Mostrando postagens com marcador Jerusalem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Jerusalem. Mostrar todas as postagens

21 de nov. de 2017

Eis que vem a ti teu rei, justo e salvador

Digamos também nós a Cristo: Bendito o que vem em nome do Senhor (Mt 21,9), rei de Israel (Mt 27,42). Levantemos para ele, quais folhas de palmeira, as derradeiras palavras na cruz. Vamos com entusiasmo para a frente, não com ramos de oliveira, mas com as honras das esmolas de uns aos outros. Estendamos a seus pés, como vestes, os desejos do coração. Deste modo, pondo seus passos em nós,esteja dentro de nós, e nós inteiros nele; e se manifeste ele totalmente em nós. Repitamos para Sião a aclamação do Profeta: Tem confiança, filha, não temas. Eis que vem a ti teu rei, manso e montado no jumentinho, filho da que leva o jugo (cf. Zc 9,9).
 
Jesus entra em Jerusálem, de Giotto(século XIV)
Vem aquele que está presente em todo o lugar e ocupa tudo, para realizar em ti a salvação  de tudo. Vem aquele que não veio chamar os justos, mas os pecadores à conversão (Mt 9,13), para fazer voltar os desviados pelo pecado. Não temas, pois. Está Deus no meio de ti, não serás abalada (cf. Dt 7,21).

De mãos erguidas, recebe-o, a ele que gravou nas próprias mãos tuas muralhas. Acolhe-o, a ele que cavou em suas palmas teus fundamentos. Recebe-o, a ele que tomou para si tudo o que é nosso, à exceção do pecado, a fim de mergulhar tudo que é nosso no que é dele. Alegra-te, cidade-mãe, Sião; não temas. Celebra tuas festas (Na 2,1). Glorifica por sua misericórdia quem em ti vem para nós. Mas também tu, rejubila-te com entusiasmo, filha de Jerusalém, canta, dança de alegria. Resplandece, resplandece (assim aclamamos junto com Isaías, o clarim sagrado), porque chegou tua luz e nasceu sobre ti a glória do Senhor (Is 60,1).

Que luz é esta? Só pode ser aquela que ilumina a todo homem que vem ao mundo (cf. Jo 1,9). A luz eterna, luz que não conhece o tempo e revelada no tempo, luz manifestada pela carne e oculta por natureza, luz que envolveu os pastores e se fez para os magos guia do caminho. Luz que desde o princípio estava no mundo, por quem foi feito o mundo e o mundo não a conheceu. Luz que veio ao que era seu, e os seus não a receberam.

Glória do Senhor. Qual glória? Na verdade, a cruz em que Cristo foi glorificado. Ele, esplendor da glória do Pai, como ele próprio, estando próxima a paixão, disse: Agora é glorificado o Filho do homem e Deus é glorificado nele; e o glorificará sem demora (cf. Jo 13,31-32). Chama de glória neste passo sua exaltação na cruz. Porque a cruz de Cristo é glória e, realmente, sua exaltação. Por isto diz: Eu, quando for exaltado, atrairei todos a mim (Jo 12,32).

-- Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo (século VIII)

30 de jul. de 2015

A Peregrinação de Santo Inácio de Loyola à Jerusalém

Tiveram vento tão violento de popa, que chegaram de Barcelona a Gaeta em cinco dias com as suas noites, ainda que com muito medo de todos, pela muita tempestade. Por toda aquela terra se temia a peste, mas ele, logo que desembarcou, começou a caminhar para Roma. Dos que vinham na nave, juntaram-se em sua compa-nhia, uma mãe, com uma filha que vestia roupas de rapaz, e um outro moço. Estes seguiam-no porque também mendigavam.

Chegados a uma herdade, encontraram uma grande fogueira e muitos soldados à volta dela, os quais lhes deram de comer e lhes davam muito vinho, convidando-os, de maneira que parecia quererem embebedá-los. Depois separaram-nos, pondo a mãe e a filha em cima, num quarto, e o peregrino com o moço, no estábulo. Mas quando chegou a meia noite, ouviu que lá em cima se davam grandes gritos: e levantando-se para ver o que era, encontrou a mãe e a filha em baixo, no pátio, muito chorosas, queixando-se que as queriam forçar. A ele [peregrino] veio-lhe, por causa disso, um ímpeto tão grande que se pôs a gritar: – Isto se há-de sofrer? – e queixas semelhantes, as quais dizia com tanta eficácia, que todos os da casa ficaram admirados, sem que nenhum lhe fizesse qualquer mal. O moço já tinha fugido, e os três começaram a caminhar assim de noite.

