27 de nov de 2013

São Tiago da Pérsia

São Tiago da Pérsia, cuja festa liturgica é
celebrada em 27 de Novembro.
São Tiago, também conhecido como "recortado", nasceu na cidade real da Pérsia, de nobre família, e muito jovem ascendeu na hierarquia da corte, alcançando grande reputação frente ao rei devido ao seu conhecimento e inteligência, tendo recebido extraordinárias honras e favores. E esta era sua grande tentação.

O Rei decidiu banir o Cristianismo do reino, obrigando a todos cristãos renunciar a sua fé ou morrer. São Tiago não teve coragem de renunciar aos seus privilégios e abandonou o verdadeiro Deus, que deixou de professar. Sua mãe e a esposa ficaram muitísssimo aflitas com a sua queda, deplorando a cada dia a escolha feita e redobrando orações por ele. Quando o Rei Isdegerdes morreu, elas lhe escreveram a seguinte carta:

Nós fomos informadas que tempos atrás, em troca dos favores dos reis e bens materiais, abandonaste o amor do Deus imortal. Pois pense onde está o rei agora, cujos favores tinhas em tão alta conta. Homem infeliz,  pois agora que ele retornou ao pó, que é o destino de todos mortais, já não tens a minima esperança de receber uma só moeda, muito menos proteção. E saibas que se perseverares nos teus crimes, você mesmo, pela justiça divina, irá cair em tormentos, junto com o teu querido rei. E de nossa parte, não queremos mais assunto contigo.

Tiago foi muito afetado pela leitura de tal carta e começou a refletir quais justas punições na vida eterna lhe caberiam por sua apostasia, que receberia da prórpia do mais justo dos reis. Resolveu abandonar a corte, afastar-se da companhia daqueles que poderiam lhe seduzir novamente, renunciar as honras, pompas e prazeres, de tudo aquilo que poderia ocasionar sua ruina. 

Assim vemos todos os dias penitentes que esquecem-se dos perigos dos quais recém foram resgatados e colocam-se novamente nos mesmos buracos dos quais foram retirados pela misericórdia de Deus. Observe os animais, se algumas vez cairam em uma armadilha e, com sorte, dela saíram, redobram os cuidados para nunca mais cair novamente no mesmo ardil. Muito mais deveriam fazer todos os homens, que governam a si mesmos, pela razão ou fé, deveriam evitar todas as oportunidades de cair nas mesmas tentações. 

Pois São Tiago deu o exemplo, não apenas reconheceu seu crime, como publicamente o admitiu e pediu perdão. Suas palavras logo chegaram ao novo rei Varananes, que imediatamente mandou prendê-lo. Em sua presença, o santo professou sua fé. O rei, indignado e furioso, reprovou sua ingratidão, enumerou os favores que havia recebido e as honras concedidas por seu pai. São Tiago calmamente retrucou: 

- Onde está ele agora? O que é feito dele?

Estas palavras exasperaram o governante, que o ameaçou com punições severas, não apenas uma morte rápida, mas terríveis tormentos. O santo disse então:

- Qualquer tipo de morte não é nada mais que um sono. Possa minha alma morrer a morte dos justos.

- Morte - replicou o tirano - não é um sono, é o terror dos nobres e reis.

O mártir respondeu:

- É verdade que a morte aterroriza reis e todos pecadores que não aceitam a Deus, por que perecerão.

O rei escutou estas palavras e retrucou:

- Pois então me chamas de pecador, ó raça inútil, que não adora ao Deus Sol, não adora a Deusa Lua, nem ao fogo ou a água, ilustres criações dos deuses.

Replicou São Tiago:

- Eu não te acuso mas afirmo que atribuis o incomunicável nome de Deus às suas criações.

O rei, cada vez mais irado, chamou seus ministros e juízes para deliberar qual morte cruel deveria ser aplicada a tal ofensa. Após consultar seu  conselho, decidiu que a menos que renunciasse ao nome de Cristo, o santo deveria morrer lentamente, com seus membros cortados um a um, junta por junta. Tal sentença foi publicada.

No dia marcado, o povo reuniu-se na praça para ver o espetáculo, enquanto os cristãos prostavam-se no chão em orações pedindo a graça da perseverança. Quando chegou à praça, carregado pelos soldados, São Tiago virou seu rosto para Jerusalem, caiu de joelhos e levantando os braços aos céus, rezou com grande fervor. 

Os executores aproximaram-se do santo e mostraram seus machados, adagas e outras armas; então estenderam seu braço, e explicaram de que forma morreria caso não negasse a Deus e obedecesse ao rei. Seus amigos da corte pediram que considerasse a proposta do rei, que abjurasse mesmo que momentaneamente, apenas para se salvar. Mas o mártir lhes ensinou:

- Esta morte que lhe parece tão cruel é um preço pequeno a pagar pela vida eterna.

E aos executores perguntou:

- O que estais esperando, comecem logo sua tarefa. 

Eles então cortaram-lhe o dedão da mão direita. O santo gritou para que todos pudessem ouvir:

- Óh Salvador dos Cristãos, recebe este ramo da tua árvore. Ele irá aprodrecer mas sei que dele nascerá a tua glória.

O juiz que havia sido apontado como supervisor da execução caiu em lágrimas, assim como todo povo presente. Ele pediu:

- Já é bastante que tenhas perdido um dedo por causa de tua religião. Tens muitas riquezas para te assegurar uma vida tranquila, não as disperdice desta maneira.

São Tiago respondeu:

- A vinha morre no inverno, mas dá frutos na primavera; pois mais capaz de dar frutos é o corpo de Cristo quando podado. Meu coração se alegra no Senhor e exulta meu espírito em Deus meu Salvador. Recebe, ó Senhor, outro ramo de teu corpo.

E a cada dedo cortado, mais glórias aos céus proclamava. Após cortarem os cinco dedos da mão direita, cortaram os da esquerda. O juiz novamente pediu que ele recusasse a Deus e interrompesse o sofrimento enquanto estava vivo, ao que ele disse:

- Não é digno de Deus aquele que tendo empenhado sua palavra, volta a cair em pecado.

Cortaram-lhe os dedos do pé direito, e depois, do pé esquerdo, um por vez. A cada dedo cortado, mais graças proclamava. Aos carrascos disse:

- Agora que já me tiraste os pequenos ramos, ataquem os ramos principais até deixar apenas o tronco. Não tenham piedade de mim pois meu coração rejubila no Senhor e minha alma se eleva de alegria. 

Cortaram-lhe então o pé direito e o pé esquedo; a mão direita e a mão esquerda. O braço direito e o braço esquerdo. Por fim, a perna direita e, depois, a perna esquerda. Restou deitado em seu próprio sangue, apenas um tronco nu que perdeu todos os galhos, ainda assim continuava a orar e agradecer à Deus, com mais amor, até que, enfim, um guarda cortou-lhe a cabeça. O santo completou o seu martírio no dia 27 de Novembro de 421, o segundo ano do reinado de Vararanes. 

O cristãos ofereceram considerável quantia por seus restos mortais, mas o rei não aceitou. No entanto, a noite, aproveitaram a distração da guarda e resgataram o corpo. Contaram 28 partes que colocaram em um caixão, junto com as vestes ensanguentadas, e cobriram com linho branco. Deram-lhe sepultura em lugar secreto, para que o rei não pudesse roubar-lhe. 

Há quatro narrações de seu martírio, o que comprova a veracidade dos fatos. 

-- Autoria própria

26 de nov de 2013

Chegarás à fonte, verás a luz

Nós, cristãos, em comparação com os infiéis, já somos luz; porque, como diz o Apóstolo: Outrora éreis trevas; agora, luz no Senhor. Andai como filhos da luz (Ef 5,8). E em outro lugar: Passou a noite, o dia se aproximou; rejeitemos, pois, as obras das trevas e revistamos as armas da luz; como em pleno dia caminhemos com dignidade (Rm 13,12-13).

