30 de out de 2012

Homília na Solenidade de Todos os Santos


Caros Irmãos e Irmãs!

É-me grato encontrar-me hoje no meio de vós para celebrar-mos juntos a Solenidade de Todos os Santos, uma das maiores do Ano Litúrgico, sem dúvida entre as mais características e mais queridas ao povo cristão. Apraz-me também concelebrar esta Santa Missa com numerosos Párocos da Cidade, os quais representam na comunhão do altar não só os seus beneméritos Irmãos, mas todas as Comunidades Paroquiais de Roma, sempre presentes no meu coração e nas minhas preocupações pastorais de Bispo da Urbe.

A festa hodierna recorda e propõe à comum meditação algumas componentes fundamentais da nossa fé cristã. No centro da Liturgia estão sobretudo os grandes temas da comunhão dos santos, do destino universal da salvação, da fonte de toda a santidade que é Deus mesmo, da esperança certa na futura e indestrutível união com o Senhor, da relação existente entre salvação e sofrimento, e de uma bem-aventurança que já desde agora qualifica aqueles que se encontram nas condições descritas por Jesus no Evangelho segundo Mateus. Como chave de toda esta rica temática, porém, está a alegria, como recitámos na Antífona da entrada: "Alegremo-nos todos no senhor nesta solenidade de todos os santos"; e é uma alegria singela, límpida, corroborante, como a de quem se encontra numa grande família onde sabe que aprofunda as próprias raízes e da qual haure a linfa da própria vitalidade e da sua própria identidade espiritual.

A primeira Leitura bíblica, tirada do livro do Apocalipse de João, transporta-nos, em termos fortemente simbólicos, para o meio da corte celeste, "em pé diante do trono e diante do Cordeiro", num contexto de transbordante exultação e de vastos horizontes. Aqui encontramos "uma grande multidão, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas" (Apoc. 7, 9). E já é um dado consolador que dá respiração à nossa alma, porque nos é assegurado que somos muitos a festejar. Quando um dia alguém perguntou a Jesus: "Senhor, são poucos os que que salvam?", ele não respondeu diretamente; todavia, embora recordando a necessidade de "entrar pela porta estreita", prosseguiu: "Hão-de vir do Oriente, do Ocidente, do Norte e do Sul e sentar-se-ão à mesa no reino de Deus" (Lc. 13, 23.24.29). Pois bem, nós hoje estamos imersos com o nosso espírito entre esta grande multidão de santos, de salvos, os quais, a partir do "justo Abel" (Mt. 23, 35), até a quem neste momento talvez esteja a morrer em qualquer parte do mundo, nos fazem coroa, nos dão coragem, e cantam todos juntos um poderoso coro de glória Aquele a quem os Salmistas chamam justamente "o Deus meu Salvador" (Sl. 24, 5) e "o Deus que é a minha alegria e o meu júbilo" (Sl. 42, 4).

De fato, neste dia, em que vivemos com particular acentuação a vivificante realidade da comunhão dos santos, devemos ter firmemente presente que no início, na base, no centro desta comunhão está o próprio Deus, que não só nos chama para a santidade, mas também e sobretudo no-la oferece magnanimamente no sangue de Cristo, vencendo assim os nossos pecados. Eis por que os santos do Apocalipse "clamam em alta voz, dizendo: 'A salvação pertence ao nosso Deus... e ao Cordeiro'" (7, 10), e depois "prostam-se sobre os seus rostos, diante do trono, e adoraram a Deus dizendo: 'Amén. Louvor, glória, sabedoria, acção de graças honra, poder e força ao nosso Deus, para todo o sempre'" (7, 12). Também nós devemos cantar ao Senhor um hino de gratidão e de adoração, como fez Maria com o seu Magnificat, para reconhecer e proclamar alegremente a magnificência e a bondade do "Pai que nos faz dignos de participar da sorte dos santos na luz... e nos transferiu para o Reino de Seu Filho muito amado" (Col. 1, 12-13). A festa de todos os santos, por conseguinte, convida-nos a não nos inclinarmos nunca sobre nós mesmos, mas a levantar os olhos para o Senhor a fim de estarmos alegres (cf. Sl. 34, 6); a não considerarmos as nossas pobres virtudes, mas a graça de Deus que sempre nos confunde (cf. Lc. 19, 5-6); a não fazermos conta das nossas forças, mas a confiar finalmente n'Aquele que nos amou quando ainda éramos pecadores (cf. Rom. 5, 8); e também a não nos cansarmos nunca de praticar o bem, porque de qualquer modo a nossa santificação é "vontade de Deus" (1 Tess. 4, 3).

Por sua vez, o Evangelho que há pouco foi lido faz-nos recordar um aspecto essencial da nossa identidade cristã e do que constitui a santidade. As Bem-aventuranças pronunciadas tão solenemente por Jesus colocam-se, por um lado, em antítese com alguns valores que pelo contrário são honrados pelo mundo e, por outro lado, na perspectiva de um destino futuro e definitivo, em que as situações são invertidas. Elas ou mantêm-se ou caem todas juntas; não se lhes pode extrair só uma e cultivá-la em prejuízo das outras. Todos os santos sempre foram e são contemporaneamente, embora em medida diversa, pobres de espírito, mansos, aflitos, famintos e sequiosos de justiça, misericordiosos, puros de coração, artífices de paz e perseguidos pela causa do Evangelho. E assim devemos ser também nós. Além disso, na base desta página evangélica é evidente que a bem-aventurança cristã, como sinónimo de santidade, não está separada de uma componente de sofrimento ou pelo menos de dificuldade: não é fácil ser ou querer ser pobres, mansos, puros; não se quereria ser perseguido, nem sequer por causa da justiça. Mas o reino dos céus é para os anticonformistas (cf. Rom. 12, 2), e são válidas também para nós as palavras de São Pedro: "Se sois ultrajados pelo nome de Cristo, bem-aventurados sois vós, porque o Espírito de glória, o Espírito de Deus, repousa sobre vós. Que nenhum de vós sofra por ser homicida, ladrão, difamador, ou por cobiçar os bens alheios. Mas, se sofre por ser cristão, não se envergonhe, antes glorifique a Deus por ter este nome" (1 Ped. 4, 14-16). De fato, a nossa perspectiva não é a breve termo, mas sem fim. São escritas para nós as palavras iluminadoras do apóstolo Paulo: "a nossa leve e momentânea tribulação prepara-nos, para além de toda e qualquer medida, um peso eterno de glória. Por isso, não olhamos para as coisas visíveis, mas para as invisíveis, porque as visíveis são passageiras, ao passo que as invisíveis são eternas" (2 Cor. 17-18).

Caros Irmãos e Irmãs, o lugar cemiterial em que estamos reunidos convida-nos a meditar também sobre o nosso destino futuro, ao mesmo tempo que cada um pensa nos próprios entes queridos, que já nos precederam no sinal da fé e dormem o sono da paz. A segunda Leitura bíblica da Missa, tirada da primeira Carta de São João apóstolo, exprimia-se assim: "agora somos filhos de Deus, e ainda não se manifestou o que havemos de ser" (3, 2). Há pois uma distância entre o que já somos e o que havemos de ser, isto é, em certo sentido, entre o que nós somos e o que já são os nossos defuntos. Entre estes dois pólos coloca-se a nossa expectativa e a nossa esperança, que vai muito além da morte, porque a considera apenas como uma passagem para encontrarmos definitivamente o Senhor e para sermos "semelhantes a Ele, porque O veremos como Ele é" (ibid.). Hoje somos também convidados a viver uma particular comunhão litúrgica a eles dedicada no dia de amanhã. Na fé e na oração restabelecemos assim os laços familiares com eles, que nos vêem, nos seguem e nos assistem. Eles, na expectativa da ressurreição, já vêem o Senhor "como Ele é", e por conseguinte encorajam-nos a prosseguir o caminho, ou melhor a peregrinação que ainda nos resta na terra. De fato, "não temos aqui a cidade permanente, mas vamos em busca da futura" (Heb. 13, 14). O importante é que não nos cansemos e sobretudo não percamos de vista a meta final. O pensamento voltado para os nossos defuntos ajuda-nos nisto porque eles já estão onde havemos de estar também nós. Melhor, há um campo comum entre nós e eles, que no-los torna próximos, e é a própria inserção no mistério trinitário do Pai, do Filho e do Espírito Santo, baseada no mesmo batismo: aqui damo-nos as mãos, porque neste âmbito não existe a morte, mas apenas a única corrente de vida que nunca tem ocaso.

Desta fé deriva a nossa alegria e a nossa força. O Senhor no-la mantenha sempre intacta e fecunda. E com a sua graça nos proteja e ampare sempre. Assim seja!

-- Homília proferida pelo Papa João Paulo II em 1o. de Novembro de 1980, Solenidade de Todos os Santos.

