31 de ago de 2012

Capítulo 13 - Como se há de resistir às tentações

  1. Enquanto vivemos neste mundo, não podemos estar sem trabalhos e tentações. Por isso lemos no livro de Jó (7,1): É um combate a vida do homem sobre a terra. Cada qual, pois, deve estar acautelado contra as tentações, mediante a vigilância e a oração, para não dar azo às ilusões do demônio, que nunca dorme, mas anda por toda parte em busca de quem possa devorar (1 Pdr 5,8). Ninguém há tão perfeito e santo, que não tenha, às vezes, tentações, e não podemos ser delas totalmente isentos.
  2. São, todavia, utilíssimas ao homem as tentações, posto que sejam molestas e graves, porque nos humilham, purificam e instruem. Todos os santos passaram por muitas tribulações e tentações, e com elas aproveitaram; aqueles, porém, que não as puderam suportar foram reprovados e pereceram. Não há Ordem tão santa nem lugar tão retirado, em que não haja tentações e adversidades.
  3. Nenhum homem está totalmente livre das tentações, enquanto vive, porque em nós mesmos está a causa donde procedem: a concupiscência em que nascemos. Mal acaba uma tentação ou tribulação, outra sobrevém, e sempre teremos que sofrer, porque perdemos o dom da primitiva felicidade. Muitos procuram fugir às tentações, e outras piores encontram. Não basta a fuga para vencê-las; é pela paciência e verdadeira humildade que nos tornamos mais fortes que todos os nossos inimigos.
  4. Pouco adianta quem somente evita as ocasiões exteriores, sem arrancar as raízes; antes lhe voltarão mais depressa as tentações, e se achará pior. Vencê-las-á melhor com o auxílio de Deus, a pouco e pouco com paciência e resignação, que com importuna violência e esforço próprio. Toma a miúdo conselho na tentação e não sejas desabrido e áspero para o que é tentado, trata antes de o consolar, como desejas ser consolado.
  5. O princípio de todas as más tentações é a inconstância do espírito e a pouca confiança em Deus; pois, assim como as ondas lançam de uma parte a outra o navio sem leme, assim as tentações combatem o homem descuidado e inconstante em seus propósitos. O ferro é provado pelo fogo, e o justo pela tentação. Ignoramos muitas vezes o que podemos, mas a tentação manifesta o que somos. Todavia, devemos vigiar, principalmente no princípio da tentação; porque mais fácil nos será vencer o inimigo, quando não o deixarmos entrar na alma, enfrentando-o logo que bater no limiar. Por isso disse alguém: Resiste desde o princípio, que vem tarde o remédio, quando cresceu o mal com a muita demora (Ovídio). Porque primeiro ocorre à mente um simples pensamento, donde nasce a importuna imaginação, depois o deleite, o movimento; e assim, pouco a pouco, entra de todo na alma o malvado inimigo. E quanto mais alguém for indolente em lhe resistir, tanto mais fraco se tornará cada dia, e mais forte o seu adversário.
  6. Uns padecem maiores tentações no começo de sua conversão, outros, no fim; outros por quase toda a vida são molestados por elas. Alguns são tentados levemente, segundo a sabedoria da divina Providência, que pondera as circunstâncias e o merecimento dos homens, e tudo predispõe para a salvação de seus eleitos.
  7. Por isso não devemos desesperar, quando somos tentados; mas até, com maior fervor, pedir a Deus que se digne ajudar-nos em toda provação, pois que, no dizer de S. Paulo, nos dará graça suficiente na tentação para que a possamos vencer (1 Cor 10,13). Humilhemos, portanto, nossas almas, debaixo da mão de Deus, em qualquer tentação e tribulação porque ele há de salvar e engrandecer os que são humildes de coração.
  8. Nas tentações e adversidades se vê quanto cada um tem aproveitado; nelas consiste o maior merecimento e se patenteia melhor a virtude. Não é lá grande coisa ser o homem devoto e fervoroso quando tudo lhe corre bem; mas, se no tempo da adversidade conserva a paciência, pode-se esperar grande progresso. Alguns há que vencem as grandes tentações e, nas pequenas, caem freqüentemente, para que, humilhados, não presumam de si grandes coisas, visto que com tão pequenas sucumbem.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

30 de ago de 2012

Capítulo 12 - Da utilidade das adversidades


A última oração dos mártires cristãos, Jean-Léon Gérôme.

  1. Bom é passarmos algumas vezes por aflições e contrariedades, porque freqüentemente fazem o homem refletir, lembrando-lhe que vive no desterro e, portanto, não deve pôr sua esperança em coisa alguma do mundo. Bom é encontrarmos às vezes contradições, e que de nós façam conceito mau ou pouco favorável, ainda quando nossas obras e intenções sejam boas. Isto ordinariamente nos conduz à humildade e nos preserva da vanglória. Porque, então, mais depressa recorremos ao testemunho interior de Deus, quando de fora somos vilipendiados e desacreditados pelos homens.
  2. Por isso, devia o homem firmar-se de tal modo em Deus, que lhe não fosse mais necessário mendigar consolações às criaturas. Assim que o homem de boa vontade está atribulado ou tentado, ou molestado por maus pensamentos, sente logo melhor a necessidade que tem de Deus, sem o qual não pode fazer bem algum. Então se entristece, geme e chora pelas misérias que padece. Então causa-lhe tédio viver mais tempo, e deseja que venha a morte livrá-lo do corpo e uni-lo a Cristo. Então compreende também que neste mundo não pode haver perfeita segurança nem paz completa.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

28 de ago de 2012

Não vos deixeis desanimar!


* Homília do Papa João Paulo II numa celebração para jovens realizada na cidade de Munique (Alemanha), em 19 de Novembro de 1980.

1. Quando Cristo fala do Reino de Deus serve-se muitas vezes de imagens e de parábolas. A sua imagem da "ceifa" da "grande ceifa", devia recordar a quem O escutava um acontecimento que se repetia cada ano, esperado com tanta ansiedade, com o qual se podia aprestar para recolher, com o duro trabalho de muitos homens e fadiga, os frutos produzidos pela terra.

Esta palavra — "ceifa" — ainda hoje faz o nosso pensamento tomar a mesma direcção, embora tenhamos diante de nós, habitantes de países altamente industrializados, uma imagem pouco clara do que a colheita dos frutos da terra significa para o agricultor e sobretudo para os homens. 

Com a imagem do trigo, que é recolhido, Cristo quer referir-se ao crescimento e à maturação interior do homem. O homem está unido à sua natureza e dela não pode separar-se. Ao mesmo tempo ele domina-a com todo o procedimento íntimo do próprio ser pessoal. Por isso a maturação humana é um tanto diferente da maturação dos produtos da terra. Para o homem não falamos somente de um crescimento corpóreo e espiritual. Para que o homem amadureça é necessário que amadureça juntamente com ele, sobretudo, a dimensão espiritual e religiosa do seu ser. Quando Cristo fala da "ceifa", quer dizer que o homem deve amadurecer em Deus e que, por conseguinte, em Deus mesmo, no Seu Reino, ele recolhe os frutos das suas lutas e da sua maturação.

Desejaria agora falar-vos, jovens homens de hoje, com seriedade, mas, ao mesmo tempo, com alegre esperança, desta verdade do Evangelho. Estais a atravessar um período particularmente importante e crítico da vossa vida, no qual se pode decidir muito ou quase tudo para o vosso ulterior desenvolvimento, para o vosso futuro.

Para a formação da própria personalidade, para a construção do homem interior, a consciência da verdade reveste uma importância determinante. O homem pode maturar verdadeiramente só à luz da verdade e na verdade. Aqui está o significado profundo de uma educação tão importante, que deve acompanhar todo o sistema escolar até à universidade. Esta educação, esta formação deve ajudar o jovem a aprender a conhecer e a compreender o mundo e a si mesmo; deve ajudá-lo a fazer com que aprenda tudo aquilo que leva a existência e o agir do homem no mundo a atingirem o seu pleno significado. Por causa disso, deve também ajudá-lo a aprender a conhecer Deus. O homem não pode viver, sem conhecer o significado da própria existência.