Todavia, em comparação com aquela luz a que chegaremos, ainda é noite até mesmo o dia em que estamos. Ouve o apóstolo Pedro, quando do magnífico esplendor desceu até ele a voz dirigida a Cristo Senhor: Tu és meu Filho muito amado, em que pus minhas complacências. Esta voz, continua, nós a ouvimos vinda do céu, quando estávamos com ele no monte santo (2Pd 1,17-18). Já que, porém, nós não estivemos lá e não ouvimos então esta voz do céu, o mesmo Pedro nos fala: E a palavra profética se tornou mais segura para nós; fazeis bem em dar-lhe atenção como a uma lâmpada em lugar escuro, até que brilhe o dia e a estrela da manhã desponte em vossos corações (cf. 2Pd 1,19).

Quando, pois, vier nosso Senhor Jesus Cristo e, segundo diz o apóstolo Paulo, iluminar tudo quanto se oculta nas trevas e manifestar os pensamentos do coração, para que receba cada um de Deus seu louvor (1Cor 4,5), então num dia assim não haverá mais necessidade de lâmpadas:não se lerá mais o profeta, não se abrirá o volume do Apóstolo, não buscaremos o testemunho de João, não precisaremos do próprio Evangelho. Portanto, todas as Escrituras serão retiradas do centro onde, na noite deste mundo, elas se acendiam como lâmpadas a fim de não ficarmos nas trevas.

Afastadas todas estas luzes, não tendo mais de brilhar para nós, indigentes, e dispensando o auxílio que por esses homens de Deus nos era dado, vendo conosco aquela verdadeira e clara luz, o que é que veremos? Onde nosso espírito irá alimentar-se? Por que se alegrará com o que vê? Donde virá aquele júbilo que nem olhos viram, nem ouvidos ouviram, nem subiu jamais ao coração do homem? (cf. 1Cor 2,9). O que é que veremos?

 Eu vos peço: amai comigo, corei crendo comigo, desejemos a pátria celeste, suspiremos pela pátria do alto, sintamo-nos como peregrinos aqui. Que veremos então? Responda o evangelho: No princípio era o Verbo e o Verbo era com Deus, e o Verbo era Deus (Jo 1,1). No lugar de onde te banhou o orvalho, chegarás à fonte. Aí, de onde o raio de luz, indiretamente e como por rodeios, foi lançado a teu coração tenebroso, verás a luz sem véus; vendo-a, recebendo-a, serás purificado. Caríssimos, diz João, somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos; sabendo que, quando aparecer, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal qual é (1Jo 3,2).

Percebo que vossos sentimentos sobem comigo para as alturas, mas o corpo corruptível pesa sobre a alma; e a habitação terena com a multiplicidade dos pensamentos oprime o espírito (Sb 9,15). Também eu irei deixar de lado este livro, saireis também vós, cada um para sua casa. Sentimo-nos bem na luz comum, muito nos alegramos, exultamos de verdade; mas, ao afastar-nos uns dos outros, dele não nos afastemos.

-- Dos Tratados sobre São João, Santo Agostinho, bispo (século V)

21 de nov de 2013

Da Unidade da Igreja - parte III

Origem e maldade das heresias

A origem de onde nasceram freqüentemente e continuam nascendo as heresias é a seguinte: há mentes perversas e sem paz, que, discordando em sua perfídia, não podem suportar a unidade. O Senhor, por seu lado, respeita a liberdade do arbítrio humano, permite e tolera que isto aconteça, a fim de que o crisol da verdade purifique os nossos corações e as nossas mentes, e, na provação, resplandeça com luz inequívoca a integridade da fé.

O Espírito Santo nos previne, por meio do Apóstolo: "Convém que haja heresias para que entre vós se tornem manifestos os que resistem à prova" (1Cor 11,19). Assim, aqui mesmo, antes do dia do juízo, são divididas as almas dos justos e dos perversos e as palhas são separadas do trigo.

Catedral do Sagrado Coração, Bendigo, Australia
Esses são os que, por própria iniciativa e sem chamamento divino, se põem a encabeçar temerários grupinhos. Contra toda a lei da ordenação, se constituem superiores e, sem que ninguém lhes dê o episcopado, se atribuem a si mesmos o nome de bispos. A eles faz alusão o Espírito Santo, no Salmo, falando dos que estão sentados em cátedras de pestilência, porque são peste infecciosa da fé. Mestres na arte de corromper a verdade, eles enganam com bocas de serpente, vomitando de suas línguas pestilentas peçonhas mortíferas. Os seus discursos brotam como chaga cancerosa, o trato com eles deixa no fundo de cada coração um veneno mortal.

O Batismo cismático

Contra esses homens brada o Senhor, para afastar ou retirar deles o seu povo desviado: "Não escuteis os sermões dos pseudoprofetas, porque vivem iludidos pelas alucinações do seu coração. Falam, mas não as palavras do Senhor. Aos que rejeitam a palavra de Deus dizem eles: tereis a paz, vós e todos os que andam segundo as próprias vontades. Não virá mal algum, ainda sobre aqueles que seguem os erros do próprio coração. Eu não lhes falei e eles vão profetando. Se tivessem atendido ao meu conselho, ouvido as minhas palavras e as tivessem ensinado ao meu povo, eu os teria convertido dos seus perversos pensamentos" (Jer 23,16-22).

E de novo fala deles o Senhor: "Abandonaram a mim, que sou a fonte da água viva, e escavaram para si covas escuras, que nem podem dar água" (Jer 2,13 [Nota: Tradução literal do texto latino antigo. As versões tiradas do hebraico dizem: "cisternas fendidas, que não retêm a água"]).

Enquanto não pode haver senão um Batismo, eles pensam que podem batizar. Abandonaram a fonte da vida e ainda prometem a graça da água que dá a vida e a salvação. Lá os homens não são purificados, mas, ao contrário, mais poluídos. Lá os pecados não são perdoados, mas, antes, aumentados. Aquele nascimento não gera filhos para Deus, mas para o demônio [Nota: Esta recusa do batismo dos hereges é conseqüência do pensamento vigente. Este pensamento afirmava que qualquer violação na unidade da Igreja significava perversão total da fé. Hoje, a Igreja aceita o batismo das denominações protestantes tradicionais.].

Os que pretendem nascer por meio da mentira não recebem absolutamente as promessas da verdade. Gerados pela perfídia, não alcançam a graça da fé. Aqueles que, no delírio da discórdia, quebraram a paz do Senhor, não podem chegar ao prêmio da paz.

"Onde dois ou três..." (Mt 18,20)

Alguns se enganam a si mesmos com uma presunçosa interpretação das palavras do Senhor, que disse: "Onde quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles" (Mt 18,20).

São falsificadores do Evangelho e intérpretes mentirosos. Apegam-se ao que é dito depois, esquecendo o que foi dito antes, lembram-se de uma parte da frase e, astutamente, deixam do lado a outra. Assim como eles se separaram da Igreja, do mesmo modo truncam o sentido de uma única sentença.

De fato, o que queria dizer nosso Senhor? Para inculcar aos seus discípulos a união e a paz, diz ele: "Eu vos afirmo que, se dois de vós concordarem na terra em pedir qualquer coisa, ela lhes será outorgada por meu Pai que está nos céus" (Mt 18,19). E continua: "Onde quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles", mostrando que o que mais vale na oração não é o número dos que oram, mas a sua união de espírito.

"Se dois de vós concordarem na terra", diz ele. Antes exige a união, põe na frente a paz: o seu primeiro e mais firme preceito é que entre nós haja acordo. E como poderá estar de acordo com alguém aquele que está em desacordo com o corpo da Igreja e a totalidade dos irmãos?
Catedral de São João, Hertogenbosh, Holanda

Como poderão estar reunidos dois ou três em nome de Cristo, se é patente que estão separados de Cristo e do seu Evangelho? De fato não somos nós que nos apartamos deles, mas eles de nós. E quando, em seguida, formando entre si vários grupos, deram origem a heresias e cismas, abandonaram a cabeça e a fonte da verdade.

O Senhor quer falar da sua Igreja e dirige aquelas palavras àqueles que estão na Igreja, dizendo que, se dois ou três deles estiverem concordes, como ele ensinou e mandou, e se reunirem em um só espírito para rezar, embora sejam só dois ou três, impetrarão da majestade de Deus o que pedem.

