30 de mar de 2012

Homília do Domingo de Ramos


"Hosana! Bendito seja O que vem em nome do Senhor! Bendito o reino do nosso pai David que está a chegar! Hosana nas alturas!" (Mc 11, 9s.)

Houve um dia em que Jesus de Nazaré foi exaltado à vista de todo o povo. E Ele permitiu isto. Antes, num certo sentido Ele mesmo criou as condições para que isto acontecesse, entrando em Jerusalém montado num jumentinho, rodeado dos seus discípulos, precisamente quando de várias partes da Terra Santa se dirigia para lá muita gente.

Quando os fariseus disseram: "Mestre, repreende os Teus discípulos", Ele retorquiu-lhes: "Digo-vos que, se eles se calarem, gritarão as pedras" (Lc 19, 39 s.).

Houve um dia em que Jesus de Nazaré, cumprindo a vontade do Pai, consentiu que se manifestasse n'Ele a glória terrena do Messias: que se manifestasse diante de Jerusalém e pelos lábios dos seus conterrâneos. Deste modo, de fato, devia cumprir-se a Escritura, que exprime de maneira régia a glória do Messias: como exaltação do descendente de Davi.

Assim, portanto, hoje celebramos o dia da exaltação de Jesus de Nazaré diante dos olhos dos homens. Hoje também, ao entrarmos na liturgia da Semana Santa, começamos a meditar o mistério da exaltação do Messias diante de Deus.

Admirável é a liturgia do Domingo de Ramos, assim como admiráveis foram os acontecimentos do dia, ao qual ela se refere.

Sobre o entusiasmo do messiânico "Hosana" pesa uma sombra profunda. É esta a sombra da paixão que se aproxima. Quão significativas são afinal estas palavras do profeta, que se cumprem neste dia: "Não temas, ó filha de Sião. Aí vem o teu Rei sentado sobre o filho de uma jumenta!" (Jo 12, 15; cf. Zac 9, 9).

Pode, no dia do entusiasmo geral do povo pela vinda do Messias, a Filha de Sião ter motivo de temor? E no entanto, sim. Está próximo já o tempo, em que se cumprirão nos lábios de Jesus de Nazaré as palavras do Salmista: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonastes?" (Sl 21/22, 2). Ele mesmo pronunciará estas palavras do alto da Cruz. Então, em vez do entusiasmo do povo que canta "Hosana", seremos testemunhas dos escárnios no pátio de Pilatos, no Gólgota, tal como proclama o Salmista: "Todos os que me vêem escarnecem de mim, torcem os lábios, meneiam a cabeça: 'Confiou no Senhor, que Ele o livre, que o salve, já que o ama'" (ibid.,vv. 8 s.).

A liturgia de hoje – a liturgia do Domingo de Ramos  permitindo que nos detenhamos diante da entrada triunfal de Cristo em Jerusalém, conduz-nos contemporaneamente ao término da paixão"Trespassaram as minhas mãos e os meus pés, posso contar todos os meus ossos...". E em seguida: "Repartem entre si as minhas vestes, e lançam sortes sobre elas" (ibid.,vv. 17-19).

Como se o Salmista visse já com os próprios olhos o desenrolar dos acontecimentos da Sexta-feira Santa. Verdadeiramente naquele dia, já próximo, Cristo far-se-á obediente até à morte, e esta será a morte de Cruz (cf. Fil 2, 8).

E precisamente aqui, ao término da Paixão, tem o seu início o mistério da exaltação do Messias. Esta exaltação é diversa da "histórica" exaltação diante dos homens, o dia do festivo "Hosana". É esta a exaltação em Deus mesmo.

A esta exaltação em Deus tomaram-se imediata introdução a humilhação de Cristo e o seu despojamento definitivo mediante a Cruz. "(Cristo Jesus) que era de condição divina não reivindicou o direito de ser equiparado a Deus. Mas despojou-se a Si mesmo, tomando a condição de servo..." (Fil 2, 6 s). Estas palavras da carta aos Filipenses referem-se não só à Paixão. Constituem elas, num certo sentido, a síntese de toda a vida de Cristo. Constituem o sinal de todo o mistério da Encarnação.

Destas palavras, com efeito, resulta claramente que Ele "se despojou a Si mesmo" pelo fato mesmo que, "embora sendo de natureza divina", aceitou a condição humana, a natureza humana: tomando a "condição de servo". Podendo de todas as maneiras "aproveitar a ocasião de ser igual a Deus", escolheu conscientemente tudo o que O tornava "semelhante" aos homens: "tido pelo aspecto como homem". E eis, aproximamo-nos do término deste nivelamento. Consegui-lo-emos então, quando Cristo "Se humilhar a si mesmo, feito obediente até à morte e morte de Cruz".

Mas precisamente este término significa o início da exaltação. A exaltação de Cristo está compreendida no despojamento de Cristo. A glória tem o seu início e a sua fonte na Cruz. São Paulo na carta aos Filipenses salienta-o claramente, quando faz iniciar a sucessiva frase do seu magnifico texto com a palavra "por isso". "Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome" (v. 9). O apóstolo vê esta exaltação à medida do mundo visível e invisível. Escreve então... "e Lhe deu um nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre nos Céus, na Terra e nos infernos, e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor — para glória de Deus Pai" (vv. 9-11). 

Tal é a medida da exaltação de Cristo em Deus. Daquele Cristo, que no Domingo de Ramos permitiu a sua "exaltação" diante dos olhos de Jerusalém, quando não faltavam senão poucos dias para a crucifixão. Com o presente domingo a Igreja encontra-se no limiar da Semana Santa. É esta a semana pascal. Ela contém em si o mistério do despojamento de Cristo e da sua exaltação: da exaltação mediante o despojamento. Com grande humildade, com fé e com amor vamos ao encontro deste Mistério.

-- Homília da Celebração do Domingo de Ramos, Papa Joãp Paulo II, em 4 de Abril de 1982.

29 de mar de 2012

Cristo ofereceu-se por nós



São Fulgêncio de Ruspe (467-533). Era vice-
governador de Bizâncio quando leu o comentário
sobre o Salmo 36, escrito por Santo Agostinho.
Decidiu então abraçar a vida monástica.

Os sacrifícios das vítimas materiais, que a própria Santíssima Trindade, Deus único do Antigo e do Novo Testamento, tinha ordenado que nossos antepassados lhe oferecessem, prefiguravam a agradabilíssima oferenda daquele sacrifício em que o Filho unigênito de Deus feito carne iria, misericordiosamente, oferecer-se por nós.

De fato, segundo as palavras do Apóstolo, ele se entregou a si mesmo a Deus por nós, em oblação e sacrifício de suave odor (Ef 5,2). É ele o verdadeiro Deus e o verdadeiro sumo-sacerdote que por nossa causa entrou de uma vez para sempre no santuário, não com o sangue de touros e bodes, mas com o seu próprio sangue. Era isto que outrora prefigurava o sumo-sacerdote, quando, uma vez por ano, entrava no santuário com o sangue das vítimas.

É Cristo, com efeito, que, por si só, ofereceu tudo o quanto sabia ser necessário para a nossa redenção; ele é ao mesmo tempo sacerdote e sacrifício, Deus e templo. Sacerdote, por quem somos reconciliados; sacrifício, pelo qual somos reconciliados; templo, onde somos reconciliados; Deus, com quem somos reconciliados. Entretanto, só ele é o sacerdote, o sacrifício e o templo, enquanto Deus na condição de servo; mas na sua condição divina, ele é Deus com o Pai e o Espírito Santo.

Acredita, pois, firmemente e não duvides que o próprio Filho Unigênito de Deus, a Palavra que se fez carne, se ofereceu por nós como sacrifício e vítima agradável a Deus. A ele, na unidade do Pai e do Espírito Santo, eram oferecidos sacrifícios de animais pelos patriarcas, profetas e sacerdotes do Antigo Testamento. E agora, no tempo do Novo Testamento, a ele, que é um só Deus com o Pai e o Espírito Santo, a santa Igreja católica não cessa de oferecer em toda a terra, na fé e na caridade, o sacrifício do pão e do vinho.

Antigamente, aquelas vítimas animais prefiguravam o corpo de Cristo, que ele, sem pecado, ofereceria pelos nossos pecados, e seu sangue, que ele derramaria pela remissão desses mesmos pecados. Agora, este sacrifício é ação de graças e memorial do Corpo de Cristo que ele ofereceu por nós, e do sangue que o mesmo Deus derramou por nós. A esse respeito, fala São Paulo nos Atos dos Apóstolos: Cuidai de vós mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Espírito Santo vos colocou como guardas, para pastorear a Igreja de Deus, que ele adquiriu com o sangue do seu próprio Filho (At 20,28). Antigamente, aqueles sacrifícios eram figura do dom que nos seria feito; agora, este sacrifício manifesta claramente o que já nos foi doado.