2. Esta busca, esta auto-orientação e esta maturação para a verdade plena e fundamental da realidade não é certamente fácil. Desde sempre foi necessário enfrentar muitas dificuldades. E precisamente a este problema parece querer referir-se São Paulo, quando escreve, na segunda carta aos Tessalonicenses: "Não vos deixeis facilmente abalar e aterrorizar... Que ninguém vos seduza, de maneira alguma" (2 Tess 2, 2-3). Estas palavras, dirigidas a uma jovem comunidade dos primeiros cristãos, devem ser hoje relidas à luz das diferentes condições da nossa civilização e cultura moderna. Assim, desejaria dizer-vos, jovens homens de hoje: "Não vos deixeis desanimar! Não vos façais enganar!"

Sede reconhecidos, quando tendes bons pais, que vos encorajam e indicam o justo caminho. Talvez eles valham muito mais de quanto, à primeira vista, podeis reconhecer. Mas há muitos que sofrem por causa dos próprios pais, não se sentindo compreendidos, ou sem mais estão abandonados. Outros devem encontrar o caminho da fé sem ou até contra os próprios pais. Muitos, na escola sofrem por causa da "exigência de aproveitamento", como vós dizeis; muitos sofrem pelo relacionamento com os outros e pelas pressões no campo do trabalho; outros pela insegurança da perspectiva futura de uma ocupação. Com efeito, não causa medo o fato de que o desenvolvimento técnico destrói as condições naturais de vida do homem? E sobretudo: onde terminará este mundo, que está dividido em blocos militarizados, em povos ricos e pobres, em estados livres e totalitários? Neste ou em outro lugar da terra continuam a deflagrar guerras, causadoras de morte e de destruição entre os homens. E ainda em muitas partes da terra, de perto e de longe, atos de duras repressões e de sanguinoso terrorismo. Até mesmo no lugar onde agora celebramos a Eucaristia, devemos diante de Deus recordar as vítimas, que recentemente, perto desta grande praça, foram mortas ou feridas pela explosão de uma bomba. É difícil saber do que seja capaz o homem que vive a aberração do espírito e do coração.

É nestes pressupostos que baseamos o nosso apelo à mensagem da paz: "Não vos deixeis desanimar facilmente!". Todas estas misérias e dificuldades fazem parte daquelas resistências, das quais devemos aproximar-nos para provar o nosso amadurecimento à luz da verdade fundamental. Daqui nós encontramos também a força de trabalhar juntos para a construção de um mundo justo e humano; disto nos derivam a prontidão e a coragem e, em grande medida, também a responsabilidade de cuidarmos da vida da sociedade, do Estado e da Igreja. Em verdade, devemos também dizer que nos consola muito o fato de, apesar de tantas sombras e dificuldades, existir ainda tanto, tanto bem. E não quer dizer que falta, só porque dele o homem pouco fala. Muitas vezes é necessário descobrir e reconhecer todo o bem que age silenciosamente e que, talvez no futuro, será reconhecido na sua plenitude. Que fez, por exemplo, a Madre Teresa de Calcutá, no silêncio e na discrição, antes que o mundo, surpreso, desse conta dela e da sua obra? Por isso, não vos deixeis desanimar tão facilmente!

3. Não vos ocorre ver que, na vossa sociedade, ao vosso redor, muitos, que se dizem cristãos, tornaram incertos ou de todo perderam a orientação? E esta situação não age, talvez negativamente, sobretudo nos jovens? Não é evidente a grande tentação do abandono da fé, da qual fala o Apóstolo na sua carta? A Palavra de Deus na liturgia de hoje dá-nos o pressentimento da amplitude do horizonte deste abandono da fé, assim como se manifesta neste século e aclara a sua dimensão.

São Paulo escreve: "O mistério da iniquidade já está em ação..." (2 Tess 2, 7). Não podemos dizer o mesmo do vosso tempo? O mistério da iniquidade, o abandono de Deus, segundo as palavras da carta de Paulo, tem estrutura interior e sequência bem definida: "... há-de manifestar-se o homem da iniquidade... aquele que se levanta contra tudo, o que leva o nome de Deus ou que se adora, a ponto de tomar lugar no templo de Deus e se apresentar como se fosse Deus" (2 Tess 2, 3-4). Encontramos também aqui uma estrutura da negação, da erradicação de Deus do coração dos homens e do abandono de Deus por parte da sociedade humana, e isto com o objetivo, como se diz, de uma plena "humanização" do homem, isto é, tornar o homem humano em sentido pleno e, de certo modo, colocá-lo no lugar de Deus; portanto, "deificá-1o". Esta estrutura, como se vê, é muito antiga e já conhecida desde as origens, desde o primeiro capítulo do Génesis: isto é, a tentação de conferir ao homem a "divindade" (da imagem e semelhança de Deus) do Criador, de tomar o lugar de Deus, com a "divinização" do homem, contra Deus — ou sem Deus, como é evidente pelas afirmações ateístas de muitos sistemas modernos.

Quem rejeita a verdade fundamental da realidade, quem se coloca a si mesmo como medida de todas as coisas, e deste modo se coloca no lugar de Deus, quem, mais ou menos conscientemente, pensa diminuir Deus, o Criador do mundo, ou Cristo, o Redentor da humanidade, quem, em vez de procurar Deus, corre atrás dos ídolos, sempre voltará as costas à única verdade suprema e fundamental.

Esta é a fuga da interioridade. Ela pode levar a render-se. "É tudo sem sentido". Se os jovens tivessem para com Jesus uma tal atitude, o mundo nunca teria nada a aprender da mensagem salvífica de Cristo. Esta fuga da interioridade pode assumir a forma de uma desesperada extensão do conhecimento. Há muitos Jovens entre vós que procuram destruir a própria humanidade refugiando-se no álcool e nas drogas. 

Frequentemente se trincheiram atrás do medo ou do desespero, muitas vezes, por isso também atrás da busca do prazer, da falta de força interior, ou da irresistível curiosidade de "experimentar" tudo. Ou também, a fuga da interioridade leva a associardes-vos em seitas religiosas, que se servem do vosso idealismo e da vossa ingenuidade e de vós tiram a liberdade de pensamento e da consciência. Refiro-me além disso à fuga para "as ilhas de felicidade" que, mediante determinadas práticas exteriores, garantem a conquista da verdadeira felicidade, e por fim deixam abandonado, quem nelas se refugia, a si mesmo e à própria indecisa solidão.

E depois, existe também uma fuga da verdade fundamental para o exterior, isto é, para utopias políticas e sociais, para alguma visão ideal da sociedade. Os ideais e a necessidade de um objectivo são de tal modo necessários, que as "fórmulas miraculosas" utópicas já não ajudam, tanto mais que frequentemente se traduzem em regimes totalitários ou na aplicação de um poder destrutivo.
Profeta Ezequiel

4. Vós vedes tudo isto, todas as fugas da verdade, a força oculta e cheia de perigos da resistência à lei e da maldade, que se manifestam. Não conseguis resistir à tentação da solidão e do abandono? Então a leitura de hoje do Profeta Ezequiel vos dá a resposta. São as palavras do pastor, que procura as ovelhas tresmalhadas e abandonadas para as poder reunir "de todas as partes por onde tenham sido dispersas num dia de nuvens e trevas" (Ez 34, 12).

