30 de nov de 2011

A virtude do silêncio

Mosteiro Cisterciense de Salzedas
Havendo o servo de Deus construído firmes fundamentos de pobreza para sustentar este edifício espiritual, seguimos o que nos ensino aquele maravilhoso arquiteto e mestre de semelhantes edifícios, o Filho de Deus, que no alto da montanha dizia: Bem-aventurados os pobres de espírito, prepara-se com cuidado para refrear a língua.

Falando de coisas boas e proveitosas para a alma, perca o costume de falar palavras ociosas, vãs e sem proveito algum. E, para ter mais sujeita a sua língua, tenha por costume falar apenas quando interrogado, que é precisamente o que a polícia humana nos obriga. E assim entendo que deva agir apenas para coisas necessárias e proveitosas, por que quando não for o caso, a pergunta inútil responde-se por si mesma. 

Se alguma vez ocorrer de alguém, numa conversação, dizer-lhe gracejos ou piadas, poderás mostrar alguma alegria e afabilidade, para não parecer muito pesado ou por demais enfadonho. Mas não lhe responda com nenhum outro gracejo, ainda que murmurem, se chateiem, finalmente lhe ultrajem ou lhe tomem por maníaco, superticioso ou triste.  Em tais casos tens obrigação de rogar de coração a nosso Senhor por estas pessoas, que Ele lhe tire qualquer perturbação ou inquietude de suas almas. 

Algumas vezes terás licença para falar, se for necessário ou assim te obrigar a caridade para com o próximo, ou por obediência. Então deves falar de maneira muito pensada, com muita consideração, poucas palavras, com voz baixa e humilde. Este mesmo deve precaver-se em suas respostas ordinárias, quando algo lhe for perguntado. Por que a seu tempo é bom calar para a edificação do próximo, para que calando, aprendas a falar na ocasião propícia. 

Rogue sempre ao Senhor, para que Ele preencha os corações dos seus próximos, ensinando-lhes interiormente   o que lhes falta aprender; e calando-se, controle sua língua, não dê-lhe licença para falar por falar, mas o faça apenas quando necessário e conveniente.


-- Do Tratado da Vida Espiritual, de São Vicente Ferrer - capítulo II. (século XV). 


-- Tradução particular



29 de nov de 2011

Os dons da profecia e línguas


São Jerônimo prestou grande serviço
a Igreja quando trduziu a Bíblia do
grego para o latim.
1a. Carta aos Coríntios: 14,5-12
Por exemplos, já das flautas, já dos homens, ensina que a profecia sobrepuja ao dom de línguas.
5. Desejo que faleis todos em línguas; prefiro, contudo, que profetizeis. Pois o que profetiza supera ao que fala em línguas, a não ser que este também interprete, para que a assembléia toda receba edificação.
6. E agora, irmãos, suponhamos que eu vá até vós falando-lhes em línguas: Em que lhes aproveitaria eu se minha palavra não vos traz nem revelação, nem ciência, nem profecia, nem ensinamento?
7. Assim sucede com as coisas inanimadas que dão vozes tais como a flauta ou a cítara. Si não dão distintamente os sons, como se conhecerá o que toca a flauta ou a cítara?
8. E se a trombeta não dá senão um som confuso, quem se preparará para a batalha?
9. Assim também vós: se ao falar não pronunciais palavras inteligíveis, como se entenderá 10. Há no mundo não sei quantas variedades de línguas, e nenhuma carece de sentido.
10. Há no mundo não sei quantas variedades de línguas, e nenhuma carece de sentido.
11. Mas se eu desconheço o valor dos sons, serei um bárbaro para o que me fala; e o que me fala, um bárbaro para mim.
12. Assim, pois, já que aspirais aos dons espirituais, procurai abundar neles para edificação da assembléia. O que dizes? É como se falásseis ao vento.
Aqui o Apóstolo rechaça a objeção ao falso entendimento que pudesse haver acerca do que previamente explicamos: com efeito, alguns poderiam crer que por preferir o Apóstolo a profecia ao dom de línguas deveria desdenhar-se o dom de línguas. Pelo qual, para excluir tal coisa, disse:Desejo que faleis,  etc.
Donde primeiramente se vê o que trata de insinuar; e logo dá a razão dele: O que profetiza supera... a não ser que, etc. Assim é que disse: Os digo, não obstante o que já disse acima, que não desejo que desdenheis o dom de línguas, pois quero que todos vós faleis em línguas; mas desejo que profetizeis. Quem me dera que todo o povo de Yawhé profetizasse. . ? (Ez 1,29) E o explica dizendo: mas supera, etc., como se dissera: desejo que mais bem profetizeis, porque o que profetiza supera, etc. E a razão disto é que às vezes alguns são movidos pelo Espírito Santo a falar algo místico que eles mesmos não entendem; e é assim como estes tem o dom de línguas. Mas às vezes não só falam em línguas senão que ademais interpretam o que dizem. Pelo qual adiciona o Apóstolo: A não ser que este também interprete. Porque o dom de línguas com sua interpretação é melhor que só a profecia; porque, como já se disse, a interpretação de algo elevado pertence à profecia. Assim é que quem fala e interpreta é profeta, pois tem tanto o dom de línguas como o da interpretação para edificação da Igreja de Deus; pelo qual disse o Apóstolo: para que toda assembléia receba edificação, ou seja, que não sozinho se entenda senão que também edifique a Igreja: Procuremos o que seja para mútua edificação (Rm 14,19). E: Que cada um agrade bem ao seu próximo para sua edificação (Rm 15,2).

