31 de mar de 2014

Cristo, sumo-sacerdote, é a nossa propiciação

Uma vez por ano o sumo sacerdote, afastando-se do povo, entra no lugar onde estão o propiciatório*, os querubins, a arca da aliança e o altar do incenso; ninguém pode entrar aí, exceto o sumo sacerdote.

Mas consideremos o nosso verdadeiro sumo sacerdote, o Senhor Jesus Cristo. Tendo assumido a natureza humana, ele estava o ano todo com o povo – aquele ano do qual ele mesmo disse: O Senhor enviou-me para anunciar a boa-nova aos pobres; proclamar um ano da graça do Senhor e o dia do perdão (cf. Lc 4,18.19) – e uma só vez durante esse ano, no dia da expiação, ele entrou no santuário, isto é, penetrou nos céus, depois de cumprir sua missão redentora, e permanece diante do Pai, para torná-lo propício ao gênero humano e interceder por todos os que nele creem.

Conhecendo esta propiciação que reconcilia os homens com o Pai, diz o apóstolo João: Meus filhinhos, escrevo isto para que não pequeis. No entanto, se alguém pecar, temos junto do Pai um Defensor: Jesus Cristo, o Justo. Ele é a vítima de expiação pelos nossos pecados (1Jo 2,1-2). Paulo lembra igualmente esta propiciação, ao falar de Cristo: Deus o destinou a ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a realidade da fé (Rm 3,25). Por isso, o dia da expiação continua para nós até o fim do mundo.

Diz a palavra divina: Na presença do Senhor porá o incenso sobre o fogo, de modo que a nuvem de incenso cubra o propiciatório que está sobre a arca da aliança; assim não morrerá. Em seguida, pegará um pouco do sangue do bezerro, e com o dedo, aspergirá o lado oriental do propiciatório (cf. Lv 16,13-14). Ensinou assim aos antigos como havia de ser celebrado o rito de propiciação, oferecido a Deus em favor dos homens. Tu, porém, que te aproximaste de Cristo, o verdadeiro sumo sacerdote que, como seu sangue, tornou Deus propício para contigo e te reconciliou com o Pai, não fixes tua atenção no sangue das vítimas antigas. Procura antes conhecer o sangue do Verbo e ouve o que ele mesmo te diz: Isto é o meu sangue, que será derramado por vós, para remissão dos pecados (cf. Mt 26,28).

Também a aspersão para o lado do oriente tem o seu significado. Do oriente nos vem a salvação. É de lá que vem aquele homem cujo nome é Oriente e que foi constituído mediador entre Deus e os homens.

Por esse motivo és convidado a olhar sempre para o oriente, de onde nasce para ti o Sol da justiça, de onde a luz se levanta sobre ti, para que nunca andes nas trevas, nem te surpreenda nas trevas o último dia; a fim de que a noite e a escuridão da ignorância não caiam sorrateiramente sobre ti, mas vivas sempre na luz da sabedoria, no pleno dia da fé e no fulgor da caridade e da paz.

-- Das Homilias sobre o Levítico, de Orígenes, presbítero (século III)

* Propriciatório: era como uma tampa ou mesa colocada acima da Arca da Aliança, onde uma vez por ano o sacerdote derramava o sangue de um cordeiro pelo perdão dos pecados do povo. Cristo é o cordeiro que uma vez por todas se sacrifica pelos nossos pecados. 

30 de mar de 2014

Cristo é o caminho para a luz, a verdade para a vida


Vidro na Igreja de St Virgil, Morris Plains
(New Jersey/USA).
Fotografia de Loci Lenar (2009)
Diz o Senhor: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não andará nas trevas, mas terá a luz da vida (Jo 8,12). Estas breves palavras contêm um preceito e uma promessa. Façamos o que o Senhor mandou, para esperarmos sem receio receber o que prometeu, e não nos vir ele a dizer no dia do Juízo: “Fizeste o que mandei para esperares agora alcançar o que prometi?” Responder-te-á: “Disse quem e seguisses”. Pediste um conselho de vida. De que vida, senão daquela sobre a qual foi dito: Em vós está a fonte da vida? (Sl 35,10). Por conseguinte, façamos agora o que nos manda, sigamos o Senhor, e quebremos os grilhões que nos impedem de segui-lo. Mas quem é capaz de romper tais amaras se não for ajudado por aquele de quem se disse: Quebrastes os meus grilhões? (Sl 115,7). E também noutro salmo: É o Senhor quem liberta os cativos, o Senhor faz erguer-se o caído (Sl 145,7.8).

Somente os que assim são libertados e erguidos poderão seguir aquela luz que proclama: Eu sou a luz do mundo. Quem me segue, não andará nas trevas. Realmente o Senhor faz os cegos verem. Os nossos olhos, irmãos, são agora iluminados pelo colírio da fé. Para restituir a vista ao cego de nascença, o Senhor começou por ungir-lhe os olhos com sua saliva misturada com terra. Cegos também nós nascemos de Adão, e precisamos de ser iluminados pelo Senhor. Ele misturou sua saliva com a terra: E a Palavra se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14). Misturou sua saliva com a terra, como fora predito: A verdade brotou da terra (cf. Sl 84,12). E ele próprio disse: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6).

A verdade nos saciará quando o virmos face a face, porque também isso nos foi prometido. Pois quem ousaria esperar, se Deus não tivesse prometido ou dado?

Veremos face a face, como diz o Apóstolo: Agora, conheço apenas de modo imperfeito; agora, nós vemos num espelho, confusamente, mas, então, veremos face a face (1Cor 13,12). E o apóstolo João diz numa de suas cartas: Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é (1Jo 3,2). Eis a grande promessa! 

Se o amas, segue-o! “Eu o amo, dizes tu, mas por onde o seguirei?” Se o Senhor te houvesse  dito: “Eu sou a verdade e a vida”, tu que desejas a verdade e aspiras à vida, certamente procurarias o caminho para alcançá-la e dirias a ti mesmo: “Grande coisa é a verdade, grande coisa é a vida! Ah, se fosse possível à minha alma encontrar o caminho para lá chegar!”