"Onde quer que se encontrem reunidos em meu nome dois ou três, eu mesmo estou com eles", quer dizer com os simples, com os pacíficos, com os que temem a Deus e observam os seus preceitos. Com esses, ainda que não fossem mais do que dois ou três, prometeu que estaria, assim como esteve com os três jovens na fornalha ardente, e, porque permaneciam simples com Deus e unidos entre si, até no meio das chamas, os animou com uma brisa de orvalho (Dan 3,50).

Do mesmo modo esteve presente aos dois Apóstolos encerrados na cadeia, porque eram simples e unânimes. Ele mesmo abriu as portas do cárcere e os conduziu de novo à praça para que pregassem à multidão a palavra que tão fielmente anunciavam.

Por conseguinte, quando o Senhor coloca entre os seus preceitos estas palavras: "Onde quer que se encontrem dois ou três reunidos em meu nome, eu mesmo estou com eles", não quer separar os homens da Igreja, pois ele mesmo instituiu e formou a Igreja, mas ao contrário, repreendendo os pérfidos pela discórdia e encarecendo, com a sua própria voz, a paz aos fiéis, quer mostrar que ele está mais com dois ou três que oram unânimes, do que com muitos que oram na dissidência, e que obtém mais a prece concorde de poucos que a oração sediciosa de muitos.

Não achará a Deus propício quem não está em paz com o irmão

Por isto, quando ensinou o modo de orar, acrescentou: "Quando estiverdes em pé para orar, perdoai, se por acaso tendes mágoa contra alguém, a fim de que o vosso Pai que está nos céus vos perdoe também os pecados" (Mc 11,25). E se alguém vier ao sacrifício, estando de mal com alguém, ele o afasta do altar e ordena que, antes, se ponha de acordo com o irmão, e só depois volte em paz para oferecer a Deus a sua dádiva [Cf Mt 5,24].

Deus não olhou aos presentes de Caim [Gên 4,5], porque aquele que, pelo rancor da inveja, não tinha paz com o irmão, não podia encontrar a Deus propício.

Que espécie de paz podem pretender os inimigos dos irmãos? Que sacrifício pensam eles oferecer, enquanto não são que rivais dos sacerdotes? Julgam que Cristo esteja presente nas suas reuniões, enquanto se reúnem fora da Igreja de Cristo?

Nem o martírio lava a mancha da discórdia

Ainda que esses homens fossem mortos pela confissão do nome cristão, o seu sangue não lavaria esta mancha. O pecado da discórdia é tão grande e tão imperdoável, que não se apaga nem pelos tormentos. Não pode ser mártir quem não está na Igreja, não pode alcançar o Reino quem abandonou aquela que nasceu para reinar.

Cristo nos deu a paz. Ele nos mandou que fôssemos concordes e unidos, ordenou que os laços do amor e da caridade fossem conservados intactos e sem rachadura. Não pode iludir-se de ser mártir aquele que não conservou a caridade fraterna.

O apóstolo Paulo ensina e testemunha isto mesmo quando diz: "Ainda que eu tivesse fé para remover as montanhas, mas não tivesse a caridade, eu nada seria, ainda que distribuísse em alimento dos pobres tudo o que é meu, e entregasse o meu corpo às chamas, mas não tivesse a caridade de nada adiantaria. A caridade é magnânima, a caridade é benigna, a caridade não rivaliza, não faz mal, não se pavoneia, não se irrita, não pensa com maldade, tudo ama, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade jamais termina" (1Cor 13,1-9).

A caridade nunca termina, ela estará sempre no Reino, durará eternamente pela unidade dos irmãos em mútua harmonia. A discórdia não entra no Reino dos céus. Quem, com pérfida divisão, violou a caridade de Cristo, não poderá chegar aos prêmios do mesmo Cristo, que disse: "Este é o meu mandamento, que vos ameis mutuamente como eu vos amei" (Jo 15,12).

Quem vive sem caridade está sem Deus. Eis a voz do bem-aventurado apóstolo João: "Deus é amor. Quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele" (1Jo 4,16). Não podem permanecer com Deus os que não quiseram estar unidos na Igreja de Deus. Ainda que, lançados no fogo, fossem consumidos pelas chamas ou perdessem a vida sendo expostos às feras, tudo isto não seria unia coroa da fé, mas, antes, um castigo da sua perfídia, não seria o desfecho glorioso de uma vida religiosa intrépida, mas um fim sem esperança.

Um homem assim poderia ser morto, mas não coroado. Ele confessa que é cristão do mesmo modo que o diabo, muitas vezes, engana dizendo ser ele o Cristo. Escutemos o aviso do Senhor: "Muitos virão com o meu nome, dizendo: sou eu o Cristo, e enganarão a muitos" (Mc 13,16). Como o diabo não é Cristo, embora tome este nome, assim não pode passar por cristão aquele que não permanece na verdade do Evangelho e na fé de Cristo.

-- São Cipriano de Cartago (século III)

17 de nov de 2013

São Pedro Claver, escravo dos escravos

São Pedro Claver foi um jesuita espanhol missionário na Espanha que dedicou sua vida aos escravos, de quem é o santo patrono. Ainda quando estava no seminário, Pedro assim definou sua vocação: Devo dedicar-me ao serviço de Deus até a morte, compreendendo que devo tornar-me seu escravo. E na sua profissão de fé declarou ser Petrus Claver, aethiopum semper servus (servo eterno dos africanos).

Nasceu em 1581 na vila catalã de Verdu, em uma família de prósperos fazendeiros, a cerca de 90 km de Barcelona. Ao completar seus estudos, com 20 anos, Clever entrou para a Companhia de Jesus, tendo sido enviado para Palma de Mallorca estudar filosofia. Enquanto esteve lá, conviveu com São Alfonso Rodrigues, um irmão já reconhecido por sua santidade e dom de profecia, e foi ele que contou a São Pedro Clever que Deus lhe havia dito para seguir a América, pois esta era a missão que estava destinado. 

Clever voluntariou-se para o novo continente, chegou em 1610, na cidade de Cartagena, Colômbia, onde completou sua formação e foi ordenado em 1615. A cidade era um porto e centro de comércio de escravos, que eram comprados na África por quatro coroas e vendidos por 200 ou mais. Estima-se que cerca de 10.000 lá chegavam por ano.  

Durante quarenta anos alimentou, banhou e ajudou os escravos. Preferia ir para o porto e esperar os navios negreiros atracando. Entrava nos barcos o mais rápido possível e ia direto aos porões para tratar aqueles que haviam sobrevivido à viagem sobre horríveis condições. Era dificil andar ali, pois os porões estavam completamente superlotados. Ele lhes trazia comida, roupa e remédios; quase sempre acabava deixando parte de suas vestimentas para eles se vestirem. Dizia sempre que era necessário catequisar primeiro com o exemplo, antes de abrir a boca. 

Com a ajuda de interpretes e figuras, ele catequisava os escravos. Conta-se que teria batizado milhares. Também habitualmente pregava na praça da cidade, para uma audiência de marinheiros e mercadores, sempre falando do valor de todas as pessoas e do dever do amor ao próximo. Organizava missões para visitar os escravos nas fazendas, quando costumava dormir com eles e não na casa grande. 

Em uma carta, assim descreveu uma visita a certa fazenda:

Trouxemos roupas, alimentos e algumas mesas. Os muito doentes carregamos nos braços, organizamos dos círculos, de uma deles meu companheiro se encarregou, eu fiquei com o outro círculo. Entre os escravos, dois estavam morrendo, já frios e quase sem pulso. Fizemos uma fogueira no meio do círculo, lavamos suas feridas e colocamos nossos mantos sobre eles, não perdemos tempo pedindo permissão aos seus amos. Aos poucos recobraram as forças e sinais vitais. Ao final, de rosto muito alegre, ficaram nos fitando de olhos muito abertos.

No confessionário preferia atender àqueles que havia batizado e aos pobres, pois, segundo ele, para ricas senhoras havia muitos confessores disponíveis. Ao longo dos anos, de intensa atividade, e devido à sua força moral, tornou-se conhecido como o apóstolo de Cartagena, e, mais importante, melhorou o tratamento dado aos escravos.

