29 de jul de 2011

O aborto é o grande destruidor da paz

Eu sinto que o grande destruidor da paz hoje é o aborto, porque é uma guerra contra as crianças, uma matança direta de inocentes, assassinados por sua própria mãe.

E se nós aceitamos que uma mãe possa matar inclusive ao seu próprio filho, como podemos dizer as pessoas que não se matem? Como convencemos uma mulher a não fazer um aborto? Como sempre, devemos persuadir-las com amor e recordá-las que o amor significa estar disposto a doar-se até quebrar-se. Jesus deu sua vida por nós.

Assim, a mãe que pensa em abortar deve ser ajudada a amar, ou seja, a doar-se até que quebre seus planos, o seu tempo livre, para respeitar a vida de seu filho. O pai desta criança, seja quem for, deve também doar-se até que se quebre.

Através do aborto, se diz ao pai que ele não tem nenhuma responsabilidade para com a criança que ele trouxe ao mundo. Este pai provavelmente vai colocar outras mulheres na mesma situação. Logo, um aborto só traz mais abortos.

Qualquer pais que aceite o aborto não está ensinando o seu povo a amar, senão a usar toda violência para conseguir o que desejar. Por isso o aborto é o maior destruidor do amor e da paz.

Vamos resgatar a criança. Os pequenos são um dom de Deus para  a família. Cada criança é criada a imagem e semelhança de Deus, com grandes objetivos - amar e ser amado. Quando as pessoas mais velhas são chamadas a Deus, somente seus filhos podem tomar seus lugares.

Mas o que nos diz Deus? Ele diz: Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não ter ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esqueceria nunca. Eis que estás gravada na palma de minhas mãos.  (Is 49, 15-16) Nós estamos gravados nas palmas das mãos de Deus, aquela criança que ainda não nasceu está gravado nas mãos de Deus desde a concepção e é chamado por Deus a amar e ser amado, não somente nesta vida, senão para sempre. Deus jamais esquecerá de nós.

Por favor, não mate a essa criança. Eu quero esta criança. Por favor, dá-me esta criança. Eu estou disposta a aceitar qualquer criança que esteja por ser abortada e dar a ela um casal que irá amá-la e ser amado  por ela.

A forma de planejar a família é a aceitar o planejamento natural, não a contracepção. Ao destruir o poder da vida através da contracepção, um marido ou esposa está fazendo algo contra si mesmo. Atrai a atenção para si e assim destroi o dom de amor existente entre os dois. Ao amar, o marido ou a esposa devem voltar sua atenção para o outro e ver como acontece o planejamento natural, e não para si mesmos, como ocorre quando se pratica a contracepção. Uma vez que o amor vivo é destruído pela contracepção, facilmente segue o aborto.

Tu também deves trazer esta presença de Deus para tua família, pois a família que reza unida, permanece unida. Existe tanto ódio, tanta miséria, e nós, com nossas orações, nossos sacrifícios, estamos começando em casa. O amor começa em casa, e não se trata de quantas orações fazemos, mas sim de quanto amor colocamos naquelas que fazemos.

Se lembrarmos que Deus nos ama e que nós também podemos amar aos outros como Ele nos ama, então a América pode ser um grande sinal ao mundo. Daqui deve sair um sinal ao mundo, um sinal de cuidado para com o mais débil dos débeis, a futura cirança.

-- Carta da Beata Madre Teresa de Cálcuta ao Presidente dos Estados Unidos Bill Clinton, século XX

28 de jul de 2011

A encarnação do verbo

Na encarnação do Verbo, a humildade foi acolhida pela majestade; a fraqueza, pela força; a mortalidade, pela eternidade. Para atender à dívida de nossa condição, a natureza inviolável uniu-se à natureza passível. Deste modo, bem condizente com nossa recuperação, o único e mesmo mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, poderia morrer mediante uma das naturezas e não morrer pela outra.

Portanto, na íntegra e perfeita natureza de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, todo (Deus) no que lhe é próprio, todo (homem) no que é nosso. Referimo-nos ao que é nosso, ao que no início o Criador criou em nós e que assumiu para restaurá-lo.

Porque nem o mais leva vestígio se encontrou no Salvador daquilo que o Sedutor sugeriu e que o homem, enganado, admitiu. E, pelo fato de ter aceitado a comunhão com as fraquezas humanas, não quer isto dizer que se tenha tornado participante de nossos delitos. Assumiu a forma de escravo, sem a mancha do pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o abaixamento, pelo qual o invisível se mostrou visível e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência de misericórdia, não uma falha do poder. Por conseguinte, aquele que, na forma de Deus, fez o homem, este mesmo fez-se homem, na forma de escravo.

Entrou, pois, neste mundo insignificante o Filho de Deus, descendo do trono celeste, sem se afastar da glória paterna, gerado por nova ordem, novo nascimento. Nova ordem, porque, invisível em si, fez-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido; vivo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo envolvendo na sombra a imensidão de sua majestade, tomou sobre si a forma de servo; o Deus impassível não rejeitou ser homem passível, e o imortal, submeter-se às leis da morte. Aquele que é verdadeiro Deus, ele mesmo é verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso; estão um para o outro, a humildade do homem e a grandeza da Divindade.

E do mesmo modo como Deus não muda pela comiseração (de se fazer um de nós), também o homem não é esmagado pela dignidade (de ter sua natureza unida a uma Pessoa divina). Cada uma das naturezas age, em comunhão com a outra, segundo o que lhe é próprio: o Verbo opera o que compete ao Verbo, e a carne realiza o que é da carne[. Um refulge com os milagres, a outra sucumbe aos maus tratos. E como o Verbo não se afasta da igualdade com a glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça. É um só o mesmo – há que se repetir muitas vezes – verdadeiramente Filho de Deus e verdadeiramente filho do homem. Deus, porque “no princípio era o Verbo, e o Verbo era junto de Deus, e o Verbo era Deus”; homem porque “o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

-- Do Tomus ad Flavianum, de São Leão Magno, papa – século V

A Igreja, esposa de Cristo

Católica ou universal chama-se a Igreja, porque se espalhou de um extremo a outro de todo o orbe da terra. Porque ensina universalmente e sem falha todos os artigos da fé que os homens precisam conhecer, seja sobre as coisas visíveis ou as invisíveis, seja as celestes ou as terrestres. Porque reúne no verdadeiro culto o gênero humano inteiro, autoridades ou súditos, doutos ou ignorantes. Enfim, porque cura e sana em todo o universo qualquer espécie de pecados cometidos pela alma e pelo corpo. Porque ela possui tudo, toda virtude, seja qual for o nome que se lhe dê, nas ações e nas palavras, bem como toda a variedade dos dons espirituais.

Basílica de São João em Laterano (Roma) foi construída
nas propriedades de uma das primeiras famílias cristãs
em Roma, os Lateranos. Foi a sede do papado por cerca de
mil anos, de 324 até 1309.
Igreja, isto é, convocação: nome bem apropriado porque convoca a todos e os reúne, como o Senhor diz no Levítico: Convoca toda a congregação (= Igreja) diante da porta do tabernáculo do testemunho. É de notar a palavra convocar, usada aqui pela primeira vez nas Escrituras, na ocasião em que o Senhor estabeleceu Aarão como sumo sacerdote. No Deuteronômio Deus diz a Moisés: convoca para junto de mim o povo para que me escutem e aprendam a temer-me. Há outra menção da Eclésia (= convocação), quando se fala das tábuas da Lei: Nelas estavam escritas todas as palavras que o Senhor vos falou no monte, do meio do fogo, no dia da Eclésia, isto é, convocação; como se dissesse mais claramente: No dia em que, chamados pelo Senhor, vos congregastes. O Salmista também diz: eu te confessarei, Senhor, na grande Eclésia, no meio do povo numeroso te louvarei.

Já antes o salmista cantara: Na Eclésia, bendizei o Senhor Deus, das fontes de Israel. O Salvador edificou com os gentios a segunda, a nossa Santa Igreja dos cristãos, da qual dissera a Pedro: E sobre esta pedra edificarei e minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela.

Rejeitada a primeira, a da Judéia, de ora em diante multiplicam-se as Igrejas de Cristo, aquelas de que se fala nos salmos: Cantai ao Senhor um cântico novo, seu louvor na Eclésia dos santos. De acordo com isto diz o Profeta aos judeus: Meu afeto não está em vós, diz o Senhor, e acrescenta logo: Por isso, do nascer do sol até o ocaso, meu nome é glorificado entre os povos. Desta mesma santa e católica Igreja escreve Paulo a Timóteo: Para que saibas como comportar-te na casa de Deus, a Igreja do Deus vivo, coluna e sustentáculo da verdade.

Igreja “Católica”: é o nome próprio desta santa Mãe de todos nós. É também a Esposa de nosso Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus. Com efeito, está escrito: Assim como Cristo amou a Igreja e a si mesmo se entregou por ela, e o que se segue. Ela também manifesta em si a figura e a imitação da Jerusalém do alto, que é livre e mãe de todos nós. Sendo antes estéril, é agora mãe de numerosa prole.

Repudiada a primeira, na segunda, isto é, na Igreja católica, Deus, no dizer de Paulo, estabeleceu em primeiro lugar os apóstolos, em segundo os profetas, em terceiro os doutores, depois o poder dos milagres, os dons de curar, de assistir, de governar, as diversidades das línguas, e toda outra virtude, quero dizer, a sabedoria e a inteligência, a temperança e a justiça, a misericórdia e a bondade, a insuperável paciência nas perseguições.

