30 de dez de 2013

Da Unidade da Igreja - parte VI

Menos grave é o pecado dos lapsos

[* Lapsos era o nome dado aos cristãos que durante a perseguição tinham sacrificado incenso aos ídolos, o que significava renúncia à fé. Para serem reintegrados na comunidade da Igreja deviam se submeter às penitências prescritas].
Catedral de Nossa Senhora (Notre Dame), Mendé, França

São esses os exemplos que seguem e imitam os que buscam doutrinas estranhas, introduzem ensinamentos de invenção humana e desprezam a divina tradição. A eles aplicam-se as repreensões e as censuras do Evangelho: "Rejeitais o mandamento de Deus para apegar-vos à vossa própria tradição (pagã)" (Mc 7,90).

Este crime é pior do que aquele que se pensa terem cometido os lapsos, ao menos se falarmos dos que estão arrependidos e rogam a Deus perdão do seu pecado, dispostos a dar completa satisfação. Os lapsos, com súplicas, procuram a Igreja, os cismáticos combatem-na. Os primeiros podem ter sido vítimas de alguma pressão, os segundos erram no pleno uso da sua liberdade. O lapso, pecando, se prejudicou unicamente a si mesmo, ao passo que aquele que tenta criar heresias e cismas engana a muitos, arrastando-os à sua seita. Lá há detrimento de uma só alma, aqui o perigo é de muitos. O lapso reconhece que certamente pecou, disto lamenta-se e chora, o cismático, cheio de orgulho no seu coração e comprazendo-se dos seus próprios erros, arranca os filhos à mãe, afasta, com aliciamentos, as ovelhas do Pastor, arrasa os divinos Sacramentos.

O lapso pecou só uma vez, o outro continua pecando a cada dia. Por fim, o lapso, mais tarde, poderá enfrentar o martírio e conseguir as promessas do Reino, o cismático, ao contrário, se for morto enquanto está fora da Igreja, não alcançará os prêmios da Igreja.

-- São Cipriano de Cártago (século III)

28 de dez de 2013

Dt 31 - O Cântico de Moisés ao morrer

Queridos irmãos e irmãs*,

"E Moisés fez ouvir a toda a assembleia de Israel as palavras deste cântico, até ao fim" (Dt 31, 30). Lê-se assim na abertura do cântico que acabamos de proclamar, tirado das últimas páginas do livro do Deuteronômio, precisamente do capítulo 32. Dele, a Liturgia das Laudes escolheu os primeiros doze versículos, reconhecendo neles um jubiloso hino ao Senhor que protege e cura com amor o seu povo no meio dos perigos e das dificuldades do dia. A análise do cântico revelou que se trata de um texto antigo mas posterior a Moisés, sobre cujos lábios foi posto, para lhe conferir um carácter de solenidade. Este cântico litúrgico situa-se na própria origem da história do povo de Israel. Não faltam nessa página orante notas ou ligações com alguns Salmos e com a mensagem dos profetas:  desta forma, ela tornou-se uma sugestiva e intensa expressão da fé de Israel.
Testamento e Morte de Moisés, de Luca Signorelli.
 Capela Sistina, Vaticano

O cântico de Moisés é mais amplo do que o trecho proposto pela Liturgia das Laudes, que constitui apenas o seu prelúdio. Alguns estudiosos pensaram detectar na composição um género literário que tecnicamente é definido com a palavra hebraica rîb, isto é "controvérsia", "litígio processual". A imagem de Deus presente na Bíblia não se mostra absolutamente como a do ser obscuro, uma energia anónima e feia, um acontecimento incompreensível. Ao contrário, é uma pessoa que tem sentimentos, age e reage, ama e condena, participa na vida das suas criaturas e não é indiferente às suas obras. Assim, no nosso caso, o Senhor convoca uma espécie de assembleia judicial, na presença de testemunhas, denuncia os delitos do povo acusado, exige uma pena, mas deixa impregnar a sua sentença por uma misericórdia infinita. Seguimos agora os vestígios desta vicissitude, embora nos detenhamos apenas nos versículos que a Liturgia nos propõe.

Vem imediatamente a menção dos espectadores-testemunhas cósmicos:  "Escutai, ó céus... ouça, toda a terra" (Dt 32, 1). Neste processo simbólico Moisés serve de autoridade pública. A sua palavra é eficaz e fecunda como a profética,  expressão  da  divina.  Observe-se o fluxo significativo das imagens para a definir:  trata-se de sinais deduzidos da natureza como a chuva, o orvalho, o aguaceiro, a chuvada e as gotas de água que fazem com que a terra seja verdejante e coberta de caules de trigo (cf. v. 2).

A voz de Moisés, profeta e intérprete da palavra divina, anuncia a iminente entrada em cena do grande juiz, o Senhor, do qual ele pronuncia o nome santíssimo, exaltando uma das suas numerosas características. De fato, o Senhor é chamado a Rocha (cf. v. 4), um título que aparece em todo o nosso cântico (cf. vv. 15.18.30.31.37), uma imagem que exalta a fidelidade estável e indiscutível de Deus, que é muito diferente da instabilidade e da infidelidade do povo. O tema é desenvolvido com uma série de afirmações sobre a justiça divina:  "A Sua obra é perfeita; todos os Seus caminhos são a própria justiça; Deus de verdade, jamais iníquo, constantemente equitativo e reto" (v. 4).

Depois da solene apresentação do Juiz supremo, que também é a parte lesada, o objetivo do cantor desloca-se para o acusado. Para o definir, ele recorre a uma eficaz representação de Deus como pai (cf. v. 6). As suas criaturas, tão amadas, são chamadas seus filhos, mas infelizmente são "raça perversa" (cf. v. 5). Com efeito, sabemos que já no Antigo Testamento se tem uma concepção de Deus como pai solícito em relação aos seus filhos que com muita frequência desiludem (Êx 4, 22; Dt 8, 5; Sl 102, 13; Sir 51, 10; Is 1, 2; 63, 16; Os 11, 1-4). Por isso, a denúncia não é fria mas apaixonada:  "É assim que recompensas o Senhor, povo louco e insensato? Não é Ele o teu Pai, o teu Criador? Não foi Ele que te formou e te consolidou?" (Dt 32, 6). De fato, é muito diferente insurgir-se contra um soberano implacável ou revoltar-se contra um pai amoroso.

