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29 de mai. de 2018

Adão, julgamento e a misericórdia de Deus

Todos nós conhecemos a história de Adão e Eva, mas é interessante ver alguns detalhes:

Gn 2, 9: Iahweh Deus fez crescer do solo toda espécie de árvores formosas de ver e boas de comer, e a árvore da vida no meio do jardim, e a árvore do conehcimento do bem e do mal.

Gn 2, 15-17: Iahweh Deus tomou o homem e o colocou no meio do jardim de Éden para o cultivar e guardar. E Iahweh Deus deu ao homem este mandamento: "Podes comer de todas as árvores do jardim. Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal não comerás, porque no dia em que dela comeres terás que morrer".
Detalhe de "A Queda", pintura de Hugo van der Goes (após 1479).

Gn 3, 9-13: Iahweh Deus chamou o homem: "Onde estás?" disse ele: "Ouvi teu passo no jardim", respondeu o homem, "tive medo porque estou nu, e me escondi." Ele retomou: "E quem te fez saber que estavas nu? Comeste, então, da árvore que te proibi de comer?" O homem respondeu: "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!". 

Do versículo 2,9 vemos claramente que havia duas árvores especiais que foram citadas em separado: (1) a árvore da vida e a (2) do conhecimento do bem e do mal. A árvore da vida representava a imortalidade, estar junto de Deus; repousar na sombra da árvore da vida é acreditar na vida eterna. A árvore do conhecimento do bem e do mal representa a faculdade de decidir por si mesmo o que é bom e o que é mal, reinvidicar para si mesmo a autoridade moral e negar que Deus, como Criador, está acima da pessoa humana, comer dos furtos desta árvore é um pecado de orgulho, que querer se comparar a Deus.

Dos versículos 2-17, Deus deixa claro que todas as árvores estão ao dispor de Adão, mas ele deveria evitar o pecado do orgulho, isto é, comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal. Os frutos da árvore da vida estão à disposição do homem, ele não é, de modo algum, proibida. Como um sinal da vida eterna, está sempre a disposição do homem, basta ir procurá-la. Já desde o início da Igreja, a Cruz de Cristo passa a ser considerada como uma nova árvore da vida, donde obtemos a vida eterna.

Os versículos  do capítulo 3 narram o diálogo de Deus com Adão. Perguntado se havia pecado, comido o fruto da árvore proibida, Adão prontamente responde:  "A mulher que puseste junto de mim me deu da árvore, e eu comi!" Ou seja, para Adão há dois culpados: a mulher, que deu o fruto proibido, e Deus, que criou a mulher. Adão julga a Deus e a mulher para se fazer inocente. Como resuultado, Adão e Eva são expulsos do paraíso.  

Mas poderia Adão ter agido diferente? Claro que sim! Não digo não apenas comer o fruto, isto é seguir aos conselhos de Deus. Adão poderia ter respondido diferente, poderia ter admitido a sua culpa e implorado perdão. Não é preciso citar a Jesus Cristo perdoando a vários pecadores, basta olhar os dois próximos episódios no livro de Gênesis, para ver que Deus agiria diferente:

Gn 4, 9-15: Caim matou seu irmão Abel por ciúmes e Deus também inicia um diálogo com Caim perguntando-lhe: "Onde está o teu irmão Abel?" Ao perceber que Caim havia matado Abel, Deus lhe condena, mas Caim, ao contrário de Adão, admite seu erro: "Minha culpa é muito pesada para suportá-la" e teme que seja morto por vingança: "o primeiro que me encontrar me matará".  Deus então colocou um sinal sobre Caim, a fim de que não fosse morto por quem o encontrasse, ou seja, os homens não deveriam fazer justiça contra Caim, mas aguardar a justiça de Deus. 

Gn 6, 5-8: A história do Dilúvio inicia com Deus reconhecendo que o homem havia se perdido, que a maldade dominava a terra. Deus é claro e estava decidido: "Farei desaparecer da superfície do solo os homens que criei". Mas vendo que havia um justo sobre a terra, apenas um homem justo, um homem que reconhecia estar abaixo de Deus, que não se deixava guair pelo mesmo orgulho de Adão, Deus muda de idéia, salva a Noé e sua família. 

Houvesse Adão dito algo como: "Sim, pequei! Fui preguiçoso, poderia ter estado ao lado de Eva, mas preferi descansar e isto deu a oportunidade que a serpente procurava", Deus poderia ter agido diferente, mas Adão preferiu não assumir a culpa, preferiu acusar a Eva e até mesmo Deus. Na verdade, Adão não confiou na misericórdia divina. 

Neste sentido, Jesus Cristo foi o perfeito contrário de Adão, não apenas não tinha culpa, como ainda justificou seus assassinos e pediu por eles quando já estava próximo a morrer na cruz: "Pai, perdoa-lhes, eles não sabem o que fazem!" (Lucas 23, 34). A cruz de Cristo é dita ser a árvore da vida na qual podemos repousar nossos pecados e aflições. Pois é esta árvore da vida que Adão e Eva não procuraram, pois prefiriram a outra árvore que lhes era proibida.  

E esta é uma lição que pode ser de muito proveito para nós, pois todos pecamos e a todos Deus estende a sua misericórdia, não importa o pecado que tenhamos cometido. Admitir a própria culpa é admitir que não agiu conforme os mandamentos, ou seja, que Deus instituiu-os para nossa orientação, e ajuda, por que nos ama.

-- autoria própria


1 de set. de 2017

Convertei-vos a mim de todo coração

Profeta Joel, um dos 12 profetas "menores", cujo
nome significa "aquele queesta com Deus".
Convertei-vos a mim de todo o vosso coração (Jl 2,12) e mostrai o arrependimento do espírito por jejuns, lágrimas e gemidos. Para que, jejuando agora, vos sacieis mais tarde; chorando agora, riais depois; gemendo agora, sejais depois consolados.É costume nas tristezas e adversidades rasgar as vestes. Isso fez o Sumo Pontífice para aumentar a acusação contra o Senhor Salvador, segundo conta o Evangelho e fizeram Paulo e Barnabé ao ouvir as palavras de blasfêmia. Assim eu vos ordeno, não rasgueis as vestimentas,mas os corações que estão cheios de pecados, porque quais odres, se não forem rasgados, se romperão por si mesmos. Tendo assim agido,voltai ao Senhor nosso Deus, a quem vossos pecados anteriores vos fizeram afastar-vos. Não desespereis do perdão pela gravidade das culpas, pois grande misericórdia apagará grandes pecados.
  
Pois ele é benigno e misericordioso, preferindo a penitência dos pecadores à morte; paciente, de imensa misericórdia, que não imita a impaciência humana, mas espera por longo tempo nossa conversão condescendente ou arrependido do mal que intentara. Se fizermos penitência dos pecados, ele se arrependerá de suas ameaças e não nos fará vir os males que prometeu. Com a mudança de nosso intento, também ele mudará. Não devemos entender aqui “mal” como contrário à virtude e sim como aflição, conforme lemos em outro passo: Basta a cada dia seu mal. E: Se houver na cidade mal que o Senhor não tenha enviado.  

Da mesma forma, por ter dito acima ser benigno e misericordioso, paciente e de imensa misericórdia, condescendente ou arrependido do mal, para que talvez a grande clemência não nos torne negligentes, acrescenta por intermédio do Profeta: Quem sabe se não voltará atrás e perdoará, e deixará após si uma bênção? (Jl 2,13-14). Eu, diz ele, exorto à penitência, pois é o meu dever, e sei que Deus é indizivelmente clemente. Testemunha é Davi: Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua grande misericórdia e segundo a multidão de tua compaixão apaga minha iniquidade (Sl 50,1.3). Como, porém, não podemos conhecer a profundidade das riquezas, da sabedoria e da ciência de Deus, amenizo a afirmação e prefiro desejar a presumir, dizendo: Quem sabe se não voltará atrás e perdoará? Dizendo quem sabe, quer significar ser impossível ou difícil.  

