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21 de nov. de 2017

Eis que vem a ti teu rei, justo e salvador

Digamos também nós a Cristo: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 21,9), rei de Israel (Mt 27,42). Levantemos para ele, quais folhas de palmeira, as derradeiras palavras na cruz. Vamos com entusiasmo para a frente, não com ramos de oliveira, mas com as honras das esmolas de uns aos outros. Estendamos a seus pés, como vestes, os desejos do coração. Deste modo, pondo seus passos em nós,esteja dentro de nós, e nós inteiros nele; e se manifeste ele totalmente em nós. Repitamos para Sião a aclamação do Profeta: Tem confiança, filha, não temas. Eis que vem a ti teu rei, manso e montado no jumentinho, filho da que leva o jugo (cf. Zc 9,9).
 
Jesus entra em Jerusálem, de Giotto(século XIV)
Vem aquele que está presente em todo o lugar e ocupa tudo, para realizar em ti a salvação  de tudo. Vem aquele que não veio chamar os justos, mas os pecadores à conversão (Mt 9,13), para fazer voltar os desviados pelo pecado. Não temas, pois. Está Deus no meio de ti, não serás abalada (cf. Dt 7,21).

De mãos erguidas, recebe-o, a ele que gravou nas próprias mãos tuas muralhas. Acolhe-o, a ele que cavou em suas palmas teus fundamentos. Recebe-o, a ele que tomou para si tudo o que é nosso, à exceção do pecado, a fim de mergulhar tudo que é nosso no que é dele. Alegra-te, cidade-mãe, Sião; não temas. Celebra tuas festas (Na 2,1). Glorifica por sua misericórdia quem em ti vem para nós. Mas também tu, rejubila-te com entusiasmo, filha de Jerusalém, canta, dança de alegria. Resplandece, resplandece (assim aclamamos junto com Isaías, o clarim sagrado), porque chegou tua luz e nasceu sobre ti a glória do Senhor (Is 60,1).

Que luz é esta? Só pode ser aquela que ilumina a todo homem que vem ao mundo (cf. Jo 1,9). A luz eterna, luz que não conhece o tempo e revelada no tempo, luz manifestada pela carne e oculta por natureza, luz que envolveu os pastores e se fez para os magos guia do caminho. Luz que desde o princípio estava no mundo, por quem foi feito o mundo e o mundo não a conheceu. Luz que veio ao que era seu, e os seus não a receberam.

Glória do Senhor. Qual glória? Na verdade, a cruz em que Cristo foi glorificado. Ele, esplendor da glória do Pai, como ele próprio, estando próxima a paixão, disse: Agora é glorificado o Filho do homem e Deus é glorificado nele; e o glorificará sem demora (cf. Jo 13,31-32). Chama de glória neste passo sua exaltação na cruz. Porque a cruz de Cristo é glória e, realmente, sua exaltação. Por isto diz: Eu, quando for exaltado, atrairei todos a mim (Jo 12,32).

-- Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo (século VIII)

