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4 de abr. de 2026

A Ressurreição - Páscoa 2026

Evangelho da Vigília de Páscoa, Mateus 28, 1-10.

Comentários de São Jerônimo sobre o Evangelho de São Mateus

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 1 Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o sepulcro.

O fato de serem descritos momentos diferentes para essas mulheres nos Evangelhos não é sinal de falsidade, como objetam os ímpios. Pelo contrário, isso demonstra uma visitação persistente. Pois elas iam e voltavam frequentemente e não conseguiam suportar ficar ausentes do sepulcro do Senhor, nem mesmo por um breve momento.

2 De repente, houve um grande tremor de terra: o anjo do Senhor desceu do céu e, aproximando-se, retirou a pedra e sentou-se nela. 3 Sua aparência era como um relâmpago, e suas vestes eram brancas como a neve.

Nosso Senhor é um só e o mesmo Filho de Deus e Filho do homem. Segundo ambas as naturezas — divindade e carne —, Ele manifesta sinais: ora de sua grandeza, ora de sua humildade. É por isso que, na presente passagem — embora seja um homem aquele que foi crucificado, sepultado e encerrado no sepulcro, a quem uma pedra retinha como obstáculo —, no entanto, os eventos que ocorrem do lado de fora o revelam como o Filho de Deus: o sol se retira, a escuridão cai, a terra treme, o véu do templo se rasga, as rochas se fendem, os mortos ressuscitam; há o serviço dos anjos, os quais, já desde o momento de seu nascimento, provaram que Ele era Deus. 

Por exemplo: Gabriel vem a Maria; um anjo fala com José; o mesmo anjo anuncia a notícia aos pastores; mais tarde, ouve-se um coro de anjos cantando: “Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade”. Ele é tentado no deserto e, imediatamente após sua vitória, os anjos o servem. Agora, também, um anjo vem atuar como guarda do sepulcro do Senhor. Por meio de suas vestes resplandecentes, ele expressa a glória Daquele que triunfou. E, além disso, quando o Senhor ascende aos céus, dois anjos são vistos no Monte das Oliveiras, prometendo a segunda vinda do Salvador aos
apóstolos.


4 Os guardas ficaram com tanto medo do anjo, que tremeram, e ficaram como mortos. 5 Então o anjo disse às mulheres: "Não tenhais medo! Sei que procurais Jesus, que foi crucificado.

Os guardas estão completamente aterrorizados pelo medo. Jazem ali, estupefatos como mortos; e, no entanto, o anjo não consola a eles, mas sim às mulheres: “Não tenhais medo.” Que eles tenham medo, diz ele. O pânico persiste naqueles em quem habita a incredulidade. Mas quanto a vós, já que buscais o Jesus crucificado, ouvi isto: Ele ressuscitou e cumpriu as suas promessas.

6 Ele não está aqui! Ressuscitou, como havia dito! Vinde ver o lugar em que ele estava. 7 Ide depressa contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que vai à vossa frente para a Galileia. Lá vós o vereis. É o que tenho a dizer-vos".







Assim, se não acreditais nas minhas palavras, deveis acreditar no sepulcro vazio. Ide com passos rápidos e anunciai aos seus discípulos que Ele ressuscitou. E Ele vai adiante de vós para a Galileia — isto é, para o pântano dos Gentios, onde outrora havia erro e instabilidade, e onde anteriormente Ele não havia deixado a sua pegada com pé firme e estável.

8 As mulheres partiram depressa do sepulcro. Estavam com medo, mas correram com grande alegria, para dar a notícia aos discípulos. 

Dois sentimentos distintos ocupavam as mentes das mulheres: o medo e a alegria. O primeiro provinha
da grandeza do milagre; o segundo, da sua saudade do Ressuscitado. E, no entanto, ambos os sentimentos aceleravam os seus passos femininos. Elas foram aos apóstolos para que, por meio deles,
o celeiro da fé fosse espalhado.

9 De repente, Jesus foi ao encontro delas, e disse: 'Alegrai-vos!' As mulheres aproximaram-se, e prostraram-se diante de Jesus, abraçando seus pés.

Aquelas que buscavam dessa maneira, aquelas que corriam desse modo, mereceram encontrar o Senhor ressuscitado e ser as primeiras a ouvir: “Salve!” Assim, a maldição da mulher Eva foi quebrada entre as mulheres. Aquela que buscava o vivente entre os mortos e que ainda não sabia que o Filho de Deus havia ressuscitado, ouve, merecidamente: “Não me toques, pois ainda não subi para meu Pai.”

10 Então Jesus disse a elas: "Não tenhais medo. Ide anunciar aos meus irmãos que se dirijam para a Galiléia. Lá eles me verão".

Tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, deve-se sempre observar o seguinte: Quando surge uma visão de maior majestade, o medo é, a princípio, afastado. Assim, uma vez que a mente tenha sido acalmada dessa maneira, as palavras proferidas podem ser ouvidas.

Ele também falou a esses irmãos em outra passagem: “Anunciarei o teu nome aos meus irmãos.” Não é na Judeia que eles verão o Salvador, mas na multidão dos Gentios.

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A Ressurreição, gravura de Giulio Bonasone, Metropolitan Museus on Art, New York.

A gravura mostra a cena fundamental da fé cristã, Jesus Cristo ressuscitado, vitorioso sobre a morte. Os guardas estão no chão, caídos, mal podem olhar o vitorioso Cristo. Abaixo de Cristo, sua tumba agora vazia, não mãos de Cristo estão os sinais de sua vitória, uma bandeira branca, sinal de pureza, e a cruz. 







23 de abr. de 2025

A Última Mensagem do Papa Francisco


Esta é a mensagem Urbi et Orbi, a cidade de Roma e para todo mundo, escrita pelo Papa Francisco para o Domingo de Pásoca (20 de Abril de 2025). No dia seguinte ele faleceu, logo estes são os seus últimos ensinamentos: 


Cristo ressuscitou, aleluia!

Queridos irmãos e irmãs, Feliz Páscoa!

Hoje, finalmente, o canto do Aleluia volta a ouvir-se na Igreja, passando de boca em boca, de coração em coração, e isto faz com que o povo de Deus no mundo inteiro derrame lágrimas de alegria.

Do túmulo vazio em Jerusalém, ouvimos uma boa notícia inesperada: Jesus, que foi crucificado, "não está aqui, ressuscitou" (Lucas 24,5). Jesus não está no túmulo, ele está vivo!

O amor triunfou sobre o ódio, a luz sobre as trevas e a verdade sobre a falsidade. O perdão triunfou sobre a vingança. O mal não desapareceu da história; permanecerá até o fim, mas não terá mais vantagem; já não tem poder sobre aqueles que aceitam a graça deste dia.

Irmãs e irmãos, especialmente aqueles que experimentam dor e tristeza, o seu grito silencioso foi ouvido e as suas lágrimas foram contadas; nenhum deles foi perdido! Na paixão e morte de Jesus, Deus tomou sobre si todo o mal deste mundo e na sua infinita misericórdia o derrotou. Ele arrancou o orgulho diabólico que envenena o coração humano e espalha violência e corrupção por todos os lados. O Cordeiro de Deus é vitorioso! É por isso que hoje podemos gritar com alegria: “Cristo, nossa esperança, ressuscitou!” (Sequência de Páscoa).

A ressurreição de Jesus é de fato a base da nossa esperança. Pois à luz deste acontecimento, a esperança já não é uma ilusão. Graças a Cristo — crucificado e ressuscitado — a esperança não decepciona! Spes non confundit! (Romanos 5:5). Essa esperança não é uma evasão, mas um desafio; não ilude, mas nos capacita.

Todos aqueles que colocam sua esperança em Deus colocam suas mãos fracas em sua mão forte e poderosa; deixaram-se elevar e partiram em viagem. Juntamente com Jesus Ressuscitado, tornam-se peregrinos de esperança, testemunhas da vitória do amor e da força desarmada da Vida.

Cristo ressuscitou! Estas palavras captam todo o sentido da nossa existência, pois não fomos feitos para a morte, mas para a vida. Páscoa é a celebração da vida! Deus nos criou para a vida e quer que a família humana ressuscite! Aos seus olhos, toda vida é preciosa! A vida de uma criança no ventre da mãe, bem como a vida dos idosos e dos doentes, que em cada vez mais países são vistos como pessoas a serem descartadas.

