28 de nov de 2015

Cantemos Aleluia ao bom Deus que nos livra do mal

Aqui embaixo, cantemos o Aleluia, ainda apreensivos, para podermos cantá-lo lá em cima, tranqüilos. Por que apreensivos aqui? Não queres que eu esteja apreensivo, se leio: Não é acaso uma tentação a vida humana sobre a terra? (Jó 7,1). Não queres que fique apreensivo, se me dizem outra vez: Vigiai e orai para não cairdes em tentação? (cf. Mt 26,41). Não queres que esteja apreensivo onde são tantas as tentações, a ponto de a própria oração nos ordenar: Perdoai nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores? (Mt 6,12). Pedintes cotidianos, devedores cotidianos.

Queres que esteja seguro quando todos os dias peço indulgência para os pecados, auxílio nos perigos? Tendo dito por causa das culpas passadas: Perdoai nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores, imediatamente acrescento por causa dos futuros perigos: Não nos deixeis entrar em tentação (Mt 6,13). Como pode estar no bem o povo que clama comigo: Livrai-nos do mal? (Mt 6,13). E, no entanto, irmãos, mesmo neste mal, cantemos o Aleluia ao Deus bom que nos livra do mal.

Ainda aqui, no meio de perigos, de tentações, por outros e por nós seja cantado o Aleluia. Pois Deus é fiel e não permitirá serdes tentados além do que podeis (1Cor 10,13). Portanto cantemos também aqui o Aleluia. O homem ainda é réu, mas fiel é Deus. Não disse: Não permitirá serdes tentados, mas: Não permitirá serdes tentados além do que podeis, mas fará que com a tentação haja uma saída para poderdes agüentar (1Cor 10,13). Entraste em tentação; mas Deus dará uma saída para não pereceres na tentação; para, então, à semelhança de um pote de barro, seres plasmado pela pregação, queimado pela tribulação. Todavia, ao entrares, pensa na saída; porque Deus é fiel: guardará o Senhor tua entrada e tua saída (Sl 120,7-8).

Contudo, só quando esse corpo se tornar imortal e incorruptível, então terá desaparecido toda tentação; porque na verdade o corpo morreu; por que morreu? Por causa do pecadoMas o espírito é vida; por quê? Por causa da justiça (Rm 8,10). Largaremos então o corpo morto? Não; escuta: Se o Espírito daquele que ressuscitou a Cristo habita em vós, aquele que ressuscitou dos mortos a Cristo vivificará também vossos corpos mortais (Rm 8,10-11). Agora, portanto, corpo animal; depois, corpo espiritual.

Como será feliz lá o Aleluia! Quanta segurança! nada de adverso! onde ninguém será inimigo, não morre nenhum amigo. Lá, louvores a Deus; aqui, louvores a Deus. Mas aqui apreensivos; lá, tranqüilos. Aqui, dos que hão de morrer; lá, dos que para sempre hão de viver. Aqui, na esperança; lá, na bem-aventurança. Aqui, no caminho; lá, na pátria.

Cantemos, portanto, agora, meus irmãos, não por deleite do repouso, mas para alívio do trabalho. Como costuma cantar o caminhante: canta mas segue adiante; alivia o trabalho cantando. Abandona, pois, a preguiça. Canta e caminha. Que é isto, caminha? Vai em frente, adianta-te no bem. Segundo o Apóstolo, há quem progrida no mal. Tu, se progrides, caminhas. Mas progride no bem, progride na fé, sem desvios, progride na vida santa. Canta e caminha.

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

23 de nov de 2015

Ao vencedor a segunda morte não causará dano

Num momento, num piscar de olhos, com a última trombeta, pois soará uma trombeta, os mortos ressurgirão incorruptos e nós seremos mudados (1Cor 15,52). Dizendo “nós”, Paulo mostra que alcançarão junto com ele o dom da futura mutação aqueles que agora se mantêm na comunhão eclesial e moral com ele e seus companheiros. Querendo sugerir qual será a mudança, diz: É preciso que o corpo incorruptível se revista de incorruptibilidade, e o mortal se revista de imortalidade (1Cor 15,53). Portanto, para que haja neles a mudança da justa retribuição, precede agora a mudança da gratuita liberalidade.

Aos que nesta vida se mudaram do mal para o bem, promete-se o prêmio da futura mudança.

A graça faz com que, primeiro ressurgidos aqui espiritualmente pela justificação, comece a mudança pelo dom divino. Mais tarde, na ressurreição do corpo, que completa a mudança dos justos, a glorificação, sendo sempre perfeita, não sofrerá mudança. A graça da justificação primeiro, e depois da glorificação muda-os de tal forma que esta glorificação neles permanece imutável e eterna.