21 de nov. de 2014

Jesus Cristo Rei do Universo - Domingo 23/11/2014

Evangelho (Mt 25,31-46)
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 31“Quando o Filho do Homem vier em sua glória, acompanhado de todos os anjos, então se assentará em seu trono glorioso.
32Todos os povos da terra serão reunidos diante dele, e ele separará uns dos outros, assim como o pastor separa as ovelhas dos cabritos. 33E colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos à sua esquerda.
34Então o Rei dirá aos que estiverem à sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei como herança o Reino que meu Pai vos preparou desde a criação do mundo! 35Pois eu estava com fome e me destes de comer; eu estava com sede e me destes de beber; eu era estrangeiro e me recebestes em casa; 36eu estava nu e me vestistes; eu estava doente e cuidastes de mim; eu estava na prisão e fostes me visitar’.
37Então os justos lhe perguntarão: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer? Com sede e te demos de beber? 38Quando foi que te vimos como estrangeiro e te recebemos em casa, e sem roupa e te vestimos?39Quando foi que te vimos doente ou preso e fomos te visitar?’
40Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo que todas as vezes que fizestes isso a um dos menores de meus irmãos, foi a mim que o fizestes!’
41Depois o Rei dirá aos que estiverem à sua esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos. 42Pois eu estava com fome e não me destes de comer; eu estava com sede e não me destes de beber; 43eu era estrangeiro e não me recebestes em casa; eu estava nu e não me vestistes; eu estava doente e na prisão e não me fostes visitar’.
44E responderão também eles: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome, ou com sede, como estrangeiro, ou nu, doente ou preso, e não te servimos?’
45Então o Rei lhes responderá: ‘Em verdade eu vos digo: todas as vezes que não fizestes isso a um desses pequeninos, foi a mim que não o fizestes!’
46Portanto, estes irão para o castigo eterno, enquanto os justos irão para a vida eterna”.
Comentário:
Neste Evangelho São Mateus descreve a vinda de Jesus rei-messias que faz seus eleitos passarem de seu reino para o do Pai. A imagem fundamental é tirada do livro de Ezequiel (34, 17.32-33), Jesus é aquele que julga suas ovelhas levando em contas as obras de misericórdia (Is 58, 7; Jó 22, 6-7; Eclo 7, 35-36). Assim Jesus nos obriga a conferir, a cada momento, nossa vida, em visto do encontro com Cristo, que agora se apresenta a nós como pobre necessitado. Cristo Rei é o vencedor da morte; mas isto só se dará quando todos os seus houverem participado da ressurreição (Rm 6,5; 8,22-26), quando ele terá realizado perfeitamente sua obra (Ef 4,6; Cl 3,11). 
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Ezequiel 34, 17-33
  • Isaias 58, 7
  • Jó 22, 6-7
  • Eclesiástico 7, 35-36
Evangelhos
  • Mateus 25, 31-46
Livros Apostólicos
  • Romanos 6,5
  • Romanos 8,22-26
  • Efésios 4,6
  • Colossenses 3,11

23 de set. de 2014

O poder de Deus Criador

O conteúdo do Salmo 92, sobre o qual  hoje  nos  detemos,  é  sugestivamente  expresso  por  alguns  versículos do  Hino  que  a  Liturgia  das  Horas propõe para as vésperas da segunda-feira:  Ó imenso criador, / que ao ímpeto das correntes marcastes o percurso e o limite / na harmonia da criação / tu que à áspera solidão / da terra sequiosa /deste o refrigério / das correntes e dos mares.

Antes de entrar no coração do Salmo, dominado pela imagem das águas, desejamos captar a sua tonalidade de fundo, o género literário que o domina. De fato, este Salmo, como os Salmos 95-98, é definido pelos estudiosos da Bíblia como "o cântico do Senhor rei". Exalta aquele Reino de Deus, fonte de paz, de verdade e de amor, que nós invocamos no "Pai-Nosso" quando imploramos:  "Venha a nós o Vosso Reino!".

Com efeito, o Salmo 92 começa precisamente com uma exclamação de júbilo que diz assim:  "Reina o Senhor" (v. 1). O Salmista celebra a realeza de Deus, isto é, a sua acção eficaz e salvífica, criadora do mundo e redentora do homem. O Senhor não é um imperador impassível, confinado no seu céu distante, mas está presente no meio do seu povo como Salvador poderoso e grande no amor.

Na primeira parte do hino de louvor prevalece o Senhor rei. Como um soberano Ele senta-se num trono de glória, um trono inabalável e eterno (cf. v. 2). O seu manto é o esplendor da transcendência, o cinto das suas vestes é a omnipotência (cf. v. 1). Precisamente a soberania omnipotente de Deus revela-se no centro do Salmo, caracterizado por uma imagem impressionante, a das águas caudalosas.
O Salmista menciona de modo mais particular a "voz" dos rios, ou seja, o bramido das suas águas. Efetivamente, o fragor de grandes cataratas produz, sobre aqueles que estão ensurdecidos e com todo o seu corpo tomado pelo estremecimento, uma sensação de grande força. O Salmo 41 recorda esta sensação quando diz:  "O abismo chama outro abismo no fragor das vossas cataratas. Todas as vossas vagas e torrentes passaram sobre mim" (v. 8). Face a esta força da natureza o ser humano sente-se pequeno. Mas o Salmista usa-a como trampolim para exaltar o poder, muito maior, do Senhor. À tripla repetição da expressão "as correntes elevam" (cf. Sl 92, 3) a sua voz, corresponde a tripla afirmação do poder superior de Deus.