Que grande sede de morte, de matar, testemunhamos todos os dias nos numerosos conflitos que assolam as diversas partes do nosso mundo! Quanta violência vemos, muitas vezes até dentro das famílias, dirigida contra mulheres e crianças! Quanto desprezo às vezes é despertado em relação aos vulneráveis, aos marginalizados e aos migrantes!

Neste dia, gostaria que todos nós renovássemos a esperança e reavivássemos a confiança nos outros, inclusive naqueles que são diferentes de nós, ou que vêm de terras distantes, trazendo costumes, modos de vida e ideias desconhecidos! Pois todos nós somos filhos de Deus!

Gostaria que renovássemos a nossa esperança de que a paz é possível! Do Santo Sepulcro, Igreja da Ressurreição, onde este ano a Páscoa é celebrada no mesmo dia por católicos e ortodoxos, a luz da paz irradie por toda a Terra Santa e por todo o mundo. Exprimo a minha proximidade aos sofrimentos dos cristãos na Palestina e em Israel, e a todo o povo israelita e ao povo palestino. O crescente clima de anti-semitismo em todo o mundo é preocupante. Mas, ao mesmo tempo, penso no povo de Gaza, e na sua comunidade cristã em particular, onde o terrível conflito continua a causar morte e destruição e a criar uma situação humanitária dramática e deplorável. Apelo às partes em conflito: convoquem um cessar-fogo, libertem os reféns e venham em socorro de um povo faminto que aspira a um futuro de paz!

Rezemos pelas comunidades cristãs no Líbano e na Síria, que vivem atualmente uma delicada transição na sua história. Aspiram à estabilidade e à participação na vida das suas respectivas nações. Exorto toda a Igreja a manter os cristãos do amado Médio Oriente nos seus pensamentos e orações.

Penso também em particular no povo do Iémen, que vive uma das crises humanitárias mais graves e prolongadas do mundo devido à guerra, e convido todos a encontrar soluções através de um diálogo construtivo.

Que Cristo ressuscitado conceda à Ucrânia, devastada pela guerra, o dom pascal da paz, e encoraje todas as partes envolvidas a prosseguirem os esforços tendentes a alcançar uma paz justa e duradoura.

Neste dia festivo, recordemos a região do Cáucaso e rezemos para que um acordo de paz final entre a Arménia e o Azerbaijão seja em breve assinado e implementado, e conduza à tão esperada reconciliação na região.

Que a luz da Páscoa inspire esforços para promover a harmonia nos Balcãs e apoiar os líderes políticos nos seus esforços para aliviar tensões e crises e, juntamente com os países vizinhos na região, para rejeitar ações perigosas e desestabilizadoras.

Que Cristo Ressuscitado, nossa esperança, conceda a paz e a consolação aos povos africanos vítimas da violência e dos conflitos, especialmente na República Democrática do Congo, no Sudão e no Sudão do Sul. Apoie quantos sofrem as tensões no Sahel, na região da Somália e dos Grandes Lagos Africanos, assim como aqueles cristãos que em muitos lugares não conseguem professar livremente a sua fé.

Não pode haver paz sem liberdade de religião, liberdade de pensamento, liberdade de expressão e respeito pelas opiniões dos outros.

Não é possível haver paz sem um verdadeiro desarmamento! A exigência de que cada povo providencie a sua própria defesa não deve transformar-se numa corrida ao rearmamento. A luz da Páscoa impele-nos a derrubar as barreiras que criam divisões e estão repletas de graves consequências políticas e econômicas. Impulsiona-nos a cuidar uns dos outros, a aumentar a nossa solidariedade mútua e a trabalhar pelo desenvolvimento integral de cada pessoa humana.

Durante este tempo, não deixemos de ajudar o povo de Mianmar, atormentado por longos anos de conflito armado, que, com coragem e paciência, enfrenta as consequências do devastador terramoto em Sagaing, que causou a morte de milhares de pessoas e grande sofrimento a muitos sobreviventes, incluindo órfãos e idosos. Rezamos pelas vítimas e pelos seus entes queridos e agradecemos de coração a todos os generosos voluntários que realizam as operações de socorro. O anúncio de um cessar-fogo  no país é um sinal de esperança para todo o Mianmar.

Apelo a todos aqueles que ocupam posições de responsabilidade política no nosso mundo, a não ceder à lógica do medo, que só leva ao isolamento dos outros, mas antes a utilizar os recursos disponíveis para ajudar os necessitados, para combater a fome e para encorajar iniciativas que promovam o desenvolvimento. Estas são as armas da paz: armas que constroem o futuro, em vez de semear sementes de morte!

Que o princípio da humanidade nunca deixe de ser a marca das nossas ações diárias. Perante a crueldade dos conflitos que envolvem civis indefesos e atacam escolas, hospitais e trabalhadores humanitários, não podemos permitir-nos esquecer que não são os alvos que são atingidos, mas sim pessoas, cada uma dotada de uma alma e de uma dignidade humana.

Neste ano jubilar, a Páscoa seja também uma ocasião propícia para a libertação dos prisioneiros de guerra e dos presos políticos!

Queridos irmãos e irmãs,

No Mistério Pascal do Senhor, a morte e a vida lutaram numa luta estupenda, mas o Senhor agora vive para sempre (cf. Sequência Pascal). Ele nos enche da certeza de que também nós somos chamados a participar da vida que não tem fim, quando não mais se ouvirão o choque das armas e o estrondo da morte. Confiemos-nos a ele, pois só ele pode fazer novas todas as coisas (Apocalipse 21:5)!

Feliz Páscoa para todos!

20 de abr. de 2025

O Batismo, sinal da paixão de Cristo


 

Fostes conduzidos à santa fonte do divino Batismo, como Cristo, descido da cruz, foi colocado diante do sepulcro. 

        A cada um de vós foi perguntado se acreditava no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. Vós professastes a fé da salvação e fostes por três vezes mergulhados na água e por três vezes dela saístes; deste modo, significastes, em imagem e símbolo, os três dias da sepultura de Cristo. 

        Assim como nosso Senhor passou três dias e três noites no seio da terra, também vós, na primeira emersão, imitastes o primeiro dia em que Cristo esteve debaixo da terra; e na imersão, a primeira noite. De fato, como aquele que vive nas trevas não enxerga nada, pelo contrário, aquele que anda de dia está envolvido em plena luz. Assim também vós, na imersão, como que mergulhados na noite, nada vistes; mas na emersão, fostes como que restituídos ao dia. Num mesmo instante, morrestes e nascestes, e aquela água de salvação tornou-se para vós, ao mesmo tempo, sepulcro e mãe. 

        Apesar de situar-se em outro contexto, a vós se aplica perfeitamente o que disse Salomão: Há um tempo para nascer e um tempo para morrer (Ecl 3,2). Convosco sucedeu o contrário: houve um tempo para morrer e um tempo para nascer. Num mesmo instante realizaram-se ambas as coisas e, com a vossa morte, coincidiu o vosso nascimento.  

        Ó fato novo e inaudito! Na realidade, não morremos nem fomos sepultados nem crucificados nem ainda ressuscitamos. No entanto, a imitação desses atos foi expressa através de uma imagem e daí brotou realmente a nossa salvação. 

        Cristo foi verdadeiramente crucificado, verdadeiramente sepultado e ressuscitou verdadeiramente. Tudo isto foi para nós um dom da graça, a fim de que, participando da sua paixão através do mistério sacramental, obtenhamos na realidade a salvação. 

        Ó maravilha de amor pelos homens! Em seus pés e mãos inocentes, Cristo recebeu os cravos e suportou a dor; e eu, sem dor nem esforço, mas apenas pela comunhão em suas dores, recebo gratuitamente a salvação. 

        Ninguém, portanto, julgue que o batismo consista apenas na remissão dos pecados e na graça da adoção filial. Assim era o batismo de João que concedia tão-somente o perdão dos pecados. Pelo contrário, sabemos perfeitamente que o nosso batismo não só apaga os pecados e confere o dom do Espírito Santo, mas é também o exemplar e a expressão dos sofrimentos de Cristo. É por isso mesmo que Paulo exclama: Será que ignorais que todos nós, batizados em Jesus Cristo, é na sua morte que fomos batizados? Pelo batismo na sua morte, fomos sepultados com ele (Rm 6,3-4).


-- Das Catequeses de Jerusalém (século IV)

1 de out. de 2022

É difícil ser cristão?