Naqueles sacrifícios anunciava-se de antemão que o Filho de Deus devia sofrer a morte pelos ímpios; neste sacrifício anuncia-se que ele já sofreu essa morte, conforme atesta o Apóstolo: Quando éramos ainda fracos, Cristo morreu pelos ímpios, no tempo marcado (Rm 5,6). E ainda: Quando éramos inimigos de Deus, fomos reconciliados com ele pela morte do seu Filho (Rm 5,10).

-- Do Tratado sobre a fé de Pedro, de São Fulgêncio de Ruspe, bispo (século VI)

28 de mar de 2012

Os mistérios principais da fé cristã (Compêndio da Doutrina Cristã)


Quantos são os deuses?
- Deus é um só.

Em Deus quantas são as pessoas?
- São três pessoas realmente distintas.

Quais são estas três pessoas?
- O Pai, o Filho e o Espírito Santo.

Como se chama este mistério?
- O mistério da Santíssima Trindade.

Que entendeis por este nome: Santíssima Trindade?
- Um Deus em três pessoas realmente distintas: Pai, Filho e Espírito Santo.

Qual a primeira pessoa da Santíssima Trindade?
- A primeira é o Pai; a segunda, o Filho; a terceira é o Espírito Santo.

Porque o Pai é a primeira pessoa?
- O Pai é a primeira pessoa por que não procede de outra, mas é o princípio das outras duas pessoas.

Porque o Filho é a segunda pessoa?
- O Filho é a segunda pessoa porque é gerado pelo Pai.

Porque o Espírito Santo é a terceira pessoa?
- O Espírito Santo é a terceira pessoa porque procede do Pai e do Filho.

O Pai existiu antes que o Filho e o Espírito Santo?
- O Pai não existiu primeiro, porque o Filho e o Espírito Santo são tão eternos quanto o Pai.

O Pai é Deus?
- O Pai é Deus; o Filho é Deus; e o Espírito Santo é Deus.

Se cada uma das pessoas é Deus, então são três deuses?
- Não são três deuses, mas um só Deus.

Porque são um só Deus estas três pessoas?
- Porque todas três tem a mesma e única natureza divina.

Destas três, qual é a maior, a mais poderosa e a mais sábia?
- Todas são iguais, porque tem a mesma grandeza, o mesmo poder e a mesma sabedoria.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

27 de mar de 2012

O conhecimento de Deus e nosso fim (Compêndio da Doutrina Cristã)


Quem é, o que vos criou?
- Deus é o que me criou.

Para que fim vos criou?
- Deus me criou para O conhecer, amar e servir, guardando a sua santíssima lei.

Como Deus premia aqueles que O ama e servem?
- Com a glória do Céu.

Que coisa se goza no céu?
- A vista de Deus e todos os bens eternamente, sem espécie alguma de mal.

Como castiga Deus aqueles que nesta vida não O amam nem servem?
- Com o Inferno.

Que se padece no Inferno?
- A privação da vista de Deus, o fogo eterno, e todos os males, sem espécie alguma de bem.

Quem é Deus?
- Deus é um espírito perfeitíssimo, que tem todas as virtudes e perfeições, e que é  Criador, Senhor do Céu e da Terra.

Quem fez ou criou Deus?
- Deus por ninguém foi feito ou produzido.

Onde está Deus?
- Deus está no Céu, na Terra e em todo lugar.

Deus vê todas as coisas?
- Deus tudo vê, até nossos pensamentos.

Deus também vê as coisas futuras?
- Deus vê tudo juntamente, o passado, presente e futuro.

A quanto tempo há Deus?
- Deus sempre existiu.

E quanto tempo durará?
- Deus sempre existiu e para sempre existirá.

Deus tem olhos e mãos, ou por dizer mais breve, tem corpo como nós?
- Deus não tem corpo, porque é um espírito puríssimo.

Se Deus não tem olhos, como vê as coisas?
- Deus vê as coisas com sua infinita sabedoria.

E se Deus não tem mãos, como pode fazer o mundo?
- Deus fez o mundo com a sua vontade onipotente.

De que coisa fabricou o mundo?
- Do nada o criou.

E poderia fazer outro mundo?
- Sim, poderia fazr outros mundos por que é onipotente.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)


26 de mar de 2012

Carta de Santa Clara para Ermentrudes de Bruges


Santa Clara, afresco de Simone Martini,
na Basílica de São Francisco em Assis.
Clara de Assis, humilde serva de Jesus Cristo, deseja saúde e paz a sua querida irmã Ermentrudes.

Soube, irmã querida, que você teve a felicidade de fugir da lama do mundo, pela graça de Deus. Alegro-me por isso e me congratulo com você, como me alegro porque você e suas filhas seguem com valor os caminhos da virtude.

Querida, seja fiel até a morte àquele com quem você se comprometeu, pois é ele que vai coroá-la com o louro da vida.

Nossa fadiga aqui é breve, eterno é o prêmio. Não a iludam os rumores do mundo que passa como sombra. Não perca a cabeça com as imagens vazias do mundo enganador; tape os ouvidos aos assobios do inferno e, forte, quebre seus assaltos. Suporte por bem as adversidades e não se deixe exaltar pela prosperidade, porque esta pede fé, mas aquelas a exigem. Entregue fielmente a Deus o que prometeu, e ele retribuirá.

Querida, olhe para o céu que nos convida, tome a cruz e siga o Cristo que vai à nossa frente. Na realidade, depois de muitas e variadas tribulações, vamos entrar por meio dele na sua glória.

Ame com todo coração a Deus e a seu filho Jesus, crucificado por nós pecadores, sem permitir que ele saia de sua recordação. Trate de meditar sempre nos mistérios da cruz e nas dores de sua Mãe que estava ao pé da cruz.

Ore e vigie sempre. Complete apaixonadamente a obra que você começou bem e dê conta do serviço que você assumiu na santa pobreza e na humildade sincera.

Não se assuste, filha. Deus, fiel em todas as suas palavras e santo em todas as suas obras, vai derramar sua bênção sobre você e suas filhas. Vai ser o seu auxílio e o seu melhor consolador, porque ele é o nosso redentor e a nossa recompensa eterna.

Oremos mutuamente a Deus, pois assim uma carregará o peso da outra e vamos cumprir com facilidade a lei de Cristo. Amém.

-- Carta a Ermentrudes de Burges, Santa Clara (sécuo XIII)

* Santa Clara teria escrito duas cartas a Ermentrude. O texto atualmente conhecido seria uma fusão de ambas. Segundo os estudiosos, seu conteúdo pode ser claramente atribuído a Santa Clara. 


** Ermentrudes nasceu em Colônia, na Alemanha, de onde saiu em peregrinaçao no ano de 1240. Viveu em Bruges por doze anos em um monastério,  quando decidiu ir até Assis. Ao chegar, soube que Clara já havia falecido. Retornou a Bruges para formar uma casa das irmãs menores. Depois, fundou outras casas na atual Bélgica.

24 de mar de 2012

A vida de Moisés - as graças de Deus

Como mais uma vez se originasse no povo uma rebelião para conseguir o poder, e alguns tentassem pela força que fosse transferido para eles o sacerdócio, ele suplicou uma vez mais a Deus pelos que pecavam, porem o rigor do juízo divino foi mais forte que a compaixão de Moisés por sua gente. A terra, que por vontade divina se abrira como uma boca, fechou-se novamente sobre si mesma, tragando totalmente todos os que se opunham a autoridade de Moisés; aqueles que se haviam envolvido em intrigas para alcançar o sacerdócio, devorados pelo fogo em número próximo de duzentos e cinqüenta, com sua desgraça ensinaram sensatez ao povo (Nm 16, 1-35). 

Para que os homens se persuadissem mais de que a graça do sacerdócio é concedida por Deus aos que são dignos, Moisés fez com que os homens principais de cada tribo trouxessem bastões, marcados cada um com o sinal de seu dono. Entre estes se encontrava o do sacerdote Aarão. Tendo colocado os bastões diante do santuário, neles mostrou ao povo o desígnio de Deus no que diz respeito ao sacerdócio: dentre todos, somente o báculo de Aarão floresceu e produziu fruto do lenho, - o fruto era uma noz -, e o levou ao amadurecimento (Nm 17, 16-24). Mesmo para os que não criam pareceu um enorme prodígio que o que estava seco, sem casca e sem raiz, se tornasse fértil de repente, e que realizasse o que realizam as plantas com raízes, fazendo, o poder divino, para o lenho as vezes da terra, córtex, umidade, raiz e tempo. 