Igreja de São Pedro Claver, em Cartagena, construída onde era a casa dos
jesuítas, na qual o santo viveu e morreu.
Nos últimos quatro anos de sua vida esteve muito doente, tendo falecido em 8 de Setembro de 1654. Quando o povo da cidade soube de sua morte, acabaram forçando a entrada da casa dos jesuítas para prestar as últimas homenagens. Sua reputação de santidade era tão grande que as vestes foram imediatamente consideradas relíquias. Os governantes, que não gostavam de sua atuação em favor dos escravos, acabaram aceitando um funeral público, com pompa e circunstância. Seu corpo foi preservado e hoje é venerado na igreja nomeada em sua honra, em Cartagena. 

Foi canonizado em 1888 pelo papa Leão XIII, junto com São Alfonso Rodrigues. Sua festa litúrgica é celebrada em 9 de Setembro.

-- Autoria própria.

14 de nov de 2013

Habacuc 3: Deus vem para julgar

Senhor, ouvi a tua mensagem,/ temo, Senhor, a tua obra! / Em nosso tempo faze revivê-la, em nosso tempo manifesta-a, na cólera lembra-te de ter compaixão! (Hab 3,2)

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Profeta Habacuc
Liturgia das Laudes propõe-nos uma série de cânticos bíblicos de profunda  intensidade  espiritual,  para acompanhar  a  oração  fundamental dos Salmos. Hoje ouvimos um exemplo tirado do terceiro e último capítulo do livro de Habacuc. Este profeta viveu nos finais do século XII a.C., quando o reino de Judá se sentia esmagado entre duas superpotênctias que se expandiam, por um lado o Egito e, por outro, a Babilónia.

Contudo, muitos estudiosos consideram este hino final como uma citação. Por conseguinte, no apêndice ao breve escrito de Habacuc encontra-se um verdadeiro e próprio cântico litúrgico, "em tom de lamentação" que deve ser acompanhado por "instrumentos de corda", como dizem duas notas colocadas no início e no final do Cântico (cf. Hab 3, 1.19b). A Liturgia das Laudes, no prosseguimento da antiga oração de Israel, convida-nos a transformar em cântico cristão esta composição, escolhendo alguns dos seus versículos mais significativos (cf. vv. 2-4.13a.15-19a).

O hino, que revela também uma notável força poética, apresenta uma grandiosa imagem do Senhor (cf. vv. 3-4). A sua figura domina solenemente todo o cenário do mundo e o universo é percorrido por um estremecimento perante o seu andar solene. Ele prossegue do sul, de Teman e do monte Faran (cf. v. 3), isto é, da zona do Sinai, sede da grande epifania reveladora de Israel. Também no Salmo 67 se descreve "o Senhor que vém do Sinai ao Santuário" de Jerusalém (cf. v. 18). O seu aparecimento, de acordo com uma constante da tradição bíblica, está circundado de luz (cf. Hab 3, 4).

É uma irradiação do seu mistério transcendente mas que se comunica à humanidade:  de fato, a luz está fora de nós, não a podemos prender ou parar; contudo ela envolve-nos, ilumina-nos e aquece-nos. Assim é Deus, distante e próximo, não se pode prender mas está ao nosso lado, ou melhor, sempre pronto para estar connosco e em nós. Quando se revela a sua majestade, a terra responde com um coro de louvor:  é a resposta cósmica, uma espécie de oração à qual o homem dá voz.

A tradição cristã viveu esta experiência interior não só no âmbito da espiritualidade pessoal, mas também em audaciosas criações artísticas. Pondo de lado as majestosas catedrais da Idade Média, mencionamos sobretudo a arte do oriente cristão com os seus admiráveis ícones e com as geniais arquitecturas das suas igrejas e dos seus mosteiros.

Igreja de Santa Sofia
A respeito disto, a Igreja de Santa Sofia de Constantinopla é uma espécie de arquétipo no que se refere à demarcação do espaço da oração cristã, na qual a presença e a incapacidade de conter a luz permitem sentir tanto a intimidade como a transcendência da realidade divina. Ele penetra toda a comunidade orante até à profundidade dos ossos e, ao mesmo tempo, convida-a a ultrapassar-se a si mesma para se imergir completamente na inefabilidade do mistério. São também significativas as propostas artísticas e espirituais, que caracterizam os mosteiros daquela tradição cristã. Naqueles verdadeiros e próprios espaços sagrados e o pensamento dirige-se imediatamente para o Monte Athos o tempo contém em si um sinal da eternidade. O mistério de Deus manifesta-se e esconde-se naqueles espaços através da oração contínua dos monges e dos eremitas, que sempre foram considerados semelhantes aos anjos.

Mas voltemos ao Cântico do profeta Habacuc. Para o autor sagrado a entrada do Senhor no mundo tem um significado bem determinado. Ele quer entrar na história da humanidade, "no decorrer dos anos", como se repete por duas vezes no versículo 2, para julgar e melhorar esta vicissitude, que nós conduzimos de maneira tão confusa e, muitas vezes, pervertida.

Então, Deus mostra a sua indignação (cf. v. 2c) contra o mal. E o cântico faz referência a uma série de intervenções divinas inexoráveis, sem especificar se se trata de ações diretas ou indiretas. Recorda-se o Êxodo de Israel, quando a cavalaria do Faraó foi afundada no mar (cf. v. 15). Mas faz-se aparecer também a perspectiva da obra que o Senhor está para realizar em relação ao novo opressor do seu povo. A intervenção divina é descrita de maneira quase "visível" através de uma série de imagens agrícolas:  "Porque então a figueira não brotará; nulo será o produto das vinhas, faltará o fruto da oliveira, e os campos não darão de comer. Não haverá mais ovelhas no aprisco, nem bois nos estábulos" (v. 17). Tudo o que é sinal de paz e de fertilidade é eliminado e o mundo mostra-se como um deserto. Esta é a imagem querida a outros profetas (cf.Jer 4, 19-26; 12, 7-13; 14, 1-10), para ilustrar o juízo do Senhor que não é indiferente perante o mal, a opressão e a injustiça.

Face à irrupção divina, o orante fica aterrorizado (cf. Hab 3, 16), tudo é um frémito, sente-se o esvaziar da alma, é atingido pelo tremor, porque o Deus da justiça é inefável, de maneira muito diferente dos juízes da terra.

Mas a entrada do Senhor tem também outra função, que o nosso cântico exalta com alegria. De fato, ele na sua indignação não se esquece da clemência compassiva (cf. v. 2). Ele sai do horizonte da sua glória não só para destruir a arrogância dos ímpios, mas também para salvar o seu povo e o seu consagrado (cf. v. 13), isto é, Israel e o seu rei. Ele também deseja ser libertador dos oprimidos, fazer desabrochar a esperança no coração das vítimas, iniciar uma nova era de justiça.

Por isso o nosso cântico, apesar de estar  assinalado  pelo  "tom  de  lamento",  transforma-se  num  hino  de  alegria. De facto, as calamidades anunciadas têm por finalidade a libertação dos oprimidos (cf. v. 15). Por isso, elas dão origem à alegria do justo que exclama:  "Eu, porém, exultarei no Senhor, alegrar-me-ei em Deus, meu Salvador" (v. 18).  A  mesma  atitude  é  sugerida  por Jesus  aos  seus  discípulos  no  tempo dos cataclismas apocalípticos:  "Quando estas coisas começarem a acontecer, cobrai ânimo e levantai as vossas cabeças, porque a vossa libertação está próxima" (Lc 21, 28).


No cântico de Habacuc é muito bonito o versículo final, que exprime a serenidade readquirida. O Senhor é definido como fizera Davi no Salmo 17 não só como "a força" do seu fiel, mas também como aquele que lhe dá agilidade, vigor, serenidade nos perigos. David cantava:  "Eu vos amo, Senhor, minha força... Ele iguala os meus pés aos do veado, e mantém-me de pé nas alturas" (Sl17, 2.34). Agora o nosso cantor exclama:  "O Senhor Deus é a minha força, Ele torna os meus pés ágeis como os da corça, e faz-me caminhar nas alturas" (Hab 3, 19). Quando o Senhor está ao nosso lado, já não se receiam os pesadelos nem os obstáculos, mas prossegue-se  o  caminho  da  vida, apesar de ser áspero, com um andar leve e com alegria.

