacrifício (Jo 4,9).

3. O terceiro nível está apenas sugerido, é transcendente e inacessível aos sentidos humanos, mas a fé pode relevelá-lo. A essência de Deus é o amor, o amor que sente pelo mundo é o mesmo amor que tem pelo seu Filho. O cálice representa este amor em torno do qual se sustenta a Santíssima Trindade; no cálice está o Cordeiro imolado, a comida celeste dos últimos tempos prometida no Livro do Apocalipse. Os anjos estão repouso, pois o sacrifício pascal já trouxe a salvação ao mundo, podem  comtemplar ao Cristo em êxtase. Eles lembram São Gregório de Nissa: "O maior paradoxo é que estabilidade e o movimennto provém de Deus". 

As figuras dos anjos

Os três anjos estão desenhados de maneira semelhante, são idênticos para revelar a igualdade dentro da Santíssima Trindade. Para identificá-los, é necessário olhar as figuras acima dos anjos: na direita temos Cristo, o esposo da Igreja representada pelo prédio ; à esquerda está o Espírito Santo, indicado pelas altas rochas, das quais se deve proclamar a palavra de Deus para o mundo; no centro está Deus, a árvore da vida. 

Deus está olhando e falando para o Filho; seu poder vêm do amor e revela-se pela comunhão. O Filho cumpre a palavra do Pai, também conduz ao Pai (Jo 14, 6). Entender esta comunhão entre Deus e o Pai é entender a comunhão entre Deus e a humanidade. Ao conversar com o Filho, Deus está se revelando a Cristo, também está se revelando à humanidade.

O Filho está atento ao Pai, abandonado de si mesmo. As palavras que anuncia não são dele, Cristo não fala por si mesmo, mas repete as palavras que ouviu do Pai. É o exemplo para os homens, ouvir a Deus, falar as palavras de Deus.

O Espírito Santo está contemplando ao Pai e ao Filho; o único caminho da Salvação. A cabeça levemente inclinada revela sua doçura; é o espírito consolador. 

As mãos direita do Pai e Espírito Santo estão estendidas em direção ao cálice, abençoando o sacrifício de Cristo presente. O movimento parte deles e culmina no Cristo; é o impulso que ilumina toda cena, as três pessoas dominam o ícone, mas no centro deles está o cálice da comunhão, o centro da história da salvação. 

* Já havia publicado uma breve explicação da Santíssima Trindade, como inspirada pelo ícone; nos próximos dias escreverei algo sobre a composição e cores do ícones.

-- -- adaptado do original em espanhol

15 de fev. de 2014

Daniel 3 - Cântico das Criaturas

No capítulo 3 do Livro de Daniel encontra-se inserida uma luminosa oração litânica, um verdadeiro e peculiar Cântico das criaturas, que a Liturgia das Laudes nos propõe várias vezes, em diversos fragmentos.

Ouvimos agora a parte fundamental, um grandioso coro cósmico, emoldurado por duas antífonas que o resumem:  "Bendito sois no firmamento dos céus, digno de louvor e glória eternos! Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor, a ele glória e louvor eterno!" (vv. 56-57).

Entre estas duas aclamações desenvolve-se um solene hino de louvor, que se exprime com o convite repetido "bendizei":  formalmente, trata-se apenas de um convite a bendizer a Deus dirigido a toda a criação; na realidade, trata-se de um cântico de agradecimento que os fiéis elevam ao Senhor por todas as maravilhas do universo. O homem faz-se voz da criação inteira para louvar e agradecer a Deus.

Este hino, cantado por três jovens hebreus que convidam todas as criaturas a louvar a Deus, nasce numa situação dramática. Os três jovens, perseguidos pelo soberano da Babilónia, encontram-se imersos na fornalha ardente devido à sua fé. E contudo, mesmo se estavam prestes a sofrer o martírio, eles não hesitam em cantar, em rejubilar, em louvar. O sofrimento áspero e violento da prova desaparece, parece que se dissolve na presença da oração e da contemplação.

É precisamente esta atitude de abandono confiante que suscita a intervenção divina.

De fato, como afirma a sugestiva narração de Daniel, "O anjo do Senhor, porém, tinha descido até Azarias e seus companheiros, na fornalha, e afastava o fogo. Mudou o lugar da fornalha em lugar onde soprava como que uma brisa matinal:  o fogo nem sequer os tocou e nem lhes causou qualquer mal nem a menor dor" (vv. 49-50). Os pesadelos desaparecem como o nevoeiro ao sol, os receios dissipam-se, o sofrimento é eliminado quando todo o ser humano se torna louvor e confiança, expectativa e esperança. Eis a força da oração quando é pura, intensa, abandono total a Deus, providencial e redentor.

O cântico dos três jovens faz desfilar diante dos nossos olhos uma espécie de procissão cósmica, que parte do céu povoado de anjos, onde também brilham o sol, a lua e as estrelas. Lá de cima Deus derrama sobre a terra o dom das águas que estão acima dos céus (cf. v. 60), isto é, as chuvas e a brisa matinal (cf. v. 64).
Contudo, eis que começam também a soprar os ventos, a explodir os relâmpagos e a irromper as estações com o calor e com o gelo, com o fervor do verão, mas também com a geada, o gelo, a neve (cf. vv. 65-70.73). O poeta insere no cântico de louvor ao Criador também o ritmo do tempo, o dia e a noite, a luz e as trevas (cf. vv. 71-72). No final o olhar poisa também sobre a terra, partindo dos cumes dos montes, realidades que parecem unir terra e céu (cf. vv. 74-75).

Eis que então se unem no louvor a Deus as criaturas vegetais que germinam na terra (cf. v. 76), as nascentes que trazem vida e frescor, os mares e os rios com as suas águas abundantes e misteriosas (cf. vv. 77-78). De facto, o cantor evoca também "os monstros marinhos" ao lado dos peixes (cf. v. 79), como sinal do caos aquático primordial ao qual Deus impôs regras para serem observadas (cf. Sl 3-4; Job 38, 8-11; 40, 15; 41, 26).

Depois  é  a  vez  do  grande  e  variado  reino  animal,  que  vive  e  se  move nas águas, na terra e nos céus (cf. Dn 3, 80-81).

O último ator da criação que entra na cena é o homem. Primeiro, o olhar alarga-se a todos os "filhos do homem" (cf. v. 82); depois, a atenção concentra-se em Israel, o povo de Deus (cf. v. 83); a seguir, é a vez de quantos se consagraram totalmente a Deus não só como sacerdotes (cf. v. 84), mas também como testemunhas de fé, de justiça e de verdade. São os "servos do Senhor", os "espíritos e as almas dos justos", os "mansos e humildes de coração" e, entre eles, sobressaem os três jovens, Ananias, Azarias e Misael, que deram voz a todas as criaturas num louvor universal e perene (cf. vv. 85-88).

Ressoaram constantemente os três verbos da glorificação divina, como numa ladainha:  "bendizei, louvai, exaltai" o Senhor. Esta é a alma autêntica da oração e do cântico:  celebrar o Senhor sem parar, na alegria de pertencer a um coro que engloba todas as criaturas.

Gostaríamos de concluir a nossa meditação dando voz aos Padres da Igreja,  como  Orígenes,  Hipólito,  Basílio de Cesareia e Ambrósio de Milão, que comentaram a narração dos seis dias da criação (cf. Gn 1, 1-2, 4a) precisamente em conexão com o Cântico dos três jovens.