Sacrifício e libação ao Senhor nosso Deus (cf. Jl 2,14). Depois de ter-nos dado a bênção e perdoado nossos pecados, somos capazes de oferecer hóstias ao Senhor.

-- Do comentário sobre o profeta Joel, de São Jerônimo, presbítero (século V)

1 de ago. de 2016

Hino à Caridade

 No chamado hino à caridade escrito por São Paulo, vemos algumas características do amor verdadeiro:
O amor é paciente,
o amor é serviçal;
não é invejoso,
não é arrogante nem orgulhoso,
nada faz de inconveniente,
não procura o seu próprio interesse,
não se irrita,
nem guarda ressentimento,
não se alegra com a injustiça,
mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa,
tudo crê,
tudo espera,
tudo suporta (1Cor 13, 4-7).
Paciência
A primeira palavra usada é macrothymei. A sua tradução não é simplesmente “suporta tudo”, porque esta ideia é expressa no final do versículo 7. O sentido encontra-se no Antigo Testamento onde se diz que Deus é "lento para a ira" (Nm 14, 18; cf. Ex 34, 6). Uma pessoa mostra-se paciente, quando não se deixa levar pelos impulsos interiores e evita agredir. A paciência é uma qualidade do Deus da Aliança, que convida a imitá-Lo também na vida familiar.
Ter paciência não é deixar que nos maltratem permanentemente, nem tolerar agressões físicas, ou permitir que nos tratem como objetos. Se não cultivarmos a paciência, sempre acharemos desculpas para responder com ira, acabando por nos tornarmos pessoas que não sabem conviver, anti-sociais incapazes de dominar os impulsos, e a família tornar-se-á um campo de batalha. Por isso, a Palavra de Deus exorta-nos: “Toda a espécie de azedume, raiva, ira, gritaria e injúria desapareça de vós, juntamente com toda a maldade” (Ef 4, 31). Esta paciência reforça-se quando reconheço que o outro, assim como é, também tem direito a viver comigo nesta terra.
O amor beneficia e ajuda outros

Atitude de serviço
Vem depois a palavra “jrestéuetai”, que deriva de “jrestós” - pessoa boa, que mostra a sua bondade nas ações. Paulo pretende esclarecer que a paciência não é uma postura totalmente passiva, mas há-de ser acompanhada por uma atividade, indica que o amor beneficia e promove os outros. Por isso, traduz-se como “serviçal”.
No conjunto do texto, vê-se que Paulo quer insistir que o amor não é apenas um sentimento, mas deve ser entendido no sentido que o verbo “amar” tem em hebraico: “fazer o bem”. Como dizia Santo Inácio de Loyola, “o amor deve ser colocado mais nas obras do que nas palavras”.
Curando a inveja
Em seguida rejeita-se uma atitude expressa como “zeloi” (ciúme ou inveja). Significa que, no amor não há lugar para sentir desgosto pelo bem do outro (cf. At 7, 9;17, 5). A inveja é uma tristeza pelo bem alheio, demonstrando que não nos interessa a felicidade dos outros, porque estamos concentrados exclusivamente no nosso bem-estar. O verdadeiro amor aprecia os sucessos alheios, não os sente como uma ameaça, aceita que cada um tenha dons distintos e caminhos diferentes na vida.
Em última análise, trata-se de cumprir o que pedem os dois últimos mandamentos da Lei de Deus: “Não desejarás a casa do teu próximo. Não desejarás a mulher do teu próximo, o seu servo, a sua serva, o seu boi, o seu burro, e tudo o que é do teu próximo” (Ex 20, 17). O amor leva-nos a uma apreciação sincera de cada ser humano, reconhecendo o seu direito à felicidade. Amo aquela pessoa, vejo-a com o olhar de Deus Pai, que nos dá tudo “para nosso usufruto” (1Tim 6, 17), e consequentemente aceito, no meu íntimo, que ela possa usufruir dum momento bom.
Sem ser arrogante nem se orgulhar
Segue-se o termo “perpereuetai”, que indica vanglória, desejo de se mostrar superior para impressionar os outros com atitude pedante e um pouco agressiva. Quem ama não só evita falar muito de si mesmo, mas, porque está centrado nos outros, sabe manter-se no seu lugar sem pretender estar no centro. A palavra seguinte – physioutai– é muito semelhante, indicando que o amor não é arrogante. Alguns julgam-se grandes, porque sabem mais do que os outros, dedicando-se a impor-lhes exigências e a controlá-los; quando, na realidade, o que nos faz grandes é o amor que compreende, cuida, integra, está atento aos fracos.
A atitude de humildade aparece aqui como algo que faz parte do amor, porque, para poder compreender, desculpar ou servir os outros de coração, é indispensável curar o orgulho e cultivar a humildade. Jesus lembrava aos seus discípulos que, no mundo do poder, cada um procura dominar o outro, e acrescentava: “não seja assim entre vós” (Mt 20, 26). A lógica do amor cristão não é a de quem se considera superior aos outros e precisa de fazer-lhes sentir o seu poder, mas a de “quem no meio de vós quiser ser o primeiro, seja vosso servo” (Mt 20, 27).
Amabilidade
Amar é também tornar-se amável, e nisto está o sentido do termo “asjemonéi”. Significa que o amor não age rudemente, não atua de forma inconveniente, não se mostra duro no trato. Os seus modos, as suas palavras, os seus gestos são agradáveis; não são ásperos, nem rígidos. Detesta fazer sofrer os outros. Ser amável não é um estilo que o cristão possa escolher ou rejeitar: faz parte das exigências irrenunciáveis do amor, por isso todo o ser humano está obrigado a ser afável com aqueles que o rodeiam.
A fim de se predispor para um verdadeiro encontro com o outro, requer-se um olhar amável. Isto não é possível se põe em evidência os defeitos e erros alheios. Uma pessoa anti-social julga que os outros existem para satisfazer as suas necessidades e, quando o fazem, cumprem apenas o seu dever. A pessoa que ama é capaz de dizer palavras de incentivo, que reconfortam, fortalecem, consolam, estimulam. Vejamos, por exemplo, algumas palavras que Jesus dizia às pessoas: “Filho, tem confiança!” (Mt 9, 2). “Grande é a tua fé!” (Mt 15, 28). “Levanta-te!” (Mc 5, 41). “Vai em paz” (Lc 7, 50). “Não temais!” (Mt 14, 27). Não são palavras que humilham, angustiam, irritam, desprezam. Na família, é preciso aprender esta linguagem amável de Jesus.
Desprendimento
Como se diz muitas vezes, para amar os outros, é preciso primeiro amar-se a si mesmo. Todavia este hino à caridade afirma que o amor “não procura o seu próprio interesse”. Perante uma afirmação assim clara da Sagrada Escritura, deve-se evitar de dar prioridade ao amor a si mesmo, como se fosse mais nobre do que o dom de si aos outros. Uma certa prioridade do amor a si mesmo só se pode entender como condição psicológica, pois uma pessoa que seja incapaz de se amar a si mesma sente dificuldade em amar os outros: “Para quem será bom aquele que é mau para si mesmo? (...) Não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo” (Ecle 14, 5-6).
Mas o próprio Tomás de Aquino explicou “ser mais próprio da caridade querer amar do que querer ser amado”, e que de fato “as mães, que são as que mais amam, procuram mais amar do que ser amadas”. Mas será possível um desprendimento assim, que permite dar gratuitamente e dar até ao fim? Sem dúvida, porque é o que pede o Evangelho: “Recebestes de graça, dai de graça” (Mt 10, 8).
Sem violência interior
Se a primeira expressão do hino nos convidava à paciência, agora aparece outra palavra – “paroxýnetai” – que diz respeito a uma reação interior de indignação provocada por algo exterior. Trata-se de uma violência interna, uma irritação que nos põe à defesa perante os outros, como se fossem inimigos a evitar. Alimentar esta agressividade íntima, serve apenas para nos adoentar, acabando por nos isolar.
O Evangelho convida a olhar primeiro a trave na própria vista (Mt 7, 5), e nós, cristãos, não podemos ignorar o convite constante da Palavra de Deus para não se alimentar a ira: “Não te deixes vencer pelo mal” (Rm 12, 21); “não nos cansemos de fazer o bem” (Gal 6, 9). Por isso, nunca se deve terminar o dia sem fazer as pazes na família. E como devo fazer as pazes? Ajoelhar-me? Não! Para restabelecer a harmonia familiar basta um pequeno gesto, uma coisa de nada. É suficiente uma carícia, sem palavras. Mas nunca permitais que o dia em família termine sem fazer as pazes.
Perdão
Se permitirmos a entrada dum mau sentimento no nosso íntimo, damos lugar ao ressentimento que se aninha no coração. O contrário disto é o perdão fundado numa atitude positiva que procura compreender a fraqueza alheia e encontrar desculpas para a outra pessoa, como Jesus que diz: “Perdoa-lhes, Pai, porque não sabem o que fazem” (Lc 23, 34). 
Entretanto a tendência costuma ser a de buscar cada vez mais culpas, imaginar cada vez mais maldades, supor todo o tipo de más intenções, e assim o ressentimento vai crescendo e cria raízes. Quando estivermos ofendidos ou desiludidos, é possível e desejável o perdão; mas ninguém diz que seja fácil. Exige, de fato, de todos e de cada um, pronta e generosa disponibilidade à compreensão, à tolerância, ao perdão, à reconciliação.
Hoje sabemos que, para se poder perdoar, precisamos passar pela experiência libertadora de nos compreendermos e perdoarmos a nós mesmos. Faz falta rezar com a própria história, aceitar-se a si mesmo, saber conviver com as próprias limitações e inclusive perdoar-se, para poder ter esta mesma atitude com os outros. Mas isto pressupõe a experiência de ser perdoados por Deus, justificados gratuitamente e não pelos nossos méritos. Se aceitamos que o amor de Deus é incondicional, que o carinho do Pai não se deve comprar nem pagar, então poderemos amar sem limites, perdoar aos outros, ainda que tenham sido injustos para conosco.

