28 de ago de 2013

São João Batista - Precursor de Cristo no nascimento e na morte

O santo precursor do nascimento, da pregação e da morte do Senhor mostrou o vigor de seu combate, digno dos olhos divinos, como diz a Escritura: E se diante dos homens sofreu tormentos, sua esperança está repleta de imortalidade (cf. Sb 3,4). Temos razão de celebrar a festa do dia do nascimento daquele que o tornou solene para nós por sua morte, e o ornou com o róseo fulgor de seu sangue. É justo venerarmos com alegria espiritual a memória de quem selou com o martírio o testemunho que deu em favor do Senhor.

Não há que duvidar, se São João suportou o cárcere e as cadeias, foi por nosso Redentor, de quem dera testemunho como precursor. Também por ele deu a vida. O perseguidor não lhe disse que negasse a Cristo, mas que calasse a verdade. No entanto morreu por Cristo.

Porque Cristo mesmo disse: Eu sou a verdade (Jo 14,6); por conseguinte, morreu por Cristo, já que derramou o sangue pela verdade. Antes, quando nasceu, pregou e batizou, dava testemunho de quem iria nascer, pregar, ser batizado. Também apontou para aquele que iria sofrer, sofrendo primeiro.

Um homem de tanto valor terminou a vida terena pela efusão do sangue, depois do longo sofrimento da prisão. Aquele que proclamava o Evangelho da liberdade da paz celeste, foi lançado por ímpios às cadeias; foi fechado na escuridão do cárcere quem veio dar testemunho da luz e por esta mesma luz, que é Cristo, tinha merecido ser chamado de lâmpada ardente e luminosa. Foi batizado no próprio sangue aquele a quem tinha sido dado batizar o Redentor do mundo, ouvir sobre ele a voz do Pai, ver descer a graça do Espírito Santo. Contudo, para quem tinha conhecimento de que seria recompensado pelas alegrias perpétuas não era insuportável sofrer tais tormentos pela verdade, mas, pelo contrário, fácil e desejável.

Considerava desejável aceitar a morte, impossível de evitar por força da natureza, junto com a palma da vida perene, por ter confessado o nome de Cristo. Assim disse bem o Apóstolo: Porque vos foi dado por Cristo não apenas crer nele, mas ainda sofrer por ele (Fl 1,29). Diz ser dom de Cristo que os eleitos sofram por ele, conforme diz também: Os sofrimentos desta vida não se comparam à futura glória que se revelará em nós (Rm 8,18).

-- Das Homilias de São Beda Venerável, presbítero (século VIII)

* O Martírio de São João Batista é celebrado em 29 de Agosto

27 de ago de 2013

Salmo 120 cantado em hebraico - Shir lama'alot

O cantor chama-se Yosef Karduner, nasceu em 1969, é judeu ortodoxo, casado e tem sete filhos. Pesquisando um pouco, encontrei uma frase interessante, durante uma entrevista que concedeu a TV israelense*: Costumava ficar chateado porque eu gostaria que a minha música permanecesse inocente, mas vejo que certos artistas misturam com outras músicas e garotas. Mas cantam sem a minha permissão. Já tentei parar, proibir, mas não pude. Hoje já não me incomoda, vem em favor de Israel. As pessoas me dizem: "Eu não rezo, esta canção é minha oração". Vejo como um grande presente de Deus.

Como ele diz, é como uma oração, a letra (conforme a tradução) é  fiel ao Salmo 120**. A música é muito bonita, acho que vale a pena conhecer. Certamente seria interessante adaptá-la para o português, mas, por favor, resolvam os direitos autorais com o autor (é possível encontrá-lo no Facebook).  



As legendas que acompanham o vídeo estão creditadas para Felipe Banzato e Priscila Martins.

* Traduzido do hebraico para inglês usando Google Translator, daí passei para o português.
** O título do vídeo é Salmo 121, mas a diferença de numeração dos Salmos é bem conhecida. 

Procuremos alcançar a sabedoria eterna

27 de Agosto, Dia da Festa de Santa Mônica
Estando bem perto o dia em que ela deixaria esta vida – dia que conhecias e que ignorávamos – aconteceu por oculta disposição tua, como penso, que eu e ela estivéssemos sentados sozinhos perto da janela que dava para o jardim da casa onde nos tínhamos hospedado, lá junto de Óstia Tiberina. Ali, longe do povo, antes de embarcarmos, nos refazíamos da longa viagem. Falávamos a sós, com muita doçura e, esquecendo-nos do passado, com os olhos no futuro, indagávamos entre nós sobre a verdade presente, quem és tu, como seria a futura vida eterna dos santos, que olhos não viram, nem ouvidos ouviram nem subiu ao coração do homem (cf. 1Cor 2,9). Mas ansiávamos com os lábios do coração pelas águas celestes de tua fonte, fonte da vida que está junto de ti.

Eu dizia estas coisas, não deste modo nem com estas palavras. No entanto, Senhor, tu sabes que naquele dia, enquanto falávamos, este mundo foi perdendo o valor, junto com todos os seus deleites. Então disse ela: “Filho, quanto a mim, nada mais me agrada nesta vida. Que faço ainda e por que ainda aqui estou, não sei. Toda a esperança terrena já desapareceu. Uma só coisa fazia-me desejar permanecer por algum tempo nesta vida: ver-te cristão católico, antes de morrer. Deus me atendeu com a maior generosidade, porque te vejo até como seu servo, desprezando a felicidade terrena. Que faço aqui?” 

O que lhe respondi, não me lembro bem. Cinco dias depois, talvez, ou não muito mais, caiu com febre. Doente, um dia desmaiou, sem conhecer os presentes. Corremos para junto dela, mas recobrando logo os sentidos, viu-me a mim e a meu irmão e disse-nos, como que procurando algo semelhante: “Onde estava eu?”

Em seguida, olhando-nos, opressos pela tristeza, disse: “Sepultai vossa mãe”. Eu me calava e retinha as lágrimas. Mas meu irmão falou qualquer coisa assim que seria melhor não morrer em terra estranha, mas na pátria. Ouvindo isto, ansiosa, censurando-o com o olhar por pensar assim, voltou-se para mim: “Vê o que diz”. Depois falou a ambos: “Ponde este corpo em qualquer lugar. Não vos preocupeis com ele. Só vos peço que vos lembreis de mim no altar de Deus, onde quer que estiverdes”. Terminando como pôde de falar, calou-se e continuou a sofrer com o agravamento da doença. Finalmente, no nono dia da sua doença, aos cinquenta e seis anos de idade e no trigésimo terceiro da minha vida, aquela alma piedosa e santa libertou-se do corpo.