Para tornar concreta a acusação e fazer com que a conversão provenha da sinceridade do coração, Moisés faz apelo à memória:  "Recorda-te dos dias antigos, medita os anos de cada século" (v. 7). Com efeito, a fé bíblica é um "memorial", isto é, uma redescoberta da ação eterna de Deus que se espalha com o passar do tempo; é tornar presente e eficaz aquela salvação que o Senhor proporcionou e continua a oferecer ao homem. O grande pecado de infidelidade coincide, então, com o "esquecimento", que apaga a recordação da presença divina em nós e na história.

O acontecimento fundamental que não se deve esquecer é o da travessia do deserto depois da saída do Egito, o tema fundamental do Deuteronômio e de todo o Pentateuco. Desta forma, recorda-se a viagem terrível e dramática no deserto do Sinai, "nas solidões ululantes e selvagens" (v. 10), como se diz com uma imagem de grande impacto emotivo. Mas ali Deus inclina-se sobre o seu povo com uma ternura e doçura surpreendentes. Com o símbolo paterno entrelaça-se alusivamente também o materno da águia:  "Protegeu-o e velou por ele. Guardou-o como a menina dos Seus olhos. Como a águia vela pelo seu ninho. E paira sobre as suas aguiazinhas; estende as asas para as recolher, e leva-as sobre as suas penas robustas" (v. 10.11). O caminho no deserto transforma-se então num percurso tranquilo e sereno, porque há o manto protector do amor divino.

O cântico remete também para o Sinai, onde Israel se tornou aliado do Senhor, a sua "porção" e "herança", isto é, a realidade mais preciosa (cf. v. 9; Êx 19, 5). O cântico de Moisés torna-se desta forma um exame de consciência de todos para que, finalmente, os benefícios divinos sejam correspondidos com a fidelidade, e não com o pecado.

-- Papa João Paulo II, audiência de 19 de Junho de 2002

* Obs: há outro cântico de Moisés, talvez mais popular, que ele proferiu logo ao cruzar o Mar Vermelho. Este texto trata do cântico final, quando pode ver a terra prometida e que Deus é fiel por toda caminhada, pelos 40 anos de travessia no deserto.

25 de dez de 2013

Homília de Natal, Papa Francisco

O povo que andava nas trevas viu uma grande luz (Is 9, 1).

Esta profecia de Isaías não cessa de nos comover, especialmente quando a ouvimos na liturgia da Noite de Natal. E não se trata apenas dum fato emotivo, sentimental; comove-nos, porque exprime a realidade profunda daquilo que somos: somos povo em caminho, e ao nosso redor – mas também dentro de nós – há trevas e luz. E nesta noite, enquanto o espírito das trevas envolve o mundo, renova-se o acontecimento que sempre nos maravilha e surpreende: o povo em caminho vê uma grande luz. Uma luz que nos faz refletir sobre este mistério: o mistério do andar e do ver.

Andar. Este verbo faz-nos pensar no curso da história, naquele longo caminho que é a história da salvação, com início em Abraão, nosso pai na fé, que um dia o Senhor chamou convidando-o a partir, a sair do seu país para a terra que Ele lhe havia de indicar. Desde então, a nossa identidade de crentes é a de pessoas peregrinas para a terra prometida. Esta história é sempre acompanhada pelo Senhor! Ele é sempre fiel ao seu pacto e às suas promessas. Porque fiel, Deus é luz, e n’Ele não há nenhuma espécie de trevas (1 Jo 1, 5). Diversamente, do lado do povo, alternam-se momentos de luz e de escuridão, fidelidade e infidelidade, obediência e rebelião; momentos de povo peregrino e momentos de povo errante.

E, na nossa historia pessoal, também se alternam momentos luminosos e escuros, luzes e sombras. Se amamos a Deus e aos irmãos, andamos na luz; mas, se o nosso coração se fecha, se prevalece em nós o orgulho, a mentira, a busca do próprio interesse, então calam as trevas dentro de nós e ao nosso redor. Aquele que tem ódio ao seu irmão – escreve o apóstolo João – está nas trevas e nas trevas caminha, sem saber para onde vai, porque as trevas lhe cegaram os olhos (1 Jo 2, 11). Povo em caminho, mas povo peregrino que não quer ser povo errante.

Nesta noite, como um facho de luz claríssima, ressoa o anúncio do Apóstolo: Manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens (Tt 2, 11).

A graça que se manifestou no mundo é Jesus, nascido da Virgem Maria, verdadeiro homem e verdadeiro Deus. Entrou na nossa história, partilhou o nosso caminho. Veio para nos libertar das trevas e nos dar a luz. N’Ele manifestou-se a graça, a misericórdia, a ternura do Pai: Jesus é o Amor feito carne. Não se trata apenas dum mestre de sabedoria, nem dum ideal para o qual tendemos e do qual sabemos estar inexoravelmente distantes, mas é o sentido da vida e da história que pôs a sua tenda no meio de nós.

Os pastores foram os primeiros a ver esta "tenda", a receber o anúncio do nascimento de Jesus. Foram os primeiros, porque estavam entre os últimos, os marginalizados. E foram os primeiros porque velavam durante a noite, guardando o seu rebanho. É lei do peregrino velar, e eles velavam. Com eles, detemo-nos diante do Menino, detemo-nos em silêncio. Com eles, agradecemos ao Pai do Céu por nos ter dado Jesus e, com eles, deixamos subir do fundo do coração o nosso louvor pela sua fidelidade: Nós Vos bendizemos, Senhor Deus Altíssimo, que Vos humilhastes por nós. Sois imenso, e fizestes-Vos pequenino; sois rico, e fizestes-Vos pobre; sois omnipotente, e fizestes-Vos frágil.

Nesta Noite, partilhamos a alegria do Evangelho: Deus ama-nos; e ama-nos tanto que nos deu o seu Filho como nosso irmão, como luz nas nossas trevas. O Senhor repete-nos: Não temais (Lc 2, 10). Assim disseram os anjos aos pastores: Não temais. E repito também eu a todos vós: Não temais! O nosso Pai é paciente, ama-nos, dá-nos Jesus para nos guiar no caminho para a terra prometida. Ele é a luz que ilumina as trevas. Ele é a misericórdia: o nosso Pai perdoa-nos sempre. Ele é a nossa paz. Amem.

-- Papa Francisco, Homília da Missa de Natal, 25 de Dezembro de 2013

24 de dez de 2013

Nasceu-nos hoje o Salvador

Anuncio-vos uma grande alegria: nasceu-vos hoje o Salvador, que é o Messias Senhor (Lc 2,10-11).