Capítulo 21 - Da compunção do coração


Sagrado Coração de Jesus e Imaculado Coração de Maria

  1. Se queres fazer algum progresso, conserva-te no temor de Deus e não busques demasiada liberdade; refreia, antes, todos os teus sentidos com a disciplina e não te entregues à vã alegria. Procura a compunção do coração e acharás a devoção. A compunção descobre tesouros, que a dissipação bem depressa costuma desperdiçar. É de estranhar que o homem jamais possa, nesta vida, gozar perfeita alegria, se considera seu exílio e pondera os muitos perigos de sua alma.
  2. Pela leviandade do coração e pelo descuido dos nossos defeitos não percebemos os males de nossa alma; e muitas vezes, rimo-nos frivolamente, quando, com razão, devíamos chorar. Não há verdadeira liberdade nem perfeita alegria, sem o temor de Deus e Boa consciência. Ditoso aquele que pode apartar de si todo estorvo das distrações e recolher-se com santa compunção. Ditoso aquele que rejeita tudo que lhe possa manchar ou agravar a consciência. Peleja varonilmente: um costume com outro se vence.
  3. Se souberes deixar os homens, eles te deixarão fazer tuas boas obras. Não te metas em coisas alheias, nem te impliques nos negócios dos grandes. Olha sempre primeiro para ti e admoesta-te com mais particularidade que a todos os teus amigos. Não te entristeça a falta dos humanos favores, mas penalize-te o não viveres com tanta cautela e prudência como convém a um servo de Deus e devoto religioso. Mais útil e mais seguro é para o homem não ter nesta vida muitas consolações, mormente sensíveis. Todavia, se não temos, ou raramente sentimos o consolo divino, a culpa é nossa, porque não procuramos a compunção do coração, nem rejeitamos de todo as vãs consolações exteriores.
  4. Reconhece que és indigno da consolação divina, mas antes merecedor de muitas aflições. Quando um homem está perfeitamente compungido, logo se lhe torna enfadonho e amargo o mundo todo. O homem justo sempre acha bastante matéria para afligir-se e chorar. Pois, quer olhe para si, quer para o próximo, sabe que ninguém passa esta vida sem tribulações. E quanto mais atentamente se considera, tanto mais profunda é a sua dor. Matéria de justa mágoa e profundo pesar são nossos pecados e vícios, aos quais de tal sorte estamos presos, que raras vezes podemos contemplar as coisas do céu.
  5. Se mais amiúdo pensasses na morte que numa vida de muitos anos, não há dúvida que tua emenda seria mais fervorosa. Se também meditasses seriamente nas penas futuras do inferno ou do purgatório, creio que sofrerias de bom grado trabalhos e dores, sem recear nenhuma austeridade. Mas, como estas coisas não nos penetram o coração e amamos ainda os regalos, ficamos frios e muito tíbios.
  6. É muitas vezes pela fraqueza do espírito que este miserável corpo se queixa tão facilmente. Pede, pois, humildemente ao Senhor que te dê o espírito de compunção, e dize, com o profeta: Sustenta-me, Senhor, com o pão das lágrimas e a bebida copiosa do pranto (Sl 79,6).

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

29 de out de 2012

Deus é fiel às suas promessas

Detalhe do mosaico sobre a ábside, na Igreja
de São Clemente em Roma.  A Igreja atual foi
erigida no século XI. Abaixo há outra construída
no século IV, sobre estruturas da casa de um nobre.
Abaixo da casa está um templo dedicado a Mitras,
construído 200 anos antes de Cristo. 

Consideremos, diletos, de que modo o Senhor continuamente nos mostra a futura ressurreição, que tem por primícias o Senhor Jesus Cristo, a quem ressuscitou dos mortos. Pensemos, caríssimos, na ressurreição que se dará em seu tempo. O dia e a noite nos lembram a ressurreição. A noite deita-se, levanta-se o dia; vai-se o dia, cresce a noite em seguida. Vejamos as searas; quem e como fez a semente? Saiu o semeador e lançou em terra uma semente qualquer. As que caíram limpas e secas na terra se dissolvem; depois pela dissolução, a imensa majestade da divina providência as ressuscita, e de uma só muitas brotam e produzem fruto multiplicado.

Portanto, com a mesma esperança unamos nosso espírito a ele, fiel a suas promessas e justo nos julgamentos. Ele, que proibiu mentir, com muito mais razão não mentirá. Pois nada é impossível a Deus a não ser mentir. Que se avive nossa confiança e consideremos tudo como em estreita relação com ele.

Por sua palavra onipotente, tudo criou e pode por uma palavra tudo destruir. Quem lhe dirá: Que fizeste? ou que força resistirá a seu poder? (cf. Sb 12,12). Quando quer, como quer, tudo fará e nada se omitirá do que uma vez decretou. Tudo está diante de seu olhar e nenhum pensamento lhe é oculto,se até os céus narram a glória de Deus, o firmamento anuncia a obra de suas mãos; o dia transmite ao dia a palavra, e a noite, o conhecimento; e não são falas nem palavras que não se possam ouvir (Sl 18,2-4).

Estando assim tudo patente a seus olhos e ouvidos, temamos e, deixemos de lado as cobiças impuras, para nos cobrir com sua misericórdia no futuro juízo. Porque, qual de nós poderá fugir de sua mão poderosa? Que mundo acolherá ao que dele fugir? Em certo lugar diz a Escritura: Aonde irei e onde me ocultarei de tua face? Se subir aos céus, tu ali estás; se for aos confins da terra, lá tua mão direita; se puser meu leito no mar, ali está teu espírito (cf. Sl 138,7-11). Aonde então irá alguém ou para onde fugirá daquele que tudo abarca?

Aproximemo-nos, portanto, na santidade, elevando para ele castas e puras mãos, amando o nosso benigno e misericordioso Pai que nos tornou participantes de sua eleição.

-- Da Carta aos coríntios, de São Clemente I, papa (século I)

O martírio de Santa Eulália


Santa Eulália nasceu em Emerita Augusta no ano de 292. Quando atingiu 12 anos, o imperador Diocleciano proibiu qualquer forma de culto a Jesus Cristo, mandando a todos adorar aos ídolos pagãos. A criança percebeu a injustiça das leis e resolveu protestar contra o governo. 

Sua mãe percebendo o risco, enviou-a para uma casa de campo, longe da cidade, mas de alguma forma ela chegou à cidade de Mérida. De madrugada, antes do amanhecer, se apresentou ao tribunal e gritou aos magistrados: "Digam-me que fúria é esta que os move a perder suas almas ao adorar ídolos falsos e negar o criador de todas as coisas? Se estais a procura de cristãos, aqui estou eu. Sou inimiga dos vossos deuses e estou disposta a pisoteá-los. Com a boca e o coração confesso o Deus verdadeiro. Isis, Apolo, Venus e até mesmo Maximiliano não são nada; uns porque obra dos homens, outro porque adora a coisas feitas por mãos humanas. Não se detenham, podem queimar-me, coratar meus membros; é coisa fácil quebrar um vaso frágil, porém minha alma não morrerá, por maior que seja a dor".

Sobremaneira irado, o governador Daciano ordenou ao pretor: "Apressa-te, cubra-la de suplícios para que saiba que há deuses e não é coisa que se faça não aceitar a sua autoridade". Porém, mudou de idéia e disse: "Tragam aqui os instrumentos de tortura". E disse-lhe: "Antes que morra, atrevida donzela, quero te mostrar tua loucura. Veja quantas alegrias podes desfrutar, que honras podes ter se te casares com um dignatário. Deixarás tua casa em lágrimas, teus pais ficarão gemendo de amor se te mantiveres obstinada a perder a vida. Veja estes instrumentos de suplício: ou te cortarão a cabeça com a espada, ou te queimará o fogo; e todos chorarão, enquanto te transformarás em cinzas. Que te custa evitar tudo isto? Basta tocares com a ponta de um só dedo a este sal consagrado e um pouquinho de incenso. Estarás totalmente perdoada". 

A menina respondeu-lhe: "A um só Deus oferecerei sacrifícios e queimarei incenso. A Ele e nada mais". Arrebatada de indignação, cuspiu no rosto do governador, jogou os ídolos no chão e com um pontapé derrubou o incensário em frente ao altar dos ídolos. Foi então que resolveram levar-lhe à prisão e aplicar-lhe três martírios, conforme ordenou o pretor Calpurniano.

O primeiro consistiu em açoitar-lhe com correias com espinhos que faziam cortes profundos por todo corpo. Sobre eles, Eulália disse: "Veja Senhor, que escrevem teu nome em meu corpo. Quão agradável é ler estas letras que assinalam a vitória de Jesus Cristo, que o meu sangue proclame o teu nome!"

Frente a tal destemor, Calpurniano mandou trazer azeite fervendo para derramar-lhe no corpo. Ela respondeu: "Este azeite não me fez mal, apenas acendeu ainda mais meu amor por Jesus Cristo".

Vendo isto, mandou-lhe queimar todo corpo lentamente, com tochas. Ela pediu-lhe: "Meu corpo esta assando, manda que me salguem para que minha carne possa ser um saboroso manjar a meu esposo celestial."

Então ordenou que a colocassem dentro do forno, mas viu que nada acontecia. Não tendo mais recursos, mando retirá-la e arrastá-la nua pela cidade até a praça onde as execuções eram realizadas. Foi então que avisou a Calpurniano: "Se não te arrependeres, aquele por cujo amor padeço, te dará o merecido castigo."