Queres conhecer o caminho? Ouve o que o Senhor diz em primeiro lugar: Eu sou o caminho. Antes de dizer aonde deves ir, mostrou por onde deves seguir. Eu sou, diz ele, o caminho. O caminho para onde? A verdade e a vida. Disse primeiro por onde deves seguir e logo depois indicou para onde deves ir. Eu sou o caminho, eu sou a verdade, eu sou a vida. Permanecendo junto do Pai, é verdade e vida; revestindo-se de nossa carne, tornou-se o caminho.

Não te é dito: “Esforça-te por encontrar o caminho, para que possas chegar à verdade e à vida”.  Decerto não é isso que te dizem. Levanta-te, preguiçoso! O próprio caminho veio ao teu encontro e te despertou do sono em que dormias, se é que chegou a despertar-te; levanta-te e anda!

Talvez tentes andar e não consigas, porque te doemos pés. Por que estão doendo? Não será pela dureza dos caminhos que a avareza te levou a percorrer? Mas o Verbo de Deus curou também os coxos. “Eu tenho os pés sadios, respondes, mas não vejo o caminho”. Lembra-te que ele também deu a vista aos cegos.

-- Dos Tratados sobre o Evangelho de São João,de Santo Agostinho, bispo (seculo V)

26 de mar de 2014

A escada do claustro - parte II

VIII. Sinais da vinda da graça

Mas, Senhor, como descobrir quando realizas tudo isso, e qual é o sinal da tua vinda?

São, por acaso, os suspiros e as lágrimas os mensageiros e testemunhas da consolação e da alegria? Se assim é, estamos em presença duma nova antinomia e de uma significação inusitada.

Qual é, com efeito, a relação entre consolação e suspiros, alegria e lágrimas? Se é que se podem chamar lágrimas estas lágrimas, e não antes, abundância transbordante do orvalho interior derramado do céu, indício da purificação interior, limpeza do homem exterior.

No batismo de crianças, a purificação do homem interior é figurada e significada pela ablução exterior. Aqui, ao contrário, a purificação exterior procede da ablução interior.

Ó felizes lágrimas, pelas quais são lavadas as manchas interiores, e as labaredas do pecado se apagam! Bem-aventurados os que assim chorais, porque rireis (cf. Mt 5,5).

Nessas lágrimas reconhece, ó alma, o teu Esposo, abraça o Desejado, embriaga-te em torrente de delícias, suga do seio da consolação o leite e o mel. Estes são os maravilhosos presentinhos e consolos que teu Esposo te distribui e concede, isto é, tuas lágrimas e suspiros.

Ele te trouxe nessas lágrimas a poção sob medida, o pão de dia e de noite, aquele pão que confirma o coração do homem e é mais doce do que o favo de mel.

Ó Senhor Jesus, se são tão doces essas lágrimas que brotam da tua lembrança e do teu desejo, quão doce haverá de ser o gozo experimentado em tua visão manifesta!

Se é tão doce chorar por ti, quanto mais doce será gozar de ti?

Mas, por que exprimimos de público tais secretos colóquios? Por que me esforço por revelar em termos comuns essas inefáveis ternuras? Os que não as experimentaram, não as compreenderão. Eles as leriam mais claramente no livro da experiência, onde a unção divina ensina por si mesma (cf. l Jo 2,27).

De qualquer modo, porém, a letra exterior não aproveita ao leitor, pois a leitura da letra exterior é de pouco sabor, a não ser que uma explicação tire do coração o sentido interior.

IX. A graça se esconde

Ó minha alma, prolonguei por muito tempo este discurso. Pois era bom para nós estar ali, e contemplar com Pedro e João a glória do Esposo, e ficar largo tempo com ele, se ele quisesse fazer ali não duas, nem três tendas (cf. Mt 17,4), mas uma só em que estaríamos juntos, e juntos nos deleitássemos.

Mas eis que já diz o Esposo, Deixa-me partir, pois já sobe a aurora (Gn 32,26), já recebeste a luz da graça e a visita que desejavas.

Dada, pois, a bênção e mortificado o nervo da coxa, e mudado o nome de Jacó para Israel (cf. Gn 32,25-32), o Esposo longamente desejado se retira por um pouco de tempo, depressa escapa.

Ele se arreda, tanto em relação à visita de que falei, quanto à doçura da contemplação. Mas permanece sempre presente, quanto à direção, à graça, à união.

X. Como a ocultação da graça coopera para o nosso bem

Mas não temas, esposa, não desespere, não penses que és desprezada, se o Esposo te oculta por algum tempo a sua face. Tudo isso concorre ao teu bem (cf. Rm 8,28), e ganhas com a partida e com a vinda.

Ele veio para ti, e é também para ti que ele se afasta. Vem para a consolação, afasta-se por cautela, a fim de que a grandeza da consolação não te ensoberbeça, evitando que a presença contínua do Esposo, te leve a desprezar as companheiras e atribuas a consolação não à graça, mas à natureza.

Esta graça, o Esposo a concede quando quer e a quem ele quer, e não se possui como direito hereditário. É conhecido o provérbio que diz que a familiaridade excessiva gera o desprezo. Ele se afasta, pois, para não ser desprezado, se é demais assíduo, e para que, ausente, seja mais desejado, e desejado seja procurado com maior ardor, e longamente querido, seja, enfim, achado com maior alegria.

Além disso, se nunca faltasse essa consolação, que em relação à futura glória a revelar-se em nós (cf. Rm 8,18), é enigmática e parcial, talvez julgássemos que temos aqui cidadania permanente e procuraríamos menos a futura.

Assim, para não tomarmos o exílio por pátria, o penhor pelo pleno valor, é que o Esposo vem de tempo em tempo, ora trazendo consolação, ora a substituindo pelo leito de doente (cf. 8141,4).

Ele permite que saboreemos por um pouco de tempo a sua doçura, mas antes que ela seja plenamente sentida, ele se esvai. Assim, voejando sobre nós de asas abertas, ele nos provoca a voar (cf. Dt 32,11), como se dissesse: Experimentastes um pouco da minha suavidade e doçura, mas, se quereis saciar-vos plenamente, correi atrás de mim ao odor dos meus perfumes (cf. Ct 1,3), levantai os corações para o alto onde estou à direita do Pai. Aí me vereis, não mais em figura e em enigma, mas face a face, e então, o vosso coração gozará plenamente, e o vosso gozo ninguém vos tirará (Jo 16,22).