E agora, irmãos, etc. Aqui prova com exemplos, e de três classes, que o dom da profecia supera o dom de línguas.
Primeiro com um exemplo tomado de si mesmo; logo mediante um tomado das coisas inanimadas: Assim sucede com os instrumentos inanimados, etc.; e por último com um tomado da diversidade de línguas dos homens: Há no mundo não sei quantas variedades de línguas, etc.
Enquanto a ele mesmo, argumenta desta maneira: É patente que eu não possuo menos que vós o dom de línguas; mas se somente lhes falar em línguas, sem interpretá-las, de nada aproveitariam. Logo tampouco vos aproveitais mutuamente. O disse com estas palavras: Suponhamos que eu vá até vós falando em línguas. O qual pode entender-se de duas maneiras, isto é, ou em línguas desconhecidas, ou a letra com qualquer sinais não entendidos. Em que vos aproveitaria se minha palavra não traz nem revelação? etc. E aqui devemos observar que estas quatro coisas, a saber, nem revelação, nem ciência, nem profecia, nem ensinamento, podem diferenciar-se de duas maneiras.
De um modo segundo o poder de quem seja. Pois devemos saber que a ilustração da mente mediante o conhecimento é de quatro coisas, porque o é das coisas divinas, e tal ilustração pertence ao dom de sabedoria. Mas o conhecimento das coisas divinas é a revelação, porque as coisas que são de Deus nada se conhece, etc. Pelo qual disse o Apóstolo nem revelação, pela qual é iluminada a mente para conhecer as coisas divinas.
Ou o conhecimento é de coisas terrenas, mas não de qualquer for, senão só das que são para edificação da fé, e tal conhecimento pertence ao dom da ciência, pelo qual disse: nem ciência, não de geometria, nem de astrologia, porque estas não tem a ver com a edificação da fé, senão a ciência das coisas santas. Lhe deu a ciência das coisas santas (Sb 10,10). Ou é conhecimento de coisas futuras, e este pertence ao dom da profecia, pelo qual disse: nem profecia. Interpreta-lhes sinais e os prodígios antes que ocorram, e a sucessão dos tempos e dos sinais (Sb 8,8). Mas é de notar-se que aqui não se toma a profecia em sentido geral, ou seja, conforme ao que se foi dito, senão de maneira particular tão somente enquanto é a manifestação de coisas futuras. E enquanto a isto define assim Cassiodoro: A profecia é a divina inspiração de coisas futuras para declarar a imutável verdade. Quero derramar minha doutrina como profecia (Sl 24,46). Ou é de ordem da moral, no qual pertence a instrução ou doutrina, pelo qual disse o Apóstolo m Romanos (Rm 12,7) e no Livro dos Provébios (Pr 13,15).
De outro modo podem-se distinguir as diversas maneiras de adquirir o conhecimento. Com efeito, é de saber-se que todo conhecimento ou provém de um princípio sobrenatural, isto é, de Deus, ou de um natural, ou seja, da luz natural de nosso entendimento. Mas o primeiro pode ser de duas maneiras: ou infundindo-se a luz divina por súbita apreeensão, e assim teremos a revelação; ou se infunde sucessivamente, e assim é a profecia, pois não a tiveram subitamente os profetas, senão sucessivamente e por partes, como mostram suas profecias.
Mas se a instrução se adquire mediante um princípio natural, isto ocorre ou mediante estudo próprio, e assim pertenece a ciência; ou se recebe de outro, e assim pertence a doutrina. E assim sucede com coisas inanimadas, etc. Isto mesmo se mostra com exemplos tomados de coisas inanimadas, isto é, de instrumentos que parecem ter voz. E primeiramente por instrumentos de gozo; e em segundo por instrumentos de combate: E se a trombeta não dá senão um sonido, etc. Pois disse: não só pelo que já foi dito acima, senão também porquanto há coisas que carecendo de alma dão sons, é evidente que somente falar em línguas não aproveita aos demais. E assim sucede com coisas inanimadas que dão sons. Pelo contrário, a voz é um sonido que sai de uma boca animal, formado por órgãos naturais. Assim é que as coisas que carecem de alma não dão vozes.
Devemos dizer que ainda quando a voz não pertence senão a animais, contudo, se pode dizer, por certa semelhança, de certos instrumentos que tem certa consonância e melodia, pelo que faz menção deles, isto é da cítara, que ao tato dá sons, e da flauta, soprando. Portanto, se estas coisas dão sons confusos como se entenderão?
Com efeito, sendo que o homem mediante instrumentos deseja expressar algo, isto é, com algumas melodias, que se ordenam ou ao pranto ou ao gozo, Vós cantareis como na noite em que celebra a festa, com alegria de coração, como que ao som da flauta vai entrar no monte de Yahwéh, (Is 30,29), ou também a sensualidade, não se poderia julgar com que finalidade se toca a flauta, ou com qual a cítara, se o som é confuso e obscuro.
Da mesma maneira, se o homem fala em línguas, e não as interpreta, é impossível saber o que quer dizer. Se não dá senão um som confuso, etc. Isso mesmo se vê pelos exemplos das coisas inanimadas, e dos instrumentos próprios para o combate. E esta semelhança se toma do capítulo 10 do livro dos Números. Ali se lê que o Senhor ordenou a Moisés que fizesse duas trombetas de prata para convocar o povo, para pôr em movimento os acampamentos e para o combate. Mas para cada uma destas finalidades teriam certo modo de tocar, pois de uma maneira era a voz para juntar-se na assembléia, outra era para mover o campamento, e outra quando lutavam. Pelo qual argumenta o Apóstolo que assim como se a trombeta não dá senão um som confuso, isto é, ininteligível, não se sabe se devem preparar para a guerra, assim também vós, se falais somente em línguas, sem uma clara exposição que interprete o dito, nada saberá do que é dito. Por trombeta se pode entender que se trata do pregador. Como trombeta clama a voz no grito (Is 58,1).
Porque não se pode saber o que se diz é que falareis ao vento, ou seja, inútilmente. E exerço o pugilismo não como dando golpes no vazio (1Cor 9,26). Há no mundo não sei quantas variedades de línguas. Aqui toma o exemplo das diversas línguas que se falam. E acerca disto procede de três maneiras.
Primeiro mostra a diversidade das línguas; logo, a inutilidade de falar-se mutuamente em línguas estranhas: Mas se desconheço o valor dos sons; e finalmente conclui com o que deseja: Assim pois, já que aspiramos aos dons espirituais.
Com efeito, primeiramente disse: Muitas e diversas línguas há no mundo, e cada quem pode falar a que queira; mas se não fala uma determinada, não se entende. Pelo qual disse: há não sei quantas variedades. Pode-se expor isto de duas maneras, porque pode continuar com o que precede, de modo que diga: Falareis ao vento; e há não sei quantas variedades, como se dissera: ao vento, isto é, inutilmente falais em todas as línguas, porque falais sem entende-las, não obstante que para serem entendidas tem as significações próprias das vozes. Pois nada carece de voz.