Ao chegar à praça, arrancaram-lhe as unhas dos pés e dedos e puseram-na em uma cruz. Levantando-a, deixaram cair a cruz para que quebrasse os ossos. Começaram novamente a queimar-lhe com tochas e vendo que chegava o fim de sua vida, disse suas últimas palavras: "Porque, Calpurniano, usas de crueldade contra mim? Pois abra teus olhos, veja meu rosto, grava-o bem em tua memória, para que no dia do juízo, quando compareceremos em frente ao meu Senhor e esposo Jesus Cristo, lembre-te de mim, pois ali receberás o castigo merecido por tua crueldade e eu receberei o prêmio pelos tormentos que ordenaste." 

As chamas atingiram o cabelo da virgem e ela faleceu. Dize-se que neste momento uma pomba branca saiu de seu corpo e, para admiração de todas testemunhas, subiu direto aos céus. O fogo apagou-se imediatamente e repousaram em paz os restos mortais. E todos puderam testemunhar este milagre, até mesmo os carrascos, surpreendidos, arrependeram-se. 

Mas Calpurniano ordenou que o corpo deveria ficar exposto, como exemplo para todos, por mais três dias. Foi então que nevou por três dias, cobrindo o cadáver. Ao final da tempestade, os cristãos apresentaram-se para recolher o corpo e dar-lhe digna sepultura. 

Assim que possível, uma igreja foi erguida no local de sua sepultura, tendo o altar principal sido construído exatamente sobre sua tumba. Relatos do século IV já afirmam que peregrinos visitavam a igreja para venerar seus santos ossos, que repousavam próximos ao Deus Vivo na Eucaristia. A Festa de Santa Eulália é celebrada em 10 de Dezembro.

Nota: Este texto trata de Santa Eulália de Mérida. Eventualmente pode ser confundida com Santa Eulália de Barcelona a quem é dedicada a Catedral (de Barcelona).


27 de out de 2012

Deus dispôs o mundo com justeza e harmonia


Consideremos com amor o Pai e Criador do mundo inteiro e unamo-nos com firmeza a seus magníficos e desmedidos dons da paz e aos benefícios. Pelo pensamento contemplemo-lo e demoremos o olhar do espírito em sua vontade generosa. Vejamos quão clemente se mostra para com toda criatura sua.

Os céus movidos por seu governo, se lhe submetem em paz; o dia e a noite, sem se embaraçarem mutuamente, realizam o curso que lhes determinou. O sol, a luz e todo o coro dos astros, em conformidade com sua ordem, desenvolvem, sem se enganar e em concórdia, a disposição para eles fixada. De acordo com a sua vontade, em tempo oportuno, a tera fecunda produz abundante alimento para os homens, as feras e todos os animais que nela existem, sem hesitação, sem alterar nada do que lhe foi ordenado.

Os inescrutáveis abismos, as regiões inacessíveis do oceano mantêm-se dentro de suas leis. A grandeza do mar imenso, reunida em ondas por sua determinação, não ultrapassa os limites postos a seu redor, mas como lhe ordenou, assim faz. Pois disse: Até aqui virás, e em ti mesmo se quebrarão tuas vagas (Jó 38,11). O oceano intransponível aos homens e os mundos que existem para além dele são governados pelos mesmos decretos do Senhor.

As estações da primavera, verão, outono e inverno se sucedem em paz umas às outras. Os guardas dos ventos no tempo marcado executam seu encargo sem obstáculo; também as fontes perenes, criadas para o uso e a saúde, oferecem sem falhas sua abundância para o sustento da vida humana; e os animais pequeninos, em paz e concórdia, fazem seus agrupamentos.

O grande artífice e Senhor de tudo ordenou que estes seres todos se fizessem em paz e concórdia, beneficiando a tudo, porém, com superabundância, a nós, que nos refugiamos em sua misericórdia por nosso Senhor Jesus Cristo, a quem a glória e a majestade pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Da Carta aos coríntios, de São Clemente I, papa (século I)

24 de out de 2012

Salmo 23: O Senhor entra no seu templo


Caríssimos Irmãos e Irmãs:

1. O antigo cântico do Povo de Deus, que agora acabamos de ouvir, ressoava no fundo do templo de Jerusalém. Para poder captar com clareza a ideia-base que atravessa este hino, é necessário ter bem  presentes  três  dos  seus  pressupostos fundamentais. O primeiro diz respeito à verdade da criação:  Deus criou o mundo e é o seu Senhor. O segundo refere-se ao juízo ao qual Ele submete as suas criaturas:  devemos apresentar-nos a Ele para sermos interrogados sobre o que realizamos. O terceiro é o mistério da vinda de Deus:  Ele vem ao mundo e à história, e deseja ter livre acesso, para estabelecer com os homens uma relação de profunda comunhão. Um comentador moderno escreveu:  "Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus; nós vivemos por obra de Deus, perante Deus e podemos viver com Deus" (G. Ebeling, Sobre os Salmos, Bréscia 1973, pág. 97).

2. A estes três pressupostos correspondem as três partes do Salmo 23, que agora procuraremos aprofundar, considerando-as como três partes de um tríptico poético e orante. A primeira é uma brve aclamação ao Criador, ao qual pertence a terra com os seus habitantes (vv. 1-2). É uma espécie de profissão de fé no Senhor da criação e da história. A criação, segundo a antiga visão do mundo, é concebida como uma obra arquitectónica:  Deus lança as bases da terra sobre o mar, símbolo das águas desordenadas e destruidoras, sinal do limite das criaturas, condicionadas pelo nada e pelo mal. A realidade está suspensa sobre este abismo e é a obra criadora e providencial de Deus que a conserva no ser e na vida.

3. Do horizonte cósmico a perspectiva do Salmista limita-se ao microcosmo de Sião, "o monte do Senhor". Estamos agora na segunda parte do Salmo (vv. 3-6). Estamos diante do templo de Jerusalém. A procissão dos fiéis dirige aos guardas da porta santa uma pergunta inicial:  "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Quem poderá permanecer em seu lugar santo?". Os sacerdotes como se verifica também em alguns textos bíblicos chamados pelos estudiosos "liturgia de entrada" (cf. Sl 14; Is 33, 14-16; Mq 6, 6-8) respondem fazendo o elenco das condições para poder ter acesso à comunhão com o Senhor no culto. Não se trata de normas meramente rituais e exteriores que devem ser cumpridas, mas de empenhos morais e existenciais a serem praticados. É quase como um exame de consciência ou um acto penitencial que precede a celebração litúrgica.

4. São três as exigências apresentadas pelos sacerdotes. Em primeiro lugar é preciso ter "mãos inocentes e um coração puro". "Mãos" e "coração" recordam a ação e a intenção, isto é, todo o ser do homem que deve estar radicalmente orientado para Deus e para a sua lei. A segunda exigência é a de "não dizer mentiras" que, na linguagem bíblica, não remete apenas para a sinceridade mas sobretudo para a luta contra a idolatria, sendo os ídolos falsos deuses, ou seja, "mentira". Desta forma, recorda-se o primeiro mandamento do Decálogo, a pureza da religião e do culto. Por fim, eis a terceira condição que diz respeito às relações com o próximo:  "não jurar com perfídia contra o próximo". A palavra, como sabemos, numa civilização oral como era a do antigo Israel, não podia ser instrumento de engano, mas ao contrário, símbolo de relações sociais inspiradas na justiça e na rectidão.

5. Desta forma, chegamos à terceira parte que descreve indiretamente a entrada jubilosa dos fiéis no templo para se encontrarem com o Senhor (vv. 7-10). Num sugestivo jogo de apelos, perguntas e respostas, apresenta-se a revelação progressiva de Deus, marcada por três dos seus títulos solenes:  "Rei da glória, Senhor forte e poderoso, Senhor dos exércitos". As portas do templo de Sião são personificadas e convidadas a levantar os seus dintéis para deixar entrar o Senhor que toma posse da sua casa.

O cenário triunfal, descrito pelo Salmo nesta terceira parte poética foi utilizada pela liturgia cristã do Oriente e do Ocidente para recordar tanto a vitoriosa descida de Cristo ao inferno, da qual fala a Primeira Carta de Pedro (cf. 3, 19), como a gloriosa ascensão ao céu do Senhor ressuscitado (cf. Act 1, 9-10). O mesmo Salmo ainda é cantado em coros alternados pela liturgia bizantina na noite pascal, da mesma forma como era utilizado pela liturgia romana, no final da procissão dos ramos, no segundo Domingo da Paixão. A solene liturgia da abertura da Porta Santa, durante a inauguração do Ano Jubilar, permitiu-nos reviver com intensa comoção interior os mesmos sentimentos vividos pelo Salmista quando atravessou a porta do antigo Templo de Sião.