Aqui são mudados pela primeira ressurreição, que os ilumina, para que se convertam. Por ela passam da morte para a vida, da iniqüidade para a justiça, da incredulidade para a fé, das más ações para a vida santa. Por isto, a segunda morte não tem poder sobre eles. O apocalipse refere-se a isto: Feliz quem tem parte na primeira ressurreição; sobre ele não tem poder a segunda morte (Ap 20,6). No mesmo livro, lê-se: Ao vencedor a segunda morte não causará dano (Ap 2,11). Na conversão do coração consiste a primeira ressurreição, no suplício eterno, a segunda morte.

Apresse-se, então, em tornar-se participante da primeira ressurreição quem não quiser ser condenado ao eterno castigo da segunda morte. Pois aqueles que, mudados no presente pelo temor de Deus, passam da vida má para a vida santa, passam da morte para a vida e eles mesmos, em seguida, passarão da vida obscura à glória.

-- Do Tratado sobre o perdão, de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (século VI)

21 de nov de 2015

Sobre a Encarnação de Cristo

Antes da vinda de Cristo, os Patriarcas, os Profetas e João Batista falaram algumas verdades a respeito de Deus. Os homens, porém, não acreditaram nelas como acreditaram em Cristo, que este com Deus e, mais do que isso, constituía um só ser com Ele. Eis porque a nossa fé foi muito mais confirmada pelas verdades transmitidas por Cristo. Lê-se em São João: Ningém jamais viu a Deus. O Filho Unigênito, que está no seio do Pai, nos revelou (Jo 1,18). Muitos mistérios da fé, que estavam escondidos, foram revelados após o advento de Cristo.

Sabemos que o Filho de Deus não foi elevado sem motivo, assumindo a nossa carne, mas para grande benefício nosso. Para tanto, fez uma troca: assumiu um corpo animado e dignou-se nascer da Virgem, para nos entregar a sua divindade; fez-se homem, para fazer o homem, Deus. Lê-se em São Paulo: Por quem temos acesso pela fé nessa graça, na qual permanecemos, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus (Rm 5,2).

Nenhum indício é mais evidente da caridade divina do que o Deus, criador de todas as coisas, fazer-se criatura; o do Senhor nosso, fazer-se nosso irmão; o do Filho de Deus, fazer-se filho de homem. Diz São João: Tanto Deus amou o mundo que lhe deu o seu Filho (Jo 3,16). Pela consideração dessa verdade, deve ser reacendido e de novoem nós afervorado, o nosso amor para com Deus.

A nossa natureza foi a tal ponto enobrecida e exaltada pela união com Deus que foi assumida para consorciar-se com uma Pessoa Divina. O homem, reconsiderando e atendendo à sua própria exaltação, deve perceber como pelo pecado se degrada e avilta a si e à própria natureza. Por isso escreve São Pedro: O poder divino deu-nos tudo o que contribui para a vida e a piedade, fazendo-nos conhecer aquele que nos chamou por sua glória e sua virtude. Por elas, temos entrado na posse das maiores e mais preciosas promessas, a fim de tornar-vos por este meio participantes da natureza divina, subtraindo-vos à corrupção que a concupiscência gerou no mundo (2Pe 1,3-4).

A meditação dos mistérios da Encarnação aumenta em nós o desejo de nos aproximarmos de Cristo. Se alguém, digamos um irmão do rei, viesse nos visitar, naturalmente desejaríamos aproximarmo-nos dele, estar com ele, nem que fosse por interesse. Ora, sendo Cristo nosso irmão e mais benéfico que um rei, devemos desejar estar com Ele e nos unirmos a Ele. Sigamso o exemplo de São Paulo que desejava dissolver-se para estar com Cristo: esse desejo cresce também em nós pela consideração do mistério da Encarnação.

-- São Tomás de Aquino, Sermão sobre o Credo (século XIII)

14 de nov de 2015

Porque Jesus Cristo é o Verbo de Deus?

Há na alma uma espécie de geração quando o homem conhece alguma coisa pela própria alma, que se chama conceito (ou idéia). Esse conceito, concebido, tem a sua origem na própria alma. Chama-se verbo (palavra) da inteligência ou do homem. Portanto a alma gera o seu verbo pelo conhecimento. 

O Filho de Deus também é o Verbo de Deus, não como se fosse uma palavra pronunciada exteriormente, porque assim seria transitório, mas como um verbo (conceito, idéia) concebido no interior. Eis porque o próprio verbo de Deus possui uma só natureza de Deus e é igual a Deus.