-- Dos Livros das Confissões, de Santo Agostinho, bispo (Séc.V)

26 de ago de 2013

Cântico de Ana: A alegria e a esperança dos humildes encontra-se em Deus

1. Ana pronunciou esta prece: Exulta o meu coração no Senhor, nele se eleva a minha força; a minha boca desafia os meus adversários, porque me alegro na vossa salvação.
2. Ninguém é santo como o Senhor. Não existe outro Deus, além de vós, nem rochedo semelhante ao nosso Deus.
3. Não multipliqueis palavras orgulhosas, não saia da vossa boca linguagem arrogante, porque o Senhor é um Deus que tudo sabe; por ele são pesadas as ações.
4. Quebra-se o arco dos fortes, enquanto os fracos se revestem de vigor.
5. Os abastados se assalariam para ganharem o que comer, enquanto os famintos são saciados. Sete vezes dá à luz a estéril, enquanto a mãe de numerosos filhos enlanguesce.
6. O Senhor dá a morte e a vida, faz descer à habitação dos mortos e de lá voltar.
7. O Senhor empobrece e enriquece; humilha e exalta.
8. Levanta do pó o mendigo, do esterco retira o indigente, para fazê-los sentar-se entre os nobres e outorgar-lhes um trono de honra, porque do Senhor são as colunas da terra. Sobre elas estabeleceu o mundo.
9. Dirige os passos dos seus fiéis, enquanto os ímpios perecem nas trevas; porque homem algum vence pela força.
10. Ó Senhor, sejam esmagados os vossos adversários! Dos céus troveje o Altíssimo contra eles, o Senhor julgue os últimos confins da terra! Dará força ao seu rei, e engrandecerá o poder do seu ungido.

Caríssimos Irmãos e Irmãs

Uma voz feminina orienta-nos hoje na oração de louvor ao Senhor da vida. De fato, na narração do Primeiro Livro de Samuel, é Ana quem entoa o hino que acabamos de proclamar, depois de ter oferecido ao Senhor o seu menino, o pequeno Samuel. Ele será profeta em Israel e assinalará com a sua ação a passagem do povo hebraico para uma nova  forma  de  governo,  a  monárquica, que terá como protagonistas o desventurado rei Saul e o glorioso rei David.  Ana  deixará  atrás  de  si  uma  história de sofrimentos porque, como diz a narração, o Senhor "tinha-a feito estéril" (1 Sm 1, 5).

No antigo Israel a mulher estéril era considerada como um ramo seco, uma presença morta, também porque impedia que o marido tivesse uma continuidade na recordação das gerações seguintes, um fato importante numa visão ainda incerta e obscura do além.

Mas Ana tinha posto a sua confiança no Deus da vida e rezara da seguinte forma:  "Senhor dos exércitos, se Vos dignardes olhar para a aflição da Vossa serva e Vos lembrardes de mim; se não Vos esquecerdes da Vossa escrava e lhe derdes um filho varão, eu o consagrarei ao Senhor durante todos os dias da minha vida" (v. 11). E Deus ouviu o grito desta mulher humilhada, dando-lhe precisamente Samuel:  o ramo seco produziu um rebento vivo (cf. Is 11, 1); o que era impossível aos olhos humanos tornou-se  uma  realidade  palpitante  naquela criança que iria ser consagrada ao Senhor.

O cântico de agradecimento, que veio aos lábios desta mãe, será retomado e reelaborado por outra mãe, Maria, que, permanecendo virgem, irá gerar por obra do Espírito de Deus. Com efeito, o Magnificat da mãe de Jesus deixa entrever o cântico de Ana que, precisamente por isso, é chamado "o Magnificat do Antigo Testamento".

Na realidade, os estudiosos fazem notar que o autor sagrado pôs nos lábios de Ana uma espécie de salmo real, cheio de citações ou alusões a outros Salmos.

Sobressai em primeiro plano a imagem do rei hebraico, invadido por adversários mais poderosos, mas que no final é salvo e triunfa porque, ao seu lado, o Senhor quebra o arco dos fortes (cf. 1 Sam 2, 4). É significativo o final do cântico quando, numa solene epifania, entra em cena o Senhor:  "Tremerão diante do Senhor os seus inimigos! Trovejará do céu sobre eles. O Senhor julga os últimos confins da terra! Ele dará o império ao Seu Rei, e exaltará o poder do Seu ungido" (v. 10). Em hebraico, a última palavra é precisamente "Messias", isto é "ungido", que permite transformar esta oração real em cântico de esperança messiânica.

Desejaríamos realçar dois temas neste hino de agradecimento que exprime os sentimentos de Ana. O primeiro dominará também o Magnificat de Maria e é a transformação do destino realizada por Deus. Os fortes são humilhados, os fracos "revestidos de vigor"; os saciados vão desesperadamente à procura de alimento e os famintos sentam-se para um banquete sumtuoso; o pobre é arrancado da poeira e recebe "um trono de glória" (cf. vv. 4.8).

É fácil sentir nesta antiga oração a orientação das sete ações que Maria vê realizar na história por Deus Salvador:  "Exerceu a força com o Seu braço e aniquilou os que se elevavam no seu próprio conceito. Derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes. Encheu de bens os famintos e aos ricos despediu-os com as mãos vazias. Tomou a Seu cuidado Israel, Seu servo" (Lc1, 51-54).

É uma profissão de fé pronunciada pelas duas mães em relação ao Senhor da história, que se manifesta em defesa dos últimos, dos pobres e infelizes, dos ofendidos e dos humilhados.

Outro tema que desejamos esclarecer relaciona-se ainda mais com a figura de Ana:  "A estéril foi mãe de sete filhos e a mulher que tinha muitos filhos deixou de conceber" (1 Sm 2, 5). O Senhor que inverte os destinos é também aquele que está na origem da vida e da morte. O seio estéril de Ana era semelhante a um túmulo; e não obstante, Deus fez germinar nele a vida, porque ele "tem nas Suas mãos a alma de todo o ser vivente, e o sopro de vida de todos os homens" (Jó 12, 10). Em continuidade, canta-se logo a seguir:  "O Senhor é que dá a morte e a vida, leva à habitação dos mortos e tira dela" (1 Sm 2, 6).

A esperança já não diz respeito apenas à vida do menino que nasce, mas também à que Deus pode fazer desabrochar depois da morte. Desta forma, abre-se um horizonte quase "pascal" de ressurreição. Isaías cantará:  "Os vossos mortos reviverão, os seus cadáveres ressuscitarão, despertarão jubilosos os que jazem no sepulcro! Porque o vosso orvalho é um orvalho de luz, e a terra das sombras dará à luz" (Is 26, 19).


24 de ago de 2013

O Papa pode lhe telefonar

Em 15 de Agosto Stefano Cabizza, estudante de Engenharia, que vive na cidade de Padova, na Itália participou da Missa celebrada pelo Papa em Castel Gandolfo. Levou uma carta que conseguiu passar para um dos cardeais que também estavam lá, achando que isto seria tudo.

Três dias após, o telefone de sua casa tocou em torno de 10 horas. Sua irmã atendeu, disse que Stefano não estava em casa mas sim assistindo aulas e retornaria em torno das 5 da tarde. Pontualmente a pessoa telefonou novamente a tarde, desta vez Stefano atendeu e, para sua surpresa, era o Papa Francisco no outro lado. O Papa agradeceu a carta e conversou com ele por quase dez minutos. O Papa havia lhe tefonado diretamente, nenhuma secetária avisou-o algo como "Sua Santidade está lhe telefonando".

Cerca de 10 dias depois, o irmão de Michele Ferri foi morto num assalto ao posto de gasolina em que trabalhava na cidade de Pesaro. A menina de 14 anos escreveu ao papa pedindo que orasse pelo irmão e a família. Em vez de uma resposta padrão, o papa lhe telefonou, disse que havia chorado ao ler a carta e prometeu rezar por todos.