6. O último título, "Senhor dos exércitos", não tem como poderia parecer à primeira vista um carácter marcial, mesmo se não exclui uma referência às tropas de Israel. Ao contrário, está dotado de um valor cósmico:  o Senhor, que agora está para vir ao encontro da humanidade dentro do espaço limitado do santuário de Sião, é o Criador que tem por exército todas as estrelas do céu, ou seja, todas as criaturas do universo que lhe obedecem. No livro do profeta Baruc lê-se:  "As estrelas brilham nos seus postos e alegram-se. Ele chama-as e elas respondem:  "Aqui estamos". E, jubilosas, dão luz ao Seu criador" (Br 3, 34-35). O Deus infinito, omnipotente e eterno adapta-se às criaturas humanas, aproxima-se delas para as encontrar, ouvir e entrar em comunhão com elas. E a liturgia é a expressão deste encontro na fé, no diálogo e no amor.

-- Papa João Paulo II, na audiência de 20 de Junho de 2001

23 de out de 2012

Capítulo 20 - Do amor à solidão e ao silêncio




Ludoico Cigoli -  São Francisco em oração

  1. Procura tempo oportuno para cuidar de ti e relembra a miúdo os benefícios de Deus. Renuncia às curiosidades e escolhe leituras tais, que mais sirvam para te compungir, que para te distrair. Se te abstiveres de conversações supérfluas e passeios ociosos, como também de ouvir novidades e boatos, acharás tempo suficiente e adequado para te entregares a santas meditações. Os maiores santos evitavam, quando podiam, a companhia dos homens, preferindo viver com Deus, em retiro.
  2. Disse alguém: "Sempre que estive entre os homens menos homem voltei" (Sêneca, Epist. 7). Isso experimentamos muitas vezes, quando falamos muito. Mas fácil é calar de todo, do que não tropeçar em alguma palavra. Mas fácil é ficar oculto em casa, que fora dela ter a necessária cautela. Quem, pois, pretende chegar à vida interior e espiritual, importa-lhe que se afaste da turba, com Jesus. Ninguém, sem perigo, se mostra em público, senão quem gosta de esconder-se. Ninguém seguramente fala, senão quem gosta de calar. Ninguém seguramente manda, senão o que perfeitamente aprendeu a obedecer.
  3. Não pode haver alegria segura, sem o testemunho de boa consciência. Contudo, a segurança dos santos estava sempre misturada com o temor de Deus; nem eram menos cuidadosos e humildes em si mesmos, porque resplandeciam em grandes virtudes e graças. A segurança dos maus, porém, nasce da soberba e presunção, e acaba por enganar-se a si mesma. Nunca te dês por seguro nesta vida, ainda que pareças bom religioso ou ermitão devoto.
  4. Muitas vezes os melhores no conceito dos homens correram graves perigos, por sua demasiada confiança. Por isso, para muitos é melhor não serem de todo livres de tentações, mas que sejam freqüentemente combatidos, para que não confiem demasiadamente em si, nem se exaltem com soberba, nem tampouco busquem com ânsia as consolações exteriores. Oh! Quem nunca buscasse alegria transitória, nem deste mundo cuidasse, que consciência pura teria! Oh! Quem arredasse todo vão cuidado, para só cuidar das coisas salutares e divinas, pondo toda a sua confiança em Deus, de que grande paz e sossego gozaria!
  5. Ninguém é digno da consolação celestial, senão quem se excitar, com diligência, na santa compunção. Se queres compungir-te de coração, entra em teu quarto, despede todo o bulício do mundo, conforme está escrito: Compungi-vos em vossos cubículos (Sl 4,5). Na cela acharás o que fora dela muitas vezes perdes. A cela bem guardada causa doçura, e pouco freqüentada gera enfado. Se bem a guardares e habitares no princípio de tua conversão, ser-te-á depois querida companheira e suavíssimo consolo.
  6. No silêncio e sossego faz progressos uma alma devota e aprende os segredos das Escrituras. Ali ela acha a fonte de lágrimas, com que todas as noites se lava e purifica, para tanto mais de perto unir-se ao Criador quanto mais retirada viver do tumulto do mundo. Aquele, pois, que se aparta de seus amigos e conhecidos verão aproximar-se Deus com seus santos anjos. Melhor é estar solitário e tratar de sua alma, que, descurando-a, fazer milagres. Merece louvor o religioso que raro sai, que foge de ser visto pelos homens e nem procura vê-los.
  7. Para que queres ver o que não te é lícito possuir? Passa o mundo e a sua concupiscência (1Jo 2,17). A inclinação sensual convida a passeios; passada, porém, àquela hora, que nos fica senão consciência pesada e coração distraído? À saída alegre, muitas vezes sucede um regresso triste, e à véspera deleitosa uma triste manhã. Assim, todo gosto carnal entra suavemente; no fim, porém, remorde e mata. Que poderás ver alhures que aqui não vejas? Eis: aqui tens o céu, a terra e todos os elementos; e deles são feitas todas as coisas.
  8. Que poderás ver, em parte alguma, estável debaixo do sol por muito tempo? Pensas talvez te satisfazer completamente? Pois não o conseguirás. Se visses diante de ti todas as coisas, que seria senão vã fantasia? Levanta os olhos a Deus nas alturas e pede perdão de teus pecados e negligências. Deixa as vaidades para os fúteis; tu, porém, atende ao que Deus te manda. Fecha atrás de ti a porta e chama a teu Jesus amado. Fica-te com ele em tua cela, porque tanta paz em outra parte não acharás. Se não tivesses saído, e escutado os rumores do mundo, melhor terias conservado a santa paz; enquanto folgares de ouvir novidades, terás que sofrer desassossego do coração.


-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

20 de out de 2012

Na oração exercita-se a nossa vontade

Alter de Ghent, com as portas fechadas. Catedral de
São Bavon, Ghent. 
Por que nos dispersamos entre muitas coisas e, temendo rezar de modo pouco conveniente,  indagamos o que pedir, em vez de dizer com o salmo: Uma só coisa pedi ao Senhor, a ela busco: habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida, para contemplar as delícias do Senhor e visitar seu templo? (Sl 26,4). Pois ali os dias não vêm e vão, o fim de um não é o princípio de outro. Todos ao mesmo tempo não têm fim, ali onde nem a própria vida, a que pertencem estes dias, tem fim.

Para alcançarmos esta vida feliz, a verdadeira Vida nos ensinou a orar. Não com multiplicidade de palavras, como se quanto mais loquazes fôssemos, mais nos atenderia. Mas rogamos àquele que conhece, conforme suas mesmas palavras, aquilo que nos é necessário, antes mesmo de lhe pedirmos (cf. Mt 6,7-8).

Pode alguém estranhar por que motivo assim dispôs quem já de antemão conhece nossa necessidade. Temos de entender que o intuito de nosso Senhor e Deus não é ser informado sobre nossa vontade, que não pode ignorar. Mas despertar pelas orações nosso desejo, o que nos tornará capazes de conter aquilo que se prepara para nos dar. Iso é imensamente grande, mas nós somos pequenos e estreitos demais para recebê-lo. Por isto, nos é dito: Dilatai-vos; não aceiteis levar o jugo com os infiéis (2Cor 6,13-14).

Isso é tão imensamente grande que os olhos não o viram, porque não é cor; nem os ouvidos ouviram, porque não é som; nem subiu ao coração do homem (cf. 1Cor 2,9), já que o coração do homem deve subir para lá. Iso nós o recebemos com tanto maior capacidade quanto mais fielmente cremos, com mais firmeza esperamos, mais ardentemente desejamos.

Por conseguinte, nesta fé, esperança e caridade, sempre oramos pelo desejo incessante. Contudo, em certas horas e tempos também rezamos a Deus com palavras, para nos exortar a nós mesmos, mediante seus símbolos, e avaliar nosso progresso neste desejo e a nos estimular com maior veemência a aumentá-lo. Pois tanto mais digno resultará o efeito, quanto mais fervoroso preceder o afeto.

É também por isso que diz o Apóstolo: Orai sem cessar! (1Ts 5,17). O que isso pode significar a não ser: desejai sem cessar a vida feliz, a eterna, e nenhuma outra, recebida daquele que é o único que a pode dar?