Os Padres da Igreja gostam de comentar este Salmo aplicando-o a Cristo Senhor e Salvador. Orígenes, traduzido por São Jerónimo em latim, afirma:  "O Senhor reinou, revestiu-se de beleza. Isto é:  aquele que anteriormente tinha tremido na miséria da carne, resplandece agora na majestade da divindade". Para Orígenes, os rios e as águas que elevam as suas vozes representam as "figuras eminentes dos profetas e dos apóstolos", que "proclamam o louvor e a glória do Senhor, anunciam os seus juízos para todo o mundo".

Santo Agostinho desenvolve de modo ainda mais amplo o símbolo das correntes e dos mares. Como rios repletos de águas fluentes, isto é, cheios do Espírito Santo e fortificados, os Apóstolos já não têm receio e finalmente levantam a sua voz. Mas "quando Cristo começou a ser anunciado por tantas vozes, o mar começou a agitar-se". Na agitação do mar do mundo escreve Agostinho parece que a barca da Igreja flutua receosa, contrariada por ameaças e perseguições, mas "no alto, o Senhor é admirável":  ele "caminhou sobre as águas do mar e acalmou o seu fragor".

Mas o Deus soberano de todas as coisas, omnipotente e invencível, está sempre próximo do seu povo, ao qual dá os seus ensinamentos. Eis a ideia que o Salmo 92 oferece no seu último versículo:  ao trono altíssimo do céu sucede o trono da arca do templo de Jerusalém, o poder da sua voz cósmica é substituído pela doçura da sua palavra santa e inefável:  "São dignos de fé os Vossos testemunhos, da Vossa casa é própria a santidade, ó Senhor, por toda a extensão dos dias" (v. 5).

Encerra-se desta maneira um hino breve mas de grande intensidade. É uma oração que gera confiança e esperança nos fiéis que muitas vezes se sentem agitados, receosos de serem arrastados pela tempestade da história e atingidos por ameaçadoras forças obscuras.

Podemos reconhecer um eco deste Salmo no Apocalipse de João, quando o Autor inspirado, ao descrever a grande assembleia celeste celebra a derrocada da Babilónia opressiva, e afirma: "Ouvi, então, como que a voz de uma grande multidão, como o ruído de muitas águas e como o ribombar de grandes trovões que dizia:  "Aleluia! Eis que o Senhor, nosso Deus, o Todo-Poderoso, tomou posse do Seu Reino"" (19, 6).

Concluimos a nossa reflexão sobre o Salmo 92 dando a palavra a São Gregório de Nazianzo, o teólogo por excelência entre os Padres. Fazemo-lo com um seu bonito cântico no qual o louvor a Deus, soberano e criador, assume um aspecto trinitário:  "Tu [Pai], criaste o universo, a cada coisa atribuíste o lugar que lhe compete e tudo mantiveste em virtude da tua providência... é Deus-Filho o teu Verbo:  de fato, é consubstancial ao Pai, e igual a Ele na honra. Ele conciliou harmoniosamente o universo, para reinar sobre tudo. E, abraçando tudo, o Espírito Santo, Deus, de tudo cuida e tudo defende. A Ti proclamarei, Trindade viva, como único e só monarca... força inabalável que rege os céus, cuja visão não é acessível aos olhos mas que contempla todo o universo e conhece qualquer profundidade secreta da terra até aos abismos. Ó Pai, sê benigno comigo:  ... que eu possa encontrar misericórdia e graça, porque a ti são dadas glória e graças até ao fim dos tempos" .

-- Santo João Paulo II, na audiência de 3 de Julho de 2002 (papa)

22 de nov. de 2012

Reino dos Céus, Reino de Deus e Reino de Cristo


A missão da Igreja é a de anunciar o Reino de Cristo e de Deus e de instaurá-lo entre todos os povos; desse Reino ela é na terra o germe e o início. Por um lado, a Igreja é sacramento, isto é, sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade do género humano; ela é, portanto, sinal e instrumento do Reino: chamada a anunciá-lo e a instaurá-lo. Por outro, a Igreja é o povo reunido pela unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo; ela é portanto o Reino de Cristo já presente em mistério, constituindo assim o seu germe e início. O Reino de Deus tem, de fato, uma dimensão escatológica: é uma realidade presente no tempo, mas a sua plena realização dar-se-á apenas quando a história terminar ou se consumar.