Em ambos casos, Francisco insistiu que lhe chamassem pelo nome ou o coloquial "tu", em vez de um pronome mais formal. A um deles, teria dito: "você acha que os apóstolos chamavam Jesus de Sua Eminência?". Também, não foram os jovens que procuraram a imprensa, mas sim vizinhos. Alias, eles não deram entrevistas a respeito dos telefonemas. 

Bem, então você já sabe: se seu telefone receber uma ligação de um número incomum, com muitos dígitos, começando por 379, pode ser ele. 

* Esta história foi publicada originalmente pelo jornalista John Allen Jr, que cobre o Vaticano para o National Catholic Reporter. Original aqui

22 de ago de 2013

Santa Rosa de Lima, patrona da América da Sul

As Américas festejam neste dia 23 de Agosto sua primeira santa. Nascida Isabel, quando criança era tão amável que era comparada a uma rosa. Na sua confirmação, tomou este nome: Rosa. Desde jovem dedicava muitíssimas horas à oração, tomando como modelo Santa Catarina de Sena. Considerando a experiência de Santa Catarina, que decidiu dar suas roupas a uma pedinte, na qual disse ter visto o rosto de Cristo, escreveu:

Neste ano, 1616, vou vestir meu Divino Jesus, que a igreja logo irá apresentar como um recém-nascido pobre e desnudo, numa mangedoura, exposto ao severo inverno. Vou preparar uma vestimenta de cinquenta orações, de novecentos rosários e cinco dias de jejum em honra ao adorável mistério da Incarnação. Vou vesti-lo com as roupas de nove visitas ao Santíssimo Sacramento, de nove ofícios das orações e nove dias de jejum em honra aos nove meses em que foi gestado pela Santa Virgem Maria. Cristo deve ser coberto com outros cinco dias de jejum, cinco visitas ao Santíssimo Sacramento e cinco rosários em honra ao seu nascimento.

Como franjas de suas roupas, irei a trinta e três Santas comunhões, assistirei trinta e três missas. Vou passar trinta e três horas em oração. Recitarei trinta e três vezes o Pai Nosso, a Ave Maria, o Credo, o Glória ao Pai e Salve Rainha. Também vou recitar trinta e três rosários, e jejuar por trinta e três dias em honra aos anos em Jesus esteve na terra.

Finalmente, vou oferecer com um presente ao meu amado Jesus, minhas lágrimas de arrependimento e todos atos de amor que possa fazer em favor dos necessitados. Com isto ofereço meu coração e alma para que não haja nada em mim que não seja inteiramente consagrado a Ele.

* Tradução própria

19 de ago de 2013

Sermão sobre o conhecimento e a ignorância

Tinha vos anunciado o tema do sermão de hoje: a ignorância, ou melhor, as ignorâncias, porque, como lembrais, há duas ignorâncias: a de nós próprios e a de Deus. E vos aconselhava a evitar uma e outra, pois ambas são perdição.

Hoje, procuraremos esclarecer melhor esse assunto. Antes, porém, discutiremos se toda ignorância é condenável. Parece-me que não, pois nem toda ignorância produz perdição: há muitas e mesmo inúmeras coisas que se podem ignorar sem problema algum para a salvação.

Se alguém, por exemplo, desconhece artes mecânicas, como a carpintaria, a arte de edificação e outras que são exercidas para a utilidade da vida neste mundo, acaso tal ignorância constitui obstáculo para a salvação?

Também são muitos os que se salvaram e agradaram a Deus pela sua conduta e com seus atos sem as artes liberais (e, certamente, são úteis e moralmente bons esses estudos). Quantos não enumera a Epístola aos Hebreus (cap. XI), que se tornaram agradáveis a Deus não com erudição, "mas com consciência pura e fé sincera" (I Tim 1,5). E agradaram a Deus com os méritos de sua vida e não com os de seu saber. Cristo não foi buscar Pedro, André, os filhos de Zebedeu e todos os outros discípulos, entre filósofos; nem em escola de retórica e, no entanto, valeu-se deles para realizar a salvação na terra.

Não é porque fossem mais sábios do que todos os homens - como diz de si mesmo o Eclesiastes (1, 16) -, mas, por causa de sua fé e de sua benignidade, o Senhor os salvou e fez deles santos e mestres. Pois os Apóstolos mostraram ao mundo o caminho da vida, não com sublimidade de discurso, nem com palavras eloqüentes de sabedoria humana, mas pelo modo como aprouve a Deus: pela estultícia de sua pregação, aprouve a Deus salvar os que crêem, porquanto o mundo com sua sabedoria não O conheceu (I Cor 2, 1; 1, 17-21).

Posso estar dando a impressão de querer lançar em descrédito o saber, de repreender os doutos, de proibir o estudo das letras. Longe de mim, tal atitude! Conheço muito bem o inestimável serviço que os homens doutos têm prestado à Igreja: seja refutando os adversários dela, seja na instrução dos simples.

Com efeito, o que li na Sagrada Escritura foi: "Como rejeitaste o saber, também Eu te rejeitarei, para que não exerças Meu sacerdócio" (Os 4, 6). E mais: "Os doutos resplandecerão com o brilho do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos a justiça, brilharão como estrelas em perpétuo resplendor" (Dn 12, 3). Mas, por outro lado, li também: "O saber incha" (I Cor 8, 1). E, finalmente: "No acúmulo de saber, acumula-se a dor" (Ecl 1, 18).

Vede que há saberes e saberes: há um saber que produz o inchaço e há um saber que contrista. Quero que sejais capazes de distinguir qual deles é útil e necessário para a salvação: o que incha ou o que dói? E é certo que Aquele que cura os que têm o coração contrito abomina o inchaço dos orgulhosos, pois a Sabedoria diz: "Deus resiste aos soberbos e dá Sua graça aos humildes" (Tg 4,6). E o Apóstolo diz: "Exorto-vos, em virtude do ministério que pela graça me foi dado, a não pretender saber mais do que convém, mas saber com sobriedade" (Rom 12,3).

O Apóstolo não proíbe saber, mas sim saber mais do que convém. E o que é saber com sobriedade? É cuidar de aplicar-se prioritariamente ao que mais interessa saber, pois o tempo é breve. Ora, ainda que todo saber, desde que submetido à verdade, seja bom, tu, que buscas com temor e tremor a salvação e a buscas apressadamente, dada a brevidade do tempo, deves aplicar-te a saber, antes e acima de tudo, o que conduz mais diretamente à salvação.

Segundo a ordem, isto é, priorizando o que é mais necessário para a salvação; segundo o amor, isto é, voltando-nos mais ardentemente para o que mais nos impele a amar; segundo o fim: não por vaidade ou curiosidade ou objetivos semelhantes, mas somente pela tua própria edificação e pela de teu próximo.

Há quem busque o saber por si mesmo, conhecer por conhecer: é uma indigna curiosidade. Há quem busque o saber só para poder exibir-se: é uma indigna vaidade. Estes não escapam à mordaz sátira que diz: "Teu saber nada é, se não há outro que saiba que sabes". Há quem busque o saber para vendê-lo por dinheiro ou por honras: é um indigno tráfico. Mas há quem busque o saber para edificar, e isto é amor. E há quem busque o saber para se edificar, e isto é prudência.