-- Da Carta a Proba, de Santo Agostinho, bispo. (século V)

19 de out de 2012

Capítulo 19 - Dos exercícios do bom religioso


Santo Inácio de Loyola - Autor dos Exercícios Espirituais

  1. A vida do bom religioso deve ser ornada de todas as virtudes, para que corresponda o interior ao que por fora vêem os homens; e com razão, ainda mais perfeito deve ser no interior do que por fora parece, pois lá penetra o olhar perscrutador de Deus, a quem devemos suma reverência, em qualquer lugar onde estivermos, e em cuja presença devemos andar com pureza Angélica. Cada dia devemos renovar nosso propósito e exercitar-nos a maior fervor, como se esse fosse o primeiro dia de nossa conversão, dizendo: Confortai-me, Senhor, meu Deus, no bom propósito e em vosso santo serviço; concedei-me começar hoje deveras, pois nada é o que até aqui tenho feito.
  2. A medida da nossa resolução será nosso progresso, e grande solicitude exige o sério aproveitamento. Se aquele que toma enérgicas resoluções tantas vezes cai, que será daquele que as toma raramente ou menos firmemente propõe? Sucede, porém, de vários modos deixarmos o nosso propósito; e raras vezes passa sem dano qualquer leve omissão de nossos exercícios. O propósito dos justos mais se firma na graça de Deus, que em sua própria sabedoria; nela confiam sempre, em qualquer empreendimento. Porque o homem propõe, mas Deus dispõe, e não está na mão do homem o seu caminho (Jer 10,23).
  3. Quando, por motivo de piedade ou proveito do próximo, se deixa alguma vez o costumado exercício, fácil é reparar depois essa falta; omiti-lo, porém, facilmente, por enfado ou negligência, já é bastante culpável, e sentir-se-á o prejuízo. Esforcemo-nos quanto pudermos, ainda assim cairemos em muitas faltas; contudo, devemos sempre fazer um propósito determinado, mormente contra os principais obstáculos do nosso progresso espiritual. Devemos examinar e ordenar tanto o interior como o exterior, porque ambos importam ao nosso aproveitamento.
  4. Se não podes continuamente estar recolhido, recolhe-te de vez em quando, ao menos uma vez por dia, pela manhã ou à noite. De manhã toma resoluções, e à noite examina tuas ações: como te houveste hoje em palavras, obras e pensamentos, porque nisso, talvez não raro, tenhas ofendido a Deus e ao próximo. Arma-te varonilmente contra as maldades do demônio; refreia a gula, e facilmente refrearás todo apetite carnal. Nunca estejas de todo desocupado, mas lê ou escreve ou reza ou medita ou faze alguma coisa de proveito comum. Nos exercícios corporais, porém, haja toda discrição, porque não convém igualmente a todos.
  5. Os exercícios pessoais não se devem fazer publicamente, mais seguro é praticá-los secretamente. Guarda-te de ser negligente nos exercícios da regra, e mais diligente nos particulares; mas, satisfeitas inteira e fielmente as coisas de obrigação e preceito, se tempo sobrar, ocupa-te em exercícios, conforme te inspirar a tua devoção. Nem todos podem ter o mesmo exercício; um convém mais a este, outro àquele. Até do tempo depende a conveniência e o atrativo das práticas; porque umas são mais apropriadas para os dias festivos, outras para os dias comuns; dumas precisamos para o tempo da tentação, de outras no tempo de paz e sossego. Numas coisas gostamos de meditar quando estamos tristes, e noutras quando estamos alegres no Senhor.
  6. À volta das festas principais devemos renovar os nossos bons exercícios e com mais fervor implorar a intercessão dos santos. De uma para outra festividade devemos preparar-nos, como se então houvéssemos de sair deste mundo e chegar à festividade eterna. Por isso, devemos aparelhar-nos diligentemente, nos tempos de devoção, com vida mais piedosa e observância mais fiel de todas as regras, como se houvéssemos de receber em breve o galardão do nosso trabalho.
  7. E, se for adiada essa hora, tenhamos por certo que não estamos ainda bem preparados nem dignos de tamanha glória que, a seu tempo, se revelará em nós, e tratemos de nos preparar para a morte. Bem-aventurado o servo. Diz o evangelista São Lucas, a quem o Senhor, quando vier, achar vigiando. Em verdade vos digo que o constituirá sobre todos os seus bens (12, 37 e 43).

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

18 de out de 2012

Santa Mariana Cope

A segunda nova iorquina que será canonizada pelo Papa Bento XVI neste domingo é a Irmã Marianna Cope, que aceitou o convite de São Damião para morrer pelos leprosos. 


Marianne Cope nasceu em 23 de janeiro de 1838, numa região de Hesse, Alemanha. No ano seguinte a família emigrou para os Estados Unidos, indo residir em Utica, no estado de Nova Iorque. Tornaram-se membros da Paróquia de São José. Quando estava na oitava série, seu pai tornou-se inválido. Sendo a filha mais velha, começou a trabalhar em uma fábrica. Com a morte do pai em 1862 e considerando que as irmãs já podiam também trabalhar, sentiu-se livre para seguir a sua vocação religiosa. Entrou no noviciado da Irmãs da Terceira ordem Franciscana, em Siracuse. Após completar a formação e receber o hábito, tornou-se professora em uma escola para imigrantes alemães mantida pela Igreja. 

Em 1870, já como membro do Conselho da Congregação envolveu-se na abertura dos primeiros hospitais católicos no estado. Já naquela época decidiram que os hospitais deveriam atender a todos, sem discriminação de raça e religião. Como diretora do hospital em Siracuse, participou do acordo que transferiu a Escola de Medicina de Geneva para Siracuse. Algo inédito, no contrato entre as partes estipulava-se que os pacientes teriam direito a serem tratados por médicos formados, não por estudantes. 


Em 1883, Madre Mariana, Superiora Geral da Congregação, recebeu um pedido por ajuda na colonia de leprosos no Havai, cujo diretor era São Damião de Molokai. Mais de 50 outras ordens já haviam recusado o convite, mas ela respondeu entusiasticamente:

Estou ansiosa por esta tarefa e desejo de todo coração ser uma das escolhidas. Que grande privilégio será sacrificar-se pela salvação destas almas. Não estou com medo da doença, pelo contrário, será um grande prazer servir aos abandonados leprosos.

Junto com outras seis irmãs, viajou para Honolulu, onde chegou em 8 de Novembro de 1883. Os sinos da catedral tocaram para bem recebê-las. Tendo Madre mariana como supervisora, as irmãs foram encarregadas do Hospital na ilha de Oahu, que recebia os pacientes de todas as ilhas e ministrava os primeiros tratamentos. Na medida em que o caso se agravava, os pacientes eram enviados para a colônia na ilha de Molokai. Após dois anos de trabalho, seus serviços já eram reconhecidos, sendo que o próprio rei agradeceu-lhe pessoalmente. Em 1885, as irmãs fundaram uam casa para receber as crianças órfãs de pais leprosos, que eram rejeitadas por todos. Mas um novo governo, em 1887, decidiu fechar o hospital e Oahu e transferir todos doentes para Molokai. Mesmo sabendo que nunca mais poderia retornar, as irmãs aceitaram a missão e partiram para Molokai. 

Em Novembro de 1888 passou a tratar pessoalmente do Pe. Damião e assumir suas tarefas. Permaneceu em Molokai até 9 de Agosto de 1918, qando faleceu de causas naturais, sem nunca ter tido lepra, algo considerado miraculoso. Foi beatificada em 14 de maio de 2005, pelo Papa Bento XVI. Seus restos mortais foram transferidos do Havai para Siracuse, onde foi construído um santuário em sua honra. 
Madre Mariana ao lado do corpo
de São Damião de Molokai.

Sobre ela, o Papa Bento XVI falou: A vida da Madre Marianne Cope caracterizou-se por uma profunda fé e amor, que deu o fruto de um espírito missionário de imensa esperança e confiança. Em 1862, ela entrou na Congregação das Irmãs Franciscanas, em Syracuse, onde ficou impregnada da particular espiritualidade de São Francisco de Assis, dedicando-se inteiramente às obras de misericórdia espirituais e corporais. A sua própria experiência de vida consagrada deu lugar a um apostolado extraordinário, enriquecido de virtudes heróicas. Fiel ao carisma da Ordem e segundo a imitação de São Francisco, que abraçou os leprosos, Madre Marianne partiu para a missão como voluntária, com um "Sim" confiante. E durante trinta e cinco anos, até à sua morte, ocorrida em 1918, a nossa nova Beata dedicou  a  sua  vida  ao  amor  e  ao serviço dos leprosos nas ilhas de Maui e de Molokai.

Sem dúvida, humanamente falando, a generosidade de Madre Marianne foi exemplar. Contudo, somente as boas intenções e o altruísmo não explicam adequadamente a sua vocação. Só a perspectiva da fé pode fazer-nos compreender o seu testemunho como cristã e como religiosa deste amor sacrifical, que alcançou a sua plenitude em Jesus Cristo.






17 de out de 2012

Salmo 28: O Senhor proclama solenemente a sua palavra

Caríssimos Irmãos e Irmãs:

Jesus controla a tempestade. Aquarela, de Manz. 
1. Alguns estudiosos consideram o Salmo 28, que acabamos de recitar, como um dos textos mais antigos do Saltério. É poderosa a imagem que o sustém no seu desenvolvimento poético e orante:  de fato, estamos perante o desencadear progressivo de uma tempestade. Ela é marcada no original hebraico por uma palavras, qol, que significa ao mesmo tempo "voz" e "trovão". Por isso alguns comentadores deram ao nosso texto o título de "Salmo dos sete trovões", devido ao número de vezes que essa palavra nele é repetida. Pode dizer-se, com efeito, que o Salmista concebe o trovão como um símbolo da voz divina que, com o seu mistério transcendente e inatingível, irrompe na realidade criada chegando ao ponto de a perturbar e amedrontar, mas que no seu significado mais profundo é palavra de paz e de harmonia. Aqui o pensamento vai para o capítulo 12 do IV Evangelho, onde a voz que, do céu, responde a Jesus, é entendida pela multidão como um trovão (cf. Jo 12, 28-29).

Ao propor o Salmo 28 para a oração das Laudes, a Liturgia das Horas convida-nos a assumir uma atitude de profunda e confiante adoração da Majestade divina.