Hoje! Este hoje, que ressoa na liturgia, não diz respeito apenas ao acontecimento que se verificou há quase dois mil anos e que mudou a história do mundo. Tem a ver também com esta Noite Santa, que nos reúne aqui, na Basílica de S. Pedro, em comunhão espiritual com todos aqueles que celebram, nos diversos ângulos da terra, a solenidade do Natal. De fcto, mesmo nos lugares mais distantes dos cinco Continentes, ressoam, nesta noite, as palavras do Anjo ouvidas pelos pastores de Belém: Anuncio-vos uma grande alegria (...): nasceu-vos hoje (...) um Salvador, que é o Messias Senhor (Lc 2,10-11).

Jesus nasceu num estábulo, como se diz no Evangelho de Lucas, por não terem lugar na hospedaria (Lc 2,7). Maria, sua Mãe, e José não foram recebidos por nenhuma casa de Belém. Maria teve de colocar o Salvador do mundo numa manjedoira, único berço disponível para o Filho de Deus feito homem. Esta é a realidade do Natal do Senhor; tornamos a ela cada ano: deste modo descobrimo-la de novo, assim podemos vivê-la sempre com o mesmo enlevo.

O nascimento do Messias! É o acontecimento central na história da humanidade. Todo o género humano o esperava num vago pressentimento; com consciência clara, esperava-o o Povo eleito.

Testemunha privilegiada desta expectativa, ao longo de todo o período do Advento e também nesta solene vigília, é o profeta Isaías, que lá dos séculos distantes orienta, inspirado, o seu olhar para esta única, futura noite de Belém. Apesar de ter vivido muitos anos antes, fala deste acontecimento e do seu mistério como se fosse sua testemunha ocular: Um menino nasceu para nós, um Filho nos foi concedido (Is 9,5).

Eis o acontecimento histórico impregnado de mistério: nasce um delicado menino plenamente humano, mas que ao mesmo tempo é o Filho unigénito do Pai. É o Filho não criado, mas eternamente gerado, o Filho consubstancial ao Pai. Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro. É o Verbo, por Quem todas as coisas foram feitas.

Estas verdades, proclamá-las-emos daqui a pouco no Credo, acrescentando: Por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos Céus. E encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e Se fez homem. Ao professarmos com toda a Igreja a nossa fé, reconheceremos, também nesta noite, a graça surpreendente que a misericórdia do Senhor nos concede.

Israel, o Povo de Deus da antiga Aliança, foi escolhido para levar ao mundo, como rebento da estirpe de David, o Messias, o Salvador e Redentor da humanidade inteira. Juntos com um insigne expoente daquele Povo, o profeta Isaías, voltemo-nos, pois, para Belém com o olhar da expectativa messiânica. Na luz divina, podemos entrever como se está a cumprir a antiga Aliança e como, com o nascimento de Cristo, se revela uma Aliança nova e eterna.

Desta Aliança nova fala-nos S. Paulo, na Carta a Tito que, há pouco, escutámos: Manifestou-se a graça de Deus, que traz a salvação para todos os homens (Tt 2,11). É precisamente esta graça que permite à humanidade aguardar a ditosa esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador, Jesus Cristo, que Se entregou por nós, para nos resgatar de toda a iniquidade e purificar para Si mesmo um povo especialmente Seu, cheio de zelo pelas boas obras (Tt 2,14).

A nós, caríssimos Irmãos e Irmãs, é-nos dirigida hoje esta boa nova da graça! Escutai-a! A todos aqueles que Deus ama, a quantos acolheram o convite para rezar e vigiar nesta Noite Santa de Natal, repito com alegria: Revelou-se o amor de Deus por nós! O seu amor é graça e fidelidade, misericórdia e verdade. É Ele que, tendo-nos libertado das trevas do pecado e da morte, Se tornou fundamento firme e inabalável da esperança de todo o ser humano.

Isto mesmo no-lo diz, com jubilosa insistência, o cântico litúrgico: Vinde, adoremos! Vinde de todo o mundo contemplar o que sucedeu na gruta de Belém! Nasceu para nós o Redentor, fato este que hoje é, para nós e para todos, oferta de salvação.

É insondável a profundidade do mistério da Encarnação! Imensamente rica de luz é a liturgia do Natal do Senhor: nas Missas da Meia Noite, da Aurora e do Dia, diversos textos litúrgicos lançam continuamente feixes de luz sobre este grande acontecimento que o Senhor quer levar ao conhecimento de quantos O esperam e procuram (cf. Lc 2,15).

No mistério do Natal, manifesta-se em plenitude a verdade do seu desígnio de salvação para o homem e o mundo. Não será salvo apenas o homem, mas toda a criação, pelo que esta é convidada a cantar ao Senhor um cântico novo, a alegrar-se e exultar juntamente com todas as nações da terra (cf. Sal 95/96).

Foi precisamente este cântico de louvor que ressoou, com solene magnificência, por cima do pobre estábulo de Belém. Lemos em S. Lucas que a multidão do exército celeste louvava a Deus, dizendo: Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama (Lc 2,14).

Em Deus, está a plenitude da glória. Nesta noite, a glória de Deus torna-se património de toda a criação e, de modo particular, do homem. Na verdade, o Filho eterno, Aquele que goza da eterna complacência do Pai fez-Se Homem, e o seu nascimento terreno, na noite de Belém, testemunha de uma vez para sempre que, n'Ele, cada homem está incluído no mistério da predilecção divina, que é fonte da paz definitiva.
Paz aos homens que Ele ama. Sim, paz à humanidade! São estes os meus votos de Natal. 

Caríssimos Irmãos e Irmãs, durante esta noite e por toda a Oitava de Natal, imploramos do Senhor esta graça tão necessária. Rezamos para que a humanidade inteira saiba reconhecer no Filho de Maria, nascido em Belém, o Redentor do mundo, que traz o dom do amor e da Paz.

-- Papa João Paulo II, homília da Missa da Noite de Natal, 1997

22 de dez de 2013

Por que a Eucaristia é um sacrifício?

Enquanto nossos pecados poderiam nos impedir de compartilhar a vida de Deus, Jesus Cristo foi enviado para eliminar este obstáculo. Sua morte foi um sacrifício por nossos pecados. Cristo é o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo (Jo 1,29). Através de sua morte e ressurreição, ele derrotou o pecado e a morte para nos reconciliar com Deus. A Eucaristia é um memorial deste sacrifício, a Igreja reune-se para relembrar e reapresentar o sacrifício de Cristo através da ação do padre e o poder do Espírito Santo. Através da celebração da Eucaristia, nos reunimos ao sacrifício de Cristo e recebemos seu benefícios eternos.