Ou se pode pensar desta maneira: É como se falásseis ao vento. Pois tantos são os gêneros de línguas, isto é, de cada língua. Com isto mostra sua inutilidade. O disse com estas palabras: Se falasse todas as línguas. Mas se desconheço o valor dos sons, ou seja, a significação das vozes, serei um bárbaro para meu interlocutor.
Observe-se que segundo alguns são bárbaros aqueles cujo idioma discorda totalmente do latino. Embora outros dizem que todo estranho ou estrangeiro é um bárbaro para qualquer outro estranho quando não é entendido por ele. Mas isto não é assim, porque segundo Isidoro, a Barbaria é uma certa nação. Em Cristo não há bárbaro nem escravo, (Cl. 3,2). Mas, segundo mais verdadeiramente se disse, bárbaros são propriamente aqueles que gozam de vigor corporal sendo deficientes no vigor da razão, e estão como na margem das leis e sem regime jurídico. E isto concorda com o que Aristóteles disse em sua Política. Consequentemente, quando o Apóstolo disse: assim como conclui o que pretende, isto se pode construir de duas maneiras. Primeiramente para certificar como se dissera: Tão bárbaro seria eu para vós se falasse sem significação nem interpretação, como bárbaros serieis vós mutuamente; logo aspiráis aos dons espirituais.
Ou de outro modo, dizendo-se tudo com claridade, como se dissera: Não sejais, pois, bárbaros; senão que, tal como eu procedo, posto que estais ansiosos das coisas do espirito, isto é, dos dons do Espírito Santo, pedí-los a Deus, para que abundeis. Na abundante justiça está a virtude máxima (Pr 15,5). Na qual justiça é edificar aos demais. Pedi e vos será dado; buscais e achareis; batei e vos será aberto (Mt 7,7).
-- Dos Comentários a Primeira Epístola aos Coríntios, de São Tomás de Aquino (século XIII)

27 de nov de 2011

A pobreza verdadeira

Quem realmente deseja entregar-se ao serviço de Deus e levar uma vida espiritual deve, primeirmente, menosprezar e colocar abaixo de seus pés todas as coisas terrenas e mundanas. Destas deve servir-se apenas se forem de primeira necessidade, e mesmo assim, em muito pequenas quantidades, aquilo que não pode deixar de usar para seu ministério, sofrendo com paciência se algo faltar, por amor a pobreza. Como nos diz um doutor: sabemos que não é motivo de orgulho ser pobre, mas é muito grande perfeição, sendo pobre, amar a obreza, as necessidades e misérias que trazem consigo, sofrer-la com muita felicidade e alegria. 

Mas é de chorar que existem muitos que elogiam e dizem amar a pobreza, mas desde que não lhes falte nada para seu proveito. Pintam-se como grandes amigos da pobreza, mas são companheiros apenas de nome. Por que quando podem fogem dos que verdadeiramente padecem e são pobres. Gostam de parecer ser, mas não da fome, menosprezo e abatimento, fiéis companheiras da pobreza. 

Não eram pobres desta maneira nosso fundador São Domingos, e muito menos aquele que sendo o mais rico e poderoso, se fez o mais pobre e mendigo por nós. Os sagrados apóstolos, que nos ensinaram com palavras, nos persuadiram com seus próprios exemplos. A imitação deles, não deves pedir nada para teu serviço, se a isto não te obrigar grande necessidade. E se alguém, movido por sua própria vontade, te quiser dar algo, não aceites nem sejas condescente com teus gostos, ainda que atravesses necessidades ou tenhas intenção de dar aos pobres, para que outros não fiquem com inveja por possuires mais que eles. 

Tão pouco não te mova recebê-lo pensar que quem te envia se entristecerá por não receberes. Por que ainda que caias de prestígio, depois serás motivo para alegria muito grande, não apenas para esta pessoa, mas para qualquer outra testemunha. E teu tão bom exemplo levará, com mais facilidade, a teus irmãos menosprezar o mundo, correr a dar esmolas e ajudar os pobres e necessitados. 

A necessidade que menciono, entendo como a escassez de comida e simplicidade de roupas e calçados, nos quais é muito comum pode padecer. Não chamo de necessidade ter livros, pois ai muitas vezes esconde-se grande avareza, pois nas bibliotecas há muitos livros católicos para nosso estudo. 

Quem quiser ver claramente os maravilhosos efeitos da pobreza, juntamente com os benefícios que lhe seguem, procure com humildade e simplicidade de coração colocar estes conselhos em prática. De outra sorte, se com soberba quiser comtradizer-me e seguir sua própria vontade, seguir por outros caminhos, se encontrará  perdido. Que a verdade é esta, Cristo é o maestro de humildade, aos humildes revela as verdades e segredos divinos, que permanecem escondidos dos soberbos e orgulhosos.


-- Do Tratado da Vida Espiritual, de São Vicente Ferrer - capítulo I. (século XV). 


-- Tradução particular

26 de nov de 2011

Catequeses Mistagógicas de São Cirilo de Jerusalém



Acabo de publicar um conjunto de cinco catequeses para recém batizados, de autoria de São Cirilo de Jerusalém, chamadas catequeses mistagógicas - do latim, catequeses "de formação". Este post fica como um índice.

Primeira: No Batismo renunciamos a Satanás
Segunda: A celebração do Batismo
Terceira: A unção dos óleos no Batismo
Quarta: Presença real de Cristo na Eucaristia
Quinta: A Celebração Eucarística

24 de nov de 2011

A Celebração Eucarística


Celebração pascal na Igreja do Santo Sepulcro, Jerusalem.

1. Pela benignidade de Deus, ouvistes de maneira suficiente, nas reuniões precedentes, sobre a batismo, a crisma e a participação do corpo e sangue de Cristo. Mas agora é necessário ir adiante, para coroar o edifício espiritual de vossa instrução.

2. Vistes o diácono oferecer água ao pontífice e aos presbíteros que rodeiam o altar de Deus para lavarem-se. Não a deu, absolutamente, por causa da sujeira corporal. Não é isso. Pois com o corpo sujo nem sequer teríamos entrado na igreja. Mas lavar as mãos é símbolo de que nos devemos purificar de todos os pecados e de todas as faltas. Já que as mãos são símbolo das obras, lavamo-las, indicando evidentemente a pureza e a irrepreensibilidade das obras. Não ouviste como o bem-aventurado Davi te introduziu neste mistério ao dizer: Lavarei as mãos entre os inocentes e andarei ao redor do teu altar, Senhor (Sl 26,7-8)? Então, lavar as mãos é estar limpo de pecado.

3 Depois o diácono proclama: Acolhei-vos mutuamente e dai-vos o ósculo da paz. Não suponhas que este ósculo seja como os que os amigos íntimos se dão na praça pública. Este ósculo não é assim. Mas este ósculo une as almas entre si e é para elas penhor de esquecimento de todos os ressentimentos. É sinal de que as almas se unem e afastam toda lembrança de toda injúria. Por isso Cristo disse: Quando fores apresentar uma oferta perante o altar, e ali te lembrares de que teu irmão tem algo contra ti, deixa ali a tua oferta diante do altar, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão, depois volta para apresentar a tua oferta (Mt 5,23-24). Então, o ósculo é reconciliação, e é por esta razão que é santo, como o bem-aventurado Paulo o proclama alhures: Saudai-vos uns aos outros no ósculo santo (2Cor 13,12). E Pedro: Saudai-vos uns aos outros no ósculo de caridade (1Pe 5,5).