2. São dois os momentos e os lugares aos quais o cantor bíblico nos conduz. No centro (cf. vv. 3-9) encontra-se a representação da tempestade que se desencadeia a partir da "extensão das águas" do Mediterrâneo. As águas marinhas, aos olhos do homem da Bíblia, encarnam a desordem que atenta contra a beleza e o esplendor da criação, chegando a corrompê-la, a destruí-la e a abatê-la. Por conseguinte, temos na observação da tempestade que se enfurece, a descoberta do poder imenso de Deus. Quem reza vê o furacão que se desloca para norte e cai na terra firme. Os cedros altíssimos do monte Líbano e do monte Sirion, chamado outras vezes Hermon, são arrancados pelos raios e parecem saltar sob os trovões como animais amedrontados. Os estrondos aproximam-se, atravessam toda a Terra Santa e descem para sul, nas estepes desérticas de Kades.

3. Após esta visão de grande movimento e tensão somos convidados a contemplar, por contraste, outro cenário que é representado no início e no final do Salmo (cf. vv. 1-2.9-11). Ao assombro e ao medo contrapõe-se agora a glorificação adorante de Deus no templo de Sião.

Há quase um canal de comunicação que une o santuário de Jerusalém com o santuário celeste:  nestes dois âmbitos sagrados há paz e eleva-se o louvor à glória divina. O barulho ensurdecedor dos trovões é substituído pela harmonia do cântico litúrgico, o terror pela certeza da protecção divina. Agora Deus aparece "dominante sobre a tempestade" como "rei para sempre" (v. 10), isto é, como o Senhor e o Soberano de toda a criação.

4. Diante destes dois quadros antitéticos o orante é convidado a realizar uma dupla experiência. Em primeiro lugar, deve descobrir que o mistério de Deus, expresso no símbolo da tempestade, não pode ser apreendido e dominado pelo homem. Como canta o profeta Isaías, o Senhor, semelhante ao esplendor ou à tempestade, irrompe na história semeando pânico em relação aos perversos e aos opressores. Sob a intervenção do seu juízo, os adversários soberbos são  destronados  como  árvores  atingidas por um furacão ou como cedros despedaçados pelas flechas divinas (cf. Is 14, 7-8).

Nesta luz é evidenciado aquilo que o pensador  moderno  (Rudolph  Otto) qualificou como o tremendum de Deus, ou seja, a sua transcendência inefável e a  sua  presença  de  juíz  justo  na  história da humanidade. Ela ilude-se em vão ao pensar que pode opor-se ao seu poder soberano. Também Maria exaltará no Magnificat este aspecto do agir de Deus:  "Exerceu a força com o Seu braço e aniquilou os que se elevavam no seu próprio conceito. Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes" (Lc 1, 51-52).

5. Mas o Salmo apresenta-nos outro aspecto do rosto de Deus, o que se descobre na intimidade da oração e na celebração da liturgia. Segundo o pensador mencionado, é o fascinosum de Deus, ou seja, o fascínio que provém da sua graça, o mistério do amor que se propaga no fiel, a segurança serena da bênção reservada para o justo. Até perante a confusão do mal, das tempestades da história, e da própria cólera da justiça divina, o orante se sente em paz, envolvido pelo manto de protecção que a Providência oferece a quem louva a Deus e segue os seus caminhos. Através da oração chega-se à consciência de que o verdadeiro desejo do Senhor consiste em conceder a paz.

No templo é restabelecida a nossa apreensão e cancelado o nosso terror; nós participamos na liturgia celeste com todos "os filhos de Deus", anjos e santos. E sobre a tempestade, semelhante ao dilúvio destruidor da maldade humana, curva-se então o arco-íris da bênção divina, que recorda "a aliança eterna concluída entre Deus e todos os seres vivos de toda a espécie que há na terra" (Gn 9, 16).

É esta, principalmente, a mensagem que se realça na leitura "cristã" do Salmo. Se os sete "trovões" do nosso Salmo representam a voz de Deus no universo, a expressão mais nobre desta voz é aquela com que o Pai, na teofania do Batismo de Jesus, revelou a Sua identidade mais profunda como "Filho muito amado" (Mc 1, 11 e par.). São Basílio escreve:  "Talvez, e de maneira mais mística, "a voz do Senhor sobre as águas" ecoou quando veio uma voz do alto ao batismo de Jesus e disse:  Este é o Meu Filho muito amado. Então, de fato, o Senhor pairava sobre muitas águas, santificando-as com o batismo. O Deus da glória ecoou do alto com a voz poderosa do seu testemunho... E podes também entender como "trovão" aquela mudança que, depois do batismo, se realiza através da grande "voz" do Evangelho" (Homilias sobre os Salmos:  PG 30, 359).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 13 de Junho de 2001

15 de out de 2012

Santa Catarina Tekakwitha

No próximo domingo, 21 de Outubro, o Papa Bento XVI canonizará sete beatos, sendo duas nova-iorquinas. 

Única imagem conhecida de Santa Kateri em vida,
pintada pelo Pe. Chauchetiere.
Uma delas é a Beata Kateri (Catarina) Tekakwitha, índia Mohawk, nascida em 1656, filha do chefe Kenneronkwa e Tagaskouita, uma índia Algonquin que havia sido criada por jesuítas franceses e sequestrada pelos Mohawks. Uma epidemia de sarampo atingiu a tribo em 1661, quando seus pais e o irmão morreram. Kateri ficou com cicatrizes e a vista afetada. Quando tinha 11 anos, seu tio proibiu qualquer contato com os jesuítas, após uma filha sua abandonar a tribo para ir morar numa missão. Mas na primavera de 1675, com 18 anos, Kateri conheceu o Pe. Jacques de Lamberville, com quem começou a estudar o catecismo.

Considerando sua conversão verdadeira, Pe. Lamberville batizou-a na Páscoa de 1676, em 18 de Abril. Após batizada, índios da sua tribo a acusaram injustamente de ser promíscua, provavelmente por despeito, pois ela recusou-se a casar com um não-cristão. Rejeitada pela tribo, teve que partir para uma missão próxima à Montreal, onde outras índias convertidas moravam. 

Na tradição Mohawk os guerreiros faziam sacrifícios de caráter religioso, até sangrarem. Apesar da oposição dos jesuítas, as mulheres insistiam que deveriam fazer mortificações severas devido aos muitos pecados das suas tribos. Diz-se que Kateri colocava espinhos sobre sua cama, além de praticar jejuns e longas horas de oração. 

Segundo o Pe. Cholonec, Tekakwitha  afirmou durante a Festa da Anunciação: "Após muito deliberar, decidi o que fazer: consagrei-me inteiramente a Jesus, filho de Maria. Escolhi-o como meu marido e apenas Ele poderá me ter como esposa". Por isso, Kateri é considerada a primeira virgem Mohawk. Após algum tempo pediu permissão para formar um grupo de mulheres a quem orientaria, mas os jesuítas consideraram ser muito cedo para tal tarefa. De qualquer modo, alguns conselhos seus eram sempre lembrados por suas companheiras: 
  • "Tenham coragem, apesar das palavras daqueles que não tem fé."
  • "Assegurem-se que sejam agradáveis à vista de Deus e eu as ajudarei quando estiver com Ele.
  • "Nunca desistam das mortificações."
Na Semana Santa de 1679, suas companheiras notaram que Kateri não estava bem. Chamaram o Pe. Cholenec para ministrar os últimos ritos. Após recebê-los, ela exclamou: "Irei amá-los no céu". E estas foram sua últimas palavras. Após sua morte, sua face se reconstituiu, desaparecendo as cicatrizes do sarampo. Teria ainda aparecido três vezes: para suas companheiras Mariè-Therese e Anastasia; e uma terceira para o Pe. Chauchetière. As amigas disse que se alegrassem, pois estava indo para o céu.

Foi beatificada pelo Papa João Paulo II, em 22 de Junho de 1980. Dela disse o Papa: Esta admirável coroa dos novos beatos, dom beneficente de Deus à Sua Igreja, é completado por esta doce, frágil mas também forte figura de jovem mulher que morreu quando tinha apenas 24 anos de idade: Catarina Tekakwitha, o "Lírio dos Mohawks", a donzela iroquesa, que na América do Norte do século XVII foi a primeira a renovar as maravilhas de santidade de Santa Escolástica, Santa Gertrudes, Santa Catarina de Sena, Santa Angela Merici e Santa Rosa de Lima, precedendo no sofrimento do Amor, a sua grande irmã espiritual, Teresa do Menino Jesus.

11 de out de 2012

Magnificat, o cântico de Maria

Magnificat é o nome dado comumente ao cântico de Maria em Lc 1,46-55, recitado como resposta à saudação de sua prima Isabel. Ele se aproxima, tanto no tema quanto no tom e expressão, ao cântico de Ana (1Sm 2,1-10), com o qual pode ser colocado em paralelo. A exemplo de Ana, ele expressa os temas da predileção de Deus pelos pobres e por Israel, em detrimento de ricos e poderosos.