Este pastor, que procura o homem no caminho escuro da sua solidão e do seu abandono para poder levá-lo novamente para a luz, é Cristo. Ele é o bom pastor. Ele está também sempre presente no ponto mais oculto do "mistério do malvado" e põe sobre os seus ombros até a existência humana nesta terra. Ele age na verdade, quando liberta o coração do homem da fundamental resistência em que se aloja, e que é aquela da divinização do homem sem ou contra. Deus, a qual cria um clima de solidão e de abandono. No caminho que leva da escura solidão para a autêntica humanidade, Cristo, o bom pastor, faz-se portador, com profunda participação e acompanhando-nos com o seu amor, de cada um dos homens, sobretudo dos jovens que crescem.

O profeta Ezequiel diz ainda deste pastor: "Arrancá-las-ei entre os povos e as reunirei dos vários países, para as reconduzir à sua própria terra e as apascentar nos montes de Israel, nos vales e em todos os lugares habitados da região" (Ez 34, 13). "Procurarei a ovelha perdida; reconduzirei a transviada; a que está ferida tratá-la-ei; à doente darei força, ao mesmo tempo que vigiarei a que está gorda e vigorosa. Apascentá-las-ei todas com justiça" (Ez 34, 16).

Assim Cristo acompanhará a maturação do homem para a sua humanidade. Ele acompanha-nos, nutre e encoraja-nos na vida da Sua Igreja com a Sua palavra e os Seus Sacramentos, com o Corpo e o Sangue da Sua celebração pascal. Nutre-nos como eterno Filho de Deus, de maneira que o homem participe da Sua filiação divina, "diviniza-o" interiormente, para que seja "homem em toda a plenitude do seu significado, para que o homem, criado imagem e semelhança de Deus alcance a sua maturidade em Deus.

5. É precisamente à luz de quanto foi referido, que Cristo diz: a messe é "grande". A messe é grande porque o destino do homem supera qualquer medida. É grande pela dignidade do homem. É grande pela força da sua vocação. Grande é esta maravilhosa colheita do Reino de Deus na humanidade, a messe do bem na história do homem, dos povos e das nações. É verdadeiramente grande — "mas os operários são poucos" (Mt 9,37).

Que significa isto? Quer significar, meus caros Jovens, que vós sois chamados, sois chamados por Deus. A minha vida, a minha vida como homem tem portanto o seu significado, quando sou chamado por Deus, com um apelo vigoroso, decisivo e definitivo: Somente Deus pode chamar assim o homem, e nenhum outro. E este apelo de Deus é feito incessantemente em Cristo e por Cristo, a cada um de vós; sede operários da messe da vossa humanidade, operários na vinha do Senhor, para participardes da colheita messiânica da humanidade.

Jesus tem necessidade também de homens jovens que, entre vós, sigam o seu apelo e vivam como Ele, em pobreza e castidade, a fim de que sejam o sinal vivo da realidade de Deus no meio dos vossos irmãos e irmãs. Deus tem necessidade de sacerdotes que se deixem guiar pelo bom pastor no serviço da Sua palavra e dos Seus sacramentos para os homens. Ele tem necessidade de religiosos, homens e mulheres, que abandonem tudo para O seguir e servir a humanidade. Ele tem necessidade de esposos cristãos, que juntos e com os seus filhos se esforcem pela plena maturação da humanidade em Deus. Deus tem necessidade de homens que estejam prontos a assistir aos pobres, aos doentes, aos rejeitados, aos marginalizados e àqueles que sofrem na alma.

São Benno de Meissen
A história do cristianismo do vosso povo, que tem mais de mil anos, é rica de homens, cuja figura pode ser um estimulo para a resposta ao vosso grande apelo. Desses citarei apenas quatro, que hoje, na cidade de Munique, me vêm mente. Na liturgia hodierna celebramos a memória deles. Penso no santo Bispo Benno de Meissen, cujos restos mortais repousam na Frauenkirche de Munique. Ele era um homem de paz e de reconciliação, que pregava incessantemente, um amigo dos pobres e dos necessitados. E também hoje o meu pensamento dirige-se para a grande figura de Santa Isabel, cujo lema era: "Amar — conforme o Evangelho". Era princesa de Wartburg, e como tal gozava de todos os privilégios do seu estado; e no entanto viveu completamente para os pobres e para os marginalizados. Para concluir, desejaria citar um homem, que alguns de vós, ou os vossos pais, conheceram pessoalmente: o Padre Jesuíta Rupert Mayer, cujo túmulo, no centro de Munique, na cripta do Bürgesaal, todos os dias, é visitado por muitas centenas de pessoas para breve oração, Não dando importância às consequências de uma grave ferida, que lhe deixara a primeira guerra mundial, ele lutou aberta e corajosamente pelos direitos da Igreja e pela liberdade, e por isso sofreu as penas do campo de concentração e o exílio.

Caros jovens! Sede abertos ao apelo de Cristo. A vossa vida humana é "uma ventura e um risco que jamais se repetem", e pode ser "uma bênção ou uma maldição". Diante de vós, jovens, que sois a grande esperança do nosso futuro, queremos pedir ao "Senhor da messe" que faça de cada um de vós, de todos os jovens desta terra um operário da Sua "grande colheita", que corresponda assim à abundância dos apelos e dos dons no Seu Reino nesta terra.

Desejo, enfim, enviar particular pensamento de bênçãos aos nossos irmãos e irmãs de fé evangélica, que hoje, neste País, comemoram o "dia de penitência". Eles celebram-no com a consciência da necessidade de conversão sempre nova e, segundo o desejo da Igreja, para recordar diante de Deus na oração também as comunidades dos povos e dos Estados. Recordai-vos também, na oração deste dia, dos vossos compatriotas católicos e do vosso irmão João Paulo e do seu serviço. Amém.

Capítulo 11 - Da paz e do zelo em aproveitar



Monge em oração - Manet
  1. Muita paz podíamos gozar, se não nos quiséssemos ocupar com os ditos e fatos alheios que não pertencem ao nosso cuidado. Como pode ficar em paz por muito tempo aquele que se intromete em negócios alheios, que busca relações exteriores, que raras vezes e mal se recolhe interiormente? Bem-aventurados os simples, porque hão de ter muita paz!
  2. Por que muitos santos foram tão perfeitos e contemplativos? É que eles procuraram mortificar-se inteiramente em todos os desejos terrenos, e assim puderam, no íntimo de seu coração, unir-se a Deus e atender livremente a si mesmos. Nós, porém, nos ocupamos demasiadamente das próprias paixões e cuidados com excesso das coisas transitórias. Raro é vencermos sequer um vício perfeitamente; não nos inflamamos no desejo de progredir cada dia; daí a frieza e tibieza em que ficamos.
  3. Se estivéssemos perfeitamente mortos a nós mesmos e interiormente desimpedidos, poderíamos criar gosto pelas coisas divinas e algo experimentar das doçuras da celeste contemplação. O que principalmente e mais nos impede é o não estarmos ainda livres das nossas paixões e  concupiscências, nem nos esforçamos por trilhar o caminho perfeito dos santos. Basta pequeno contratempo para desalentarmos completamente e voltarmos a procurar consolações humanas.
  4. Se nos esforçássemos por ficar firmes no combate, como soldados valentes, por certo veríamos descer sobre nós o socorro de Deus. Pois ele está sempre pronto a auxiliar os combatentes confiados em sua graça: Aquele que nos proporciona ocasiões de peleja para que logremos a vitória. Se fizermos consistir nosso aproveitamento espiritual tão somente nas observâncias exteriores, nossa devoção será de curta duração. Metamos, pois, o machado à raiz, para que, livre das paixões, goze paz nossa alma.
  5. Se cada ano extirpássemos um só vício em breve seríamos perfeitos. Mas agora, pelo contrário, muitas vezes experimentamos que éramos melhores, e nossa vida mais pura, no princípio da nossa conversão que depois de muitos anos de profissão. O nosso fervor e aproveitamento deveriam crescer, cada dia; mas, agora, considera-se grande coisa poder alguém conservar parte do primitivo fervor. Se no princípio fizéramos algum esforço, tudo poderíamos, em seguida, fazer com facilidade e gosto.
  6. Custoso é deixar nossos costumes; mais custoso, porém, contrariar a própria vontade. Mas, se não vences obstáculos pequenos e leves, como triunfarás dos maiores? Resiste no princípio à tua inclinação e rompe com o mau costume, para que te não metas pouco a pouco em maiores dificuldades. Oh! Se bem considerasses quanta paz gozarias e quanto prazer darias aos outros, se vivesses bem, de certo cuidarias mais do teu adiantamento espiritual.
-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

24 de ago de 2012

A fraqueza de Deus é mais forte que os homens


O Martírio de São Bartolomeu - 24 de Agosto
Por meio de homens ignorantes a cruz persuadiu, e mais, persuadiu a terra inteira. Não falava de coisas sem importância, mas de Deus, da verdadeira religião, do modo de viver o Evangelho e do futuro juízo. De incultos e ignorantes fez amigos da sabedoria. Vê como a loucura de Deus é mais sábia que os homens e a fraqueza, mais forte.