Ela, a Igreja, pelas armas da justiça à direita e à esquerda, na glória e no opróbrio, primeiro nas perseguições e angústias, coroou os santos mártires com coroas de variadas e múltiplas flores entrelaçadas com a paciência; agora, em tempos de paz, pela graça de Deus, recebe dos reis, dos homens ilustres e de todo gênero humano as honras devidas. Os reis, existentes em todo lugar, têm seu poder determinado pelos limites de seu reino. Unicamente a Santa Igreja Católica possui irrestrita autoridade em todo o orbe da terra: Pôs Deus a paz por seus confins, como está escrito.

Instruídos com os preceitos e modo de viver nesta Santa Igreja Católica, possuiremos o reino dos céus e receberemos por herança a vida eterna. Por este motivo, agüentamos absolutamente tudo para a alcançarmos de Deus. Nossa meta proposta não é nada insignificante: a posse da vida eterna, esta é a nossa luta. Por isso na profissão de fé, após termos dito: Na ressurreição da carne, isto é, dos mortos, já explicada, aprendamos a crer: E na vida eterna, que é a nossa batalha de cristãos.

Portanto, a vida em sua realidade e verdade é o Pai, que, pelo Filho no Espírito Santo, derama qual fonte os dons celestes sobre nós, e por sua benignidade também a nós, homens, nos foram firmemente prometidos os bens da vida eterna.

-- Das Catequeses de São Cirilo de Jerusálem, bispo (século IV)

27 de jul de 2011

Documentos históricos

Como podem ver, o post anterior é uma bula fundamental na história da Igreja, pois trata-se de uma correção escrita pelo Papa Leão X às teses de Martinho Lutero, num momento em que houvesse Lutero escutado a Igreja, muitíssimos sofrimentos teriam sido evitados.

Na verdade, esta bula é parte de um conjunto maior de documentos escritos ao longo dos séculos com o objetivo de explicitar claramente os ensinamentos da Igreja Católica, inspirados pelo Espírito Santo e considerados como provindos da autoridade ex-cathedra da primazia de Pedro, ou seja, infalíveis, por declararem verdades da fé cristã.

Ao longo da história são apenas 14 documentos, a bula Exsurge Domine é o terceiro publicado neste blog. As outras duas são a bula Unan Sanctam e a constituição Benedictus Deus. Bem, o projeto é publicar os 14 documentos, vejamos se consigo uma cópia em português dos mais antigos.

Bula Exsurge Domine, sobre os erros de Martinho Lutero

* esta bula do Papa Leão X declara como erros heréticos 41 teses de Martinho Lutero. Ele havia publicado 95 teses. Alguns dos 41 erros resumem em uma frase mais de uma das teses de Lutero, mas mais que uma refutação teológica e detalhada a Lutero, a bula é também uma oração e convite a retornar ao seio da Igreja, inclusive indo a Roma para discutir a questão. Infelizmente Lutero preferiu queimá-la em praça pública, rompendo definitivamente com a Igreja Católica, da qual foi excomungado em 1521.

Papa Leão X governou a Igreja de 19 de março
de 1513 até sua morte em 1o. de Dezembro de
1521. Devido as suas atitudes em defesa da fé,
muitas mentiras foram espalhadas a seu respeito,
como forme de desmoralizado frente ao povo.
Algumas delas são publicadas ainda hoje.  
Erguei-vos, Senhor, e julgai vossa própria causa. Lembrai-vos de vossas censuras àqueles que estão o dia todo cheios de insensatez. Ouvi nossas preces, pois raposas avançam procurando destruir a vinha em cujo lagar só Vós tendes pisado. Quando estáveis perto de subir a vosso Pai, entregastes o cuidado, norma e administração da vinha, uma imagem da igreja triunfante, a Pedro, como cabeça e vosso vigário e a seus sucessores.
 
O javali da floresta procura destrui-la e toda fera selvagem vem devastá-la.
 
Erguei-vos, Pedro, e realizai o serviço pastoral divinamente confiado a Vós, como já dito. Prestai atenção à causa da santa Igreja Romana, mãe de todas as igrejas e mestra da fé, que Vós por ordem de Deus santificastes com vosso sangue. Bem que avisastes que viriam falsos mestres contra a Igreja Romana, para introduzir seitas ruinosas, atraindo sobre eles rápidas condenações. Suas línguas são de fogo, mal incansável, cheias de mortal veneno.
 
Eles possuem zelo amargo, discórdia em seus corações, vangloriam-se e mentem contra a verdade.
 
Suplicamos a vós também, Paulo, para erguer-vos. Fostes vós que esclarecestes e iluminastes a Igreja com vossa doutrina e com vosso martírio, como o de Pedro, Agora, um novo Porfírio se levanta que, como o outro do passado, cheio de erros assediou os santos apóstolos, e agora ataca os santos pontífices, nossos predecessores. Ele os reprova por violação a vosso ensinamento, em vez de implorá-los, e não tem pudor de atacá-los, de lamentá-los, e quando se desespera de sua causa, de rebaixar-se aos insultos. Ele é como os hereges" cuja última defesa" ,como disse Jerônimo,"é pôr-se a vomitar veneno de serpente com sua língua, quando vêem que suas causas estão para ser condenadas, e explodem em insultos quando se vêem vencidos". Embora tenhais dito que deveria haver heresias para testar a fé, ainda assim eles devem ser destruídos no próprio berço por vossa intercessão e ajuda, e, assim, não crescerão nem se tornarão fortes como vossos lobos.
 
Finalmente, que se levante toda a Igreja dos santos e a Igreja universal. Alguns, pondo de lado a verdadeira interpretação da Sagrada Escritura, estão ensandecidos pelo pai das mentiras. Sábios a seus próprios olhos, de conformidade com a antiga prática dos heréticos, interpretam essas mesmas Escrituras de modo diferente do inspirado pelo Espírito Santo, mas antes inspirados somente por seu próprio sentido de ambição, em consideração ao aplauso popular, como diz o Apóstolo. Realmente, torcem e adulteram as Escrituras. Consequentemente, de acordo com Jerônimo,"Não persiste mais o Evangelho de Cristo , mas um do homem, ou o que é pior, do demônio.
 
Que toda a santa Igreja de Deus, eu clamo, se levante, e com os santos apóstolos interceda perante o Deus Todo-Poderoso para estirpar os erros de sua ovelha, para banir todas as heresias dos campos da fé, e para que seja de seu agrado manter a paz e a unidade de sua santa Igreja.
 
Custa-nos expressar, em nossa tristeza e aflição, o que chegou aos nossos ouvidos, desde há algum tempo, através de notícias de homens de confiança e do rumor geral. Ai de nós, vimos ainda com nossos olhos e lemos os muitos e diversos erros. Alguns deles já foram condenados por concílios e constituições de nossos predecessores, e formalmente contêm até a heresia dos Gregos e Boêmios. Outros erros são heréticos, falsos, escandalosos, ou ofensivos ao ouvidos piedosos, assim como sedutores das mentes simples, originando-se de falsos intérpretes da fé que em sua orgulhosa curiosidade almejam a glória do mundo, e contrários ao ensinamento dos Apóstolos, desejam ser mais sábios do que poderiam ser. A loquacidade deles, não amparada pela autoridade das Escrituras, como disse Jerônimo, não ganharia confiança se não fizessem sua perversa doutrina parecer baseada até mesmo em testemunhos divinos, embora mal interpretados. No ponto de vista deles, o temor de Deus é coisa do passado.
 
Esses erros, por inspiração humana, tinham sido revividos e recentemente propagados entre os mais frívolos e ilustres da nação Germânica. Nós nos afligimos mais ainda que isso tenha acontecido ali porque nós e nossos predecessores sempre colocamos essa nação no mais alto de nossa afeição.
 
Depois que o império foi transferido pela Igreja Romana dos Gregos para esses germânicos , nossos predecessores e nós sempre escolhemos dentre eles advogados e defensores da Igreja. Realmente, é certo que esses germânicos, verdadeiros irmãos na fé católica, foram sempre encarniçados adversários das heresias, como testemunham aquelas louváveis constituições dos imperadores germânicos, em defesa da independência da Igreja, da liberdade, da expulsão e extinção de todos os hereges da Alemanha. Aquelas constituições formalmente emitidas e depois confirmadas por nossos predecessores, foram escritas sob as maiores penalidades, até mesmo perda de terras e soberania dos que os abrigasse ou não os expulsasse. Se elas fossem observadas hoje, nós e eles estaríamos obviamente livres deste distúrbio. Prova disto é a condenação e punição no Concílio de Constança da infidelidade dos Hussitas e Wyclifistas, assim como de Jerônimo de Praga.
 
Prova disto é o sangue dos Germânicos derramado tantas vezes em guerras contra os Boêmios. Uma prova final é a refutação, rejeição e condenação não menos instrutivas do que verdadeiras e santas, dos erros acima, ou de muitos deles, pelas universidades de Colônia e Louvaina, as cultivadoras mais devotadas e religiosas dos campos do Senhor. Poderíamos citar muitos outros fatos que decidimos omitir a fim de que não pareça estarmos compondo uma História.
 