E chegados a uma cidade que estava perto, e não podendo entrar, os três passaram aquela noite, de muita chuva, numa igreja que ali havia. De manhã não quiseram abrir-lhes a cidade e por fora não encontravam esmola, nem sequer num castelo que parecia perto dali, no qual o peregrino se sentiu fraco4, tanto pela viagem por mar, como por tudo o mais, etc. E não podendo caminhar mais, ficou por ali e a mãe e a filha continuaram para Roma.

Aquele dia saiu muita gente da cidade, e sabendo que vinha ali a senhora da terra, pôs-se diante dela, dizendo-lhe que estava doente de pura fraqueza, e pedia-lhe que o deixasse entrar na cidade para buscar algum remédio. Ela concedeu-lho facilmente. E começando a mendigar pela cidade, encontrou muitos quatrins, e refazendo-se ali dois dias, voltou a prosseguir o seu caminho, e chegou a Roma no Domingo de Ramos.

Aqui, todos os que falavam com ele, sabendo que não levava dinheiro para ir a Jerusalém, começaram a dissuadi-lo da ida, afir-mando-lhe com muitas razões que era impossível arranjar passagem sem dinheiro. Mas ele tinha uma grande certeza na sua alma, de tal modo que não podia duvidar de que havia de encontrar modo de ir a Jerusalém.

E tendo recebido a bênção do papa Adriano VI, partiu para Ve-neza, oito ou nove dias depois da Páscoa da Ressurreição. Levava ainda seis ou sete ducados que lhe tinham dado para a passagem de Veneza a Jerusalém e que ele recebera, vencido um pouco pelos temores que lhe incutiam de não poder passar de outra maneira. Mas dois dias depois de ter saído de Roma, começou a ver que aquilo tinha sido desconfiança que tinha tido, e pesou-lhe muito ter aceite os ducados, e pensava se seria bom deixá-los. Mas por fim determinou-se a gastá-los generosamente com aqueles que lhe apareciam, que ordinariamente eram pobres. E fê-lo de tal maneira, que quando depois chegou a Veneza, não levava mais que alguns quatrins, que naquela noite lhe foram necessários.

Todavia, por este caminho até Veneza, por causa dos vigias contra a peste, dormia pelos pórticos. E aconteceu-lhe uma vez, ao levantar-se de manhã, topar com um homem, que ao vê-lo se pôs a correr cheio de medo, porque parece que o viu muito pálido.

Caminhando chegou a Choza e, com alguns companheiros que se lhe tinham juntado, soube que não os deixariam entrar em Veneza. Os companheiros determinaram ir a Pádua, para ali tomar a cédula de saúde, e assim partiu com eles; mas não pôde caminhar tanto, porque caminhavam muito depressa, e deixaram-no, quase de noite, num descampado, onde lhe apareceu Cristo da maneira que lhe costumava aparecer, como dissemos atrás, e confortou-o muito. E com esta consolação, no outro dia de manhã, sem apresentar cédula, como (creio) tinham feito os seus companheiros, chegou à porta de Pádua, e entrou sem que os guardas lhe pedissem nada, e o mesmo lhe aconteceu à saída. Disso se espantaram muito os seus companheiros que acabavam de tomar cédula para ir a Veneza, com a qual ele não se preocupou.

E chegados a Veneza, vieram os guardas ao barco para examinar, um por um, a todos os que ali estavam, e só a ele deixaram. Mantinha-se mendigando, e dormia na praça de São Marcos, e nunca quis ir a casa do embaixador do imperador, nem fazia diligência especial para buscar dinheiro para a passagem. Tinha uma grande certeza na sua alma de que Deus lhe havia de dar modo de ir a Jerusalém e esta certeza o confirmava tanto, que nenhumas razões e medos que lhe punham o faziam duvidar.