Alegrar-se com os outros
Alegra-se com o bem do outro quando se reconhece a sua dignidade, quando se aprecia mais suas capacidades e as suas boas obras. Isto é impossível para quem sente a necessidade de estar sempre a comparar-se ou a competir, inclusive com o próprio cônjuge, até ao ponto de se alegrar secretamente com os seus fracassos. Quando uma pessoa que ama pode fazer algo de bom pelo outro, ou quando vê que a vida está a correr bem ao outro, vive isso com alegria e, assim, dá glória a Deus, porque “Deus ama quem dá com alegria” (2Cor 9, 7), nosso Senhor aprecia de modo especial quem se alegra com a felicidade do outro. Se não alimentamos a nossa capacidade de rejubilar como bem do outro, concentrando-nos sobretudo nas nossas próprias necessidades, condenamo-nos a viver com pouca alegria, porque – como disse Jesus – “a felicidade está mais em dar do que em receber” (At 20, 35).
Tudo desculpa
O texto é completado com quatro expressões que falam duma totalidade: “tudo”. Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
Em primeiro lugar, diz-se que tudo desculpa. Embora isto vá contra o uso que habitualmente fazemos da língua, a Palavra de Deus pede-nos: “Não faleis mal uns dos outros, irmãos” (Tg 4, 11). Se é verdade que “com a língua amaldiçoamos os homens, feitos à semelhança de Deus” (Tg 3, 9), o amor faz o contrário, defendendo a imagem dos outros e com uma delicadeza tal que leva mesmo a preservar a boa fama dos inimigos. 
Os esposos, que se amam e se pertencem, falam bem um do outro, procuram mostrar mais o lado bom do cônjuge do que as suas fraquezas e erros. Não é uma ingenuidade de quem pretende não ver as dificuldades e os pontos fracos do outro, mas a perspectiva ampla de quem coloca estas fraquezas e erros no seu contexto; lembra-se de que estes defeitos constituem apenas uma parte, não são a totalidade do ser do outro: um fato desagradável no relacionamento não é a totalidade desse relacionamento. Assim é possível aceitar, com simplicidade, que todos somos uma complexa combinação de luzes e sombras. O outro não é apenas aquilo que me incomoda; é muito mais do que isso. O amor convive com a imperfeição, desculpa-a e sabe guardar silêncio perante os limites do ser amado.
Confia
O amor tudo crê. Pelo contexto, não se deve entender esta fé em sentido teológico, mas no sentido comum de confiança. Não se trata apenas de não suspeitar que o outro esteja mentindo ou enganando; esta confiança básica reconhece a luz acesa por Deus que se esconde por detrás da escuridão, ou a brasa ainda acesa sob as cinzas. É precisamente esta confiança que torna possível uma relação em liberdade. Não é necessário controlar o outro, seguir minuciosamente os seus passos, para evitar que fuja dos meus braços. O amor confia, deixa em liberdade, renuncia a controlar tudo, a possuir, a dominar. Ao mesmo tempo torna possível a sinceridade e a transparência, porque uma pessoa, quando sabe que os outros confiam nela e apreciam a bondade do seu ser, mostra-se como é, sem dissimulações. Concluindo, uma família, onde reina uma confiança sólida, carinhosa e, suceda o que suceder, sempre se volta a confiar, permite o florescimento da verdadeira identidade dos seus membros, fazendo com que se rejeite espontaneamente o engano, a falsidade e a mentira.
Espera
Panta elpízei”: o amor não desespera do futuro. Ligado à palavra anterior, indica a esperança de quem sabe que o outro pode mudar; sempre espera que seja possível um amadurecimento, um inesperado surto de beleza, que as potencialidades mais recônditas do seu ser germinem algum dia. Não significa que, nesta vida, tudo vai mudar; implica aceitar que nem tudo aconteça como se deseja, mas talvez Deus escreva direito por linhas tortas e saiba tirar algum bem dos males que não se conseguem vencer nesta terra.

Tudo suporta
Panta hypoménei” significa que suporta, com espírito positivo, todas as contrariedades. É manter-se firme no meio dum ambiente hostil. Não consiste apenas em tolerar algumas coisas desagradáveis, mas é algo mais amplo: uma resistência dinâmica e constante, capaz de superar qualquer desafio. É amor que apesar de tudo não desiste, mesmo que todo o contexto convide a outra coisa. Isto lembra-me Martin Luther King, quando reafirmava a opção pelo amor fraterno, mesmo no meio das piores perseguições e humilhações: “A pessoa que mais te odeia, tem algo de bom nela; mesmo a nação que mais odeia, tem algo de bom nela; mesmo a raça que mais odeia, tem algo de bom nela. Não importa o que faça, lá vês a imagem de Deus. Há um elemento de bondade de que nunca poderás livrar-te. Ódio por ódio só intensifica a existência do ódio e do mal no universo. Se eu te bato e tu me bates, e eu te devolvo a pancada e tu me devolves a pancada, e assim por diante… obviamente continua-se até ao infinito; simplesmente nunca termina. Nalgum ponto, alguém deve ter um pouco de bom senso, e esta é a pessoa forte. A pessoa forte é aquela que pode quebrar a cadeia do ódio, a cadeia do mal. (...) Alguém deve ter bastante fé e moralidade para a quebrar e injetar dentro da própria estrutura do universo o elemento forte e poderoso do amor”.
Na vida familiar, é preciso cultivar esta força do amor, que permite lutar contra o mal que a ameaça. O amor não se deixa dominar pelo ressentimento, o desprezo das pessoas, o desejo de se lamentar ou vingar de alguma coisa. O ideal cristão, nomeadamente na família, é amor que apesar de tudo não desiste.  
-- resumo de parte do capítulo 4 da Exortação Apostólica Amoris Laetitia, Papa Francisco

30 de jul. de 2016

Senhor, por que te silenciaste?