Em virtude de nosso trabalho pastoral a nós comunicado por divino favor , não podemos sob nenhuma circunstância tolerar ou subestimar por mais tempo o veneno pernicioso dos erros acima sem prejuízo à religião cristã e dano à fé ortodoxa. Decidimos incluir no presente documento alguns desses erros. A substância deles é como se segue:
 
  1. É uma opinião herética, embora comum, que os sacramentos da nova Lei dão a graça do perdão àqueles que não lhes põem um obstáculo.
  2. É tratar com desprezo tanto Paulo como Cristo dizer que não permanece o pecado numa criança após o batismo.
  3. As inflamáveis fontes do pecado, mesmo que seja pecado não atual, retarda a partida da alma do corpo para o céu.
  4. Para alguém à hora da morte, a contrição imperfeita necessariamente lhe traz grande medo, o qual por si só é bastante para causar a punição do purgatório, e impedir a entrada no Reino.
  5. Não está fundamentado na Sagrada Escritura nem nos antigos e sagrados doutores cristãos que haja três partes na penitência: contrição, confissão e satisfação.
  6. Contrição que se adquire através de discussão, coleta e abominação dos pecados, pelos quais alguém reflete sobre seus anos na amargura de sua alma, ponderando na gravidade dos pecados, seu número, sua baixeza, a perda da felicidade eterna e a pena da condenação eterna, essa contrição torna-o um hipócrita, ou mais, de fato, um pecador.
  7. Há um dito altamente verdadeiro, e a doutrina concernente às contrições desse modo são muito mais dignas de atenção:"Não agir assim no futuro é a maior penitência ; a melhor penitência, uma nova vida."
  8. De modo algum alguém presuma de confessar pecados veniais, ou mesmo todos os pecados mortais, porque é impossível que saiba todos os pecados mortais. Daí, na Igreja primitiva somente os pecados mortais óbvios eram confessados.
  9. Enquanto quisermos confessar todos os pecados sem exceção, estaremos fazendo nada mais do que desejar nada deixar para perdão pela misericórdia de Deus.
  10. Os pecados não serão perdoados a ninguém a não ser que o padre os perdoe e a pessoa acredite que estão perdoados; do contrário o pecado permanecerá, salvo se a pessoa acredita que eles foram perdoados; na verdade a remissão do pecado e a concessão da graça não é suficiente, mas é necessário também acreditar que eles foram perdoados.
  11. De modo algum pode alguém ter segurança de ter sido absolvido por causa de sua contrição, mas por causa da palavra de Cristo:"Tudo o que desatardes, etc." Daí eu digo, acredite confiantemente, se você obteve a absolvição do padre, acredite firmemente de ter sido absolvido e você será verdadeiramente absolvido, seja qual tenha sido a contrição.  
  12. Se numa impossibilidade aquele que confessa não esteve contrito ou o padre não absolveu seriamente, mas como de brincadeira, se não obstante a pessoa acredita que foi absolvida, ela verdadeiramente foi absolvida.
  13. No sacramento da penitência e da remissão do pecado o papa ou o bispo não faz mais do que o mais humilde padre; de fato, onde não há padre, qualquer cristão, mesmo uma mulher ou criança, pode igualmente fazê-lo.
  14. Ninguém deve responder ao padre que está contrito, nem o padre poderia perguntá-lo.
  15. Grande é o erro daqueles que se aproximam do sacramento da Eucaristia confiados em que se confessou, que não estão cônscios de nenhum pecado mortal, que antecipadamente fizeram suas preces e sua preparação; todos eles comem e bebem seu próprio julgamento. Mas se acreditam e confiam que obterão a graça , então esta fé sozinha torna-os puros e dignos.
  16. Parece que a Igreja num Concílio comum estabeleceu que o leigo pode comungar sob ambas as espécies; os Boêmios que comungam sob ambas as espécies não são hereges, mas são cismáticos.
  17. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede indulgências não são os méritos de Cristo e dos santos.
  18. Indulgências são fraudes piedosas dos fiéis, e indultos de boas obras; e elas estão no número daquelas coisas que devem ser evitadas, e não no número daquelas que são vantajosas.
  19. Indulgências não são proveitosas para aqueles que realmente as ganham, para a remissão da pena devida ao pecado atual, sob o ponto de vista da justiça divina.
  20. São seduzidos aqueles que acreditam que indulgências são salutares e úteis aos frutos do espírito.
  21. As indulgências são necessárias somente para crimes públicos, e são concedidas apropriadamente somente para os rigorosos e impacientes.
  22. As indulgências não são necessárias nem úteis para seis espécies de homens, a saber: para os mortos e aqueles à morte, para os enfermos, para aqueles legitimamente impedidos, para aqueles que não cometeram crimes, para aqueles que cometeram crimes, mas não públicos, e para aqueles que se devotam a coisas melhores.
  23. Excomunhões são apenas penas externas e não privam o homem das orações espirituais comuns da Igreja.
  24. Os cristãos devem ser ensinados a apreciar as excomunhões preferentemente a temê-las.
  25. O Pontífice Romano, o sucessor de Pedro, não é o vigário de Cristo para todas as igrejas de todo o mundo, instituído pelo próprio Cristo na pessoa do abençoado Pedro.
  26. A palavra de Cristo a Pedro: "Tudo o que desatardes na terra," etc, se estende somente àquelas coisas atadas pelo próprio Pedro.
  27. É certo que não está sob o poder da Igreja ou do papa decidir sobre os artigos de fé, e muito menos sobre o que concerne às leis da moral e das boas obras.
  28. Se o papa com uma grande parte da Igreja pensou de tal ou tal modo, ele não poderia errar; ainda assim não é pecado ou heresia pensar o contrário, especialmente sobre matéria não necessária à salvação, até que uma alternativa seja condenada e a outra aprovada por um Concílio geral.
  29. Um meio foi dado a nós para enfraquecer a autoridade de concílios, para contradizer seus atos livremente, julgar seus decretos e corajosamente confessar tudo o que pareça verdade, seja o que for que tenha sido aprovado ou desaprovado por qualquer concílio.
  30. Algumas proposições de John Hus, condenadas pelo Concílio de Constança, são perfeitamente cristãs, totalmente verdadeiras e evangélicas; essas, a Igreja Universal não poderia condená-las.
  31. Em toda boa obra o justo peca.
  32. Uma boa obra muito bem feita é um pecado venial.
  33. É contra o desejo do Espírito Santo que heréticos sejam queimados.
  34. Ir guerrear contra os Turcos é resistir a Deus que pune nossas iniquidade através deles.
  35. Ninguém está certo de que não esteja sempre pecando mortalmente, por causa do vício profundamente oculto do orgulho.
  36. Livre arbítrio após o pecado é uma questão somente de palavra; e no que alguém faz enquanto está nele, peca mortalmente.
  37. O purgatório não pode ser provado pela Sagrada Escritura que está no Cânon.
  38. As almas do purgatório não estão certas de sua salvação, ao menos não totalmente. Nem está provado por nenhum argumento nem pelas Escrituras que elas estejam além do estado de obter méritos ou crescer no amor.
  39. As almas do purgatório pecam sem cessar, na medida que procuram descansar e detestam a punição.
  40. As almas libertas do purgatório pelos sufrágios dos vivos são menos felizes do que se elas prestassem satisfação por elas mesmo.
  41. Prelados eclesiásticos e príncipes seculares não agiriam mal se destruíssem todas as bolsas de dinheiro da mendicância.
 
Ninguém de mente sã é ignorante ou destruidor, pernicioso, escandaloso e sedutor das mentes fiéis e simples, como são esses vários erros, contrários como são eles a toda caridade e reverência para com a santa Igreja Romana que é a mãe de todos os fiéis e mestra da fé, destruidores como são eles do vigor da disciplina eclesiástica, particularmente da obediência. Essa virtude é a fonte e origem de todas as virtudes e sem ela qualquer um é prontamente levado a ser infiel.
 
Eis porque nós, na enumeração supra, importante como é, desejamos proceder com grande cuidado como é adequado, e cortar o avanço dessa praga e doença cancerosa, de modo que não se espalhe mais além no campo do Senhor como um nocivo espinheiro. Levantamos, portanto, uma inquirição cuidadosa, escrutínios, discussão, exame severo, e deliberação amadurecida com cada um dos irmãos, os eminentes cardeais da santa Igreja Romana, bem como com os priores e mestres gerais das ordens religiosas, ao lado de outros profissionais e mestres peritos na sagrada teologia, no direito civil e canônico. Concluímos que esses erros ou essas pessoas não são católicas, como dito acima, e não devem ser considerados como tais. Mas, antes, são contra à doutrina e à tradição da Igreja Católica, e contra a verdadeira interpretação das sagradas Escrituras recebida da Igreja. Agostinho afirmava que a autoridade desta tinha de ser aceita tão fielmente que confirmou não teria acreditado no Evangelho sem a autoridade da Igreja Católica que tinha se responsabilizado por ela. Por conseguinte, de acordo com esses erros, ou algum deles ou vários deles, claramente se segue que a Igreja que é guiada pelo Espírito Santo estaria em erro e sempre esteve errada. Isso é contra o que Cristo por ocasião de sua Ascensão prometeu a seus discípulos (como se lê no santo Evangelho de Mateus): "Estarei convosco até a consumação do mundo" ; está contra as determinações dos santos Padres, ou determinações e leis dos concílios e do supremo Pontífice. O mal de não concordar com essas leis, conforme o testemunho de Cipriano, poderá ser combustível e causa de toda heresia e cisma.
 
 Com o conselho e consenso desses nosso veneráveis irmãos, com deliberação amadurecida sobre cada uma das proposições supra, e pela autoridade do Deus Todo-Poderoso, dos santos apóstolos Pedro e Paulo, e de nossa própria autoridade, nós condenamos, reprovamos, e rejeitamos completamente cada uma dessas teses ou erros como heréticos, escandalosos, falsos, ofensivos aos ouvidos piedosos ou sedutores das mentes simples, e contra a verdade católica. Listando-os, nós decretamos e declaramos que todos os fiéis de ambos os sexos devem considerá-los como condenados, reprovados e rejeitados... Nós os proibimos a todos em nome da santa obediência e sob as penas de uma automática excomunhão...