Limitamo-nos a citar o comentário de Santo Ambrósio, o qual, ao referir-se ao quarto dia da criação (cf. Gn 1, 14-19), imagina que a terra fala e, ao falar sobre o sol, encontra todas as criaturas unidas no louvor a Deus:  "Bom é deveras o sol, porque serve, ajuda a minha fecundidade, alimenta os meus frutos. Ele foi-me dado para o meu bem, está submetido comigo às canseiras. Geme comigo, para que chegue a adopção dos filhos e a redenção do género humano, para que possamos ser, também nós, libertados da escravidão. Ao meu lado, juntamente comigo louva o Criador, juntamente comigo eleva um hino ao Senhor nosso Deus. Onde o sol bendiz, ali bendiz a terra, bendizem as árvores de fruto, bendizem os animais, bendizem comigo as aves".

Ninguém é excluído da bênção do Senhor, nem sequer os monstros do mar (cf. Dn 3, 79). Com efeito, Santo Ambrósio prossegue:  "Até as serpentes louvam o Senhor, porque a sua natureza e o seu aspecto revelam aos nossos olhos alguma beleza e mostram ter a sua justificação".

Com mais razão nós, seres humanos, devemos acrescentar a este concerto de louvor a nossa voz feliz e confiante, acompanhada por uma vida coerente e fiel.

-- Papa João Paulo II, 10 de Julho de 2002

4 de jan. de 2014

Eterno esplendor da beleza divina


Eterno esplendor da beleza divina,
ó Cristo, vós sois luz e vida e perdão.
As nossas doenças trazeis o remédio,
abris uma porta para a salvação.

O coro dos anjos ressoa na terra
e um mundo novo seu canto anuncia:
a glória a Deus Pai nas alturas celestes,
e ao gênero humana a paz e alegria.

Embora pequeno, deitado em presépio,
em todo Universo, ó Cristo, reinais.
Ó fruto bendito da Virgem sem mancha,
que todos vos amem num reino de paz.

Nasceis para dar-nos o céu como Pátria,
vivendo na carne da humanidade.
Renovem-se as mentes e os corações,
se unam por laços de tal caridade.

Às vozes dos anjos as nossas unimos,
num coro exultante de glória e louvor,
cantando aleluias ao Pai e ao Filho,
cantando louvores e graças ao Amor.

-- Hino da Liturgia das Horas para o 4 de Janeiro

14 de mar. de 2013

Homília de Páscoa, 2012 - Cardeal Bergoglio


Na madrugada saíram em direção ao sepulcro. Antes haviam comprado perfumes para ungir o corpo de Jesus. Preparando tudo, praticamente haviam passado a noite em vigília, esperando que houvesse luz suficiente para irem tão logo tivesse saído o Sol. Nós também estamos nesta noite vigilantes, preparando-nos para ungir o corpo do Senhor enquanto recordamos as maravilhas de Deus na história da humanidade. Principalmente recordemos que Jesus naquela mesma noite também passou orando: "Foi uma noite de vigília para o Senhor, a fim de tirá-los do Egito" (Ex 12, 42a). Esta vigília é uma resposta a um mandado de gratidão: "essa mesma noite é uma vigília a ser celebrada de geração em geração por todos os israelitas, em honra do Senhor" (Ex 12, 42b). 

Assim como as crianças israelitas fazem, é possível que nossos filhos ou amigos perguntem porque passamos a noite em vigília. A resposta surge do mais profundo da nossa memória de povo eleito pelo Senhor: "é que o Senhor nos tirou do Egito com sua mão poderosa, da casa da servidão" (Ex 13,14). Assim é: "esta é a noite em que o Senhor nos tirou do Egito, nossos pais, a nós filhos de Israel, e nos fez passar a pé enxuto o Mar Vermelho", "esta é a noite em que dissipou as trevas dos pecados com o resplendor da coluna de fogo" (cf Ex 13,21).; "a noite em que nós, pecadores, fomos restituídos à graça de Deus", "a noite em que Cristo rompeu as ataduras da morte e surgiu vitorioso dos abismos". Esta é a noite em que se consolida a liberdade. Por isto, esta noite é clara como o dia. 

Com a luz que celebramos esta vigília seguirá adiante nossa vida e o que aconteceu aos nossos pais no deserto, também ocorrerá conosco. Muitas vezes as dificuldades, as distrações do caminho, as dores e problemas obscurecem nossa alegria e, inclusive, a certeza desta liberdade; e podemos, até mesmo, chegar a  suspirarmos pelas "coisas lindas" que tínhamos na escravidão, os alhos e cebolas do Egito (cf Num 11,4-6); inclusive pode nos dominar a impaciência e optarmos pelo imediatismo dos ídolos (cf. Ex 32,1-6). Nestes momentos parece que o Sol se esconde, retorna a noite e a liberdade entra em eclipse. 

Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé, com o dia já amanhecido, lhes caiu outra noite, a noite do medo e saíram correndo do sepulcro (cf Mc 16,8). Saíram correndo sem dizer nada a ninguém. O medo as fez esquecer o que haviam escutado a pouco: "Buscais Jesus de Nazaré, que foi crucificado. Ele ressuscitou, já não está aqui". (Mc 16, 6). O medo as emudeceu, não podiam proclamar a boa notícia. O medo paralisou o coração e preferiram um fracasso seguro à esperança, essa que lhes dizia: "Vão a Galiléia, ali O verão" (cf. Mc 16,7). Assim também acontece conosco, como elas temos medo da esperança e preferimos nos resguardar em nossos limites, mesquinharias e pecados, nas dúvidas e negações que, bem ou mal, podemos manejar. Ela vinham tristes, vinham para ungir um cadáver.. e lhes ocorre isto; e assim como os discípulos de Emaús se fecham na desilusão (cf. Lc 24,13-24). No fundotinham medo da alegria.

A história se repete. Nas nossas noites, noites de medo, noites de tentação e provas, noites em que preferimos a escravidão vencida, o Senhor segue vigiando como fez naquela noite no Egito; com palavras doces e paternais nos diz: "Vede minhas mãos e meus pés, sou eu mesmo; apalpai e vede: um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que tenho."(Lc 24,39). Ou, as vezes, com um pouco mais de energia: "Ó gente sem inteligência! Como sois tardos de coração para crerdes em tudo o que anunciaram os profetas! Porventura não era necessário que Cristo sofresse essas coisas e assim entrasse na sua glória?" (Lc 24,25-26).

Cada vez que Deus se manifestava a um israelita procurava dissipar-lhe o medo: "Não temeis", lhes dizia. O mesmo faz Jesus: "não tenham medo",. É o que anjo dizia às três mulheres cujo medo impelia a optar pelo velório. Nesta noite de vigília digamos uns aos outros: "não tenhas medo",  não nos esquivemos da certeza de Deus, não rechacemos a esperança. Não optemos pela segurança do sepulcro, do vazio e da imundície cheia de pecados e egoísmo. Abramo-nos ao dom da esperança. Não temamos a alegria da Ressureição de Cristo.