Papa Bento XVI em Auschwitz
Tomar a palavra neste lugar de horror, de acúmulo de crimes contra Deus e contra o homem sem igual na história, é quase impossível e é particularmente difícil e oprimente para um cristão, para um Papa que provém da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras, no fundo pode permanecer apenas um silêncio aterrorizado um silêncio que é um grito interior a Deus: Senhor, por que silenciaste? Por que toleraste tudo isto? É nesta atitude de silêncio que nos inclinamos profundamente no nosso coração face à numerosa multidão de quantos sofreram e foram condenados à morte; todavia, este silêncio torna-se depois pedido em voz alta de perdão e de reconciliação, um grito ao Deus vivo para que jamais permita uma coisa semelhante.

Há 27 anos, no dia 7 de Junho de 1979, estava aqui o Papa João Paulo II; então ele disse: "Venho hoje aqui... Quantas vezes! E desci muitas vezes à cela da morte de Maximiliano Kolbe e detive-me diante do muro do extermínio e passei entre as ruínas dos fornos crematórios de Birkenau.

Como Papa, não podia deixar de vir aqui". O Papa João Paulo II veio aqui como filho daquele povo que, ao lado do povo judeu, teve que sofrer mais neste lugar e, em geral, durante a guerra: "Foram seis milhões de Polacos, que perderam a vida durante a segunda guerra mundial: um quinto da nação", recordou então o Papa. Aqui, ele elevou a solene admoestação ao respeito dos direitos do homem e das nações, que antes dele tinham elevado diante do mundo os seus Predecessores João XXIII e Paulo VI, e acrescentou: "Pronuncia estas palavras [...] o filho da nação que na sua história remota e mais recente sofreu numerosas angústias infligidas por outros. E não o diz para acusar, mas para recordar. Fala em nome de todas as nações, cujos direitos são violados e esquecidos...".

O Papa João Paulo II veio aqui como um filho do povo polaco. Hoje eu vim aqui como um filho do povo alemão, e precisamente por isto devo e posso dizer como ele: não podia deixar de vir aqui. Tinha que vir. Era e é um dever perante a verdade e o direito de quantos sofreram, um dever diante de Deus, de estar aqui como sucessor de João Paulo II e como filho do povo alemão filho daquele povo sobre o qual um grupo de criminosos alcançou o poder com promessas falsas, em nome de perspectivas de grandeza, de recuperação da honra da nação e da sua relevância, com previsões de bem-estar e também com a força do terror e da intimidação, e assim o nosso povo pôde ser usado e abusado como instrumento da sua vontade de destruição e de domínio. Sim, não podia deixar de vir aqui. A 7 de Junho de 1979 estive aqui como Arcebispo de Munique-Frisinga entre os numerosos Bispos que acompanhavam o Papa, que o escutavam e rezavam com ele. Em 1980 voltei mais uma vez a este lugar de horror com uma delegação de Bispos alemães, abalado por causa do mal e reconhecido pelo facto de que acima das trevas tinha surgido a estrela da reconciliação. Ainda é esta a finalidade pela qual me encontro hoje aqui: para implorar a graça da reconciliação antes de tudo de Deus, o único que pode abrir e purificar os nossos corações; depois, dos homens que sofreram; e por fim, a graça da reconciliação para todos os que, neste momento da nossa história, sofrem de maneira nova sob o poder do ódio e sob a violência fomentada pelo ódio.
Papa Francisco em Auschwitz

Quantas perguntas surgem neste lugar! Sobressai sempre de novo a pergunta: Onde estava Deus naqueles dias? Por que Ele silenciou? Como pôde tolerar este excesso de destruição, este triunfo do mal? Vêm à nossa mente as palavras do Salmo 44, a lamentação de Israel que sofre: "... Tu nos esmagaste na região das feras e nos envolveste em profundas trevas... por causa de ti, estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro. Desperta, Senhor, por que dormes? Desperta e não nos rejeites para sempre! Por que escondes a tua face e te esqueces da nossa miséria e tribulação? A nossa alma está prostrada no pó, e o nosso corpo colado à terra. Levanta-te! Vem em nosso auxílio; salva-nos, pela tua bondade!" (Sl 44, 20.23-27). Este grito de angústia que Israel sofredor eleva a Deus em períodos de extrema tribulação, é ao mesmo tempo um grito de ajuda de todos os que, ao longo da história ontem, hoje e amanhã sofrem por amor de Deus, por amor da verdade e do bem; e há muitos, também hoje.

Nós não podemos perscrutar o segredo de Deus vemos apenas fragmentos e enganamo-nos se pretendemos eleger-nos a juízes de Deus e da história. Não defendemos, nesse caso, o homem, mas contribuiremos apenas para a sua destruição. Não em definitiva, devemos elevar um grito humilde mas insistente a Deus: Desperta! Não te esqueças da tua criatura, o homem! E o nosso grito a Deus deve ao mesmo tempo ser um grito que penetra o nosso próprio coração, para que desperte em nós a presença escondida de Deus para que aquele seu poder que Ele depositou nos nossos corações não seja coberto e sufocado em nós pela lama do egoísmo, do medo dos homens, da indiferença e do oportunismo. Emitamos este grito diante de Deus, dirijamo-lo ao nosso próprio coração, precisamente nesta nossa hora presente, na qual incumbem novas desventuras, na qual parecem emergir de novo dos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para a justificação de uma violência cega contra pessoas inocentes; por outro, o cinismo que não conhece Deus e que ridiculariza a fé n'Ele. Nós gritamos a Deus, para que impulsione os homens a arrepender-se, para que reconheçam que a violência não cria a paz, mas suscita apenas outra violência uma espiral de destruição, na qual todos no fim de contas só têm a perder. O Deus, no qual nós cremos, é um Deus da razão mas de uma razão que certamente não é uma matemática neutral do universo, mas que é uma coisa só com o amor, com o bem. Nós rezamos a Deus e gritamos aos homens, para que esta razão, a razão do amor e do reconhecimento da força da reconciliação e da paz prevaleça sobre as ameaças circunstantes da irracionalidade ou de uma falsa razão, separada de Deus.

O lugar no qual nos encontramos é um lugar da memória, é o lugar do Shoá. O passado nunca é apenas passado. Ele refere-se a nós e indica-nos os caminhos que não devem ser percorridos e os que o devem ser. Como João Paulo II, percorri o caminho ao longo das lápides que, nas várias línguas, recordam as vítimas deste lugar: são lápides em bielo-russo, checo, alemão, francês, grego, hebraico, polaco, russo, rom, romeno, eslovaco, sérvio, ucraniano, judaico-hispânico, inglês.
Todas estas lápides comemorativas falam de dor humana, deixam-nos intuir o cinismo daquele poder que tratava os homens como material e não os reconhecia como pessoas, nas quais resplandece a imagem de Deus. Algumas lápides convidam a uma comemoração particular. Há uma em língua hebraica. Os poderosos do Terceiro Reich queriam esmagar o povo judeu na sua totalidade; eliminá-lo do elenco dos povos da terra. Então as palavras do Salmo: "estamos todos os dias expostos à morte; tratam-nos como ovelhas para o matadouro", verificam-se de modo terrível.
No fundo, aqueles criminosos violentos, com a aniquilação deste povo, pretendiam matar aquele Deus que chamou Abraão, que falando no Sinai estabeleceu os critérios orientadores da humanidade que permanecem válidos para sempre. Se este povo, simplesmente com a sua existência, constitui um testemunho daquele Deus que falou ao homem e o assumiu, então aquele Deus devia finalmente estar morto e o domínio devia pertencer apenas ao homem àqueles que se consideravam os fortes que tinham sabido apoderar-se do mundo. Com a destruição de Israel, com o Shoa, queriam, no fim de contas, arrancar também a raiz sobre a qual se baseia a fé cristã, substituindo-a definitivamente com a fé feita por si, a fé no domínio do homem, do forte. Depois, há a lápide em língua polaca: numa primeira fase e antes de tudo queria-se eliminar a élite cultural e cancelar assim o povo como sujeito histórico autónomo para o reduzir, na medida em que continuava a existir, a um povo de escravos. Outra lápide, que convida particularmente a reflectir, é a que está escrita na língua dos Sint e dos Rom. Também aqui se pretendia fazer desaparecer um povo inteiro que vive migrando entre os outros povos. Ele estava inserido entre os elementos inúteis da história universal, numa ideologia na qual só devia contar o útil medível; tudo o resto, segundo os seus conceitos, era classificado comolebensunwertes Leben uma vida indigna de ser vivida.
Papa João Paulo II em Auschwitz