Como explica a Carta aos Hebreus, Jesus é o eterno sumo sacerdote que sempre intercede pelo seu povo em frente ao Deus Pai. Desta maneira, Ele supera aos sacerdotes que durante séculos usaram sacrifícios pelos pecados no Templo de Jerusalem. O eterno sumo sacerdote Jesus Cristo oferece um sacrifício perfeito, Ele mesmo, nada mais. Já veio Cristo, Sumo Sacerdote, (...) sem levar consigo o sangue de carneiros ou novilhos, mas com seu próprio sangue, entrou de uma vez por todas no santuário, adquirindo-nos uma redenção eterna (Hb 9,11-12).

As ações de Jesus fazem parte da história humana, pois foi ele inteiramente humano, tendo assim entrado em sua história. Ao mesmo tempo Jesus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade; Ele é o filho eterno, não confinado no tempo ou na história. Suas ações trascendem o tempo, são parte da criação. Já veio Cristo, Sumo Sacerdote dos bens vindouros. E através de um tabernáculo mais excelente e mais perfeito, não construído por mãos humanas (Hb 9,11). Jesus, realizou seu ato de sacrifício em frente ao Pai, na eternidade. Jesus é o perfeito sacrifício, eternamente presente em frente ao Pai, que aceita o sacrifício eternamente. Portanto, na Eucaristia, Jesus não apenas sacrifica-se novamente, mas pelo poder do Espírito Santo, este sacrifício é renovado frente ao Pai. Desta forma ao participarmos da Eucaristia, participamos também do sacrifício. 

Cristo não necessita deixar seu lugar nos céus para vir ao nosso encontro. Ao contrário, nós partilhamos da liturgia celestial na qual Cristo intercede por nós frente a Deus Pai e os anjos e santos glorificam Deus e dão graças por seus dons: Àquele que se assenta no trono e ao Cordeiro, louvor, honra, glória e poder pelos séculos dos séculos (Ap 5,13b). Como acrescenta o Catecismo, "pela Eucaristia nós já nos reunimos à celeste liturgia e antecipamos a vida eterna, quando Deus é um em todos (CIC 1326). A proclamação  "Santo, santo, santo é o Senhor" é a canção dos anjos na presença de Deus (Is 6,3). Quando proclamos o Santo, ecoamos na terra o canto dos anjos bendizando a Deus nos céus. Na celebração da Eucaristia não apenas relembramos um evento passado; ao contrário, através da ação misteriosa do Espírito Santo na celebração, o Mistério Pascal faz-se presente e conteporâneo.

Além do mais, na reapresentação eucarística do sacrifício pascal e eterno frente ao Pai, não somos simples espectadores. O padre e a comunidade celebrante são ativos de diversas maneiras: o padre está em frente ao altar representando Cristo como cabeça da Igreja; os batizados participam do sacrificio e glória da celebração. Como membros do Corpo de Cristo, os batizados também são sacrificados na celebração, nela nos oferecemos ao Pai. A Igreja toda exercita o papel de celebrante e vítima junto com Cristo, oferecendo-se de maneira completa durante a Missa (Mysterium Fidei, 31). 

-- De um texto da USCCB (United States Conference of Catholic Bishops) sobre a Eucaristia (2001)

-- Tradução própria

21 de dez de 2013

Da Unidade da Igreja - parte V

Não ceder ao escândalo evitar os hereges

Porém não nos impressione nem perturbe essa desmedida e temerária perfídia de muitos. Ao contrário, torne-se mais forte a nossa fé ao constatarmos a verdade do que foi profetizado. Alguns fizeram-se traidores, porque assim fora predito; os demais irmãos, em virtude da mesma profecia, acautelem-se contra essas coisas, escutando a voz do Senhor, que diz: "Vós, porém, acautelai-vos, porque eis que eu vos predisse tudo" (Mc 13-23).

Catedral São Pedro e São Paulo, Ulan Bator, Mongólia
Evitai, pois, eu vo-lo peço, irmãos, esses homens e repeli, de vosso lado e de vossos ouvidos suas perniciosas conversas, como se repele um contágio mortífero. Está escrito: "Cerca os teus ouvidos com uma sebe de espinhos e não ouças a língua maldosa" (Eclo 28,24). E ainda: "As péssimas conversas corrompem até as pessoas de boa índole" (1Cor 15,33). O Senhor nos recomenda que evitemos essa gente. "São cegos, diz ele, e guias de cegos. Quando é um cego que conduz outro cego, caem juntos na fossa" (Mt 15,14).

Convém estar longe e fugir de qualquer um que se separou da Igreja. É um transviado, um culpado, ele se condena por si próprio [Ti 3,11]. Poderá pensar que está com Cristo aquele que está tramando contra os sacerdotes de Cristo e se separa da comunidade do seu clero e do seu povo? Ele levanta armas contra a Igreja e resiste às ordens de Deus. Adversário do altar, rebelde contra o Sacrifício de Cristo, traidor na fé, sacrílego na religião, servo intratável, filho ímpio, irmão inimigo, despreza os bispos e abandona os sacerdotes de Deus e ousa erguer um outro altar, pronunciar com voz ilícita uma outra prece, profanar, com falsos sacrifícios, a Hóstia do Senhor, e esquece que quem vai contra as ordens de Deus será punido com os divinos castigos pela sua atrevida audácia.

Castigos dos profanadores do culto

Assim Coré, Datã e Abirão receberam, sem demora, o castigo da sua presunção, porque, violando as ordens de Moisés e do sacerdote Aarão, pretenderam usurpar o direito de oferecer sacrifícios [Num 16,31-35]. A terra perdeu a sua firmeza, fendeu-se numa profunda voragem, e o chão, assim aberto, os engoliu vivos e em pé. A justiça indignada de Deus não atingiu só os autores daquele gesto, mas também os outros duzentos e cinqüenta, seus companheiros, que foram cúmplices e solidários com eles. De repente saiu do Senhor um fogo punitivo e os consumiu. Isto deve valer como demonstração e sinal de que foi ofensa contra Deus tudo o que aqueles perversos tentaram, com suas vontades humanas, para frustrar as ordens do próprio Deus.

Assim aconteceu também ao rei Ozias, quando segurou o turíbulo e, com violência, pretendeu oferecer ele mesmo o incenso, violando a lei de Deus e desobedecendo ao sacerdote Azarias, que a isto se opunha [2Crôn 26,16-20]. Lá mesmo foi confundido pela divina indignação e acometido por uma espécie de lepra na fronte. Pela sua ofensa a Deus, foi punido justamente naquela parte do corpo, onde recebem o sinal (da cruz) os eleitos de Deus.