De que modo mais forte? Cobriu toda a terra, cativou a todos por seu poder. Sucedeu exatamente o contrário do que pretendiam aqueles que tentavam apagar o nome do Crucificado. Este nome floresceu e cresceu enormemente. Mas seus inimigos pereceram em ruína total. Sendo vivos, lutando contra o morto, nada conseguiram. Por isso, quando o grego me chama de morto, mostra-se totalmente insensato, pois eu, que a seus olhos passo por ignorante, me revelo mais sábio que os sábios. Ele, tratando-me de fraco, dá provas de ser o mais fraco. Tudo o que, pela graça de Deus, souberam realizar aqueles publicanos e pescadores, os filósofos, os reis, numa palavra, todo o mundo perscrutando inúmeras coisas, nem mesmo puderam imaginar.

Pensando nisto, Paulo dizia: O que é fraqueza de Deus é mais forte que todos os homens (1Cor 1,25). Com isso se prova a pregação divina. Quando é que se pensou: doze homens, sem instrução, morando em lagos, rios e desertos, que se lançam a tão grande empresa? Quando se pensou que pessoas que talvez nunca houvessem pisado em uma cidade e, em sua praça pública, atacassem o mundo inteiro? Quem sobre eles escreveu, mostrou claramente que eles eram medrosos e pusilânimes, sem querer negar ou esconder os defeitos deles. Ora, este é o maior argumento em favor de sua veracidade. Que diz então a respeito deles? Que, preso o Cristo depois de tantos milagres feitos, uns fugiram, o principal deles o negou.

Donde lhes veio que, durante a vida de Cristo, não resistiram à fúria dos judeus, mas, uma vez ele morto e sepultado – visto que, como dizeis, Cristo não ressuscitou, nem lhes falou, nem os encorajou – entraram em luta contra o mundo inteiro? Não teriam dito, ao contrário: “Que é isto? não pôde salvar-se,vai proteger-nos agora? Ainda vivo, não socorreu a si mesmo, e morto, nos estenderá a mão? Vivo, não sujeitou povo algum, e nós iremos convencer o mundo inteiro, só com dizer seu nome? Como não será insensato não só fazer, mas até pensar tal coisa?”

Por este motivo é evidente que, se não o tivessem visto ressuscitado e recebido assim a grande prova de seu poder, jamais se teriam lançado em tamanha aventura.


-- Das Homilias sobre a Primeira Carta aos Coríntios, de São João Crisóstomo, bispo (Séc.IV)


22 de ago de 2012

Capítulo 10 - Como se devem evitar as conversas supérfluas

Virgem do Silêncio - Kiko Arguello

  1. Evita, quanto puderes, o bulício dos homens, porque muito nos perturbam os negócios mundanos ainda quando tratados com reta intenção; pois bem depressa somos manchados e cativos da vaidade. Quisera eu ter calado muitas vezes e não ter conversado com os homens. Por que razão, porém, nos atraem falas e conversas, se raras vezes voltamos ao silêncio sem dano da consciência? Gostamos tanto de falar, porque pretendemos, com essas conversações, ser consolados uns pelos outros e desejamos aliviar o coração fatigado por preocupações diversas. E ordinariamente sentimos prazer em falar e pensar, ora nas coisas que muito amamos e desejamos, ora nas que nos contrariam.
  2. Mas ai! Muitas vezes é em vão e sem proveito, pois essa consolação exterior é muito prejudicial à consolação interior e divina. Cumpre, portanto, vigiar e orar, para que não passe o tempo ociosamente. Se for lícito e oportuno falar, seja de coisas edificantes. O mau costume e o descuido do nosso progresso espiritual concorrem muito para o desenfreamento de nossa língua. Ajudam muito, porém, ao aproveitamento espiritual os devotos colóquios sobre coisas espirituais, mormente quando se associam em Deus pessoas que pensam e sentem do mesmo modo.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

19 de ago de 2012

A oração do Pai Nosso


* Seguimos publicando a Doutrina Cristã segundo São roberto Belarmino. a primeira parte abrangia a oração do Creio. Nesta segunda parte, ele nos fala de várias outras orações cristãs, começando pelo Pai Nosso.

Qual é a segunda parte da Doutrina Cristã?
- A oração dominical, chamada vulgarmente Pai Nosso.

Que coisa nos ensina o Pai Nosso?
- Ensina-nos tudo que devemos desejar, esperar e pedir a Deus.

Porque se chama "oração dominical"?
- Chama-se assim porque Jesus Cristo nos a ensinou, Nosso Senhor de sua própria boca: e "oração dominical" é o mesmo que "Oração do Senhor".

NR: A palavra latina para Deus é "Dominus". Domingo é o dia do Senhor, o "Dies Dominus". São Roberto utiliza uma expressão não usual em português para se referir ao Pai Nosso, como a oração do Senhor.

O que é dito nesta oração?
Pai Nosso que estás no céu,
Santificado seja o vosso nome
Venha a nós o vosso Reino,
Seja feita a vossa vontade,
assim na Terra como no Céu.

O pão nosso de cada dia nos dai hoje
e perdoai as nossas ofensas,
assim como perdoamos a quem nos tem ofendido,
e não nos deixei cair em tentação,
mas livrai-nos do mal.
Amém.

Com esta oração invocamos a Deus,  nosso Pai, para excitar-nos a confiarmos nele. Desejamos que seja conhecido, servido e amado por todos; que seja exaltada a Igreja, que é o seu Reino; que ele reine nos nossos corações e nos faça reinar consigo na sua glória. Que em tudo se faça segundo a sua vontade, particularmente na observância dos seus santos preceitos, como a executam os anjos e bem-aventurados no céu. Pedimos-lhe que nos dê o necessário a cada dia para a alma e o corpo. Que perdoe nossos pecados, assim como nos oferecemos para perdoar os delitos dos que nos tem ofendido. Que nos livre das tentações, não permitindo que sejamos tentados ou dando-nos graça para não sermos vencidos. E, finalmente, que nos livre de todo mal e, especialmente, do maior, que é o pecado e a condenação eterna. 

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino, bispo (século XVI)

18 de ago de 2012

Sal da terra e luz do mundo


Vós sois o sal da terra (Mt 5,13). Estas palavras vos foram entregues não para vossa vida, mas para a de todo o mundo. Não vos envio a duas cidades, nem a dez ou vinte. Não vos envio a um só povo, como os profetas outrora, mas à terra, ao mar, ao universo inteiro. E tudo isto em péssimo estado.Pois ao dizer: Vós sois o sal da terra, mostra ter toda a natureza humana perdido seu sabor e estar corrompida pelos pecados. Por este motivo mais exige deles as virtudes necessárias e úteis para tratar de tantos com solicitude. Na verdade o manso, modesto, misericordioso e justo não apenas guarda para si as boas obras, mas cuida de que as excelentes fontes coram para proveito dos outros. Também o puro de coração, pacífico, amante de verdade orienta sua vida para o bem comum.