XI. Com que cuidado a alma se deve comportar depois da visita da graça

Mas, acautela-te, ó esposa. Quando o Esposo se ausenta, não vai para longe. Se não o vês, ele sempre te vê. Ele é cheio de olhos à frente e atrás (cf. Ez 1,18). Jamais podes fugir da sua vista. Tem junto de ti seus enviados, espíritos que são como que mensageiros muito sagazes, que vejam como te conduzes na ausência do Esposo, e te acusem diante dele se descobrirem em ti algum sinal de impureza e de leviandade.

Este Esposo é cheio de zelo. Se, acaso, acolheres um outro amante, ou te empenhas em agradar mais a um outro, ele logo se afasta de ti e se une a outras virgens fiéis.

É delicado esse Esposo, é nobre, é o mais belo dos filhos dos homens (Sl 45,3), e assim, não quer ter uma esposa senão perfeitamente bela. Se ele vir em ti uma mancha, ou uma ruga, logo desvia o seu olhar.

Ele não suporta nenhuma impureza. Sê, pois, casta, sê reservada e humilde, para merecer a visita freqüente do teu Esposo.

Temo que este discurso se tenha prolongado demais, mas a matéria abundante me obrigou a isto, assim como a sua doçura. Não prolonguei por minha espontânea vontade, foi o seu encanto que me arrastou sem sentir.

-- Carta de Dom Guigo II, cartuxo, prior da Grande Charteuse (século XII)

22 de mar de 2014

Veio uma mulher da Samaria para tirar água

Jesus e a samaritana, miniatura dos evangelhos
de Jruchi, século XII
Veio uma mulher. Esta mulher é figura da Igreja, ainda não justificada, mas já a caminho da justificação. É disso que iremos tratar.

A mulher veio sem saber o que ali a esperava; encontrou Jesus, e Jesus dirigiu-lhe a palavra. Vejamos o fato e a razão por que veio uma mulher da Samaria para tirar água (Jo 4,7). Os samaritanos não pertenciam ao povo judeu; não eram do povo escolhido. Faz parte do simbolismo da narração que esta mulher, figura da Igreja, tenha vindo de um povo estrangeiro; porque a Igreja viria dos pagãos, dos que não pertenciam à raça judaica.

Ouçamos, portanto, a nós mesmos nas palavras desta mulher, reconheçamo-nos nela e nela demos graças a Deus por nós. Ela era uma figura, não a realidade; começou por ser figura, e tornou-se realidade. Pois acreditou naquele que queria torná-la uma figura de nós mesmos. Veio para tirar água. Viera simplesmente para tirar água, como costumam fazer os homens e as mulheres.

Jesus lhe disse: “Dá-me de beber”. Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?” De fato os judeus não se dão com os samaritanos (Jo 4,7-9.)

Estais vendo que são estrangeiros. Os judeus de modo algum se serviam dos cântaros dos samaritanos. Como a mulher trazia consigo um cântaro para tirar água, admirou-se que um judeu lhe pedisse de beber, pois os judeus não costumavam fazer isso. Mas aquele que pedia de beber tinha sede da fé daquela mulher.

Escuta agora quem pede de beber. Respondeu-lhe Jesus? “Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’, tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva (Jo 4,10).

Pede de beber e promete dar de beber. Apresenta-se como necessitado que espera receber, mas possui em abundância para saciar os outros. Se tu conhecesses o dom de Deus, diz ele. O dom de Deus é o Espírito Santo. Jesus fala ainda veladamente à mulher, mas pouco a pouco entra em seu coração, e vai lhe ensinando. Que haverá de mais suave e bondoso que esta exortação? Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: ‘Dá-me de beber’,tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva.

Que água lhe daria ele, senão aquela da qual está escrito: Em vós está a fonte da vida? (Sl 35,10). Pois como podem ter sede os que vêm saciar-se na abundância de vossa morada? (Sl 35,9).

O Senhor prometia à mulher um alimento forte, prometia saciá-la com o Espírito Santo. Mas ela ainda não compreendia. E, na sua incompreensão, que respondeu? Disse-lhe então a mulher: “Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la” (Jo 4,15). A necessidade a obrigava a trabalhar, mas sua fraqueza recusava o trabalho. Se ao menos ela tivesse ouvido aquelas palavras: Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos e eu vos darei descanso! (Mt 11,28). Jesus dizia-lhe tudo aquilo para que não se cansasse mais; ela, porém, ainda não compreendia.

-- Dos Tratados sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo (século V)

20 de mar de 2014

Você tira um pedaço do dia para ouvir Jesus? pergunta o Papa

Se você, todo dia, precisa ficar muito tempo sentado em um ônibus, aproveite o tempo de viagem para ler algumas linhas da Bíblia, recomendou o Papa Francisco em uma visita a Paróquia de Santa Maria da Oração, no último domingo. A paróquia fica nos arredores de Roma e a maioria das pessoas tem uam longa viagem de ônibus até o trabalho na área central.

"A primeira tarefa do cristão é ouvir a palavra de Deus, ouvir Jesus, porque Ele fala para nós, salva-nos com a sua palavra", disse o Papa durante a homilia. Todos devem carregar consigo uma pequena Bíblia ou, pelo menos, uma edição de bolso dos Evangelhos e dedicar alguns minutos do dia para ouvir a palavra de Deus. 

O Papa sugeriu que quando estamos num ônibus, ele sabe que as vezes é dificil estar em pé, segurando uma pasta ou bolsa, defendendo-se dos batedores de carteira e ainda equilibrando-se para não cair, mas quando houver oportunidade de sentar, "abra seu Evangelho e leia algumas linhas"

Comentando o Evangelho da Transfiguração, ele destacou as palavras que os apóstolos ouviram de Deus no alto do Monte Tabor: "Este é meu Filho amado, em quem pus toda minha afeição; ouvi-o".  As pessoas ouvem rádio, assistem televisão e muita fofoca durante o dia mas, perguntou "você tira um pedaço do dia para ouvir Jesus?".

O vídeo mostra o trecho da homilia em que o Papa faz o comentário sobre andar de ônibus e ler o Evangelho. Sorry, legendas em inglês.


-- autoria própria

19 de mar de 2014

A escada do claustro - parte I

I. Introdução

Ao seu dileto irmão Gervásio, o Ir. Guigo: o Senhor seja o seu deleite.