Como forma e estilo, trata-se de um salmo pessoal de agradecimento.  É difícil imaginar que o Magnificat quissesse registrar literalmente as palavras de Maria: trata-se de um cântico que aflorou aos lábios porque se adequava à situação, muito embora não se refira explicatamente nem a ela, nem ao messias. 

Sua posição no contexto evangélico deve ser tribuída à fonte de que Lucas se vale para elaborar suas narrativas do nascimento e infância de Jesus. Não se pode dizer com certeza que tenha sido elaborado pelo autor para ser colocado nessa posição; a hipótese mais provável é que se tratava de hino já existente, provavelmente um salmo judaico adotado pela comunidade cristã primitiva. 

Coloco agora o texto evangélico, entremeado de indicações de passagens bíblicas relacionadas. Ler os trechos paralelos é certamente interessante para melhor compreender as referências ao Antigo Testamento ao longo do texto.

46. Maria  então disse: Minha alma engrandece o Senhor, 
 [1Sm 2,1-10; Is 29, 19; 1Sm 2,1; Is 61,10; Hb 3,18; Sf 2,3; Mt 5,3; Dt 7,6; Gn 15,1; Gn 17,1]
47. e meu espírito exulta em Deus meu Salvador,
48. porque olhou para humilhação de sua serva. Sim! Doravante as gerações todas me chamaram de bem-aventurada,
[1Sm 1,11; 1Sm 11,27; Gn 30,13]
49. pois o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor. Seu nome é santo
50. e sua misericórdia perdura de geração em geração, para aqueles que o temem.
[Sl 103, 17]
51. Agiu coma força de seu braço, dispersou os homens de coração orgulhoso.
52. Depôs poderosos de seus tronos e a humildes exaltou.
[Jó 12,19; Jó 5,11]
53. cumulou de bens a famintos e despediu ricos de mãos vazias.
[Sl 107, 9]
54. socorreu Israel, seu servo, lembrando de sua misericórdia
[Is 41, 8-9; Sl 98,3]
55. conforme prometera a nossos pais, em favor de Abraão e de sua descedência, para sempre!
[Gn 12,3; Gn 13,15; Gn 22,18]

Capítulo 18 - Dos exemplos dos Santos Padres


Santos Padres da Igreja - Guido Reni
  1. Contempla os salutares exemplos dos Santos Padres, nos quais brilhou a verdadeira perfeição religiosa, e verás quão pouco ou quase nada é o que fazemos. Ah! Que é a nossa vida em comparação com a deles? Os santos e amigos de Cristo serviram ao Senhor em fome e sede, em frio e nudez, em trabalho e fadiga, em vigílias e jejuns, em orações e santas meditações, em perseguições e muitos opróbrios.
  2. Oh! Quantas e quão graves tribulações sofreram os apóstolos, os mártires, os confessores, as virgens e todos quantos quiseram seguir as pisadas de Cristo! Odiaram suas almas neste mundo, para possuí-las eternamente no outro. Oh! Que vidas austeras e mortificadas levaram os Santos Padres no deserto! Que contínuas e graves tentações suportaram! Quantas vezes foram atormentados pelo inimigo! Quantas orações fervorosas ofereceram a Deus! Que rigorosas abstinências praticaram! Que zelo e fervor tiveram em seu adiantamento espiritual! Que guerra fizeram para subjugar os vícios! Com que pura e reta intenção buscaram a Deus! Durante o dia trabalhavam e passavam as noites em orações ainda que trabalhando não interrompessem um momento a oração mental.
  3. Todo o tempo era empregado utilmente; toda hora lhes parecia breve convivida com Deus; e pela grande doçura das contemplações se esqueciam até da necessária refeição do corpo. Renunciavam a todas as riquezas, dignidades, honras, amigos e parentes; nada queriam do mundo; apenas tomavam o indispensável para a vida e só com pesar satisfaziam as exigências da natureza. Assim eram pobres nos bens terrenos, mas muito ricos de graças e virtudes. Exteriormente lhes faltava tudo; interiormente, porém, se deliciavam com graças e consolações divinas.
  4. Ao mundo eram estranhos, mas íntimos e familiares amigos de Deus. A si mesmos tinham em conta de nada, e o mundo os desprezava; mas eram preciosos e queridos aos olhos de Deus. Mantinham-se na verdadeira humildade, viviam em singela obediência, andavam em caridade e paciência; assim cada dia faziam progresso na vida espiritual e mais a Deus agradavam. Esses foram dados por modelos a todos os religiosos, e mais nos devem estimular ao progresso espiritual, do que a multidão dos tíbios ao esmorecimento.
  5. Oh! Quanto foi o fervor de todos os religiosos, nos primeiros tempos de seus santos institutos! Quanta piedade na oração! Que emulação nas virtudes! Que austera disciplina vigorava então! Que respeito e obediência aos preceitos do superior reluzia em todos! Os vestígios que deixaram ainda atestam que foram verdadeiramente varões santos e perfeitos os que em tão renhidos combates venceram o mundo. Hoje já se considera grande quem não é transgressor da regra e com paciência suporta o jugo que se impôs.
  6. Ó tibieza e desleixo do nosso estado, que tão depressa declinamos do fervor primitivo, e já nos causa tédio o viver, por tanta negligência e frouxidão! Oxalá em ti não entorpeça de todo o desejo de progredir nas virtudes, já que tantos modelos viste de perfeição!

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

10 de out de 2012

São Pascal Baylon

Retrato de São Pascal, conservado na
capela de Torre Hermosa, sua cidade
natal.  
São Pascal Baylon nasceu em Torre Hermosa próximo ao reino de Aragón em 24 de Maio de 1540, dia da festa de Pentecostes, naquela época chamada Páscoa do Espírito Santo, daí o nome Pascal. Ele passou a infância trabalhando como pastor. Desde pequeno acostumou-se a carregar livros para o campo e foi assim que aprendeu a ler e escrever.  

Aos 21 anos juntou-se aos fransciscanos na cidade de Loreto. Como irmão leigo, por muitos anos serviu como porteiro e jardineiro, com paciência e bom humor. Segundo seu biógrafo, irmão João, foi um frade exemplar, sempre o primeiro nas horas de orações, sempre apaziguando os espíritos e disposto ao serviço. 

Como outros santos porteiros, ganhou reputação de realizar milagres, como multiplicação dos pães para os pobres, cura de enfermos, dom de profecia e, certa vez, teria pedido a Deus para jorrar água de uma pedra.  Segundo a tradição popular, muitas vezes enquanto estava orando experimentava alegria tão grande que punha-se a bailar.

Um relato autêntico é de um certo Martim Crespo, que estava determinado a matar por vingança os assassinos de seu pai. 

Numa sexta-Feira Santa houve uma representação da Via Crucis. Assim como todos na cidade, segui o cortejo da cruz através das ruelas. Num último esforço para mudar minhas intenções, meus amigos me forçaram a ouvir a pregação de um padre. Ele concluiu de maneira eloquente dizendo que devería me arrepender e converter, em memória da Paixão de Jesus Cristo. Mas seu discurso encontrou-me frio e indiferente. Então exclamei em alta voz: "Pare de me atormentar, é inútil, jamais irei perdoá-los". Irmão Pascal, que eu nem havia percebido até aquele momento, tomou-me pela mão e me conduziu a um local mais tranquilo.

"Meu filho", disse ele, "não acabaste de ver uma representação da Paixão de Cristo?" então, com um olhar que penetrou meu coração, pediu "Pelo amor de jesus Crucificado, meu filho, perdoa-os." 

"Sim, padre", respondi, balançando minha cabeça e concordando. "Pelo amor de Deus, eu os perdoo de todo meu coração." e não mais me sentia mesma pessoa. Como por encantamento, um lobo sedento de sangue transformou-se um cordeiro. 

A multidão aguardava ansiosamente o resultado da nossa misteriosa conversa. Quando Pascal anunciou que eu havia perdoado meus inimigos, eles explodiram num longo aplauso. O pregador, no entanto, parecia mortificado, pois as palavras de um mero irmão haviam sido mais eficazes que a sua bela retórica. 

Pascal é lembrado principalmente pelas longas horas que passava em adoração ao Santíssimo Sacramento. Devido a sua grande devoção, foi escolhido como patrono dos congressos eucarísticos. Morreu em 17 de Maio de 1592, também dia de Pentecostes. Segundo testemunhas, na missa de corpo presente, no momento da consagração, teria abrido os olhos para adorar a Eucaristia uma última vez. 

Foi beatificado pelo Papa Paulo V em 19 de Outubro de 1618 e canonizado por Alexandre VIII em 16 de Outubro de 1690.