Esta noite também Maria estava velando. Suas entranhas lhe faziam intuir a proximidade do fim desta vida que concebera em Nazaré e sua fé confirmava a intuição. A Maria pedimos que, como primeira discípula, nos ensine a perserverar em vigília, nos acompanhe na paciência, nos fortaleça na esperança, pedimos que nos leve ao encontro de seu Filho Ressucitado; pedimos que nos livre do medo, de tal maneira que possamos escutar o anúncio do anjo e também sair correndo...  não de susto, mas sim para anunciar a outras pessoas, pois Buenos Aires necessita muito. 

* tradução própria

30 de set. de 2012

Eles te guardem em todos os teus caminhos


* Dia 2 de Outubro é a Festa dos Santos Anjos da Guarda. Esta é a leitura da Liturgia da Palavra. 

A teu respeito ordenou a seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos (Sl 90,11). Louvem o Senhor por sua misericórdia e suas maravilhas para com os filhos dos homens. Louvem e proclamem às nações que o Senhor agiu de modo magnífico a favor deles. Senhor, que é o homem para que assim o conheças? Ou por que inclinas para ele teu coração? Aproximas dele teu coração, enches-te de solicitude por sua causa, cuidas dele. Enfim, a ele envias o teu Unigênito, infundes o teu Espírito, prometes até a visão de tua face. E para que nas alturas nada falte no serviço a nosso favor, envias os teus santos espíritos a servir-nos, confias-lhes nossa guarda, ordenas que se tornem nossos pedagogos.

A teu respeito, ordenou a seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Esta palavra quanta reverência deve despertar em ti, aumentar a gratidão, dar confiança. Reverência pela presença, gratidão pela benevolência, confiança pela proteção. Estão aqui, portanto, e estão junto de ti, não apenas contigo, mas em teu favor. Estão aqui para proteger, para te serem úteis. Na verdade, embora enviados por Deus, não nos é lícito ser ingratos para com eles, que com tanto amor lhe obedecem e em tamanhas necessidades nos auxiliam.

Sejamos-lhes fiéis, sejamos gratos a tão grandes protetores; paguemos-lhes com amor; honremo-los tanto quanto pudermos, quanto devemos. Prestemos, no entanto, todo o nosso amor e nossa honra àquele que é tudo para nós e para eles; de quem recebemos poder amar e honrar, de quem merecemos ser amados e honrados.

Assim, irmãos, nele amemos com ternura seus anjos como futuros co-herdeiros nossos, e enquanto esperamos nossos intendentes e tutores dados pelo Pai como nossos guias. Porque agora somos filhos de Deus, embora não se veja, pois ainda estamos sob tutela quais meninos que em nada diferem dos servos.

Aliás, mesmo assim tão pequeninos e restando-nos ainda uma tão longa, e não só tão longa, mas ainda tão perigosa caminhada, que temos a temer com tão poderosos protetores? Eles não podem ser vencidos, nem seduzidos, e ainda menos seduzir, aqueles que nos guardam em todos os nossos caminhos. São fiéis, são prudentes, são fortes; por que trememos de medo? Basta que os sigamos, unamo-nos a eles e habitaremos sob a proteção do Deus do céu.

-- Dos Sermões de São Bernardo, abade (século XII)

28 de set. de 2012

Castelo de Sant'Angelo - Roma

Castelo de Sant'Angelo. No topo está a imagem de São Miguel

No ano de 590 uma grande praga estava a matar muitíssimas pessoas em Roma. Os cristãos, em desespero, colocaram um ídolo no altar da Igreja de Santa Ágata. O Papa Gregório teve uma visão e organizou uma procissão pela cidade até a Igreja. Ao entrarem na Igreja, o ídolo caiu no chão, desfazendo-se em muitos pedaços. No retorno da procissão até o Vaticano, após atravessarem a Ponte Aelia, o Papa avistou São Miguel sobre um castelo, cuja espada pingando sangue apontava sobre a cidade, colocando-a na bainha da cintura. Conta-se que a praga afastou-se e ninguém mais caiu doente ou morreu.  
A imagem de São Miguel, obra do escultor
Peter Anton von Verschaffelt.

O Castelo foi aprimorado pelo Papa Nicolau III no século 14, quando foi conectado por um corredor à residência dos papas. Em 1527, quando o Rei Carlos V invadiu Roma, o Papa Clemente VII refugiou-se no castelo. Em 1667, o Papa Clemente IX fez colocar uma imagemd e São Miguel no alto do prédio, de modo que quem estiver atravessando a ponte, veja a imagem de frente. 

Ao longo dos séculos, o Castelo nunca foi derrotado. No século XIX foi utilizado como prisão. Restaurado no início do século XX, hoje é um museu bastante interessante. 

* 29 de Setembro é Festa dos Arcanjos Miguel, Rafael e Gabriel. O texto litúrgico é de São Gregório Magno.

4 de set. de 2012

Sobre as orações (Compêndio da Doutrina Católica)


Que outra oração costumamos dizer depois do Pai Nosso?
- A Ave maria, com a qual recorrermos à Virgem Santíssima.

Por que razão depois do Pai Nosso rezamos mais vezes a Ave Maria do que qualquer outra oração?
- Porque a Virgem Santíssima é a mais poderosa advogada para com seu Filho Jesus Cristo; e por isso depois de rezarmos a Oração que nos ensinou o mesmo Senhor, rogamos à Virgem Santíssima, que nos alcance as graças que a Ele tínhamos pedido.

Repete essa oração:
- Ave Maria cheia de graças, o Senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres; bendito é o fruto do teu ventre Jesus. Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós pecadores agora e na hora de nossa morte. Amém.

É bom e proveitoso pedirmos também aos outros santos?
- É coisa utilíssima e o deve fazer todo cristão. Devemos particularmente orar aos nossos Santos Anjos da Guarda, aos santos, especialmente de quem temos o nome, e aos protetores do bispado e da freguesia* (cidade).

Em que se diferem as orações que fazemos a Deus das que fazemos aos Santos?
- Em que nós rogamos a Deus, que nos dê os bens e nos livre dos males, e aos Santos lhes pedimos que roguem e intercedem por nós.

Que queremos dizer, quando dizemos que tal Santo fez aquela graça?
- Que aquele Santo alcançou de Deus aquela graça.

Com que oração haveis de implorar a proteção do Anjo da Guarda?
- Com aquela que comumente chamamos de Angele Dei.

Dizei em língua portuguesa?
- Anjo do Senhor, que foste dado para minha guarda por ordem da piedosa providência de meu Deus, guardai-me nesse dia, ilustrai o meu entendimento, dirigi os meus afetos e governai os meus sentidos para não ofender ao meu Senhor. Amém.

Que outro objetivo tendes em dizer esta oração?
- De render as graças ao anjo da guarda pelo amoroso cuidado, que continuamente tem de mim. 