Amar-te, irmão, é para mim uma dívida, pois foste tu que, primeiro, começaste a me amar. E sou obrigado a te responder, porque, anterior, tua carta me convida a escrever-te. Proponho-me, assim, a te transmitir certas coisas que pensei sobre o exercício espiritual dos monges, a fim de que possas julgar e corrigir meus pensamentos a propósito de um assunto que tu melhor conheces por experiência, do que eu pela reflexão. É justo que eu te ofereça, em primeira mão, as primícias do meu trabalho. Pois convém que colhas os primeiros frutos da recente plantação que, em louvável furto, subtraíste à servidão do Faraó e à mole servidão, e colocaste no exército em ordem de batalha, enxertando sabiamente na oliveira o ramo habilmente cortado da oliveira selvagem (cf. 81144,2; Ex 13,14; Ct 6,3.9 e Rm 11,17.24).

II. Os quatro degraus

Um dia, ocupado no trabalho manual, comecei a pensar no exercício espiritual do homem. E eis que, de repente, enquanto refletia, se apresentaram a meu espírito quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação.

Esta é a escada dos monges, que os eleva da terra ao céu. Embora dividida em poucos degraus, ela é de imenso e incrível comprimento, com a ponta inferior apoiada na terra, enquanto a superior penetra as nuvens e perscruta os segredos do céu (cf. Gn 28,12).

Estes degraus, assim como são diversos em nome e em número, também se distinguem pela ordem e o valor.

Se alguém examina diligentemente suas propriedades e funções, o que produz cada um deles para nós, e como diferem e se hierarquizam entre si, achará pequeno e fácil por sua utilidade e doçura todo o trabalho e esforço que lhes dedicar.

A leitura é o estudo assíduo das Escrituras, feito com aplicação do espírito.

A meditação é uma ação deliberada da mente, a investigar com a ajuda da própria razão o conhecimento duma verdade oculta.

A oração é uma religiosa aplicação do coração a Deus, para afastar os males ou obter o bem. 

A contemplação é uma certa elevação da alma em Deus, suspensa acima dela mesma, e degustando as alegrias da eterna doçura.

Notada, assim, a descrição dos quatro degraus, resta-nos ver a função de cada um em relação a nós.

III. Qual a função de cada um dos citados degraus

A leitura procura a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede, a contemplação a experimenta.

A leitura, de certo modo, leva à boca o alimento sólido, a meditação o mastiga e tritura, a oração consegue o sabor, a contemplação é a própria doçura que regala e refaz.

A leitura está na casca, a meditação na substância, a oração na petição do desejo, a contemplação no gozo da doçura obtida. Para que se possa ver isto de modo mais expressivo, suponhamos um exemplo entre muitos.

IV. A função da leitura

À leitura, eu escuto: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8).

Eis uma palavra curta, mas cheia de suaves sentidos para o repasto da alma. Ela oferece como que um cacho de uva. A alma, depois de o examinar com cuidado, diz em si mesma: "Pode haver aqui algum bem, voltarei ao meu coração e tentarei, se possível, entender e encontrar esta pureza. Pois é preciosa e desejável tal coisa, cujos possuidores são ditos bem-aventurados, e à qual se promete a visão de Deus, que é a vida eterna, e que é louvada por tantos testemunhos da Sagrada Escritura".

Desejosa de explicar mais plenamente a si mesma esta coisa, começa a mastigar e a triturar essa uva, e a põe no lagar, enquanto excita a razão a procurar o que é e como pode ser adquirida tão preciosa pureza.

V. A função da meditação

Começa, então, diligente meditação. Ela não se detém no exterior, não pára na superfície, apóia o pé mais profundamente, penetra no interior, perscruta cada aspecto.

Considera, atenta, que não se disse: Bem-aventurados os puros de corpo, mas, sim, "os puros de coração". Pois não basta ter as mãos inocentes de más obras, se não estivermos, no espírito, purificados de pensamentos depravados. Isto o profeta confirma por sua autoridade, ao dizer: Quem subirá o monte do Senhor? Ou quem estará de pé no seu santuário? Aquele que for inocente nas mãos e de coração puro (Sl 24,3-4).

Depois ela considera quanto o próprio profeta deseja essa pureza, ao orar: Cria em mim, Ó Deus, um coração puro (Sl 51,12) e ainda: Se olhei a iniqüidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá (Sl 66,18).

A meditação pensa em como era o bem-aventurado Jó solícito por essa guarda, pois dizia: Fiz um pacto com os meus olhos para não pensar em nenhuma virgem (Jó 31,1). Eis como se dominava o santo homem . que fechava seus olhos para não ver o que é vão, evitando olhar imprudentemente o que depois desejaria contra a sua vontade.

Depois de ter refletido sobre esses pontos e outros semelhantes no que toca à pureza do coração, a meditação começa a pensar no prêmio:

Como seria glorioso e deleitável ver a face desejada do Senhor, mais bela do que a de todos os homens (Sl 45,3), não mais abjeta e vil (cf. Is 53,2), não mais tendo a aparência com que o revestiu sua mãe, mas envergando a estola da imortalidade, e coroado com o diadema que seu Pai lhe deu no dia da ressurreição e da glória, o dia que o Senhor fez (Sl 118,24).

Ela concebe que nesta visão haverá aquela saciedade esperada pelo profeta, ao dizer: Serei saciado quando aparecer a tua glória (Sl 17,15).

Vês quanto licor emanou daquela pequena uva, quanto fogo nasceu duma centelha, quanto se alargou na bigorna da meditação, este pequeno pedaço de metal: Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus!

Mas, quanto mais poderia alargar-se, se alguém experiente viesse ajudar!

Sinto como "é fundo o poço", mas não passo ainda de um noviço rude, que mal cheguei a tirar poucas gotas.

Inflamada por esses fachos, incitada por tais desejos, a alma começa a pressentir, quebrado o alabastro, a suavidade do ungüento. Não é ainda o gosto, mas é já o cheiro.

Por esse, a alma compreende quão suave seria experimentar essa pureza, cuja meditação a faz saber quanta alegria ela dá. Mas que fará ela?

Ardendo ao desejo de possuí-Ia, não encontra em si como a pode ter.

E quanto mais a procura, mais tem sede.

