27 de fev de 2015

Pergolesi - Misericórdia, misericórdia meu senhor.

O Salmo 50(51), chamado Misericórdia, é um dos grandes salmos penitenciais da Bíblia e faz parte da liturgia nas sextas-feiras, especialmente neste tempo de Quaresma. De acordo com a Bíblia, é o salmo que o Rei Davi cantou quando o profeta Natã revelou que ele havia cometido adultério com Betsabá e providenciado a morte de seu marido Urias. O salmo expressa o arrependimento de Davi quando entende a magnitude do seu pecado.

Vários artistas compuseram músicas baseadas no Salmo. Abaixo temos Pergolesi, compositor italiano de vida brevíssima (1710-1736).


25 de fev de 2015

Muitas são as minhas faltas, maior é a Tua misericórdia

Muitas são as minhas faltas e inumeráveis,
Contudo, não tão espantosas como a Tua misericórdia!
Múltiplos são os meus pecados,
Mas sempre pequenos, comparados com o Teu perdão.
Que efeito poderá ter um pouco de trevas
Sobre a Tua luz divina?
Como pode uma pequena obscuridade rivalizar
Com os Teus raios, Tu que és grande!
Como pode a concupiscência do meu corpo frágil
Ser comparada com a Paixão da Tua cruz?
O que parecerão aos olhos da Tua bondade, ó Todo-Poderoso,
Os pecados de todo o universo?
Eis que eles são como bolha de água
Que, pela queda da Tua chuva abundante,
Desaparece imediatamente.
És Tu que dás o sol aos maus e aos bons,
E fazes chover para todos indistintamente.
Para uns a paz é grande por causa da espera da recompensa;
Mas àqueles que preferiram a terra,
Tu perdoas por misericórdia:
Dás-lhes um remédio de vida como aos primeiros;
E esperas sempre o seu regresso a Ti...

-- 
Das Orações de São Gregório de Narek (séc. XI), monge; recém declarado doutor da Igreja.

22 de fev de 2015

Stabat Mater Dolorosa - Em pé, em frente a Cruz, a Mãe chorava

Stabat Mater Dolorosa é um hino do século XIII em honra ao sofrimento de Maria ao ver seu Filho morrendo pregado na Cruz. Seu autor não é claro, sendo atribuído a, preferencialmente ao Franciscano Jacopone da Todi ou ao Papa Inocêncio III, mas também há fontes citando São Bernardo de Claraval ou os Papas Gregório X e XI. Ao longo dos séculos recebeu diversas composições musicais sendo as mais conhecidasas de Palestrina, Pergolesi, Scarlatti, Vivaldi, Haydn, Rossini e Dvořák.

O título do hino é parte da primeira linha, Stabat Mater Dolorosa, que significa "A mãe permaneceu cheia de tristeza". Já era bem conhecido já no final do século XIV e Georgius Stella escreveu sobre a sua utilização em 1388, com outros autores corroborando a afirmação mais para o final do século. 

Como sequência litúrgica, foi suprimido, juntamente com centenas de outros, pelo Concílio de Trento, mas retornou ao missal por ordem do papa Bento XIII, em 1727, na festa de Nossa Senhora das Dores e como oração opcional na Sexta-Feira Santa. Como música, é perfeitamente adequada para todo período quaresmal. 