Um dia encontrou-o um homem rico, espanhol, e este pergun-tou-lhe o que fazia e onde queria ir, e sabendo da sua intenção, le-vou-o a comer em sua casa, e depois hospedou-o alguns dias até se preparar a partida. Tinha o peregrino este costume, já desde Manresa, que quando comia com outros, nunca falava à mesa, só respondendo brevemente; mas escutava o que se dizia, e retendo algumas coisas, das quais tomasse ocasião de falar de Deus, fazia-o no fim da refeição.

E foi esta causa pela qual o homem de bem, com toda a sua casa, tanto se afeiçoaram a ele, que o quiseram reter e obrigar a ficar em sua casa. E o mesmo hospedeiro levou-o ao duque de Veneza, para que lhe falasse, isto é, alcançou-lhe a entrada e a audiência. O duque, logo que ouviu o peregrino, mandou que lhe dessem embarcação no navio dos governadores que ia para Chipre.

Ainda que naquele ano tinham vindo muitos peregrinos [para ir] a Jerusalém, a maior parte deles tinham voltado para as suas terras, pelo novo caso sucedido da tomada de Rodes.Todavia havia treze na nau peregrina, que partiu primeiro, e oito ou nove ficaram para a dos governadores. Estando esta para partir, veio-lhe ao nosso peregrino uma doença de febres, que depois de o terem incomoda-do alguns dias o deixaram e a nave partia no dia em que ele tinha tomado uma purga. Os da casa perguntaram ao médico se podia embarcar para Jerusalém e o médico disse que para ser sepultado lá, podia embarcar. Mas ele embarcou e partiu aquele dia; e vomitou tanto que ficou aliviado e começou a sarar completamente. Nesta nau cometiam-se algumas indecências e torpezas manifestas, que ele repreendia com severidade.

Os espanhóis que ali iam avisavam-no que não fizesse aquilo, porque os da nau tratavam de o deixar nalguma ilha. Mas quis Deus Nosso Senhor que chegassem depressa a Chipre, onde deixada aquela nave, foram por terra a outro porto que se chama Las Salinas, que estava a dez léguas dali, e entraram na nau peregrina, na qual também não meteu mais para seu mantimento, que a esperança que levava em Deus, como tinha feito na outra. Em todo este tempo aparecia-lhe muitas vezes Nosso Senhor, que lhe dava muita conso-lação e ânimo; mas parecia-lhe que via uma coisa redonda e grande, como se fosse de ouro, que se lhe representava. Depois de partidos de Chipre, chegaram a Jafa.

E caminhando para Jerusalém nos seus burrinhos, como é costume, duas milhas antes de chegar a Jerusalém, um espanhol, nobre, segundo parecia, chamado Diego Manes, disse, com muita devoção, a todos os peregrinos que já que dali a pouco haviam de chegar ao lugar donde se podia ver a cidade santa, seria bom que todos se pre-parassem em suas consciências, e que fossem em silêncio.

E parecendo bem a todos, começou cada um a recolher-se; e um pouco antes de chegar ao lugar donde se via [a cidade], apearam-se, porque viram os frades, com a cruz, que os estavam esperando. E vendo a cidade, teve o peregrino grande consolação; e segundo os outros diziam, foi universal em todos, com uma alegria que não parecia natural; e a mesma devoção sentiu sempre nas visitas dos lugares santos.