Por isso, convém que a alma antes se conheça a si mesma, coisa que é requerida pela ordem e pela utilidade. Pela ordem, porque, para nós, o primeiro conhecimento deve ser o do que somos; pela utilidade, porque tal conhecimento não incha, mas humilha e serve de fundação para a edificação. Pois o edifício espiritual que não tem seu fundamento na humildade, não se agüenta em pé. E para aprender a humildade, a alma não encontra nada mais convincente do que descobrir-se a si mesma na verdade. Deve-se, portanto, evitar a dissimulação, o auto-engano doloso, deve o homem encarar-se de frente, evitando fugir de si mesmo.

Pois, defrontando-se a alma com a límpida luz da verdade, encontrar-se-á muito diferente do que julgava ser e, suspirando em sua miséria - uma miséria que já não pode esconder porque é verdadeira e manifesta -, clamará com o salmista ao Senhor: "Em Tua verdade me humilhaste" (Sl 119, 75). Como não se humilhará neste verdadeiro conhecimento de si, ao dar-se conta da carga de seus pecados, sob o peso deste corpo mortal, ao ver-se imersa em preocupações terrenas, infectada pelos desejos carnais, cega, curvada, fraca, envolta em mil pavores, angustiada ante mil dificuldades, sufocada ante mil dúvidas, indigente de mil necessidades, inclinada ao vício, impotente para as virtudes?

Onde está agora o olhar arrogante? Onde, a cabeça orgulhosamente erguida? Não será ela ainda mais arremessada em sua desolação, trespassada por espinhos? (Sl 32, 4). Que ela - diz o salmista - derrame lágrimas, que chore e gema, que se volte para o Senhor e clame em sua humildade: "Cura, Senhor, minha alma, pois pequei contra Ti" (Sl 41,5). Se ela se voltar para o Senhor, encontrará consolo, pois Ele é o Pai das misericórdias e o Deus de toda consolação.

Basta um pouco de conhecimento de Deus para experimentar que Ele é piedoso e solícito, pois, na verdade, Ele é um Deus de bondade e misericórdia, que perdoa a maldade (Joel 2,13); Sua natureza é a bondade e é próprio dEle perdoar e ter misericórdia sempre. Deus se dá a conhecer nesta experiência e desta maneira salutar, a partir do momento em que o homem se reconheça indigente e clame ao Senhor; e Ele o ouvirá e dir-lhe-á: "Eu te libertarei e tu Me glorificarás" (Sl 50,15).

Assim, o conhecimento próprio é um passo para o conhecimento de Deus. Vê-lO-ás em Sua imagem, que em ti se forma, na medida em que tu, desarmado pela humildade, com confiança, irás refletindo a glória do Senhor e, levado pelo Espírito de Deus, de claridade em claridade, irás te transformando nessa imagem.

Reparai, pois, como ambos conhecimentos são necessários para a salvação, de tal modo que não pode faltar nenhum dos dois. Pois, se desconheces a ti mesmo, não terás temor de Deus em ti, nem humildade. Por acaso pensas que podes alcançar a salvação sem temor de Deus e sem humildade?

-- São Bernardo de Claraval, dos Sermões sobre o Cântico dos Cânticos (século XII)

* A festa liturgica de São Bernardo é nesta terça, 20 de Agosto

16 de ago de 2013

Visão cristã do desenvolvimento econômico

Papa Paulo VI
O desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo, como justa e vincadamente sublinhou um eminente especialista: "não aceitamos que o econômico se separe do humano; nem o desenvolvimento, das civilizações em que ele se incluiu. O que conta para nós, é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira".

Nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação. E dado a todos, em germe, desde o nascimento, um conjunto de aptidões e de qualidades para as fazer render: desenvolvê-las será fruto da educação recebida do meio ambiente e do esforço pessoal, e permitirá a cada um orientar-se para o destino que lhe propõe o Criador. Dotado de inteligência e de liberdade, é cada um responsável tanto pelo seu crescimento como pela sua salvação.

Mas cada homem é membro da sociedade: pertence à humanidade inteira. Não é apenas tal ou tal homem; são todos os homens, que são chamados a este pleno desenvolvimento. As civilizações nascem, crescem e morrem. Assim como as vagas na enchente da maré avançam sobre a praia, cada uma um pouco mais que a antecedente, assim a humanidade avança no caminho da história. 

Este crescimento pessoal e comunitário ficaria comprometido se se alterasse a verdadeira escala dos valores. É legítimo o desejo do necessário, e o trabalho para o alcançar é um dever: se alguém não quer trabalhar, que também não coma (2Ts 3,10). Mas a aquisição dos bens temporais pode levar à cobiça, ao desejo de ter sempre mais e à tentação de aumentar o poder. A avareza pessoal, familiar e nacional, pode afetar tanto os mais desprovidos como os mais ricos e suscitar em uns e outros um materialismo que sufoca o espírito.

Tanto para os povos como para as pessoas, possuir mais não é o fim último. Qualquer crescimento é ambivalente. Embora necessário para permitir ao homem ser mais homem, torna-o contudo prisioneiro no momento em que se transforma no bem supremo que impede de ver mais além. Então os corações se endurecem e os espíritos fecham-se, os homens já não se reúnem pela amizade mas pelo interesse, que bem depressa os opõe e os desune. A busca exclusiva do ter, forma então um obstáculo ao crescimento do ser e opõe-se à sua verdadeira grandeza: tanto para as nações como para as pessoas, a avareza é a forma mais evidente do subdesenvolvimento moral.

Enchei a terra e dominai-a (Gn 1, 28): logo desde a primeira página, a Bíblia ensina-nos que toda a criação é para o homem, com a condição de ele aplicar o seu esforço inteligente em valorizá-la e, pelo seu trabalho, por assim dizer, completá-la em seu serviço. Se a terra é feita para fornecer a cada um os meios de subsistência e os instrumentos do progresso, todo o homem tem direito, portanto, de nela encontrar o que lhe é necessário.

Se alguém, gozando dos bens deste mundo, vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar as entranhas, como permanece nele a caridade de Deus? (Jo 3,17) Sabe-se com que insistência os Padres da Igreja determinaram qual deve ser a atitude daqueles que possuem em relação aos que estão em necessidade: "não dás da tua fortuna, assim afirma santo Ambrósio, ao seres generoso para com o pobre, tu dás daquilo que lhe pertence. Porque aquilo que te atribuis a ti, foi dado em comum para uso de todos. A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos". 

-- Papa Paulo VI, Encíclica Populorum Progressio, 26 de Março de 1967

13 de ago de 2013

Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos

A partir de hoje a Igreja deseja chamar "Santo" um homem a quem foi concedido realizar de maneira absolutamente literal as referidas palavras do Redentor.

De fato, no final de Julho de 1941, quando por ordem do chefe do campo foram colocados em fila os prisioneiros destinados a morrer de fome, este homem, Maximiliano Maria Kolbe, apresentou-se espontaneamente, declarando-se pronto a morrer em substituição a um deles. Esta disponibilidade foi acolhida, e ao Padre Maximiliano, após mais de duas semanas de tormentos por causa da fome, foi enfim tirada a vida com uma injeção mortal, a 14 de Agosto de 1941.