Não julgueis, assim diz, serdes compelidos a breves escaramuças nem que tenhais de vos haver com causas pequeninas: Vós sois o sal da terra. E então? Poderão eles restaurar a podridão? De modo algum. De nada serve deitar sal ao que já está podre. Não foi isto certamente o que fizeram. Mas aquilo que antes fora renovado e entregue a eles, livre de todo mau odor, a isto misturavam o sal e preservavam naquele estado novo que haviam recebido de Cristo. Porque libertar do mau odor dos pecados foi obra do poder de Cristo. Para que não se volte a este mau cheiro, tal é o escopo de sua diligência e esforço.

Vês como aos poucos vai mostrando serem eles melhores que os próprios profetas? Não os declara mestres da Palestina, mas da terra inteira. Não vos admireis, assim diz, se, deixando os outros, falo mais intimamente convosco e vos arrasto a tão grandes perigos. Pensai a quantas e a quão grandes cidades, povos e nações vou enviar-vos como administradores. Por isso não vos quero apenas prudentes, mas que torneis os outros semelhantes a vós. Se não fordes assim, nem mesmo sereis de vantagem para vós mesmos.

Pois os outros, perdido o sabor, podem por vosso ministério emendar-se. Vós, porém, se caírdes neste mal, arrastareis os outros convosco à ruína. Por conseguinte, quanto maiores encargos vos forem confiados, tanto mais necessidade tendes de grande zelo. É o motivo por que diz: Se o sal perder seu sabor, com que se salgará? Para nada mais vale e será lançado fora e pisado pelos homens (Mt 5,13).

Para que ao ouvirem: Quando vos acusarem e perseguirem e disserem todo mal contra vós (Mt 5,11), não temam ser citados em juízo, diz: “Se não estiverdes prontos para isto, em vão fostes escolhidos. As injúrias vos acompanharão necessariamente, porém, em nada vos prejudicarão, e porão à prova vossa firmeza. Se, porém, tiverdes medo delas e, diante da violência, desistirdes, sofrereis coisas muito mais graves e sereis desprezados por todos. É isto o que quer dizer ser pisado aos pés.”

Em seguida, passa para um modelo ainda mais elevado: Vós sois a luz do mundo(Mt 5,14). De novo, do mundo, não de uma nação só ou de vinte cidades, mas do orbe todo. Luz inteligente, mais bela que os raios do sol, espiritual à semelhança do sal. Primeiro o sal, depois a luz, para mostrar a grande eficácia que tem uma pregação vigorosa e uma doutrina exigente. Deste modo os obriga a seguir uma certa norma na pregação, sem divagações inconvenientes, para que ela possa iluminar a vista de quem os rodeia. Não pode esconder-se a cidade posta sobre o monte; nem se acende uma lâmpada para colocá-la debaixo do alqueire (Mt 5,15). Com estas palavras excita-os novamente a uma vida esforçada, ensina-os a terem cautela como pessoas postas aos olhos de todos, que lutam em pleno centro do teatro do mundo inteiro.

-- Das Homilias sobre Mateus, de São João Crisóstomo,  bispo (século IV)

17 de ago de 2012

Capítulo 9 - Da obediência e submissão



  1. Grande coisa é viver na obediência, sob a direção de um superior, e não dispor da própria vontade. Muito mais seguro é obedecer que mandar. Muitos obedecem mais por necessidade que por amor: por isso sofrem e facilmente murmuram. Esses não alcançarão a liberdade de espírito, enquanto não se sujeitarem de todo o coração, por amor de Deus. Anda por onde quiseres: não acharás descanso senão na humilde sujeição e obediência ao superior. A imaginação dos lugares e mudanças a muitos tem iludido.
  2. Verdade é que cada um gosta de seguir seu próprio parecer e mais se inclina àqueles que participam da sua opinião. Entretanto, se Deus está conosco, cumpre-nos, às vezes, renunciar ao nosso parecer por amor da paz. Quem é tão sábio que possa saber tudo completamente? Não confies, pois, demasiadamente em teu próprio juízo; mas atende também, de boa mente, ao dos demais. Se o teu parecer for bom e o deixares, por amor de Deus, para seguires o de outrem, muito lucrarás com isso.
  3. Com efeito, muitas vezes ouvi falar que é mais seguro ouvir e tomar conselho que dá-lo. É bem possível que seja acertado o parecer de cada um: mas não querer ceder aos outros, quando a razão ou as circunstâncias o pedem, é sinal de soberba e obstinação.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

16 de ago de 2012

Capítulo 8 - Como se deve evitar a excessiva familiaridade



  1. Não abras teu coração a qualquer homem (Eclo 8,22); mas trata de teus negócios com o sábio e temente a Deus. Com moços e estranhos conversa pouco. Não lisonjeies os ricos, nem busques aparecer muito na presença dos potentados. Busca a companhia dos humildes e simples, dos devotos e morigerados, e trata com eles de assuntos edificantes. Não tenhas familiaridade com mulher alguma; mas, em geral, encomenda a Deus todas as que são virtuosas. Procura intimidade com Deus apenas, e seus anjos, e foge de seres conhecidos dos homens.
  2. Caridade se deve ter para com todos; mas não convém ter com todos a familiaridade. Sucede, freqüentemente, gozar de boa reputação pessoa desconhecida que, na sua presença, desagrada aos olhos dos que a vêem. Julgamos, às vezes, agradar aos outros com a nossa intimidade, mas antes os aborrecemos com os defeitos que em nós vão descobrindo.
-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

15 de ago de 2012

Capítulo 7 - Como se deve fugir à vã esperança e presunção


Nossa Senhora da Humildade - Jacopo Bellini

  1. Insensato é quem põe sua esperança nos homens ou nas criaturas. Não te envergonhes de servir a outrem por Jesus Cristo, e ser tido como pobre neste mundo. Não confies em ti mesmo, mas põe em Deus tua esperança. Faze de tua parte o que puderes, e Deus ajudará tua boa vontade. Não confies em tua ciência, nem na sagacidade de qualquer vivente, mas antes na graça de Deus, que ajuda os humildes e abate os presunçosos.
  2. Se tens riquezas, não te glories delas, nem dos amigos, por serem poderosos, senão em Deus, que dá tudo, além de tudo, deseja dar-se a si mesmo. Não te desvaneças com a airosidade ou formosura de teu corpo, que com pequena enfermidade se quebranta e desfigura. Não te orgulhes de tua habilidade ou de teu talento, para que não desagrades a Deus, de quem é todo bem natural que tiveres.
  3. Não te reputes melhor que os outros para não seres considerado pior por Deus, que conhece tudo que há no homem. Não te ensoberbeças pelas boas obras, porque os juízos dos homens são muito diferentes dos de Deus, a quem não raro desagrada o que aos homens apraz. Se em ti houver algum bem, pensa que ainda melhores são os outros, para assim te conservares na humildade. Nenhum mal te fará se te julgares inferior a todos; muito, porém, se a qualquer pessoa te preferires. De contínua paz goza o humilde; no coração do soberbo, porém, reinam inveja e iras sem conta.
-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

14 de ago de 2012

A Morte de São Maximiliano Kolbe

São Maximiliano Kolbe estava num monastério quando a Alemanha invadiu a Polonia, dando inicio a II Guerra Mundial. Tão logo dominaram completamente o país, começaram a perseguir todos que suponham ser perigosos. Maximiliano foi um dos muitos que ajudaram os fugitivos, tendo escondido cerca de 2000 judeus. Em 17 de Fevereiro de 1941 foi preso pela Gestapo, permaneceu na prisão de Niepokalanow até Julho de 1941, quando foi enviado para Auschiwitz, sendo reconhecido apenas como prisioneiro #16670.