-- Da Autobiografia de Santo Inácio de Loyola

7 de mar. de 2015

3º Domingo da Quaresma - Domingo 08/03/2015

Jo 2,13-25
13Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isso daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!”
17Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”.
18Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?”
19Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias eu o levantarei”.
20Os judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?”
21Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.
23Jesus estava em Jerusalém durante a festa da Páscoa. Vendo os sinais que realizava, muitos creram no seu nome. 24Mas Jesus não lhes dava crédito, pois ele conhecia a todos; 25e não precisava do testemunho de ninguém acerca do ser humano, porque ele conhecia o homem por dentro.
Comentário:
A renovação do culto exigida por Cristo é fortemente acentuada neste episódio no Templo. As tradições cultuais dos judeus já não eram suficientes e, ainda, davam margem a exploração dos mais simples. No Evangelho de João, este episódio é relatado logo no início, marcando já que a mensagem de Cristo é algo novo; no Evangelho de Mateus 21,12-13, ocorre na Semana Santa, após Cristo entrar em Jerusalém para sua última Páscoa, e é apenas o início de uma sequencia de parábolas contra os judeus que falsamente seguiam os ensinamentos de Deus. É para eles que Cristo anuncia a Nova Aliança, com a Ressurreição na Páscoa que se aproxima, que renovará toda igreja.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Neemias 13, 4-9
  • 1 Reis 1, 28-40
  • 2 Reis 9, 11-13
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 69(68), 25-37
  • Isaias 56, 3-7
  • Malaquias 3, 1-5
  • Zacarias 14, 16-21
Evangelhos
  • Mateus 21, 12-13
  • Marcos 11, 11-17
  • Mateus 26, 61
  • Lucas 19, 45-46
Cartas
  • Atos 2,22-28

2 de dez. de 2013

Salmo 147: Jerusalem Reconstruída

Queridos irmãos e irmãs,

O Lauda Jerusalem, que acabamos de proclamar, é muito apreciado pela liturgia cristã. Ela entoou com frequência o Salmo 147 relacionando-o com a Palavra de Deus, que "corre veloz" sobre a face da terra, mas também com a Eucaristia, verdadeira "flor de trigo" concedida por Deus para "saciar" a fome do homem (cf. Sl 147, 14-15).

Orígenes, numa das suas homilias, traduzidas e difundidas no Ocidente por São Jerónimo, ao comentar o nosso Salmo, relacionava precisamente a Palavra de Deus com a Eucaristia:  "Nós lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as Sagradas Escrituras são o seu ensinamento.  E  quando  ele  diz:   Se  não comerdes  a  carne  do  Filho  do  Homem e não beberdes o Seu sangue (cf. Jo 6, 53),  mesmo  se  estas  palavras  se podem compreender também do Mistério [eucarístico], contudo o corpo de Cristo e o seu sangue são verdadeiramente a palavra das Escrituras, são o ensinamento de Deus. Quando assistimos ao Mistério [eucarístico], se dele se desperdiça uma pequena porção, sentimo-nos perdidos. E quando estamos a ouvir a Palavra de Deus, e nos chega aos ouvidos a Palavra de Deus, a carne de Cristo e o seu sangue, e nós pensamos noutras coisas, em que grande perigo nós caímos!" 

Os estudiosos fazem notar que este Salmo  deve  ser  relacionado  com  o precedente, para constituir uma única composição, como acontece precisamente no original hebraico. De fato, tem-se um cântico único e coerente em honra da criação e da redenção realizadas pelo Senhor. Ele começa com um jubiloso apelo ao louvor:  "Louvai o Senhor porque é bom cantar. Louvai o nosso Deus porque o louvor é agradável" (Sl 146, 1).

Se detivermos a nossa atenção no trecho que agora acabamos de ouvir, podemos perceber três momentos de louvor, introduzidos por um convite dirigido à cidade santa, Jerusalém, para que glorifique e louve o seu Senhor (cf. Sl 147, 12).

No primeiro momento (cf. vv. 13-14) entra em cena a ação histórica de Deus. Ela é descrita através de uma série de símbolos que representam a obra de protecção e de apoio realizada pelo Senhor em relação à cidade de Sião e dos seus filhos. Antes de mais faz-se referência às "grades" que fortificam e fazem com que as portas de Jerusalém  sejam  invioláveis.  Talvez  o  Salmista se refira a Neemias que fortificou a cidade santa, reconstruída depois da experiência amarga do exílio em Babilónia (cf. 3, 3.6.13-15; 1-9; 6, 15-16; 12, 27-43). A porta, entre outras coisas, é um sinal para indicar toda a cidade na sua densidade e tranquilidade. No seu interior, representado como um seio seguro, os filhos de Sião, isto é, os cidadãos, gozam da paz e da serenidade, envolvidos no manto protector da bênção divina.