 

Está escrito: “Vinde a mim, vós todos que estais aflitos sob o fardo, e eu vos aliviarei” (Mt 11,28) cujo significado é explicado por São Hilário: “O Senhor chama para si todos aqueles que estão com dificuldades para cumprir a Lei e estão sobrecarregados pelos pecados do mundo”. E Logo a seguir, Jesus diz “meu jugo é suave e meu fardo é leve” (Mt 11,30), portanto a Nova Lei é mais leve que a Velha Lei.

Há duas dificuldades que podem afetar as obras da virtude que são o objetivo da Lei. Uma é relativa às obras externas, que podem ser cansativas e percebidas como um peso por que a Velha Lei é muito abrangente, cheia de detalhes e pequenas cerimônias realizadas ao longo de todo dia, enquanto a Nova Lei aboliu muito daquelas práticas.

Outra dificuldade é relativa aos atos interiores, por exemplo, que as obras de caridade devem ser feitas com presteza e alegria. Esta dificuldade é resolvida pelo amor, por que um ato que é difícil realizar, torna-se fácil pelo amor. Até os filósofos afirmam que é fácil cumprir a Lei, mas fazê-lo alegremente, sem murmurar, é difícil se a pessoa não for justa. De acordo, lemos em (1Jo 5,3) “Eis o amor de Deus: que guardemos seus mandamentos. E seus mandamentos não são penosos”. Santo Agostinho completa: "os mandamentos não são pesados para o homem que ama, mas são um peso para os que não amam”.

Logo, as tribulações sofridas por aqueles que observam a Nova Lei são facilmente resolvidas se considerarmos o Amor que anima estes mesmos mandamentos, como explica Santo Agostinho: “o amor faz tudo mais leve e facilita tudo que parece difícil e além da nossa capacidade”.

-- São Tomás de Aquino

18 de jun. de 2022

Tomai e comei, este é o meu corpo. Tomai e bebei, este é o meu sangue


Agora podemos identificar algumas consequências práticas da doutrina sobre a Eucaristia em nossas vidas diárias. Se na consagração nós [padres] dizemos "Tomai e comei, este é o meu corpo. Tomai e bebei, este é o meu sangue", devemos entender o que as palavras "corpo" e "sangue" significam., isto é, o que estamos ofertando.

Na Bíblia corpo não indica apenas uma parte ou o objeto físico que combinado com a alma e o espírito formam um ser humano completo. Na linguagem bíblica utilizada por Jesus e Paulo, corpo indica também como a pessoa vive, toda condição corporal e mortal da pessoa. Corpo, portanto, significa a vida completa de uma pessoa, seus atos, pensamentos e emoções. Ao instituir a Eucaristia, Jesus nos deixou a sua vida como um dom, do primeiro instante da incarnação até o último momento, com tudo que concretamente se realizou na sua vida: os momentos de silêncio, orações, trabalho, dificuldades, humilhações, etc...

Jesus também disse "Este é o meu sangue", mas por que ele acrescenta a palavra "sangue" se ele já havia dado seu corpo e o sangue é parte do corpo? Ele está acrescentando sua morte! Após nos dar sua vida, Ele também nos deixa a parte mais preciosa da sua vida, sua morte. De fato, o termo sangue não indica apenas uma parte do corpo de uma pessoa, também indica um evento: a morte. Se o sangue é onde reside a vida, como era entendido naquela época, derramar seu sangue é dar sua vida. A Eucaristia é o mistério do corpo e sangue de Jesus, isto é, de sua vida e morte!

Agora pergunto, pensando em nós, ao ofertarmos nosso corpo e nosso sangue junto com o de Jesus na Missa, o que estamos realmente ofertando? Também somos chamados a ofertar o Jesus ofereceu: nossa vida e nossa morte. Com a palavra corpo, estamos dando tudo que constitui nossa vida neste mundo: tempo, saúde, energia, habilidades, afetos, até pequenos gestos como um sorriso. Com a palavra sangue, estamos nos referindo a nossa morte, não necessariamente a morte definitiva, um martírio por Jesus e nossos irmãos. Tudo em nós prepara e antecipa a morte: humiliações, falhas, doenças, limitações da idade, tudo que nos mortifica.

Tudo isto requer que após sairmos da Missa, façamos o nosso mlhor para realizar o que acabamos de dizer, que realmente tentemos, com todas nossas limitações, oferecer aos nossos irmãos e irmãs, nosso corpo, isto é, nosso tempo, energia e atenção, nossa vida. É necessário que após termos dito "tomai e comei", nos deixemos realmente ser consumidos, inclusive por aqueles que não o fazem com todo amor, respeito e delicadeza que desejamos. Santo Inácio de Antioquia, quando estava indo para Roma, onde seria morto, escreveu: "Eu sou trigo de Cristo, que eu seja devorado pelos dentes afiados das feras para me tornar o puro pão do Senhor". Cada um de nós, se olharmos atentamente, possuimos estes dentes afiados das feras, e atacamos com críticas, discussões, brigas abertas ou escondidas, diferentes visões e caráter.

Vamos imaginar o que aconteceria se celebrarmos a Missa com esta participações especial, se todos disséssemos, no momento da consagração, alguns em voz alta, outros em silêncio, "tomai e comei". Um padre e, ainda mais, um bispo, celebra a Missa desta maneira e depois vai pelo resto do dia: ele reza, prega, confessa, recebe pessoas, visita doentes, escuta, ensina, etc.... o dia deve também ser uma Eucaristia. Um grande pregador francês, Pierre Olivaint (1816-1871), costumava dizer: "Na manhã, quando celebro a Missa, eu sou o sacerdote e Jesus a vítima; ao longo do dia, Jesus é o sacerdote e eu sou a vítima". É assim que um padre imita o Bom Pastor, quando ele dá a vida às suas ovelhas.

Nossa participação na Eucaristia

Gostaria de concluir, usando um exemplo bastante humano, o que ocorre na celebração eucarística. Imaginem uma grande família, onde haja um filho, o mais velho, que admira e ama seu pai. Para seu aniversário, ele gostaria dar um presente precioso, mas antes de dar o presente, ele pede a todos seus irmãos e irmãs que também assinem o cartão. O pai recebe o presente como uma prova de amor de todos seus filhos e filhas, sem distinção, quando, na realidade, foi apenas o mais velho que pagou pelo presente. 

Isto é o que acontece no sacrifício eucarístico, Jesus admira e ama o Senhor infinitamente. Ele deseja dar todos os dias, até o final dos tempos, o mais precioso presente que alguém pode imaginar, sua própria vida. Na Missa, Ele convida seus irmãos e irmãs a colocar sua assiantura no presente, para que chegue até o Pai como um presente de todos seus filhos, mesmo que apenas um tenha se sacrificado por ele. E que sacrifício foi o de Jesus!

Nossa participação, nossa assinatura, são as pequenas gotas de água que são acrecentadas ao cálice de vinho. Elas não são nada mais do que água, mas misturadas ao vinho do cálice, tornam-se uma coisa só. A nossa assinatura é o Amém solene que a assembléia pronuncia ou canta, ao final da doxologia "Por Cristo, com Cristo, em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória agora e para sempre" respondemos "AMÉM!".

Sabemos que quem assina um contrato deve honrar sua assinatura. Isto significa que ao deixarmos a Missa, devemos fazer da nossa vida um dom de amor ao Pai eplo bem de nossos irmãos e irmãs. Nós, eu repito, não somos apenas chamados a celebrar a Eucaristia, mas fazermos eucaristia. Que Deus possa nos ajudar!

-- Padre Raniero Cantalamessa, segunda catequese no Tempo de Quaresma, 18 de Março de 2022.

--  Esta é a terceira parte de uma catequese sobre Eucaristia. Na primeira parte, Padre Raniero falou da Eucaristia na tradição judaica e como Jesus transformou sua natureza ai dizer: “Este é o meu corpo que eu dou para vós.” e "Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós". Na segunda parte, falou do papel dos padres na Eucaristia.


3 de jun. de 2022

Eucaristia: sacerdote e vítima


 Esta é a segunda parte de uma catequese sobre Eucaristia. Na primeira parte, Padre Raniero falou da Eucaristia na tradição judaica e como Jesus transformou sua natureza ai dizer: “Este é o meu corpo que eu dou para vós.” e "Este cálice é a Nova Aliança em meu sangue, que é derramado por vós". É interessante antes ler a primeira parte.


Até aqui abordei os aspectos litúrgicos e rituais da consagração eucarística. Agora vou falar de outro aspecto, de um tipo mais pessoal e existencial, isto é, do papel que nós, padres e fiéis, temos no momento da Missa. Para entender o papel de um padre na consagração, é de importância vital entender a natureza do sacríficio e sacerdócio de Cristo por que é deles que o sacerdócio cristão se origina, tanto o sacerdócio de inistros ordenados quanto dos fiéis batizados.