Lutero queimando a bula papal em Dezembro de 1520.

 
 Ainda mais, por causa dos precedentes erros e de muitos outros contidos nos livros ou escritos e sermões de Martinho Lutero, nós do mesmo modo condenamos, reprovamos e rejeitamos completamente os livros e todos os escritos e sermões do citado Martinho, seja em Latim seja em qualquer outra língua , que contenham os referidos erros ou qualquer um deles; e desejamos que sejam considerados totalmente condenados, reprovados e rejeitados.
 
 Proibimos a todos e a qualquer um dos fiéis de ambos os sexos, em nome da santa obediência e sob as penas acima em que incorrerão automaticamente, de ler, sustentar, pregar, louvar, imprimir, publicar ou defendê-los. Incorrerão nessas penas se ousarem apoiá-las de qualquer maneira, pessoalmente ou através de quem quer que seja, direta ou indiretamente, tácita ou explicitamente, pública ou ocultamente, seja em suas casas ou em outros lugares públicos ou privados. Na verdade, imediatamente após a publicação desta carta, essas obras devem ser procuradas aonde possam se encontrar, cuidadosamente, pelos ordinários e outros (eclesiásticos e regulares), e sob todas e cada uma das penas acima deverão ser queimadas publica e solenemente na presença dos clérigos e do povo.
 
 No quanto se refere ao próprio Martinho, ó bom Deus, de que nos descuidamos ou o que deixamos de fazer? Que caridade paternal omitimos para que pudéssemos fazê-lo retroceder de tais erros? Nós até lhe oferecemos salvo conduto e o dinheiro necessário para sua viagem, apressando-o a vir sem medo ou desconfiança de qualquer espécie, que seria refutado com total caridade, e falaria não secretamente mas abertamente e face à face, segundo o exemplo de nosso Salvador e do apóstolo Paulo. Se ele tivesse feito isso, estamos certos de que ele poderia ter mudado seu coração e poderia ter reconhecido seus erros. Ele reconsideraria ter encontrado todos esses erros na Cúria Romana que atacou tão erradamente, atribuindo-lhes mais do que poderia, porque derivados de boatos vazios de homens perversos. Poderíamos ter-lhe mostrado mais claramente do que à luz do dia que os pontífices Romanos, nossos predecessores, aos quais injuriosamente atacou passando além de toda decência, nunca erraram em suas leis ou constituições, as quais ele tentou censurar. Porque, de acordo com o profeta, nem falta óleo salutar nem o médico em Galaad.
 
 Mas ele sempre recusou a ouvir-nos e, desprezando a citação prévia e cada uma e todas as aberturas, não se dignou a vir a nós. Até agora ele tem sido contumaz. Com um espírito difícil, continuou sob censura mais de um ano. O que é pior, acrescentando mal a mal, e tomando conhecimento da citação, rompeu em insensato apelo a um concílio futuro. Isso seguramente seria contrário à constituição de Pio II e Júlio II, nossos predecessores, na qual todos os que apelassem nesse sentido deveriam ser punidos com as penas de heréticos. Em vão implorou pela ajuda de um concílio, já que abertamente admite que não acredita em concílio.
 
 Portanto, sem nenhuma nova citação ou demora, nós procedemos contra ele com sua condenação e execração, como contra alguém cuja fé é notoriamente suspeita e de fato seguramente herética, com toda a severidade de cada uma e todas as penas e censuras antes mencionadas. Contudo, com o conselho de nossos irmãos, imitando a misericórdia do Deus Todo-Poderoso que não quer a morte do pecador mas antes que ele se converta e viva, e esquecendo todas as injúrias feitas a nós e à Sé Apostólica, decidimos usar de toda a compaixão de que somos capazes. Ë nossa esperança, tanta quanto podemos ter, que ele passe por uma mudança interior tomando o caminho da brandura que lhe propusemos, volte e se afaste de seus erros. Nós o receberemos bondosamente como ao filho pródigo retornando ao abraço da Igreja.
 
 Portanto, o próprio Martinho e todos aqueles que aderiram a ele, e aqueles que o abrigam e o apoiam, pelo coração cheio de misericórdia de nosso Deus e a aspersão do sangue de nosso Senhor Jesus Cristo pela qual e através de quem foi realizada a redenção do gênero humano e a edificação da santa madre Igreja, fique sabendo que de coração exortamos e suplicamos que pare de conturbar a paz, unidade e verdade da Igreja pela qual o Salvador rezou tão insistentemente ao Pai. Que ele se afaste de seus erros perniciosos, que possa voltar para nós. Se eles querem realmente obedecer, e nos pôr cientes por documentos legais que obedeceram, encontrarão em nós a afeição do amor de um pai, o acesso à fonte dos efeitos da caridade paternal e acesso à fonte da misericórdia e da clemência.
 
 Nós ordenamos, contudo, a Martinho que enquanto isso não ocorrer, pare com toda pregação ou com o oficio de pregador...
 
[- Dado em Roma, em 15 de junho de 1520.]
 
Papa Leão X
 

26 de jul de 2011

A Natividade de Maria

Santa Ana era estéril e já com idade avançada. A filha foi concebida após São Joaquim ir ao deserto rezar. Lá, um anjo apareceu-lhe e anunciou que nasceria uma menina a quem chamariam "Senhora da Luz", em hebraico Miriam, em latim Maria.

Estava determinado que a Virgem Mãe de Deus iria nascer de Ana. Por isso, a natureza não ousou antecipar o germe da graça, mas permaneceu sem dar o próprio fruto até que a graça produzisse o seu. De fato, convinha que fosse primogênita aquela de quem nasceria o primogênito de toda a criação, no qual todas as coisas têm a sua consistência (Cl 1,17).

Ó casal feliz, Joaquim e Ana! A vós toda a criação se sente devedora. Pois foi por vosso intermédio que a criatura ofereceu ao Criador o mais valioso de todos os dons, isto é, a mãe pura, a única que era digna do Criador.

Alegra-te, Ana estéril, que nunca foste mãe, exulta e regozija-te, tu que nunca deste à luz (Is 54,1). Rejubila-te, Joaquim, porque de tua filha nasceu para nós um menino, foi- nos dado um filho; o nome que lhe foi dado é: Anjo do grande conselho, salvação do mundo inteiro, Deus forte (Is 9,5). Este menino é Deus.

Ó casal feliz, Joaquim e Ana, sem qualquer mancha! Sereis conhecidos pelo fruto de vossas entranhas, como disse o Senhor certa vez: Vós os conhecereis pelos seus frutos (Mt 7,16). Estabelecestes o vosso modo de viver da maneira mais agradável a Deus e digno daquela que de vós nasceu. Na vossa casta e santa convivência educastes a pérola da virgindade, aquela que havia de ser virgem antes do parto, virgem no parto e continuaria virgem depois do parto; aquela que, de maneira única, conservaria sempre a virgindade, tanto em seu corpo como em seu coração.

Ó castíssimo casal, Joaquim e Ana! Conservando a castidade prescrita pela lei natural, alcançastes de Deus aquilo que supera a natureza: gerastes para o mundo a mãe de Deus, que foi mãe sem a participação de homem algum. Levando, ao longo de vossa existência, uma vida santa e piedosa, gerastes uma filha que é superior aos anjos e agora é rainha dos anjos.

Ó formosíssima e dulcíssima jovem! Ó filha de Adão e Mãe de Deus! Felizes o pai e a mãe que te geraram! Felizes os braços que te carregaram e os lábios que te beijaram castamente, ou seja, unicamente os lábios de teus pais, para que sempre e em tudo conservasses a perfeita virgindade! Aclamai o Senhor Deus, ó terra inteira, alegrai-vos, exultai e cantai salmos (Sl 97,4-5). Levantai vossa voz; clamai e não tenhais medo.

-- Dos Sermões de São João Damasceno, bispo (século VIII)

25 de jul de 2011

São Tiago e São João: participantes da paixão de Cristo

São Tiago
Os filhos de Zebedeu pedem a Cristo: Deixa-nos sentar um à tua direita e outro, à tua esquerda (Mc 10,37). Que resposta lhes dá o Senhor? Para mostrar que no seu pedido nada havia de espiritual, e se soubessem o que pediam não teriam ousado fazê-lo, diz: Não sabeis o que estais pedindo (Mt 20,22), isto é, não sabeis como é grande, admirável e superior aos próprios poderes celestes aquilo que pedis. Depois acrescenta: Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? (Mt 20,22). É como se lhes dissesse: “Vós me falais de honras e de coroas; eu, porém, de combates e de suores. Não é este o tempo das recompensas, nem é agora que minha glória há de se manifestar. Mas a vida presente é de morte violenta, de guerra e de perigos”.

Reparai como o Senhor os atrai e exorta, pelo modo de interrogar. Não perguntou: “Podeis suportar os suplícios? podeis derramar vosso sangue? Mas indagou: Por acaso podeis beber o cálice? E para os estimular, ainda acrescentou: que eu vou beber? Assim falava para que, em união com ele, se tornassem mais decididos. Chama sua paixão de batismo, para dar a entender que os sofrimentos haviam de trazer uma grande purificação para o mundo inteiro. Então os dois discípulos lhe disseram: Podemos (Mt 20,22). Prometem imediatamente, cheios de fervor, sem perceber o alcance do que dizem, mas com a esperança de obter o que pediam.