Dos textos bíblicos e dos testemunhos patrísticos, bem como dos documentos do Magistério da Igreja, não se tiram significados unívocos para as expressões Reino dos Céus, Reino de Deus e Reino de Cristo, nem para a relação das mesmas com a Igreja, sendo esta um mistério que não se pode encerrar totalmente num conceito humano. Podem existir, portanto, diversas explicações teológicas dessas expressões, mas nenhuma dessas possíveis explicações pode negar ou esvaziar de maneira nenhuma a conexão íntima entre Cristo, o Reino e a Igreja. Pois, o Reino de Deus, que conhecemos pela Revelação não pode ser separado de Cristo nem da Igreja... Se separarmos o Reino, de Jesus, ficaremos sem o Reino de Deus, por Ele pregado, acabando por se distorcer quer o sentido do Reino, que corre o risco de se transformar numa meta puramente humana ou ideológica, quer a identidade de Cristo, que deixa de aparecer como o Senhor, a quem tudo se deve submeter (cf. 1 Cor 15,27). De igual modo, não podemos separar o Reino, da Igreja. Com certeza que esta não é fim em si própria, uma vez que se ordena ao Reino de Deus, do qual é princípio, sinal e instrumento. Mesmo sendo distinta de Cristo e do Reino, a Igreja todavia está unida indissoluvelmente a ambos.

Afirmar a relação inseparável entre Igreja e Reino não significa porém esquecer que o Reino de Deus — mesmo considerado na sua fase histórica — não se identifica com a Igreja na sua realidade visível e social. Não se deve, de fato, excluir a obra de Cristo e do Espírito fora dos confins visíveis da Igreja. Daí que se deva também considerar que o Reino diz respeito a todos: às pessoas, à sociedade, ao mundo inteiro. Trabalhar pelo Reino significa reconhecer e favorecer o dinamismo divino, que está presente na história humana e a transforma. Construir o Reino quer dizer trabalhar para a libertação do mal, sob todas as suas formas. Em resumo, o Reino de Deus é a manifestação e a atuação do seu desígnio de salvação, em toda a sua plenitude.

Ao considerar as relações entre Reino de Deus, Reino de Cristo e Igreja hão-de evitar-se sempre as acentuações unilaterais, como são as concepções que propositadamente colocam o acento no Reino, auto-denominando-se de “reino-cêntricas”, pretendendo com isso fazer ressaltar a imagem de uma Igreja que não pensa em si, mas dedica-se totalmente a testemunhar e servir o Reino. É uma “Igreja para os outros” — dizem — como Cristo é o “homem para os outros”. Ao lado de aspectos positivos, essas concepções revelam frequentemente outros negativos. Antes demais, silenciam o que se refere a Cristo: o Reino, de que falam, baseia-se num “teo-centrismo”, porque — como dizem — Cristo não pode ser entendido por quem não possui a fé n'Ele, enquanto que povos, culturas e religiões se podem encontrar na mesma e única realidade divina, qualquer que seja o seu nome. Pela mesma razão, privilegiam o mistério da criação, que se reflete na variedade de culturas e crenças, mas omitem o mistério da redenção. Mais ainda, o Reino, tal como o entendem eles, acaba por marginalizar ou desvalorizar a Igreja, como reação a um suposto eclesiocentrismo do passado, por considerarem a Igreja apenas um sinal, aliás passível de ambiguidade. Tais teses são contrárias à fé católica, por negarem a unicidade da relação de Cristo e da Igreja com o Reino de Deus.

-- Declaração Dominus Iesus sobre a unicidade e a universalidade salvífica de Jesus Cristo e da Igreja - Congregação para a Doutrina da Fé, em 6 de Agosto de 2000, Festa da Transfiguração do Senhor, quando o Prefeito era o então Cardeal Joseph Ratzinger.