NT: A versão mais popular do Angele Dei no Brasil é diferente: Santo Anjo do Senhor, meu zeloso guardador, se a ti me confiou a piedade divina, sempre me rege, me guarda, me governa me ilumina. Amém

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

16 de mai. de 2012

Maria, Theotókos

Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido duma mulher. Com estas palavras da Carta aos Gálatas (4, 4), o Apóstolo Paulo une entre si os momentos principais que determinam essencialmente o cumprimento do mistério preestabelecido em Deus (cf. Ef 1, 9). O Filho, Verbo consubstancial ao Pai, nasce como homem de uma mulher, quando chega a plenitude dos tempos. Este acontecimento conduz ao ponto chave da história do homem sobre a terra, entendida como história da salvação. É significativo que o Apóstolo não chame a Mãe de Cristo com o nome próprio de Maria, mas a defina como mulher: isto estabelece uma concordância com as palavras do Proto-Evangelho no Livro do Gênesis (cf. 3, 15). Precisamente essa mulher está presente no evento salvífico central, que decide da plenitude dos tempos: esse evento realiza-se nela e por seu meio.


A mulher encontra-se no coração deste evento salvífico. A auto-revelação de Deus, que é a imperscrutável unidade da Trindade, está contida, nas suas linhas fundamentais, na Anunciação de Nazaré. Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo — Como se realizará isso, pois não conheço homem? — Virá sobre ti o Espírito Santo e a potência do Altíssimo estenderá sobre ti a sua sombra. Por isso mesmo o Santo que vai nascer será chamado Filho de Deus... A Deus nada é impossível  (cf. Lc. 1, 31-37). 

É fácil pensar neste evento na perspectiva da história de Israel, o povo eleito do qual Maria descende; mas é fácil também pensá-lo na perspectiva de todos aqueles caminhos pelos quais a humanidade desde sempre procura resposta às interrogações fundamentais e, ao mesmo tempo, definitivas que mais a afligem. Não se encontra, talvez, na Anunciação de Nazaré, o início daquela resposta definitiva, mediante a qual Deus mesmo vem ao encontro das inquietudes do coração humano? Aqui não se trata apenas de palavras de Deus reveladas através dos Profetas; mas da resposta pela qual realmente o Verbo se faz carne (cf. Jo 1, 14). Maria alcança assim uma tal união com Deus que supera todas as expectativas do espírito humano. Supera até mesmo as expectativas de todo Israel e, particularmente, das filhas deste povo escolhido; estas, tendo por base a promessa, podiam esperar que uma delas se tornasse um dia Mãe do Messias. Qual delas, todavia, podia supor que o Messias prometido seria o Filho do Altíssimo? A partir da fé monoteísta do Antigo Testamento, isto se tornava dificilmente conjeturável. Só pela força do Espírito Santo, que estendeu a sua sombra sobre ela, Maria podia aceitar o que é impossível para os homens, mas possível para Deus (cf. Mc 10, 27).


Assim a plenitude dos tempos manifesta a extraordinária dignidade da mulher. Esta dignidade consiste, por um lado, na elevação sobrenatural à união com Deus, em Jesus Cristo, que determina a profundíssima finalidade da existência de todo homem, tanto na terra, como na eternidade. Deste ponto de vista, a mulher é a representante e o arquétipo de todo o gênero humano: representa a humanidade que pertence a todos os seres humanos, quer homens quer mulheres. Por outro lado, porém, o evento de Nazaré põe em relevo uma forma de união com o Deus vivo que pode pertencer somente à mulher, Maria: a união entre mãe e filho. A Virgem de Nazaré torna-se, de fato, a Mãe de Deus.

Esta verdade, recebida desde o início da fé cristã, foi solenemente formulada no Concílio de Éfeso (ano 431). Contrapondo-se à opinião de Nestório, que considerava Maria exclusivamente mãe de Jesus-homem, este Concílio salientou o significado essencial da maternidade da Virgem Maria. No momento da Anunciação, respondendo com o seu fiat, Maria concebeu um homem que era Filho de Deus, consubstancial ao Pai. Portanto, é verdadeiramente a Mãe de Deus, uma vez que a maternidade diz respeito à pessoa inteira, e não apenas ao corpo, nem tampouco apenas à natureza humana. Deste modo o nome Theotókos — Mãe de Deus — tornou-se o nome próprio da união com Deus, concedida à Virgem Maria.

A união singular da Theotókos com Deus, que realiza do modo mais eminente a predestinação sobrenatural à união com o Pai prodigalizada a todo homem (« filii in Filio »), é pura graça e, como tal, um dom do Espírito. Ao mesmo tempo, porém, mediante a resposta de fé, Maria exprime a sua livre vontade e, portanto, a plena participação do eu pessoal e feminino no evento da Encarnação. Com o seu fiat, Maria torna-se o sujeito autêntico da união com Deus que se realizou no mistério da Encarnação do Verbo consubstancial ao Pai.

Toda ação de Deus na história dos homens respeita sempre a vontade livre do eu humano. O mesmo acontece na Anunciação em Nazaré.

-- Carta Apostólica Mulieres Dignitatem, do Papa João Paulo II, no dia 15 de Agosto — Solenidade da Assunção de Maria Santíssima — do ano de 1988, décimo de Pontificado.

8 de mar. de 2012

A vida de Moisés - A sarça ardente e o início da missão no Egito


Moisés e a Sarça Ardente, de A. Friberg

Ele escolheu conduzir nos montes uma vida solitária, afastada do tumulto das praças e dedicada a guardar os rebanhos no deserto. A história nos conta (Ex 3, 1-6) que, passado algum tempo nesta vida, Moisés recebeu uma surpreendente aparição de Deus: em um tranqüilo meio dia, reluziu ante seus olhos uma luz mais forte que a luz do sol; estranhando o inusitado do espetáculo, levantou os olhos para o monte e viu um arbusto do qual saia um resplendor como de fogo. Como os ramos da planta estavam verdes como se as chamas fossem orvalho, disse a si mesmo estas palavras: vamos e vejamos este grande espetáculo. 

Isto nos diz que o prodígio da luz não somente se mostrou a seus olhos mas, o que é mais impressionante de tudo, seus ouvidos foram iluminados com os resplendores da luz. Com efeito, a graça da luz foi distribuída a ambos os sentidos: os olhos foram iluminados com os resplendores da luz, e os ouvidos foram levados à luz com instruções puríssimas. Isto é, a voz que saía daquela luz proibiu Moisés de aproximar-se do monte com calçados feitos de peles mortas; quando ele livrou seus pés dos calçados, tocou assim aquela terra que estava iluminada com a luz divina. 

Depois dessas coisas, não julgo oportuno que o discurso se entretenha muito na história deste homem, para ater-nos mais a nosso propósito, fortalecido com a teofania que vira, recebeu a missão de livrar o seu povo da escravidão dos egípcios. E para que melhor se convencesse da força que recebia do alto, ele, por disposição de Deus, faz a experiência com o que tem nas mãos. Esta foi a experiência: o bastão que sua mão deixou cair se animou, e quando foi retomado por suas mãos, voltou a ser o que era antes de transformar-se em animal. Depois o aspecto de sua mão quando a tira do seio se transforma em um branco como de neve, e re-introduzida ao seio recobra seu aspecto natural (Ex 4, 2-7). 

Quando Moisés descia do Egito levando consigo sua esposa, que era estrangeira, e os filhos que tinha tido com ela, conta-se que um anjo saiu-lhe ao encontro causando-lhe um medo de morte, e que a mulher o aplacou com o sangue da circuncisão do menino. Foi então que ocorreu o encontro com Aarão que fora impelido por Deus para este encontro (Ex 4, 24-28). Ambos convocam então o povo para uma assembléia geral e anunciam aos que estavam oprimidos pelo padecimento dos trabalhos, a libertação da escravidão. 