De pé, a mãe dolorosa
junto da cruz, lacrimosa,
via o filho que pendia.
Na sua alma agoniada
enterrou-se a dura espada
de uma antiga profecia
Oh! Quão triste e quão aflita
entre todas, Mãe bendita,
que só tinha aquele Filho.
Quanta angústia não sentia,
Mãe piedosa quando via
as penas do Filho seu!
Quem não chora vendo isso:
contemplando a Mãe de Cristo
num suplício tão enorme?
Quem haverá que resista
se a Mãe assim se contrista
padecendo com seu Filho?
Por culpa de sua gente
Vira Jesus inocente
Ao flagelo submetido:
Vê agora o seu amado
pelo Pai abandonado,
entregando seu espírito.
Faze, ó Mãe, fonte de amor
que eu sinta o espinho da dor
para contigo chorar:
Faze arder meu coração
do Cristo Deus na paixão
para que o possa agradar.
Ó Santa Mãe dá-me isto,
trazer as chagas de Cristo
gravadas no coração:
Do teu filho que por mim
entrega-se a morte assim,
divide as penas comigo.
Oh! Dá-me enquanto viver
com Cristo compadecer
chorando sempre contigo.
Junto à cruz eu quero estar
quero o meu pranto juntar
Às lágrimas que derramas.
Virgem, que às virgens aclara,
não sejas comigo avara
dá-me contigo chorar.
Traga em mim do Cristo a morte,
da Paixão seja consorte,
suas chagas celebrando.
Por elas seja eu rasgado,
pela cruz inebriado,
pelo sangue de teu Filho!
No Julgamento consegue
que às chamas não seja entregue
quem por ti é defendido.
Quando do mundo eu partir
dai-me ó Cristo conseguir,
por vossa Mãe a vitória.
Quando meu corpo morrer
possa a alma merecer
do Reino Celeste, a glória. Amém.
-- Tradução do hino disponível na Wikipedia

20 de fev de 2015

1º Domingo da Quaresma - 22/02/2015

 Mc 1,12-15
Naquele tempo, 12o Espírito levou Jesus para o deserto. 13E ele ficou no deserto durante quarenta dias, e aí foi tentado por Satanás. Vivia entre animais selvagens, e os anjos o serviam.
14Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”
Comentário:
Marcos coloca o retiro e as tentações de Jesus no deserto imediatamente após o Batismo indicando que é fundamental na missão de Cristo combater o mal, que Ele vence porque é a palavra de Deus que o guia (Dt 8,3), não é vencido como ocorreu com seus antepassados no deserto (Sl 90, 11-12). Assim a vida de Jesus já é marcada, desde o início da pregação, pela vitória apoiado em Deus.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Deuteronomio 8, 1-6 
  • 1 Reis 8, 22-29
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 91 (90), 10-16
  • Salmos 92 (91), 10-16
  • Isaias 11, 1-11
Evangelhos
  • Mateus 4, 1-11
  • Lucas 4, 1-13
Cartas
  • Romanos 10, 1-13
  • 2 Coríntios 3, 12-18
  • Galatas 4, 1-11

14 de fev de 2015

6º Domingo do Tempo Comum - Domingo 15/02/2015

Mc 1,40-45
Naquele tempo, 40um leproso chegou perto de Jesus e, de joelhos, pediu: “Se queres, tens o poder de curar-me”.
41Jesus, cheio de compaixão, estendeu a mão, tocou nele e disse: “Eu quero: fica curado!”.
42No mesmo instante a lepra desapareceu e ele ficou curado.
43Então Jesus o mandou logo embora, 44falando com firmeza: “Não contes nada disso a ninguém! Vai, mostra-te ao sacerdote e oferece, pela tua purificação, o que Moisés ordenou, como prova para eles!”
45Ele foi e começou a contar e a divulgar muito o fato. Por isso Jesus não podia mais entrar publicamente numa cidade; ficava fora, em lugares desertos. E de toda parte vinham procurá-lo.
Comentário:
A missão de Jesus está resumida neste versículo 41: Jesus teve compaixão da humanidade, fez-se homem para tocar a nós, homens, e nos curar dos pecados. Tocar um leproso era proibido, pois poderia haver contágio, neste sentido Jesus cumpre a profecia de isaias, seu aspecto é como o de um leproso (Is 53, 3-12) por que nos trouxe a salvação, como um leproso que vive fora da cidade. Na sequência, vemos que missão de Jesus terá controvérsias, pois já não há mais a necessidade de realizar sacríficios de purificação, Jesus é o sacrifício perpétuo, basta apresentar-se ao sacerdote que o declarará puro, mudando as práticas estabelecidas na Lei (Lv 13, 1-2.44-46).
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Levítico 13, 1-2.41-46
  • Números 12, 10-15
  • 2 Crônicas 26, 19-23
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 31
  • Isaias 53, 3-12
Evangelhos
  • Mateus 8,2-4
  • Lucas 5,12-16

10 de fev de 2015

Salmo 84: A nossa salvação está próxima

O Salmo 84, que agora proclamamos, é um cântico jubiloso e repleto de esperança no futuro da salvação. Ele reflete o momento exaltante da volta de Israel do exílio na Babilónia para a terra dos antepassados. A vida nacional recomeça naquele querido lar, que tinha sido apagado e destruído pela conquista de Jerusalém por parte do exército do rei Nabucodonosor, em 586 a.C.