Enquanto se dá à meditação, sua dor aumenta, porque ainda não sente a doçura que a meditação mostra existir na pureza de coração, mas sem a dar.

Porque não cabe a quem lê nem a quem medita sentir tal doçura, se não recebe do alto (10 19,11) esse dom. Ler e meditar é comum tanto aos bons quanto aos maus, e os próprios filósofos pagãos encontraram, pelo exercício da razão, em que consiste, em suma, o verdadeiro bem.

Mas, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus (Rm 1,21) e, presumindo de suas forças, diziam: Venceremos graças à nossa língua, nossos lábios são nossos (Sl 12,5). Assim, não mereceram receber o que tinham podido ver. Perderam-se em seus pensamentos (Rm 1,21), e a sua sabedoria foi devorada (Sl 107,27)

A sabedoria deles tinha as suas fontes no estudo das ciências humanas, e não no Espírito de sabedoria que é o único a dar a verdadeira sabedoria, isto é, a ciência saborosa que alegra e nutre, com inestimável sabor, a alma que a possui. É dela que foi escrito: A sabedoria não entrará na alma perversa (Sb 1,4).

Esta procede só de Deus. E como o Senhor deu a muitos a missão de batizar, mas guardou só para si o poder e a autoridade de perdoar os pecados pelo batismo, o que levou João a dizer, por antonomásia e de modo preciso: É ele que batiza, assim também podemos dizer: É ele que dá sabor à sabedoria, e faz saborosa a ciência da alma.

A palavra é dada a todos; a sabedoria do espírito, que o Senhor distribui a quem quer e quando quer (cf. 1 Cor 12,11), a poucos é dada.

VI. A função da oração

Vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura de conhecimento e da experiência, e que quanto mais se aproxima do fundo do coração (Sl 64,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 64,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te, ao menos um pouco.

Eu buscava, Senhor, a tua face, a tua face Senhor, eu buscava (cf. Sl 27,8); meditei muito tempo em meu coração, e na minha meditação cresceu um fogo (cf. Sl 39,4) e o desejo de te conhecer ainda mais.

Quando me repartes o pão da Sagrada Escritura, na fração do pão te tomas. conhecido por mim (cf. Lc 24,35). E quanto mais te conheço, tanto mais desejo conhecer-te, não já na casca da leitura, mas no sabor da experiência.

Isto não peço, Senhor, por meus méritos, mas pela tua misericórdia.

Confesso-me indigna pecadora, mas até os cãezinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos (Mt 15,27).

Dá-me, pois, Senhor, o penhor da herança futura, uma gota ao menos da chuva celeste, para arrefecer a minha sede, pois ardo de amor (cf. Ct 2,5).

VII. Efeitos da contemplação

Com essas e outras palavras, a alma inflama o seu desejo, mostra assim o que nela se fez, por encantações invoca o seu Esposo.

E o Senhor, cujos olhos são fixos nos justos e cujos ouvidos estão não só atentos às suas preces (cf. Sl 34, 16), mas presentes nelas, não espera a prece acabar. Pois, interrompendo o curso da oração, apressa-se a vir à alma que o deseja, banhado de orvalho da doçura celeste, ungido dos perfumes melhores.

Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, lhe faz esquecer tudo o que é terrestre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e embriagando-a, sóbria a torna.

Como em certas funções carnais a alma se deixa a tal ponto vencer pela concupiscência, que perde o próprio uso da razão e o homem se toma todo carnal, assim, ao contrário, nessa contemplação superior, os movimentos carnais são de tal modo vencidos e absorvidos pela alma, que a carne não contradiz em nada ao espírito, e o homem se torna quase todo espiritual.

-- Carta de Dom Guigo II, cartuxo, prior da Grande Charteuse (século XII)

17 de mar de 2014

Salmo 94: Oxalá hoje escuteis a sua voz

O salmo, do qual tomamos esta palavra de vida, nos recorda que somos o povo de Deus, que Ele quer nos guiar, como faz um pastor com seu rebanho, para introduzir-nos na terra prometida. Ele, que nos tem pensado desde sempre, sabe como devemos caminhar para viver em plenitude, para alcançar nosso verdadeiro ser. Em seu amor nos sugere o que fazer, o que não fazer e nos assinala um caminho a seguir.



Deus nos fala como a amigos, porque quer nos introduzir na comunhão com Ele. Se alguém escuta sua voz, diz o salmo em sua conclusão - entrará no repouso de Deus, na terra prometida, na alegria do Paraíso (cf Hb 3,7-4,1).

Jesus se compara também a um pastor que nos conduz, cada um de nós, a plenitude da vida. Ele fala e seus discípulos, que o conhecem, escutam a sua voz e o seguem. A eles promete a vida eterna (cf Jo 10, 28).

Deus faz cada um de nós ouvir sua palavra. Como nos recorda o Concílio Vaticano II: No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado (Gaudium et Spes, 16).

O que devemos fazer quando Deus nos fala ao coração? Simplesmente temos que nos colocar a escuta de sua Palavra sabendo que, em linguagem bíblica, escutar significa aderir inteiramente, obedecer, adequar-se ao que é dito. É como deixar-se tomar pela mão e ser guiado por Deus. Podemos confiar em Deus como uma criança que se abandona aos braços de sua mãe e deixa levar por ela. O cristão é pessoa guiada pelo Espírito Santo.

Oxalá hoje escuteis a sua voz!

Após estas palavras, o salmo continua: Não endureceis o coração! Também Jesus falou muitas vezes sobre a dureza do coração. Se pode resistir a Deus, uma pessoa pode fechar-se a Ele e negar-se a escutar a sua voz. Um coração duro não deixa se moldar por Deus.

As vezes não se trata nem de má vontade. É que custa reconhecer "essa voz" em meio a muitas outras vozes que ressoam pelo mundo. Muitas vezes o coração está contaminado por demasiados ruídos ensurdecedores; são inclinações desordenadas que nos conduzem ao pecado, a mentalidade deste mundo que se opõe ao projeto de Deus, as modas, os slogans publicitários. Sabemos quão fácil é confundir as próprias opiniões, os próprios desejos com a voz do Espírito Santo, e, em consequencia, cair em caprichos e na subjetividade.