Depois disto Moisés, guiando o exército entre povos estrangeiros que se opunham à sua passagem, promete com juramento que o povo não atravessaria suas lavouras nem seus vinhedos, mas que seguiria o caminho real, sem desviar-se nem para a direita nem para a esquerda. Como nem assim se aquietassem os inimigos, vencendo seu adversário em combate, faz-se dono do caminho (Nm 20, 17). 

Então certo Balac, que dominava sobre o povo mais importante, -madianitas era o nome desse povo-, compadecido da sorte dos vencidos e imaginando que padeceria as mesmas coisas por parte dos israelitas, não leva em sua ajuda nenhum contingente de armas ou de pessoas, mas a arte da magia através de certo Balaam, o qual tinha fama de ser versado nestas coisas e, segundo a convicção daqueles que o haviam procurado, tinha certo poder nesta atividade. Sua arte era a da adivinhação, porem com a ajuda dos demônios era temível, fazendo cair males incuráveis sobre os homens com poder mágico (Nm 22, 2-8). 

Este, enquanto segue aos que o conduzem ao rei do povo, conhece pela voz da jumenta que o caminho não lhe seria favorável. Depois conhecendo por uma visão o que devia fazer, descobriu que sua magia era demasiado débil para causar dano àqueles que estavam acompanhados por Deus na luta. Balaam possuído pela inspiração divina em lugar da energia dos demônios, disse palavras tais que claramente são uma profecia das melhores coisas que lhes sucederia mais adiante aos israelitas. Ao ser impedido de utilizar sua arte para o mal, tomando então consciência do poder divino, afastou-se da adivinhação e se fez intérprete da vontade divina (Nm 22, 22-24). 

Depois disto, os estrangeiros foram exterminados pelo povo em um combate contra eles; este por sua vez resultou vencido pela paixão da incontinência pelas cativas. Finéias atravessou com uma só lança aos que estavam entrelaçados na ignomínia; então teve descanso a cólera de Deus contra aqueles que se haviam deixado arrastar às uniões ilícitas (Nm 25, 1-9). 

Finalmente, o Legislador, subindo a um monte e contemplando de longe a terra que estava preparada para Israel segundo a promessa feita por Deus aos pais, abandonou a vida humana sem haver deixado sobre a terra nenhum sinal, nem uma recordação de seu trânsito com algum monumento funerário. O tempo não havia maltratado sua formosura, nem havia obscurecido o fulgor de seus olhos, nem havia debilitado a graça resplandecente de seu rosto (Dt 34,1-7), mas permaneceu sempre idêntico a si mesmo e, desta forma, conservou, mesmo na maturidade, a imutabilidade na beleza. 

Expus para ti em grandes traços quanto aprendemos sobre a história do homem em seu sentido literal, ainda que também tenhamos alargado necessariamente o discurso naquelas coisas em que de algum modo havia razão para isso. 

23 de mar de 2012

Celebremos a Festa do Senhor


Jesus Cristo Ressuscitado, por Carl Bloch
Está próximo de nós o Verbo de Deus, nosso Senhor Jesus Cristo, que se fez tudo por nós, e promete estar conosco para sempre. Ele o proclama com estas palavras: Eis que eu estarei convosco todos os dias, até ao fim do mundo (Mt 28,20). E porque quis fazer-se tudo para nós, ele é o nosso pastor, sumo sacerdote, caminho e porta; e é também a nossa festa e solenidade como diz o Apóstolo: O nosso cordeiro pascal, Cristo, já está imolado (1Cor 5,7). Cristo, esperança dos homens, veio ao nosso encontro, dando novo sentido às palavras do salmista: Vós sois a minha alegria; livrai-me daqueles que me cercam (cf. Sl 31,7). Esta é a verdadeira alegria, esta é a verdadeira solenidade: vermo-nos livres do mal. Para tanto, que cada um se esforce por viver em santidade e medite interiormente na paz e no temor de Deus.

Os santos, enquanto viviam neste mundo, estavam sempre alegres, como em contínua festa. Um deles, o bem-aventurado Davi, levantava-se de noite, não uma mas sete vezes, para atrair com suas preces a benevolência de Deus. Outro, o grande Moisés, exprimia a sua alegria entoando hinos e cânticos de louvor a Deus pela vitória alcançada sobre o Faraó e sobre todos os que tinham oprimido o povo hebreu. Outros ainda, dedicavam-se alegremente ao exercício contínuo do culto sagrado, como o grande Samuel e o bem-aventurado Elias. Todos eles, pelo mérito das suas obras, já alcançaram a liberdade e celebram no céu a festa eterna. Alegram-se com a lembrança da sua peregrinação terena, vivida entre as sombras do que havia de vir e, passado o tempo das figuras, contemplam agora a verdadeira realidade.

E nós, que nos preparamos para a grande solenidade, que caminho havemos de seguir? Ao aproximarem-se as festas pascais, a quem tomaremos por guia? Certamente nenhum outro, amados irmãos, senão aquele a quem chamamos nosso Senhor Jesus Cristo, e que disse: Eu sou o caminho (Jo 14,6). É ele, como diz São João, que tira o pecado do mundo (Jo 1,29); é ele que purifica nossas almas, como declara o profeta Jeremias: Parai um pouco na estrada para observar, e perguntai sobre os antigos caminhos, e qual será o melhor, para seguirdes por ele; assim ficareis mais tranqüilos em vossos corações (Jr 6,16).

Outrora, era com sangue de bodes e a cinza de novilhas que se aspergiam os que estavam impuros, mas só os corpos ficavam purificados. Agora, pela graça do Verbo de Deus, alcançamos a purificação total. Se seguirmos a Cristo, poderemos sentir-nos desde já nos átrios da Jerusalém celeste e saborear de antemão as primícias daquela festa eterna. Assim fizeram os Apóstolos, que foram e continuam a ser os mestres desta graça divina, porque seguiram o Salvador; diziam eles: Nós deixamos tudo e te seguimos (Mt 19,17). Sigamos também nós o Senhor; preparemo-nos para celebrar a festa do Senhor não apenas com palavras mas também com nossos atos.

-- Das Cartas Pascais de Santo Atanásio, bispo (século V)

22 de mar de 2012

A Vida de Moisés - as rebeliões do povo


Naquela divina mistagogia, Moisés havia passado em conversação com Deus um tempo não pequeno e, sob as trevas, havia participado daquela vida eterna durante quarenta dias com suas noites (Ex 24, 18), e aestado fora de sua própria natureza. Durante aquele tempo, com efeito, não necessitou de alimento para seu corpo. 

Então, como um menino que se encontra longe da vista de seu professor, o povo se deixou levar pela desordem de seus impulsos desenfreados e, reunindo-se em torno de Aarão, o forçaram a ele, que era o sacerdote, a que os conduzisse à idolatria (Ex 32, 1-9). Tendo feito um ídolo de ouro, o ídolo era um bezerro, se entregaram à impiedade. 
O Bezerro de Ouro, de Nicolas Poussin

Quando Moisés volta a eles, quebra as tábuas que traz em nome de Deus, para que eles, privados da graça que Deus lhes havia preparado, recebam um castigo digno de seu pecado (Ex 32, 19). Faz então com que seja expiado o sacrilégio diante dos levitas com o sangue do povo. 

Havendo aplacado a divindade com seu zelo contra os estrangeiros e tendo destruído o ídolo, depois de outro período de quarenta dias, traz novamente as tábuas, escritas pelo poder divino, porem cuja matéria havia sido preparada pelas mãos de Moisés (Ex 32, 25-29). Ele as traz, depois de haver saído outra vez dos limites da natureza pelo mesmo número de dias, levando um modo de vida diferente daquele que nos é conhecido, já que não dava a seu próprio corpo nada do que necessitava a natureza para sustentar-se por meio de alimento (Ex 34, 1-28).

Assim lhes construiu a tenda e lhes transmitiu as leis, estabelecendo o sacerdócio conforme o que lhe havia sido ensinado por Deus. Depois fez que se realizassem os trabalhos materiais conforme a instrução divina: a tenda, os vestíbulos, todas as coisas interiores, o altar de incenso, o altar dos holocaustos, o lampadário, os tapetes, as cortinas, o propiciatório no interior do santuário, os ornamentos sacerdotais, os perfumes, os diversos sacrifícios, as purificações, os ritos de ação de graças, de impetração contra os males, de expiação dos pecados; tendo ordenado todas estas coisas da maneira devida, suscita contra si a inveja de seus íntimos, essa enfermidade tão familiar à natureza dos homens. 