Capítulo 17 - Da vida monástica



  1. Aprende a abnegar-te em muitas coisas, se queres ter paz e concórdia com os outros. Não é pouco habitar em mosteiros ou congregações religiosas, viver ali sem queixas e perseverar fielmente até à morte. Bem-aventurado é aquele que aí vive bem e termina a vida com um fim abençoado! Se queres permanecer firme e fazer progressos, considera-te como desterrado e peregrino sobre a terra. Convém fazer-te louco por amor de Cristo, se queres seguir a vida religiosa.
  2. De pouca monta são o hábito e a tonsura: são a mudança dos costumes e a perfeita mortificação das paixões que fazem o verdadeiro religioso. Quem outra coisa procura senão a Deus só e a salvação de sua alma, só achará tribulações e angústias. Não pode ficar por muito tempo em paz quem não procura ser o menor e o mais submisso de todos.
  3. Para servir vieste, não para mandar; lembra-te que foste chamado para trabalhar e sofrer, e não para folgar e conversar. Aqui, pois, se provam os homens, à semelhança do ouro na fornalha. Aqui, ninguém perseverará, se não quiser humilhar-se, de todo o coração, por amor de Deus.

-- Do livro "Imitação de Cristo"(século XV)

8 de out de 2012

Só a Deus a honra e a glória

"Sede bendito... para todo o sempre, Senhor, Deus do nosso pai Israel!" (1 Cr 29, 10). Este intenso cântico de louvor, que o primeiro livro das Crónicas põe nos lábios de Davi, faz-nos reviver a explosão de alegria com que a comunidade da antiga aliança saudou os grandes preparativos realizados com vista à construção do templo, fruto de um compromisso conjunto do rei e de muitos que tinham trabalhado com ele. Como que competiam em generosidade, porque isto exigia uma morada que não "se destina a um homem, mas ao Senhor Deus" (1 Cr 29, 11).

Ao reler aquele acontecimento, séculos depois, o Cronista intui os sentimentos de Davi e de todo o povo, a sua alegria e admiração por quantos tinham oferecido a sua contribuição:  "O povo alegrava-se com as suas oferendas voluntárias, pois era de coração generoso que as faziam ao Senhor. O próprio rei Davi sentiu alegria" (1 Cr 299).

Este é o contexto em que nasce o Cântico. Mas ele só considera brevemente a satisfação humana, para pôr a glória de Deus imediatamente no centro da atenção:  "A Vós, Senhor, a grandeza... a Vós, Senhor, a realeza...". A grande tentação que está sempre à espreita, quando se realizam obras pelo Senhor, é a de nos colocarmos a nós mesmos no centro, como se nos sentíssemos credores de Deus. Davi, pelo contrário, atribui tudo ao Senhor. Não é o homem, com a sua inteligência e a sua força, o primeiro artífice de quanto se realizou, mas sim o próprio Deus.

Davi expressa desta forma a profunda verdade de que tudo é graça. Num certo sentido, aquilo que foi colocado à disposição para o templo, não é senão a restituição, além disso extremamente exígua, de quanto Israel recebeu no inestimável dom da aliança que Deus estipulou com os antepassados. Na mesma linha, Davi dá mérito ao Senhor por tudo o que constituiu a sua sorte, tanto em campo militar como nos sectores político e económico. Tudo vem d'Ele!

Daqui, o impulso contemplativo destes versículos. Parece que ao autor do Cântico não bastam as palavras, para professar a grandeza e o poder de Deus. Ele considera-O sobretudo na especial paternidade demonstrada a Israel, "nosso pai". Este é o primeiro título que exige o louvor "agora e sempre".

Na recitação cristã destas palavras, não podemos deixar de recordar que esta paternidade se revelou de modo completo na encarnação do Filho de Deus. Ele, só Ele, é que pode falar a Deus chamando-lhe, em sentido próprio e afectuosamente, "Abba" (Mc 14, 36). Ao mesmo tempo, através do dom do Espírito, é-nos comunicada a sua filiação que nos torna "filhos no Filho". A bênção do antigo Israel por parte de Deus Pai adquire para nós a intensidade que Jesus nos manifestou, ensinando-nos a chamar a Deus "Pai nosso".

Depois, o olhar do autor bíblico alarga-se da história da salvação para todo o cosmos, a fim de contemplar a grandeza de Deus Criador:  "Tudo, nos céus e na terra, é vosso!". E ainda, "Vós sois soberano sobre todas as coisas". Como no Salmo 8, o orante do nosso Cântico ergue a cabeça para a o firmamento infinito, dirigindo em seguida o olhar admirado para a imensidão da terra e tudo vê submetido ao domínio do Criador. Como expressar a glória de Deus? As palavras sobrepõem-se, numa espécie de sucessão mística:  grandeza, poder, glória, majestade e esplendor; e depois, ainda força e potência. Tudo o que o homem experimenta de belo e de grande deve referir-se Àquele que está na origem de todas as coisas e que tudo governa. O homem sabe que tudo quanto possui é dádiva de Deus, como salienta Davi, dando continuidade ao Cântico:  "Quem  sou  eu  e  quem  é  o meu  povo,  para  que  possamos  fazer-vos  voluntariamente  estas  oferendas?" (1 Cr 29, 14).

Este pano de fundo da realidade, como dom de Deus, ajuda-nos a conjugar os sentimentos de louvor e de reconhecimento do Cântico com a autêntica espiritualidade do ofertório, que na liturgia cristã nos faz viver sobretudo na celebração eucarística. É o que emerge da dupla oração com que o sacerdote oferece o pão e o vinho, destinados a tornar-se Corpo e Sangue de Cristo:  "Da vossa bondade recebemos este pão, fruto da terra e do trabalho do homem, e apresentamo-lo a Vós para que se torne para nós alimento de vida eterna". Esta oração é repetida sobre o vinho. Sentimentos análogos são sugeridos tanto pela divina Liturgia bizantina, como pelo antigo Canon Romano, quando na anamnese eucarística exprimem a consciência de oferecer como dom a Deus, as coisas d'Ele recebidas.

A última aplicação desta visão de Deus é realizada pelo Cântico, tendo em vista a experiência humana da riqueza e do poder. Estas duas dimensões apareceram enquanto Davi predispunha o necessário para construir o templo. Também para ele mesmo podia ser uma tentação, aquela que é uma tentação universal:  agirmos como se fôssemos árbitros absolutos daquilo que possuímos, fazendo disto um motivo de orgulho e de injustiça em relação ao próximo. A oração cadenciada neste Cântico leva o homem à sua dimensão de pobre, que tudo recebe.

Então, os reis desta terra são unicamente uma imagem do Reino divino:  "a Vós, Senhor, a realeza!". Os abastados não podem esquecer-se da origem dos seus próprios bens:  "É de Vós que vêm a riqueza e a glória". Os poderosos devem saber reconhecer-se em Deus, como fonte "de toda a grandeza e de todo o poder". O cristão é chamado a interpretar estas expressões, contemplando com exultação Cristo ressuscitado, glorificado por Deus "acima de todo o Principado, Potestade, Virtude e Dominação" (Ef 1, 21).

Cristo  é  o  verdadeiro  Rei  do  universo!

-- Papa João Paulo II, na audiência de 6 de Junho de 2001

7 de out de 2012

É preciso meditar sobre os mistérios da salvação


* Esta é a leitura da Liturgia das Horas para a Festa de Nossa Senhora do Rosário, celebrada em 7 de Outubro.

O santo, que nascer de ti, será chamado Filho de Deus (cf. Lc 1,35), fonte de sabedoria, o Verbo do Pai nas alturas! Este Verbo, através de ti, Virgem santa, se fará carne, de modo que aquele que diz: Eu no Pai e o Pai em mim (Jo 10,38), dirá também: Eu saí do Pai e vim (Jo 16,28).

No princípio, diz João, era o Verbo. Já borbulha a fonte, mas por enquanto apenas em si mesma. Depois, e o Verbo era com Deus (Jo 1,1), habitando na luz inacessível. O Senhor dizia anteriormente: Eu tenho pensamentos de paz e não de aflição (cf. Jr 29,11). Mas teu pensamento está dentro de ti, ó Deus, e não sabemos o que pensas; pois quem conheceu a mente do Senhor ou quem foi seu conselheiro? (cf. Rm 11,34).

Desceu, por isto, o pensamento da paz para a obra da paz: O Verbo se fez carne e já habita em nós (Jo 1,14). Habita totalmente pela fé em nossos corações, habita em nossa memória, habita no pensamento e chega a descer até a imaginação. Que poderia antes o homem pensar sobre Deus, a não ser talvez fabricando um ídolo no coração? Era incompreensível e inacessível, invisível e inteiramente impensável; agora, porém, quis ser compreendido, quis ser visto, quis ser pensado.

De que modo, perguntas? Por certo, reclinado no presépio, deitado ao colo da Virgem, pregando no monte, pernoitando em oração; ou pendente da cruz, pálido na morte, livre entre os mortos e dominando o inferno; ou ainda ressurgindo ao terceiro dia, mostrando aos apóstolos as marcas dos cravos, sinais da vitória, e, por último, diante deles subindo ao mais alto do céu.

O que não se poderá pensar verdadeira, piedosa e santamente disto tudo? Se penso algo destas realidades, penso em Deus e em tudo ele é o meu Deus. Meditar assim, considero sabedoria, e tenho por prudência renovar a lembrança da suavidade que, em essência tão preciosa, a descendência sacerdotal produziu copiosamente, e que, haurindo do alto, Maria trouxe para nós em profusão.

-- Dos Sermões de São Bernardo, abade (século XII)

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