Também os filhos de Aarão, por ter colocado no altar um fogo profano, contra os preceitos do Senhor, foram mortos no mesmo instante pela divina vingança [Lev 10,1-2; Num 3,4].

-- São Cipriano de Cártago (século III)

19 de dez de 2013

O menino e o tambor

O menino do tambor é uma popular canção natalina, escrita por Katherine Davis. A letra conta a história de um menino pobre que acompanha os Reis Magos na visita à Jesus, mas não tem dinheiro para comprar um presente. Resolve então,  coma concordância de Maria, tocar seu tambor. Milagrosamente o recém-nascido entende e retribui com um sorriso em graditão.

A versão deste vídeo tem imagens de um antigo programa de Natal, a música é cantada por John Denver.


Numa tradução livre:

Venha ver, me convidaram,
um novo Rei nasceu.
Trazemos os mais refinados presentes
para depositar aos seus pés.

Para honrá-lo.

Pequeno recém-nascido,
também sou um menino pobre,
não tenho presentes para dar
que sejam dignos de um Rei.

Poderia tocar meu tambor para você?

Maria o honrou,
o cordeiro e o boi também lá estavam.
Eu toquei meu tambor para Ele,
eu toquei meu tambor para Ele.

Então ele sorriu para mim,
eu e meu tambor.

Salmo 91: Louvor ao Senhor criador

Queridos irmãos e irmãs,

A Antiga tradição hebraica reserva um lugar particular ao Salmo 91, que agora ouvimos como cântico do homem justo ao Deus criador. O título atribuído ao Salmo indica que ele é destinado ao dia de sábado (cf. v. 1). É, pois, o hino que se eleva ao Senhor eterno e glorioso quando, ao pôr do sol de sexta-feira, se entra no santo dia da oração, da contemplação, do sereno repouso do corpo e do espírito.

No centro do Salmo, ergue-se, solene e grandiosa, a figura do Deus altíssimo (cf. v. 9), à volta do qual se esboça um mundo harmonioso e em paz. Perante ele é colocada também a pessoa do justo que, segundo uma concepção querida ao Antigo Testamento, está repleto de bem-estar, alegria e longa vida, como natural consequência da sua existência honesta e fiel. Trata-se da denominada "teoria da retribuição", pela qual todo o delito tem um castigo sobre a terra e todo o ato bom tem uma recompensa. Mesmo se há nesta visão uma componente de verdade, todavia como Jó fará pensar e como dirá Jesus (cf. Jo 9, 2-3) a realidade da dor humana é muito mais complexa e não pode ser simplificada tão facilmente. O sofrimento humano, de facto, deve ser considerado na perspectiva da eternidade.

Mas examinemos agora este hino sapiencial através dos aspectos litúrgicos. Ele é constituído por um intenso apelo ao louvor, ao canto alegre da acção de graças, ao ar de festa da música, marcada pela harpa de dez cordas, pela lira e pela cítara (cf. vv. 2-4). O amor e a fidelidade do Senhor devem ser celebrados através do canto litúrgico que é conduzido "com arte" (cf. Sl 46, 8). Este convite vale também para as nossas celebrações, porque encontram sempre um resplendor não só nas palavras e nos ritos, mas também nas melodias que o animam.

Depois deste apelo a não extinguir mais o fio interior e exterior da oração, verdadeira respiração constante da humanidade fiel, o Salmo 91 propõe, em duas imagens, o perfil do ímpio (cf. vv. 7-10) e do justo (cf. vv. 13-16). O ímpio, porém, é posto perante o Senhor, "o excelso para sempre" (v. 9), que fará morrer os seus inimigos e dispersará todos os que fazem o mal (cf. v. 9). De fato, só à luz divina se consegue compreender em profundidade o bem e o mal, a justiça e a perversão.

A figura do pecador é delineada com uma imagem vegetal:  "os pecadores germinam como a erva e florescem todos os que fazem o mal" (v.8). Mas este florescer está destinado a secar e a desaparecer. O Salmista, efetivamente, multiplica os verbos e as palavras que descrevem a destruição:  "Espera-os uma ruína eterna... os teus inimigos, Senhor, perecerão, serão dispersos todos os que fazem o mal" (vv 8.10).

Na raiz deste êxito catastrófico está o mal profundo que ocupa o espírito e o coração do perverso:  "O homem insensato não compreende e o estulto não penetra nestas coisas" (v. 7). Os adjetivos aqui usados pertencem à linguagem sapiencial e denotam a brutalidade, a cegueira, a surdez de quem pensa poder tornar-se perverso sobre a face da terra, sem travões morais, com a ilusão de que Deus está ausente e indiferente. O orante, por outro lado, está certo de que o Senhor, mais cedo ou mais tarde, aparecerá no horizonte para fazer justiça e dobrar a arrogância do insensato (cf Sl 13).

Eis-nos, pois, diante da figura do justo, representada como uma grande pintura e cheia de cores. Também neste caso se recorre a uma imagem vegetal, fresca e verdejante (cf. Sl 91, 13-16). Diferente do ímpio que é como a erva dos campos, viçosa mas passageira, o justo ergue-se para o céu, sólido e majestoso como a palmeira e o cedro do Líbano. Por outro lado, os justos "estão plantados na casa do Senhor" (v. 14) isto é, têm uma relação muito mais sólida e estável com o templo e, por isso, com o Senhor,  que  nele  estabeleceu  a  sua morada.

A tradição cristã jogará também com o duplo significado da palavra grega phoinix, usada para traduzir o termo hebraico que indica a palmeira. Phoinix é o nome grego da palmeira, mas também o da ave que chamamos "fénix". Ora, é sabido que a fénix era símbolo da imortalidade, porque se imaginava que aquela ave renascia das próprias cinzas. O cristão faz uma experiência semelhante graças à sua participação na morte de Cristo, fonte de vida nova (cf. Rm 6, 3-4). "Deus... de mortos que estávamos pelos pecados, fez-nos reviver em Cristo" diz a Carta aos Efésios "com ele também nos ressuscitou" (2, 5-6).