A imagem da cidade jubilosa e tranquila é exaltada pelo dom altíssimo e precioso da paz que faz com que as fronteiras sejam seguras. Mas precisamente porque para a Bíblia a paz-shalôm não é um conceito negativo, que recorda a ausência de guerra, mas um facto positivo de bem-estar e prosperidade, eis que o Salmista introduz a saciedade com a "flor de trigo", isto é, com o grão excelente, com as espigas cheias de grãos. Por conseguinte, o Senhor fortaleceu as defesas de Jerusalém (cf. Sl 87, 2), fez descer sobre ela a sua bênção (cf. Sl 128, 5; 134, 3), fazendo-a chegar a todo o país, concedeu a paz (cf. Sl 122, 6-8) e saciou os seus filhos (cf. Sl 132, 15).

Na segunda parte do Salmo (cf. Sl 147, 15-18), Deus apresenta-se sobretudo como criador. De fato, relaciona-se duas vezes a obra criadora com a palavra que fez desabrochar o aparecimento do ser:  "Deus disse:  "Faça-se a luz". E a luz foi feita... Envia as suas ordens à terra... Envia a Sua palavra..." (cf. Gn 1, 3; Sl 147, 15.18).

De acordo com a Palavra divina, eis que surgem e se estabelecem as duas estações fundamentais:  por um lado, a ordem do Senhor faz descer sobre a terra o inverno, representado de modo significativo pela neve suave como a lã, pelo orvalho semelhante à poeira, pelo granizo comparável às migalhas de pão e pelo gelo que tudo paraliza (cf. vv. 16-17). Por outro lado, outra ordem divina manda soprar o vento quente que traz o Verão e faz derreter a neve:  as águas da chuva e dos rios podem correr livremente para regar a terra e a fecundar.

Por conseguinte, a Palavra de Deus está na base do frio e do calor, do ciclo das estações e da afluência da vida na natureza. A humanidade é convidada a reconhecer e a dar graças ao Criador pelo dom fundamental do universo, que a rodeia, faz com que ela respire, a alimenta e ampara.

Passa-se então ao terceiro e último momento do nosso hino de louvor (cf. vv. 19-20). Volta-se ao Senhor da história do qual se partiu. A Palavra divina leva a Israel um dom ainda mais nobre e precioso, o da lei, da Revelação. Um dom específico:  "Não trata assim os outros povos, todos esses ignoram os seus mandamentos" (v. 20).

Portanto, a Bíblia é o tesourto do povo eleito à qual devemos aderir com amor e fidelidade. É o que diz Moisés aos Hebreus no Deuteronómio:  "Qual é o grande povo, que possua mandamentos e preceitos tão justos como esta Lei que hoje vos apresento?" (Dt 4, 8).

Assim como existem duas ações gloriosas de Deus na criação e na história, assim também existem duas revelações:  uma inscrita na própria natureza e que está aberta a todos, a outra oferecida ao povo eleito, que a deverá testemunhar e comunicar a toda a humanidade e que está contida na Sagrada Escritura. Duas revelações distintas, mas Deus permanece único assim como a sua Palavra. Tudo foi feito por meio da Palavra dirá o Prólogo do Evangelho de João e sem ela nada de tudo o que existe foi  feito.  Mas  a  Palavra  também  se fez  "homem",  isto  é,  entrou  na  história,  e  levantou  a sua tenda entre nós (cf. Jo 1, 3.14).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 5 de Junho de 2002

23 de mar. de 2013

Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel


Vinde, subamos juntos ao monte das Oliveiras e corramos ao encontro de Cristo, que hoje volta de Betânia e se encaminha voluntariamente para aquela venerável e santa Paixão, a fim de realizar o mistério de nossa salvação.

Caminha o Senhor livremente para Jerusalém, ele que desceu do céu por nossa causa – prostrados que estávamos por terra – para elevar-nos consigo bem acima de toda autoridade, poder, potência e soberania ou qualquer título que se possa mencionar (Ef 1,21), como diz a Escritura.

O Senhor vem, mas não rodeado de pompa, como se fosse conquistar a glória. Ele não discutirá, diz a Escritura, nem gritará, e ninguém ouvirá sua voz (Mt 12,19; cf. Is 42,2). Pelo contrário, será manso e humilde, e se apresentará com vestes pobres e aparência modesta. 

