26 de abr de 2016

Ícone da Santíssima Trindade - breve explicação inicial



Este ícone pintado por Andrés Rublev é fruto de uma contemplação profunda, recria o ritmo da vida trinitária, sua diversidade única e o movimento de amor que identifica as Pessoas, sem confundi-las. Parece que Rublev respira o ar da eternidade que se encontra nos espaços do coração divino e se transforma, assim, em surpreendente poema de Amor. O ícone da Trindade recorda a oração sacerdotal de Cristo: "Para que todos sejam um, assim como tu, Pai, estás em mim e eu em ti, para que também eles estejam em nós e o mundo creia que tu me enviaste. Dei-lhes a glória que me deste, para que sejam um, como nós somos um: eu neles e tu em mim, para que sejam perfeitos na unidade e o mundo reconheça que me enviaste e os amaste, como amaste a mim" (Jo 17, 21-23).

O dogma da Santíssima Trindade afirma que são três pessoas e uma só natureza (ou essência). Três pessoas consubstanciais (uma só substância) representam a unidade absoluta e a diversidade absooluta. As três pessoas estão unidas não para confundir, mas para conterem-se mutuamente.

Há um só Deus por que há um só Pai. Segundo esta afirmação dos Padres do Deserto, o Pai é a fonte que presenteia as pessoas do Filho e do Espírito Santo dando aquilo que é Dele, dando o seu amor eterno. Os números ajudam a entender este mistério: um representa a solidão, dois representa a separação entre opostos, três é o número que supera esta separação e reúne a todos. Assim, dentro da Santíssima Trindade temos tanto a unicidade de cada pessoa como a diversidade das pessoas reunidas pelo amor. 

O princípio trinitário é o fundamento inquebrantável que une o pessoal e comunitário, dando um sentindo a tudo. A imagem de Deus Uno e Trino deve ser o único guia de toda existência. A Santíssima Trindade é a imagem condutora de todos os homens, é uma comunidade de amor mútuo, unidade na multiplicidade, unidade de todas pessoas em uma só natureza salva por Cristo.

Nos próximos dias, publicarei uma explicação sobre o desenho, personagens e cores do ícone.

-- adaptado do original em espanhol


16 de abr de 2016

São Turíbio de Astorga, São Turíbio de Liébana e a Santa Cruz.

São Turíbio de Astorga nasceu em torno do ano 400. Quando adulto decidiu vender todas suas posses e peregrinar até Jerusalém, onde conheceu o Patriarca Juvenal que o nomeou sacristão da Basílica do Santo Sepulcro. Quando decidiu retornar à Espanha, levou consigo pequenas frações da Santa Cruz que teriam sido do braço esquerdo da cruz.
Relicário com a Santa Cruz (Lignum Crucis)
do Monastério de Liégana.

No retorno passou por Roma, onde conheceu o Papa Leão Magno, foi ordenado sacerdote e arquidiácono de Tuy, para onde se dirigiu. Em 444 foi nomeado Bispo de Astorga, tendo recebido uma missão especial do Papa: combater o Priscilianismo, uma heresia da época. Para tanto convocou um Concílio onde os bispos condenaram a heresia de maneira formal, o que resultou em ameaças a sua vida. Além de São Turíbio, no combate à heresia destacou-se também São Martinho de Tours. 

O Priscilianismo tinha pontos absolutamente contrários à fé cristã como considerar que Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo são três pessoas independentes, rompendo com a união da Santíssima Trindade; e  que a alma se degenerava irremediavelmente ao descer à Terra, o que só poderia ser combatido com práticas radicais de purificação, que incluam o jejum dominical, pobreza absoluta e até a ausência da Eucaristia na época quaresmal. 

São Turíbio de Astorga faleceu em 476, sendo celebrado em 16 de Abril.

São Turíbio de Liébana nasceu em torno do ano 500 em Turieno, também Espanha. Na metade do século, ele e outros cinco companheiros decidiram tornar-se monges e fundaram o Monastério de Liébana, seguindo as regras de São Bento. O Monastério assumiu o nome de São Martinho, não apenas para homenagear o Santo, como também para lembrar que ainda era necessário enfrentar a heresia prisciliana.

São Turíbio de Liébana faleceu em torno de 550, tendo seus restos mortais sido enterrados no próprio Monastério. 
Monastério de Liégana

Quando as tropas muçulmanas ameaçavam a cidade de Astorga em 714, os restos mortais de São Turíbio de Astorga e a Santa Cruz foram transportados para o Monastério em Liébana, onde encontram-se até hoje. 