De fato, tanto Aarão, honrado com a dignidade do sacerdócio, como também sua irmã Maria, movida por uma inveja especificamente feminina contra a honra que Deus havia dado a ele, disseram coisas que moveram Deus a castigar este pecado. Nesta ocasião, Moisés se mostrou digno de admiração por sua mansidão, pois enquanto Deus queria castigar a ilógica inveja, ele antepunha a natureza à cólera e intercedia perante Deus por sua irmã (Nm 12, 1-13). 

A plebe se entregou novamente à desordem. O começo do pecado foi a desmedida nos prazeres do ventre. Não lhes bastava viver saudável e agradavelmente do alimento que lhes vinha de cima, mas o desejo de iguarias e a ânsia de comer carne os fizeram preferir a perpétua escravidão do Egito aos bens que já tinham. Moisés falou com Deus a respeito da paixão que se havia abatido sobre eles, e este, ao lhes conceder alcançar precisamente aquilo que desejavam, os ensinou que não era conveniente se comportar assim. 

De fato, de improviso fez cair no acampamento uma multidão de pássaros que voavam em grande número a rés do solo, com o que facilmente caçados saciou o desejo dos que ansiavam por carne fresca (Nm 11, 4-6 e 31-32). Para uma grande parte deles, o excesso de comida transformou o equilíbrio dos humores de seus corpos em vômitos corrompidos, e a saciedade se converteu em enfermidade e morte. Seu exemplo foi suficiente para levar a temperança a eles mesmos e aos que os assistiam (Nm 11, 33-34). 

Então Moisés enviou exploradores àquela região que, segundo a promessa divina, esperavam habitar. Como nem todos contaram a verdade, mas alguns deram notícias falsas e más, o povo se encheu de ira contra Moisés mais uma vez. Aqueles que desconfiaram da ajuda divina, Deus castigou não lhes deixando ver a terra que lhes havia prometido (Nm 13, 1-14, 38). 

Ao prosseguir sua marcha através do deserto, faltou novamente a água e, juntamente com ela, lhes faltou a lembrança do poder de Deus. Na verdade, o prodígio da rocha que já havia tido lugar, não lhes foi suficiente para crer que nada do necessário lhes faltaria agora, mas, afastando-se das mais saudáveis esperanças, propalaram ultrajes contra Deus e contra Moisés até o ponto em que mesmo Moisés pareceu se deixar levar pela desconfiança do povo. Não obstante, novamente realiza o milagre transformando em água aquela rocha bruta (Nm 20, 2-11). 

Mais uma vez, o prazer vulgar da comida despertou neles o desejo de fartar-se e, embora ainda não lhes faltasse nenhuma das coisas necessárias para a vida, sonharam com a saciedade do Egito. Os jovens rebeldes foram corrigidos com castigos mais severos, ao lhes inocular veneno as serpentes mordendo-os em um ataque mortal (Nm 21, 4-6). Posto que um após outro sucumbiam à serpente, o Legislador, movido pelo conselho divino, fez uma figura de serpente em bronze e mandou colocá-la no alto para que estivesse à vista de todo o acampamento. E assim deteve o dano que estes animais faziam ao povo, e pôs fim a sua destruição. Com efeito, quem olhava para a imagem da serpente feita de bronze não tinha porque temer nenhuma mordida da serpente verdadeira, porque o olhar debilitava o veneno com uma misteriosa resistência (Ex 21, 7-9).

21 de mar de 2012

A Vida de Moisés - A tenda da Palavra

Como se sua inteligência tivesse sido purificada com estes preceitos, Moisés avança a uma mistagogia ao lhe mostrar o poder divino, o conjunto de uma tenda de campanha. Esta tenda era um santuário cuja beleza era de uma variedade impossível de explicar: os vestíbulos, as colunas, os tapetes, a mesa, as lâmpadas, o altar dos perfumes, o altar dos holocaustos e o propiciatório; e, no interior do Santo, o impenetrável e inacessível. Para que a beleza e a disposição de todas estas coisas não fugissem de sua memória, e para que esta maravilha fosse mostrada também aos que estavam no pé do monte, ele recebe a ordem de não confiá-lo à simples escritura, mas de imitar em uma construção material aquela obra imaterial, utilizando nela os materiais mais preciosos e esplêndidos que se encontram sobre a terra.

Entre estes, o ouro, o mais abundante, revestia todo o perímetro das colunas; a prata era utilizada junto com o ouro paras adornar os capitéis e as bases das colunas com a finalidade – isto é o que penso – de que com a diferença de cor em cada lado, o ouro brilhasse mais ao ser contemplado. Havia também lugares em que se julgou útil o material de bronze para que servisse de capitel e de base para a parte de prata das colunas (Ex 25, 1-22). 

Os véus, os tapetes, os arredores do templo e o toldo estendido sobre as colunas, todas estas coisas estavam realizadas convenientemente, cada uma tecida com a sabedoria da arte do tecelão e feita da matéria apropriada. Algumas telas tinham a cor de jacinto e púrpura, o flamejar do rubro vermelhão, o esplendor do algodão em sua forma natural e sem artifício: outras eram feitas de linho, e outras de crinas, segundo o uso dos tecidos. Em alguns lugares haviam sido colocadas, para adorno das tendas, peles cuidadosamente tingidas de vermelho (Ex 26, 1 – 4). 

Após sua descida do monte, Moisés fez com que alguns artesãos construíssem estas coisas conforme o modelo da construção que lhe tinha sido mostrado. Também quando se encontrava naquele templo não feito por mão de homem, lhe foi prescrito com que ornamentos era necessário que o sacerdote estivesse ataviado ao entrar no santuário; a palavra lhe deu instruções no que concerne tanto à vestimenta interior como à exterior. 

As peças destes ornamentos começam pelo que é mais exterior, não pelo que está oculto. O peitoral era bordado de diversas cores, o mesmo para o véu, porem tinha ainda um fio de ouro com broches de ambos os lados que prendiam o peitoral e nos quais haviam esmeraldas engastadas em circulo por meio do ouro. A beleza destas pedras provinha do esplendor próprio de sua natureza – que reluzia com raios verde-mar que emanavam dela – e do prodígio da arte com que haviam sido talhadas. Não se tratava dessa arte que executa um talhado para reproduzir a imagem de alguns ídolos, mas a beleza provinha dos nomes dos patriarcas gravados nas pedras, seis em cada uma (Ex 28, 6-12). Haviam pendurado pequenos escudos na parte da frente; as correntes se desdobravam entrelaçadas entre si com certa alternância como um cordão, e desciam de cada lado desde cima, desde os broches, com o fim – assim penso – de que resplandecesse mais a beleza do trançado, realçado pelas coisas que se encontravam abaixo (Ex 28, 13-14). 

Depois aquele ornamento tecido de ouro era colocado diante do peito, no qual havia pedras de diversas classes em número igual ao dos patriarcas, ordenadas em quatro filas, com três pedras incrustadas em cada uma, que levavam escritos os nomes das tribos. A túnica que havia em baixo do peitoral descia do colo até as pontas dos pés, adornada nobremente com franjas pendentes. A borda inferior não só era trabalhada formosamente com variedade de tecido, como também com adornos de ouro. Estes consistiam em campainhas de ouro e romãs colocadas alternadamente ao longo da fímbria (Ex 28, 15-35). Logo a mitra da cabeça era toda violeta; a lâmina da frente, de ouro puro, gravada com um sinal inefável. E, alem disso, o cíngulo, que cingia as pregas da túnica, e a finura das vestes íntimas, e tudo o que por meio da beleza dos vestidos se ensinava simbolicamente sobre a virtude sacerdotal (Ex 28, 36-40). 

Moisés, depois de envolvido por aquelas trevas que o faziam invisível, foi instruído em relação a estas coisas e a outras parecidas por inefável ensinamento de Deus, chegando, pela aquisição de doutrinas secretas, a ser maior que ele mesmo; então sai novamente das trevas e desce até sua gente para fazê-los partícipes das maravilhas que lhe haviam sido mostradas na teofania, estabelecer as leis e instituir para o povo o templo e o sacerdócio conforme o modelo que lhe havia sido mostrado no monte. Levava também em suas mãos as tábuas sagradas, que eram iniciativa e presente divino, cuja fabricação não tivera ajuda humana, pois a matéria e o que havia escrito nelas eram igualmente obra de Deus. O que estava escrito era a Lei. Porem o povo resistiu à graça e se extraviou na idolatria antes que o Legislador voltasse (Ex 32, 15-16). 