Acompanhemos o Senhor, que corre apressadamente para a sua Paixão e imitemos os que foram ao seu encontro. Não para estendermos à sua frente, no caminho, ramos de oliveira ou de palma, tapetes ou mantos, mas para nos prostrarmos a seus pés, com humildade e retidão de espírito, a fim de recebermos o Verbo de Deus que se aproxima, e acolhermos aquele Deus que lugar algum pode conter.

Alegra-se Jesus Cristo, porque deste modo nos mostra a sua mansidão e humildade, e se eleva, por assim dizer, sobre o ocaso (cf. Sl 67,5) de nossa infinita pequenez; ele veio ao nosso encontro e conviveu conosco, tornando-se um de nós, para nos elevar e nos reconduzir a si. 

Diz um salmo que ele subiu pelo mais alto dos céus ao Oriente (cf. Sl 67,34), isto é, para a excelsa glória da sua divindade, como primícias e antecipação da nossa condição futura; mas nem por isso abandonou o gênero humano, porque o ama e quer elevar consigo a nossa natureza, erguendo-a do mais baixo da terra, de glória em glória, até torná-la participante da sua sublime divindade.

Portanto, em vez de mantos ou ramos sem vida, em vez de folhagens que alegram o olhar por pouco tempo, mas depressa perdem o seu verdor, prostremo-nos aos pés de Cristo. Revestidos de sua graça, ou melhor, revestidos dele próprio, – vós todos que fostes batizados em Cristo vos revestistes de Cristo (Gl 3,27) – prostremo-nos a seus pés como mantos estendidos.

Éramos antes como escarlate por causa dos nossos pecados, mas purificados pelo batismo da salvação, nos tornamos brancos como a lã. Por conseguinte, não ofereçamos mais ramos e palmas ao vencedor da morte, porém o prêmio da sua vitória.

Agitando nossos ramos espirituais, o aclamemos todos os dias, juntamente com as crianças, dizendo estas santas palavras: “Bendito o que vem em nome do Senhor, o rei de Israel”.

-- Dos Sermões de Santo André de Creta, bispo (século XI)

16 de jan. de 2013

Salmo 47: Ação de graças pela salvação do povo

Caríssimos Irmãos e Irmãs: 

O Salmo que foi proclamado é um cântico em honra de Sião, "a cidade do grande Soberano" (Sl 47, 3), que nessa época era sede do templo do Senhor e lugar  da  sua  presença  entre  a  humanidade.  A  fé  cristã  já  o  aplica  à  "Jerusalém, lá do alto", que é "nossa mãe" (Gl 4, 26).

A tonalidade litúrgica deste hino, a evocação de uma procissão de festa (cf. vv. 13-14), a visão pacífica de Jerusalém que reflecte a salvação divina, fazem do Salmo 47 uma oração para iniciar o dia e fazer dele um cântico de louvor, mesmo se no horizonte se condensam algumas nuvens.

Para compreender o sentido do Salmo, servem-nos de ajuda três aclamações colocadas no início, no centro e no final, que nos oferecem como que a chave espiritual da composição e nos introduzem no seu clima interior. Eis as três invocações:  "Grande é o Senhor e digno de louvor, na cidade do nosso Deus" (v. 2); "Revivemos, ó Deus, as Vossas graças, no meio do Vosso templo" (v. 10); "Este é o Senhor, o nosso Deus pelos séculos sem fim; Ele é que nos guia" (v. 15).

Estas três aclamações, que exaltam o Senhor mas também "a cidade do nosso Deus" (v. 2), enquadram duas partes grandes do Salmo. A primeira é uma jubilosa celebração da cidade santa, a vitoriosa Sião, contra os assaltos dos inimigos, serena sob o manto da protecção divina (cf. vv. 3-8). Tem-se quase uma litania de definição desta cidade:  é uma altura admirável que se ergue como um farol de luz, uma fonte de alegria para todos os povos da terra, o único verdadeiro "Olimpo" onde o céu e a terra se encontram. É para usar uma expressão do profeta Ezequiel a cidade-Emanuel, porque "Deus está ali" presente nela (cf. 48, 35). Mas em redor de Jerusalém estão a agrupar-se as tropas em cerco, como um símbolo do mal que atenta contra o esplendor da cidade de Deus. O confronto tem um êxito previsto e quase imediato.