De fato não somos mais "sacerdotes segundo a ordem de Melquisedec", somos "sacerdotes segundo a ordem de Jesus Cristo"; no altar agimos "in persona Christi", representamos o sacerdote principal, Jesus Cristo. No simpósio sobre o sacerdócio, realizado neste local mês passado, abordou este assunto muito mais do que posso fazer em minha breve reflexão, mas é necessário dizer algo, aqui, para a compreensão da Eucaristia.  

A Carta aos hebreus explica a novidade e excepcionalidade do sacerdócio de Cristo: "sem levar consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue, [Cristo] entrou de uma vez por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna" (Hb 9,12). Todos sacerdotes oferecem algo não pessoal, mas Cristo ofereceu a si mesmo; sacerdotes comuns oferecem vítimas, Cristo foi a própria vítima! Santo Agostinho resumiu em poucas palavras este novo tipo de sacerdócio no qual o celebrante e a vítima são a mesma pessoa: “Ideo sacerdos quia sacrificium”, "sacerdote porque é vítima". O teólogo francês René Girard definiu o sacrifício de Cristo como "o acontecimento central na vida religiosa da humanidade", pois coloca um fim na aliança entre o sagrado e a violência.


Em Cristo é Deus que se tornou vítima, não é mais o ser humano oferecendo sacrifícios para agradar a Deus e torná-lo favorável; é Deus que sacrifica a si mesmo em favor da humanidade, permitindo que seu único Filho morra por nossa salvação (cf. Jo 3,16). Jesus não ofereceu o sangue de outros, mas com seu próprio sangue, ele não colocou suas culpas nas costas de outros, animais ou pessoas, mas ele colocou nossos pecados nos seus próprios ombros: "Ele
carregou os nossos pecados em seu corpo" (1Pe 2,24). 

O que significa é que na Missa, nós padres, devemos também ser sacerdotes e vítimas ao mesmo tempo. Em vista disto, devemos refletir sobre as palavras da consagração: "Este é meu sacrifício oferecido por vós". Sobre isto gostaria de compartilhar minha experiência, como eu descobri o significado eclesial e pessoal da consagração eucarística. Nos primeiros anos de sacerdócio, no momento da consagração em fechava meus olhos, inclinava minha cabeça e tentava me afastar o máximo possível de tudo que acontecia ao redormpara me identificar com Jesus, quando Ele pronunciou pela primeira vez aquela frase: "Tomai e comei...". A liturgia mesmo convidava a esta atitude, com as palavras pronunciadas em latim, inclinado sobre as espécies a serem consagradas.

Então ocorrreu a reforma litúrgica do Vaticano II. As missas começaram a ser celebradas olhando a assembléia, não mais Latim, mas passamos a usar a linguagem do povo. Isto me ajudou a entender que minha atitude não expressava o real significado da minha participação na consagração: que o Jesus do Cenáculo já não existe mais! Quem está presente é Jesus ressuscitado, o Cristo que morreu, mas agora vive para a eternidade (cf. Ap 1,18). Este é o "Jesus total", Cabeça e Corpo unidos. Logo, se este é o Cristo total que pronuncia as palavras da consagração, eu também as pronuncio junto com Ele. Sim, eu as pronuncio "in persona Christi", em nome de Cristo, mas também em primeira pessoas, isto é, em meu nome. A partir do dia em que entendi isto, eu parei de fechar meus olhos no momento da consagração, mas dnha mantê-los abertos para olhar os irmãos na minha frente, ou, se estava celebrando sozinho, pensar  na inteira Igreja, e virado para eles, dizer como Jesus: "Tomai e comei, este é o meu corpo oferecido por vós; tomai e bebei, este é o meu sangue derramado por vós".

Mais tarde, Santo Agostinho me ajudou a remover todas as dúvidas que tinha. "Aquilo que a Igreja oferece, ele oferece a si mesma", como ele escreveu em uma famosa passagem de [do livro] Cidade de Deus. Mais próxima a nós está a mística mexicana Concepcion Cabrera de Armida, conhecida Conchita, que morreu em 1937 e foi beatificada em 2015. Para o seu filho jesuíta, que estava próximo a ser ordenado, ela escreveu: "Meu filho lembre que quando segurar em suas mãos a Sagrada Hóstia, não vais dizer 'olhem o Corpo de Cristo, olhem o Sangue de Cristo', mas irás dizer 'este 'o meu Corpo, meu Sangue', ou seja, terás que passar por uma total transformação, deixar de ser você e ser um novo Jesus".

Tudo isto se aplica não apenas a padres e bispos, mas a todos batizados. Um famoso texto do Concílio explica desta maneira:

Os fiéis, incorporados na Igreja pelo Batismo ... pela participação no sacrifício eucarístico de Cristo, fonte e centro de toda a vida cristã, oferecem a Deus a vítima divina e a si mesmos juntamente com ela; assim, quer pela oblação quer pela sagrada comunhão, não indiscriminadamente mas cada um a seu modo, todos tomam parte na ação litúrgica (Lumen Gentium 10-11).

No altar há dois corpos de Cristo: o corpo real, nascido da Virgem Maria, morto, ressuscitado e que acendeu ao céus; e o corpo místico, que é a Igreja. De fato, seu corpo está realmente presente no altar e seu corpo místico também está misticamente presente, "misticamente" por que há uma união inseparável entre a Igreja e sua Cabeça. Não há confusão entre as duas presenças, ambas são distintas e inseparáveis.

Assim como há duas ofertas no altar, uma que se torna em corpo e sangue de Cristo, o pão e vinho, e aquele que se torna o corpo místico de Cristo, também há duas epicleses na Missa, isto é, duas invocações do Espírito Santo. Na primeira é dito "
Senhor, nós te pedimos: santificai estas ofertas, espalhando-los em seu Espírito, para que se tornem para nós o corpo e o sangue de Jesus Cristo, nosso Senho", na segunda, que é recitada após a consagração, dizemos "enviai teu Espírito Santo para que nos tornemos um só corpo e um só espírito em Cristo. Que o Espírito Santo nos faça um sacrifício perene agradável ao Senhor".

Esta é a forma como a Eucaristia e a Igreja se relacionam: a Eucaristia faz a Igreja fazendo da Igreja uma Eucaristia! A Eucaristia não é apenas, genericametne, a fonte ou causa da santidade da Igreja, é também o seu modelo. A santidade do cristão é realizada através da Eucaristia, deve ser uma santidade Eucarística. Os cristãos não podem se limitar a celebrar a Eucaristia, devem ser uma Eucaristia com Jesus.


-- Padre Raniero Cantalamessa, segunda catequese no Tempo de Quaresma, 18 de Março de 2022.

NT: as epiclises variam entre as diferentes Orações Eucarísticas, Padre Raniero cita apenas uma das formas.


25 de mar. de 2022

O sacramento da nossa reconciliação

 


 A humildade foi assumida pela majestade, a fraqueza, pela força, a mortalidade, pela eternidade. Para saldar a dívida de nossa condição humana, a natureza impassível uniu-se à natureza passível. Deste modo, como convinha à nossa recuperação, o único mediador entre Deus e os homens, o homem Jesus Cristo, podia submeter-se à morte através de sua natureza humana e permanecer imune em sua natureza divina.

Por conseguinte, numa natureza perfeita e integral de verdadeiro homem, nasceu o verdadeiro Deus, perfeito na sua divindade, perfeito na nossa humanidade. Por “nossa humanidade” queremos significar a natureza que o Criador desde o início formou em nós, e que assumiu para renová-la. Mas daquelas coisas que o Sedutor trouxe, e o homem enganado aceitou, não há nenhum vestígio no Salvador; nem pelo fato de se ter irmanado na comunhão da fragilidade humana, tornou-se participante dos nossos delitos.

Assumiu a condição de escravo, sem mancha de pecado, engrandecendo o humano, sem diminuir o divino. Porque o aniquilamento, pelo qual o invisível se tornou visível, e o Criador de tudo quis ser um dos mortais, foi uma condescendência da sua misericórdia, não uma falha do seu poder. Por conseguinte, aquele que, na sua condição divina se fez homem, assumindo a condição de escravo, se fez homem.