Na época, a população prisioneira era composta basicamente de poloneses, que eram forçados a aumentar o campo para receber o grande número de judeus que ainda viriam. O trabalho começava as 6:00hs e estendia-se até à noite, sete dias da semana. A comida era escassa, os carcereiros tinham permissão para espancar e matar. Muitos morriam de exaustão, doenças não eram tratadas e principalmente o tifo era como uma epidemia entre os prisioneiros. 

No final de Julho de 1941, três prisioneiros escaparam do campo. Para desestimular novas fugas, o costume era escolher aleatoriamente 10 outros para morrerem. Um dos escolhidos foi Franciszek Gajowniczek, que começou a implorar pela vida, dizendo que tinha esposa e filhos. Foi então que padre Maximiliano apresentou-se como voluntário para sofrer o castigo no lugar de Franciszek. 

Os 10 prisioneiros foram colocados numa cela pequena, sem ventilação, alimentação e água, para morrerem  lentamente de fome e sede. Ao longo de duas semanas, Kolbe animou o grupo, celebrou missas, incentivou a rezar e cantar, manteve bravamente a fé. Foi muitas vezes visto ajoelhado, rezando. Em 14 de Agosto, os nazistas decidiram que precisavam da cela para outros presos.

A morte rápida consistia em uma injeção letal de Ácido Carbônico. Conta-se que o padre Maximiliano manteve-se confiante até o final, tendo se posicionado melhor para facilitar o trabalho. Foi cremado no dia da Assunção de Maria, em 15 de Agosto de Maria. 

O Papa Paulo VI beatificou-o em 17 de Outubro de 1971 e o Papa João Paulo II canonizou-o em 10 de Outubro de 1992. Na celebração estava presente Franciszek, salvo por São Maximiliano.



Do zelo apostólico que se deve ter ao procurar a salvação e santificação das almas

14 de Agosto - São Maximiliano Maria Kolbe
Muito me alegra, caro irmão, o zelo que te inflama na promoção da glória de Deus. Pois observamos com tristeza, em nossos tempos, não só entre os leigos mas também entre os religiosos, a doença quase epidêmica que se chama indiferentismo, que se propaga de várias formas. Ora, como Deus é digno de infinita glória, nosso primeiro e mais importante ideal deve ser, com nossas exíguas forças, lhe darmos o máximo de glória, embora nunca possamos dar quanto de nós, pobres peregrinos, ele merece.

Como a glória de Deus resplandece principalmente na salvação das almas que Cristo remiu com seu próprio sangue, o desejo mais elevado da vida apostólica será procurar a salvação e santificação do maior número possível. E quero brevemente dizer-te qual o melhor caminho para este fim, isto é, para conseguir a glória divina e a santificação de muitas almas. Deus, ciência e sabedoria infinita, sabendo o que, de nossa parte, mais contribui para aumentar sua glória, manifesta-nos a sua vontade sobretudo pelos seus ministros na terra.

É a obediência, e ela só, que nos indica a vontade de Deus com evidência. O superior pode errar, mas não é possível que nós, ao seguirmos a obediência, sejamos levados ao erro. Só poderia haver uma exceção se o superior mandasse algo que incluísse – mesmo em grau mínimo – uma violação da lei divina; pois, neste caso, o superior não seria fiel intérprete de Deus.

Só Deus é infinito, sapientíssimo, santíssimo e clementíssimo, Senhor, Criador e Pai nosso, princípio e fim, sabedoria, poder e amor; tudo isso é Deus. Tudo que não seja Deus só vale enquanto se refere a ele, Criador de tudo e Redentor dos homens, último fim de toda a criação.

É ele que nos manifesta a sua adorável vontade por meio daqueles que o representam, e nos atrai a si, querendo, deste modo, atrair por nós outras almas, unindo-as a si em amor cada vez mais perfeito.

Vê, irmão, quão grande é, pela misericórdia divina, a dignidade de nossa condição! Pela obediência com que ultrapassamos os limites de nossa pequenez e conformamo-nos à vontade divina, que nos dirige com sua infinita sabedoria e prudência, a fim de agirmos com retidão. Pode-se até dizer que, seguindo assim a vontade de Deus à qual nenhuma criatura pode resistir, nos tornamos mais fortes que tudo.

Esta é a vereda da sabedoria e da prudência, este é o único caminho pelo qual possamos dar a Deus maior glória. Pois, se existisse caminho diferente e mais alto, certamente Cristo no-lo teria manifestado com sua doutrina e exemplo. Ora, a divina Escritura resumiu a sua longa permanência em Nazaré com estas palavras: E era-lhes submisso (Lc 2,51), como nos indicou toda a sua vida ulterior sob o signo da obediência, mostrando que desceu à terra para fazer a vontade do Pai.

Amemos por isso, irmão, amemos sumamente o amantíssimo Pai celeste, e deste amor seja prova a nossa obediência, exercida em grau supremo quando nos exige o sacrifício da própria vontade. Não conhecemos, para progredir no amor a Deus, livro mais sublime que Jesus Cristo crucificado.

Tudo isso conseguiremos mais facilmente pela Virgem Imaculada, a quem a bondade de Deus confiou os tesouros da sua misericórdia. Pois não há dúvida que a vontade de Maria seja para nós a própria vontade de Deus. E, quando nos dedicamos a ela, tornamo-nos em suas mãos como instrumentos, como ela própria, nas mãos de Deus. Portanto, deixemo-nos dirigir por ela, ser conduzidos por ela, e sejamos calmos e seguros por ela guiados: pois cuidará de nós, tudo proverá e há de socorrer-nos prontamente nas necessidades do corpo e da alma, afastando nossas dificuldades e angústias.

Das Cartas de São Maximiliano Maria Kolbe - (Séc.XX)

13 de ago de 2012

Capítulo 6 - Das afeições desordenadas

  1. Todas as vezes que o homem deseja alguma coisa desordenadamente, torna-se logo inquieto. O soberbo e o avarento nunca sossegam; entretanto, o pobre e o humilde de espírito vivem em muita paz. O homem que não é perfeitamente mortificado facilmente é tentado e vencido, até em coisas pequenas e insignificantes. O homem espiritual, ainda um tanto carnal e propenso à sensualidade, só a muito custo poderá desprender-se de todos os desejos terrenos. Daí a sua freqüente tristeza, quando deles se abstém, e fácil irritação, quando alguém o contraria.
  2. Se, porém, alcança o que desejava, sente logo o remorso da consciência, porque obedeceu à sua paixão, que nada vale para alcançar a paz que almejava. Em resistir, pois, às paixões, se acha a verdadeira paz do coração, e não em segui-las. Não há, portanto, paz no coração do homem carnal, nem no do homem entregue às coisas exteriores, mas somente no daquele que é fervoroso e espiritual.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

7 de ago de 2012

São Domingos


* Em preparação para festa de São Domingos, que é celebrada em 8 de Agosto
São Domingos, fundador da ordem dominicana (1170-1221)

São Domingos possuía tão grande nobreza de comportamento, e o ímpeto do divino fervor tanto o arrebatava que, sem dificuldade, era reconhecido como vaso de honra e de graça. Possuía serenidade de espírito extremamente constante,a não ser que a compaixão e a misericórdia a turbassem; e visto que o coração jubiloso alegra o semblante, revelava exteriormente a placidez do homem interior pela benignidade visível e alegria do rosto.

Em toda parte, mostrava-se homem evangélico por palavras e atos. Durante o dia, com os irmãos e companheiros, ninguém mais simples, ninguém mais agradável. À noite, ninguém mais vigilante, nem mais insistente de todos os modos na oração. Falava raramente; vivia com Deus na oração, e sobre isto exortava seus irmãos.