Tudo isto ocorreu no campo de concentração de Auschwitz, onde foram levadas à morte durante a última guerra cerca de quatro milhões de pessoas, entre as quais também a Serva de Deus Edite Stein (a carmelitana Irmã Teresa Benedita da Cruz), cuja causa de Beatificação está em andamento junto da competente Congregação. A desobediência a Deus, Criador da vida, que disse "não matarás", causou nesse lugar o imenso morticínio de tantos inocentes. Contemporaneamente, então, a nossa época permaneceu assinalada de maneira tão horrível pelo extermínio do homem inocente.

Padre Maximiliano Kolbe, sendo também ele um prisioneiro do campo de concentração, reivindicou, em lugar da morte, o direito à vida de um homem inocente, um dos quatro milhões. Este homem, Franciszek Gajowniczek, vive ainda e está presente entre nós. Padre Kolbe reivindicou em favor dele o direito à vida, ao declarar a disponibilidade de morrer em lugar dele, porque era um pai de família e a sua vida era necessária aos seus entes queridos. Padre Maximiliano Maria Kolbe reafirmou assim o direito exclusivo do Criador à vida do homem inocente e deu testemunho a Cristo e ao amor. Escreve o apóstolo João: "Nisto conhecemos a caridade: Ele (Jesus) deu a Sua vida por nós, e nós devemos dar a vida pelos nossos irmãos" (1 Jo3, 16). Dando a sua vida por um irmão, Padre Maximiliano, que a Igreja já desde 1971 venera como beato, de modo particular tornou-se semelhante a Cristo.

Franciszek Gajowniczek e o Papa João Paulo II
Nós, portanto, que hoje, domingo 10 de Outubro, nos reunimos diante da basílica de São Pedro em Roma, desejamos exprimir o especial valor que aos olhos de Deus tem a morte por martírio do Padre Maximiliano Kolbe: "É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos Seus fiéis" (Sl 115/116 15), assim repetimos no salmo responsorial. Verdadeiramente é preciosa e inestimável! Mediante a morte que Cristo sofreu na Cruz completou-se a redenção do mundo pois esta morte tem o valor do amor supremo.Mediante a morte, sofrida pelo Padre Maximiliano Kolbe, um límpido sinal deste amor foi renovado no nosso século, que em grau tão elevado e de múltiplos modos é ameaçado pelo pecado e pela morte.

Eis que, nesta solene liturgia da canonização, parece apresentar-se entre nós aquele "mártir do amor" de Oswiecim (como o chamou Paulo VI) e dizer: "eu sou Vosso servo, Senhor, sou Vosso servo nascido da Vossa serva, a quem quebrastes as cadeiras" (Sl 115/116, 16). E, quase recolhendo num só o sacrifício de toda a sua vida, ele, sacerdote e filho espiritual de São Francisco, parece dizer: "Que darei eu ao Senhor por todos os Seus benefícios? Elevarei o cálice da salvação invocando o nome do Senhor" (Sl 115/116, 12 s.). 

São, estas, palavras de gratidão. A morte sofrida por amor, em lugar do irmão, é um acto heróico do homem mediante o qual, juntamente com o novo Santo, glorificamos a Deus. D'Ele provém a Graça de tal heroísmo, deste martírio.

Glorificamos portanto, hoje, a grande obra de Deus no homem. Diante de todos nós, aqui reunidos, Padre Maximiliano Kolbe eleva o seu cálice da salvação, no qual está contido o sacrifício de toda a sua vida, ratificada com a morte de mártir por um irmão.

Para este definitivo sacrifício, Maximiliano preparou-se seguindo a Cristo desde os primeiros anos da sua vida na Polónia. Daqueles anos provém o misterioso sonho de duas cordas: uma branca e outra vermelha, entre as quais o nosso santo não escolhe, mas aceita as duas. Desde os anos da juventude permeava-o um grande amor por Cristo e o desejo do martírio. Este amor e este martírio acompanharam-no na vocação franciscana e sacerdotal, para a qual se preparava tanto na Polónia como em Roma. Este amor e este desejo seguiram-no através de todos os lugares do serviço sacerdotal e franciscano na Polónia, e também do serviço missionário no Japão.

A inspiração de toda a sua vida foi a Imaculada, à qual confiava o seu amor por Cristo e o seu desejo de martírio. No mistério da Imaculada Conceição manifestava-se diante dos olhos da sua alma aquele mundo maravilhoso e sobrenatural da Graça de Deus oferecida ao homem. A fé e as obras de toda a vida do Padre Maximiliano indicam que ele entendia a sua colaboração com a Graça divina como uma milícia sob o sinal da Imaculada Conceição. A característica mariana é particularmente expressiva na vida e na santidade do Padre Kolbe. Com esta característica foi marcado também todo o seu apostolado, tanto na Pátria como nas missões. Na Polónia e no Japão foram centro deste apostolado as especiais cidades da Imaculada.

Que aconteceu no Bunker da fome no campo de concentração em Oswiecim (Auschwitz), a 14 de Agosto de 1941? A isto responde a presente liturgia: "Deus provou" Maximiliano Maria "e achou-o digno de Si" (cf.Sab 3, 5). Provou-o "como ouro na fornalha e aceitou-o como holocausto" (cf. Sab 3, 6).
Embora "aos olhos dos homens tenha sido atormentado", todavia "a sua esperança está cheia de imortalidade", pois "as almas dos justos estão na mão de Deus e nenhum tormento as tocará". E quando, humanamente falando, lhes chegam o tormento e a morte, quando "aparentemente estão mortos aos olhos dos insensatos...", quando "a sua saída deste mundo é considerada uma desgraça...", "eles estão em paz": eles experimentam a vida e a glória "na mão de Deus" (cf. Sab 3, 1-4).

Tal vida é fruto da morte à semelhança da morte de Cristo. A glória é a participação na Sua Ressurreição. Que aconteceu, então, no bunker da fome, no dia 14 de Agosto de 1941? Cumpriram-se as palavras dirigidas por Cristo aos Apóstolos para que "fossem e dessem fruto e o seu fruto permanecesse" (cf. Jo 15, 16). De modo admirável perdura na Igreja e no mundo o fruto da morte heróica de Maximiliano Kolbe!

Para quanto ocorreu no campo de Auschwitz olhavam os homens. E embora aos olhos deles devesse parecer que tivesse morrido um companheiro de tormento, e de maneira humana pudessem considerar a sua saída como uma desgraça, todavia na consciência deles esta não era simplesmente "a morte". Maximiliano não morreu, mas "deu a vida... pelo irmão".

Manifestava-se nesta morte, terrível sob o ponto de vista humano, toda a definitiva grandeza do ato humano e da escolha humana: ele, por amor, ofereceu-se espontaneamente à morte. E nesta sua morte humana manifestava-se o transparente testemunho dado a Cristo: o testemunho dado em Cristo à dignidade do homem, à santidade da sua vida e à força salvífica da morte, na qual se manifesta o poder do amor.