Introdução à anáfora

4. Depois disso o sacerdote proclama: Corações ao alto! Verdadeiramente, nesta hora mui tremenda, é preciso ter o coração no alto, junto de Deus, e não embaixo, na terra, nas coisas terrenas. Com autoridade, pois, o sacerdote ordena que nesta hora se abandonem todas as preocupações da vida e os cuidados do-mésticos e que se tenha o coração no céu, junto ao Deus benevolente. Vós então respondeis: Já os temos no Senhor! assentindo à ordem por causa do que confessais. Ninguém esteja presente dizendo apenas com a boca: Nós os temos no Senhor, tendo a mente voltada para as preocupações da vida. Sempre devemos estar lembrados de Deus. Se isso é impossível pela fraqueza humana, naquela hora isto é o que mais deve ser procurado.

5. Depois diz o sacerdote: Demos graças ao Senhor. Deveras, devemos agradecer-lhe, porque sendo indignos chamou-nos a tamanha graça que nos reconciliou, sendo seus inimigos, e nos fez dignos da adoção do Espírito. E vós dizeis: É digno e justo. Pois quando damos graças nós fazemos algo digno e justo. Ele nos beneficiou não com a justiça, mas além de toda justiça, fazendo-nos dignos de grandes bens.

Anáfora, prece de louvor

6. Depois disso mencionamos o céu, a terra e o mar, o sol e a lua, os astros, toda criatura racional e irracional, visível e invisível, os anjos e arcanjos, as virtudes, dominações, principados, potestades, tronos, os querubins de muitas faces e, com vigor, dizemos com Davi: Celebrai comigo o Senhor (Sl 33,1). Lembramo-nos ainda dos serafins, que Isaías, no Espírito Santo, contemplava. Estavam colocados em círculo ao redor do trono de Deus. Com duas asas cobriam o rosto, com outras duas os pés, e com mais duas voavam e diziam: Santo, santo, santo é o Senhor dos exércitos. Por isso recitamos essa doxologia que nos foi transmitida pelos serafins, para que neste canto nos associemos aos exércitos celestes.

Epiclese

7. Depois de santificados por esses hinos espirituais, suplicamos ao Deus benigno que envie o Espírito Santo sobre os dons colocados, para fazer do pão corpo de Cristo e do vinho sangue de Cristo. Pois tudo o que o Espírito Santo toca é santificado e transformado.

Intercessões

8. Em seguida, realizado o sacrifício espiritual, o culto incruento, em presença dessa vítima de propiciação, invocamos a Deus pela paz comum das igrejas, pelo bem-estar do mundo, pelos imperadores, pelos exércitos e aliados, pelos doentes, pelos aflitos e, em geral, todos nós rezamos por todos aqueles que têm necessidade de socorro e oferecemos essa vítima.

9. Depois fazemos menção dos que adormeceram, primeiro dos patriarcas, profetas, apóstolos, mártires, para que Deus, por suas preces e intercessão, aceite nossa súplica. Depois ainda rezamos pelos santos padres, bispos adormecidos e, enfim, por todos os que nos precederam, persuadidos de que será de máximo proveito para as almas, pelas quais a súplica é elevada ante a santa e tremenda vítima.

10. E quero persuadir-vos com um exemplo. Sei que muitos dizem: Que aproveita à alma que parte deste mundo com faltas ou sem elas, se é mencionada na oferenda [eucarística]? Porventura, se um rei banisse aos que se rebelaram contra ele, e se em seguida seus companheiros, trançando uma coroa, a presenteiam ao rei em favor dos condenados, não lhes concederá a remissão dos castigos? Do mesmo modo nós também, apresentando a Deus as súplicas pelos adormecidos, embora tenham sido pecadores, nós não trançamos uma coroa, mas apresentamos o Cristo imolado por nossos pecados, tornando propício em favor deles e em nosso o Deus benigno.

O "Pater"

11. Depois disso, tu dizes aquela oração que o Salvador transmitiu aos discípulos, atribuindo a Deus, com pura consciência, o nome de Pai e dizes: Pai nosso, que estás nos céus. Ó incomensurável benignidade de Deus! Aos que o tinham abandonado e jaziam em extremos males, é concedido o perdão dos males e a participação da graça, a ponto de ser invocado como Pai. Pai nosso que estás nos céus. Os céus poderiam bem ser os que portam a imagem do celestial, nos quais Deus habita e vive.

12. Santificado seja teu nome. Santo é por natureza o nome de Deus, quer o digamos ou não. Mas uma vez que naqueles que pecam por vezes é profanado, segundo o que se diz: Por vós meu nome é continuamente blasfemado entre as nações, oramos que em nós o nome de Deus seja santificado. Não que por não ser santo chegue a sê-lo, mas porque em nós ele se torna santo quando nos santificamos e praticamos obras dignas de santificação.

13. Venha o teu reino. É próprio de uma alma pura dizer com confiança: Venha o teu reino. Quem ouviu Paulo dizer: Que o pecado não reine em vosso corpo mortal (Rm 6,12) e se purificar em obra, pensamento e palavra, dirá a Deus: Venha o teu reino.

14. Seja feita a tua vontade, assim no céu como na terra. Os divinos e bem-aventurados anjos de Deus fazem a vontade de Deus, como Davi dizia no salmo: Bendizei ao Senhor, todos os seus anjos, heróis poderosos, que executais sua palavra (Sl 103,20). Rezando, pois, com vigor, dize isto: como nos anjos se faz a tua vontade, Senhor, assim na terra se faça em mim.

15. Nosso pão substancial dá-nos hoje. O pão comum não é substancial. Mas este pão é substancial, pois se ordena à substância da alma. Este pão não vai ao ventre nem é lançado em lugar escuso mas se distribui sobre todo o organismo, em proveito da alma e do corpo. O "hoje" equivale a dizer de "cada dia" , como também dizia Paulo: Enquanto perdura o hoje.