19 de nov. de 2011

Orações do Papa João Paulo II na Festa de Cristo Rei

Recolho aqui algumas das orações do Papa João Paulo II, proferidas em diferentes anos, durante o Angelus, sempre no domingo de Cristo Rei.

Em 26 de Novembro de 1978

Hoje é a festa de Cristo, Rei do universo. Enquanto pensava no que vos havia de dizer hoje, caríssimos Irmãos e Irmãs reunidos para o Angelus, veio-me ao espírito que nesta festa deveriam antes de tudo ressoar aqui —  sim, mesmo aqui, diante da fachada da Basílica de São Pedro, no coração de Roma — as palavras do Evangelho de São João.

Disse Pilatos: "És tu o rei dos Judeus?". Jesus respondeu-lhe: "E por ti mesmo que dizes isso, ou disseram-to outros de mim?". Pilatos respondeu: Porventura sou eu judeu? A tua nação e os sumos sacerdotes é que te entregaram a mim. Que fizestes? Jesus respondeu: O meu reino não é deste mundo (Jo 18, 33-36).

Estas palavras recordam-nos acontecimentos passados, que se deram nas longínquas periferias do grande Império Romano. Não são todavia sem significado. Talvez ainda nelas ressoem problemas hodiernos, actuais. Talvez neste diálogo se possam encontrar, pelo menos em certos aspectos, os mesmos debates que hoje aparecem.

Cristo responde à pergunta do juiz e demonstra que a acusação contra si mesmo é infundada. Ele não ambiciona o poder temporal. Pouco depois será flagelado e coroado de espinhos. Será objecto de mofas e insultá-lo-ão dizendo: Salve, rei dos Judeus (Jo 19, 3). Mas Jesus cala-se, como se quisesse com o seu silêncio exprimir até ao fundo o que já antes respondera a Pilatos.

Mas esta não era ainda a resposta completa. E Pilatos compreendia-o. Por isso perguntou pela segunda vez: Então tu és rei? (Jo 18, 37). Estranha pergunta, estranha depois de tudo quanto Cristo declarara com tanta firmeza. Mas Pilatos compreendeu que a negação do acusado não dizia ainda tudo: no fundo desta negação estava escondida uma afirmação. Qual? Cristo ajuda Pilatos-juiz a encontrá-la: Tu o dizes, eu sou rei. Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz (Jo 18, 37).

Devemos todos refletir bem no negação e na afirmação de Cristo.

A afirmação de Jesus não pertence ao processo que outrora decorreu nos longínquos territórios do Império Romano, mas está sempre no meio da nossa vicia. É atual. Devem refletir nela tanto os que publicam as leis, como os que governam os estados e os que julgam.

Nesta afirmação deve refletir cada cristão, cada homem, que é sem dúvida sempre una cidadão, e por conseguinte pertence a uma definida comunidade política, económica, nacional e internacional.

"Para isto nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade" — diz Cristo Rei diante do tribunal do governador-juiz, enquanto espera a sentença que daí a pouco seria pronunciada.

A este propósito ouçamos ainda o que disse o Concilio Vaticano II:
"A Igreja que, em razão da sua missão e competência, de modo algum se confunde com a sociedade civil nem está ligada a qualquer sistema politico determinado, é ao mesmo tempo o sinal e salvaguarda da transcendência da pessoa humana" (Gaudium et spes, 76).

Assim pensa e assim fala a Igreja contemporânea. A Igreja quer ser fiel ao que disse Cristo. Esta é a sua razão de ser. A este propósito, o pensamento leva-nos àqueles nossos irmãos que são processados e que talvez sejam condenados à morte — se não à corporal, ao menos à cívica porque professam a sua fé, porque são fiéis à verdade, porque difundem o verdadeira justiça.

É preciso reconhecer que também no mundo de hoje não faltam infelizmente situações semelhantes. Neste dia de Cristo Rei é portanto necessário que se ponha em evidência a semelhança entre os que sofrem e o mesmo Cristo, processado e condenado diante do tribunal de Pilatos.

Peçamos todos os dias: venha a nós o Vosso Reino. Não devemos nunca esquecer aqueles que pagam a sua fidelidade ao Reino de Deus com a condenação. com as discriminações, os sofrimentos e a morte. É necessário ser isto recordado por nós todos ao encontrarmo-nos diante da fachada da Basílica de São Pedro para a remo do Angelus.