São João Evangelista
Pintura de Velazques, 1619, National Gallery,
Londres 
Que afirma o Senhor? De fato, vós bebereis do meu cálice (Mt 20,23), e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado (Mc 10,39). Grandes são os bens que lhes anuncia, a saber: “Sereis dignos de receber o martírio e sofrereis comigo; terminareis a vida com morte violenta e assim participareis da minha paixão”. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou (Mt 20,23). Somente depois de lhes ter levantado os ânimos e de tê-los tornado capazes de superar a tristeza é que corrigiu o pedido que fizeram.

Então os outros dez discípulos ficaram irritados contra os dois irmãos (Mt 20,24). Vedes como todos eles eram imperfeitos, tanto os que tentavam ficar acima dos outros, como os dez que tinham inveja dos dois? Mas, como já tive ocasião de dizer, observai- os mais tarde e vereis como estão livres de todos esses sentimentos. Prestai atenção como o mesmo apóstolo João, que se adianta agora por este motivo, cederá sempre o primeiro lugar a Pedro, quer para usar da palavra,quer para fazer milagres, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos. Tiago, porém, não viveu muito mais tempo. Desde o princípio, pondo de parte toda aspiração humana, elevou-se a tão grande santidade que bem depressa recebeu a coroa do martírio.

-- Das Homilias sobre Mateus, de São João Crisóstomo, bispo (Século IV)

23 de jul de 2011

O homem unir-se-á à sua mulher e serão um

São João Crisóstomo
Que deves tu dizer à tua mulher? Diz-lhe com muito carinho: “Eu escolhi-te, amo-te e prefiro-te à minha própria vida. A existência presente não é nada; por isso, as minhas orações, as minhas recomendações e todas as minhas ações, realizo-as para que nos seja concedido passarmos esta vida de tal maneira que possamos ficar reunidos na vida futura, sem mais nenhum medo da separação. O tempo que vivemos é curto e frágil. Se nos for concedido que agrademos a Deus durante esta vida, ficaremos eternamente com cristo e um com o outro, numa felicidade sem limites. O teu amor encanta-me mais do que tudo e não conheceria infelicidade mais insuportável do que ser separado de ti. Ainda que tenha de perder tudo e tornar-me mais pobre do que um mendigo, enfrentar os maiores perigos e suportar o que quer que fosse, tudo isso me será suportável enquanto durar o teu afeto por mim. È apenas contando com esse amor que eu desejo ter filhos”.

Precisarás também de adequar a tua conduta a estas palavras... Mostra à tua mulher que gostas muito de viver com ela e que, por causa dela, preferes estar em casa do que na praça. Prefere-a em relação a todos os amigos e até aos filhos que ela te deu; e a estes que os ames por causa dela...

Fazei as vossas orações em comum.. Que cada um de vós vá à igreja e que, em casa, o marido peça contas à mulher, e a mulher ao marido, daquilo que foi dito ou lido... Aprendei o temor a Deus; tudo o mais correrá como de uma fonte, e a vossa casa encher-se-á de bens inumeráveis. Aspiremos aos bens incorruptíveis e os outros não nos faltarão. Procurai primeiro o Reino de Deus, diz-nos o Evangelho, e tudo o mais vos será dado por acréscimo ( Mt 6,33)

-- Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo (século IV)

22 de jul de 2011

Os pecados da infância, Santo Agostinho

Ouve-me Senhor! Ai dos pecados dos homens! É uma homem que assim fala; e dele te compadeces,porque és o seu Criador, e não o autor do seu pecado. Quem me poderá lembrar os pecados cometidos na infância, já que ninguém há que diante de ti seja imune ao pecado, nem mesmo o recém-nascido com um dia apenas de vida sobre a terra? Quem, senão um pequerrucho, onde vejo a imagem daquilo que não lembro de mim mesmo? Qual era então o meu pecado? Seria talvez o de buscar avidamente, aos berros, os seios da minha mãe? Se mostrasse hoje a mesma avidez, não pelo seio materno, é claro, mas pelos alimentos próprios da minha idade, seria justamente escarnecido e censurado.

Meu procedimento era então repreensível, mas como não teria podido compreender as reprimendas, nem a razão nem os costumes permitiam que eu fosse reprovado. Como o crescer dos anos, extirpamos e atiramos fora tais defeitos, e nunca vi ninguém que, para cortar o mal, rejeitasse conscientemente o bem! Ou seria justo, mesmo tendo em conta a idade, exigir chorando o que seria prejudicial, indignar-se com violência contra homens adultos e de condição livre, e contra os pais e outras pessoas sensatas que não aceitavam satisfazer a certos desejos? Seria justo fazer todo o possível para prejudicá-los, porque eles não se prestavam a obedecer a ordens que seriam nocivas? Portanto, a inocência das crianças reside na fragilidade dos membros, não da alma. Vi e observei bem uma criança dominada pela inveja: não falava ainda, mas olhava, pálida e incitada para o seu irmão de leite. Quem já não observou esse fato? Dizem que as mães e amas têm não sei que remédio para eliminar tais defeitos; sem dúvida não é inocente a criança que, diante da fonte generosa e abundante de leite, não admite dividi-la com um irmão embora muito necessitado desse alimento para sustentar a vida. No entanto, tais fatos são tolerados com indulgência, não por serem de pouca ou nenhuma importância, mas porque desaparecerão ao correr dos anos. Prova disso é que nos irritamos contra tal procedimento, quando o surpreendemos em pessoa de mais idade.

E tu, Senhor meu Deus, que à criança deste a vida e um corpo, como se vê, dotado de sentido, composto de membros, ornado de beleza, e lhe insuflaste os impulsos vitais para defender a sua própria integridade, ordenas que eu te louve por todas as obras, que te celebre e cante o teu nome, ó Altíssimo (Sl 92,2), porque és o Senhor onipotente e bom, ainda que somente essas coisas tivesses criado. Nenhum outro as pode fazer, senão tu, ó Deus único, de quem promana toda harmonia, ó forma perfeita, que formas todas as coisas e que tudo ordenas de acordo com as tuas próprias leis.

Por isso, Senhor, não me agrada considerar, como parte integrante da minha vida terrena, essa idade que não lembro ter vivido, a respeito da qual creio no que me dizem os outros e nas conjecturas, aliás muito bem fundadas, que formei ao observar outras crianças. Esse tempo de memória envolto em trevas encontra paralelo na época em que vivi no seio materno. E se fui concebido na iniqüidade, e no pecado me alimentou a minha mãe no seu seio (Sl 51,7), onde foi, eu te suplico, meu Deus, onde foi, meu Senhor, eu teu servo, onde e quando foi que estive inocente?  Mas deixemos de lado esse tempo; que tenho eu a ver com ele, se dele não conservo o menor vestígio?

-- Do Livro das Confissões, de Santo Agostinho, bispo (século V)

Cristo morreu por todos

O Livro Confissões de Santo Agostinho é a primeira autobiografia
escrita no Ocidente, quando tinha cerca de 40 anos, narra os pecados
que havia cometido através de uma vida imortal e como se dedicou
ao Maniqueísmo e Astrologia, dos quais se converteu graças aos
argumentos de Santo Ambrósio e orações de sua mãe, Santa Mônica.
É um livro fundamental na história do Cristianismo, cuja leitura
é recomendada.
Aquele que em tua secreta misericórdia revelaste aos humildes e lhes enviaste para que nos ensinasse a humildade, o verdadeiro mediador, esse mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, apareceu entre os pecadores mortais como justo mortal: mortal com os homens, justo com Deus. Sendo a recompensa da justiça a vida e a paz, pela justiça unida a Deus, ele destruiu a morte dos ímpios justificados, através dessa morte que desejou igual à deles. Quanto nos amaste, Pai bom, que não poupaste teu Filho único, mas por nós, ímpios, o entregaste! Como nos amaste, quando por nós ele não julgou rapina ser igual a ti, fez-se obediente até à morte da cruz, ele, o único livre entre os mortos, com poder de entregar sua vida e o poder de retomá-la! Tudo ele fez por nós, diante de ti vitorioso e vítima, vitorioso porque vítima. Por nós, diante de ti sacerdote e sacrifício, sacerdote porque sacrifício. Fazendo de nós, servos, filhos para ti, nascendo de ti, a nós servindo.

Com muita razão minha grande esperança está nele, porque curarás todas as minhas fraquezas, por aquele que se assenta à tua direita e intercede por nós. De outro modo, desesperaria. Pois são muitas e grandes estas minhas fraquezas. São muitas e enormes. Porém muito maior é teu remédio. Teríamos podido pensar que teu Verbo estava longe de unir-se aos homens e entregarmo-nos ao desespero, se ele não se tivesse feito carne e habitado entre nós. Apavorado com meus pecados e como peso de minha miséria, eu revolvia no espírito e pensava em fugir para o deserto. Mas me impediste e me fortaleceste dizendo-me: Para isto Cristo morreu por todos, para que os que vivem não mais vivam para si, mas para aquele que por eles morreu.

Agora, Senhor, lanço em ti meus cuidados para viver e considerarei as maravilhas de tua lei. Tu conheces minha ignorância e fragilidade: ensina-me, cura-me! O teu Único, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, me remiu por seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque reflito no preço dado por mim. Como, bebo, distribuo e, pobre, desejo saturar-me dele entre aqueles que dele comem e são saciados. Com efeito, louvarão o Senhor aqueles que o procuram.