-- Papa João Paulo II, na audiência de 15 de Maio de 2002

13 de nov de 2013

Perseveremos na esperança

Cumpramos, portanto, irmãos meus, a vontade do Pai que nos chamou, para termos a vida, e cultivemos a virtude; abandonemos o vício, precursor de nossos crimes, e fujamos da impiedade e assim os males não nos agarrarão. Porque, se nos esforçarmos por viver bem, a paz nos acompanhará. Por esta razão, não podem encontrá-la os homens que, presa de temores humanos, preferem o prazer presente à promessa futura. Ignoram quanto tormento traz consigo a volúpia deste mundo e que delícias encerra a promessa do futuro. E se fizessem isto só para si, ainda seria tolerável; mas insistem em inculcar más doutrinas nas pessoas inocentes, sem saber que incorrerão em dupla condenação, eles e os que os ouvem.

Quanto a nós, sirvamos a Deus com coração puro, e seremos justos. Se, porém, incrédulos diante das promessas de Deus, não o servimos, seremos extremamente infelizes. A palavra profética ensina: Infelizes os falsos e hesitantes de coração, que dizem: Já escutamos isto há muito, desde o tempo de nossos pais; esperando dia após dia, nada aconteceu. Ó loucos, comparai-vos à árvore, por exemplo,à videira: primeiro caem as folhas, depois vem o broto, em seguida a uva verde e por fim a uva madura. Assim meu povo sofre agitações e angústias; receberá os bens, depois.

Irmãos meus, não sejamos indecisos, mas perseveremos na esperança e obteremos o prêmio. É fiel aquele que prometeu dar a cada um segundo suas obras. Cumprindo a justiça diante de Deus, entraremos em seu reino e receberemos o prometido que ouvidos não ouviram, olhos não viram, nem jamais subiu ao coração do homem (cf. 1Cor 2,9).

Esperemos, então, a cada momento, na caridade e na justiça, o reino de Deus, apesar de não conhecermos o dia da chegada de Deus.

Vamos, irmãos, façamos penitência, convertamo-nos para o bem; porque estamos cheios de insensatez e de maldade. Lavemo-nos dos pecados passados e mudando profundamente nosso modo de pensar seremos salvos. Não sejamos aduladores, nem procuremos agradar somente aos irmãos, mas também aos de fora, por amor da justiça, para que o Nome não seja blasfemado por nossa causa (cf. Rm2,24).

-- Homília de Autor Desconhecido, século I

10 de nov de 2013

Da Unidade da Igreja - parte II

Figuras do Antigo Testamento: Raabe, o cordeiro pascal

Portanto quem será tão celerado e pérfido, tão louco pelo furor da discórdia, para pensar como possível ou até para ousar romper a unidade de Deus, a veste do Senhor, a Igreja de Cristo?

Catedral de Nossa Senhora, Quebec/Canada
Ainda uma vez nos avisa ele no Evangelho dizendo: "E haverá um só rebanho e um só pastor" (Jo 10,16). E como se pode pensar que, num mesmo lugar, existam muitos pastores e muitos rebanhos?

O apóstolo Paulo, por sua vez, inculcando esta mesma unidade, suplica e exorta: "Rogo-vos, irmãos, pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo, que todos digais as mesmas coisas e não se dêem cismas entre vós. Sede unidos no mesmo sentimento e no mesmo pensamento" (1Cor 1,10) E de novo: "Sustentando-vos mutuamente no amor, esforçando-vos por conservar a unidade do Espírito na união da paz" (Ef 4,2-3).

Achas tu que alguém pode afastar-se da Igreja, fundar, a seu arbítrio, outras sedes e moradias diversas e ainda perseverar na vida? Ouve o que foi dito a Raabe, na qual era prefigurada a Igreja: "Recolhe teu pai, tua mãe, teus irmãos e toda a tua família junto de ti, na tua casa, e qualquer um que ouse sair fora da porta da tua casa, será ele próprio culpado da sua perda" (Jos 2,18-19).

Igualmente o sacramento da Páscoa [antiga], como lemos no Êxodo, exigia que o cordeiro, morto como figura de Cristo, fosse comido numa só casa. Eis as palavras de Deus: "Seja comido numa só casa, não jogueis fora da casa carne alguma dele" (Ex 12,46). A carne de Cristo, o Santo do Senhor [Nota: "Sanctum Domini" O Santo do Senhor - era como os primeiros cristãos chamavam a Eucaristia - O Corpo e Sangue de Cristo Jesus], não pode ser jogado fora. Para os que nele crêem, não há outra casa a não ser a única Igreja.

O Espírito Santo anuncia e significa esta casa, esta morada da união dos corações, dizendo nos salmos: "Deus faz habitar na casa aqueles que são unânimes" (Sl 67,7). Na casa de Deus, na Igreja de Cristo, os moradores são unidos e perseveram na concórdia e na simplicidade.

A pomba, exemplo de sociabilidade e concórdia

Por isto também o Espírito Santo desceu em forma de pomba [Mt 3,16; Mc 1,10], animal simples e alegre, sem amargura alguma de fel, incapaz de se enfurecer; não morde, não arranha com as unhas. Prefere as moradias dos homens e gosta de habitar numa mesma casa. Quando criam, as pombas cuidam dos filhotes juntamente, quando viajam, voam pertinho umas das outras. Passam o tempo em tranqüilos arrulhos, manifestam a concórdia e a paz beijando-se no rosto. Enfim, em todas as coisas seguem a lei da boa harmonia.
Catedral da Imaculada Conceição, Ouagadougou/Burkina Fasso

Esta é a simplicidade que deve reinar na Igreja, essa a caridade que devemos realizar: o amor fraternal imite as pombas, a mansidão e a brandura sejam iguais às dos cordeiros e das ovelhas.

Como podem estar no coração de um cristão a ferocidade dos lobos, a raiva dos cães, o veneno mortífero das serpentes ou a crueldade sanguinária das feras?

Devemos alegrar-nos quando os que têm esses sentimentos se separam da Igreja. Assim as pombas e as ovelhas de Cristo não serão contagiadas pela sua maldade e pelo seu veneno. Não podem conciliar-se e juntar-se amargura e doçura, trevas e luz, chuva e céu sereno, guerra e paz, esterilidade e fecundidade, secura e manancial, tempestade e bonança.

Não acreditem que os bons possam deixar a Igreja: não é o trigo que o vento carrega, o furacão não arranca as árvores que têm sólidas raízes. Ao contrário são as palhas vazias que a tormenta agita, são as árvores vacilantes que a força dos turbilhões abate. Contra esses o apóstolo S. João manifesta a sua repulsa, dizendo: "Saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos. Se tivessem sido dos nossos, sem dúvida teriam ficado conosco" (1Jo 2,19).

-- São Cipriano de Cartago (século III)

Sobre as aparições de Medjugorie

No dia 21 de Outubro, O Núncio Apostólico nos EUA enviou uma carta à USCCB (Conferência de Bispos Católicos dos Estados Unidos) advertindo que uma série de apresentações de um dos videntes de Medjugorie, que estava marcada para os EUA, não estaria em acordo com a posição oficial da Igreja acerca do assunto, que ainda está sob investigação. Até o momento apenas os bispos com jurisdição sobre Medjugorie se manifestaram publicamente, não confirmando se tratar de legítimas aparições de Nossa Senhora, isto ainda em 1991.
Cinco dos videntes de Medjugorie, em foto de 2007.

No início, 6 jovens tinham visões quase diárias de Nossa Senhora; atualmente três deles ainda alegam ter tais aparições. Isto gera imediatamente um enorme problema para a Igreja: analisar todas as mensagens para verificar se estão em acordo com a doutrina da Igreja e outras mensagens já reconhecidas de Nossa Senhora torna-se mais difícil a cada dia, pois há novas para verificar. Também há questões quanto ao comportamento pessoal dos videntes e padres franciscanos que atuam como conselheiros espirituais, pois espera-se que sejam exemplares. 

Além de não promover ou participar de encontros com os videntes, peregrinações à Medjugorie também não estão em total acordo com a Igreja. E obviamente a advertência vale para toda a Igreja, não apenas nos Estados Unidos. 

Carta original aqui, traduzida por mim. 