Sobre este tema ele teve uma conversa com o tirano. Por causa dessas coisas, aumentou a cólera do tirano contra os que dirigiam os trabalhos e contra os israelitas: aumentou então o tributo de ladrilhos, e enviou uma ordem mais pesada, de forma que os israelitas não só padeciam pelo barro, mas também eram sobrecarregados por causa da palha e das canas (Ex 5, 1-23). 

Depois o Faraó, este era o nome do tirano egípcio, tentou fazer frente, com os encantamentos dos feiticeiros, aos prodígios que eles faziam pela vontade de Deus. Quando Moisés tornou a converter seu bastão em animal ante os olhos dos egípcios, a magia pareceu realizar o mesmo prodígio nos bastões dos magos. Porem o engano foi desmascarado, pois a serpente surgida da transformação do bastão de Moisés, ao comer os troncos dos magos, isto é, as serpentes, demonstrou assim que os bastões dos magos não tinham nenhuma força para se defender e nem para viver, mas apenas a aparência de um truque mágico para verem os olhos daqueles que eram fáceis de enganar (Ex 7, 8-12). 

Quando Moisés viu que todos os súditos estavam de acordo com o príncipe da maldade, fez vir uma praga geral sobre todo o povo egípcio, sem que ninguém escapasse da experiência dos males. E para infligir este castigo aos egípcios, cooperaram com ele os mesmos elementos que vemos no universo: a terra, a água, o ar, o fogo, que trocaram suas forças conforme a vontade dos homens.

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

7 de mar. de 2012

A vida de Moisés - Infância e Juventude

Encontrando Moisés, de
Frederick Goodall (1885) 
Diz-se que Moisés viu a luz quando a lei do tirano proibia manter vivos os varões que nascessem (Ex 1, 16) e que com sua graça pressagiava já toda a graça que com o tempo haveria de reunir. Parecia tão belo já em fraldas (Ex 2, 2), que seus pais resistiram a destruí-lo com a morte. Depois, quando a ameaça do tirano se fez mais forte, não o atiraram sem mais à corrente do Nilo, mas o colocaram em uma cesta cujas junções haviam sido calafetadas com breu e piche, e desta forma o entregaram à corrente. Assim o explicam aqueles que refizeram cuidadosamente a história que a ele se refere. 

Guiada por uma força divina, a cesta arribou a uma encosta transversal, levada a este lugar pelo próprio movimento das águas. A filha do rei veio à região da praia onde se encontrava a cesta e, sendo alertada pelos gemidos que vinham da caixa, converteu-o em achado da rainha. Imediatamente, a princesa, vendo a beleza que resplandecia dele, encheu-se de benevolência e o adotou como filho. E posto que ele rechaçasse instintivamente um peito estranho, foi alimentado com o peito materno graças a um ardil de parentes (Ex 2, 1-9). 

Durante sua educação de príncipe, instruído nas ciências estrangeiras, ao sair da infância não escolheu as coisas que eram tidas em grande apreço pelos estrangeiros, nem deixou ver que confessava como mãe àquela mãe inventada que o havia feito filho adotivo, mas retornou à sua mãe natural e se misturou com os que eram de sua estirpe. 

Tendo-se originado uma briga entre um hebreu e um egípcio, tomou o partido do compatriota e matou o egípcio (Ex 2, 11–13). Pouco depois, quando brigavam dois hebreus, tentou acalmar a querela fazendo-os notar que, entre irmãos, é bom tomar como árbitro das divergências a natureza e não a ira (Ex 2, 13–15). Rechaçado por aquele que se inclinava à injustiça (Ex 2, 16-21) (At 7, 23-28), fez desta afronta o ponto de partida para uma filo mais alta: depois disto, tendo se afastado da convivência com a multidão (Ex 2, 15), passa a vida na solidão e contrai parentesco com um estrangeiro sagaz para discernir o melhor e acostumado a julgar os costumes e a vida dos homens. 

Bastou a este uma única ação – refiro-me ao ataque dos pastores – para descobrir a virtude do jovem: como havia lutado pela justiça sem pensar em seu próprio proveito, mas por achar que o justo é valioso por sua própria natureza, e como castigara a injustiça dos pastores, que não haviam feito nenhum dano a ele. Tendo admirado o jovem por estas coisas, e estimando que, apesar de sua manifesta pobreza, sua virtude era mais valiosa que uma grande riqueza, entrega-lhe sua filha por esposa, e permite-lhe levar uma vida segundo seus desejos.

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)


16 de fev. de 2012

Terceira hierarquia: principados, arcanjos e anjos


Ícone ortodoxo: O conselho dos Anjos

Falta-me contemplar a terceira ordem que termina a hierarquia angélica e que se compõe de Principados, Arcanjos e Anjos. Creio que em primeiro lugar é preciso explicar o sentido desses nomes sagrados.

O nome dos Principados celestes significa que eles possuem na ordem sagrada um princípio e uma hegemonia de forma divina; que eles possuem das potências de comando da mais alta conveniência o poder de se converterem inteiramente ao Princípio que está acima de todo o princípio e de conduzirem os outros para eles com uma autoridade primordial e de revelarem o Princípio Sobreessencial de toda a ordem pela harmonia do seu comando.

Os Santos Arcanjos têm o mesmo nível que os Principados celestes e formam uma única
hierarquia juntamente com os Anjos.

A ordem dos Arcanjos, graças ao seu lugar intermediário na hierarquia, participa nos dois extremos uma vez que ela entra em comunhão com os Principados e com os Anjos. Em um dos extremos ela participa no sentido de sua conversão ao Princípio Sobreessencial e lhe confere a unidade graças aos poderes invisíveis da harmonização; no outro extremo ela participa no sentido de também pertencer ao nível dos intérpretes, recebendo hierarquicamente a iluminação por intermédio das potências do primeiro nível transmitida aos Anjos e por intermédio desses transmitida a nós na medida em que cada um possa recebê-la através dos segredos divinos.

Como já dissemos, os Anjos terminam e completam a regra das inteligências celestes, porque são eles que possuem entre elas o mais baixo grau da qualidade angélica e se nós os designamos por anjos é precisamente porque por seu intermédio se manifesta a sua hierarquia mais claramente aos nossos olhos.