De fato, no original hebraico do Salmo  ouve-se  ressoar  repetidamente  o verbo shûb, que indica a vinda dos deportados, mas significa também "vinda" espiritual, isto é, "conversão". Por conseguinte, o renascimento não se refere apenas à nação, mas também às comunidades  dos  fiéis,  que  tinham  vivido o exílio como uma punição dos pecados cometidos e que viam agora a repatriação  e  a  nova  liberdade  como uma bênção divina, em virtude da conversão alcançada.

O Salmo pode ser acompanhado no seu desenvolvimento, segundo duas etapas fundamentais. A primeira, marcada pelo tema da "vinda", com todos os valores que mencionámos.

Celebra-se antes de tudo a vinda física de Israel: "Senhor... Vós sois quem restaurais a parte de Jacó" (v. 2); "Restaurai-nos, ó Deus, nossa salvação... Será que já não nos restituirás a vida...?" (vv. 5.7). Este é um precioso dom de Deus, que se preocupa em libertar os seus filhos da opressão e se empenha na sua prosperidade. Com efeito, Ele "ama tudo o que existe... perdoa a todos, porque todos são dele, o Senhor que ama a vida" (cf. Sb 11, 24.26).

Mas, paralelamente a esta "vinda", que na prática unifica os dispersos, há outra "vinda", mais interior e espiritual. O Salmista reserva-lhe um amplo espaço, atribuindo-lhe um relevo particular, que é válido não só para o antigo Israel mas para os fiéis de todos os tempos.

Nesta "vinda" o Senhor age eficazmente, revelando o seu amor ao perdoar a iniquidade do seu povo, ao eliminar todos os seus pecados, ao abandonar todo o seu desdém e ao pôr fim à sua ira (cf. Sl 84, 3-4).

Precisamente a libertação do mal, o perdão das culpas e a purificação dos pecados criam um novo povo de Deus. Isto é expresso através de uma invocação, que também entrou na liturgia cristã:  "Concedei, Senhor, que vejamos os vossos favores; seja-nos oferecida a vossa salvação" (v. 8). Mas a esta "vinda" de Deus que perdoa deve corresponder a outra "vinda", isto é, a conversão do homem que se arrepende. De fato, o Salmo declara que a paz e a salvação são oferecidas a quem "já não voltará ao desvio" (cf. v. 9). Quem percorre com decisão os caminhos da santidade recebe os dons da alegria, da liberdade e da paz.


Sabemos que, com frequência, as palavras bíblicas que se referem ao pecado recordam um enganar-se no caminho, um falhar a meta, um desviar-se da via reta. A conversão é, precisamente, um "voltar" para o caminho linear, que leva para a casa do Pai, que nos espera para nos abraçar, perdoar e nos fazer felizes (cf. Lc 15, 11-32).

Assim, chegamos à segunda parte do Salmo (cf. Sl 84, 10-14), tão querida à tradição cristã. Nela é descrito um mundo novo, em que o amor de Deus e a sua fidelidade, como se fossem pessoas, se abraçam; de modo semelhante, também a justiça e a paz se beijam, quando  se  encontram. A verdade germina  como  numa  renovada  primavera; e a justiça, que para a Bíblia é também salvação e santidade, desce do céu para começar o seu caminho no meio da humanidade.

Todas as virtudes, primeiro expulsas da terra devido ao pecado, entram agora de novo na história e, cruzando-se, desenham o mapa de um mundo pacífico. Misericórdia, verdade, justiça e paz tornam-se como que os quatro pontos cardeais desta geografia do espírito. Também Isaías canta:  "Destilai, ó céus, lá das alturas, o orvalho, e as nuvens façam chover a vitória; abra-se a terra e produza o fruto da salvação; ao mesmo tempo faça germinar a justiça! Eu sou o Senhor, que crio tudo isto" (45, 8).