Reverendo Monsenhor Jenkins,

Eu escrevo por solicitação de Sua Excelência, Reverendo Gerhard Ludwig Muller, Prefeito da Congregação para Doutrina da Fé, que solicita aconselhar aos bispos dos Estados Unidos, mais uma vez, sobre o assunto. Portanto, Sua ExcelÊncia deseja informar aos bispos que um dos chamados visionários de Medjugorie, Sr. Ivan Dragicevic, fará apresentações em paróquias do país, nas quais falará sobre os fenômenos de Medjugorie. Antecipa-se que, durante estas apresentações, o Sr. Dragicevic terá "visões".

Como vós já sabeis, A Congregação para a Doutrina da Fé está investigando certos aspectos doutrinários e disciplinares dos fenômenos de Medjugorie. Por esta razão, a Congregação afirma que sobre a credibilidade das "aparições", todos devem aceitar a declaração de 10 de Abril de 1991 escrita pelos bispos da antiga República da Iugoslávia, que diz:"Considerando a investigação realizada, não é possível afirmar que tais fatos sejam aparições ou revelações sobrenaturais." Daí segue, portanto, que sacerdotes e fiéis não estão permitidos de participar em encontros, conferências ou celebrações públicas nas quais a credibilidade de tais "aparições" seja considerada como confirmada.

Com o objetivo de evitar escândalo e confusão, o Arcebispo Muller solicita que os Bispos sejam informados deste assunto o mais breve possível.

Aproveito a oportunidade para apresentar os meus sentimentos de profunda estima,

Sinceramente seu irmão em Cristo,
Carlo Maria Vigano
Núncio Apostólico


4 de nov de 2013

Salmo 50: Senhor, tende piedade de mim!

Cada semana da Liturgia das Laudes é marcada na sexta-feira pelo Salmo 50, o Miserere, o Salmo penitencial mais amado, cantado e meditado, hino ao Deus misericordioso elevado pelo pecador arrependido. Já tivemos ocasião, numa catequese precedente, de apresentar o quadro geral desta grande oração. Em primeiro lugar, entra-se na região tenebrosa do pecado para aí levar a luz do arrependimento humano e do perdão divino (cf. vv. 3-11). Depois, exalta-se o dom da graça divina, que transforma e renova o espírito e o coração do pecador arrependido:  esta é uma região luminosa, cheia de esperança e de confiança (cf. vv. 12-21).

Detemo-nos, nesta nossa reflexão na primeira parte do Salmo 50, aprofundando alguns dos seus aspectos. Mas, no começo, desejaríamos mencionar a maravilhosa proclamação divina do Sinai, que é quase o retrato do Deus cantado pelo Miserere:  "Javé! Javé! Deus misericordioso e clemente, vagaroso em encolerizar-Se, cheio de bondade e fidelidade, que mantém a Sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado" (Êx34, 6-7).

A invocação inicial eleva-se a Deus para obter o dom da purificação que faça como dizia o profeta Isaías "brancos como a neve" e "como a lã" os pecados, em si semelhantes ao "escarlate" e "vermelhos como a púrpura" (cf. Is 1, 18). O Salmista confessa o seu pecado de forma clara e sem hesitações:  "Reconheço, de verdade, a minha culpa... Contra Vós apenas é que eu pequei, pratiquei o mal perante os vossos olhos" (Sl 50, 5-6).

Por conseguinte entra em cena a consciência pessoal do pecador que se abre para compreender claramente o seu mal. É uma experiência que envolve liberdade e responsabilidade, e leva a admitir que se quebrou o vínculo para construir uma escolha de vida alternativa em relação à Palavra divina. Disto deriva uma decisão radical de mudança. Tudo isto está encerrado naquele "reconhecer", um verbo que em hebraico não significa apenas uma adesão intelectual mas uma opção vital.

É o que, infelizmente, muitos não fazem, como nos adverte Orígenes:  "Há quem, depois de ter pecado, se sinta completamente tranquilo e não se preocupe com o seu pecado nem tocado pela consciência do mal cometido, mas viva como se nada tivesse acontecido. Sem dúvida, esse não poderia dizer:  tenho sempre consciência do meu pecado. Ao contrário, quando, depois do pecado, o pecador se inquieta e se aflige devido ao seu pecado, quando se sente atormentado pelos remorsos, dilacerado sem tréguas e sofre sobressaltos no seu íntimo que se eleva para o contestar, ele, com razão, exclama:  não há paz para os meus ossos face ao aspecto dos meus pecados... Portanto, quando os pecados cometidos se apresentam aos olhos do nosso coração, os revemos um por um, os reconhecemos, nos envergonhamos e arrependemos do que fizemos, então perturbados e aterrorizados, justamente dizemos que não há paz para os nossos ossos face ao aspecto dos nossos pecados..." (Homilias sobre os Salmos, Florença 1991, págs. 277-279).
O reconhecimento e a consciência do pecado é, portanto, fruto de uma sensibilidade adquirida graças à luz da Palavra de Deus.

Na confissão do Miserere há um realce de particular evidência:  o pecado não é compreendido apenas na sua dimensão pessoal e psicológica, mas é analisado sobretudo na sua qualidade teológica. "Contra Vós apenas é que eu pequei" (Sl 50, 6), exclama o pecador, ao qual a tradição deu o rosto de David, consciente do seu adultério com Betsabé, e da denúncia do profeta Natan contra este crime e contra o crime da morte do seu marido, Urias (cf v. 2; 2 Sam 11, 12).

Por conseguinte, o pecado não é apenas uma questão psicológica ou social, mas é um acontecimento que prejudica a relação com Deus, violando a sua lei, recusando o seu projecto na história, alterando a escala dos valores, "mudando as trevas em luz e a luz em trevas", isto é, "chamando bem ao mal e mal ao bem" (cf. Is 5, 20). Antes de ser uma possível afronta contra o homem, o pecado é antes de mais traição a Deus. São emblemáticas as palavras que o filho desprovido de bens pronuncia diante de seu pai, pródigo de amor:  "Pai, pequei contra o Céu isto é, contra Deus e contra ti!" (Lc 15, 21).

A este ponto o Salmista introduz outro aspecto, mais diretamente relacionado com a realidade humana. Foi a frase que suscitou muitas interpretações e que também foi relacionada com a doutrina do pecado original:  "Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-me pecador" (Sl50, 7). O orante deseja indicar a presença do mal dentro do nosso ser, como é evidente na menção da concepção e do nascimento, uma forma de exprimir toda a existência partindo da sua origem. Mas o Salmista não relaciona formalmente esta situação com o pecado de Adão e Eva, isto é, não fala explicitamente de pecado original.

Contudo, é evidente que, segundo o texto do Salmo, o mal se esconde nas próprias profundezas do homem, é inerente à sua realidade histórica e, por isso, é decisivo o pedido da intervenção da graça divina. O poder do amor de Deus supera o poder do pecado, o rio transbordante do mal pode menos do que a água fecundante do perdão:  "Onde abunda o pecado, superabunda a graça"(Rm 5, 20).

Por este caminho, a teologia do pecado original e toda a visão bíblica do homem pecador são indirectamente recordados com palavras que deixam, ao mesmo tempo, entrever a luz da graça e da salvação.

Como teremos ocasião de descobrir no futuro, voltando a falar deste Salmo e dos versículos seguintes, a confissão da culpa e a consciência da própria miséria não levam ao terror ou ao pesadelo do juízo, mas à esperança da purificação, da libertação, da nova criação.

De fato, Deus salva-nos "não por causa das obras da justiça que tivéssemos feito, mas por misericórdia, mediante o batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo, que derramou sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tit 3, 5-6).


-- Papa João Paulo II, na audiência de 8 de Maio de 2002

3 de nov de 2013

Da Unidade da Igreja - parte I

1 - Vigiai, o inimigo vem disfarçado

"Vós sois o sal da terra" (Mt 5,3), diz o Senhor, e ainda nos recomenda que sejamos simples pela inocência e prudentes na simplicidade [Mt 10,16]. Nada pois é mais importante para nós, irmãos diletíssimos, quanto vigiar com todo o cuidado para descobrir logo e, ao mesmo tempo, compreender e evitar as ciladas do inimigo traiçoeiro. Sem isso, embora sejamos revestidos de Cristo [Rom 13,14; Gál 3,27], que é a Sabedoria de Deus Pai [1Cor 1,24], nos mostraríamos menos sábios na defesa da salvação.