De fato, os poderosos da terra, ao assaltar a cidade santa, provocaram também o seu Rei, o Senhor. O Salmista mostra como o orgulho de um exército poderoso se dissolve com a imagem sugestiva das dores de parto:  "foram colhidos pelo terror, um terror como o da mulher em parto" (v. 7). A arrogância transforma-se em fragilidade e fraqueza, o poder em queda e derrota.

O mesmo conceito é expresso com outra imagem:  o exército em marcha é comparado a uma frota naval invencível, sobre a qual cai um furacão causado por um terrível vento do oriente (cf. v. 8). Por conseguinte, permanece uma certeza incontestável para os que estão sob a protecção divina:  a última palavra não é confiada ao mal mas ao bem; Deus triunfa sobre as potências adversas, mesmo quando parecem ser grandiosas e invencíveis.

Então o fiel, celebra precisamente no templo o seu agradecimento ao Deus libertador. O seu é um hino ao amor misericordioso do Senhor, expresso com a palavra hebraica hésed, típica da teologia da aliança. Chegamos assim à segunda parte do Salmo (cf. vv. 10-14). Depois do grande cântico de louvor a Deus fiel, justo e salvador (cf. vv. 10-12), realiza-se uma espécie de procissão à volta do templo e da cidade santa (cf. vv. 13-14). Contam-se as torres, sinal da protecção certa de Deus, observam-se as fortalezas, expressão da estabilidade oferecida a Sião pelo seu Fundador. Os muros de Jerusalém falam e as suas pedras recordam os factos que devem ser transmitidos "às gerações futuras" (v. 14) através da narração que os pais farão aos seus filhos (cf.Sl 77, 7). Sião é o espaço de uma cadeia ininterrupta de acções salvíficas do Senhor, que são anunciadas na catequese e celebradas na liturgia, para que os crentes continuem a ter esperança na intervenção libertadora de Deus.

É maravilhosa na antífona conclusiva uma das mais nobres definições do Senhor como pastor do seu povo:  "Ele é que nos guia" (v. 15). O Deus de Sião é o Deus do Êxodo, da liberdade, da proximidade ao seu povo escravo no Egipto e peregrino no deserto. Agora que Israel se estabeleceu na terra prometida, sabe que o Senhor não o abandona:  Jerusalém é o sinal da sua proximidade, e o templo é o lugar da sua esperança.

Voltando a ler estas expressões, o cristão eleva-se à contemplação de Cristo, o templo de Deus novo e vivo (cf. Jo 2. 21), e dirige-se para a Jerusalém celeste, que já não precisa de um templo e de uma luz exterior, porque "o Senhor, Deus Todo-Poderoso, é o seu Templo, assim como o Cordeiro... porque é iluminada pela glória de Deus e a sua luz é o Cordeiro" (Ap 21, 22-23).

Santo Agostinho convida-nos a fazer de novo esta leitura "espiritual", convencido de que nos livros da Bíblia "não se encontra nada que se refira apenas à cidade terrena, mas tudo o que dela se refere, ou para ela se realiza, simboliza algo que por alegoria se pode também referir à Jerusalém celeste" (Cidade de Deus, XVII, 3, 2). Faz-lhe eco São Paulino de Nola, que precisamente ao comentar as palavras do nosso Salmo, exorta a rezar a fim de que "possamos ser como pedras vivas nas muralhas da Jerusalém celeste e livre" (Carta 28, 2 a Severo). E ao contemplar a robustez e solidez desta cidade, o mesmo Padre da Igreja prossegue:  "De fato, todo aquele que habita nesta cidade revela-se como o Uno em três pessoas... Dela Cristo foi constituído não só fundamento, mas também torre e porta... Funda-se portanto sobre Ele a casa da nossa alma e sobre ele se eleva uma construção digna de uma base assim  tão  grande,  e  a  porta de entrada para a sua cidade será para nós precisamente Aquele que nos orientará nos séculos e nos levará ao lugar das suas pastagens" (ibid.).  

-- Papa João Paulo II, na audiência de 17 de Outubro de 2001

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...