A ordem superior (Tronos, Querubins e Serafins) mais próxima — pela sua dignidade — do Santuário Secreto inicia misteriosamente a segunda ordem, aquela que se compõe das Dominações, Potestades e Virtudes, que por outro lado comanda os Principados, Arcanjos e Anjos. A segunda ordem revela os mistérios menos secretamente que a primeira ordem mas menos abertamente que a última. A função reveladora pertence à ordem dos Principados, Arcanjos e Anjos. É ela que através dos graus da sua própria ordenação preside as hierarquias humanas, a fim de que se produzam de modo ordenado a elevação para Deus, a conversão, a comunhão, a união e ao mesmo tempo o movimento que provem de Deus que gratifica liberalmente todas as hierarquias e dons e as ilumina, fazendo com que essas  hierarquias humanas entrem em comunhão com essa função reveladora. Daí resulta, que a teologia reserva aos Anjos o cuidado pela nossa hierarquia chamando a Miguel o arconte (magistrado da Grécia antiga) do povo judeu e aos outros anjos arcontes de outras nações, porque: "Quando o Altíssimo dividiu as nações, quando separou os filhos de Adão, fixou os limites dos povos segundo os números dos filhos de Israel" (Dt 32:8) (versão dos 70). Se nos perguntarmos como é que apenas o povo judeu foi elevado às iluminações de origem divina? É necessário dizer que os anjos preencheram de justiça a sua função de vigilância e não é culpa deles se outras nações se envolveram no culto de falsos deuses. Foram essas nações, com efeito, que pelos seus próprios movimentos abandonaram a via da ascensão espiritual para o divino. Foi à medida do seu orgulho e da sua presunção que elas veneraram os ídolos que lhes pareciam divinos. O povo hebreu testemunha propriamente essa verdade, pois a ele sucedeu-se o mesmo acidente. Porque as Sagradas Escrituras dizem: "O meu povo calou-se, porque não teve ciência. Porque tu (ó sacerdote) rejeitaste a ciência, também Eu te rejeitarei a ti" (Os 4:6).
Os três anjos acolhidos por Abraão, obra de
Ludovico Carracci

Nem a nossa vida é necessariamente determinada, nem a liberdade dos seres submetidos à Providência das luzes divinas priva essas luzes do seu poder de iluminação providencial. Mas é a suficiente assimilação das visões — e da sabedoria que por elas é transmitida — que impede toda a participação nos dons luminosos da bondade paternal e constitui obstáculo a sua difusão, na medida em que torna as comunicações desiguais, pequenas ou grandes, obscuras ou claras, enquanto que a Fonte Radiante permanece única e simples sempre idêntica a si própria e superabundante. É assim mesmo entre as outras nações, nações das quais nós nos elevamos para o oceano indefinido e generoso dessa Luz Divina, que difunde os Seus dons sobre todos os seres. É para o único Princípio Universal que os anjos encarregados de cuidar de cada nação elevaram todos aqueles que os quiseram seguir. Lembremo-nos de Melquisedec que teve em si próprio um grande amor a Deus, do Deus Altíssimo e Verdadeiro. Os conhecedores da Sabedoria Divina não se contentaram em chamá-lo de amigo de Deus, mas chamaram-no de Sacerdote para indicar claramente aos homens sensatos que o seu papel não foi somente o de converter-se ao culto do verdadeiro Deus, mas ainda enquanto grande sacerdote teve a função de conduzir a outros na ascensão espiritual, a qual leva à Única e Verdadeira Divindade. "E Melquisedec, rei de Salém, trazendo pão e vinho, porque era sacerdote do Deus Altíssimo" (Gên 14:18).

Não nos esqueçamos do faraó que aprendeu sob a forma de visão de um anjo dedicado ao cuidado dos egípcios (Gên 41:1-7), tal como do príncipe dos Babilônios que aprendeu através do seu anjo particular; a solicitude do poder universal (Dan 12). Ministros do verdadeiro Deus, os anjos foram instituídos como condutores dessas nações para interpretarem as visões enviadas por Deus sob a forma alegórica, por intermédio de homens cuja santidade era próxima a dos anjos como Daniel e José; porque no Universo há um só Princípio e uma só Providência. Não poderíamos imaginar que Deus partilhasse o governo do povo judeu com anjos ou falsos deuses. As expressões que nos poderiam fazer crer nisso, devem ser interpretadas segundo um sentido sagrado. Elas não significam que Deus tenha partilhado o governo da humanidade, mas sim que neste mundo em que a Providência universal do Altíssimo tinha confiado para a salvação de todos os povos com anjos encarregados de os conduzir a Ele, foi só Israel que converteu-se à Luz e confessou o verdadeiro Senhor. Por isso, para mostrar que Israel tinha se devotado ao culto do verdadeiro Deus as Sagradas Escrituras exprimem-se assim: "A porção, porém, do Senhor é o Seu povo" (Dt 32:9).

Mas para mostrar que um dos anjos foi designado para a função de conduzir esse povo à confissão d’Aquele que é o Princípio Único e Universal, a teologia relata igualmente que Miguel preside ao governo do povo judeu. "Mas Eu te anuciarei o que está expresso na Escritura da Verdade; e em todas estas coisas ninguém Me ajuda senão Miguel, que é o vosso príncipe" (Dan 10:21).

As Sagradas Escrituras nos ensinam assim de modo claro, que não existe mais do que uma só Providência para o universo inteiro. Providência sobreessencialmente, transcendente a toda a potência visível ou invisível. Na medida do possível, todos os anjos dedicados a cada nação elevam para essa Providência aqueles que os seguem de bom grado.



14 de fev. de 2012

Segunda hierarquia: dominações, virtudes e potestades


Abordaremos agora a segunda ordem das inteligências celestes iniciando-nos no conhecimento das Dominações, Virtudes e Potestades. Cada uma dessas denominações revela a forma própria de cada inteligência angélica de imitar e se configurar a Deus.

O nome das santas Dominações significa a elevação espiritual livre de qualquer compromisso terreno tal como convém a uma entidade incorruptível e verdadeiramente livre, tendendo com um firme vigor para o verdadeiro princípio de toda a Dominação, recebendo ela e os seus subordinados à medida das suas forças a semelhança do Senhor e participando do princípio constante e divino de toda a Dominação.

No que concerne às santas Potestades o seu nome indica uma certa vigorosidade corajosa em todos os atos pelos quais se configuram a Deus. Uma vigorosidade que exclui qualquer enfraquecimento de forças no recebimento das iluminações divinas que lhe é outorgada; uma vigorosidade que se eleva corajosamente até a imitação de Deus e que não abandona a ascensão à forma divina e cujo olhar permanece rigidamente direcionado para a fonte de toda a potestade Sobreessencial. Porque essa vigorosidade torna-se imagem da potestade, da qual ela assume a forma, ligando-se a ela com todas as suas forças para fazer descer sobre as essências inferiores o seu processo dinâmico e deificante.

O nome das Virtudes indica que ela tem o nível igual das Dominações e Potestades. Ela é disposta harmonicamente e sem confusão para receber os dons divinos. Ela indica ainda que o poder intelectual que lhe pertence é perfeitamente ordenado e que longe de abusar do seu poder ela se eleva harmoniosamente para as realidades divinas, conduzindo na sua bondade as essências inferiores e imitando tanto quanto pode a virtude fundamental, que é a fonte de toda a virtude sem deixar de difundí-la na medida de sua capacidade.

Eis como a segunda hierarquia das inteligências celestes manifesta a sua identidade com Deus. É assim que ela se purifica, se ilumina e se aperfeiçoa graças às iluminações divinas que lhe são transmitidas pelos membros da primeira ordem hierárquica. Essa tradição, que se transmite regularmente de anjo a anjo, simbolizará a nós essa perfeição que vinda de longe, se confunde descendo progressivamente do primeiro ao segundo nível. Do mesmo modo, as evidentes perfeições das realidades divinas são mais perfeitas que as participações nas visões divinas que se fazem através de intermediários.

Assim parece-me que a participação imediata das ordens angélicas que mais se aproximam de Deus é mais clara que a dos anjos cuja iniciação é mediata. É por isso que segundo os termos consagrados pela nossa tradução as primeiras inteligências iluminam e purificam as que têm um nível (hierárquico) inferior, de modo que essas últimas elevadas por intermédio da primeira até o princípio Universal e Sobreessencial tomem parte tanto quanto lhes é possível nas iluminações e nos aperfeiçoamentos operados por Aquele, que é o princípio de toda a perfeição. 