20 de mar de 2012

A Vida de Moisés - Monte Sinai e os mandamentos


Neste tempo, Moisés foi para eles guia de uma iniciação mais misteriosa: foi propriamente a força divina que, por meio de prodígios que superam todos os discursos, iniciou no mistério todo o povo e seu guia. A iniciação no mistério realizou-se desta maneira: pediu-se ao povo que permanecesse livre de todas as manchas que podem ocorrer no corpo e na alma, e que se abstivesse de relações conjugais durante o número estabelecido de três dias, de forma que, purificados de toda disposição passional e corporal, se aproximassem da montanha, livres de paixões para serem iniciados. O nome desta montanha era Sinai. Só se permitia o acesso aos seres racionais, e só àqueles que estavam purificados de toda mancha. Havia completa vigilância e precaução para que nenhum dos seres irracionais subisse à montanha, e para que fosse apedrejado pelo povo todo ser irracional que desejasse vir à montanha (Ex 19, 1-15).

O espetáculo não só produzia espanto na alma através dos olhos, mas também infundia terror através dos ouvidos, pois um ruído estrondoso se difundia do alto para todos os que estavam abaixo. Sua primeira escuta já era penosa e insuportável para todo ouvido, pois parecia o troar das trombetas, porem superava toda comparação pela intensidade e pelo terrível ruído; ao aproximar-se tornava-se ainda mais espantoso a aumentar sempre seu ruído. Tratava-se de um ruído articulado: o ar, pelo poder divino articulava a palavra sem órgãos vocais. Esta palavra não era pronunciada sem substância, mas promulgava mandatos divinos. A palavra crescia em intensidade na medida em que alguém avançava, e a trombeta ultrapassava a si mesma, superando sempre os sons já emitidos com os que se seguiam (Ex 19, 19). Todo o povo era incapaz de suportar o que via e ouvia. Por esta razão apresentaram todos uma súplica a Moisés: que fosse mediador da lei, pois o povo não se negaria a crer que era mandato divino tudo o que ele lhes mandasse conforme a instrução recebida do alto. 

Havendo todos descido novamente ao pé da montanha, Moisés foi deixado só e mostrou em si mesmo o contrário do que poderia parecer natural. De fato, enquanto os demais suportam melhor as situações temíveis se estão todos juntos, este se fez mais animado quando se afastou dos que o acompanhavam, manifestando assim que o medo que experimentara no início não era próprio dele, mas que o havia padecido por padecer juntamente com aqueles que estavam assustados. Moisés, livre da covardia do povo como de uma carga, fica só consigo mesmo. É então que enfrenta as trevas e penetra dentro das realidades invisíveis, desaparecendo da vista dos que olhavam. 

Com efeito, havendo entrado no santuário do mistério divino, ali, sem ser visto, entra em contato com o invisível, penso que ensinando com isto que quem quiser se aproximar de Deus deve afastar-se de todo o visível e como quem está sobre um monte, levantando sua mente para o invisível e incompreensível, crer que a divindade está ali onde a inteligência não alcança. 

Chegando ali, recebe os mandamentos divinos (Ex 20, 1-17). Estes consistiam em um ensinamento sobre a virtude, cujo ponto principal é a piedade e ter uma concepção acertada sobre a natureza divina, isto é, que esta transcende todo o conceito e toda a representação, sem que possa ser comparada com nenhuma das coisas conhecidas. De fato, ele recebe a ordem de não considerar em sua reflexão sobre a Divindade nenhuma das coisas compreensíveis, e de não comparar a natureza que a tudo transcende a nenhuma das coisas conhecidas por meio de conceitos, mas apenas crer que existe e deixar sem investigar, como algo inacessível, como é, quão grande seja, onde está, qual é sua origem. A palavra divina acrescenta a isto as orientações que concernem aos costumes, finalizando seus ensinamentos com preceitos gerais e particulares.

É geral a lei que proíbe toda a injustiça quando diz que é necessário comportar-se em relação ao próximo com amor, pois, ao observá-la, resultará como conseqüência que ninguém causará nenhum mal a seu próximo. Entre as leis particulares, está prescrito o honrar os progenitores, e se encontra enumerado o catálogo das faltas condenadas (Ex 21-23). 

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

19 de mar de 2012

Guarda fiel e providente


São José com o menino Jesus
Guido Reni
É esta a regra geral de todas as graças especiais concedidas a qualquer criatura racional: quando a providência divina escolhe alguém para uma graça particular ou estado superior, também dá à pessoa assim escolhida todos os carismas necessários para o exercício de sua missão.

Isto verificou-se de forma eminente em São José, pai adotivo do Senhor Jesus Cristo e verdadeiro esposo da rainha do mundo e senhora dos anjos. Com efeito, ele foi escolhido pelo Pai eterno para ser o guarda fiel e providente dos seus maiores tesouros: o Filho de Deus e a Virgem Maria. E cumpriu com a máxima fidelidade sua missão. Eis por que o Senhor lhe disse: Servo bom e fiel! Vem participar da alegria do teu Senhor! (Mt 25,21).

Consideremos São José diante de toda a Igreja de Cristo: acaso não é ele o homem especialmente escolhido,por quem e sob cuja proteção se realizou a entrada de Cristo no mundo de modo digno e honesto? Se, portanto, toda a santa Igreja tem uma dívida para com a
Virgem Mãe, por ter recebido a Cristo por meio dela, assim também, depois dela, deve a São José uma singular graça e reverência.

Ele encerra o Antigo Testamento; nele a dignidade dos patriarcas e dos profetas obtém o fruto prometido. Mas ele foi o único que realmente possuiu aquilo que a bondade divina lhes tinha prometido.

E não duvidemos que a familiaridade, o respeito e a sublimíssima dignidade que Cristo lhe tributou, enquanto procedeu na terra como um filho para com seu pai, certamente também nada disso lhe negou no céu, mas antes, completou e aperfeiçoou.

Por isso, não é sem razão que o Senhor lhe declara: Vem participar da alegria do teu Senhor! Embora a alegria da felicidade eterna penetre no coração do homem, o Senhor preferiu dizer: Vem participar da alegria. Quis assim insinuar misteriosamente que a alegria não está só dentro dele, mas o envolve de todos os lados e o absorve e submerge como um abismo sem fim.

Lembrai-vos de nós, São José, e intercedei com vossas orações junto de vosso Filho adotivo; tornai-nos também propícia vossa Esposa, a santíssima Virgem, mãe daquele que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo pelos séculos sem fim. Amém.

Dos Sermões de São Bernardino de Sena, presbítero

16 de mar de 2012

Sirvamos a Cristo na pessoa dos pobres


Diz a Escritura: Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia (Mt 5,7). A misericórdia não é certamente a última das bem-aventuranças. Lemos também: Feliz de quem pensa no pobre e no fraco (Sl 40,2). E ainda: Feliz o homem caridoso e prestativo (Sl 111,5). E noutro lugar: O justo é generoso e dá esmola (Sl 36,26). Tornemo-nos dignos destas bênçãos, de sermos chamados misericordiosos e cheios de bondade.

Nem sequer a noite interrompa a tua prática da misericórdia. Não digas: “Vai e depois volta, amanhã te darei o que pedes”.Nada se deve interpor entre a tua resolução e o bem que vais fazer. Só a prática do bem não admite adiamento.

Reparte o teu pão com o faminto, acolhe em tua casa os pobres e peregrinos (Is 58,7), com alegria e presteza. Quem se dedica a obras de misericórdia, diz o Apóstolo, faça-o com alegria (Rm 12,8). Essa presteza e solicitude duplicarão a recompensa da tua dádiva. Mas o que é dado com tristeza e de má vontade não se torna agradável nem é digno.

Devemos alegrar-nos, e não entristecer-nos, quando prestamos algum benefício. Diz a Escritura: Se quebrares as cadeias injustas e desligares as amaras do jugo (Is 58,6), isto é, da avareza e das discriminações, das suspeitas e das murmurações, que acontecerá? A tua recompensa será grande e admirável! Então, brilhará tua luz como a aurora e tua saúde há de recuperar-se mais depressa (Is 58,8). E quem há que não deseje a luz e a saúde?