-- Do Livro das Confissões, de Santo Agostinho, bispo (século V)

20 de jul de 2011

Partes principais da Doutrina Cristã

São Pio X governou a Igreja de 9 de Agosto de 1903
a 20 de Agosto de 2014. Publicou um pequeno livro,
resumo do Catecismo Romano, com o objetivo de ensinar
a fé e doutrina da Igreja de maneira simples e objetiva.
1) Sois cristão?
Sim, sou cristão pela graça de Deus.

2) Por que dizeis pela graça de Deus?
Digo: pela graça de Deus, porque o ser cristão é um dom de Deus, inteiramente gratuito, que nós não podemos merecer.

3) E quem é verdadeiro cristão?
Verdadeiro cristão é aquele que é batizado, crê e professa a doutrina cristã e obedece aos legítimos Pastores da Igreja.

4) Que é a Doutrina Cristã?
A Doutrina Cristã é a doutrina que JesusCristo Nosso Senhor nos ensinou, para nos mostrar o caminho da salvação.

5) É necessário aprender a doutrina ensinada por Jesus Cristo?
Certamente, é necessário aprender a doutrina ensinada por Jesus Cristo, e cometem falta grave aqueles que se descuidam de o fazer.

6) Os pais e patrões estão obrigados a mandar ao catecismo os seus filhos e dependentes?
Os pais e patrões são obrigados a procurar que seus filhos e dependentes aprendam a Doutrina Cristã; e são culpados diante de Deus, se desprezarem esta obrigação.

7) De quem devemos nós receber e aprender a Doutrina Cristã?
Devemos receber e aprender a Doutrina Cristã da Santa Igreja Católica.
 
8) Como é que temos a certeza de que a Doutrina Cristã, que recebemos da Santa Igreja Católica, é verdadeira?
Temos a certeza de que a Doutrina Cristã, que recebemos da Igreja Católica, é verdadeira, porque Jesus Cristo, autor divino desta doutrina, a confiou por meio aos seus Apóstolos à Igreja Católica, por Ele fundada e constituída Mestra infalível de todos os homens, prometendo-Lhe a sua divina assistência até à consumação dos séculos.

9) Há mais provas da verdade da Doutrina Cristã?
A verdade da Doutrina Cristã é demonstrada ainda pela santidade eminente de tantos que a professaram e professam, pela heróica fortaleza dosmártires, pela sua rápida e admirável propagação no mundo, e pela sua plena conservação através de tantos séculos de muitas e contínuas lutas.

10) Quantas e quais são as partes principais e mais necessárias da Doutrina Cristã?
As partes principais e mais necessárias da Doutrina Cristã são quatro: o Credo, o Padre-Nosso, os Mandamentos e os Sacramentos.

11) Que nos ensina o Credo?
O Credo ensina-nos os principais artigos da nossa santa Fé.

12) Que nos ensina o Padre-Nosso?
O Padre-Nosso ensina-nos tudo o que devemos esperar de Deus, e tudo o que Lhe devemos pedir.

13) Que nos ensinam os Mandamentos?
OsMandamentos ensinam-nos tudo o que devemos fazer para agradar a Deus; em resumo, amar a Deus sobre todas as coisas, e amar ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus.

14) Que nos ensina a doutrina dos Sacramentos?
A doutrina dosSacramentos faz-nos conhecer a natureza e o bom uso desses meios que Jesus Cristo instituiu Para nos perdoar os pecados, comunicar-nos a sua graça, e infundir e aumentar em nós as virtudes da fé, da esperança e da caridade.

-- Do Catecismo de São Pio X, capítulo I, publicado em 1905.

18 de jul de 2011

Bula Unan Sanctam

Papa Bonifácio VIII governou a Igreja de 24 de
Dezembro de 1294 até a sua morte em 11 de
Outubro de 1303.
Urgidos pela fé, somos obrigados a acreditar e manter que a Igreja é única, santa, católica e também apostólica. Nós acreditamos com firmeza e confessamos com simplicidade que fora dela não há salvação, nem remissão dos pecados, como declara o Esposo no Cântico: "Uma só é minha pomba sem defeito. Uma só a preferida pela mãe que a gerou" (Ct 6,9). Ela representa o único corpo místico, cuja cabeça é Cristo e Deus é a cabeça de Cristo. Nela existe "um só Senhor, uma só fé e um só batismo" (Ef 4,5). De fato, apenas uma foi a arca de Noé na época do dilúvio; prefigurando uma única Igreja; encerrada com "um côvado" (Gn 6,16), teve um único piloto e um único chefe: Noé. Como lemos, tudo o que existia fora dela, sobre a terra, foi destruído.

Nós veneramos esta Igreja como única, pois o Senhor disse pela boca do profeta: "Salva minha vida da espada, meu único ser, da pata do cão" (Sl 21,21). Ao mesmo tempo que Ele pediu pela alma - ou seja, pela cabeça - também pediu pelo corpo, porque chamou o seu corpo como único, isto é, a Igreja, por causa da unidade da Igreja no seu esposo, na fé, nos sacramentos e na caridade. Ela é a veste sem costura (Jo 19,23) do Salvador, que não foi dividida, mas tirada à sorte. Por isso, esta Igreja, una e única, tem um só corpo e uma só cabeça, e não duas como um monstro: é Cristo e Pedro, vigário de Cristo, e o sucessor de Pedro, conforme o que disse o Senhor ao próprio Pedro: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Disse minhas em geral e não esta ou aquela em particular, de forma que se subentende que todas lhe foram confiadas. Assim, se os gregos ou outros dizem que não foram confiados a Pedro e aos seus sucessores, é necessário que reconheçam que não fazem parte das ovelhas de Cristo pois o Senhor disse no evangelho de São João: "Há um só rebanho e um só Pastor" (Jo 10,16).

As palavras do Evangenho nos ensinam: esta potência comporta duas espadas, todas as duas estão em poder da Igreja: a espada espiritual e a espada temporal. Mas esta última deve ser usada para a Igreja enquanto que a primeira deve ser usada pela Igreja. A espiritual deve ser manuseada pela mão do padre; o temporal, pela mão dos reis e cavaleiros, com o consenso e segundo a vontade do padre. Uma espada deve estar subordinada à outra; a autoridade temporal deve ser submissa à autoridade espiritual.

De acordo com o Beato Dionísio, é uma lei divina que as coisas mais simples alcancem as mais altas por intermediários. Então, de acordo com a ordem do universo, as coisas não foram consideradas como iguais, mas ordenadas das menores para maiores, das inferiores para superiores. Devemos reconhecer nitidamente que os poderes espirituais ultrapassam os temporais em dignidade e nobreza, pois as coisas espirituais ultrapassam as temporais. Isto vemos claramente pelo pagamento, bendição e consagração do dízimo; também pela cerimônia de aceitação do poder e governo do mundo. 

Pela verdade atestamos que o poder espiritual pode estabelecer o poder terrestre e julgá-lo se este não for bom. Ora, se o poder terrestre se desvia, será julgado pelo poder espiritual. Se o poder espiritual inferior se desvia, será julgado pelo poder superior. Mas, se o poder superior se desvia, somente Deus poderá julgá-lo e não o homem. Assim testemunha o apóstolo: "O homem espiritual julga a respeito de tudo e por ninguém é julgado" (1Cor 2,15).

Esta autoridade, ainda que tenha sido dada a um homem e por ele seja exercida, não é humana, mas de Deus. Foi dada a Pedro pela boca de Deus e fundada para ele e seus sucessores Naquele que ele, a rocha, confessou, quando o Senhor disse a Pedro: "Tudo o que ligares..." (Mt 16,19). Assim, quem resiste a este poder determinado por Deus "resiste à ordem de Deus" (Rm 13,2), a menos que não esteja imaginando dois princípios, como fez Manes, opinião que julgamos falsa e herética, já que, conforme Moisés, não é "nos princípios", mas "no princípio Deus criou o céu e a terra" (Gn 1,1). 

Por isso, declaramos, dizemos, definimos e pronunciamos que é absolutamente necessário à salvação de toda criatura humana estar sujeita ao romano pontífice.

Dada no Vaticano, no oitavo ano de nosso pontificado [18 de novembro de 1302].

-- Bula Unan Sanctum, Papa Bonifácio VIII

Uma só oração, uma esperança na caridade, na santa alegria

Contemplando na fé e amando, nas pessoas acima mencionadas, toda a comunidade, eu vos exorto a empregardes todo o empenho em fazer tudo na concórdia de Deus, sob a presidência do bispo, em lugar de Deus, e dos presbíteros em lugar do senado apostólico, bem como dos diáconos, meus caríssimos. A eles, com efeito, foi confiado o ministério de Jesus Cristo, que antes dos séculos era com o Pai e apareceu no fim dos tempos. Todos, então, recebida a mesma vida divina, respeitai-vos mutuamente e ninguém considere o próximo segundo a carne, mas amai-vos sempre uns aos outros em Jesus Cristo. Nada haja em vós que vos possa separar. Uni-vos ao bispo e aos que presidem, como uma figura e demonstração da imortalidade.

Da mesma forma que, sem o Pai unido a ele, o Senhor nada fez por si nem pelos apóstolos, assim também vós, sem o bispo e os presbíteros, nada executeis. Também não tenteis fazer passar por coisa boa o que se fizer em separado. Reunindo-vos, porém, seja uma só oração, uma só súplica, um só modo de pensar, uma só esperança na caridade, na santa alegria, pois um só é Jesus Cristo, mais excelente do que tudo. Acorrei todos como a um só templo de Deus, como a um só altar, a um só Jesus Cristo, que proveio de um só Pai, com ele só esteve e a ele voltou.