Entrou, portanto, o Filho de Deus neste mundo tão pequeno, descendo do trono celeste, mas sem deixar a glória do Pai; é gerado e nasce de modo totalmente novo. De modo novo porque, sendo invisível em si mesmo, torna-se visível como nós; incompreensível, quis ser compreendido;existindo antes dos tempos, começou a existir no tempo. O Senhor do universo assume a condição de escravo, envolvendo em sombra a imensidão de sua majestade; o Deus impassível não recusou ser homem passível, o imortal submeteu-se às leis da morte.

Aquele que é verdadeiro Deus, é também verdadeiro homem; e nesta unidade nada há de falso, porque nele é perfeita respectivamente tanto a humanidade do homem como a grandeza de Deus.

Nem Deus sofre mudança com esta condescendência da sua misericórdia nem o homem é destruído com sua elevação a tão alta dignidade. Cada natureza realiza, em comunhão com a outra, aquilo que lhe é próprio: o Verbo realiza o que é próprio do Verbo, e a carne realiza o que é próprio da carne.

A natureza divina resplandece nos milagres, a humana, sucumbe aos sofrimentos. E como o Verbo não renuncia à igualdade da glória do Pai, também a carne não deixa a natureza de nossa raça.

É um só e o mesmo – não nos cansaremos de repetir – verdadeiro Filho de Deus e verdadeiro Filho do homem. É Deus, porque no princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus: e o Verbo era Deus. É homem, porque o Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,1.14).

-- Das Cartas de São Leão Magno, Papa (século V)

31 de ago. de 2021

Senhor, envia-nos o Cordeiro!


Senhor, envia-nos o Cordeiro! É o Cordeiro que nos falta, não o leão (Ap 5,5-6). O Cordeiro que não se irrita e cuja doçura jamais se pertuba, o cordeiro que dará sua lã branca como a neve para nos aquecer quando está frio, para cobrir quando estivermos desnudos, o cordeiro que nos dará a comer de sua carne por temer que estejamos fracos para caminhar (Jo 6,51; Mt 15,32). 


Senhor, envia-O cheio de sabedoria, por que sua prudência vencerá o espírito orgulhos, evia-O cheio de força, por que prometestes que "o Senhor é forte e poderoso no combate" (Sl 23, 8), envia-O cheio de doçura, por que "descerá como a chuva sobre a relva" (Sl 71,6), envia-O como uma vítima, por que deve ser vendido e imolado para nosso resgate (Mt 26,15; Jo 19, 36; Ex 12,46)


Senhor, envia-O não para exterminar os pecadores, por que deve "vir para chamar os justos e os injustos" (Mt 9,13), envia-O, por que será "digno de receber a honra, a glória e a majestade, digno de receber o livro e de abrir-lhe os selos” (Ap 4,11; Ap 5,9), quer dizer o mistério imcompreensível da Encarnação.

-- Pedro de Celle, monge beneditino e bispo (século XII)

30 de ago. de 2021

31 de Agosto: São Nicodemos e São José de Arimatéia

 


Nicodemos foi um fariseu, membro do Sinédrio, certamente um homem que havia estudado a fé judaica. Ele é mencionado três vezes no Evangelho de São João:

1.  Na primeira vez em que é citado, ele é identificado com um fariseu que vem visitar Jesus a noite, escondido. Jesus havia ido à Jerusalém para passar a Páscoa, ao chegar no Templo, derrubou as mesas do negociantes, dizendo que ali era a casa do Pai. Quando Nicodemos visita a Jesus, ele faz referência a estes eventos: “Rabi, sabemos que és um Mestre vindo de Deus. Ninguém pode fazer esses milagres que fazes, se Deus não estiver com ele” (Jo 3,2), ao que Jesus responde:  “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não poderá ver o Reino de Deus”. (Jo 3,3). Daí segue uma conversa sobre o significado da expressão "nascer de novo". Nicodemos parece entender literalmente, como se um homem pudesse entrar de novo no ventre de sua mãe, mas muitos teólogos argumentam que Nicodemos estava propositalmente usando uma interpretação literal para que Cristo explicasse melhor o rela significado do seu ensinamento. Ao responder, Jesus parece surpreso que um mestre judaico não entendia o significado de um renascimento espiritual.

2. No capítulo 7, Nicodemos adverte seus colegas no Sinédrio que não devem julgar a Cristo sem ouvi-lo, dizendo: “Condena acaso a nossa Lei algum homem, antes de o ouvir e conhecer o que ele faz?” (Jo 7, 51). Isto confirma não apenas que fazia parte do Sinédrio como também tinha alguma influência, pois, naquela ocasião, Cristo não foi preso.

3. Finalmente quando Jesus é spultado, Nicodemos traz uma mistura de mirra e perfumes, cerca de 33 quilos, apesar de saber que os judeus não embalsamavam seus falecidos. Isto mostra que ele era um homem de posses, mas também algo mais importante, como destacaou o Papa Bento XVI: "Estas quantidades foram extraordinárias, excedendo qualquer outra utilizada normalmente. Nicodemos preparou o sepultamento de um rei".

José de Arimatéia aparece nos quatro Evangelhos como sendo o responsável pelo enterro de Cristo. 

São Mateus (27,57) fala apenas que era um homem rico e discípulo de Cristo, São Marcos (15, 43) acrescenta que ele era "um ilustre membro do conselho que também esperava o Reino de Deus" e São Lucas (23, 50-56) esclarece que ele não havia concordado com a decisão do Sinédrio.

De acordo com São João (19,38), após saber da morte de Jesus, este discípulo secreto de Cristo, pediu para Pilatos permissão para fazer o enterro antes do anoitecer. JOsé imediatamente comprou um pano de linho e foi até o Gólgota para sepultar a Cristo, o que fez com o auxílio de Nicodemos.

Após limpar e preparar o corpo de Cristo, colocaram-no em uma caverna, num jardim próximo. O Evangelho de São Mateus afirma que aquele seria a tomba que José adquirira para si mesmo. O sepultamento foi rápido para que cumprissem tudo antes de chegar o sábado.  

Ambos são venerados pelas várias igrejas católicas e cristãs, embora em dias diferentes. No atual calendário adotado pela Igreja Católica Romana, ambos são lembrados conjuntamente em 31 de Agosto. 

-- autoria própria.

-- A pintura chama-se O Sepultamento de Cristo, foi pintada por Ticiano em 1559 e está no Museu do Prado em Madrid. Nela José de Arimatéia e Nicodemos seguram o corpo de Cristo, enquanto Maria e São João observam. Um anjo está junto deles. Note as ricas vestes vermelhas de Nicodemos, como Maria e João estão envoltos em trevas, muito pertubados com a morte de Cristo, enquanto Cristo e o Anjo estão na luz.


29 de jul. de 2021

Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa

 


As palavras de nosso Senhor Jesus Cristo nos advertem que, em meio à multiplicidade das ocupações deste mundo, devemos aspirar a um único fim. Aspiramos porque estamos a caminho e não em morada permanente; ainda em viagem e não na pátria definitiva; ainda no tempo do desejo e não na posse plena. Mas devemos aspirar, sem preguiça e sem desânimo, a fim de podermos um dia chegar ao fim.

Marta e Maria eram irmãs, não apenas irmãs de sangue, mas também pelos sentimentos religiosos. Ambas estavam unidas ao Senhor; ambas, em perfeita harmonia, serviam ao Senhor corporalmente presente. Marta o recebeu como costumam ser recebidos os peregrinos. No entanto, era a serva que recebia o seu Senhor; uma doente que acolhia o Salvador; uma criatura que hospedava o Criador. Recebeu o Senhor para lhe dar o alimento corporal, ela que precisava do alimento espiritual. O Senhor quis tomar a forma de servo e, nesta condição, ser alimentado pelos servos, por condescendência, não por necessidade. Também foi por condescendência que se apresentou para ser alimentado. Pois tinha assumido um corpo que lhe fazia sentir fome e sede.

Portanto, o Senhor foi recebido como hóspede, ele que veio para o que era seu, e os seus não o acolheram. Mas, a todos que o receberam, deu-lhes capacidade de se tornarem filhos de Deus (Jo 1,11-12). Adotou os servos e os fez irmãos; remiu os cativos e os fez co-herdeiros. Que ninguém dentre vós ouse dizer: Felizes os que mereceram receber a Cristo em sua casa! Não te entristeças, não te lamentes por teres nascido num tempo em que já não podes ver o Senhor corporalmente. Ele não te privou desta honra, pois afirmou: Todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes (Mt 25,40).