Precisamente por isto a morte de Maximiliano Kolbe se tornou um sinal de vitória. Foi esta a vitória alcançada sobre o inteiro sistema do desprezo e do ódio para com o homem e o que é divino no homem, vitória semelhante àquela obtida por Nosso Senhor Jesus Cristo no Calvário. "Vós sereis Meus amigos se fizerdes o que Eu vos mando" (Jo 15,14).

A Igreja aceita este sinal de vitória, obtida mediante a força da Redenção de Cristo, com veneração e gratidão. Procura decifrar a sua eloquência com toda a humildade e amor. Como sempre, quando proclama a santidade dos seus filhos e das suas filhas, assim também neste caso, ela procura agir com toda a precisão e a responsabilidade devidas, penetrando em todos os aspectos da vida e da morte do Servo de Deus.

Todavia a Igreja deve, ao mesmo tempo, estar atenta, entendendo o sinal da santidade dado por Deus no seu Servo terreno, para não deixar perderem-se a sua plena eloquência e o seu significado definitivo. E por isso, ao julgar a causa do Beato Maximiliano Kolbe tiveram de ser tomadas em consideração — já depois da beatificação — as inúmeras vozes do Povo de Deus, e sobretudo dos nossos Irmãos no episcopado, tanto da Polónia como também da Alemanha, que pediam fosse Maximiliano Kolbe proclamado santo como mártir.

Diante da eloquência da vida e da morte do Beato Maximiliano, não se pode não reconhecer o que parece constituir o principal e essencial conteúdo do sinal dado por Deus à Igreja e ao mundo na sua morte. Não constitui esta morte enfrentada espontaneamente, por amor ao homem, um particular cumprimento das palavras de Cristo? Não torna ela Maximiliano particularmente semelhante a Cristo, Modelo de todos os Mártires, que na Cruz dá a própria vida pelos irmãos? Não possui precisamente tal morte uma especial e penetrante eloquência para a nossa época? Não constitui ela um testemunho particularmente autêntico da Igreja no mundo contemporâneo?

E por isso, em virtude da minha autoridade apostólica decretei que Maximiliano Maria Kolbe, venerado que era como Confessor a partir da Beatificação, fosse de agora em diante venerado também como Mártir!
"É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos Seus fiéis!". Amém.

-- Papa João Paulo II, homília na canonização de São Maximiliano Kolbe, em 10 de Outubro de 1982.

* A Festa de São Maximiliano Kolbe é celebrada em 14 de Agosto

12 de ago de 2013

Do zelo apostólico que se deve ter ao procurar a salvação e santificação das almas

Muito me alegra, caro irmão, o zelo que te inflama na promoção da glória de Deus. Pois observamos com tristeza, em nossos tempos, não só entre os leigos mas também entre os religiosos, a doença quase epidêmica que se chama indiferentismo, que se propaga de várias formas. Ora, como Deus é digno de infinita glória, nosso primeiro e mais importante ideal deve ser, com nossas exíguas forças, lhe darmos o máximo de glória, embora nunca possamos dar quanto de nós, pobres peregrinos, ele merece.

Como a glória de Deus resplandece principalmente na salvação das almas que Cristo remiu com seu próprio sangue, o desejo mais elevado da vida apostólica será procurar a salvação e santificação do maior número possível. E quero brevemente dizer-te qual o melhor caminho para este fim, isto é, para conseguir a glória divina e a santificação de muitas almas. Deus, ciência e sabedoria infinita, sabendo o que, de nossa parte, mais contribui para aumentar sua glória, manifesta-nos a sua vontade sobretudo pelos seus ministros na terra.

É a obediência, e ela só, que nos indica a vontade de Deus com evidência. O superior pode errar, mas não é possível que nós, ao seguirmos a obediência, sejamos levados ao erro. Só poderia haver uma exceção se o superior mandasse algo que incluísse – mesmo em grau mínimo – uma violação da lei divina; pois, neste caso, o superior não seria fiel intérprete de Deus.

Só Deus é infinito, sapientíssimo, santíssimo e clementíssimo, Senhor, Criador e Pai nosso, princípio e fim, sabedoria, poder e amor; tudo isso é Deus. Tudo que não seja Deus só vale enquanto se refere a ele, Criador de tudo e Redentor dos homens, último fim de toda a criação. É ele que nos manifesta a sua adorável vontade por meio daqueles que o representam, e nos atrai a si, querendo, deste modo, atrair por nós outras almas, unindo-as a si em amor cada vez mais perfeito.

Vê, irmão, quão grande é, pela misericórdia divina, a dignidade de nossa condição! Pela obediência com que ultrapassamos os limites de nossa pequenez e conformamo-nos à vontade divina, que nos dirige com sua infinita sabedoria e prudência, a fim de agirmos com retidão. Pode-se até dizer que, seguindo assim a vontade de Deus à qual nenhuma criatura pode resistir, nos tornamos mais fortes que tudo.

Esta é a vereda da sabedoria e da prudência, este é o único caminho pelo qual possamos dar a Deus maior glória. Pois, se existisse caminho diferente e mais alto, certamente Cristo no-lo teria manifestado com sua doutrina e exemplo. Ora, a divina Escritura resumiu a sua longa permanência em Nazaré com estas palavras: E era-lhes submisso (Lc 2,51), como nos indicou toda a sua vida ulterior sob o signo da obediência, mostrando que desceu à terra para fazer a vontade do Pai.

Amemos por isso, irmão, amemos sumamente o amantíssimo Pai celeste, e deste amor seja prova a nossa obediência, exercida em grau supremo quando nos exige o sacrifício da própria vontade. Não conhecemos, para progredir no amor a Deus, livro mais sublime que Jesus Cristo crucificado.

Tudo isso conseguiremos mais facilmente pela Virgem Imaculada, a quem a bondade de Deus confiou os tesouros da sua misericórdia. Pois não há dúvida que a vontade de Maria seja para nós a própria vontade de Deus. E, quando nos dedicamos a ela, tornamo-nos em suas mãos como instrumentos, como ela própria, nas mãos de Deus. Portanto, deixemo-nos dirigir por ela, ser conduzidos por ela, e sejamos calmos e seguros por ela guiados: pois cuidará de nós, tudo proverá e há de socorrer-nos prontamente nas necessidades do corpo e da alma, afastando nossas dificuldades e angústias.

-- Das Cartas de São Maximiliano Maria Kolbe (século XX)

* A Festa de São Maximiliano Kolbe é celebrada em 14 de Agosto

9 de ago de 2013

Salmo 76: Deus renova os prodígios do seu amor

Queridos irmãos e irmãs,

A Liturgia, ao inserir nas Laudes de uma manhã o Salmo 76 que acabamos de proclamar, deseja recordar-nos que o início do dia nem sempre é luminoso. Assim como alvorecem dias tenebrosos, nos quais o céu está coberto de nuvens e ameaçado pela tempestade, assim também a nossa vida conhece dias repletos de lágrimas e de receio. Por isso, já no alvorecer a oração se torna lamento, súplica e invocação de ajuda.