Não vos deixeis seduzir por doutrinas estranhas e velhas e inúteis fábulas. Se ainda vivemos de acordo com a lei judaica, confessamos não ter ainda recebido a graça. Pois os santos profetas já viveram em conformidade com Jesus Cristo. Por este motivo, inspirados por sua graça, sofreram perseguição, a fim de incutir certeza nos incrédulos de que há um só Deus, que se manifestou por Jesus Cristo, seu Filho, seu Verbo brotado do silêncio, que em tudo agradou àquele que o enviara.

Há quem negue a ressurreição de Cristo. Como isto é possível, se por ela recebemos o mistério da fé e por sua causa nos constituímos discípulos de Cristo, nosso único doutor? Se, pois, os que viveram sob a antiga economia chegaram à nova esperança, e assim não mais respeitam o sábado, porém, o domingo, no qual nossa vida ressurgiu por Cristo e sua morte, como poderemos viver sem ele, a quem os profetas esperaram como mestre e de quem já eram discípulos pelo espírito? Por esta razão, ao vir aquele a quem esperavam com justiça, foram ressuscitados dos mortos.

-- Da Carta aos Magnésios, de Santo Inácio de Antioquia, bispo e martir (século I)

16 de jul de 2011

As Revelações do Sagrado Coração de Jesus, relato do Padre Emile Bougaud

O padre Emile Bougaud escreveu um pequeno texto resumindo as revelações do Sagrado Coração de Jesus para Santa Margarida Maria Alacoque e as circunstâncias que cercaram tal acontecimento. O texto em inglês que traduzi está disponível aqui, a tradução é responsabilidade particular.  As visões ocorreram de 1673 a 1675, enquanto o texto teria sido publicado pela primeira vez em 1890, dois anos após o falecimento do Padre Bougard.

Como se pode ver, não trata-se de uma devoção trivial, de um Jesus "bonitinho", mas de um chamado sério a conversão individual e da humanidade, tendo em vista os muitos pecados cometidos por nós, um chamado de um Deus um tanto angustiado pelas nossas escolhas, em geral, contra Seus mandamentos e conselhos.

O texto está dividido em quatro partes:
1. Introdução
2. Primeira revelação
3. Segunda revelação
4. Terceira revelação



A Terceira Revelação do Sagrado Coração de Jesus

Era 16 de Junho de 1675 quando a última das grandes revelações relativas ao Sagrado Coração ocorreu. Estava próximo o tempo de encerramento das solenes festas. Até então, a humilde virgem recebera do Senhor apenas favores pessoais, muito semelhantes aos que outras santas almas já haviam também recebido.  Ele havia solicitado apenas práticas de devoção individual. Agora, entretanto, era o momento dEle atribuir uma grande missão pública.

Durante a oitava da festa do Sagrado Sacramento, Margarida Maria esta ajoelhada, olhos fixos no Tabernáculo. O Senhor concedera "algumas imensuráveis graças do Seu amor". Nada sabemos a respeito destas graças. Subitamente o Senhor apareceu no altar e descobriu seu coração, dizendo: "Veja este coração que tem amado tanto os homens, até consumir a si mesmo em exaustão, para testemunhar seu amor. Em retorno, a maioria tem respondido com ingratitudes, irreverências e sacrilégios, pela sua frieza e desconsideração que demonstram ao sacramento do amor. E o que é mais doloroso para Mim (Ele disse num tom de dor) é que são corações consagrados a Mim".  Então pediu que fosse estabelecida na Igreja uma festa em honra particular ao Seu Sagrado Coração. "é por esta razão que pedi para considerar a primeira sexta-feira após a oitava do Sagrado Sacramento ser apropriada para uma festa especial, em honra do Meu Coração e reparação das indignidades que tem recebido. E prometo que Meu Coração irá se dilatar e derramar abundantemente as influências do amor sobre todos que lhe renderem homenagens".

Esta foi a última e a mais celebrada revelação. Justamente a mais celebrada por que toda mensagem do Divino Coração de Jesus está contida nela. Seu princípio não é outro que amor transbordante de Deus fazendo um grande esforço para superar o mal; seu objetivo, ao tornar-se uma devoção pública, tem sido a muito tempo somente este; e, por fim, uma nova efusão do divino amor pela Igreja e, mais particularmente, pelas almas piedosas de seus apóstolos e propagadores.

Mas, se o Senhor fez uso de sua possibilidades naturais naquele momento tão sério, concedendo um pouco do esplendor de sua Divina presença, ou se Margarida Maria, reafirmada pelo Padre de la Colombiere, banira todo medo e abandonara sua alma inteiramente a alegre contemplação do seu divino Mestre, isto não sabemos. Mas, ao concluir a terceira revelação, não havia sinais das violentas emoções que seguiram-se às duas primeiras. A humilde virgem estava atenta e feliz, embora um pouco assustada com tal missão, afinal quem era ela para estabelecer uma festa no calendário da Igreja se não conseguia sequer convencer seus superiores e uma palavra deixou escapar: "Senhor, como fazê-lo?"  Ele respondeu que deveria confiar ao servo de Deus que Ele havia lhe enviado para alcançar tal objetivo.

Margarida Maria recorreu ao padre e lhe confiou a terceira revelação. O venerável padre pediu um relato por escrito para que pudesse, mais tarde, estudar. Nós podemos ver, mais tarde, com que respeito preservou tal documento. Ele examinou atentamente a revelação em frente a Deus e, iluminado pelo Altíssimo, declarou a Margarida que poderia confiar pois, sem dúvida, a revelação era vinda dos céus. Assim confirmada, ela não mais hesitou, ajoelhou-se em frente ao Divino Coração de Jesus, solenemente consagrou-se a Ele e lhe rendeu as primeiras e uma das mais puras homenagens. O padre, desejando unir-se a ela, também consagrou-se ao Coração de Jesus. Era uma sexta-feira, 21 de Junhoo, o dia após a oitava do Sagrado Sacramento, o dia designado pelo Senhor para ser sempre lembrado por um dia de Festa ao seu adorável Coração. Então Ele recebeu, através da humilde virgem e o santo padre, os primeiros frutos daqueles atos de adoração que logo seriam realizados por toda humanidade.

Assim termianva este glorioso drama, ao mesmo tempo três e um, das revelações do Sagrado Coração. Desenvolveu-se, seguindo uma profunda e misteriosa ordem, as incomparáveis visões confiadas a mais humilde das virgens. No silêncio e êxtase, ela por três vezes, na capela, em frente ao altar, ela vislumbrou por primeiro aquilo que toda a Igreja veria. A Igreja examinou seu testemunho, pediu seu relato, forçou pela obediência, e então declarou como sendo verdadeiro e autêntico, prostando-se em frente ao Sagrado Coração.

O que o Senhor pedira foi feito, o rebanho fiel de todos lugares, nas primeiras sexta-feiras de cada m6es ajoelha-se em frente ao Sagrado Coração de Jesus e faz reparação às incompreensíveis ingratitudes das criaturas que ele ama tão apaixonadamente. Em qualquer região, cristãos, - esposas, mães, jovens, padres e virgens consagram-se a Deus, aqueles que levantam-se no meio da noite entre Quinta e Sexta, que vêm para adorá-lo, chorar com Ele, e, muitas vezes, até par amarcar em sua carne as marcas sagradas da Sua Paixão. Em todos lugares, através da Igreja Católica, a sexta-feira após a oitava do Sagrado Sacramento é uma solenidade dedicada a contemplação da doçura do melhor dos corações.

Mas continuemos nosso relato. Por agora apenas parte do desejo do Nosso Salvador é conhecido. Ainda poderemops ver outros aparecerem e, neste caso, deveremos procurar realizá-los. Sem dúvida, é encessário tempo. Num dia de outuno, o sol lentamente clareia um céu obscuro pela cerração, mas embora lentamente para aparecer, sua luz é muito amada e desejada. Assim também é com o Adorável Coração de Jesus em nossos tristes tempos. Há cerca de dois séculos ele apareceu no horizonte. Não reclamemos, pois já grande parte das nuvens desapareceram. Está se aproximando a hora que Ele iluminará os céus e renovará a terra. 

-- Do Livro Revelações do Sagrado Coração de Jesus, do Bispo Emile Bougaud, sobre a vida de Santa Margarida Maria. O livro foi escrito em torno de 1850.

15 de jul de 2011

A importância da Eucaristia

O povo purificado, enriquecido com estas vestes, adianta-se para o altar de Cristo, dizendo: E entrarei até o altar de Deus, do Deus que alegra a minha juventude (Sl 42,4). Despidas as vestimentas do antigo erro, renovada a juventude como a da águia, apressa-se em ir participar do celeste banquete. Chega, e, ao ver a ornamentação do santo altar, exclama: O Senhor é meu pastor, nada me falta; levou-me a boas pastagens. Conduziu-me às águas da quietude. E mais adiante: Mesmo que caminhe em meio às sombras da morte, não temerei mal algum, porque tu estás comigo. Teu cajado e teu bastão são meus arrimos. Preparaste diante de mim uma mesa contra aqueles que me perseguem. Ungiste com óleo minha cabeça e como é luminoso teu cálice embriagador! (Sl 22)

Coisa admirável o ter Deus feito chover o maná para sustentar com o alimento celeste os patriarcas. Por isso se disse: O homem comeu o pão dos anjos. No entanto, aqueles que comeram deste pão,todos eles morreram no deserto; o alimento, porém, que tu recebes, pão vivo que desceu do céu, comunica a substância da vida eterna e quem quer que dele comer não morrerá eternamente, pois é o corpo de Cristo.