16. E perdoa-nos as nossas dívidas assim como nós perdoamos aos nossos devedores. Temos muitos pecados. Caímos, pois, em palavra e em pensamento e fazemos muitas coisas dignas de condenação. E se dissermos que não temos pecado, mentimos (1Jo 1,8), como diz João. Fazemos com Deus um pacto pedindo-lhe nos perdoe nossos pecados como também nós perdoamos ao próximo suas dívidas. Tendo presente, portanto, o que recebemos em troca do que damos, não sejamos negligentes, nem deixemos de perdoar uns aos outros. As ofensas que se nos fazem são pequenas, simples, fáceis de reconciliar. As que nós fazemos a Deus são enormes e temos necessidade só de sua benignidade. Cuida, então, que por faltas pequenas e simples contra ti não te excluas do perdão, por parte de Deus, dos pecados gravíssimos.
Papa celebrando na sala da Última Ceia, Jerusalem.

17. E não nos induzas em tentação, Senhor. Porventura com isto o Senhor nos ensina a pedir que de modo algum sejamos tentados? Como se encontra em outro lugar: Aquele que foi tentado não tem experiência (Eclo 34,10) e ainda: Tende por suma alegria, meus irmãos, se cairdes em diversas provações (Tg 1,2)? Mas jamais entrar em tentação é o mesmo que ser submerso por ela. A tentação, pois, se assemelha a uma torrente difícil de atravessar. Os que, então, não são submersos nas tentações, atravessam, como bons nadadores, sem serem arrastados pela corrente. Os que não são assim, uma vez que entram, são submersos. Assim, por exemplo, Judas, entrando na tentação da avareza, não passou a nado, mas, submergindo, afogou-se corporal e espiritualmente. Pedro entrou na tentação de negação, mas, tendo entrado, não submergiu; antes, nadando com vigor, se salvou da tentação. 

Escuta novamente, em outro lugar, o coro dos santos todos rendendo graças por terem sido subtraídos à tentação: Tu nos provaste, ó Deus, acrisolaste-nos como se faz com a prata. Deixaste-nos cair no laço; carga pesada puseste em nossas costas; submeteste-nos ao jugo dos tiranos. Passamos pelo fogo e pela água, mas tu nos conduziste ao refrigério» (Pv 17,10). Tu os vês falar abertamente de sua travessia sem serem vencidos? Tu nos conduziste ao refrigério (Sl 19, 7). Chegar ao refrigério é ser livrado da tentação.

18. Mas livra-nos do Mal. Se a expressão «não nos induzas em tentação» significasse não sermos de modo algum tentados, não se diria: Mas livra-nos do Mal. O Mal é o demônio, nosso adversário, do qual pedimos ser libertos.

Depois, terminada a prece, dizes: amém, selando com este amém, que significa "faça-se", o que se contém na oração ensinada por Deus.

Comunhão

19. Depois disso, diz o sacerdote: As coisas santas aos santos. As coisas são as oferendas aí colocadas, pois receberam a vinda do Espírito Santo. Santos sois também vós, julgados dignos do Espírito Santo. As coisas santas, então, convêm aos santos. Em seguida vós dizeis: Um é o santo, um o Senhor, Jesus Cristo. Verdadeiramente um é o santo, santo por natureza. Nós, porém, se santos, o somos não pela natureza, mas pela participação, ascese e prece.

20. Depois dessas coisas, ouvis o cantor que, com uma melodia divina, vos convida à comunhão dos santos mistérios, dizendo: Provai e vede como o Senhor é bom (Sl 34,9). Não confieis o julgamento ao gosto corporal, mas à fé inabalável. Pois provando não provais pão e vinho, mas o corpo e sangue de Cristo que aqueles significam.

21. Ao te aproximares [da comunhão], não vás com as palmas das mãos estendidas, nem com os dedos separados; mas faze com a mão esquerda um trono para a direita como quem deve receber um Rei e no côncavo da mão espalmada recebe o corpo de Cristo, dizendo: Amém. Com segurança, então, santificando teus olhos pelo contato do corpo sagrado, toma-o e cuida de nada se perder. Pois se algo perderes é como se tivesses perdido um dos próprios membros. Dize-me, se alguém te oferecesse lâminas de ouro, não as guardarias com toda segurança, cuidando que nada delas se perdesse e fosses prejudicado? Não cuidarás, pois, com muito mais segurança de um objeto mais precioso que ouro e pedras preciosas, para dele não perderes uma migalha sequer?

22. Depois de teres comungado o corpo de Cristo, aproxima-te também do cálice do seu sangue. Não estendas as mãos, mas inclinando-te, e num gesto de adoração e respeito, dize amém. Santifica-te também tomando o sangue de Cristo. E enquanto teus lábios ainda estão úmidos, roça-os de leve com tuas mãos e santifica teus olhos, tua fronte e teus outros sentidos. Depois, ao esperares as orações [finais], rende graças a Deus que te julgou digno de tamanhos mistérios.

23. Conservai inviolavelmente essas tradições e vós mesmos guardai-vos sem ofensa. Não vos separeis da comunhão nem pela mancha do pecado vos priveis desses santos e espirituais mistérios. O Deus da paz santifique-vos completamente. Conserve-se inteiro o vosso espírito, e a vossa alma e o vosso corpo sem mancha, para a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo (1Ts 5,23), a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Quinta Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados, de São Cirilo de Jerusalém (século IV)
Demais Catequeses:





21 de nov de 2011

Presença real de Cristo na Eucaristia


1. Este ensinamento do bem-aventurado Paulo foi estabelecido como suficiente para vos assegurar acerca dos divinos mistérios, dos quais tendo sido julgados dignos, vos tornastes concorpóreos e consangüíneos com Cristo. O próprio Paulo proclama precisamente: Na noite em que foi entregue, Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E tomando o cálice e tendo dado graças, disse: Tomai, bebei, isto é o meu sangue (Mt 26,26).

2. Se ele em pessoa declarou e disse do pão: Isto é o meu corpo, quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma categoricamente e diz: Isto é o meu sangue, quem duvidaria dizendo não ser seu sangue? Outrora, em Caná da Galiléia, por própria autoridade, transformou a água em vinho. Não será digno de fé quando transforma o vinho em sangue? Convidado às bodas corporais, realizou, este milagre maravilhoso. Aos companheiros do esposo não se concederá, com muito mais razão, a alegria de desfrutar do seu corpo e sangue?

3. Portanto, com toda certeza recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo. Assim nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos), sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse modo, como diz o bem-aventurado Pedro, «tornamo-nos participes da natureza divina».

4. Falando, outrora, aos judeus Cristo dizia: Se não comerdes minha carne e não beberdes meu sangue, não tereis a vida em vós (Jo 6,53). Como não entendessem espiritualmente o que era dito, escandalizados, se retiraram, imaginando que o Salvador os incitava a comer carne humana.