Uma outra imagem representa o justo e é de tipo animal, destinada a exaltar a força que Deus concede, mesmo quando chega a velhice:  "Tu me dás força como a de um búfalo, e me unges com óleo novo" (Sl, 91, 11). Por um lado, o dom da potência divina faz triunfar e dá segurança (cf. v. 12); por outro, a fronte gloriosa do justo é consagrada pelo óleo que dá uma energia e uma bênção protectora. O Salmo 91 é, pois, um hino de otimismo, fortalecido pela música e pelo canto. Ele celebra a confiança em Deus que é fonte de serenidade e paz, mesmo quando se assiste ao sucesso aparente do ímpio. Uma paz que é completa mesmo na velhice (cf. v. 15), estação vivida ainda na fecundidade e na segurança.

Concluímos com as palavras de Orígenes, traduzidas por São Jerónimo, que tiram a sua razão da frase em que o salmista diz a Deus:  "unges-me com óleo novo" (v. 11). Orígenes comenta:  "A nossa velhice tem necessidade do óleo de Deus. Como quando os nossos corpos estão cansados não se fortalecem senão ungindo-os com o óleo; como a chamazinha da lâmpada se extingue se não lhe acrescentamos óleo, assim também, a chamazinha da minha velhice tem necessidade, para crescer, do óleo da misericórdia de Deus. De resto, também os Apóstolos sobem ao monte das Oliveiras (cf. At 1, 12), para receber luz do óleo do Senhor, pois estavam cansados e as suas lâmpadas tinham necessidade do óleo do Senhor... Por isso, rezemos ao Senhor para que a nossa velhice, toda a nossa fadiga e todas as nossas trevas sejam iluminadas pelo óleo do Senhor" (74 Homilias sobre o Livro dos Salmos).

-- Papa João Paulo II, audiência de 12 de Junho de 2002

17 de dez de 2013

Depende de nós controlar a qualidade dos nossos pensamentos

É impossível, sem dúvida, que a mente não seja perturbada por pensamentos. Mas a quem se empenha, é possível os acolher ou rejeitar. Se, de um lado, o seu nascimento não depende inteiramente de nós, já a sua aprovação e acolhida está em nossas mãos.

E se dizemos ser impossível à mente não ser assaltada por pensamentos, nem por isso se deve tudo atribuir às suas investidas ou aos espíritos malignos que nos tentam sugeri-los. Se assim não fosse, nem sobraria ao homem o livre arbítrio, nem nos restaria o empenho da nossa própria correção.

Eu digo, ao contrário, que depende de nós, em grande parte, melhorar a qualidade dos nossos pensamentos, e influir na sua formação em nossos corações, se santos e espirituais ou carnais e terrenos.

É a este fim, portanto, que se prendem a leitura freqüente e a constante meditação das Escrituras: proporcionar a memória das coisas espirituais.

Este o motivo do canto repetido dos Salmos: alimentarmos a continua compunção, e afinarmos de tal modo a mente, que ela perca o sabor das coisas terrenas e possa contemplar as celestes. Se, voltando atrás, e levados por uma sorrateira negligência, cessarmos tais exercícios, é inevitável que a mente obscurecida pela impureza dos vícios se incline logo para o lado da carne e aí se precipite.

Este exercício do coração bem se pode comparar à mó que as águas dum canal, tombando, fazem rodar com rapidez. Sempre a dar voltas ao impulso das águas, ela não pode, de nenhum modo, cessar o seu trabalho. Entretanto, está no poder daquele que se acha à testa do moinho, escolher o que vai moer, se o trigo, a cevada ou o joio. O que é fora de dúvida, é que só mói aquilo que o responsável tiver fornecido.

Ora, o mesmo acontece com a alma. Posta em movimento pelas torrentes de tentações que a investem de todos os lados através dos choques da vida presente, ela não poderá ficar vazia da maré dos pensamentos. A seu zelo e diligência cabe ver quais deve admitir ou procurar.

Se, pois, como dissemos, recorremos à meditação assídua da Escrituras e levantamos a nossa memória à lembranças das coisas espirituais, ao desejo da perfeição e à esperança da futura bem aventurança, é inevitável que os pensamentos daí nascidos sejam espirituais e farão que nossa mente se detenha naquilo que meditamos.

Se, pelo contrário, vencidos pela preguiça ou pela negligência, nos deixamos invadir pelos vícios e conversas ociosas, ou nos embaraçamos com cuidados mundanos e preocupações supérfluas, a espécie de cizânia que daí nasce sobrecarregará o nosso coração com um trabalho nocivo. E segundo a sentença do nosso Salvador, onde estiver o tesouro das nossas obras e de nossa intenção, lá permanecerá necessariamente o nosso coração (Mt. 6, 21).

-- Da Primeira Conferência dos Padres do Deserto, São João Cassiano, monge (século V)

10 de dez de 2013

Preparai o caminho do Senhor

O Senhor quis ser batizado pelo servo, para que aqueles que são batizados pelo Senhor vissem bem o que é que recebem. Assim, portanto, e com razão, Ele começou onde a profecia o precedera: De mar a mar estenderá o seu domínio, e desde o rio até os confins de toda a terra (Sl 71, 8). À margem do mesmo rio, onde começou Cristo a estender o seu domínio, João viu a Cristo, reconheceu-o e deu testemunho dele. Diante do grande, humilhou-se, para que, humilde, pelo grande fosse exaltado. Proclamou-se amigo do Esposo. Mas que tipo de amigo? Por acaso um amigo igual a Ele? Longe de nós pensá-lo, mas inferior. Inferior em que medida? Eu nem sou digno, dizia, de me abaixar para desamarrar suas sandálias (Mc 1, 7).

Este profeta, e mais que um simples profeta, mereceu ter sido anunciado por um dos profetas. A respeito dele, com efeito, afirmou Isaías na passagem que hoje se nos leu: Esta é a voz daquele que grita no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas. Nivelem-se todos os vales, rebaixem-se todos os montes e colinas; endireite-se o que é torto e alisem-se as asperezas: e todas as pessoas verão a salvação de Deus (Mc 1, 3; Is 40, 4; Lc 3, 6).

Preste atenção a vossa Caridade. Ao ser João interrogado sobre quem fosse, se era o Cristo, ou Elias ou o Profeta, respondeu: Não sou o Cristo, nem Elias nem o Profeta. E, ao replicarem os que o interrogavam: Quem és, afinal?, respondeu: Eu sou a voz que grita no deserto (cf. Jo 1, 19-23). Disse que era a voz. Tens que João é a voz. E Cristo, por quem o tens, senão por Palavra? A voz é enviada antes, para que a Palavra seja entendida mais tarde. E que Palavra? Ouve a que te revela claramente: No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus; e a Palavra era Deus. No princípio estava ela com Deus. Tudo foi feito por ela, e sem ela nada se fez de tudo que foi feito (Jo 1, 1-3). "Tudo" inclui também João. Por que nos admiramos de a Palavra ter feito para si uma voz? Vê, vê que ambas estão à margem do rio: tanto a voz como a Palavra. A voz é João e a Palavra, Cristo.