Por isso, se me julgais digno de alguma atenção, vós, servidores de Cristo, seus irmãos e co-herdeiros, em todas as ocasiões visitemos a Cristo, alimentemos a Cristo, tratemos as feridas de Cristo, vistamos a Cristo, acolhamos a Cristo, honremos a Cristo; não apenas oferecendo-lhe uma refeição, como fizeram alguns, não apenas ungindo-o com perfumes como Maria, não apenas dando-lhe o sepulcro como José de Arimatéia, não apenas dando o necessário para o sepultamento como Nicodemos que dava a Cristo só uma parte do seu amor, nem, finalmente, oferecendo ouro, incenso e mira, como fizeram os magos, antes de todos esses. O Senhor do universo quer a misericórdia e não o sacrifício, e a compaixão tem muito maior valor que milhares de cordeiros gordos. Ofereçamos a misericórdia e a compaixão na pessoa dos pobres que hoje na terra são humilhados, de modo que, ao deixarmos este mundo, eles nos recebam nas moradas eternas, juntamente com o próprio Cristo nosso Senhor, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Dos Sermões de São Gregório de Nazianzo, bispo (século VI)

15 de mar de 2012

A Vida de Moisés - Maná e a batalha contra Amalec

Junto com este prodígio observava-se outro. Todos os que haviam saído para a coleta eram evidentemente diferentes em idades e forças. Não obstante, não obtinha um mais e o outro menos conforme a diferença de forças existente entre eles, mas o que era recolhido era proporcional à necessidade de cada um, de forma que nem o mais forte conseguia mais, nem o mais fraco tinha menos do que a medida justa. 

Alem deste prodígio, a história narra outro: cada um recolhia para o dia e não guardava nada para depois, e se alguém, por economia, reservava algo do alimento do dia para o amanhã, o reservado se tornava inútil para a alimentação, pois se tornava infectado de bichos (Ex 16, 16 –24). 

Na história desse alimento deu-se também este outro prodígio. Uma vez que um dia da semana era celebrado com o descanso conforme uma disposição antiga, no dia anterior, embora caísse o mesmo alimento dos dias precedentes e o esforço de quem o recolhia fosse também o mesmo, resultava que a quantidade era o dobro da habitual, de forma que não tinham nenhum pretexto para não cumprir a lei do descanso. O poder divino se mostrou ainda mais plenamente nisto; enquanto as sobras se tornavam inúteis nos outros dias, só o armazenado no dia anterior ao Sábado, assim se chamava o dia de descanso, se mantinha sem corrupção, de modo que em nada parecia mais estragado em relação à véspera (Ex 16, 25- 30). 

Houve uma guerra deles contra um povo estrangeiro. A narração chama amalecitas aos que se uniram então contra eles. Foi naquela ocasião que os israelitas se organizaram pela primeira vez no sentido de batalha: não foram lançados à luta todos em um exército completo, mas foram selecionados por seu valor, e os escolhidos foram designados para a peleja. Nesta peleja Moisés mostrou uma nova forma de luta: enquanto Josué, que era quem guiava o povo depois de Moisés, comandava a batalha aos amalecitas, Moisés, fora da luta, a partir de uma colina, olhava para o céu enquanto, de um lado e de outro, o assistiam dois de seus familiares (Ex 17, 8-10). 

Sabemos pela história que, entre as coisas que então aconteceram, teve lugar este prodígio: Se Moisés mantinha as mãos elevadas ao céu, seu exército cobrava forças contra os inimigos: porem, se os abaixava, também o exército cedia ao assalto dos estrangeiros. Ao perceberem isto, os que assistiam a Moisés, colocando-se de um lado e de outro, sustentavam-lhe as mãos quando por alguma causa desconhecida elas se tornavam pesadas e difíceis de se mover. E como eles eram fracos para mantê-lo em posição ereta, escoraram sua posição com uma pedra, e conseguiram que Moisés mantivesse as mãos levantadas ao céu com este apoio. Feito isto, os estrangeiros foram dominados pelas forças dos israelitas (Ex 17, 11-13). 

A nuvem que guiava o caminhar do povo permanecia no mesmo lugar; era preciso que também não se movesse o povo, já que não havia guia para seu caminhar. Desta forma tinham abundância para viver sem esforço: acima o ar fazia chover sobre eles um pão preparado; e abaixo a pedra lhes proporcionava água; a nuvem aliviava os inconvenientes do ar livre, pois durante o dia se convertia em anteparo contra o calor do sol e durante a noite dissipava a escuridão iluminando com seu fogo. Por esta razão não lhes era penoso deter-se naquele deserto ao pé do monte em que se havia instalado o acampamento.

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

O sacrifício espiritual

Monges rezando - Magnasco
A oração é o sacrifício espiritual que aboliu os antigos sacrifícios. Que me importa a abundância de vossos sacrifícios? – diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros e de gordura de animais cevados; do sangue de touros, de cordeiros e de bodes, não me agrado. Quem vos pediu estas coisas? (Is 1,11).

O Evangelho nos ensina o que pede o Senhor: Está chegando a hora, diz ele, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. Deus é espírito (Jo 4,23.24), e por isso procura tais adoradores.

Nós somos verdadeiros adoradores e verdadeiros sacerdotes, quando, orando em espírito, oferecemos o sacrifício espiritual da oração, como oferenda digna e agradável a Deus, aquela que ele mesmo pediu e preparou.

Esta oferenda, apresentada de coração sincero, alimentada pela fé, preparada pela verdade, íntegra e inocente, casta e sem mancha, coroada pelo amor, é a que devemos levar ao altar de Deus, acompanhada pelo solene cortejo das boas obras, entre salmos e hinos; ela nos alcançará de Deus tudo o que pedimos.

Que poderia Deus negar à oração que procede do espírito e da verdade, se foi ele mesmo que assim exigiu? Todos nós lemos, ouvimos e acreditamos como são grandes os testemunhos da sua eficácia!

Nos tempos passados, a oração livrava do fogo, das feras e da fome; e no entanto ainda não havia recebido de Cristo toda a sua eficácia.

Quanto maior não será, portanto, a eficácia da oração cristã! Talvez não faça descer sobre as chamas o orvalho do Anjo, não feche a boca dos leões, não leve a refeição aos camponeses famintos, não impeça milagrosamente o sofrimento; mas vem em auxílio dos que suportam a dor com paciência, aumenta a graça aos que sofrem com fortaleza, para que vejam com os olhos da fé a recompensa do Senhor, reservada aos que sofrem pelo nome de Deus.

Outrora a oração fazia vir as pragas, derrotava os exércitos inimigos, impedia a chuva necessária. Agora, porém, a oração autêntica afasta a ira de Deus, vela pelo bem dos inimigos e roga pelos perseguidores. Será para admirar que faça cair do céu as águas, se conseguiu que de lá descessem as línguas de fogo? Só a oração vence a Deus. Mas Cristo não quis que ela servisse para fazer mal algum; quis antes que toda a eficácia que lhe deu fosse apenas para servir o bem.

Conseqüentemente, ela não tem outra finalidade senão tirar do caminho da morte as almas dos defuntos, robustecer os fracos, curar os enfermos, libertar os possessos, abrir as portas das prisões, romper os grilhões dos inocentes. Ela perdoa os pecados, afasta as tentações, faz cessar as perseguições, reconforta os de ânimo abatido, enche de alegria os generosos, conduz os peregrinos, acalma as tempestades, detém os ladrões, dá alimento aos pobres, ensina os ricos, levanta os que caíram, sustenta os que vacilam, confirma os que estão de pé.

Oram todos os anjos, ora toda criatura. Oram à sua maneira os animais domésticos e as feras, que dobramos joelhos. Saindo de seus estábulos ou de suas tocas, levantam os olhos para o céu e não abrem a boca em vão, fazendo vibrar o ar com seus gritos. Mesmo as aves quando levantam vôo, elevam-se para o céu e, em lugar de mãos, estendem as asas em forma de cruz, dizendo algo semelhante a uma prece.

Que dizer ainda a respeito da oração? O próprio Senhor também orou; a ele honra e poder pelos séculos dos séculos.

Do Tratado sobre a oração, de Tertuliano, presbítero

12 de mar de 2012

A vida de Moisés - Travessia do Mar Vermelho

Moisés olhava para a nuvem e ensinava o povo a seguir este fenômeno. Então chegaram ao mar Vermelho. Ali, enquanto a nuvem dirigia a marcha, as tropas dos egípcios cercaram completamente o povo por traz, sem lhe deixar possibilidade de escapar por nenhuma parte, encurralado entre seus terríveis inimigos e o mar. 

Foi então que Moisés, reconfortado com a força divina, fez o mais incrível de tudo. Tendo se aproximado da margem, golpeou o mar com seu bastão. O mar se fendeu com o golpe. E, como costuma acontecer com o vidro que começando a se rachar em uma parte a fenda chega diretamente até o outro extremo, assim, fendido todo aquele mar em uma extremidade pelo bastão, a fenda das ondas se estendeu até a margem oposta. Onde o mar se havia dividido, Moisés desceu até o fundo; junto com todo o povo, estava nas profundezas, com o corpo enxuto e iluminado pelo sol. No fundo seco do mar, atravessou a pé os abismos, sem temer aquela muralha de ondas que se haviam formado de um lado e de outro: uma fortificação reta, feita dos lados deles, da solidificação do mar (Ex 14, 19-22). 