Havia um pedido a Deus que lhe era freqüente e especial: que lhe concedesse a verdadeira caridade, eficaz em atender e em favorecer a salvação dos homens. Assim fazia porque julgava que só seria verdadeiramente um bom membro de Cristo, quando se entregasse totalmente à salvação dos homens, como o Salvador de todos, o Senhor Jesus, que se ofereceu todo para nossa salvação. Para este fim, após madura e demorada deliberação, fundou a Ordem dos Frades Pregadores.

Exortava constantemente por palavras e por escrito os irmãos desta Ordem a que sempre se aplicassem ao Novo e ao Antigo Testamento. Trazia sempre consigo o evangelho de Mateus e as epístolas de São Paulo; lia-os tanto, a ponto de sabê-los quase de cor.

Por duas ou três vezes, eleito bispo, recusou sempre, preferindo viver na pobreza com os irmãos a possuir um episcopado. Guardou ilibada até o fim a limpidez de sua virgindade. Desejava ser flagelado, ser cortado em pedaços e morrer pela fé cristã. Dele afirmou Gregório IX: “Conheci um homem, que seguiu em tudo o modo de vida dos apóstolos; não há dúvida de que esteja unido nos céus à glória dos mesmos apóstolos”.

-- De escritos diversos da História da Ordem dos Pregadores (século XIII)

3 de ago de 2012

O padre é, antes de tudo, um homem de oração


Homem de penitência, São João Maria Vianney tinha igualmente compreendido que "o padre, antes de tudo, deve ser homem de oração". Todos conhecem as longas noites de adoração que, este jovem pároco duma aldeia, então pouco cristã, passava diante do Santíssimo Sacramento. O sacrário da sua igreja tornou-se o foco da sua vida pessoal e do seu apostolado, a ponto de não se poder evocar justamente a paróquia de Ars no tempo do Santo, senão por estas palavras de Pio XII sobre a paróquia cristã: "O centro é a igreja e, na igreja, o sacrário e, ao lado, o confessionário onde se restitui a vida sobrenatural ou a saúde ao povo cristão".

Aos padres deste século, que costumam exagerar a eficácia da ação e que tão facilmente se entregam ao mesmo dinamismo exterior do ministério sacerdotal, com prejuízo do seu aproveitamento espiritual, como é oportuno e salutar este modelo de oração assídua numa vida inteiramente votada às necessidades das almas! "O que impede a nós padres de ser santos, é a falta de reflexão. Não entramos em nós mesmos; não sabemos o que fazemos. Precisamos da reflexão, da oração, da união com Deus". Ele próprio vivia, segundo testemunham os contemporâneos, num estado de contínua oração, do qual não conseguiram distraí-lo, nem o peso extenuante das confissões, nem os outros trabalhos pastorais. "Mantinha uma união constante com Deus no meio da sua vida excessivamente ocupada". Mas escutemo-lo, porque ele ‚ incansável, quando fala das alegrias e dos benefícios da oração: "O homem é um pobre, que tudo precisa pedir a Deus"; "quantas almas podemos converter com nossas orações!" E repetia: "A oração, eis toda a felicidade do homem sobre a terra". Esta felicidade, gozou-a ele; longamente, enquanto o seu olhar iluminado pela fé contemplava os mistérios divinos e, pela adoração do Verbo encarnado elevava sua alma simples e pura para a Santíssima Trindade, supremo objetivo do seu amor. E os peregrinos, que enchiam a igreja de Ars, compreendiam que o humilde padre lhes confiava alguma coisa do segredo da sua vida interior por esta exclamação freqüente, que lhe era tão querida: "Ser amado por Deus, estar unido a Deus, viver na presença de Deus, viver para Deus: oh! que bela vida e que bela morte!" 

Nós desejaríamos, veneráveis irmãos, que todos os padres das vossas dioceses se deixassem convencer, pelo testemunho do santo cura d'Ars, da necessidade de serem homens de oração e da possibilidade de o serem, qualquer que seja a sobrecarga por vezes extrema dos trabalhos do seu ministério. Mas para isso ‚ necessária uma fé viva, como a que animava João Maria Vianney e o fazia realizar maravilhas. "Que fé! - exclamava um dos seus colegas. Chegaria para enriquecer uma diocese inteira!"

Esta fidelidade à oração é, aliás, para o padre um dever de piedade pessoal, da qual a sabedoria da Igreja salientou muitos pontos importantes, como a oração mental cotidiana, a visita ao Santíssimo Sacramento o terço e o exame de consciência. É mesmo uma obrigação estrita contraída para com a Igreja, quando se trata da recitação diária do ofício divino. Talvez por terem esquecido algumas destas prescrições, certos membros do clero se foram entregando, pouco a pouco, à instabilidade exterior, ao empobrecimento interior, ficando expostos um dia, sem defesa, às tentações desta vida terrena. Pelo contrário, "trabalhando sem cessar pelo bem das almas, João M. Vianney não abandonava a sua. Trabalhava estrenuamente na própria santificação, para ficar assim mais apto a levar os outros a ela". Com s. Pio X, "consideremos pois como certo e estabelecido que o padre, para ocupar dignamente o seu lugar e cumprir o seu dever, deve consagrar-se antes de tudo à oração... Mais do que qualquer outra pessoa, deve obedecer ao preceito de Cristo: é preciso orar sempre; preceito que s. Paulo recomenda com insistência: 'perseverai na oração, com vigilância e na ação de graças... Rezai sem cessar"'. E, de boa vontade, ao terminar este ponto, nós evocamos a palavra de ordem que o nosso predecessor imediato dava aos padres, desde o começo do seu pontificado: "Orai, orai cada vez mais e com maior insistência!" 

-- Encíclica Sacerdotti Nostri Primordia, do Papa João XXIII, dada em 1o. de Agosto de 1959.

Capítulo 5 - Da leitura das Sagradas Escrituras



  1. Nas Sagradas Escrituras devemos buscar a verdade, e não a eloquência. Todo livro sagrado deve ser lido com o mesmo espírito que o ditou. Nas Escrituras devemos antes buscar nosso proveito que a sutileza da linguagem. Tão grata nos deve ser a leitura dos livros simples e piedosos, como a dos sublimes e profundos. Não te mova a autoridade do escritor, se é ou não de grandes conhecimentos literários; ao contrário, lê com puro amor a verdade. Não procures saber quem o disse; mas considera o que se diz.
  2. Os homens passam, mas a verdade do Senhor permanece eternamente (Sl 116,2). De vários modos nos fala Deus, sem acepção de pessoa. A nossa curiosidade nos embaraça, muitas vezes, na leitura das Escrituras; porque queremos compreender e discutir o que se devia passar singelamente. Se queres tirar proveito, lê com humildade, simplicidade e fé, sem cuidar jamais do renome de letrado. Pergunta de boa vontade e ouve calado as palavras dos santos; nem te desagradem as sentenças dos velhos, porque eles não falam sem razão.
-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

2 de ago de 2012

Castidade sacerdotal

São João Maria Vianney, pobre de bens materiais, foi igualmente exemplo de voluntária mortificação da carne. "Não há senão uma maneira de se dar a Deus no exercício da renúncia e do sacrifício - dizia ele - isto é, dar-se totalmente". E, em toda a sua vida, praticou, em grau heróico, a ascese da castidade.

O seu exemplo sobre este ponto parece, particularmente oportuno, porque, em bastantes regiões, infelizmente, os padres são obrigados a viver, em virtude do seu cargo, num mundo onde reina uma atmosfera de excessiva liberdade e sensualidade. E a palavra de São Tomás‚ para eles cheia de verdade: "É por vezes mais difícil viver virtuosamente tendo cura de almas, por causa dos perigos exteriores". Além disso, muitas vezes, estão moralmente sós, pouco compreendidos, pouco amparados pelos fiéis a quem se dedicam. A todos, e, sobretudo, aos mais isolados e mais expostos, nós dirigimos um apelo premente, para que toda a sua vida seja um puro testemunho dessa virtude a que s. Pio X chamava "o mais belo ornamento da nossa ordem". E recomendamo-vos, insistentemente, veneráveis irmãos, que procureis para os vossos padres, na medida do possível, condições de existência e trabalho que estimulem a sua boa vontade. É preciso, a todo o custo, combater os perigos do isolamento, denunciar as imprudências, afastar as tentações da ociosidade ou os riscos do excesso de trabalho. Lembremo-nos igualmente, a este respeito, dos magníficos ensinamentos do nosso predecessor na Encíclica "Sacra Virginitas".