Papa Bento XVI celebrando a Eucaristia durante uma visita
à Inglaterra em 2011


Considera agora qual deles é de maior valor: o pão dos anjos ou a carne de Cristo, que é o corpo da vida. Aquele maná vem do céu; este está acima do céu. Aquele, do céu; este, do Senhor dos céus. Aquele é corruptível, se guardado para o dia seguinte; este é totalmente imune de corrupção e quem o tomar piedosamente não poderá experimentar a corrupção. Para aqueles brotou a água da pedra; parati, o sangue de Cristo. Àqueles, por um momento, a água saciou; a ti o sangue do Senhor refresca para sempre. O povo antigo bebe e tem sede; tu, ao beberes, não podes mais sentir sede, pois, de fato, aquilo era sombra, enquanto isto é realidade.

Se já admiras a sombra, qual não será tua admiração da realidade? Escuta como é sombra o acontecido aos patriarcas: Bebiam da pedra que os seguia; a pedra era Cristo. Mas Deus não se agradou de muitos deles, pois caíram mortos no deserto. Estas coisas foram feitas em figura para nós (1Cor 10,4-5). Conheces agora o que tem maior valor: a luz supera a sombra; a realidade, a figura; o corpo do Criador vale mais do que o maná do céu.

-- Do Tratado sobre os Mistérios, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

13 de jul de 2011

A perfeita alegria, por São Francisco de Assis

* Os Fioretti (florzinhas) de São de Francisco são um conjunto de pequenos relatos sobre a vida do santo, Santa Clara e os primeiros frades. Transmitidos inicialmente de maneira oral, foram compilados muitos anos após. O Santo morreu em 1226, enquanto cópia mais antiga disponível hoje, localizada em Berlim, é datada de 1390. Sendo assim, é dificil assegurar a veracidade histórica dos acontecimentos narrados. De qualquer modo, refletem a vitalidade e entusiasmo radical de São Francisco e seus primeiros seguidores, retratando muito bem a espiritualidade da Idade Média. Na Itália, são imensamente populares, tendo profunda influência na memória popular e se refletindo em vários outros livros e filmes sobre o Santo. 

Vindo uma vez São Francisco da cidade de Perusia para Santa Maria dos Anjos com Frei Leão em tempo de inverno, e como o grandíssimo frio fortemente o atormentasse, chamou Frei Leão, o qual ia mais à frente, e disse assim: "Irmão Leão, ainda que o frade menor desse na terra inteira grande exemplo de santidade e de boa edificação, escreve e nota diligentemente que nisso não está a perfeita alegria".

E andando um pouco mais, chama pela segunda vez: "`Santo irmão Leão, ainda que o frade menor desse vista aos cegos, curasse os paralíticos, expulsasse os demônios, fizesse surdos ouvirem e andarem coxos, falarem mudos, e mais ainda, ressuscitasse mortos de quatro dias, escreve que nisso não está a perfeita alegria". E andando um pouco, São Francisco gritou com força: "Ó irmão Leão, se o frade menor soubesse todas as línguas e todas as ciências e todas as escrituras e se soubesse profetizar e revelar não só as coisas futuras, mas até mesmo os segredos das consciências e dos espíritos, escreve que não está nisso a perfeita alegria".

Andando um pouco além, São Francisco chama ainda com força: "Õ irmão Leão, ovelhinha de Deus, ainda que o frade menor falasse com língua de anjo e soubesse o curso das estrelas e as virtudes das ervas; e lhe fossem revelados todos os tesouros da terra e conhecesse as virtudes dos pássaros e dos peixes e de todos os animais e dos homens e das árvores e das pedras e das raízes e das águas, escreve que não está nisso a perfeita alegria".

E caminhando um pouco, São Francisco chamou em alta voz: "Ô irmão Leão, ainda que o frade menor soubesse pregar tão bem que convertesse todos os infiéis à fé cristã, escreve que não está nisso a perfeita alegria".

E durando este modo de falar pelo espaço de duas milhas, Frei Leão, com grande admiração, perguntou-lhe e disse: "Pai, peço-te, da parte de Deus, que me digas onde está a perfeita alegria". E São Francisco assim lhe respondeu: "Quando chegarmos a Santa Maria dos Anjos, inteiramente molhados pela chuva e transidos de frio, cheios de lama e aflitos de fome, e batermos à porta do convento' e o porteiro chegar irritado e disser: 'Quem são vocês?'; e nós dissermos: "'Somos dois dos vossos irmãos', e ele disser: 'Não dizem a verdade; são dois vagabundos que andam enganando o mundo e roubando as esmolas dos pobres; fora daqui'; e não nos abrir e deixar-nos estar ao tempo, à neve e à chuva com frio e fome até à noite: então, se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos contra ele e pensarmos humildemente e caritativamente que o porteiro verdadeiramente nos tinha reconhecido e que Deus o fez falar contra nós: ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria.

E se perseverarmos a bater, e ele sair furioso e como a importunos malandros nos expulsar com vilanias e bofetadas dizendo: 'Fora daqui, ladrõezinhos vis, vão para o hospital, porque aqui ninguém lhes dará comida nem cama'; se suportarmos isso pacientemente e com alegria e de bom coração, ó irmão Leão, escreve que nisso está a perfeita alegria. E se ainda, constrangidos pela fome e pelo frio e pela noite, batermos mais e chamarmos e pedirmos pelo amor de Deus com muitas lágrimas que nos abra a porta e nos deixe entrar, e se ele mais escandalizado disser: 'Vagabundos importunos, pagar-lhes-ei como merecem': e sair com um bastão nodoso e nos agarrar pelo capuz e nos atirar ao chão e nos arrastar pela neve e nos bater com o pau de nó em nó: se nós suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo bendito, as quais devemos suportar por seu amor; ó irmão Leão, escreve que aí e nisso está a perfeita alegria, e ouve, pois, a conclusão, irmão Leão.

Acima de todas as graças e de todos os dons do Espírito Santo, os quais Cristo concede aos amigos, está o de vencer-se a si mesmo, e voluntariamente pelo amor suportar trabalhos, injúrias, opróbrios e desprezos, porque de todos os outros dons de Deus não nos podemos gloriar por não serem nossos, mas de Deus, do que diz o Apóstolo: 'Que tens tu que não hajas recebido de Deus? E se dele o recebeste, por que te gloriares como se o tivesses de ti?' Mas na cruz da tribulação de cada aflição nós nos podemos gloriar, porque isso é nosso e assim diz o Apóstolo: "Não me quero gloriar, senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, ao qual sejam dadas honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém."

-- Dos Fioretti de São Francisco

12 de jul de 2011

Da Vida de Santo Henrique

Santo Henrique e sua esposa Santa Cunegundes.
Este santíssimo servo de Deus, depois de ter sido consagrado rei, não se contentou apenas com as preocupações do reino temporal. Mas, querendo obter a coroa da imortalidade, decidiu combater pelo sumo Rei, a quem servir é reinar. Para tanto, dedicou a maior solicitude na promoção do culto divino, enriquecendo as igrejas com diversas doações e oferecendo-lhes toda sorte de ornamentos e alfaias sagradas. Fundou nos seus domínios o bispado de Bamberga, dedicado aos príncipes dos apóstolos São Pedro e São Paulo e ao glorioso mártir São Jorge, confiando-o à jurisdição especial da Santa Igreja Romana. Queria assim prestar à primeira Sé da cristandade a honra que lhe é devida por direito divino, e dar maior firmeza à sua fundação, colocando-a sob tão elevado patrocínio.

Este homem piedosíssimo se empenhou cuidadosamente em garantir para a sua nova Igreja os bens da paz e da tranquilidade. Para que isto fique evidente aos olhos de todos, tendo em vista os tempos futuros, incluímos aqui o testemunho de uma carta sua:

"Henrique, rei por divina clemência, a todos os filhos da Igreja, tanto aos futuros como os presentes. As determinações salutares da Palavra sagrada nos ensinam e advertem que, abandonando os bens temporais e rejeitando as vantagens terrenas, tenhamos em mira alcançar as mansões eternas, que permanecem para sempre nos céus. Pois a glória presente, enquanto a possuímos, é passageira e vã, a não ser que pensemos simultaneamente na glória eterna do céu. Contudo, a misericórdia de Deus providenciou para o gênero humano um remédio eficaz, ao estabelecer que uma parcela da pátria celeste deve ser adquirida com os bens terrenos.

Por conseguinte, não nos esquecemos que fomos elevados à dignidade real por uma escolha gratuita da misericórdia de Deus. Eis porque julgamos conveniente não apenas ampliar as igrejas cosntruídas por nossos antecessores, mas também enobrecê-las com generosas dádivas da nossa devoção. Por esta razão, não fechando os ouvidos aos mandamentos do Senhor e prestando obediência aos conselhos divinos, desejamos colocar desde já, no céu, os tesouros que recebemos da riqueza e da generosidade de Deus; lá os ladrões não os desenterram nem roubam, nem a ferrugem ou a traça os destroem. Assim, ao pensarmos nos bens que lá vamos agora acumulando, que o nosso coração esteja sempre voltado para o céu, pelo desejo e pelo amor.

Por isso, queremos que todos os fiéis saibam que o lugar chamado Bamberga, parte de nossa herança paterna, foi elevado a sede e sólio episcopal. Aí se perpetuará a memória nossa e de nossos pais, e será oferecido sem cessar o sacrifício da salvação por todos os que professam a verdadeira fé".

-- De uma antiga vida de Santo Henrique, século XI

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