Em 23 de Novembro de 1980

Hoje somos convidados a render graças a Deus, nosso Pai celeste, "que nos livrou do poder das trevas e nos transferiu para o Reino de Seu Filho muito amado, no Qual temos a redenção e a remissão dos pecados" (Col 1, 13-14). Hoje, de fato, celebramos a Solenidade de Cristo Rei.

Ao recitar o Angelus agradecemos, ao mesmo tempo, também a Maria, Mãe terrena do Filho de Deus, por ter respondido à palavra do Anjo, que Lhe anunciara a vontade do Pai celeste, com o seu fiat: "Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).

O Reino de Deus, que veio ao mundo juntamente com Cristo, foi concebido, de modo singular, sob o coração de Maria. A nossa prece recorda-nos isto todas as vezes, e hoje de modo particular — "E o Verbo fez-Se homem e habitou entre nós" (Jo 1, 14) repetimos com as palavras do Evangelho "Bendito aquele que vem no nome do Senhor: bendito o seu reino que vem" — cantamos na liturgia hodierna.

Neste dia solene nós suplicamos ao Pai celeste, pela intercessão da Mãe de Cristo, por que "transferidos para o Reino de Seu Filho muito amado" (Col 1, 13) permaneçamos nele e nos aperfeiçoemos até ao tempo do cumprimento dos nossas dias. Peçamos por que este reino de graça e de verdade, reino de amor e de paz, se difunda, por obra da Igreja e mediante o seu serviço, nas almas de todos os homens.

Em 25 de Novembro de 2001

Neste Domingo, último do Ano litúrgico, celebra-se a solenidade de Cristo Rei do universo, e a Igreja convida-nos a contemplar a realeza do Redentor, que se manifesta com particular eloquência na vida dos santos.

Esta manhã, na Basílica de São Pedro, tive a alegria de proclamar quatro novos santos:  o Bispo de Acqui, José Marello, fundador da Congregação dos Oblatos de São José, e três virgens consagradas:  Paula Montal Fornés de São José de Calasanz, Leónia Francisca de Sales Aviat e Maria Crescência Höss.

O seu testemunho mostra que o Crucificado verdadeiramente "vive e reina nos séculos dos séculos". Sim, Ele é "o Vivente", "o Senhor", e reina na vida dos homens e das mulheres de todos os lugares e de todos os tempos, que o acolhem livremente e o seguem fielmente. O seu Reino, "reino de justiça, de amor e de paz" (Prefácio) maifestar-se-á, mas, em plenitude, só no fim dos tempos.

Comparada com os critérios deste mundo, a realeza de Jesus torna-se, por assim dizer, "paradoxal". O poder que ela exerce, de fato, não entra nas lógicas terrenas. Pelo contrário, é o poder do amor e do serviço, que requer o dom gratuito de si e o coerente testemunho da verdade (cf. Jo 18, 37).

Por isto, o Senhor sacrificou-se a si mesmo como "vítima imolada de paz sobre o altar da Cruz (Prefácio), sabendo que só assim poderia resgatar do pecado e da morte a humanidade, a história e o cosmos. A sua ressurreição dá testemunho de que Ele é o rei vitorioso, o "Senhor" nos céus, sobre a terra e debaixo da terra (cf. Fil 2, 10-11).

A  criatura  que,  mais  do  que qualquer  outra,  foi  associada  à  realeza de Cristo é Maria, por Ele mesmo coroada Rainha do céu e da terra. Para Ela olharam, como para um modelo constante, os santos que, hoje, a Igreja apresenta à nossa veneração. Para Ela dirigimos  também  o  nosso  olhar,  para  que  nos  ajude  a  reinar  com Cristo para construir um mundo onde reine a paz.

Devemos rezar sem descanso para obter este grande dom, que é a paz; dom de que a humanidade tanto precisa. Peçamo-lo também, confiantes, com as duas iniciativas que anunciei no domingo passado:  o dia de jejum em Dezembro e o encontro de oração em Janeiro, em Assis, com os representantes das religiões do mundo. Interceda por nós Maria, Rainha da paz, junto do seu divino Filho, Rei imortal e Senhor da paz.




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