Cristo no Jardim Getsemani, obra de Giovani de Paolo,
Pinacoteca Vaticana
O nosso Salmo é, precisamente, uma oração que se eleva para Deus com insistência, profundamente animada pela confiança, aliás, pela certeza da intervenção divina. De fato, para o Salmista o Senhor não é um imperador impassível, confinado no seu luminoso céu, indiferente às nossas vicissitudes. Desta impressão, que por vezes nos oprime o coração, surgem perguntas tão amarguradas que fazem vacilar a fé:  "Deus está a desmentir o seu amor e a sua eleição? Esqueceu-se dos tempos em que nos amparava e nos fazia felizes?". Como veremos, estas perguntas desaparecerão devido a uma renovada confiança em Deus, redentor e salvador.

Sigamos, então, o desenvolvimento desta oração que começa com uma tonalidade dramática, na angústia, para depois, pouco a pouco, se abrir à serenidade e à esperança. Eis diante de nós, em primeiro lugar, a lamentação sobre o presente triste e sobre o silêncio de Deus (cf. vv. 2-11). É dirigido ao céu, aparentemente  mudo,  um  brado  que pede  ajuda,  as  mãos  elevam-se  em súplica, o coração desfalece devido às aflições. Nas noites em que não se dorme, feitas de lágrimas e de orações, "volta ao coração" um cântico, como diz o versículo 7, uma estrofe desconfortada ressoa continuamente no fundo da alma.

Quando o sofrimento chega ao ápice e se deseja afastar o cálice do sofrimento (cf. Mt 26, 39), as palavras explodem e tornam-se perguntas dilacerantes, como já se disse (cf. Sl 76, 8-11). Este brado interpela o mistério de Deus e do seu silêncio.

O Salmista pergunta porque é que o Senhor o recusa, porque mudou o seu rosto e o seu modo de agir, esquecendo o amor, a promessa de salvação e a ternura misericordiosa. "A direita do Altíssimo", que realizara os prodígios salvíficos do Êxodo, parece estar paralisada (cf. v. 11). E este é um verdadeiro e próprio "tormento", que faz vacilar a fé de quem reza.

Se fosse assim, Deus seria irreconhecível, tornar-se-ia um ser cruel ou uma presença como a dos ídolos, que não sabem salvar porque são incapazes, indiferentes e impotentes. Nos versículos da primeira parte do Salmo 76 encontra-se todo o drama da fé no tempo das provações e do silêncio de Deus.

Mas há motivos de esperança. É o que sobressai na segunda parte da súplica (cf. vv. 12-21), semelhante a um hino destinado a repropor a confirmação corajosa da própria fé também nos dias tenebrosos do sofrimento. Canta-se o passado de salvação, que teve a sua epifania de luz na criação e na libertação da escravidão do Egito. O presente amargo é iluminado pela experiência salvífica do passado, que é uma semente lançada na história:  ela não morreu, mas simplesmente foi sepultada, para depois germinar (cf. Jo 12, 24).

Por conseguinte, o Salmista recorre a um importante conceito bíblico, o do "memorial", que não é apenas uma vaga recordação confortadora, mas é a certeza de uma ação divina que nunca virá a faltar:  "Tenho na memória as gestas do Senhor, lembro-me das Suas maravilhas" (Sl 76, 12).

Professar a fé nas obras de salvação do passado faz ter fé em tudo o que o Senhor é constantemente e, portanto, também no tempo presente. "Ó Deus, santos são os Vossos caminhos... Vós sois o Deus que opera prodígios" (vv. 14-15). Assim o presente, que parecia não ter futuro nem luz, é iluminado pela fé em Deus e aberto à esperança.

A fim de apoiar esta fé o Salmista provavelmente cita um hino mais antigo, talvez cantado na liturgia do templo de Sião (cf. vv. 17-20). É uma clamorosa teofania na qual o Senhor entra na história, agitando a natureza e sobretudo as águas, símbolo da confusão, do mal e do sofrimento. É muito bonita a imagem do caminho de Deus sobre as águas, sinal do seu triunfo sobre as forças negativas:  "Sobre o mar foi o Vosso caminho, e a Vossa senda, no meio de águas caudalosas, sem que se conhecesse o Vosso caminho" (v. 20). E o pensamento dirige-se para Cristo que caminha sobre as águas, símbolo eloquente da sua vitória sobre o mal (cf. Jo 6, 16-20).

Por fim, recordamos que Deus guiou o seu povo, "como um rebanho", "pela mão de Moisés e de Aarão" (Sl 76, 21), o Salmo leva-nos implicitamente a uma certeza:  Deus conduzir-nos-á de novo à salvação. A sua mão poderosa e invisível estará connosco através da mão visível dos pastores e dos guias por Ele estabelecidos. O Salmo, que começou com um brado de sofrimento, no final suscita sentimentos de fé e de esperança no grande pastor das nossas almas (cf. Heb 13, 21; 1 Pd2, 25).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 13 de Março de 2002

7 de ago de 2013

Ninguém é um monstro, Deus ama a todos

Nos últimos dias alguns fatos me conduziram à esta pequena catequese: (1) a capa da revista Rolling Stones estampa o jovem que colocou as bombas em Boston, matando muitos e causando seríssimas lesões em outros mais, com a manchete: Como um estudante promissor e popular transformou-se em um islâmico radical e tornou-se um monstro; (2) Ariel Castro que sequestrou três meninas, estuprou-as e torturou-as por uma década e ainda frequentava uma igreja cristã aos domingos, foi julgado. Aceitou prisão perpétua e mais 1000 anos de pena. Durante o julgamento, afirmou que não é um monstro; (3) foi lançado no Brasil o filme Hannah Arendt, sobre o julgamento de um criminoso nazista que embarcou milhares e milhares de judeus para os campos de concetração, popularmente dito um monstro.

O primeiro fato é que ninguém nasce um assassino cruel, terrorista ou tarado sexual, por serem  encarnações do Demônio. Isto é coisa de filme. Todos escolhem, em um certo momento da vida, este caminho, consideram-no aceitável. Alguns justificam por questões políticas, vingança, guerra, doença mental, traumas de infância, etc... Talvez se atendidas a tempo, crimes e tristezas poderiam ser evitados, mas somos todos livres, Deus nos deu esta liberdade, para escolhermos um caminho errado.

Como cristãos somos chamados a termos uma visão completamente diferente destas pessoas. Diz São Paulo, estamos no mundo, mas não somos do mundo. Não devemos seguir a imprensa e também chamá-los de monstros. Deus criou todas as criaturas à sua imagem com o desejo de que tornem-se santas. Todas são pessoas como eu e tu, com as mesmas capacidades, por mais aterrador que possa parecer.

Deus nos ama profundamente e perdoa todos nossos pecados, como Pai perfeito e amoroso que somente Ele sabe ser. Cristo nos ensinou claramente quantas vezes devemos perdoar: setenta vezes sete, por toda a vida, sempre. Tods nós somos pecadores, um tanto distantes do plano de Deus. Considere São Pedro e Judas Iscariotes: ambos trairam a Deus, mas São Pedro deu-se conta que Deus o amava e era capaz de perdoar seu pecado.  