Porem, quando o Faraó entrou com os egípcios no mar pelo caminho aberto recentemente entre as ondas, as águas se uniram novamente com as águas; o mar fechando-se sobre si mesmo segundo sua forma primitiva, mostrou a superfície da água novamente unida, enquanto os israelitas, na margem oposta, se refaziam do grande esforço de sua marcha através do mar. Então cantaram a Deus um canto de vitória por haver erguido para eles um troféu sem derramamento de sangue, posto que os egípcios haviam sido aniquilados sob as águas com todo seu exército, seus cavalos, seus carros e suas armas (Ex 14, 26-15, 21). 

Depois disto, Moisés continuou avançando e, após haver percorrido durante três dias um caminho sem água, encontrou-se em grandes dificuldades ao não ter como saciar a sede do exército. Havia uma lagoa de água salobra, mais amarga que a água do mar, ao redor da qual acamparam. Estavam ali sentados em torno da água, devorados pela ânsia de água. Moisés, impelido por uma inspiração divina, tendo encontrado um pedaço de pau naquele lugar, atirou-o na água que, imediatamente, se converteu em potável pela própria força daquele lenho, que transformou a natureza da água de salobra em doce (Ex 15, 22-25). 

Posto que a nuvem empreendesse novamente a marcha para adiante, eles se puseram também em marcha seguindo o movimento de seu guia. Faziam sempre o mesmo, parando onde a detenção da nuvem lhes dava o sinal de descanso, e empreendendo a marcha precisamente quando a nuvem recomeçava a guia- los. Seguindo este guia, chegaram a um lugar regado por água potável, banhado generosamente por doze fontes e que recebia a sombra de um bosque de palmeiras. As palmeiras eram setenta. Apesar de número tão pequeno, bastavam para produzir grande admiração a quem as olhava porque eram de excepcional beleza e altura (Ex 15, 27). 

Tendo o guia se posto novamente em movimento, isto é, a nuvem conduz o exército dali para outro lugar. Este era um deserto de areia seca que queimava, sem uma única gota de água que umedecesse aquele lugar. Aqui o povo foi atormentado novamente pela sede. Uma pedra situada a uma certa altura, golpeada com a vara por Moisés, deu água doce e potável mais que suficiente para a necessidade do exército (Ex 17, 1-6). 

Ali mesmo se acabou a provisão de alimentos que haviam trazido do Egito para o caminho. O povo foi acossado pela fome e teve lugar o milagre maior de todos: o alimento não lhes brotava da terra como seria natural, mas vinha gotejado de cima, do céu, em forma de orvalho. Pois ao amanhecer do dia caía para eles um orvalho. Este orvalho se convertia em alimento para os que o recolhiam. O que caía não eram gotas líquidas de água, como ocorre normalmente com o orvalho, mas em lugar de gotas de água caíam grãos parecidos com gelo; sua forma era redonda como semente de coentro, e seu sabor parecia a doçura do mel (Ex 16, 14).

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

10 de mar de 2012

Família e imigração ilegal

Vamos então para um dos raros textos pessoais que publico aqui. Para quem não sabe, moro no estado de Nova  Iorque (EUA) há pouco mais de três anos. Igreja Católica, pelo menos nesta região, significa um grande número de hispânicos e, em menor número, brasileiros. Os hispânicos vêm de diferentes países, principalmente México, República Dominicana e Porto Rico. Mas há originários de toda América Central e do Sul. No geral, países bem mais pobres que os EUA, com sérios problemas de desemprego e violência.

Santa Francesca Cabrini, uma imigrante que
teve dificuldades para obter o visto de
entrada nos EUA.
Aqui tenho participado de vários encontros, diversas paróquias, em que as pessoas colocam um pouco da sua experiência frente aos acontecimentos da vida. E neste fim de semana soube de mais uma história um tanto trágica envolvendo imigrantes e ilegalidade. Um casal com quatro filhos morava numa vila da América Central, numa daquelas localidades onde há apenas duas ou três famílias e todos são meio que aparentados. Decidiram então vir para os EUA. O casal veio com o filho de 15 anos e o bebê de ano e meio. Deixaram duas meninas morando na casa e sob cuidados da parentela/vizinhança. Infelizmente, as meninas viraram moças, atraíram a atenção de alguns homens que invadiram a casa, violentaram-nas e mataram-nas. Os parentes só perceberam dois dias após.

Esta é a história trágica desta família, mas ela reflete uma realidade comum: apenas uma parte da família vem para os EUA com o objetivo de organizar a vida e, depois, os demais virem. Por exemplo, o marido vem na frente para ir trabalhando e ganhando dinheiro. A esposa permance no país de origem. Separados milhares de quilômetros, a carência afetiva e falta de companheirismo tornam o casal presa fácil do adultério. Com a distância, haja santidade. E a família assim se desfaz.

Outro arranjo é deixarem os filhos com parentes, enquanto os pais migram para os EUA. Por melhores que sejam os avós, tios ou amigos, estes filhos sentem-se abandonados e traídos pelos pais. Se os pais adotivos tem outros filhos, há muitas queixas de tratamento diferenciado. E na falta dos pais, a gang do bairro, a turma do bar ou qualquer outro que se interesse por eles pode levá-los a uma vida dificil. E como podem imaginar, se impor limites aos próprios filhos já é dificil, em geral não há energia para educar estes abandonados. Mesmo quando a família é reunida novamente, com todos vindo para os EUA, os sentimentos, culpas e distanciamento deixam suas marcas permanentes.

Até aqui, não me referi ainda a situação legal. Porto-riquenhos, por exemplo, não necessitam de vistos para viajar e trabalhar nos EUA e estes desajustes familiares também ocorrem entre eles. Mas se a migração for ilegal, as circunstâncias podem tornar tudo ainda pior.

Entrar pelo México, guiado por membros de gangues e caminhando pelo deserto esta cada vez mais perigoso. As gangues perceberam que podem usar as jovens como prostitutas e os moços como soldados na sua guerra. E, na hipótese de tudo dar certo, o transporte custa entre 10 a 15 mil doláres por pessoa. Se as patrulhas americanas prenderem a pessoa, ela pode passar meses na prisão até os arranjos diplomáticos para a deportação serem completados. Se tudo der certo, o imigrante passará a viver uma vida sob constante perigo, medo da polícia e demais autoridades.

Um problema é que como ilegal, fica mais difícil inclusive sair dos EUA. Visitar parentes no país de origem é arriscadíssimo, pois há que passar novamente a fronteira de alguma forma. Então, não basta pagar a passagem de avião. A viagem passa a ser totalmente incerta e muito mais cara. O que fazer então numa emergência, como falecimento de um filho, pai ou mãe? Arriscar tudo e ir ao enterro? Ou permanecer por aqui, sem a devida despedida? E se o pai muito adoentado pede para o filho ir visitá-lo pela última vez? Não ir e guardar uam culpa para  o restante da vida? E de novo entra a questão da família, por que ir apenas um, digamos o pai, e os filhos ficarem é perigoso por que há uma séria possibilidade de não retornar, pelo menos com brevidade.

Coloco tudo isto porque destas dúvidas aproveita-se o demônio para realmente destruir as pessoas, terminar com casamentos, fazer as pessoas caregarem culpas que influenciam a sua vida e dos filhos, como diz a Bíblia, por sete gerações. 

Primeiro, afirmo que a família deve permanecer unida e reunida. Planejar uma separação de meses é como um suicídio matrimonial, abrir portas para tentações variadas e arriscar demais. O casal deve, dentro do possível, viajar juntos, e óbvio, com todos os filhos. Quanto a isto não importa se a situação é legal ou não.

Já viver como clandestino não me parece cristão pois há a constante necessidade de mentir ou omitir. Além disso, a obrigação do visto não é uma lei que atenta contra a vida ou família, que por consciência o cristão não deva obedecer. Dar dinheiro para gangues ajudarem na travessia da fronteira é também alimentar vícios de muitos, dos membros das gangues e outros para quem eles venderão drogas e armas. Tambem é arriscar, frente aos fatos inesperados da vida, não cumprir o dever cristão de, por exemplo, estar ao lado de pais doentes. Portanto, a ilegalidade pode ser motivo de muitos pecados, devendo ser evitada. Se a pessoa não pode ou deseja continuar vivendo em uma cidade, Deus criou um mundo bastante grande, cheio de alternativas interessantes.