A Lei Universal, pela qual as essências celestes da segunda ordem participam por intermédio das de primeira ordem nas iluminações divinas, é instituída pelo Princípio Divino. Deus no Seu amor paternal pelos homens depois de ter corrigido Israel para convertê-lo e reconduzí-lo ao caminho da salvação, livrou-o em primeiro lugar da barbárie vingativa das nações, a fim de assegurar o aperfeiçoamento aos homens submetidos a Sua providência e praticou em seguida o ato de libertá-lo de seu cativeiro e de devolvê-lo a sua antiga felicidade. Como diz as Sagradas Escrituras segundo a visão de um de seus teólogos Zacarias (Zac 1:8-17), parece ter sido um anjo da primeira ordem, daqueles que vivem junto de Deus, que recebeu do próprio Deus as palavras consoladoras. Foi enviado ao encontro do primeiro um outro anjo pertencente aos níveis inferiores para receber e transmitir a iluminação e que uma vez iniciado na vontade divina, confiou ao teólogo a santa nova de que Jerusalém refloresceria e que multidões de homens a repovoariam. 

Um outro teólogo Ezequiel declara que essa lei foi santamente instituída por Deus e que na Sua glória mais elevada do que qualquer outra, Ele comanda os Querubins. "Estes são os mesmos animais que eu vi debaixo do Deus de Israel, junto do rio Cobar; e conheci que eram Querubins" (Ez 10:20). Deus no Seu amor paternal pelos homens e querendo punir Israel para os ensinar ordenou por um ato de justiça que os inocentes fossem separados dos responsáveis. É o primeiro dos Querubins que segundo o texto sagrado recebe a santa ordem e se reveste de um manto que caí até os pés como símbolo da sua função sagrada. Em seguida, somente o Princípio Divino de toda a ordem prescreve ao primeiro dos anjos que o segredo da decisão divina seja transmitido àqueles anjos que usam armas destruidoras. Lhe é ordenado ainda que atravesse toda a cidade de Jerusalém e marque os inocentes nas suas frontes. Aos outros anjos Ele ordena: "Passai pelo meio da cidade, seguindo-o, e feri: não sejam compassivos os vossos olhos, nem tenhais compaixão alguma. O velho, o jovem e a donzela, o menino e as mulheres, matai todos, sem que nenhum escape; mas não mateis nenhum daqueles sobre quem virdes o tau; começai pelo Meu santuário. Começaram, pois pelos anciãos que estavam diante da casa do Senhor" (Ez 9:5-6).

E que dizer ainda daquele anjo que anunciou a Daniel: "Desde o princípio das tuas preces, foi dada esta ordem, e eu vim para ta descobrir, porque tu és um varão de desejos; toma, pois, bem sentido no que vou dizer-te e compreende a visão" (Dan 9:23). Ou daquele que recebe o fogo do meio dos Querubins: "E (o Senhor) falou ao homem que estava vestido de roupas de linho, dizendo: Vai ao meio das rodas que estão debaixo dos Querubins, enche a tua mão de carvões ardentes, que estão entre os Querubins, e espalha-os sobre a cidade..." (Ez 10:2).

E ainda daquele que demonstra mais claramente a boa ordem que preside aos anjos: o Querubim que toma o fogo e o põe nas mãos daquele que estava vestido de roupas de linho (Ez 10:6-7).

Que dizer igualmente daquele que chamou o divino Gabriel e lhe disse: "Ouvi a voz dum homem no meio de Ulai, o qual gritou e disse: Gabriel, explica-lhe esta visão" (Dan 8:16). Ou que dizer enfim de todos os outros exemplos fornecidos pelos santos teólogos?

12 de fev. de 2012

Primeira hierarquia: querubins, serafins e tronos


Todos os nomes atribuídos às inteligências celestes  designam capacidades para eles receberem a semelhança divina. 

Querubim em hebraico significa "aquele que arde". Significa também "massa de conhecimento e efusão de sabedoria". 

A primeira hierarquia é a mais sublime de todas e graças a sua proximidade com Deus recebe primeiro que as outras as aparições Dele e os seus nomes revelam o modo como se ligam a Ele. 

Os Serafins têm como qualidades especiais o movimento perpétuo em torno dos segredos divinos, o calor, a profundidade, o ardor dum constante movimento que não conhece diminuição, o poder de elevarem eficazmente as suas semelhanças aos que lhes são inferiores, comunicando-lhes o mesmo ardor a mesma chama e o mesmo calor. Eles têm o poder de purificarem a evidente e indestrutível aptidão para conservarem a sua própria luz, o seu poder de iluminação e a faculdade de abolirem todas as trevas. 

Os Querubins designam aptidões a conhecerem e a contemplarem a Deus, a receberem os mais altos dons da Sua Luz, a contemplarem na sua potência primordial o esplendor divino, a acolherem em si a plenitude dos dons que transmitem sabedoria e a comunicá-los em seguida às essências inferiores graças a expansão da própria sabedoria que lhes foi transmitida. Os Tronos, sublimes e luminosos, indicam a ausência total de qualquer concessão aos bens inferiores e a tendência contínua para os cumes, que sublinha bem o fato de eles nada terem em comum com o que lhes está abaixo. Eles indicam a sua infalível aversão a toda indignidade, a grande concentração de toda a sua capacidade para se manterem constante e firmemente perto do Altíssimo, a capacidade de receberem indiferentemente todas as visitações da Divindade, o privilégio que têm de servirem de assento a Deus e o seus zelos em se abrirem aos dons de Deus. 

Essa é a explicação de seus nomes na medida do que nos é possível revelar aos homens. 

Resta-nos dizer o que entendemos pela suas hierarquias. Que o objetivo de toda hierarquia é imitar constantemente a Deus; que toda a função hierárquica consiste em acolher e transmitir a pureza sem mistura da luz divina e da sabedoria, como já o dissemos. 

Agora proponho-me a mostrar o que as Escrituras revelam das suas hierarquias. 

Esses seres angélicos constituem uma só hierarquia  inteiramente homogênea. Devemos pensar que eles são puros não apenas por estarem livres de todo o pecado e de tudo o que é profano, mas porque eles ignoram toda a imaginação material; porque estão acima de toda a fraqueza; porque a sua sublime pureza ultrapassa a  de quaisquer outras inteligências angélicas; porque conservam sem qualquer perda ou corrupção a estabilidade perpétua do poder que possuem de estarem em harmonia com Deus. 

Eles são igualmente contemplativos. Não porque contemplem intelectualmente símbolos nem porque se elevem espiritualmente através de santas alegorias, mas porque recebem em toda a plenitude o saber de uma Luz superior através da contemplação desse Ser Sobreessencial e triplamente luminoso, que está na origem e no princípio de toda a beleza. 

Eles têm igualmente o mérito de entrarem em comunhão com Jesus através de uma verdadeira proximidade, pois tomam parte no conhecimento de Suas operações divinas, uma vez que lhes foi dada no mais alto grau a capacidade de imitarem a Deus. Eles entram em contato tanto quanto lhes é possível com as virtudes, pelas quais Ele exerce a Sua ação divina face aos homens e manifesta o Seu amor por eles. 