5. Também no Antigo Testamento havia pães de proposição. Mas esses pães, por pertencerem à antiga aliança, tiveram fim. Na nova aliança o pão celeste e o cálice de salvação santificam a alma e o corpo. Pois, como o pão se adequa ao corpo, assim o Verbo se harmoniza com a alma.

6. Não consideres, portanto, o pão e o vinho como simples elementos. São, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue. Se os sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não julgues o que se propõe segundo o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que foste julgado digno do corpo e sangue de Cristo.

7. O bem-aventurado Davi te anuncia a força [deste mistério] dizendo: Preparaste para mim a mesa à vista de meus inimigos (Sl 22, 5). Com isso ele quer dizer: Antes de tua vinda os demônios preparavam para os homens uma mesa contaminada e manchada, cheia de poder diabólico. Mas depois de tua vinda, ó Senhor, tu preparaste diante de mim uma mesa. Quando o homem diz a Deus: Tu preparaste diante de mim uma mesa , que outra coisa quer ele insinuar, senão a mística e espiritual mesa, que Deus nos preparou em oposição ao adversário, isto é, em oposição ao demônio? Sim, é isso mesmo. Pois a primeira mesa tinha comunhão com os demônios, essa, ao contrário, comunhão com Deus. Ungiste de óleo minha cabeça (Sl 23, 5). Com o óleo te ungiu a cabeça, sobre a fronte, pelo sinal que tens de Deus, a fim de que te tornes assinalado santo de Deus. E teu cálice inebria-me como o melhor (Sl 23,5). Vês aqui mencionado o cálice que Jesus tomou em suas mãos e sobre o qual rendeu graças dizendo: Este é o meu sangue, que é derramado por todos, em remissão dos pecados (Mc 14,24-25).

8. Por isso também Salomão, aludindo a essa graça, disse: Vem, come teu pão na alegria (Ecle 9,7), o pão espiritual. Vem designa o apelo salutar e que faz bem-aventurado. E bebe, de bom coração, teu vinho (Ecle 9,7), o vinho espiritual. Derrama o óleo sobre tua cabeça (vês aqui mais uma alusão à unção mística?) Traja sempre vestes brancas, já que Deus sempre favorece as tuas obras (Ecle 9,8). Pois agora Deus se agradou de tuas obras. Antes de te aproximares da graça eram tuas obras vaidade das vaidades. Todavia agora, tendo despido as velhas vestes e revestido espiritualmente a veste branca, é necessário estar sempre vestido de branco. Não dizemos isso absolutamente porque é preciso estar trajado de branco, mas porque deves, em realidade, revestir a veste branca, brilhante e espiritual, a fim de dizeres com o bem-aventurado Isaías: Com grande alegria me rejubilei no Senhor, porque me fez revestir a vestimenta da salvação e me cobriu com a túnica da alegria (Is 61,10).

9. Tendo aprendido e estando seguro de que o que parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira, mas o sangue de Cristo  e porque sobre isto dizia vibrando Davi: O pão fortalece o coração do homem, para que no óleo se regozije o semblante (Sl 104,15) fortalece o teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de tua alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência pura, contempleis a glória do Senhor, para ir de glória em glória, em Cristo Jesus Senhor Nosso, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Quarta Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados, de São Cirilo de Jerusalém (século IV)
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19 de nov de 2011

Orações do Papa João Paulo II na Festa de Cristo Rei

Recolho aqui algumas das orações do Papa João Paulo II, proferidas em diferentes anos, durante o Angelus, sempre no domingo de Cristo Rei.

Em 26 de Novembro de 1978

Hoje é a festa de Cristo, Rei do universo. Enquanto pensava no que vos havia de dizer hoje, caríssimos Irmãos e Irmãs reunidos para o Angelus, veio-me ao espírito que nesta festa deveriam antes de tudo ressoar aqui —  sim, mesmo aqui, diante da fachada da Basílica de São Pedro, no coração de Roma — as palavras do Evangelho de São João.

Disse Pilatos: "És tu o rei dos Judeus?". Jesus respondeu-lhe: "E por ti mesmo que dizes isso, ou disseram-to outros de mim?". Pilatos respondeu: Porventura sou eu judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizestes? Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo (Jo 18, 33-36).

Estas palavras recordam-nos acontecimentos passados, que se deram nas longínquas periferias do grande Império Romano. Não são todavia sem significado. Talvez ainda nelas ressoem problemas hodiernos, actuais. Talvez neste diálogo se possam encontrar, pelo menos em certos aspectos, os mesmos debates que hoje aparecem.

Cristo responde à pergunta do juiz e demonstra que a acusação contra si mesmo é infundada. Ele não ambiciona o poder temporal. Pouco depois será flagelado e coroado de espinhos. Será objecto de mofas e insultá-lo-ão dizendo: Salve, rei dos Judeus (Jo 19, 3). Mas Jesus cala-se, como se quisesse com o seu silêncio exprimir até ao fundo o que já antes respondera a Pilatos.

Mas esta não era ainda a resposta completa. E Pilatos compreendia-o. Por isso perguntou pela segunda vez: Então tu és rei? (Jo 18, 37). Estranha pergunta, estranha depois de tudo quanto Cristo declarara com tanta firmeza. Mas Pilatos compreendeu que a negação do acusado não dizia ainda tudo: no fundo desta negação estava escondida uma afirmação. Qual? Cristo ajuda Pilatos-juiz a encontrá-la: Tu o dizes, eu sou rei. Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18, 37).

Devemos todos refletir bem no negação e na afirmação de Cristo.

A afirmação de Jesus não pertence ao processo que outrora decorreu nos longínquos territórios do Império Romano, mas está sempre no meio da nossa vicia. É atual. Devem refletir nela tanto os que publicam as leis, como os que governam os estados e os que julgam.

Nesta afirmação deve refletir cada cristão, cada homem, que é sem dúvida sempre una cidadão, e por conseguinte pertence a uma definida comunidade política, económica, nacional e internacional.

"Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade" — diz Cristo Rei diante do tribunal do governador-juiz, enquanto espera a sentença que daí a pouco seria pronunciada.

A este propósito ouçamos ainda o que disse o Concilio Vaticano II:
"A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade civil nem está ligada a qualquer sistema politico determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana" (Gaudium et spes, 76).

Assim pensa e assim fala a Igreja contemporânea. A Igreja quer ser fiel ao que disse Cristo. Esta é a sua razão de ser. A este propósito, o pensamento leva-nos àqueles nossos irmãos que são processados e que talvez sejam condenados à morte — se não à corporal, ao menos à cívica porque professam a sua fé, porque são fiéis à verdade, porque difundem o verdadeira justiça.