Nunca posso esquecer que a realidade está dentro de mim. Tenho que fazer calar tudo em mim para descobrir a voz de Deus. E tenho que extrair esta voz como se fosse um diamante do barro, limpá-la até reluzir e, então, deixar-se guiar por ela (cf Sl 72, 23-24). Então também poderei guiar outros, porque esta voz sutil de Deus empurra e ilumina, é uma seiva que sobe do fundo da alma, é uma sabedoria, é amor; e amor se deve dar.

Antes de mais nada, é necessário reevangelizar-se constantemente ouvindo a Palavra de Deus, lendo, meditando, vivendo o Evangelho para ir adquirindo, cada vez mais, uma mentalidade evangélica. Assim aprenderemos a reconhecer a voz de Deus dentro de nós, a medida em que aprendamos a conhecê-la dos 
lábio de Jesus, Palavra de Deus feita homem. E isto se pode pedir com a oração.

Devemos deixar viver o Ressuscitado dentro de nós, renegando a nós mesmos, fazendo guerra ao egoísmo, ao "homem velho" que está sempre rondando. Isto requer dizer "não" a tudo que está contra a vontade de Deus imediatamente e dizer "sim" a tudo que Deus deseja; "não" em todos os momentos de tentação, cortando de imediato insinuações de pecado; "sim" às tarefas que Ele nos tem confiado, "sim" ao amor para com o próximo, "sim" as provas e dificuldades que encontramos.

Podemos, enfim, identificar a voz de Deus mais facilmente se tivermos Cristo Ressuscitado em nosso meio, quer dizer, se nos amarmos reciprocamente, criando em todas partes um oásis de comunhão e fraternidade. Jesus em meio a nós é como um auto-falante que amplifica a voz de Deus dentro de cada um, fazendo-a ser escutada mais claramente. Também o apóstolo Pedro ensina que o amor cristão, vivido em comunidade, se enriquece sempre mais em conhecimento e discernimento, ajudando-nos a reconhecer sempre o melhor (cf Fp 1,9).

Então nossa vida está entre dois fogos: Deus dentro de nós e Deus entre nós. Neste forno divino nos formamos, escutamos e seguimos a Jesus. Uma vida guiada em tudo que é possível pelo Espírito Santo resulta bela: tem sabor, tem vigor, é autêntica e luminosa. 

- Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares.
-- tradução própria, a partir de um texto em espanhol 

16 de mar de 2014

Coroa de Cristo em exposição na Catedral de Notre-Dame, Paris

A Catedral de Notre-Dame em Paris está expondo relíquias para veneração dos fiéis nas sextas-feiras da Quaresma: a Coroa de Cravos, uma fração da Cruz e um dos pregos utilizados na Paixão de Cristo. A veneração destes ítens é mencionada desde o século IV por peregrinos que viajaram a Jerusalem, em particular a Santa Cruz, descoberta por Santa Helena, em 325. Entre os séculos VII e X, as relíquias foram progressivamente transferidas para Constantinopla, a medida que os persas avançavam na direção de Israel.

Em 1238, Balduíno II, imperador latino de Bizâncio, estava em precárias situação financeira e ofereceu a Coroa de Cravos ao Rei Luis IX de França, que aceitou. Em 19 de Agosto de 1239 uma procissão entrou em Paris. São Luis, rei de França, vestido com a mais simples túnica utilizada pelos criados, carregou a relíquia até a Catedral de Notre-Dame, onde uma capela havia sido especialmente preparada para recebê-las. 

Durante a Revolução Francesa, as relíquias foram transferidas para a Abadia de Saint Denis, e dali para a Biblioteca Nacional. Após os acordos de pacificação em 1801, a Coroa foi retornada para St-Denis e retornadas ao Arcebispo de Paris em 1804, que as colocou em uma área de acesso restrito e maior segurança na Catedral. Os Cavaleiros do Santo Sepulcro e padres da Catedral são os únicos a terem acesso e são responsáveis pela sua veneração. Até onde pesquisei, trata-se da primeira exposição pública destas relíquias em dois séculos.

13 de mar de 2014

Santa Bakhita - Filme


Complementando o post anterior sobre Santa Baquita, adiciono acima um filme feito sobre a história da Santa. Alguns detalhes sempre são alterados quando transportados para a linguagem cinematográfica mas no geral é um bom filme sobre a Santa.

11 de mar de 2014

A circuncisão do coração

Abraão sacrificando Isaac, de Laurence de la Hire (1650) ,
Museu de Saint-Denis, Reims
A lei e a aliança foram totalmente mudadas. Primeiramente Deus substituiu o pacto com Adão por outro que estabeleceu com Noé; e ainda estabeleceu outro com Abraão, substituindo-o depois por um novo, feito com Moisés. Como a aliança mosaica não era observada, ao chegar a plenitude dos tempos, Deus firmou uma aliança que não seria mais mudada. Com efeito, a Adão Deus ordenara não comer da árvore da vida, a Noé dera o arco-íris, a Abraão, já escolhido por causa da sua fé, deu mais tarde a circuncisão, como sinal característico de seus descendentes; a Moisés deu o cordeiro pascal para ser imolado como propiciação pelo povo.

Todas essas alianças eram diferentes umas das outras. Mas a circuncisão que agrada ao autor de todas elas é aquela de que fala Jeremias: Circuncidai o vosso coração (Jr 4,4). Pois se o pacto estabelecido por Deus com Abraão foi firme, também este é firme e imutável e não seria possível estabelecer depois outra lei, seja por parte dos que estão fora da Lei ou dos que a ela estão submetidos.

O Senhor deu a lei a Moisés, com todas as suas observâncias e preceitos; como não cumpriram, anulou a lei e seus preceitos e prometeu fazer uma nova aliança, que seria, como disse, diferente da primeira, embora fosse um só o doador de ambas. E é esta a aliança que prometeu dar: Todos se reconhecerão, do menor ao maior deles (Jr 31,34). Nessa aliança não há mais a circuncisão da carne como sinal de pertença a seu povo.

Sabemos com certeza, caríssimos irmãos, que durante várias gerações Deus estabeleceu leis que estiveram em vigor enquanto foi de seu agrado, e que mais tarde caíram em desuso, como disse o Apóstolo: “No passado, o reino de Deus assumiu formas diversas, segundo os diversos tempos”.