Aliás, Marta, permite-me dizer-te: Bendita sejas pelo teu bom serviço! Buscas o descanso como recompensa pelo teu trabalho. Agora estás ocupada com muitos serviços, queres alimentar os corpos que são mortais, embora sejam de pessoas santas. Mas, quando chegares à outra pátria, acaso encontrarás peregrinos para hospedar? encontrarás um faminto para repartires com ele o pão? um sedento para dares de beber? um doente para visitar? um desunido para reconciliar? um morto para sepultar? Lá não haverá nada disso. Então o que haverá? O que Maria escolheu: lá seremos alimentados, não alimentaremos. Lá se cumprirá com perfeição e em plenitude o que Maria escolheu aqui: daquela mesa farta, ela recolhia as migalhas da palavra do Senhor. Queres realmente saber o que há de acontecer lá? É o próprio Senhor quem diz a respeito de seus servos: Em verdade eu vos digo: ele mesmo vai fazê-los sentar-se à mesa e, passando, os servirá (Lc 12,37).

 -- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

-- A Memória de Santa Marta é celebrada em 29 de Julho 

22 de mai. de 2021

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida

Encontramo-nos reunidos sob a abóbada desta Basílica, e toda a nossa consciência se acha compenetrada da recordação do Cenáculo hierosolimitano [NT: Cenáculo de Jerusalém], onde, precisamente no dia do Pentecostes "se encontravam todos" (At 2, 1) aqueles que constituíam a primeiríssima Igreja. Encontravam-se no mesmo local em que — cinquenta dias antes — na tarde do dia da Ressurreição Jesus tinha vindo ter com eles. "Veio Jesus... e colocou-se no meio deles e disse-lhes: "A paz seja convosco! E dito isso, mostrou-lhes as mãos e o lado" (Jo 20, 19-20). Naquele momento já não podiam ter dúvida, alguma; e "os discípulos — escreve o Evangelista — ficaram cheios de alegria, ao verem o Senhor" (Jo 20, 20), o Senhor ressuscitado. E então Jesus disse-lhes novamente: "A paz seja convosco! Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20, 20). Em suma, disse palavras já conhecidas e, contudo, novas: novas pela novidade de todo o Mistério pascal e novas pela novidade do Senhor Ressuscitado, que as pronunciava: "eu envio a vós...".

E sobretudo eram novas por motivo daquilo que era afirmado por Cristo, imediatamente a seguir a elas. Efectivamente, "depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse-lhes: 'Recebei o Espírito Santo' " (Jo 20, 22).

Desta maneira, já nesse momento receberam o Espírito Santo. Já então se havia iniciado o Pentecostes; o Pentecostes que chegaria, cinquenta dias depois, à sua plena manifestação; e isto era necessário para que pudesse maturar neles e revelar-se para o exterior aquilo que havia acontecido, quando eles tinham ouvido; "Recebei o Espírito Santo..." — a fim de que a Igreja pudesse nascer. Nascer, no caso, quer dizer sair para o mundo e, por esse mesmo fato, tornar-se visível no meio dos homens.

E isto realizou-se com a potência própria daquela tarde pascal, a tarde daquele mesmo dia da Ressurreição (cf. Jo 20, 19); isso aconteceu com a potência da paixão e da morte do Senhor, o qual, aliás, já na véspera da mesma paixão, havia dito claramente: "... se eu não for, o Consolador (Paracletos) não virá a vós; mas se eu for, enviar-vo-lo-ei" (Jo 16, 7). Tinha partido, pois, através da Cruz, e voltou através da Ressurreição; mas voltou, não já para permanecer, mas sim para soprar sobre os Apóstolos e dizer-lhes: "Recebei! Recebei o Espírito Santo!".

Oh! Como é bom o Senhor! Ele deu-lhes o Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida... e com o Pai e o Filho recebe a mesma glória e adoração... Ele, igual na Divindade! Sim, Jesus deu-lhes o Espírito Santo; disse, de fato, "recebei". Mas, mais ainda, não os entregou Ele, não os confiou a eles, aos Apóstolos, ao Espírito Santo? Poderá o homem "receber" o Deus vivo e possuí-1'O como algo "próprio"?

Então Cristo deu os Apóstolos, aqueles que eram o início do novo Povo de Deus e o fundamento da Sua Igreja, ao Espírito Santo, ao Espírito que o Pai haveria de mandar em Seu Nome (cf. Jo 14, 26), ao Espírito de Verdade (cf. Jo 14, 17; 15, 26; 16, 13), ao Espírito por meio do qual o amor de Deus foi derramado nos nossos corações (cf. Rom 5, 5); deu-os ao Espírito Santo a fim de que eles, por seu turno, O recebessem como Dom; Dom alcançado do Pai por obra do Messias, do Servo sofredor de Javé, do qual fala a profecia de Isaías.

E foi por isso que Ele "lhes mostrou as mãos e o lado" (Jo 20, 20), isto é, os sinais do sacrifício cruento, e em seguida acrescenta ainda: "Aqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; e àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos" (Jo 20, 23).

Com estas palavras Ele confirmou o Dom; é o Dom do Consolador, o Dom dado à Igreja para o homem, o qual traz em si a herança do pecado. Para cada um dos homens e para todos os homens.

Trata-se do Dom do Alto, dado à Igreja que é enviada a todo o mundo. No dia do Pentecostes, os Apóstolos — e juntamente com eles aquela que era a primeiríssima Igreja — saíram daquele cenáculo pascal; e imediatamente se encontraram no meio do mundo sujeito ao pecado e à morte; e encontraram-se aí com o testemunho da Ressurreição.

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida

Ao evocarmos o primeiro Concilio Ecuménico Constantinopolitano, nós professamos hoje a mesma fé n'Aquele que é Senhor e dá a vida, que com o Pai e o Filho recebe a mesma glória e adoração; e identificando esta veneranda Basílica de São Pedro com o humilde Cenáculo hierosolimitano, nós recebemos o mesmo Dom! "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 22). Sim, nós recebemos o mesmo Dom, ou seja, confiamo-nos a nós próprios e confiamos a Igreja ao mesmo Espírito Santo, ao Qual ela já foi confiada de uma vez para sempre, naquela tarde da Ressurreição e depois na manhã do Pentecostes. Ou melhor, nós permanecemos nessa entrega confiante ao Espírito Santo, que Cristo então operou, ao mostrar aos Apóstolos as mãos e o lado (cf. Jo 20, 20), os sinais da sua paixão, antes de lhes dizer: "Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós" (Jo 20, 21).

Nós permanecemos nessa entrega confiante ao Espírito Santo, que constituiu a Igreja e continuamente a constitui sobre os seus fundamentos. Nós permanecemos, assim, em tal entrega confiante ao Espírito Santo, mediante a qual somos a Igreja e mediante a qual somos enviados, de um modo análogo a como foram enviados do Cenáculo aqueles primeiros apóstolos e aquela primeiríssima Igreja hierosolimitana, quando sucedeu que, após algo semelhante a uma rajada de vento sobrevindo impetuosamente e depois da aparição das línguas de fogo sobre cada um deles, os mesmos saíram para o meio dá multidão numerosa, que tinha acorrido a Jerusalém para as festas e começaram a falar nas diversas línguas, "conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem" (At 2, 4); e foram ouvidos pelos homens que falavam outras línguas como aqueles que anunciavam "nas nossas línguas as maravilhas de Deus" (At 2, 11).

Permanecemos, pois, nesta entrega. confiante ao Espírito Santo; e passados quase dois mil anos, nada mais desejamos senão permanecer n'Ele, não separar-nos d'Ele de nenhum modo, não O "contristar" nunca (cf. Ef 4, 30).

— porque somente n'Ele está conosco Cristo;

— porque só com a Sua ajuda é que nós podemos dizer: "Jesus é Senhor" (cf. 1 Cor 12, 3);

— porque somente pelo poder da Sua graça é que nós podemos clamar: "Abbá, Pai" (Rom 8, 15);

— porque somente pelo Seu poder, pela potência do Espírito Santo que é Senhor e dá a vida, é que nós somos a mesma Igreja, esta Igreja em que "há... diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que opera tudo em todos. E a cada um é concedida a manifestação do Espírito para que redunde em vantagem comum (1 Cor 12, 4-7).