As palavras do Salmista, já no segundo século com Santo Ireneu de Lião, foram interpretadas como anúncio da "geração de Cristo por parte da Virgem" (Adversus haereses, III, 5, 1). Com efeito, a vinda de Cristo é a fonte da misericórdia, o desabrochar da verdade, o florescer da justiça e o esplendor da paz.

Por isso o Salmo, sobretudo na sua parte final, é lido de novo em chave natalícia pela tradição cristã. Eis como o interpreta Santo Agostinho, num dos seus discursos para o Natal. Deixemos que seja ele a concluir a nossa reflexão. "A verdade surgiu da terra":  Cristo, que disse:  "Eu sou a verdade" (Jo 14, 6) nasceu da Virgem. "E a justiça aproximou-se do céu":  quem crê n'Aquele que nasceu, não se justifica sozinho, mas é justificado por Deus. "A verdade surgiu da terra":  porque "o Verbo se fez homem" (Jo 1, 14). "E a justiça aproximou-se  do  céu";  porque  "qualquer graça excelente e qualquer dom perfeito provêm do alto" (Tg 1, 17). "A verdade surgiu da terra", isto é, tomou um corpo de Maria. "E a justiça aproximou-se do céu"; porque "o homem nada pode receber se não lhe for concedida pelo céu" (Jo 3, 27) 

-- São João Paulo II, na audiência de 25 de Setembro de 2002

8 de fev de 2015

Livro Segundo Exortações à vida interior - Capítulo 1 - Da vida interior


  1. O reino de deus está dentro de vós, diz o Senhor (Lc 17,21). Converte-te a Deus de todo o coração, deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te às interiores, e verás chegar a ti o reino de Deus. Pois o reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito Santo (Rom 14, 17), que não se dá aos ímpios. Virá a ti Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu interior digna moradia. Toda a sua glória e formosura está no interior (Sl 44,14), e só aí o Senhor se compraz. A miúdo visita ele o homem interior em doce entretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade sobremaneira admirável
  2. Eia, alma fiel, para este Esposo prepara teu coração, a fim de que se digne vir e morar em ti.
    Pois assim ele diz: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23). Dá, pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta. Se possuíres a Cristo, estarás rico e satisfeito. Ele mesmo será teu provedor e fiel procurador em tudo, de modo que não hajas mister de esperar nos homens. Porque os homens são volúveis e faltam com facilidade à confiança, mas Cristo permanece eternamente (Jo 12,34), e firme nos acompanha até ao fim.
  3. Não se há de ter grande confiança no homem frágil e mortal, por mais que nos seja caro e útil; nem nos devemos afligir com excessos, porque, de vez em quando, nos contraria com palavras ou obras. Os que hoje estão contigo amanhã talvez sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam como o vento. Põe toda a tua confiança em Deus, e seja ele o teu temor e amor; ele responderá por ti, e fará do melhor modo o que convier. Não tens aqui morada permanente (Hbr 13,14), e onde quer que estejas, és estranho e peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres intimamente unido a Jesus.
  4. Para que olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu repouso? No céu deve ser a tua habitação, e como de passagem hás de olhar todas as coisas da terra. Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma cuidado para não te apegares a elas, a fim de que não te escravizem e percam. Ao Altíssimo eleva sempre teus pensamentos, e a Cristo dirige súplica incessante. Se não sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa na paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas chagas. Pois, se te acolheres devotamente às chagas e preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto em tuas mágoas, não farás mais caso do desprezo dos homens e facilmente sofrerás as suas detrações.
  5. Cristo também foi, neste mundo, desprezado dos homens, e em suma necessidade, entre os opróbrios, o desampararam seus conhecidos e amigos. Cristo quis padecer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo teve adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por amigos e benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência, se não encontrares alguma adversidade? Se não queres sofrer alguma contrariedade, como serás amigo de Cristo? Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo queres reinar.
  6. Se uma só vez entraras perfeitamente no Coração de Jesus e gozaras um pouco de seu ardente amor, não farias caso do teu proveito ou dano, ao contrário, te alegrarias com os mesmos opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da verdade, e o homem deveras espiritual e livre de afeições desordenadas, pode facilmente recolher-se em Deus, e, elevando-se em espírito, acima de si mesmo, fruir delicioso descanso.
  7. Aquele que avalia as coisas pelo que são, e não pelo juízo e estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio, ensinado mais por Deus que pelos homens. Quem sabe andar recolhido dentro de si, e ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade. O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa com as façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e distrai, quanto se mete nas coisas exteriores.
  8. Se foras reto e puro, tudo te correria bem e se voltaria em teu proveito. Mas, porque ainda não estás de todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas terrenas, por isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações. Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor desordenado às criaturas. Se renunciares às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu e gozar a miúdo da alegria interior.