Eles são perfeitos não pela iluminação de uma sabedoria que lhes permitiria analisar a variedade dos santos mistérios, mas pela plenitude duma deificação, pela ciência superior que possuem na qualidade de mensageiros das operações divinas. É diretamente de Deus que eles recebem a iniciação sagrada e é graças a esse poder de se elevarem diretamente até Deus, que eles devem a superioridade sobre todos os outros seres. 

Os teólogos mostram claramente que as ordens inferiores das essências celestes aprendem de seus superiores tudo o que lhes concernem às operações divinas, enquanto que a ordem mais elevada é iniciada por Deus. Eles nos revelam, que certos anjos são iniciados por aqueles que possuem um nível mais elevado que o seu e que aprendem através desses, que Deus é o Senhor das potências celestes, o Rei da Glória, que sob a forma humana subiu aos céus. Outros recebem de Jesus Cristo a sua iniciação sem intermediários, recebendo d’Ele antes de todos os outros a revelação da obra redentora que Ele levou a cabo por amor aos homens. "Eu sou (responderá Ele) O que falo a justiça, e venho para defender e salvar" (Is 63:1). 

Assim é, tanto quanto eu posso conhecer, essa primeira ordem das essências celestes, aquela que rodeia a Deus e que se situa na Sua vizinhança, aquela que envolve o Seu perpétuo conhecimento. Ela pode não somente contemplar, mas ainda receber iluminações e sustentar-se do maná divino. Digna ao mais alto nível, de entrar em comunhão e em cooperação com Deus, essa primeira ordem assemelha-se tanto quanto pode à bondade dos poderes e das operações próprias a Deus. 

É por isso que a teologia nos transmite os hinos que cantam esses anjos, onde se manifesta o caráter transcendente da sua sublime iluminação.  Se ousarmos utilizar uma imagem terrena, eles se assemelham à voz de uma torrente tempestuosa quando gritam:  "Bendita seja a glória do Senhor, que se vai do seu lugar" (Ez 3:12). Outros anjos entoam o hino célebre e venerável: "Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está cheia da Sua glória" (Is 6:3). 

Nessa primeira ordem das essências celestes estão os lugares divinos, onde segundo a expressão das Sagradas Escrituras a Divindade "repousa". Essa ordem ensina também aos outros anjos que a Divindade é una. Una em Três Pessoas e que Ela exerce a sua Providência benfeitora desde as essências que vivem no céu até as mais baixas criaturas terrenas, pois Ela é o Princípio e a Causa de toda a essência e é Ela que envolve o universo inteiro de modo sobreessencial num abraço irresistível. 

-- Do livro Hierarquia Celeste, atribuído a Dionísio o Areopagita

Os anjos


* Vou publicar nesta semana uma sequência de capítulos do livro Hierarquia Celeste, atribuído a Dionísio, o Areopagita, um dos discípulos diretos de São Paulo em Atenas, citado no Atos dos Evangelhos: "Assim saiu Paulo do meio deles. Todavia algumas pessoas, agregando-se a ele, abraçaram a fé; entre as quais foi Dionísio, o areopagita..." (At 17:33-34). No entanto, análises mais modernas do texto indicam que ele teria sido escrito não antes do século V. De qualquer modo, o conteúdo é considerado uma expressão autêntica da tradição católica. 

Teto do Batistério de São João, em Florença/Itália.
Cada círculo representa um nível da hieraquia celeste.
Quais e quantas são as ordens desses seres que vivem no Céu? Como é que cada  hierarquia recebe a sua consagração ou o seu aperfeiçoamento? Afirmo que apenas o Princípio Divino poderia responder exatamente a essas questões. Mas os seres angélicos não ignoram nem as qualidades que lhes são próprias, nem a hierarquia sagrada que os rege e que não pertence a este mundo. 

É impossível conhecermos os segredos das inteligências que vivem no céu, a menos que Deus nos revele por intermédio dessas mesmas inteligências, as quais não ignoram a sua própria natureza. Portanto, não faremos nada de nossa própria autoria e nos contentaremos em expor na medida dos nossos conhecimentos essas visões angélicas, tal como os santos teólogos as contemplam e tal como eles a nós revelaram.

Os seres angélicos dividem-se em três ordens e possuem nove nomes:

- A primeira ordem rodeia a Deus de modo permanente e está unida a Ele constantemente. Ela está em primeiro lugar e não possui qualquer mediação: são os Tronos santíssimos e os batalhões notáveis por seus números de olhos e de asas que recebem os nomes de Querubins e Serafins. Eles têm uma proximidade de Deus superior a todos os outros. Essa ordem de três batalhões formam uma só e constitui a primeira hierarquia de nível igual. 

- A segunda ordem compõe-se de  Virtudes,  Dominações e  Potestades constituindo a segunda hierarquia. 

- A terceira ordem constitui a última hierarquia celeste. É a ordem dos Anjos, Arcanjos e Principados.


29 de set. de 2010

A palavra anjo indica o ofício, não a natureza

É preciso saber que a palavra Anjo indica o ofício, não a natureza. Pois esses santos espíritos da pátria celeste são sempre espíritos, mas nem sempre podem ser chamados de Anjos, porque somente são Anjos quando por eles é feito algum anúncio. Aqueles que anunciam fatos menores são ditos Anjos; os que levam as maiores notícias, Arcanjos.

Foi por isso que à Virgem Maria não foi enviado um Anjo qualquer, mas o Arcanjo Gabriel; para tal missão, era justo que fosse o máximo Anjo para anunciar a máxima notícia.

Por esse motivo, também a eles são dados nomes especiais para designar, pelo vocábulo, seu poder na ação. Naquela santa cidade, onde há plenitude da ciência pela visão do Deus onipotente, não precisam de nomes próprios para distinguirem uns dos outros. Mas quando vêm até nós para cumprir uma missão, trazem também entre nós um nome derivado dessa missão. Assim, Miguel significa “Quem como Deus?”; Gabriel, “Força de Deus”; e Rafael, “Deus cura”.

Todas as vezes que se trata de grandes feitos, diz-se que Miguel é enviado, porque pelo próprio nome e ação dá-se a entender que ninguém pode por si mesmo fazer o que Deus quer destacar. Por isso, o antigo inimigo, por soberba, cobiçou ser igual a Deus, dizendo: “Subirei ao céu, acima dos astros do céu erguerei meu trono, serei semelhante ao Altíssimo” (cf. Is 14, 13-14); no fim do mundo, quando será abandonado às próprias forças para ser destruído no extremo suplício, pelejará com o Arcanjo Miguel, como diz João: Houve uma luta com o Miguel Arcanjo (Ap 12, 7).

A Maria é enviado Gabriel, que significa “Força de Deus”. Vinha anunciar aquele que se dignou aparecer humilde para combater as Potestades do ar. Portanto, devia ser anunciado pela força de Deus o Senhor dos Exércitos que vinha poderoso no combate.

Rafael, significa “Deus cura”, porque ao tocar nos olhos de Tobias como que num ato de cura, lavou as trevas de sua cegueira. Quem foi enviado a curar, com justiça se chamou “Deus cura”.

-- Das Homilías sobre os Evangelhos, de São Gregório Magno, Papa, século VI

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