E quanto aos casal lá do início, cujas filhas foram mortas este mês, a situação é ainda mais complicada por que a mãe está presa aguardando ser extradida; e o pai tem que permanecer nos EUA pois entrou com pedido de asilo para toda família. Rezemos por eles e pelos advogados da Arquidiocese que estão tentando uma solução razoável.  


9 de mar de 2012

A Vida de Moisés - As pragas e a fuga do Egito

A Morte dos Primogênitos, por Bernardino Luini.
Com efeito, quem estava livre de culpa permanecia incólume, enquanto que com a mesma força, ao mesmo tempo e no mesmo lugar, era castigado o culpado. Ao comando de Moisés todo tipo de água se converteu em sangue para o Egito, ao ponto de que também os peixes morressem por causa da densidade carnosa em que se havia transformado a água; o sangue, por outro lado, voltava a se converter em água para os hebreus, quando a tomavam. Aqui os magos reaparecem para simular, na água que tinham os hebreus, a aparência de sangue (Ex 7, 20-22). 

Sucedeu o mesmo com as rãs que invadiram o Egito: sua aparição até uma proliferação de tal magnitude não pode ser avaliada como uma conseqüência da natureza, mas que o comando dado à espécie das rãs modificou a natureza conhecida destes animais. Todo o Egito foi atormentado por estes animais que invadiram inclusive as casas, enquanto a vida dos hebreus se mantinha limpa dessas coisas repugnantes (Ex 7, 25-29). 

Da mesma forma, a atmosfera não permitia aos egípcios nenhuma distinção entre a noite e o dia; permaneciam em um obscuridade uniforme, enquanto para os hebreus, nas mesmas circunstâncias, nada havia mudado em relação ao habitual. E do mesmo modo com relação a todas as demais coisas: o granizo, o fogo, os mosquitos, as pústulas, as moscas, a nuvem de gafanhotos. Cada uma, segundo sua própria natureza, feriu os egípcios; os hebreus, ao contrário, sabiam do sofrimento de seus vizinhos por rumores e relatos, pois não experimentaram em si mesmos o ataque dessas calamidades. 

Depois, a morte dos primogênitos fez mais clara a diferença entre o povo hebreu e o egípcio: uns se desfaziam em lamentações pela perda dos seres mais queridos (Ex 12, 29); os outros permaneciam em total tranqüilidade e segurança, porque tinham a salvação confirmada pela aspersão do sangue e por haverem marcado as portas com sangue, como senha, em cada um dos lados das ombreiras e no montante que as unia (Ex 10, 21-23).

 Depois disso, enquanto os egípcios estavam abatidos pelo desastre dos primogênitos e choravam sua desgraça, solitários ou todos juntos, Moisés começou a dirigir o êxodo dos israelitas, após haver advertido que levassem consigo, como empréstimo, a riqueza dos egípcios. Quando já se passavam três dias de caminho fora do Egito – conta-nos a história – pareceu insuportável ao Egípcio que Israel não permanecesse na escravidão e, havendo mobilizado todos os seus súditos para a guerra, correu atrás do povo com sua cavalaria. Este, quando viu o arrancar da cavalaria e da infantaria, sendo inexperiente nas artes da guerra e estando pouco acostumado a estes espetáculos, deixou-se levar imediatamente pelo medo e rebelou-se contra Moisés. 

A história conta também este feito paradoxal de Moisés: que sua atividade foi dupla. Com efeito, com a voz e a palavra dava ânimo aos israelitas e os exortava a ter boas esperanças, e ao mesmo tempo apresentava a Deus suas súplicas em seu coração em favor daqueles que se encontravam em tal apuro, e era instruído por meio do conselho divino sobre como poderia fugir de tal perigo (Ex 12, 31-14, 5). 

Pois Deus mesmo, como conta a história, escutava sua voz silenciosa. Uma nuvem guiava o povo por virtude divina, não por sua própria natureza. Sua substância, com efeito, não era formada por alguns vapores ou exalações como resultado de que o ar se houvesse feito mais denso por causa de substância úmida e de sua compressão pelos ventos, mas era algo muito maior e que excedia a compreensão humana. Como atesta a Escritura, aquela nuvem era um prodígio tal que, quando os raios do sol brilhavam abrasadores, se convertia em uma proteção para o povo, fazendo sombra para os que estavam em baixo e umedecendo o calor excessivo do ar com uma água fina; durante a noite se transformava em fogo, iluminando os israelitas com o resplendor de sua própria luz desde o entardecer até o nascimento do dia (Ex 13, 21-23).

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

8 de mar de 2012

A vida de Moisés - A sarça ardente e o início da missão no Egito


Moisés e a Sarça Ardente, de A. Friberg

Ele escolheu conduzir nos montes uma vida solitária, afastada do tumulto das praças e dedicada a guardar os rebanhos no deserto. A história nos conta (Ex 3, 1-6) que, passado algum tempo nesta vida, Moisés recebeu uma surpreendente aparição de Deus: em um tranqüilo meio dia, reluziu ante seus olhos uma luz mais forte que a luz do sol; estranhando o inusitado do espetáculo, levantou os olhos para o monte e viu um arbusto do qual saia um resplendor como de fogo. Como os ramos da planta estavam verdes como se as chamas fossem orvalho, disse a si mesmo estas palavras: vamos e vejamos este grande espetáculo. 

Isto nos diz que o prodígio da luz não somente se mostrou a seus olhos mas, o que é mais impressionante de tudo, seus ouvidos foram iluminados com os resplendores da luz. Com efeito, a graça da luz foi distribuída a ambos os sentidos: os olhos foram iluminados com os resplendores da luz, e os ouvidos foram levados à luz com instruções puríssimas. Isto é, a voz que saía daquela luz proibiu Moisés de aproximar-se do monte com calçados feitos de peles mortas; quando ele livrou seus pés dos calçados, tocou assim aquela terra que estava iluminada com a luz divina. 

Depois dessas coisas, não julgo oportuno que o discurso se entretenha muito na história deste homem, para ater-nos mais a nosso propósito, fortalecido com a teofania que vira, recebeu a missão de livrar o seu povo da escravidão dos egípcios. E para que melhor se convencesse da força que recebia do alto, ele, por disposição de Deus, faz a experiência com o que tem nas mãos. Esta foi a experiência: o bastão que sua mão deixou cair se animou, e quando foi retomado por suas mãos, voltou a ser o que era antes de transformar-se em animal. Depois o aspecto de sua mão quando a tira do seio se transforma em um branco como de neve, e re-introduzida ao seio recobra seu aspecto natural (Ex 4, 2-7). 

Quando Moisés descia do Egito levando consigo sua esposa, que era estrangeira, e os filhos que tinha tido com ela, conta-se que um anjo saiu-lhe ao encontro causando-lhe um medo de morte, e que a mulher o aplacou com o sangue da circuncisão do menino. Foi então que ocorreu o encontro com Aarão que fora impelido por Deus para este encontro (Ex 4, 24-28). Ambos convocam então o povo para uma assembléia geral e anunciam aos que estavam oprimidos pelo padecimento dos trabalhos, a libertação da escravidão. 

Sobre este tema ele teve uma conversa com o tirano. Por causa dessas coisas, aumentou a cólera do tirano contra os que dirigiam os trabalhos e contra os israelitas: aumentou então o tributo de ladrilhos, e enviou uma ordem mais pesada, de forma que os israelitas não só padeciam pelo barro, mas também eram sobrecarregados por causa da palha e das canas (Ex 5, 1-23). 

Depois o Faraó, este era o nome do tirano egípcio, tentou fazer frente, com os encantamentos dos feiticeiros, aos prodígios que eles faziam pela vontade de Deus. Quando Moisés tornou a converter seu bastão em animal ante os olhos dos egípcios, a magia pareceu realizar o mesmo prodígio nos bastões dos magos. Porem o engano foi desmascarado, pois a serpente surgida da transformação do bastão de Moisés, ao comer os troncos dos magos, isto é, as serpentes, demonstrou assim que os bastões dos magos não tinham nenhuma força para se defender e nem para viver, mas apenas a aparência de um truque mágico para verem os olhos daqueles que eram fáceis de enganar (Ex 7, 8-12). 

Quando Moisés viu que todos os súditos estavam de acordo com o príncipe da maldade, fez vir uma praga geral sobre todo o povo egípcio, sem que ninguém escapasse da experiência dos males. E para infligir este castigo aos egípcios, cooperaram com ele os mesmos elementos que vemos no universo: a terra, a água, o ar, o fogo, que trocaram suas forças conforme a vontade dos homens.

-- Do texto A Vida de Moisés, de São Gregório de Nissa (século IV)

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