De fato, não devemos temer só a perseguição e os vários ataques que se desencadeiam abertamente para arruinar e abater os servos de Deus. Quando o perigo é manifesto, a cautela é mais fácil. O nosso espírito está mais pronto para lutar contra um adversário abertamente declarado. É mais necessário ter medo e guardar-nos do inimigo que penetra às escondidas, e se vai insinuando oculta e tortuosamente com falsas imagens de paz. Bem lhe convém o nome de serpente! Essa foi sempre a sua astúcia, esse foi sempre o tenebroso e pérfido engano com que tenta seduzir o homem.

Catedral de Milão, Itália
Já no começo do mundo mentiu e enganou as almas crédulas e ingênuas (dos nossos primeiros pais), acariciando-as com palavras falazes [Gên 3,1ss] . Igualmente ousou tentar a Cristo, nosso Senhor, e se aproximou dele insinuando, disfarçando, mentindo. Foi contudo desmascarado e repelido. Desta vez, foi derrotado porque foi reconhecido e descoberto [Mt 4,1ss].

2 - Acima de tudo: cumprir os mandamentos de Cristo

Sirvam-nos estes exemplos. Evitemos o caminho do homem velho, para não cair no laço da morte. Sigamos as pisadas de Cristo vencedor, para que, usando cautela diante do perigo, alcancemos a verdadeira imortalidade.

Mas, como poderíamos chegar à imortalidade, sem observar os mandamentos de Cristo? São eles os únicos meios para combater e vencer a morte. Ele nos avisa: "Se queres chegar à vida, observa os mandamentos" (Mt 19,17), e, de novo: "Se fizerdes o que vos mando, já não vos chamarei servos, mas amigos" (Jo 15,15).

Esses são os que ele diz serem fortes e firmes. Esses têm fundamento sólido na pedra, e gozam de inabalável resistência contra todas as tempestades e as rajadas do século. "Quem ouve as minhas palavras - diz ele - e as cumpre é semelhante ao homem sábio que construiu a sua casa sobre a pedra. Desceu a chuva, desabaram as correntes, sopraram os ventos, batendo contra aquela casa, e ela não caiu porque fora fundada na pedra" (Mt 7,25).

Devemos, pois, prestar atenção às suas palavras, devemos aprender e praticar o que ele ensinou e o que fez. Como poderia asseverar que acredita em Cristo aquele que não cumpre o que Cristo mandou? E como conseguirá o prêmio da fé aquele que recusa a fé no que foi mandado? Fatalmente ele irá vacilando, à ventura, e, arrastado pelo espírito do erro, será varrido como pó agitado pelo vento.

Nunca poderão conduzir à salvação os passos daquele que não adere à verdade da única via que salva.

3 - O demônio é o autor dos cismas

Devemos pois guardar-nos, irmãos caríssimos, não só dos males que aparecem claramente como tais, mas também, como já disse, daqueles que nos enganam pela sutileza da astúcia e da fraude.

Pois bem, vede agora a que ponto chega a astúcia e a sutileza do inimigo. Veio Cristo ao mundo. Veio a luz para os povos e resplandeceu para a salvação dos homens [Lc 2,32]. Com isto ficou descoberto e derrotado o antigo adversário. Os surdos abrem os ouvidos às graças espirituais, os cegos abrem os olhos a Deus, os enfermos ficam são ao ganhar a saúde eterna, os coxos correm à Igreja, os mudos soltam as suas línguas na oração [Mt 11,5; Lc 7,22]. Aumenta dia a dia o povo fiel, abandonam-se os velhos ídolos, tornam-se desertos os seus templos.

Então, o que faz o malvado? Inventa nova fraude para enganar os incautos com o próprio título do nome cristão. Introduz as heresias e os cismas para derrubar a fé, para contaminar a verdade e dilacerar a unidade. Assim, não podendo mais segurar os seus na cegueira da antiga superstição, os rodeia, os conduz ao erro por novos caminhos. Rouba à Igreja os homens e, fazendo-lhes acreditar que alcançaram a luz e se subtraíram à noite do século, envolve-os ainda mais nas trevas: não observam a lei do Evangelho de Cristo e se dizem cristãos, andam na escuridão e pensam que possuem a luz, nisto são iludidos e lisonjeados pelo adversário, que, como diz o Apóstolo, "se transfigura em anjo de luz" (2Cor 11,14).

Disfarça seus ministros em ministros de justiça, ensina-lhes a dar à noite o nome de dia, à perdição o nome de salvação, ensina-lhes a propalar o desespero e a perfídia sob o rótulo da esperança e da fé, a apregoar o Anticristo com o nome de Cristo. Mestres na arte de mentir, diluem com as suas sutilezas toda a verdade.

Isto acontece, irmãos caríssimos, porque não se bebe à fonte mesma da verdade, não se busca aquele que é a Cabeça, nem se observam os ensinamentos do Mestre celestial.

Catedral de Tóquio, Japão
4 - "Tu és Pedro, e sobre esta pedra..."

Quem presta atenção a estes ensinamentos não precisa de longo estudo, nem de muitas demonstrações. A prova da nossa fé é fácil e compendiosa.

Assim fala o Senhor a Pedro: "Eu te digo que tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja e as portas dos infernos não a vencerão. Dar-te-ei as chaves do Reino dos céus e tudo o que ligares na terra será ligado também nos céus, e tudo o que desligares na terra será desligado também nos céus" (Mt 16,18-19).

Sobre um só edificou a sua Igreja. Embora, depois da sua ressurreição, tenha comunicado igual poder a todos os Apóstolos, dizendo: "Como o Pai me enviou, eu vos envio a vós. Recebei o Espírito Santo, a quem perdoardes os pecados ser-lhe-ão perdoados, a quem os retiverdes ser-lhe-ão retidos" (Jo 20,21-23), todavia, para tornar manifesta a unidade, dispôs com a sua autoridade que a origem da unidade procedesse de um só.

É verdade que os demais Apóstolos eram o mesmo que Pedro, tendo recebido igual parte de honra e de poder, mas a primeira urdidura começa pela unidade a fim de que a Igreja de Cristo aparecesse uma só.

O Espírito Santo, falando na pessoa do Senhor, designa esta Igreja única quando diz no Cântico dos Cânticos: "Uma só é a minha pomba, a minha perfeita, única filha da sua mãe e sem igual para a sua progenitora" (Cânt 6,9).

Aquele que não guarda esta unidade poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que resiste e faz oposição à Igreja poderá confiar que ainda está na Igreja?

Paulo apóstolo inculca o mesmo ensinamento e mostra o sacramento da unidade, dizendo: "Um só corpo e um só espírito, uma é a esperança da vossa vocação, um Senhor, uma fé, um Batismo, um só Deus" (Ef 4,4-5).

E, depois da ressurreição, diz ao mesmo: "Apascenta as minhas ovelhas" (Jo 21,17). Sobre ele só constrói a Igreja e lhe manda que apascente as suas ovelhas. Embora comunique a todos os Apóstolos igual poder, todavia institui uma só cátedra, determinando assim a origem da unidade.

É verdade que os demais [Apóstolos] eram o mesmo que Pedro, mas o primado é conferido a Pedro para que fosse evidente que há uma só Igreja e uma só cátedra. Todos são pastores, mas é anunciado um só rebanho, que deve ser apascentado por todos os Apóstolos em unânime harmonia.

Aquele que não guarda esta unidade, proclamada também por Paulo, poderá pensar que ainda guarda a fé? Aquele que abandona a cátedra de Pedro, sobre o qual foi fundada a Igreja, poderá confiar que ainda está na Igreja?

5 - A Igreja única e universal: muitos são os raios, uma a luz...

Esta unidade devemos guardar e exigir com firmeza, especialmente nós, bispos, que na Igreja presidimos, para dar prova de que o episcopado também é um e indiviso. Ninguém engane os irmãos com mentiras, ninguém corrompa a pureza da fé com pérfidos desvios.