São João, quando falou de Deus, disse "No princípio era o Verbo, o Verbo estava em Deus e o Verbo era Deus"

Em nós o verbo é um acidente (isto é, algo transitório, que existe por um tempo e depois termina); mas em Deus o verbo identifica-se com o próprio Deus, pois nada há em Deus que não seja da essência (infinita) de Deus.

Ninguém pode afirmar que Deus não possui um verbo (idéias), porque se o fizesse estaria também afirmando que em Deus não há conhecimento. Como Deus sempre existiu, assim também seu Verbo sempre existiu.

Como o artista executa as suas obras de acordo com o modelo que prefigurou em sua inteligência, que é o seu verbo; assim também Deus fez todas as coisas pelo seu Verbo, que é o seu pensamento artístico. Assim lê-se em São João: Todas as coisas foram feitas por Ele (Jo 1,3).

-- São Tomás de Aquino, Sermão sobre o Credo (século XIII)

5 de nov de 2015

As heresias contra Cristo e a Santíssima Trindade

Não é somente necessário crer que existe um só Deus, e que Ele é criador do céu, da terra e de todas as coisas, mas também que Deus é Pai e Jesus Cristo é seu verdadeiro Filho. O próprio Jesus Cristo muitas vezes chama a Deus como seu Pai e, também, denomina-se Filho de Deus. Os Apóstolos e os Santos Padres colocaram entre os artigos de fé que Jesus Cristo é Filho de Deus quando definiram o segundo artigo do Creio: "E em Jesus Cristo seu Filho", isto é, Filho de Deus.

Mas existiram alguns heréticos que acreditaram de um modo perverso nessa verdade de fé. Três deles são:

1. Fotino declarou que Cristo não é filho de Deus senão como os outros homens o são, os quais, por viverem bem, merecem ser chamados filhos de Deus por adoção, enquanto fazem a vontade de Deus. Do mesmo modo, segundo ele, Cristo, que viveu bem fazendo a vontade de Deus, mereceu ser chamado filho de Deus. Daí que Cristo não existiria antes da Virgem Maria, mas que só começou a existir quando foi concebido, como sucede com todos outros homens.

Cometeu Fotino dois erros: um, porque não disse que Ele era Filho de Deus segundo a natureza; outro porque disse que Ele começou a existir no certo momento, enquanto nossa fé afirma que Ele é por natureza Filho de Deus e eterno.

Contra o primeiro erro, declara a Escritura que Jesus Cristo não só é Filho de Deus, mas também Filho Unigênito: O Filho único, que está no seio do Pai, foi quem o revelou (Jo 1,18). Contra o segundo, lê-se: Antes de Abraão existir, eu já existia (Jo 8, 58). Ora, é certo que Abraão existiu antes de Maria.

Por este motivo, os Santos Padres acrescentaram no Credo Niceno-Constantinopolitano contra o primeiro erro "Filho de Deus Unigênito"; e, contra o segundo, "gerado do Pai antes de todos os séculos".

2. Sabélio, embora tivesse dito que Cristo existiu antes da Virgem Maria, afirmou que a pessoa do Filho era também a figura do Pai e que o próprio Pai se encarnou. Isso é um erro porque destrói a idéia de Santíssima Trindade. Contra este erro, temos as palavras do próprio Cristo: Eu não sou Eu só, sou Eu e o Pai que me enviou (Jo 8, 16).

É evidente que ninguém pode ser enviado por si mesmo. Eis porque Sabélio errou. Acrescentou-se por isso, no Credo: "Deus de Deus, luz de luz", isto é  Deus Filho de Deus Pai; Filho que é luz, luz que procede do Pai, que também é luz. 

3. Ário, embora tivesse afirmado que Cristo existira antes da Virgem Maria e que era uma a Pessoa do Pai, outra a do Filho, cometeu três erros ao falar de Cristo: primeiro, que Cristo foi criatura; segundo, que Ele foi feito por Deus como a mais nobre das criaturas quando concebido, não existindo desde a eternidade; terceiro, que não havia uma só natureza de Deus Filho com Deus Pai e, por esse motivo, Cristo não era verdadeiro Deus. 

Lê-se no Evangelho de São João: Eu e o Pai somos um (Jo 10, 30), isto é, pela natureza.  Ora, como o Pai sempre existiu, do mesmo modo Cristo sempre existiu; como o Pai é verdadeiro Deus, o Filho também é verdadeiro Deus. 

Em oposição às afirmações de Ário, está acrescentado no Credo "gerado, não feito" e "consubstancial com o Pai".   

-- São Tomás de Aquino, Sermão sobre o Credo (século XIII)

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...