Em 1808 tropas franceses avançavam sobre a Espanha e a Santa  Cruz foi escondida em cova, onde permaneceu por quatro anos até ser novamente exposta para adoração.  

Durante a Guerra Civil Espanhola, considerando os relatos de abusos por parte dos revolucionários, a relíquia foi enterrada sob uma figueira, apenas duas pessoas sabiam sua exata localização. De fato, em 30 de Setembro de 1936 o Monastério foi atacado, as imagens foram mutiladas, os cálices e outros objetos litúrgicos roubados e as imagens dos quatro evangelistas foram metralhadas. Dois anos depois, quando o exército retonou o domínio da região, a relíquia foi resgatada e conduzida ao Monastério. 

Atualmente a Santa Cruz é transladada no Domingo de Páscoa para a Igreja Paroquial da cidade de Potes. Trata-se da maior fração da Santa Cruz com comprovação histórica de sua origem. 

-- autoria própria


5 de abr de 2016

Nosso Senhor Jesus Cristo inaugurou para nós um caminho novo e vivo

“Se junto de Deus, meu Pai, não houvesse muitas moradas", dizia o Senhor, "eu teria ido muito antes preparar o lugar para os santos. Mas como sei que há muitas esperando a chegada dos que amam a Deus, não é por este motivo” - disse – “que vou ausentar-me, mas porque vosso regresso pelo caminho outrora preparado estava inacessível e precisava ser aplainado".

De fato, o céu para os homens era absolutamente inatingível e a carne nunca penetrara antes no puro e santíssimo lugar dos anjos. Cristo foi o primeiro que inaugurou para nós aquela via de acesso. E ensinou aos homens a maneira de chegar ao céu, oferecendo-se a Deus Pai como primícia dos mortos e dos que jazem na terra e manifestando-se como primeiro homem aos que vivem no céu. 

Por isso os anjos, ignorando o grande e augusto mistério sobre a chegada corporal, admiravam atônitos o   homem   que  subia,  e   perturbados   com aquele novo e estranho espetáculo, estavam para perguntar: Quem é esse que vem de Edom? (Is 63,1), isto é, da terra? Mas o Espírito não permitiu que aquela celeste multidão ficasse a ignorar a admirável sabedoria de Deus Pai, mas ordenou que as portas celestes se abrissem ao Rei e Senhor do universo, exclamando: Levantai, ó príncipes, as vossas portas! Alçai-vos, portas eternas, e entrará o Rei da glória (Sl 23,7).

Inaugurou, pois, para nós, o Senhor Jesus um caminho novo e vivo, como diz São Paulo: Cristo não entrou num santuário feito por mãos humanas e sim no próprio céu, a fim decomparecer, agora, diante da face de Deus, em nosso favor (Hb 9,24). Pois Cristo não subiu para apresentar-se diante do Pai, já que ele estava, está e estará sempre no Pai e diante dos olhos daquele que o gerou. Ele é sempre o objeto de sua complacência. Mas o Verbo subiu, agora, como homem, deixando-se ver de uma maneira nova e insólita, já que antes não possuía condição humana. E isto por nós e para nós, a fim de ouvir, na plenitude da realidade, feito semelhante aos homens, em seu poder de Filho e como homem: Senta-te à minha direita (Sl 109,1), transmitindo a todo o gênero humano, adotado nele, a glória da filiação.

De fato é um de entre nós, enquanto apareceu como homem na presença de Deus Pai, embora esteja acima de todas as criaturas e seja consubstancial àquele que o gerou, sendo o seu esplendor, Deus de Deus e luz da verdadeira luz. Apareceu assim, por nós, diante de Deus Pai, para reapresentar-nos a nós que tínhamos sido afastados de diante de sua face, por causa do antigo pecado. Sentou-se como Filho para que também nós nos sentássemos como filhos e por ele fôssemos chamados filhos de Deus. 

Por isso é que São Paulo, que afirma ter em si a Cristo que fala por seu intermédio, ensina: o que aconteceu a Cristo por título especial se comunica à natureza humana. E escreve: Com ele nos ressuscitou e nosfez sentar no céu, em Cristo Jesus (Ef 2,6). Compete a Cristo propriamente e somente a ele, segundo sua natureza de Filho, a dignidade e a glória de se sentar ao lado de Deus. Mas, porque o que se senta é semelhante a nós, dado que apareceu como homem, e ao mesmo tempo é reconhecido como Deus de Deus, transmite-nos a nós de certo modo a graça dessa dignidade.