E como disse uma das meninas sequestradas durante o julgamento de Ariel Castro: eu posso perdoá-lo. Não que ela já tenha perdoado, ou que vá ser fácil, ou possível apenas com suas forças. Acho que o Espírito Santo terá que atuar seriamente e ajudá-la neste perdão. Mas, sim, tanto ela quanto cada um de nós pode perdoar e rezar por quem despezaríamos, inclusive pelos piores criminosos. 

-- autoria própria

3 de ago de 2013

A esperança da vida é o início e o fim de nossa fé

Saúdo-vos na paz, filhos e filhas, em nome do Senhor que nos ama. 

Por serem grandes e preciosas as liberalidades que Deus vos concedeu, mais que tudo e intensamente me alegro por vos saber felizes e esclarecidos. Pois assim acolhestes a graça do dom espiritual, enxertada na alma. Por isto ainda mais me felicito com a esperança de ser salvo, ao ver realmente derramado sobre vós o Espírito vindo da copiosa fonte do Senhor. 

Rembrandt
Estou plenamente convencido e consciente de que ao falar convosco vos ensinei muitas coisas, porque o Senhor me acompanhou no caminho da justiça; e sinto-me fortemente impelido a amar-vos mais do que a minha vida, porque são grandes a fé e a caridade que existem em vós pela esperança da vida. Tendo em consideração que, se é de meu interesse por vossa causa partilhar convosco algo do que recebi, será minha paga servir a tais pessoas. Decidi, então, escrever-vos poucas palavras, para que, junto com a fé, tenhais perfeita ciência. 

São três os preceitos do Senhor: a esperança da vida, início e fim de nossa fé; a justiça, início e fim do direito; caridade alegre e jovial, testemunho das obras de justiça. 

Pelos profetas, o Senhor fez-nos conhecer as coisas passadas, as presentes e deu-nos saborear as primícias das futuras. Ao vermos tudo acontecer por ordem, tal como falou, devemos nós, mais ricos e seguros, assimilar o seu temor. 

Quanto a mim, não como mestre, mas como um de vós, mostrarei alguns poucos pontos, pelos quais vos alegrareis nas circunstâncias atuais. 

Nestes dias maus, ele mostra seu poder; empenhemo-nos, pois, de coração em perscrutar os mandamentos do Senhor. Nossos auxiliares são o temor e a paciência; apoiam-nos a generosidade e a continência que, aos olhos do Senhor, permanecem castas, no convívio da sabedoria, inteligência, ciência e conhecimento. 

Todos os profetas nos revelaram não ter ele necessidade de sacrifícios nem de holocaustos nem de oblações, dizendo: Que tenho a ver com a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto de holocaustos, de gorduras dos cordeiros; não quero o sangue de touros e de cabritos, mesmo que venhais à minha presença. Quem exige isto de vossas mãos? Não pisareis mais em meus átrios. Trazeis oblações de farinha? Será em vão. O incenso me é abominável; vossos novilúnios e solenidades, não as suporto (cf. Is 1,11-13).

-- Da Carta a Barnabé, século II

2 de ago de 2013

Nicolau de Cusa - Da Douta Ignorância

Nicolau de Cusa nasceu na Alemanha em 1401, estudou em Heidelberg and tornou-se doutor em direito Canônico na Universidade Pádua em 1423. Dali foi trabalhar com o Arcebispo de Trier, próximo a sua cidade natal, onde realizou mutos estudos em direito Canônico, matemática, filosofia e teologia. 

Ordenou-se padre em data incerta, na década de 1430s. Seu primeiro trabalho importante foi no Concílio de Basel, quando inicialmente argumentou em favor da autoridade do concílio sobre a do papa, mas revisou sua posição durante as discussões. Em 1437 foi enviado para Constantinopla em busca de reconciliação com a Igreja Ortodoxa Grega. Daí retornou à Alemanha como legado papal. Em 1448 foi nomeado Cardeal e retornou ao país em 1451 para comandar a reforma da Igreja. Já ao iniciar suas atividades entrou em conflito com o Conde que liderava a região e so opôs às mudanças iniciadas por Nicolau. Após alguns anos, o Papa Pio II o chamou à Roma para ser seu conselheiro, cargo que ocupou até a morte em 1464.

Sua principal obra chama-se Da Douta Ignorância (Eu preferiria Da Ignorância Aprendida) que segundo ele foi inspirada por Deus na viagem de retorno de Constantinopla. Nicolau começa com uma proposição simples: Deus é o absoluto Máximo; o universo é uma imagem de Deus, criada por Ele, sendo por isso, uma parte restrita deste Máximo. Como absoluto máximo, Deus é ilimitado, não compreensível pela limitada inteligência humana, pois nosso conhecimento não pode ultrapassar o Deus, o absoluto infinito. A princípio, não há proporção possível entre o homem e Deus, pois o homem é finito e Deus infinito. (Precisou de mais dois séculos e meio para Newton formular esta idéia matematicamente). Daí o título do livro: podemos compreender algo de Deus, mas é tão pouco que, na prática, permanecemos na ignorância.

Nicolau propõe alguns "exercícios" geométricos para ajudar a compreender a infinitude de Deus, a finitude do homem e a diferença natural entre ambos. Por exemplo, imagine um quadrado com um círculo dentro. A diferença entre ambos é óbvia. Se aumentarmos o número de lados, em vez de um quadrado, temos um pentágono, que é um pouco mais parecido com o círculo. Continuando, com cada vez mais lados, mais próximo do círculo chegaremos. Podemos imaginar uma figura geométrica com mil lados, visualmente será quase indistinguível do círculo, mas ainda assim, tem uma outra natureza. 

O universo é caracterizado pela mudança ou movimento. Este movimento é necessariamente finito, podendo-se estabelecer comparações de maior ou menor, sem limites de distância ou velocidade, tanto para valores muito pequenos quanto muito grandes. Assim, neste universo em movimento, a terra não é um objeto fixo em algum ponto do universo, pois nada está em repouso, nem pode ser o exato centro físico do universo (Copérnico citou Nicolau ao propor o modelo heliocêntrico). O que tomamos como centro depende do ponto de vista. Se trocarmos a perspectiva, digamos para outro planeta, podemos considerá-lo como o centro do universo e veremos a Terra no horizonte (como naquelas fotos tiradas da Lua coma Terra se surgindo ou desaparecendo). Podendo os objetos celestiais estar a grandes distâncias, o universo não possui limites ou fronteiras, sendo uma imagem da infinitude de Deus, mas apenas uma imagem atenuada, pois constituída de objetos finitos (Universo infinito em 1430!!!).

Jesus Cristo, neste esquema, é uma ocorrência singular, pois é ao mesmo tempo infinito, enquanto Deus, e finito, enquanto homem. A ignorância aprendida dos homens limita nossa forma de expressão ao lidar com a idéia de Jesus Cristo, pois a natureza de Deus incarnado, o infinito/finito, está acima da compreensão humana. 

-- autoria própria
-- só para enfatizar, Nicolau escreveu quando a ciência ainda se contentava com o modelo geocêntrico (Terra no centro do Universo e as estrelas todas na circunferência mais longe do planeta); é séculos anterior à Newton e em alguns momentos se aproxima da relatividade de Einstein. No mais, ainda estamos explorando os limites do Universo, que anda em cerca de 15 bilhões de anos-luz, de acordo com as últimas medições. 

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