É preciso reconhecer que também no mundo de hoje não faltam infelizmente situações semelhantes. Neste dia de Cristo Rei é portanto necessário que se ponha em evidência a semelhança entre os que sofrem e o mesmo Cristo, processado e condenado diante do tribunal de Pilatos.

Peçamos todos os dias: venha a nós o Vosso Reino. Não devemos nunca esquecer aqueles que pagam a sua fidelidade ao Reino de Deus com a condenação. com as discriminações, os sofrimentos e a morte. É necessário ser isto recordado por nós todos ao encontrarmo-nos diante da fachada da Basílica de São Pedro para a remo do Angelus.


Em 23 de Novembro de 1980

Hoje somos convidados a render graças a Deus, nosso Pai celeste, "que nos livrou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino de Seu Filho muito amado, no Qual temos a redenção e a remissão dos pecados" (Col 1, 13-14). Hoje, de fato, celebramos a Solenidade de Cristo Rei.

Ao recitar o Angelus agradecemos, ao mesmo tempo, também a Maria, Mãe terrena do Filho de Deus, por ter respondido à palavra do Anjo, que Lhe anunciara a vontade do Pai celeste, com o seu fiat: "Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).

O Reino de Deus, que veio ao mundo juntamente com Cristo, foi concebido, de modo singular, sob o coração de Maria. A nossa prece recorda-nos isto todas as vezes, e hoje de modo particular — "E o Verbo fez-Se homem e habitou entre nós" (Jo 1, 14) repetimos com as palavras do Evangelho "Bendito aquele que vem no nome do Senhor: bendito o seu reino que vem" — cantamos na liturgia hodierna.

Neste dia solene nós suplicamos ao Pai celeste, pela intercessão da Mãe de Cristo, por que "transferidos para o Reino de Seu Filho muito amado" (Col 1, 13) permaneçamos nele e nos aperfeiçoemos até ao tempo do cumprimento dos nossas dias. Peçamos por que este reino de graça e de verdade, reino de amor e de paz, se difunda, por obra da Igreja e mediante o seu serviço, nas almas de todos os homens.

Em 25 de Novembro de 2001

Neste Domingo, último do Ano litúrgico, celebra-se a solenidade de Cristo Rei do universo, e a Igreja convida-nos a contemplar a realeza do Redentor, que se manifesta com particular eloquência na vida dos santos.

Esta manhã, na Basílica de São Pedro, tive a alegria de proclamar quatro novos santos:  o Bispo de Acqui, José Marello, fundador da Congregação dos Oblatos de São José, e três virgens consagradas:  Paula Montal Fornés de São José de Calasanz, Leónia Francisca de Sales Aviat e Maria Crescência Höss.

O seu testemunho mostra que o Crucificado verdadeiramente "vive e reina nos séculos dos séculos". Sim, Ele é "o Vivente", "o Senhor", e reina na vida dos homens e das mulheres de todos os lugares e de todos os tempos, que o acolhem livremente e o seguem fielmente. O seu Reino, "reino de justiça, de amor e de paz" (Prefácio) maifestar-se-á, mas, em plenitude, só no fim dos tempos.

Comparada com os critérios deste mundo, a realeza de Jesus torna-se, por assim dizer, "paradoxal". O poder que ela exerce, de fato, não entra nas lógicas terrenas. Pelo contrário, é o poder do amor e do serviço, que requer o dom gratuito de si e o coerente testemunho da verdade (cf. Jo 18, 37).

Por isto, o Senhor sacrificou-se a si mesmo como "vítima imolada de paz sobre o altar da Cruz (Prefácio), sabendo que só assim poderia resgatar do pecado e da morte a humanidade, a história e o cosmos. A sua ressurreição dá testemunho de que Ele é o rei vitorioso, o "Senhor" nos céus, sobre a terra e debaixo da terra (cf. Fil 2, 10-11).

A  criatura  que,  mais  do  que qualquer  outra,  foi  associada  à  realeza de Cristo é Maria, por Ele mesmo coroada Rainha do céu e da terra. Para Ela olharam, como para um modelo constante, os santos que, hoje, a Igreja apresenta à nossa veneração. Para Ela dirigimos  também  o  nosso  olhar,  para  que  nos  ajude  a  reinar  com Cristo para construir um mundo onde reine a paz.

Devemos rezar sem descanso para obter este grande dom, que é a paz; dom de que a humanidade tanto precisa. Peçamo-lo também, confiantes, com as duas iniciativas que anunciei no domingo passado:  o dia de jejum em Dezembro e o encontro de oração em Janeiro, em Assis, com os representantes das religiões do mundo. Interceda por nós Maria, Rainha da paz, junto do seu divino Filho, Rei imortal e Senhor da paz.




Santa Cecilia


O Martírio de Santa Cecília, de Stefano maderno, representa
como foi encontrado corpo da Santa quando abriram seu
sepulcro em 1599, mais de 1000 anos após seu martírio.
Vede o que Deus fez por Santa Cecília. Nascida em Roma de pais muito ricos, ela era muito instruída na religião cristã, e seguindo a inspiração de Deus, ela Lhe consagrou sua virgindade. Seus pais, que não o sabiam, prometeram-na em casamento a Valeriano, filho de um senador da Cidade. Era, segundo o mundo, um partido bem considerado. Ela pediu a seus pais um tempo para pensar. Ela passou este tempo no jejum, na oração e nas lágrimas, para obter de Deus a graça de não perder a flor daquela virtude que ela estimava mais que sua vida. O bom Deus lhe respondeu que não temesse nada e que obedecesse a seus pais; pois, não somente não perderia esta virtude, mas ainda obteria mais... Consentiu, pois, no matrimônio.

No dia das núpcias, quando Valeriano se apresentou, ela lhe disse:
- Meu caro Valeriano, eu tenho um segredo a lhe comunicar.
Ele lhe respondeu: “Qual é este segredo? ”
- "Eu consagrei minha virgindade a Deus e jamais homem algum me tocará, pois eu tenho um anjo que vela por minha pureza; se você atentar contra isto, você será ferido de morte”.

Valeriano ficou muito surpreso com esta linguagem, porque sendo pagão, não compreendia nada de tudo isto. Ele respondeu: “Mostre-me este anjo que a guarda.” 

A Santa replicou: “Você não pode vê-lo porque você é pagão. Vá ter com o Papa Urbano, e peça-lhe o batismo, você em seguida verá o meu anjo”.