* Leitura para a Solenidade da Ascensão do Senhor

-- Do comentário ao Evangelho de São João, por São Cirilo de Alexandria, bispo (século IV)

2 de abr de 2016

Torá, a Lei que Jesus conhecia

Em Mt 5, 18 encontramos Jesus Cristo afirmando:  “Porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i (iota=letra), uma só virgula da Lei, sem que tudo seja realizado”.  A qual Lei exatamente Jesus refere-se? Talvez lhe venha a cabeça a palavra "Torá". Pois não apenas a Torá era conhecida por Jesus, mas toda rica tradição judaica, as quais Ele repetidamente utiliza ao longo dos Evangelhos.

Um dos livros da Sinagoga de Colônia, Alemanha.
Para os mais tradicionais, a Torá deve ser sempre
escrita à mão, nnunca impressa.
A palavra Torá significa instrução, ensinamento e se constitui na Lei. O termo Torá é um pouco dúbio, pois tem diferentes sentidos dependendo do contexto. No mais limitado, refere-se aos cinco livros de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. No sentido mais amplo, refere-se à todos os escritos sagrados do Judaísmo, que os cristãos conhecem como Velho Testamento. Ou ainda, pode até incorporar outros escritos e ensinamentos de Rabinos. 

Os cinco primeiros livros são a Torá de Moisés, pois os judeus acreditam que foram entregues a Moisés por Deus, enquanto o povo de Israel peregrinava no deserto em direção à Canaã. Inclusive a pate que descreve a morte de Moisés (Dt 32,50-52) teria sido uma profecia sobre o futuro de Moisés. O nome dos livros é retirado das primeiras palavras de cada um deles, obviamente em hebraico; as encíclicas papais seguem esta mesma tradição:


  • Bereshit = No princípio ... ; livro do Gênesis
  • Shemot = Os nomes ...; livro do Êxodo
  • Vayikrah = E chamou ...; livro do Levítico
  • Bamidbar = No deserto ...; livro de Números
  • Devarim - As palavras ...; livro do Deuteronômio


Além dos livros iniciais, temos a Tanakh, que incorpora todos os livros sagrados. As Igreja Cristãs colocam todos estes livros como parte da Bíblia, embora com algumas divisões um pouco diferentes. Então, na Tanakh temos:

Os profetas:

  • Josué
  • Juízes
  • Samuel (1 e 2)
  • Reis (1 e 2)
  • Isaías
  • Jeremias
  • Ezequiel

Os doze profetas menores, tratados como um único livro:

  • Oséias
  • Naum
  • Joel
  • Habacuque
  • Amós
  • Sofonias
  • Obadias
  • Ageu
  • Jonas
  • Miquéias
  • Zacarias
  • Malaquias

E outros livros inspirados por Deus:

  • Salmos
  • Provérbios
  • Cântico dos Cânticos
  • Rute
  • Lamentações
  • Eclesiastes
  • Ester
  • Profético
  • Daniel
  • Esdras-Neemias
  • Crônicas (1 e 2)

As Igrejas Católica e Ortodoxa acrescentam outros livros que não fazem parte da Tanakh ("Bíblia judaica") mas que eram estudados nas sinagogas por muitos séculos antes de Cristo:

  • Tobias
  • Judite
  • Macabeus (1 e 2)
  • Sabedoria
  • Eclesiástico
  • Baruc

Para os judeus não há Novo Testamento, os Evangelhos e cartas não fazem parte da escrituras judaicas. 

Além dos escritos sagrados, há também a tradição, chamada de Torá Oral, que procura explicar os detalhes da Lei e como praticá-los na vida diária. A Torá Oral teria sido ensinada pelo próprio Deus para Moisés, tendo sido passada de geração em geração, inclusive para Jesus Cristo e seus apóstolos, até que no século II foi compilada e escrita. Alguns comentários foram acrescentados ateó o século V, quando tomou a forma atual e é chamada de Talmud. Os judeus são convidados a estudar uma página do Talmud diariamente.

A partir da Idade Média, os judeus começaram a se defrontar com questões cujas respostas não estavam explícitas na Torá, devido às mudanças dos costumes, línguas e tecnologia. Em geral, rabinos mais eruditos, com base em passagens da Torá e Talmud, atualizam os ensinamentos e recomendam os procedimentos mais adequados para situações concretas. Estes escritos foram compilados ao longo do tempo e hoje podem ser acessados em sites específicos. E continua a expandir-se, por exemplo, com recomendações sobre cirurgia plástica e a maneira judaica (kosher) de utilizar a máquina de lavar pratos após os banquetes festivos de Páscoa. 

-- autoria própria



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