Foi dito do cura d'Ars: "A castidade brilhava no seu olhar". Na verdade, quem estuda a sua personalidade fica surpreendido, não só pelo heroísmo com que este padre subjugava seu corpo (cf. 1 Cor 9,27), mas ainda pela força da convicção com que conseguia que a multidão dos seus penitentes o seguisse. É que ele sabia, por uma longa prática do confessionário, os males causados pelos pecados da carne. Por isso de seu peito saíam estes gemidos: "Se não houvesse almas puras que aplacassem a Deus ofendido pelos nossos pecados, quantos e quão terríveis castigos teríamos nós que suportar!". E, falando com experiência, juntava ao seu apelo um estímulo fraterno: "A mortificação tem um bálsamo e um sabor de que não podem prescindir os que alguma vez os conheceram... Neste caminho, o que custa ‚ o primeiro passo".

Esta ascese necessária da castidade, longe de fechar o padre num estéril egoísmo, torna o seu coração mais aberto e mais acessível a todas as necessidades dos seus irmãos. Dizia otimamente o cura d'Ars: "Quando o coração é puro não pode deixar de amar, porque encontrou a fonte do amor, que é Deus".

Que benefício para a sociedade humana ter assim, no seu seio, homens que, livres das solicitações temporais, se consagram inteiramente ao serviço de Deus e dão aos seus irmãos a sua vida, os seus pensamentos e as suas forças! Que graça para a Igreja ter padres empenhados em guardar integralmente esta virtude! Com Pio XI, consideramo-la a glória mais pura do sacerdócio católico, ela que nos parece a melhor resposta aos desejos do Coração de Jesus e aos seus desígnios sobre as almas sacerdotais. Não estaria também conforme com os desígnios da divina caridade a mente do santo cura d'Ars, quando exclamava: "O sacerdócio ‚ o amor do Coração de Jesus!"

-- Encíclica Sacerdotti Nostri Primordia, do Papa João XXIII, dada em 1o. de Agosto de 1959.

1 de ago de 2012

São João Maria Vianney, um exemplo de santidade sacerdotal


* Neste próximo sábado, dia 4 de Agosto, celebraremos a memória de São João Maria Vianney. também conhecido como Cura d'Ars. Aproveito a ocasião para publicar alguns trechos da encíclica Sacerdotti Nostri Primordia, do Papa João XXIII, publicada por ocasião do centenário da morte do Santo
Corpo incorrupto de São João Maria Vianney

Falar de São João Maria Vianney é evocar a figura de um padre excepcionalmente mortificado que, por amor de Deus e pela conversão dos pecadores, se privava de alimento e sono, se impunha rudes penitências e, sobretudo, levava a renúncia de si mesmo a um grau heróico. Se é certo que comumente não é pedido a todos os féis que sigam este caminho, a divina Providência dispôs que nunca faltem no mundo pastores de almas que, levados pelo Espírito Santo, não hesitem em encaminhar-se por estas vias, porque tais homens operam com este exemplo o regresso de muitos, que se convertem da sedução dos erros e dos vícios para o bom caminho e a prática da vida cristã! A todos, o exemplo admirável de renúncia do cura de Ars, "severo para consigo e bondoso para com os outros",  lembra de forma eloqüente e urgente o lugar primordial da ascese na vida sacerdotal. 

O nosso predecessor Pio XII, de saudosa memória, no desejo de evitar certos equívocos, não hesitou em precisar que é falso afirmar "que o estado clerical - justamente enquanto tal e por proceder do direito divino - por sua natureza, ou pelo menos em virtude de um postulado da mesma, exige que os seus membros professem os conselhos evangélicos". E o Papa conclui justamente: "O clérigo, portanto, não está ligado, por direito divino, aos conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência". Mas seria deformar o genuíno pensamento deste Pontífice, tão cioso da santidade dos padres, e o ensino constante da Igreja, acreditar que o padre secular é menos chamado à perfeição do que o religioso. A realidade é totalmente diversa, porque o exercício das funções sacerdotais "requer uma maior santidade interior, do que aquela exigida pelo estado religioso". E se, para atingir esta santidade de vida, a prática dos conselhos evangélicos não é imposta ao padre em virtude do seu estado clerical, não obstante ela apresenta-se a ele e a todos os discípulos do Senhor, como o caminho mais seguro para alcançar a desejada meta da perfeição cristã. Aliás, para nossa grande consolação, quantos padres generosos o compreenderam no presente, não deixando por isso de continuar nas fileiras do clero secular e pedindo a pias associações aprovadas pela Igreja que os guiem e sustentem nos caminhos da perfeição! 

Convencidos de que "a grandeza do sacerdócio está na imitação de Jesus Cristo", os padres estarão, pois, mais do que nunca, atentos aos apelos do divino Mestre: "Se alguém quiser vir após mim, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me..." (Mt 16, 24). O santo cura d'Ars, segundo se afirma, "tinha meditado muitas vezes estas palavras de nosso Senhor e esforçava-se por pô-las em prática". Deus concedeu-lhe a graça de se conservar heroicamente fiel a elas; e o seu exemplo guia-nos ainda no caminho da ascese onde ele, resplandeceu brilhantemente pela pobreza, castidade e obediência.

Primeiramente tendes o exemplo de pobreza, virtude pela qual o humilde cura d'Ars, se tornou digno êmulo do patriarca de Assis, de quem foi, na Ordem Terceira, discípulo fiel. Rico para dar aos outros, mas pobre para si mesmo, viveu num total desprendimento dos bens deste mundo, e o seu coração verdadeiramente livre abria-se com generosidade a todos os que, afligidos por misérias materiais ou espirituais vinham até ele de toda a parte em busca de remédio. "O meu segredo é bem simples, dizia ele, é dar tudo e nada guardar". O seu desinteresse fazia-o atender a todos os pobres, sobretudo os da sua paróquia, aos quais testemunhava extrema delicadeza, tratando-os "com verdadeira ternura, com os maiores cuidados e até com respeito". Recomendava que nunca deixassem de ter atenções para com os pobres, porque tal falta recai sobre Deus; e, quando um miserável batia à sua porta, sentia-se feliz, ao recebê-lo, com bondade, por lhe poder dizer: "Sou pobre como vós; hoje sou um dos vossos!". No fim da sua vida, comprazia-se em repetir: "Estou muito satisfeito; já não tenho nada de meu; Deus pode chamar-me quando quiser"

Por isso, veneráveis irmãos, podereis compreender como, de todo o coração, exortamos nossos queridos filhos do sacerdócio católico, a meditar num tal exemplo de pobreza e caridade. "A experiência cotidiana atesta - escrevia Pio XI, ao pensar no cura d'Ars - que a ação dos sacerdotes de vida modesta, os quais, segundo a doutrina evangélica, não procuram absolutamente seus próprios interesses, redunda em extraordinários benefícios para o povo cristão". E o mesmo Pontífice, considerando o estado da sociedade contemporânea, dirigia também aos padres este grave aviso: "Ao ver que os homens vendem e compram, tudo pelo dinheiro, os padres caminhem desinteressadamente pelos engodos do vício, e desprezando todo baixo desejo de ganhar, busquem almas e não dinheiro, a glória de Deus e não a sua!" 

-- Encíclica Sacerdotti Nostri Primordia, do Papa João XXIII, dada em 1o. de Agosto de 1959.

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