-- De Santo Agostinho (século IV)

8 de dez de 2013

Da Unidade da Igreja - parte IV

A lei do amor e a unidade

É certamente coisa incomum e admirável profetizar, expulsar demônios e fazer obras portentosas aqui na terra, mas quem faz todas essas coisas não conseguirá o Reino celeste se não anda no caminho reto e certo.
Catedral de Santo Estevão, Budapeste

Ouçamos ainda o Senhor: "Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não te lembras que em teu nome profetizamos e em teu nome expulsamos demônios e em teu nome fizemos obras portentosas? Eu porém lhes direi: jamais vos conheci, apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade" (Mt 7,21-23). É necessária a justiça para que alguém possa ser premiado por Deus. É necessário obedecer aos seus mandamentos e aos seus avisos, para que os nossos méritos alcancem a recompensa.

O Senhor, no Evangelho, querendo mostrar-nos em breve resumo a senda da nossa fé e da nossa esperança, disse: "O Senhor, teu Deus, é um só", e continua: "Amarás ao Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças" (Mc 12,29-31). "Eis o primeiro mandamento. O segundo é semelhante a ele: amarás ao teu próximo como a ti mesmo. Nestes dois preceitos funda-se toda a lei e também os profetas" (Mt 22,39-40).

Com a sua autoridade ensinou, ao mesmo tempo, a unidade e o amor. Em dois preceitos compendiou a lei e todos os Profetas. Mas que unidade observa, que amor pensa praticar aquele que, como doido pelo furor da discórdia, divide a Igreja, destrói a fé, perturba a paz, aniquila a caridade, profana o Sacramento?

Essas aberrações foram preditas

Este mal, ó irmãos fidelíssimos, já tinha começado algum tempo atrás, mas agora, como triste calamidade, foi crescendo dia a dia e a venenosa praga da heresia e dos cismas aparece e pulula sempre mais. Assim deve acontecer no fim do mundo, como nos vaticina e nos avisa o Espírito Santo por meio do Apóstolo: "Nos últimos dias, diz ele, chegarão tempos difíceis e haverá homens que só buscam os próprios gostos, soberbos, arrogantes, avarentos, blasfemos, desobedientes aos pais, ingratos, desalmados, sem afeição e sem respeito de compromisso, caluniadores, incontinentes, violentos, sem nenhum amor ao bem, traidores, atrevidos, estupidamente altivos, amando mais os prazeres que Deus, ostentando um verniz de religiosidade, mas conculcando todo valor religioso. Deles são os que se insinuam nas casas e conquistam mulherzinhas carregadas de pecados, que se deixam levar por várias volúpias e se mostram sempre curiosos de saber, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade. E como Jamnes e Mambres fizeram resistência contra Moisés, assim estes resistem à verdade. Mas não serão bem sucedidos, porque a sua incapacidade será a todos manifesta, como aconteceu àqueles" (2Tim 3,1-9).

Tudo o que tinha sido preanunciado se está cumprindo e, enquanto se aproxima o fim do mundo, tudo se realiza nas pessoas e nos acontecimentos.

O adversário está solto. Cada vez mais, o erro vai espalhando os seus enganos. A insensatez gera orgulho, arde a inveja, a cobiça chega até à cegueira, a impiedade deprava, a soberba incha, a discórdia exaspera, a ira enfurece.

-- São Cipriano de Cartago (século III)

7 de dez de 2013

Ó Virgem, pela tua benção é abençoada a criação inteira!

Imaculada Conceição, de Bartolome Murillo
O céu e as estrelas, a terra e os rios, o dia e a noite, e tudo   quanto obedece ou serve aos homens, congratulam-se, ó Senhora, porque a beleza perdida foi por ti de certo modo ressuscitada e dotada de uma graça nova e inefável. Todas as coisas pareciam mortas, ao perderem sua dignidade original que é estar em poder e a serviço dos que louvam a Deus.  Para isto é que foram criadas. Estavam oprimidas e desfiguradas pelo mau uso que delas faziam os idólatras, para os quais não haviam sido criadas. Agora, porém, como que ressuscitadas, alegram-se pois são governadas pelo poder e embelezadas pelo uso dos que louvam a Deus.

Perante esta nova e inestimável graça, todas as coisas exultam de alegria ao sentirem que Deus, seu Criador, não apenas as  governa invisivelmente lá do alto, mas também está   visivelmente neles, santificando-as com o uso que delas faz. Tão grandes bens procedem do bendito fruto do sagrado seio da Virgem Maria.

Pela plenitude da sua graça, aqueles que estavam na mansão dos mortos alegram-se, agora libertos;e os que
estavam acima do céu rejubila-se renovados. Com efeito, pelo fim se seu cativeiro, e os anjos se congratulam  pela restauração de sua cidade quase em ruínas.

Ó mulher cheia e mais que cheia de graça, o transbordamento de tua plenitude faz renascer toda criatura! Ò Virgem bendita e mais que bendita, pela tua benção é abençoada toda a natureza, não só as coisas criadas pelo Criador, mas também o Criador pela criatura!

Deus deu a Maria o seu próprio Filho único, gerado de seu coração, igual a si, a quem amava como si mesmo. No seio de Maria, formou seu filho, não outro qualquer, mas o mesmo, para que, por natureza, fosse realmente um só e o mesmo Filho de Deus e de Maria! Toda a criação é obra de Deus, e Deus nasceu de Maria. Deus criou todas as coisas, e Maria deu à luz Deus! Deus que tudo fez, formou-se a si próprio no seio de Maria. E deste modo refez tudo o que tinha feito. Ele que pode fazer tudo do nada, não quis refazer
sem Maria o que fora profanado.

Por conseguinte, Deus é o pai das coisas criadas, e Maria a mãe das coisas recriadas. Deus é o Pai da criação universal e Maria a mãe da redenção universal. Pois Deus gerou aquele por quem tudo foi feito, e Maria deu à luz aquele por quem tudo foi salvo. Deus gerou aquele sem o qual nada absolutamente existe, e Maria deu à luz aquele sem o qual nada absolutamente é bom.

Verdadeiramente o Senhor é contigo, pois quis que toda a natureza reconheça que deve a ti, juntamente com ele, tão grande benefício.

