2 de dez de 2013

Salmo 147: Jerusalem Reconstruída

Queridos irmãos e irmãs,

Lauda Jerusalem, que acabamos de proclamar, é muito apreciado pela liturgia cristã. Ela entoou com frequência o Salmo 147 relacionando-o com a Palavra de Deus, que "corre veloz" sobre a face da terra, mas também com a Eucaristia, verdadeira "flor de trigo" concedida por Deus para "saciar" a fome do homem (cf. Sl 147, 14-15).

Orígenes, numa das suas homilias, traduzidas e difundidas no Ocidente por São Jerónimo, ao comentar o nosso Salmo, relacionava precisamente a Palavra de Deus com a Eucaristia:  "Nós lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as Sagradas Escrituras são o seu ensinamento.  E  quando  ele  diz:   Se  não comerdes  a  carne  do  Filho  do  Homem e não beberdes o Seu sangue (cf. Jo 6, 53),  mesmo  se  estas  palavras  se podem compreender também do Mistério [eucarístico], contudo o corpo de Cristo e o seu sangue são verdadeiramente a palavra das Escrituras, são o ensinamento de Deus. Quando assistimos ao Mistério [eucarístico], se dele se desperdiça uma pequena porção, sentimo-nos perdidos. E quando estamos a ouvir a Palavra de Deus, e nos chega aos ouvidos a Palavra de Deus, a carne de Cristo e o seu sangue, e nós pensamos noutras coisas, em que grande perigo nós caímos!" 

Os estudiosos fazem notar que este Salmo  deve  ser  relacionado  com  o precedente, para constituir uma única composição, como acontece precisamente no original hebraico. De fato, tem-se um cântico único e coerente em honra da criação e da redenção realizadas pelo Senhor. Ele começa com um jubiloso apelo ao louvor:  "Louvai o Senhor porque é bom cantar. Louvai o nosso Deus porque o louvor é agradável" (Sl 146, 1).

Se detivermos a nossa atenção no trecho que agora acabamos de ouvir, podemos perceber três momentos de louvor, introduzidos por um convite dirigido à cidade santa, Jerusalém, para que glorifique e louve o seu Senhor (cf. Sl 147, 12).

No primeiro momento (cf. vv. 13-14) entra em cena a ação histórica de Deus. Ela é descrita através de uma série de símbolos que representam a obra de protecção e de apoio realizada pelo Senhor em relação à cidade de Sião e dos seus filhos. Antes de mais faz-se referência às "grades" que fortificam e fazem com que as portas de Jerusalém  sejam  invioláveis.  Talvez  o  Salmista se refira a Neemias que fortificou a cidade santa, reconstruída depois da experiência amarga do exílio em Babilónia (cf. 3, 3.6.13-15; 1-9; 6, 15-16; 12, 27-43). A porta, entre outras coisas, é um sinal para indicar toda a cidade na sua densidade e tranquilidade. No seu interior, representado como um seio seguro, os filhos de Sião, isto é, os cidadãos, gozam da paz e da serenidade, envolvidos no manto protector da bênção divina.

A imagem da cidade jubilosa e tranquila é exaltada pelo dom altíssimo e precioso da paz que faz com que as fronteiras sejam seguras. Mas precisamente porque para a Bíblia a paz-shalôm não é um conceito negativo, que recorda a ausência de guerra, mas um facto positivo de bem-estar e prosperidade, eis que o Salmista introduz a saciedade com a "flor de trigo", isto é, com o grão excelente, com as espigas cheias de grãos. Por conseguinte, o Senhor fortaleceu as defesas de Jerusalém (cf. Sl 87, 2), fez descer sobre ela a sua bênção (cf. Sl 128, 5; 134, 3), fazendo-a chegar a todo o país, concedeu a paz (cf. Sl 122, 6-8) e saciou os seus filhos (cf. Sl 132, 15).

Na segunda parte do Salmo (cf. Sl 147, 15-18), Deus apresenta-se sobretudo como criador. De fato, relaciona-se duas vezes a obra criadora com a palavra que fez desabrochar o aparecimento do ser:  "Deus disse:  "Faça-se a luz". E a luz foi feita... Envia as suas ordens à terra... Envia a Sua palavra..." (cf. Gn 1, 3; Sl 147, 15.18).

De acordo com a Palavra divina, eis que surgem e se estabelecem as duas estações fundamentais:  por um lado, a ordem do Senhor faz descer sobre a terra o inverno, representado de modo significativo pela neve suave como a lã, pelo orvalho semelhante à poeira, pelo granizo comparável às migalhas de pão e pelo gelo que tudo paraliza (cf. vv. 16-17). Por outro lado, outra ordem divina manda soprar o vento quente que traz o Verão e faz derreter a neve:  as águas da chuva e dos rios podem correr livremente para regar a terra e a fecundar.

Por conseguinte, a Palavra de Deus está na base do frio e do calor, do ciclo das estações e da afluência da vida na natureza. A humanidade é convidada a reconhecer e a dar graças ao Criador pelo dom fundamental do universo, que a rodeia, faz com que ela respire, a alimenta e ampara.

Passa-se então ao terceiro e último momento do nosso hino de louvor (cf. vv. 19-20). Volta-se ao Senhor da história do qual se partiu. A Palavra divina leva a Israel um dom ainda mais nobre e precioso, o da lei, da Revelação. Um dom específico:  "Não trata assim os outros povos, todos esses ignoram os seus mandamentos" (v. 20).

Portanto, a Bíblia é o tesourto do povo eleito à qual devemos aderir com amor e fidelidade. É o que diz Moisés aos Hebreus no Deuteronómio:  "Qual é o grande povo, que possua mandamentos e preceitos tão justos como esta Lei que hoje vos apresento?" (Dt 4, 8).

Assim como existem duas ações gloriosas de Deus na criação e na história, assim também existem duas revelações:  uma inscrita na própria natureza e que está aberta a todos, a outra oferecida ao povo eleito, que a deverá testemunhar e comunicar a toda a humanidade e que está contida na Sagrada Escritura. Duas revelações distintas, mas Deus permanece único assim como a sua Palavra. Tudo foi feito por meio da Palavra dirá o Prólogo do Evangelho de João e sem ela nada de tudo o que existe foi  feito.  Mas  a  Palavra  também  se fez  "homem",  isto  é,  entrou  na  história,  e  levantou  a sua tenda entre nós (cf. Jo 1, 3.14).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 5 de Junho de 2002

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