Depois há a lápide em russo que evoca o imenso número das vidas sacrificadas entre os soldados russos no confronto com o regime do terror nazista; mas, ao mesmo tempo, faz-nos reflectir sobre o trágico duplo significado da sua missão: libertaram os povos de uma ditadura, mas submetendo também os mesmos povos a uma nova ditadura, a de Estalin e da ideologia comunista. Também todas as outras lápides nas numerosas línguas da Europa nos falam do sofrimento de homens de todo o continente; tocariam profundamente o nosso coração, se não fizéssemos apenas memória das vítimas de modo global, mas se víssemos, ao contrário, os rostos das pessoas individualmente que acabaram naquele terror escuro. Senti como um dever íntimo deter-me de modo particular também diante da lápide em língua alemã. Dela emerge diante de nós o rosto de Edith Stein, Theresa Benedicta da Cruz: judia e alemã desaparecida, juntamente com a irmã, no horror da noite do campo de concentração alemão-nazista; como cristã e judia, aceitou morrer juntamente com o seu povo e por ele. Os alemães, que então foram conduzidos a Auschwitz-Birkenau e aqui morreram, eram vistos como Abschaum der Nation como o refugo da nação. Mas agora nós reconhecemo-los com gratidão como as testemunhas da verdade e do bem, que também no nosso povo tinha desaparecido. Agradecemos a estas pessoas, porque não se submeteram ao poder do mal e agora estão diante de nós como luz numa noite escura. Com profundo respeito e gratidão inclinamo-nos diante de todos os que, como os três jovens diante da ameaça da fornalha babilónica, souberam responder: "Só o nosso Deus nos pode salvar. Mas também se não nos libertares, sabe, ó rei, que nós nunca serviremos os teus deuses nem adoraremos a estátua de ouro que erigistes" (cf. Dn 3, 17s).

Sim, por detrás destas lápides encerra-se o destino de inumeráveis seres humanos. Eles despertam a nossa memória, despertam o nosso coração. Não querem provocar em nós o ódio: ao contrário, demonstram-nos como é terrível a obra do ódio. Querem conduzir a razão a reconhecer o mal como mal e a rejeitá-lo; querem suscitar em nós a coragem do bem, da resistência contra o mal. Querem dar-nos aqueles sentimentos que se expressam nas palavras que Sófocles coloca nos lábios de Antígona face ao horror que a circunda: "Estou aqui não para odiar mas para, juntos, amar".

Graças a Deus, com a purificação da memória, à qual nos estimula este lugar de horror, crescem à sua volta numerosas iniciativas que desejam pôr um limite ao mal e dar força ao bem. Há pouco pude abençoar o Centro para o Diálogo e a Oração. Nas imediatas proximidades tem lugar a vida escondida das irmãs carmelitas, que estão particularmente unidas ao mistério da cruz de Cristo e nos recordam a fé dos cristãos, que afirma que o próprio Deus desceu ao inferno do sofrimento e sofre juntamente connosco. Em Oswiecim existe o Centro de São Maximiliano e o Centro Internacional de Formação sobre Auschwitz e sobre o Holocausto. Depois, há a Casa Internacional para os Encontros da Juventude. Numa das Antigas Casas de Oração existe o Centro Hebraico. Por fim está a constituir-se a Academia para os Direitos do Homem. Assim podemos esperar que do lugar do horror nasça e cresça uma reflexão construtiva e que recordar ajude a resistir ao mal e a fazer triunfar o amor.

A humanidade atravessou em Auschwitz-Birkenau um "vale escuro". Por isso desejo, precisamente neste lugar, concluir com a oração de confiança com um Salmo de Israel que é, ao mesmo tempo, uma oração da cristandade: "O Senhor é o meu pastor: nada me falta. Em verdes prados me fez descansar e conduz-me às águas refrescantes. Reconforta a minha alma e guia-me por caminhos rectos, por amor do seu nome. Ainda que atravesse vales tenebrosos, de nenhum mal terei medo porque Tu estás comigo. A tua vara e o teu cajado dão-me confiança... habitarei na casa do Senhor para todo o sempre" (Sl 23, 1-4.6).

-- Discurso do Papa Bento XVI, em Auschwitz (28 de Maio de 2006)

31 de mar. de 2014

Cristo, sumo-sacerdote, é a nossa propiciação

Uma vez por ano o sumo sacerdote, afastando-se do povo, entra no lugar onde estão o propiciatório*, os querubins, a arca da aliança e o altar do incenso; ninguém pode entrar aí, exceto o sumo sacerdote.

Mas consideremos o nosso verdadeiro sumo sacerdote, o Senhor Jesus Cristo. Tendo assumido a natureza humana, ele estava o ano todo com o povo – aquele ano do qual ele mesmo disse: O Senhor enviou-me para anunciar a boa-nova aos pobres; proclamar um ano da graça do Senhor e o dia do perdão (cf. Lc 4,18.19) – e uma só vez durante esse ano, no dia da expiação, ele entrou no santuário, isto é, penetrou nos céus, depois de cumprir sua missão redentora, e permanece diante do Pai, para torná-lo propício ao gênero humano e interceder por todos os que nele creem.

Conhecendo esta propiciação que reconcilia os homens com o Pai, diz o apóstolo João: Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados (1Jo 2,1-2). Paulo lembra igualmente esta propiciação, ao falar de Cristo: Deus o destinou a ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a realidade da fé (Rm 3,25). Por isso, o dia da expiação continua para nós até o fim do mundo.

Diz a palavra divina: Na presença do Senhor porá o incenso sobre o fogo, de modo que a nuvem de incenso cubra o propiciatório que está sobre a arca da aliança; assim não morrerá. Em seguida, pegará um pouco do sangue do bezerro, e com o dedo, aspergirá o lado oriental do propiciatório (cf. Lv 16,13-14). Ensinou assim aos antigos como havia de ser celebrado o rito de propiciação, oferecido a Deus em favor dos homens. Tu, porém, que te aproximaste de Cristo, o verdadeiro sumo sacerdote que, como seu sangue, tornou Deus propício para contigo e te reconciliou com o Pai, não fixes tua atenção no sangue das vítimas antigas. Procura antes conhecer o sangue do Verbo e ouve o que ele mesmo te diz: Isto é o meu sangue, que será derramado por vós, para remissão dos pecados (cf. Mt 26,28).

Também a aspersão para o lado do oriente tem o seu significado. Do oriente nos vem a salvação. É de lá que vem aquele homem cujo nome é Oriente e que foi constituído mediador entre Deus e os homens.

Por esse motivo és convidado a olhar sempre para o oriente, de onde nasce para ti o Sol da justiça, de onde a luz se levanta sobre ti, para que nunca andes nas trevas, nem te surpreenda nas trevas o último dia; a fim de que a noite e a escuridão da ignorância não caiam sorrateiramente sobre ti, mas vivas sempre na luz da sabedoria, no pleno dia da fé e no fulgor da caridade e da paz.