O nosso Deus é veraz e os seus preceitos são fidelíssimos. Por isso, cada uma das alianças foi em seu tempo firme e verdadeira. Agora, os circuncisos de coração têm a vida por meio da nova circuncisão que se realiza no verdadeiro Jordão, isto é, por meio do batismo para a remissão dos pecados.

Josué, filho de Nun, com uma faca de pedra circuncidou o povo pela segunda vez, quando ele e seu povo atravessaram o rio Jordão. Jesus, nosso Salvador, circuncidou pela segunda vez, com a circuncisão do coração,os povos que nele creram purificados pelo batismo e circuncidados com a espada que é a palavra de Deus, mais cortante do que qualquer espada de dois gumes (Hb 4,12).

Josué, filho de Nun, introduziu o povo na terra da promissão; Jesus, nosso Salvador, prometeu a terra da vida a todos que atravessassem o Jordão, cressem nele e fossem circuncidados no coração.

Felizes, portanto, os que foram circuncidados em seu coração e renasceram das águas da segunda circuncisão! Estes receberão a herança prometida, juntamente com Abraão, guia fiel e pai de todos os povos, porque a sua fé lhe foi atribuída como justiça.

-- Das Demonstrações de Afraates, bispo (século IV)

9 de mar de 2014

As 10 mais importantes mulheres para a Igreja Católica

A Virgem entre virgens, de Van de Lucialegende (últimas décas do século XIV).
Estão representadas as santas: Maria Madalena, Margarete, Ursula, Inês, Bárbara, Catarina Apolonia, Lucia e Cunera.
Aproveitando o Dia Internacional da Mulher, o site Catholic News of World preparou uma lista das 10 mulheres mais importantes para a Igreja Católica ao longo da história:

  1. Maria, Mãe de Deus, Nossa Senhora
  2. Madre Teresa de Calcuta 
  3. Santa Maria Mackillop, fundadora das Irmãs de São José do Sagrado Coração
  4. Santa Hildegard, doutora da Igreja
  5. Madre Angélica, fundadora da TV católica americana EWTN, atualmente retransmitida para 70 países
  6. Santas Perpétua e Felicidade, mártires
  7. Santa Teresa Benedita da Cruz, nascida Edith Stein, morta pelos nazistas
  8. Santa Alfonsa Muttathupadathu, primeira indiana canonizada pela Igreja
  9. Santa Teresa de Lisieux (ou do Menino Jesus), doutora da Igreja
  10. Santa Josefina Baquita.

Claro que podemos discutir a lista, incluir outras, trocar a ordem, etc.... Por coincidência, ontem escrevi sobre Santa Josefina Baquita, embora pensando mais na condição de escrava e a óbvia relação com a Campanha da Fraternidade. Desta lista, duas são totais desconhecidas minhas: Santa Maria Mackillop e Santa Alfonsa Muttathupadathu. Prometo ler um pouco a respeito e escrever sobre elas.



8 de mar de 2014

Santa Baquita, uma escrava

Baquita nasceu em torno de 1869 na vila de Olgossa, próximo ao Monte Agilerei e da cidade de Darfur. Pertencia ao povo Daju, seu pai era razoavalmente próspero e muito respeitado, irmão do chefe da vila. Tinha três irmãos e três irmãs, como ela diz em sua auto-biografia: "Tinha uma vida feliz, sem preocupações, sem conhecer o sofrimento".

Ainda muito jovem, quando tinha cerca de oito anos, provavelmente em 1877, foi sequestrada por árabes mercadores de escravos. Já de início foi obrigada a andar cerca 960 quilômetros descalça até El Obeid, onde sua venda já estava arranjada até antes de chegar lá. Nos próximos 12 anos, ela foi revendida outras três vezes, até ser dada de graça. Devido ao trama do sequestro e outras violências, esqueceu seu nome; Baquita é um apelido dado por um dos seus captores e significa "sortuda"em árabe, tallvez por ter sobrevivido apesar de tudo. Também foi obrigada a seguir o Islamismo.

Um dos seus proprietários, um rico comerciante árabe, colocou-a para servir suas duas filhas, que a tratavam bem. Mas certa vez quebrou um vaso mais valioso que pertencia a um dos filhos, que enfurecido surrou-a com socos e chutes, deixando-a de cama por mais de um mês. Outro proprietário foi um general turco, Baquita deveria servir sua esposa e sogra, que eram bastante cruéis com os escravos. Relata ela: "Durante todos os anos que passei naquela casa, não lembro um dia em que tenha sido ferida ou espancada. Quando uma ferida começava a sarar, logo outros golpes abriam novos ferimentos". 

Certo dia ela e outros escravos foram marcados. As duas mulheres assistiram e colaboraram. Primeiro utilizando farinha, elas marcaram linhas no corpo de Baquita; então, com uma faca cortaram ao longo das linhas e colocaram sal nas feridas abertas para tornar as cicatrizes permanentes. Foram contadas 114 cicatrizes nos seios, ventre e braço direito. 

Ao final de 1882, a cidade de El Obeid estava ameaçada por revolucionários. O general turco começou a preparar o retorno para seu país, vendendo todos escravos, exceto 10 deles. Baquita foi comprada pelo Vice-Consul italiano Callisto Legnani, que era um homem mais culto e gentil. Pela primeira vez em muitos anos ela pode ter um pouco de tranquilidade. Quando Legnani, dois anos depois, retornou a Itália, Baquita implorou para não ser vendida e servi-lo em sua casa na Itália. Ao final de 1884, a família teve que fugir da cidade que já estava cercada, empreendendo uma travessia de 650 km no lombo de camelos por áreas perigosas até o porto de Suakin. Em Abril de 1885 chegaram ao porto de Genova. Legnani deu Baquita de presente para a família Michieli que também havia fugido do Sudão. Seus novos proprietários a levaram para uma mansão próxima a Veneza, onde Baquita ficou responsável por criar a filha recém-nascida do casal, que chamava-se Alice. 