Assim, pois, estamos no Espírito Santo e n'Ele desejamos permanecer:

— n'Ele, que é o Espírito que dá a vida e é uma nascente de água jorrante até à vida eterna (cf. Jo 4, 14; 7, 38-39);

— n'Ele, pelo Qual o Pai dá novamente a vida aos homens mortos pelo pecado, até que um dia ressuscite em Cristo os seus corpos mortais (cf. Rom 8, 10-11);

— n'Ele, no Espírito Santo, que habita na Igreja e nos corações dos fiéis (cf. 1 Cor 3, 16; 6, 19) e neles ora e dá testemunho da sua adopção filial (cf. Gal 4, 6; Rom 8, 15-16, 26);

— n'Ele, que dota a Igreja com diversos dons hierárquicos e carismáticos e com a ajuda destes a dirige e a enriquece de frutos (cf. Ef. 4, 11-12; 1 Cor. 12, 4; Gál. 5, 22);

— n'Ele, que com a força do Evangelho faz rejuvenescer a Igreja, a renova continuamente e a leva à perfeita união com o Seu Esposo (cf. Const. dogm. Lumen Gentium, n. 4).

Sim. Nós desejamos permanecer n'Ele, no Espírito Santo, no Paráclito assim, como a Ele — ao Espírito do Pai — nos confiou Cristo crucificado e ressuscitado. Confiou-nos a Ele dando-no-1'O a nós: aos Apóstolos e à Igreja, quando disse, no Cenáculo hierosolimitano: "Recebei o Espírito Santo" (Jo 20, 22).

E estas palavras começaram a ter atuação prática diante de todas as línguas e nações no dia do Pentecostes, no dia em que a Igreja nasceu no Cenáculo de Jerusalém e saiu para o mundo.

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida

É esta fé dos Apóstolos e dos Padres da Igreja, que no ano de 381 o Concílio de Constantinopla ensinou solenemente a professar, que nós, aqui reunidos nesta Basílica Romana de São Pedro, em unidade espiritual com os nossos Irmãos que celebram a Liturgia jubilar na Catedral do Patriarcado Ecuménico de Constantinopla, desejamos professar, ensinando-a com a mesma pureza e potência no ano de 1981 como a professou e ensinou a professar aquele venerável Concílio há dezasseis séculos atrás.

Desejamos também pôr em prática à luz da mesma fé o ensino do II Concílio do Vaticano, daquele Concílio dos nossos tempos que tão generosamente manifestou a obra do Espírito Santo, que é Senhor e dá a vida, em toda a missão da Igreja. Desejamos, pois, actuar na vida esse Concílio, que se tornou a palavra de ordem e a tarefa das nossas gerações; e desejamos compreender ainda mais profundamente o ensino dos antigos Concílios, em particular o ensino daquele que se realizou há mil e seiscentos anos em Constantinopla.

Nesta luz — fixando o olhar no mistério do único Corpo, que é composto por diversos membros — nós, com renovado fervor, fazemos votos bem sentidos por que se realize aquela unidade a que, em Cristo, são chamados todos aqueles que — segundo as palavras de São Paulo foram "batizados num só Espírito para constituírem um só corpo" (1 Cor 12, 13); todos aqueles que foram "embebidos em um só Espírito" (1 Cor 12, 13). E desejamos isto com renovado fervor especialmente no dia de hoje, que nos recorda os tempos da Igreja indivisa. E por isso clamamos:

Ó Luz beatíssima / penetrai até ao mais íntimo nos corações dos vossos fiéis! (Sequência da solenidade de Pentecostes).

Nos nossos tempos nota-se que a face da terra se acha muitíssimo enriquecida, graças à criatividade e ao trabalho do homem, com as obras da ciência e da técnica, após terem sido tão profundamente explorados o interior da mesma terra e os espaços do universo cósmico; ao mesmo tempo, porém, a humanidade encontra-se perante ameaças até agora desconhecidas, que provêm da parte de forças que o próprio homem desencadeou.

E é hoje que nós, Pastores da Igreja, herdeiros daqueles que receberam o Espírito Santo no Cenáculo do Pentecostes, devemos sair, assim como eles saíram, conscientes da imensidade do Dom, que na Igreja é participado pela família humana: nós devemos sair... continuamente sair para o mundo e, encontrando-nos nas diversas partes da terra, devemos repetir ainda com maior fervor:

Que o Vosso Espírito desça

E renove a face da Terra! Que Ele desça!

Ao longo da história da humanidade e através do mundo visível, a Igreja não cessa de confessar:

Creio no Espírito!

Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida.

Neste Espírito nós permanecemos. Amém.

-- Homília na Solenidade de Pentecostes, Santo Papa João Paulo II, 7 de Junho de 1981

 

3 de abr. de 2021

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

 

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

Por que a Igreja canta durante a vigília pascal, velando sobre a tumba de Cristo, nesta tumba onde está depositado o seu corpo martirizado, retirado da cruz onde estava pregado, sinal da Antiga Aliança? Qual é o motivo desta festa de Páscoa?

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

Por que a Igreja canta durante a vigília pascal, que abre a Páscoa da Nova Aliança? Por toda superfície da terra, a Igreja está reunida para adorar o poder do Altíssimo: “A direita do Senhor é poderosa; fez maravilhas a direita do Senhor” (Sl 117, 16).

É este poder que revelou-se no início da criação do mundo. Deus disse: "Seja feito"; e criou os céus e a terra (Gn 1,1).

É este poder que manifestou-se na libertação do povo de Israel da escravidão no Egito, o poder que conduziu o povo eleito através do Mar Vermelho, salvando-o das mãos do Faraó.

A Igreja, reunida em frente à tomba de Cristo, medita maravilhada sobre as múltiplas formas que o poder de Deus se manifestou, seu poder criador, seu poder salvador.

Ó noite maravilhosa! Ó noite realmente abençoada!

É realmente abençoada esta noite na qual resplandece a luz de Cristo, na qual a vida vencerá a morte. De fato, é Cristo que fala no Salmo: "Não morrerei; viverei para narrar as obras do Senhor" (Sl 117, 17).

Estamos reunidos, pela fé, nesta vigília para experimentar este poder e o amor de Deus. Estamos aqui para acolher a sua revelação, como aconteceu com as três mulheres que, ao acordarem, foram encontrar o Senhor na sua tumba, como aconteceu com o apóstolo, que correu para o sepulcro. Sobre as mulheres, o Evangelho diz que não sabiam o que pensar, que estavam amedontradas (Lc 24, 3-4; Mc 16,5). Isto por que se encontraram com um mistério que supera a capacidade do homem, que o deixa surpreso, é um mistério tremendo.

Passado o medo, veio como uma admiração adorante; e a Igreja reunida em frente ao sepulcro de Cristo, no coração desta noite abençoada, enxerga o pecado iluminado por uma nova luz, e pode cantar: "Ó feliz culpa que nos trouxe tão grande redentor!". 

Realmente este é o sucesso daquela noite, "isto foi obra do Senhor, é um prodígio aos nossos olhos. Este é o dia que o Senhor fez: seja para nós dia de alegria e de felicidade" (Sl 117,23-24). 

Recebei a revelação do poder Deus

Convido a todos, de modo especial, a acolher esta revelação do poder de Deus, de seu poder criativo e salvador, em especial vós, caros irmãos e irmãs, que nesta noite pascal estão recebendo o Batismo. A Igreja vos acolhe com grande alegria, vós que pediram, de modo sacramental, entrar na morte de Cristo para ressurgir para uma vida nova. O Bispo de Roma vos saúda cordialmente, vos convida a entrar nesta fonte de salvação.

Eis um grupo de vinte e quatro pessoas, todos jovens, provenientes de uma dezena de países e vários continentes. São um sinal de como Cristo chama os seus discípulos de todos povos e nações, são um sinal da universilidade da mensagem evangélica. Pela vossa presença, nossa vigília pascal é especialmente importante por que faz presente o mistério pascal de Nosso Senhor Jesus Cristo, que está sempre presente nos sacramentos da Igreja. O poder da morte e ressureição de Cristo não para de agir nem de animar a humanidade.

Que coisa maravilhosa é a obra do poder divino, seu poder criativo, seu poder salvífico.

A Igreja nasce para vida na ressurreição do Senhor Ressuscitado. "A pedra rejeitada pelos arquitetos tornou-se a pedra angular" (Sl 117,22). Todos nós nascemos desta pedra, penetra em nós o sopro vivificante desta noite pascal, o sopro vivificante da ressurreição de Cristo. 

Estamos mortos para o pecado, porém vivos para Deus, em Cristo Jesus. (cf Rm 6,11; Col 2,13).

-- Papa João Paulo II, homília da Vigília de Páscoa, 6 de Abril de 1985.