-- Das Homilias sobre o Levítico, de Orígenes, presbítero (século III)

* Propriciatório: era como uma tampa ou mesa colocada acima da Arca da Aliança, onde uma vez por ano o sacerdote derramava o sangue de um cordeiro pelo perdão dos pecados do povo. Cristo é o cordeiro que uma vez por todas se sacrifica pelos nossos pecados. 

27 de jan. de 2014

Unidade da Igreja - parte VII

O pecado dos confessores

[* Os confessores eram os cristão que afirmavam a fé perante os perseguidores, e por um motivo ou outro, não eram condenados a morte. ].

Não deveis estranhar, irmãos diletíssimos, que até entre os confessores haja alguns que caíram nestes crimes (apostasia). Acontece também que alguns deles cometam outros pecados graves e vergonhosos. A confissão da fé não torna uma pessoa imune das ciladas do demônio. A quem ainda vive neste mundo ela não comunica uma perpétua segurança contra as tentações, os perigos e o ímpeto dos ataques mundanos. Se assim fosse, não veríamos, em confessores, os roubos, os estupros e os adultérios, que agora, com imensa tristeza, devemos lamentar em alguns deles.
Catedral de São Sebastião, Rio de Janeiro

Quem quer que seja um confessor, ele não poderá ser maior, melhor e mais amigo de Deus que Salomão. Entretanto, este, durante o tempo em que se manteve nos caminhos do Senhor, conservou a benevolência com que o mesmo Senhor o tinha favorecido, mas quando se desviou destes caminhos, perdeu também a benevolência do Senhor (3Rs 11,9).

Por isto diz a Escritura: "Segura o que tens, para que um outro não tome a tua coroa" (Ap 3,11). Se lá o Senhor ameaça tirar a alguém a coroa da justiça, é sinal que quem renuncia à justiça fica privado também da coroa.

A honra da confissão aumenta o dever do bom exemplo

A confissão da fé é um preâmbulo da glória, mas não é ainda a posse da coroa. Não é a glória definitiva, mas só o início do mérito. Está escrito: "O que perseverar até o fim, este será salvo" (Mt 10,22). Tudo pois o que fazemos antes do fim é só um passo com o qual vamos subindo ao monte da salvação, mas só ao fim da subida chegaremos à posse perfeita do cume.

Trata-se de um confessor? Ora, depois da confissão da fé, o perigo torna-se maior, porque o adversário está mais enraivecido contra ele.

É confessor? Por isto, mais do que nunca, deve permanecer fiel ao Evangelho do Senhor, ele que pelo Evangelho conseguiu esta honra. Diz o Senhor: "A quem muito é dado, muito será pedido e a quem é concedida maior dignidade, deste exigem-se maiores serviços" (Lc 12,48). Ninguém se deixe levar à perdição pelo mau exemplo de algum confessor. Ninguém aprenda, do seu modo de proceder, a injustiça, a arrogância ou a perfídia.

É confessor? Seja humilde e tranqüilo em todo o seu comportamento, seja disciplinado e modesto, de modo que, como é chamado confessor de Cristo, imite também aquele Cristo que confessa "Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado" (Lc 18,14). Assim disse ele, e foi exaltado pelo Pai, porque, sendo ele a Palavra, a Virtude e a Sabedoria de Deus Pai, se humilhou a si mesmo na terra. E como poderia amar a altivez, ele que, com a sua lei nos preceituou a humildade, e, em prêmio da sua humildade, recebeu do Pai o nome mais sublime? (Fl 2,9)

Alguém foi confessor de Cristo? Muito bem, mas, depois, por sua culpa, não sejam blasfemadas a majestade e a santidade do próprio Cristo. A língua que confessou a Cristo não seja maldizente nem sediciosa, não se ouça vociferando em altercações e brigas; depois de palavras tão divinas de louvor não vá vomitando veneno de serpente contra os irmãos e contra os sacerdotes de Deus.

Em suma, se alguém, depois da confissão, se tornou culpável e detestável, se aviltou a sua confissão com maus comportamentos, se manchou a sua vida com torpezas indignas, se, afinal, abandonou a Igreja, na qual se tornara confessor, e, quebrando a harmonia da unidade, trocou a fé de então com a perfídia, um tal homem não pode lisonjear-se, presumindo da sua confissão, de ser como que predestinado ao prêmio da glória. Ao contrário, por isto mesmo, aumentaram seus títulos para o castigo.

Elogio dos confessores

Catedral do Bom Pastor, San Sebastian,
Espanha.
Vemos também que chamou a Judas entre os Apóstolos, e este Judas, em seguida, traiu o Senhor. A fé e a perseverança dos Apóstolos não esmoreceram pelo fato que Judas traidor tinha pertencido ao seu grupo. Igualmente em nosso caso: a santidade e a dignidade dos confessores não ficam destruídas, se naufragou a fé em alguns deles.

O bem-aventurado apóstolo Paulo diz numa das suas cartas: "Se alguns decaíram da fé, será que a sua infidelidade tornou vã a fidelidade de Deus? De modo algum. De fato, Deus é verídico e todo homem é mentiroso" (Rom 3,3-4; Sl 115,11).

A maioria e a parte melhor dos confessores mantém-se no vigor da sua fé e na verdade da lei e da disciplina do Senhor. Lembrando-se de ter alcançado a graça e a benevolência de Deus na Igreja, não se afastam da paz da mesma Igreja. Nisto merecem mais amplo louvor pela sua fé, porque, desligando-se da perfídia daqueles que já foram seus companheiros na confissão, resistiram ao contágio do mal. Iluminados pela luz verdadeira do Evangelho, brilhando na pura e cândida claridade do Senhor, mostram-se tão dignos de encômio na conservação da paz de Cristo, quanto o foram no combate, quando se tornaram vencedores do demônio.

-- São Cipriano de Cártago (século III)

4 de nov. de 2013

Salmo 50: Senhor, tende piedade de mim!

Cada semana da Liturgia das Laudes é marcada na sexta-feira pelo Salmo 50, o Miserere, o Salmo penitencial mais amado, cantado e meditado, hino ao Deus misericordioso elevado pelo pecador arrependido. Já tivemos ocasião, numa catequese precedente, de apresentar o quadro geral desta grande oração. Em primeiro lugar, entra-se na região tenebrosa do pecado para aí levar a luz do arrependimento humano e do perdão divino (cf. vv. 3-11). Depois, exalta-se o dom da graça divina, que transforma e renova o espírito e o coração do pecador arrependido:  esta é uma região luminosa, cheia de esperança e de confiança (cf. vv. 12-21).

Detemo-nos, nesta nossa reflexão na primeira parte do Salmo 50, aprofundando alguns dos seus aspectos. Mas, no começo, desejaríamos mencionar a maravilhosa proclamação divina do Sinai, que é quase o retrato do Deus cantado pelo Miserere:  "Javé! Javé! Deus misericordioso e clemente, vagaroso em encolerizar-Se, cheio de bondade e fidelidade, que mantém a Sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado" (Êx34, 6-7).

A invocação inicial eleva-se a Deus para obter o dom da purificação que faça como dizia o profeta Isaías "brancos como a neve" e "como a lã" os pecados, em si semelhantes ao "escarlate" e "vermelhos como a púrpura" (cf. Is 1, 18). O Salmista confessa o seu pecado de forma clara e sem hesitações:  "Reconheço, de verdade, a minha culpa... Contra Vós apenas é que eu pequei, pratiquei o mal perante os vossos olhos" (Sl 50, 5-6).

Por conseguinte entra em cena a consciência pessoal do pecador que se abre para compreender claramente o seu mal. É uma experiência que envolve liberdade e responsabilidade, e leva a admitir que se quebrou o vínculo para construir uma escolha de vida alternativa em relação à Palavra divina. Disto deriva uma decisão radical de mudança. Tudo isto está encerrado naquele "reconhecer", um verbo que em hebraico não significa apenas uma adesão intelectual mas uma opção vital.