Em 1886, Augusto Michieli decidiu comprar um hotel no porto de Suakin, vender sua mansão na Itália e transferir toda família de volta para o Sudão. A venda da casa demorou muito mais que o esperado. Em 1888, Baquita e a menina Alice foram colocadas em um convento sob custódia das irmãs canossianas, em Veneza, para aguardar o momento adequado de se irem para o Sudão. Mas quando sua proprietária retornou para levá-la, Baquita recusou-se firmemente, contando com o apoio da irmã superior, que nesta época já contava Baquita entre suas catecúmenas, candidatas a entrar na irmandade. A questão foi parar nos tribunais e em 29 de Novembro de 1889 foi decidido que como a escravidão já estava legalmente extinta tanto na Itália quanto no Sudão, Baquita nunca fora uma escrava; estava então com cerca de 20 anos e poderia escolher seu destino. Preferiu continuar seu caminho junto com as irmãs canossianas.

Em 9 de Janeiro de 1890 foi batizada, recebeu primeira comunhão e crisma do Arcebispo Giuseppe Sarto, futuro Papa Pio X. Assumiu o nome de Josephine Margaret e Fortunata (a tradução para o italiano de "sortuda"). Após este dia, sempre que havia ocasião, Baquita ia até a pia batismal, ajoelhava-se e beijava-a, dizendo: "Aqui tornei-me filha de Deus".

Em 7 de Dezembro de 1893 entrou no noviciado das Irmãs Canossianas e em 8 de Dezembro de 1896 proclamou seus votos, em celebração presidida pelo Cardeal Sarto. Em 1902 foi transferida para o convento de Schio, onde passou o resto de sua vida, exceto por um período entre 1935 e 1939, quando residiu no Noviciado Missionário de Milão e ajudou na preparação de jovens irmãs que iriam para a África. Segundo ela, seu coração e orações estavam sempre em Deus e na África.

Certa vez uma estudante lhe perguntou: "Irmã, o que você faria se viesse a reencontar seus captores e proprietários?" Ela respondeu: "Se eu viesse a encontrar meus sequestradores e torturadores, eu me ajoelharia aos seus pés e beijaria suas mãos. Por que se tais coisas não tivessem me acontecido, eu não seria uma cristã".

Durante 42 anoos, em Schio, Baquita ajudou como cozinheira, sacristã e porteira, tornando-se bastante conhecida na cidade. Sua gentileza, calma e alegria tornaram-na reconhecida pelos habitantes, que a chamavam de "Madre Morena". Seu carisma e reputação de santidade foram reconhecidos pela ordem, que em 1931 publicou um pequeno livro com sua história (Storia Meravigliosa, de Ida Zanolini), tornando-a famosa por toda It;alia. Durante a II Guerra, quando havia bombardeios, os habitantes corriam para o convento e pediam para que ela rezasse por todos. Embora bombas tenham caído em Schio, nenhum habitante morreu ou ficou gravemente ferido.

Seus últimos anos foram marcados pela doença, que a colocou em cadeiras de rodas. Sempre que perguntada sobre sua condição, respondia que estava como "o Mestre desejava". Suas últimas palavras foram "Eu estou tão feliz. Nossa Senhora, Nossa Senhora!". Santa Baquita morreu em 8 de Fevereiro de 1947, às 8:10 da noite. Por três dias os italianos vieram prestar-lhe homenagens.

Os pedidos para sua canonização iniciaram-se imediatamente e o processo foi instalado pelo Papa João XXIII. Em 1o de Dezembro de 1978, o Papa João Paulo II declarou-a venerável; em 17de Maio de 1992, declarou-a beata e em 1o de Outubro de 2000, foi canonizada. Sua memória é celebrada em 8 de Fevereiro.

-- Autoria própria

* Embora não exista tal "título", deixo como sugestão: Santa Baquita como padroeira da atual Campanha da Fraternidade

3 de mar de 2014

Para quarta-feira de cinzas: Fazei penitência

Inspirados pelo Espírito Santo, os ministros da graça de Deus pregaram a penitência. O próprio Senhor de todas as coisas também falou da penitência, com juramento: Pela minha vida, diz o Senhor, não quero a morte do pecador, mas que mude de conduta (cf. Ez 33,11); e acrescentou esta sentença cheia de bondade: Deixa de praticar o mal, ó Casa de Israel! Dize aos filhos do meu povo: "Ainda que vossos pecados subam da terra até o céu, ainda que sejam mais vermelhos que o escarlate e mais negros que o cilício, se voltardes para mim de todo o coração e disserdes: 'Pai', eu vos tratarei como um povo santo e ouvirei as vossas súplicas” (cf. Is 1,18; 63,16; 64,7; Jr 3,4; 31,9).

Querendo levar à penitência todos aqueles que amava, o Senhor confirmou esta sentença com sua vontade todo-poderosa.

Obedeçamos, portanto, à sua excelsa e gloriosa vontade. Imploremos humildemente sua misericórdia e benignidade. Convertamo-nos sinceramente ao seu amor. Abandonemos as obras más, a discórdia e a inveja que conduzem à morte.

Sejamos humildes de coração, irmãos, evitando toda espécie de vaidade, soberba, insensatez e cólera, para cumprirmos o que está escrito. Pois diz o Espírito Santo: Não se orgulhe o sábio em sua sabedoria, nem o forte com sua força, nem o rico em sua riqueza; mas quem se gloria, glorie-se no Senhor, procurando-o e praticando o direito e justiça (cf. Jr 9,22-23; ICor 1,31).

Antes de mais nada, lembremo-nos das palavras do Senhor Jesus, quando exortava à benevolência e à longanimidade: Sede misericordiosos, e alcançareis misericórdia; perdoai, e sereis perdoados; como tratardes o próximo, do mesmo modo sereis tratados; dai, e vos será dado; não julgueis, e não sereis julgados; fazei o bem, e ele também vos será feito; com a medida com que medirdes, vos será medido (cf. Mt 5,7; 6,14; 7,1.2).

Observemos fielmente este preceito e estes mandamen­tos, a fim de nos conduzirmos sempre, com toda humildade, na obediência às suas santas palavras. Pois eis o que diz o texto sagrado: Para quem hei de olhar, senão para o manso e humilde, que treme ao ouvir minhas palavras ? (cf. Is 66,2).

Tendo assim participado de muitas, grandes e gloriosas ações, corramos novamente para a meta que nos foi proposta desde o início: a paz. Fixemos atentamente nosso olhar no Pai e Criador do universo e desejemos com todo ardor seus dons de paz e seus magníficos e incomparáveis benefícios.

-- Da Carta aos Coríntios, de São Clemente I, papa (século I)

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