6 de fev de 2015

5º Domingo do Tempo Comum - Domingo 08/02/2015

Mc 1,29-39
Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André.
30A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus.
31E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
32À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33A cidade inteira se reuniu em frente da casa.
34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era.
35De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto.
36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”.
38Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”.
39E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
Comentário:
Este evangelho é composto por três pequenas histórias: as duas primeiras apresentam Jesus como libertador dos males físicos e espirituais; a terceira fala da missão de Jesus e os apóstolos. Cristo não veio apenas em sentido material, mas também em sentido teológico (Jo 8,42; 13, 3; 16, 27-28). As curas não são um ato de um mágico, mas o ato do salvador dos homens. A cura das doenças torna então o valor de sinal; orienta nosso olhar para uma restauração global do homem; torna-se um momento da ação salvífica de Cristo.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Êxodo 22, 20-23
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 145(146)
  • Isaias 49,9
  • Isaias 61,1
Evangelhos
  • João 8,42-47
  • João 13, 1-20
  • João 16, 26-28

1 de fev de 2015

Da diligente emenda de toda a nossa vida

  1. Sê vigilante e diligente no serviço de Deus, e pergunta-te a miúdo: a que vieste, para que deixaste o mundo? Não será para viver por Deus e tornar-te homem espiritual? Trilha, pois, com fervor o caminho da perfeição, porque em breve receberás o prêmio dos teus trabalhos; nem te afligirão, daí por diante, temores nem dores. Agora, terás algum trabalho; mas depois acharás grande repouso e perpétua alegria. Se tu permaneceres fiel e diligente no seu serviço, Deus, sem dúvida, será fiel e generoso no prêmio. Conserva a firme esperança de alcançar a palma; não cries, porém segurança, para não caíres em tibieza ou presunção.
    Ora e trabalha
  2. Certo homem que vacilava muitas vezes, ansioso, entre o temor e a esperança, estando um dia acabrunhado pela tristeza, entrou numa igreja, e diante dum altar, prostrado em oração, dizia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo ouviu em si a divina respostas: Se tal soubesses, que farias? Faze já o que então fizeras, e estarás bem seguro. Consolado imediatamente, e confortado, abandonou-se à divina vontade, e cessou a ansiosa perplexidade. Desistiu da curiosa indagação acerca do seu futuro aplicando-se antes em conhecer qual fosse a vontade e o perfeito agrado de Deus para começar e acabar qualquer boa obra.