É o que, infelizmente, muitos não fazem, como nos adverte Orígenes:  "Há quem, depois de ter pecado, se sinta completamente tranquilo e não se preocupe com o seu pecado nem tocado pela consciência do mal cometido, mas viva como se nada tivesse acontecido. Sem dúvida, esse não poderia dizer:  tenho sempre consciência do meu pecado. Ao contrário, quando, depois do pecado, o pecador se inquieta e se aflige devido ao seu pecado, quando se sente atormentado pelos remorsos, dilacerado sem tréguas e sofre sobressaltos no seu íntimo que se eleva para o contestar, ele, com razão, exclama:  não há paz para os meus ossos face ao aspecto dos meus pecados... Portanto, quando os pecados cometidos se apresentam aos olhos do nosso coração, os revemos um por um, os reconhecemos, nos envergonhamos e arrependemos do que fizemos, então perturbados e aterrorizados, justamente dizemos que não há paz para os nossos ossos face ao aspecto dos nossos pecados..." (Homilias sobre os Salmos, Florença 1991, págs. 277-279).

O reconhecimento e a consciência do pecado é, portanto, fruto de uma sensibilidade adquirida graças à luz da Palavra de Deus.

Na confissão do Miserere há um realce de particular evidência:  o pecado não é compreendido apenas na sua dimensão pessoal e psicológica, mas é analisado sobretudo na sua qualidade teológica. "Contra Vós apenas é que eu pequei" (Sl 50, 6), exclama o pecador, ao qual a tradição deu o rosto de David, consciente do seu adultério com Betsabé, e da denúncia do profeta Natan contra este crime e contra o crime da morte do seu marido, Urias (cf v. 2; 2 Sam 11, 12).

Por conseguinte, o pecado não é apenas uma questão psicológica ou social, mas é um acontecimento que prejudica a relação com Deus, violando a sua lei, recusando o seu projecto na história, alterando a escala dos valores, "mudando as trevas em luz e a luz em trevas", isto é, "chamando bem ao mal e mal ao bem" (cf. Is 5, 20). Antes de ser uma possível afronta contra o homem, o pecado é antes de mais traição a Deus. São emblemáticas as palavras que o filho desprovido de bens pronuncia diante de seu pai, pródigo de amor:  "Pai, pequei contra o Céu isto é, contra Deus e contra ti!" (Lc 15, 21).

A este ponto o Salmista introduz outro aspecto, mais diretamente relacionado com a realidade humana. Foi a frase que suscitou muitas interpretações e que também foi relacionada com a doutrina do pecado original:  "Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-me pecador" (Sl50, 7). O orante deseja indicar a presença do mal dentro do nosso ser, como é evidente na menção da concepção e do nascimento, uma forma de exprimir toda a existência partindo da sua origem. Mas o Salmista não relaciona formalmente esta situação com o pecado de Adão e Eva, isto é, não fala explicitamente de pecado original.

Contudo, é evidente que, segundo o texto do Salmo, o mal se esconde nas próprias profundezas do homem, é inerente à sua realidade histórica e, por isso, é decisivo o pedido da intervenção da graça divina. O poder do amor de Deus supera o poder do pecado, o rio transbordante do mal pode menos do que a água fecundante do perdão:  "Onde abunda o pecado, superabunda a graça"(Rm 5, 20).

Por este caminho, a teologia do pecado original e toda a visão bíblica do homem pecador são indirectamente recordados com palavras que deixam, ao mesmo tempo, entrever a luz da graça e da salvação.

Como teremos ocasião de descobrir no futuro, voltando a falar deste Salmo e dos versículos seguintes, a confissão da culpa e a consciência da própria miséria não levam ao terror ou ao pesadelo do juízo, mas à esperança da purificação, da libertação, da nova criação.

De fato, Deus salva-nos "não por causa das obras da justiça que tivéssemos feito, mas por misericórdia, mediante o batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo, que derramou sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tit 3, 5-6).


-- Papa João Paulo II, na audiência de 8 de Maio de 2002

7 de ago. de 2013

Ninguém é um monstro, Deus ama a todos

Nos últimos dias alguns fatos me conduziram à esta pequena catequese: (1) a capa da revista Rolling Stones estampa o jovem que colocou as bombas em Boston, matando muitos e causando seríssimas lesões em outros mais, com a manchete: Como um estudante promissor e popular transformou-se em um islâmico radical e tornou-se um monstro; (2) Ariel Castro que sequestrou três meninas, estuprou-as e torturou-as por uma década e ainda frequentava uma igreja cristã aos domingos, foi julgado. Aceitou prisão perpétua e mais 1000 anos de pena. Durante o julgamento, afirmou que não é um monstro; (3) foi lançado no Brasil o filme Hannah Arendt, sobre o julgamento de um criminoso nazista que embarcou milhares e milhares de judeus para os campos de concetração, popularmente dito um monstro.

O primeiro fato é que ninguém nasce um assassino cruel, terrorista ou tarado sexual, por serem  encarnações do Demônio. Isto é coisa de filme. Todos escolhem, em um certo momento da vida, este caminho, consideram-no aceitável. Alguns justificam por questões políticas, vingança, guerra, doença mental, traumas de infância, etc... Talvez se atendidas a tempo, crimes e tristezas poderiam ser evitados, mas somos todos livres, Deus nos deu esta liberdade, para escolhermos um caminho errado.

Como cristãos somos chamados a termos uma visão completamente diferente destas pessoas. Diz São Paulo, estamos no mundo, mas não somos do mundo. Não devemos seguir a imprensa e também chamá-los de monstros. Deus criou todas as criaturas à sua imagem com o desejo de que tornem-se santas. Todas são pessoas como eu e tu, com as mesmas capacidades, por mais aterrador que possa parecer.

Deus nos ama profundamente e perdoa todos nossos pecados, como Pai perfeito e amoroso que somente Ele sabe ser. Cristo nos ensinou claramente quantas vezes devemos perdoar: setenta vezes sete, por toda a vida, sempre. Tods nós somos pecadores, um tanto distantes do plano de Deus. Considere São Pedro e Judas Iscariotes: ambos trairam a Deus, mas São Pedro deu-se conta que Deus o amava e era capaz de perdoar seu pecado.  

E como disse uma das meninas sequestradas durante o julgamento de Ariel Castro: eu posso perdoá-lo. Não que ela já tenha perdoado, ou que vá ser fácil, ou possível apenas com suas forças. Acho que o Espírito Santo terá que atuar seriamente e ajudá-la neste perdão. Mas, sim, tanto ela quanto cada um de nós pode perdoar e rezar por quem despezaríamos, inclusive pelos piores criminosos. 

-- autoria própria

16 de mar. de 2013

Quinto Domingo de Quaresma - Ano C

O acontecimento histórico desta semana, a eleição do Papa Francisco, o primeiro Papa das Américas, o primeiro jesuíta, o primeiro a chamar-se Francisco, talvez o primeiro a ter apenas um pulmão, lembra-nos claramente que Deus inclui todos na sua Igreja, e todos tem um papel a desempenhar. 

A primeira leitura deste Domingo é tirada do livro Isaias (Is 43,16-21). Na semana passada ouvimos a conclusão da saída do Egito e a primeira Páscoa na terra prometida. Hoje começamos a olhar para um novo êxodo que Deus promete através do profeta Isaias, um êxodo que promete ser ainda mais maravolhoso que o primeiro, pois Deus promete restaurar toda grandeza de Israel após o retorno da Babilônia.

A segunda leitura da Carta de São Paulo aos Filipenses (Fp 3,8-14) é uma advertência ao povo sob os falsos mestres, judeus que tentam manter as velhas tradições enquanto dizem ser cristãos. Segundo eles, para ser cristão, era necessário ser judeu, ser circuncidado, obedecer as leis do Velho Mandamento. Esta questão, se os gentios convertidos ao Cristianismo devem aceitar os ritos judaicos precipitou o primeiro Concílio de Jerusalem. O Apóstolo responde que é necessário olhar para a frente, abandonar o passado, mirar Cristo Ressucitado na cruz.