-- tradução própria

2 de set. de 2020

Cristo falava do templo do seu corpo


 Destruí este templo e em três dias o reedificarei (Jo 2,19). Os apegados ao corpo e às coisas sensíveis, creio, parecem indicar os judeus, que irritados por terem sido expulsos por Jesus, acusando-os de transformarem a casa do Pai em mercado de seus produtos, pedem um sinal. Por esse sinal devia Jesus justificar o seu procedimento e provar que era o Filho de Deus, o que eles na sua incredulidade não queriam admitir. Mas o Salvador ajuntou uma palavra sobre seu corpo, como se falasse daquele templo; aos que interrogavam: Que sinal mostras para assim fazeres?, responde: Destruí este templo e em três dias o reedificarei.  

Todavia ambos, tanto o templo como o corpo de Jesus, compreendidos como unidade, parecem-me ser figura da Igreja. Por ter sido edificada com pedras vivas; feita casa espiritual para o sacerdócio santo (1Pd 2,5). Edificada sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, sendo sua máxima pedra angular o Cristo Jesus (Ef 2,20), existindo em verdade, como templo. Se, porém, por causa da palavra: Vós sois o corpo de Cristo e membros uns dos outros (1Cor 12,27), se entender serem destruídas e deslocadas as junturas e disposições das pedras do templo, como se lê no Salmo 21 sobre os ossos de Cristo, pelas ciladas das perseguições e tribulações e por aqueles que combatem a unidade do templo por contradições, levantar-se-á o templo e ressuscitará o corpo ao terceiro dia. Após o dia da maldade que pesa sobre ele, e após o dia da consumação que se seguir.  

Seguirá de perto o terceiro dia do novo céu e da terra nova, quando esses ossos, quero dizer, toda a casa de Israel, serão reerguidos, no grande domingo, em que a morte é vencida. Assim a ressurreição de Cristo depois da paixão contém o mistério da ressurreição do corpo total de Cristo. Como aquele corpo de Jesus, sensível, foi pregado na cruz, sepultado e depois ressuscitado, assim todo o corpo dos santos de Cristo com ele foi pregado na cruz e agora já não vive mais. Cada um deles, à semelhança de Paulo, não se gloria em coisa alguma a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo por quem está crucificado para o mundo e o mundo para ele.  

Por isto não apenas foi cada um de nós, junto com Cristo, pregado à cruz e crucificado para o mundo, mas também, junto com Cristo, sepultado: Fomos consepultados com Cristo, diz Paulo (Rm 6,4) e acrescenta como quem já recebeu as aras da ressurreição: E com ele ressuscitamos (cf. Rm 6,4). 

-- Do Comentário sobre o Evangelho de João, de Orígenes, presbítero (século I)

6 de ago. de 2020

É bom nós estarmos aqui


Jesus manifestou a seus discípulos este mistério no monte Tabor. Havia andado com eles, falando-lhes a respeito de seu reino e da segunda vinda na glória. Mas talvez não estivessem muito seguros daquilo que lhes anunciara sobre o reino. Para que tivessem firme convicção no íntimo do coração e, mediante as realidades presentes, cressem nas futuras, deu-lhes ver maravilhosamente a divina manifestação do monte Tabor, imagem prefigurada do reino dos céus. Foi como se dissesse: Para que a demora não faça nascer em vós a incredulidade, logo, agora mesmo, eu vos digo, alguns dos que aqui estão não provarão a morte antes de verem o Filho do homem vindo na glória de seu Pai (cf. Mt 16,28). Mostrando o Evangelista ser um só o poder de Cristo com sua vontade, acrescentou: E seis dias depois, tomou Jesus consigo Pedro, Tiago e João e levou-os a um monte alto e afastado. E transfigurou-se diante deles; seu rosto brilhou como o sol, as vestes se fizeram alvas como a neve. E eis que apareceram Moisés e Elias a falar com ele (cf. Mt 17,1-3). 

São estas as maravilhas da presente solenidade, é este o mistério de salvação para nós que agora se cumpriu no monte: ao mesmo tempo, congregam-nos agora a morte e a festa de Cristo. Para penetrarmos junto àqueles escolhidos dentre os discípulos, inspirados por Deus, na profundeza destes inefáveis e sagrados mistérios, escutemos a voz divina que do alto, do cume da montanha, nos chama instantemente.  

Para lá, cumpre nos apressarmos, ouso dizer, como Jesus, que agora nos céus é nosso chefe e precursor, com quem refulgiremos aos olhos espirituais – renovadas de certo modo as feições de nossa alma – conformados à sua imagem; e à semelhança dele, incessantemente transfigurados, feitos consortes da natureza divina e prontos para as alturas.  

Para lá corramos cheios de ardor e de alegria; entremos na nuvem misteriosa, semelhantes a Moisés e Elias ou Tiago e João. Sê tu também como Pedro, arrebatado pela divina visão e aparição, transfigurado por esta linda Transfiguração, erguido do mundo, separado da terra. Deixa a carne,abandona a criatura e converte-te para o Criador a quem Pedro, fora de si, diz: Senhor, é bom para nós estarmos aqui (Mt 17,4). 

Sim, Pedro, verdadeiramente é bom para nós estarmos aqui com Jesus e aqui permanecermos pelos séculos. Que pode haver de mais delicioso,de mais profundo, de melhor do que estar com Deus, conformar-se a ele, encontrar-se na luz? De fato, cada um de nós, tendo Deus em si, transfigurado em sua imagem divina, exclame jubiloso: É bom para nós estarmos aqui, onde tudo é luminoso, onde está o gáudio, a felicidade e a alegria. Onde no coração tudo é tranquilo, sereno e suave. Onde se vê a Cristo, Deus. Onde ele junto com o Pai tem sua morada e ao entrar, diz: Hoje chegou a salvação para esta casa (Lc 19,9). Onde com Cristo estão os tesouros e se acumulam os bens eternos. Onde as primícias e figuras dos séculos futuros se desenham como em espelho.

-- Do Sermão no dia da Transfiguração do Senhor, de Anastásio Sinaíta, bispo (século VII)

19 de jun. de 2020

Em vós está a fonte da vida


Considera, ó homem redimido, quem é aquele que por tua causa está pregado na cruz, qual a sua dignidade e grandeza. A sua morte dá a vida aos mortos; por sua morte choram o céu e a terra, e fendem-se até as pedras mais duras. Para que, do lado de Cristo morto na cruz, se formasse a Igreja e se cumprisse a Escritura que diz: Olharão para aquele que transpassaram (Jo 19,37), a divina Providência permitiu que um dos soldados lhe abrisse com a lança o sagrado lado, de onde jorraram sangue e água. Este é o preço da nossa salvação. Saído daquela fonte divina, isto é, no íntimo do seu Coração, iria dar aos sacramentos da Igreja o poder de conferir a vida da graça, tornando-se para os que já vivem em Cristo bebida da fonte viva que jorra para a vida eterna (Jo 4,14). 

            Levanta-te, pois, tu que amas a Cristo, sê como a pomba que faz o seu ninho na borda do rochedo (Jr 48,28), e aí, como o pássaro que encontrou sua morada (cf. Sl 83,4), não cesses de estar vigilante; aí esconde como a andorinha os filhos nascidos do casto amor; aí aproxima teus lábios para beber a água das fontes do Salvador (cf. Is 12,3). Pois esta é a fonte que brota no meio do paraíso e, dividida em quatro rios (cf. Gn 2,10), se derrama nos corações dos fiéis para irrigar e fecundar a terra inteira. 

            Acorre com vivo desejo a esta fonte de vida e de luz, quem quer que sejas, ó alma consagrada a Deus, e exclama com todas as forças do teu coração:“Ó inefável beleza do Deus altíssimo e puríssimo esplendor da luz eterna, vida que vivifica toda vida, luz que ilumina toda luz e conserva em perpétuo esplendor a multidão dos astros, que desde a primeira aurora resplandecem diante do trono da vossa divindade.  

            Ó eterno e inacessível, brilhante e suave manancial daquela fonte oculta aos olhos de todos os mortais! Sois profundidade infinita, altura sem limite, amplidão sem medida, pureza sem mancha!” 

            De ti procede o rio que vem trazer alegria à cidade de Deus (Sl 45,5), para que entre vozes de júbilo e contentamento (cf. Sl 41,5) possamos cantar hinos de louvor ao vosso nome, sabendo por experiência que em vós está a fonte da vida, e em vossa luz contemplamos a luz (Sl 35,10). 

-- Das Obras de São Boaventura, bispo (século XIII)

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