-- Das Meditações de Santo Anselmo, bispo (seculo XII)

2 de dez de 2013

Salmo 147: Jerusalem Reconstruída

Queridos irmãos e irmãs,

Lauda Jerusalem, que acabamos de proclamar, é muito apreciado pela liturgia cristã. Ela entoou com frequência o Salmo 147 relacionando-o com a Palavra de Deus, que "corre veloz" sobre a face da terra, mas também com a Eucaristia, verdadeira "flor de trigo" concedida por Deus para "saciar" a fome do homem (cf. Sl 147, 14-15).

Orígenes, numa das suas homilias, traduzidas e difundidas no Ocidente por São Jerónimo, ao comentar o nosso Salmo, relacionava precisamente a Palavra de Deus com a Eucaristia:  "Nós lemos as Sagradas Escrituras. Eu penso que o Evangelho é o Corpo de Cristo; penso que as Sagradas Escrituras são o seu ensinamento.  E  quando  ele  diz:   Se  não comerdes  a  carne  do  Filho  do  Homem e não beberdes o Seu sangue (cf. Jo 6, 53),  mesmo  se  estas  palavras  se podem compreender também do Mistério [eucarístico], contudo o corpo de Cristo e o seu sangue são verdadeiramente a palavra das Escrituras, são o ensinamento de Deus. Quando assistimos ao Mistério [eucarístico], se dele se desperdiça uma pequena porção, sentimo-nos perdidos. E quando estamos a ouvir a Palavra de Deus, e nos chega aos ouvidos a Palavra de Deus, a carne de Cristo e o seu sangue, e nós pensamos noutras coisas, em que grande perigo nós caímos!" 

Os estudiosos fazem notar que este Salmo  deve  ser  relacionado  com  o precedente, para constituir uma única composição, como acontece precisamente no original hebraico. De fato, tem-se um cântico único e coerente em honra da criação e da redenção realizadas pelo Senhor. Ele começa com um jubiloso apelo ao louvor:  "Louvai o Senhor porque é bom cantar. Louvai o nosso Deus porque o louvor é agradável" (Sl 146, 1).

Se detivermos a nossa atenção no trecho que agora acabamos de ouvir, podemos perceber três momentos de louvor, introduzidos por um convite dirigido à cidade santa, Jerusalém, para que glorifique e louve o seu Senhor (cf. Sl 147, 12).

No primeiro momento (cf. vv. 13-14) entra em cena a ação histórica de Deus. Ela é descrita através de uma série de símbolos que representam a obra de protecção e de apoio realizada pelo Senhor em relação à cidade de Sião e dos seus filhos. Antes de mais faz-se referência às "grades" que fortificam e fazem com que as portas de Jerusalém  sejam  invioláveis.  Talvez  o  Salmista se refira a Neemias que fortificou a cidade santa, reconstruída depois da experiência amarga do exílio em Babilónia (cf. 3, 3.6.13-15; 1-9; 6, 15-16; 12, 27-43). A porta, entre outras coisas, é um sinal para indicar toda a cidade na sua densidade e tranquilidade. No seu interior, representado como um seio seguro, os filhos de Sião, isto é, os cidadãos, gozam da paz e da serenidade, envolvidos no manto protector da bênção divina.

A imagem da cidade jubilosa e tranquila é exaltada pelo dom altíssimo e precioso da paz que faz com que as fronteiras sejam seguras. Mas precisamente porque para a Bíblia a paz-shalôm não é um conceito negativo, que recorda a ausência de guerra, mas um facto positivo de bem-estar e prosperidade, eis que o Salmista introduz a saciedade com a "flor de trigo", isto é, com o grão excelente, com as espigas cheias de grãos. Por conseguinte, o Senhor fortaleceu as defesas de Jerusalém (cf. Sl 87, 2), fez descer sobre ela a sua bênção (cf. Sl 128, 5; 134, 3), fazendo-a chegar a todo o país, concedeu a paz (cf. Sl 122, 6-8) e saciou os seus filhos (cf. Sl 132, 15).

Na segunda parte do Salmo (cf. Sl 147, 15-18), Deus apresenta-se sobretudo como criador. De fato, relaciona-se duas vezes a obra criadora com a palavra que fez desabrochar o aparecimento do ser:  "Deus disse:  "Faça-se a luz". E a luz foi feita... Envia as suas ordens à terra... Envia a Sua palavra..." (cf. Gn 1, 3; Sl 147, 15.18).

De acordo com a Palavra divina, eis que surgem e se estabelecem as duas estações fundamentais:  por um lado, a ordem do Senhor faz descer sobre a terra o inverno, representado de modo significativo pela neve suave como a lã, pelo orvalho semelhante à poeira, pelo granizo comparável às migalhas de pão e pelo gelo que tudo paraliza (cf. vv. 16-17). Por outro lado, outra ordem divina manda soprar o vento quente que traz o Verão e faz derreter a neve:  as águas da chuva e dos rios podem correr livremente para regar a terra e a fecundar.

Por conseguinte, a Palavra de Deus está na base do frio e do calor, do ciclo das estações e da afluência da vida na natureza. A humanidade é convidada a reconhecer e a dar graças ao Criador pelo dom fundamental do universo, que a rodeia, faz com que ela respire, a alimenta e ampara.

Passa-se então ao terceiro e último momento do nosso hino de louvor (cf. vv. 19-20). Volta-se ao Senhor da história do qual se partiu. A Palavra divina leva a Israel um dom ainda mais nobre e precioso, o da lei, da Revelação. Um dom específico:  "Não trata assim os outros povos, todos esses ignoram os seus mandamentos" (v. 20).

Portanto, a Bíblia é o tesourto do povo eleito à qual devemos aderir com amor e fidelidade. É o que diz Moisés aos Hebreus no Deuteronómio:  "Qual é o grande povo, que possua mandamentos e preceitos tão justos como esta Lei que hoje vos apresento?" (Dt 4, 8).

Assim como existem duas ações gloriosas de Deus na criação e na história, assim também existem duas revelações:  uma inscrita na própria natureza e que está aberta a todos, a outra oferecida ao povo eleito, que a deverá testemunhar e comunicar a toda a humanidade e que está contida na Sagrada Escritura. Duas revelações distintas, mas Deus permanece único assim como a sua Palavra. Tudo foi feito por meio da Palavra dirá o Prólogo do Evangelho de João e sem ela nada de tudo o que existe foi  feito.  Mas  a  Palavra  também  se fez  "homem",  isto  é,  entrou  na  história,  e  levantou  a sua tenda entre nós (cf. Jo 1, 3.14).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 5 de Junho de 2002

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