O Evangelho de São João (8,1-11) é sobre uma mulher surpreendida em adultério, segundo a antiga lei sujeita a morte por apredejamento. “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. Assim Jesus clama por misericórdia, e eles acabam se afastar reconhecendo também serem pecadores. 

Quando fica a sós com a mulher, a mulher talvez esteja assustada por que Jesus não tem pecados e, segundo a condição que Ele mesmo impôs, poderia puni-la. Mas olhando para ela, diz-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou? Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. Como ressalta Santo Agostinho, Jesus condena o pecado, não a mulher. Com cantamos no Salmo: "Maravilhas fez conosco o Senhor, exultemos de alegria!" 

Cristo inclui a mulher adúltera na sua Igreja, foi misericordioso. Como aconselhou o Papa Francisco ao confessores na Basílica de Santa Maria Maior, na sua primeira visita após a eleição: "Sejam piedosos com as almas que lhes procuram, estas pessoas precisam de vós", lembrem-se sempre, emfatizou "misericórida, misericórdia, misericórdia".  

12 de mar. de 2013

A misericórdia do Senhor para com os pecadores que se convertem

São Máximo, o Confessor (c.580-662)

Os pregadores da verdade e os ministros da graça divina, todos os que, desde o princípio até os nossos dias, cada um a seu tempo, expuseram a vontade salvífica de Deus, dizem que nada lhe é tão agradável e conforme a seu amor como a conversão dos homens a ele com sincero arrependimento.

E para dar a maior prova da bondade divina, o Verbo de Deus Pai (ou melhor, o primeiro e único sinal de sua bondade infinita), num ato de humilhação que nenhuma palavra pode explicar, num ato de condescendência para com a humanidade, dignou-se habitar no meio de nós, fazendo-se homem. E realizou, padeceu e ensinou tudo o que era necessário para que nós, seus inimigos e adversários, fôssemos reconciliados com Deus Pai e chamados de novo à felicidade eterna que havíamos perdido.

O Verbo de Deus não curou apenas nossas enfermidades com o poder dos milagres. Tomou sobre si as nossas fraquezas, pagou a nossa dívida mediante o suplício da cruz, libertando-nos dos nossos muitos e gravíssimos pecados, como se ele fosse o culpado, quando na verdade era inocente de qualquer culpa. Além disso, com muitas palavras e exemplos, exortou-nos a imitá-lo na bondade, na compreensão e na perfeita caridade fraterna. 

Por isso dizia o Senhor: Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores para a conversão (Lc 5,32). E também: Aqueles que têm saúde não precisam de médicos, mas sim os doentes (Mt 9,12). Disse ainda que viera procurar ao velha desgarrada e que fora enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Do mesmo modo, pela parábola da dracma perdida, deu a entender mais veladamente que viera restaurar no homem a imagem divina que estava corrompida pelos mais repugnantes pecados. E afirmou: Em verdade eu vos digo, haverá alegria no céu por um só pecador que se converte (cf. Lc 15,7).

Por esse motivo, contou a parábola do bom samaritano: àquele homem que caíra nas mãos dos ladrões, e fora despojado de todas as vestes, maltratado e deixado semimorto, atou-lhe as feridas, tratou-as com vinho e óleo e, tendo colocado em seu jumento, deixou-o numa hospedaria para que cuidassem dele; pagou o necessário para o seu tratamento e ainda prometeu, dar na volta, o que porventura se gastasse a mais.

Mostrou-nos ainda a condescendência e bondade do pai que recebeu afetuosamente o filho pródigo que voltava, como o abraçou porque retornara arrependido, revestiu-o de novo com as insígnias de sua nobreza familiar e esqueceu todo o mal que fizera. Pela mesma razão, reconduziu ao redil a ovelhinha que se afastara das outras cem ovelhas de Deus e fora encontrada vagueando por montes e colinas. Não lhe bateu nem a ameaçou nemextenuou de cansaço; pelo contrário, colocando-a em seus próprios ombros, cheio de compaixão, trouxe-a sã e salva para o rebanho.

E deste modo exclamou: Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo (Mt 11,28-29). Ele chamava de jugo os mandamentos ou a vida segundo os preceitos evangélicos; e quanto ao peso, que pela penitência parecia ser grande e mais penoso, acrescentou: O meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,30). 

Outra vez, querendo nos ensinar a justiça e a bondade de Deus, exortava-nos com estas palavras: Sede santos, sede perfeitos, sede misericordiosos, como também vosso Pai celeste é misericordioso (cf. Mt 5,48; Lc 6,36). E: Perdoai, e sereis perdoados (Lc 6,37). Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles (Mt 7,12).

-- Das Cartas de São Máximo, o Confessor, abade (século VII)

9 de mar. de 2013

Quarto Domingo da Quaresma - Ano C

O Filho Pródigo, Rembrandt

O quarto domingo da Quaresma é um tanto único pois é chamado de "Laetare", da alegria, quebrando um pouco o tempo penitencial e já anunciando a Páscoa que se aproxima. As vestes são da cor rosa e flores podem adornar o altar. De acordo com o RICA (Rito para Iniciação de Cristãos Adultos), é o dia indicado para o segundo escrutínio dos batizandos.

A primeira leitura relembra a celebração da primeira Páscoa na Terra Prometida. A intervenção direta de Deus, o maná, já não era necessário, pois o povo havia recebido uma terra que emanava frutos e mel. 

Na segunda leitura, uma carta de São Paulo aos Coríntios, o apóstolo anuncia o Kerygma brevemente: Jesus Cristo trouxe a salvação para os homens, pelo amor que o Pai nutre por cada um de nós, nossos pecados estão perdoados, é possível nos reconcialiarmos com Deus. Esta é a justiça de Deus.

O Evangelho conta a história do Filho Pródigo, a terceira de uma sequência chamada de Parábolas da Misericórdia: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo. Essencialmente ela nos mostra um Deus que é um Pai amoroso. Inicia com o Filho pedindo a parte dele na herança pois já não acredita no Pai, quer distância da família. Esta é a escolha do filho: o mundo com suas extravagâncias, ganâncias e falsas promessas. Enquanto deixou-se guiar pelo seu orgulho, porque sabia desde sempre que seu pai tinha muitos bens, o jovem persistiu no mundo, não com Deus; experimentou claramente a futilidade da sua vida, tristeza e humilhação, 

Até que deixou seu orgulho quebrar-se, preparou-se para ser humilhado pelo pai e irmão; retornou para seu Deus Pai. Reconheceu-se pecador e orgulhoso e rumou para casa. O pai corre em sua direção, da mesma forma que o pastor busca a ovelha perdida e a mulher procura a moeda perdida. É um Deus vigilante, esperando pelo seu filho, cada um de nós, dia e noite, de maneira perfeita, sem desesperar ou desistir. Este pai não apenas acolhe o jovem, como lhe dá presentes e prepara uma festa. Na parábola temos a figura do pai perfeito, que não diz uma palavra para recriminar seu filho, não sai de sua boca sequer um "eu te avisei", ou algo do tipo. 

Por fim, há o filho mais velho, nem por isso mais sábio ou menos orgulhoso. Manteve-se com o Pai, mas talvez visando a herança que teria. E quando ela está ameaçada porque o pai consome o melhor dela para receber o irmão, reclama. O Pai é obrigado a corrigi-lo, pois ainda não enxergou o seu erro, mas já duvida do seu Pai. 

Deus é um pai amoroso, atento aos filhos, que alimentou o povo no deserto, atendeu suas dificuldades no momento difícil; enviou Cristo para nos trazer a salvação; e aguarda ansioso que a aceitemos. Alegremo-nos!

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