Uma só é a ordem episcopal e cada um de nós participa dela completamente. Mas a Igreja também é uma, embora, em seu fecundo crescimento, se vá dilatando numa multidão sempre maior.

Assim muitos são os raios do sol, mas uma só é a luz, muitos os ramos de uma árvore, mas um só é o tronco preso à firme raiz. E quando de uma única nascente emanam diversos riachos, embora corram separados e sejam muitos, graças ao copioso caudal que recebem, todavia permanecem unidos na fonte comum.

Se pudéssemos separar o raio do corpo do sol, na luz assim dividida já não haveria unidade. Quando se quebra um ramo da árvore, o ramo quebrado já não pode vicejar. Se separamos um regato da fonte, ele secará.

Igualmente a Igreja do Senhor, resplandecente de luz, lança seus raios no mundo inteiro, mas a sua luz, difundindo-se em toda a parte, continua sendo a mesma e, de modo nenhum, é abalada a unidade do corpo.

Na sua exuberante fertilidade, estende os seus ramos em toda a terra, derrama as suas águas em vivas torrentes, mas uma só é a cabeça, uma a fonte, uma a mãe, tão rica nos frutos da sua fecundidade. Do parto dela nascemos, é dela o leite que nos alimenta, dela o Espírito que nos vivifica.

Única Esposa de Cristo: não pode ter Deus por Pai, quem não tem a Igreja por mãe

A Esposa de Cristo não pode tornar-se adúltera, ela é incorruptível e casta [Cf Ef 5,24-31]. Conhece só uma casa, observa, com delicado pudor, a inviolabilidade de um só tálamo. É ela que nos guarda para Deus e torna partícipes do Reino os filhos que gerou.

Aquele que, afastando-se da Igreja, vai juntar-se a uma adúltera, fica privado dos bens prometidos à Igreja. Quem abandona a Igreja de Cristo não chegará aos prêmios de Cristo. Torna-se estranho, torna-se profano, torna-se inimigo.

Catedral de Lima, Peru
Não pode ter Deus por Pai quem não tem a Igreja por mãe. Como ninguém se pôde salvar fora da arca de Noé, assim ninguém se salva fora da Igreja [nota: aqui Cipriano fala dos obstinados que, conhecendo a verdade, insistem, por ódio ou comodismo pagão, em se apartar da Igreja de Cristo].

O Senhor nos alerta e diz: "Quem não está comigo está contra mim, quem comigo não recolhe, dissipa" (Mt 12,30). Quem rompe a paz e a concórdia de Cristo trabalha contra Cristo. Quem faz colheita alhures, fora da Igreja, esse dissipa a Igreja de Cristo.

Diz ainda o Senhor: "Eu e o Pai somos um" (Jo 10,30), e do Pai, do Filho e do Espírito Santo está escrito: "Estes três são um" (1Jo 5,7). Como poderá alguém pensar que esta unidade da Igreja, decorrente da própria firmeza da unidade divina, e tão conforme com este celeste mistério, pode ser rompida e sacrificada ao arbítrio de vontades opostas? Quem não observa esta unidade não observa a lei de Deus, não observa a fé do Pai e do Filho, não possui nem a vida, nem a salvação.

7 - A túnica de Cristo

Este sacramento da unidade, este vínculo de concórdia inviolada e sem rachadura, é figurado também pela túnica do Senhor Jesus Cristo. Como lemos no Evangelho, ela não foi dividida, nem, de modo algum, rasgada, mas sorteada. Isto quer dizer que quem toma a veste de Cristo e tem a dita de se revestir do próprio Cristo [Rom 13,14; Gál 3,27], deve receber a sua túnica toda inteira e possuí-la intacta e sem divisão.

Diz a divina Escritura: "Quanto à túnica, visto que, desde a parte superior, era feita de uma única tecedura, sem costura alguma, disseram: não a dividamos, mas lancemos-lhe a sorte para ver a quem toca" (Jo 19,23-24). A unidade da túnica derivava da sua parte superior - em nosso caso, do céu e do Pai celeste. Aquele que a recebia e guardava não podia rasgá-la de modo nenhum, de fato ela era resistente e sólida por ser constituída de um modo inseparável.

Não pode possuir a veste de Cristo aquele que rasga e divide a Igreja de Cristo.

O contrário aconteceu à morte de Salomão, quando o seu reino e o povo deviam ser divididos. O profeta Aías, indo ao encontro do rei Jeroboão no campo, cortou o seu manto em doze partes, dizendo: "Toma para ti dez partes, porque assim diz o Senhor: eis que eu divido o reino da mão de Salomão, a ti darei dez cetros e dois ficarão para ele, por causa do meu servo Davi e de Jerusalém, a cidade eleita em que eu pus o meu nome" (1Rs 11,30-36). Para separar as doze tribos de Israel, o profeta dividiu O seu manto.

Mas o povo de Cristo não pode ser dividido, e por isso a sua túnica, que era um todo feito de uma só tecedura, não foi dividida por aqueles que a deviam possuir. Ficando uma só, bem firme na sua contextura, ela mostra a união e a concórdia do nosso povo, isto é, daqueles que são revestidos de Cristo. Por este sinal sagrado da sua veste, proclamou ele a unidade da Igreja.

-- São Cipriano de Cartago (século III)

1 de nov de 2013

Sobre a santidade

A santidade exige um esforço constante, mas é possível para todos porque, mais do que uma obra do homem, é sobretudo um dom de Deus, três vezes Santo (cf. Is 6, 3). O Apóstolo João observa: "Vede que amor tão grande o Pai nos concedeu, a ponto de nos podermos chamar filhos de Deus; e, realmente, o somos!" (1 Jo 3, 1). Portanto, é Deus que nos amou primeiro e, em Jesus, nos tornou seus filhos adoptivos. 

Na nossa vida tudo é dom do seu amor: como permanecer indiferente diante de um mistério tão grande? Como deixar de responder ao amor do Pai celestial, com uma vida de filhos reconhecidos? Em Cristo, entregou-se inteiramente a nós e chama-nos a um profundo relacionamento pessoal com Ele. Portanto, quanto mais imitarmos Jesus e permanecermos unidos a Ele, tanto mais entraremos no mistério da santidade divina. Descobrimos que somos amados por Ele de modo infinito, e isto impele-nos, por nossa vez, a amar os irmãos. O amar implica sempre um ato de renúncia a si mesmo, o "perder-se a si próprio", e é precisamente assim que nos torna felizes.

Mas como é que podemos tornar-nos santos, amigos de Deus? A esta interrogação pode-se responder antes de tudo de forma negativa: para ser santo não é necessário realizar acções nem obras extraordinárias, nem possuir carismas excepcionais. Depois, vem a resposta positiva: é preciso sobretudo ouvir Jesus e depois segui-lo sem desanimar diante das dificuldades. "Se alguém me serve Ele admoesta-nos que me siga, e onde Eu estiver, ali estará também o meu servo. Se alguém me servir, o Pai há-de honrá-lo" (Jo 12, 26). Quem nele confia e o ama com sinceridade, como o grão de trigo sepultado na terra, aceita morrer para si mesmo. Com efeito, Ele sabe que quem procura conservar a sua vida para si mesmo, perdê-la-á, e quem se entrega, se perde a si mesmo, precisamente assim encontra a própria vida (cf. Jo 12, 24-25). A experiência da Igreja demonstra que cada forma de santidade, embora siga diferentes percursos, passa sempre pelo caminho da cruz, pelo caminho da renúncia a si mesmo. 

As biografias dos santos descrevem homens e mulheres que, dóceis aos desígnios divinos, enfrentaram por vezes provações e sofrimentos indescritíveis, perseguições e o martírio. Perseveraram no seu compromisso, "vêm da grande tribulação lê-se no Apocalipse lavaram as suas túnicas e branquearam-nas no sangue do Cordeiro" (Ap 7, 14). Os seus nomes estão inscritos no livro da Vida (cf. Ap 20, 12); a sua morada eterna é o Paraíso. O exemplo dos santos constitui para nós um encorajamento a seguir os mesmos passos, a experimentar a alegria daqueles que confiam em Deus, porque a única verdadeira causa de tristeza e de infelicidade para o homem é o facto de viver longe de Deus.

-- Papa Bento XVI, em 1o. de Novembro de 2006.

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