    1. Espera no Senhor e faze boas obras, diz o profeta, habita na terra e serás apascentado com suas riquezas (Sl 36,3). Há uma coisa que esfria em muitos o fervor do progresso e zelo da emenda: o horror da dificuldade ou o trabalho da peleja. Certo é que, mais que os outros, aproveitam nas virtudes aqueles que com maior empenho se esmeram em vencer a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contrariam mais suas inclinações. Porque tanto mais aproveita o homem, e mais copiosa graça merece, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
    2. Não custa igualmente a todos se vencer e mortificar-se. Todavia, o homem diligente e porfioso fará mais progressos, ainda que seja combatido por muitas paixões, que outro de melhor índole, porém menos fervoroso em adquirir as virtudes. Dois meios, principalmente, ajudam muito a nossa emenda, e vêm a ser: apartar-se valorosamente das coisas às quais viciosamente se inclina a natureza, e porfiar em adquirir a virtude de que mais se há mister. Aplica-te também a evitar e vencer o que mais te desagrada nos outros.
  3. Procura tirar proveito de tudo: se vês ou ouves relatar bons exemplos, anima-te logo a imitá-los; mas, se reparares em alguma coisa repreensível, guarda-te de fazê-la, e, se em igual falta caíste, procura emendar-te logo dela. Assim como tu observas os outros, também eles te observam a ti. Que alegria e gosto ver irmãos cheios de fervor e piedade, bem acostumados e morigerados! Que tristeza, porém, e aflição, vê-los andar desnorteados e descuidados dos exercícios de sua vocação! Que prejuízo descurar os deveres do estado e aplicar-se ao que Deus não exige!
  4. Lembra-te da resolução que tomaste, e põe diante de ti a imagem de Jesus crucificado. Com razão te envergonharás, considerando a vida de Jesus Cristo, pois até agora tão pouco procuraste conformar-te com ela, estando há tanto tempo no Caminho de Deus. O religioso que, com solicitude e fervor, se exercita na santíssima vida e paixão do Senhor, achará nela com abundância tudo quanto lhe é útil e necessário, e escusará buscar coisa melhor fora de Jesus. Oh! se entrasse em nosso coração Jesus crucificado, quão depressa e perfeitamente seríamos instruídos!
  5. O religioso cheio de fervor tudo suporta de boa vontade e executa o que lhe mandam. O relaxado e tíbio, porém, encontra tribulação sobre tribulação, sofrendo de toda parte angústias: é que ele carece da consolação interior e lhe é vedado buscar a exterior. O religioso que transgride a regra anda exposto a grande ruína. Quem busca a vida cômoda e menos austera, sempre estará em angústias, porque uma ou outra coisa sempre lhe desagrada.
  6. Que fazem tantos outros religiosos que guardam a austera disciplina do claustro? Raro saem, vivem retirados, sua comida é parca, seu hábito grosseiro, trabalham muito, falam pouco, vigiam até tarde, levantam-se cedo, rezam muito, lêem com frequência e conservam-se em toda a observância. Olha como os cartuxos, os cistercienses, e os monges e monjas das diversas ordens se levantam todas as noites para louvar o Senhor. Vergonha, pois, seria, se tu fosses preguiçoso em obra tão santa, quando tamanha multidão de religiosos entoa a divina salmodia.
  7. Oh! se nada mais tivesses que fazer senão louvar a Deus Nosso Senhor de coração e boca! Oh! se nunca precisares comer, nem beber, nem dormir, mas sempre pudesses atender aos louvores de Deus e aos exercícios espirituais! Então serias muito mais ditoso do que agora, sujeito a tantas exigências do corpo! Oxalá não existissem tais necessidades, mas houvesse só aquelas refeições que - ai! - tão raro gozamos!
  8. Quando o homem chega ao ponto de não buscar sua consolação em nenhuma criatura, só então começa a gostar perfeitamente de Deus, e anda contente, aconteça o que acontecer. Então não se alegra pela abundância, nem se entristece pela penúria, mas confia inteira e fielmente em Deus, que lhe é tudo em todas as coisas, para quem nada perece nem morre, mas por quem vivem todas as coisas e a cujo aceno, com prontidão, obedecem.
  9. Lembra-te sempre do fim, e que o tempo perdido não volta. Sem empenho e diligência, jamais alcançarás as virtudes. Se começares a ser tíbio, logo te inquietarás. Se, porém, procurares afervorar-te, acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude. O homem fervoroso e diligente está preparado para tudo. Mais penoso é resistir aos vícios e às paixões que afadigar-se em trabalhos corporais. Quem não evita os pequenos defeitos pouco a pouco cai nos grandes. Alegrar-te-ás sempre à noite, se tiveres empregado bem o dia. Vigia sobre ti, anima-te e admoesta-te e, vivam os outros como vivem, não te descuides de ti mesmo. Tanto mais aproveitarás, quanto maior for a violência que te fizeres. Amém.
-- Do livro "Imitação de Cristo", capítulo 25 (século XV)

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