Imediatamente ele parte. Depois de ter sido batizado pelo Papa, ele volta a encontrar sua esposa. Entrando no seu quarto, vê o anjo velando com Santa Cecília. Ele o acha tão bonito, tão brilhante de glória, que fica encantado e tocado por sua formosura. Não somente permite à sua esposa permanecer consagrada a Deus, mas ele mesmo faz voto de virgindade ... Em breve eles tiveram a alegria de morrerem mártires. Estais vendo como o bom Deus toma cuidado duma pessoa que ama esta incomparável virtude e trabalha por conservá-la?

-- Do Sermão sobre a Pureza, de São João Maria Vianey

A unção dos óleos no Batismo


O Batismo de Santo Agostinho, 
1. Batizados em Cristo e dele revestidos, vos tornastes conformes ao Filho de Deus. Em verdade, Deus, predestinando-nos à adoção de filhos, nos fez conformes ao corpo glorioso de Cristo.Feitos, pois, participes de Cristo, não sem razão, sois chamados cristos e é de vós que Deus disse: Não ouseis tocar nos que me são consagrados (Sl 104,15). Ora, vós vos tornastes cristos, recebendo o sinal do Espírito Santo, e tudo se cumpriu em vós em imagem, pois sois imagens de Cristo. Ele, quando banhado no rio Jordão e comunicando às águas a força da Divindade, delas saiu e se produziu sobre ele a vinda substancial do Espírito Santo, pousando igual sobre igual. Também a vós, ao sairdes das águas sagradas da piscina, se concede a unção, figura daquela com que Cristo foi ungido. Refiro-me ao Espírito Santo, do qual o bem-aventurado Isaías, na profecia a respeito dele, disse, na pessoa do Senhor: O espírito do Senhor repousa sobre mim, porque o Senhor consagrou-me pela unção (Is 61,1).

2. Na verdade, Cristo não foi ungido com óleo ou ungüento material por um homem. Mas foi o Pai que, estabelecendo-o com antecedência como Salvador de todo o universo, o ungiu com o Espírito Santo, conforme está dito: Jesus de Nazaré, a quem Deus ungiu com o Espírito Santo (Lc 4,18). E o profeta Davi exclamou: Vosso trono, ó Deus, é eterno, de eqüidade é vosso cetro real. Amais a justiça e detestais o mal, pelo que o Senhor, vosso Deus, vos ungiu com óleo de alegria, preferindo-vos aos vossos iguais (Sl 44,7-8). E como Cristo foi verdadeiramente crucificado e sepultado e ressuscitou, e vós, pelo batismo, fostes, por semelhança, tidos por dignos de com ele ser crucificados, sepultados e ressuscita-dos, assim também na unção do crisma. Ele foi ungido com o óleo espiritual da alegria, isto é, com o Espírito Santo, chamado óleo de alegria, por ser causa da alegria espiritual. Vós fostes ungidos com o óleo, feitos, partícipes e companheiros de Cristo.

3. Vê, porem, que não imagines ser um simples ungüento. Pois, como o pão da Eucaristia, depois de epiclese do Espírito Santo, já não é simples pão, mas o corpo de Cristo, assim também este santo ungüento, com a epiclese, já não é puro e simples ungüento, mas é dom de Cristo e obra do Espírito Santo, pela presença de sua divindade. Com ele se unge simbolicamente tua fronte e os outros sentidos. Se, por um lado, o corpo é ungido com o ungüento sensível, por outro, a alma é santificada pelo santo e vivificado Espírito.

4. E primeiro sois ungidos na fronte para serdes libertados da vergonha que o primeiro homem transgressor levou por toda parte e para que, de face descoberta, contempleis a glória do Senhor. Depois nos ouvidos, para terdes ouvidos conforme disse Isaías: o Senhor Deus abriu-me o ouvido (Is 50,4) e o Senhor no Evangelho: Quem tem ouvidos para ouvir que ouça (Lc 8,8). Em seguida nas narinas, para que, ao receberdes este divino ungüento, possais dizer: Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam (Hb 2,15). Depois no peito, a fim de que atender o pedido: revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demônio (Ef 6,11). Como na verdade o Salvador, após seu batismo e a descida do Espírito Santo, saiu a combater o adversário, assim também vós, depois do santo batismo e da mística unção, revestidos da armadura do Espírito Santo, resistis à força inimiga e a venceis dizendo: «Tudo posso naquele que me conforta, Cristo».

5. Feitos dignos desta santa unção, sois chamados cristãos. Assim, pela regeneração, mostra ser de direito o nome [de cristãos]. Antes, pois, de serdes declarados dignos do batismo e da graça do Espírito Santo, não éreis dignos deste nome, mas estáveis a caminho de serdes cristãos.

6. É necessário que saibais que há ó símbolo desta unção na Escritura Antiga. E na verdade, quando Moisés comunicou ao irmão a ordem de Deus e o estabeleceu sumo sacerdote, depois de lavar-se com água, o ungiu e foi ele chamado Cristo, em virtude, evidentemente, da unção figurativa. Do mesmo modo, o sumo sacerdote, ao elevar Salomão à dignidade de rei, o ungiu, depois de lavar-se no Gion. Mas essas coisas lhes aconteceram em figura. A vós, porém, não em figura, mas, em verdade. Isso, já que o começo de vossa salvação remonta àquele que foi ungido pelo Espírito Santo. Cristo é realmente as primícias, e vós sois a massa: mas se as primícias são santas, é evidente que a santidade também passa à massa.

7. Guardai imaculada esta unção: ensinar-vos-á todas as coisas, se permanecer em vós, como ouvistes há pouco dizer o bem-aventurado João, explicando muitas coisas sobre a unção. Esta unção é a salvaguarda espiritual do corpo e a salvação da alma. Foi isto que desde tempos antigos o santo Isaías profetizou, dizendo: o Senhor dos exércitos dará nesta montanha para todos os povos um banquete (Is 25, 6). Por montanha ele designa a Igreja, como outras vezes quando diz: E nos últimos dias será visível a montanha do Senhor. Beberão vinho, beberão a alegria, serão ungidos de ungüento». E para que mais te assegures, ouve o que diz sobre este ungüento em sentido místico: Transmite tudo isso às nações, pois o desígnio do Senhor se estende sobre todos os povos. Assim, pois, ungidos com este santo crisma, guardai-o sem mancha e irrepreensível em vós, progredindo em boas obras e tornando-vos agradáveis ao autor de nossa salvação, Cristo Jesus, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Terceira Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados, de São Cirilo de Jerusalém (século IV)

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