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15 de fev. de 2020

Santa Josefina Vannini, a orfã que fundou uma ordem

Em 7 de Julho de 1859, Roma, nasceu Giuditta Vannini, a filha do meio de Angelo e Annunziata, seus irmãos chamavam-se Augusto (mais velho) e Giulia. Foi batizada no dia seguinte na Basílica de Santo Andrea delle Fratte. Quando recém havia completado quatro anos, seu pai faleceu de problemas intestinais, em 18 de Agosto de 1863, e sua mãe faleceu poucos depois, em 6 de Novembro de 1866. 

Giuditta tinha apenas sete anos e já era orfã de pai e mãe. Ela foi morar no Orfanato de Torlonia, seu irmão, com um tio, e  a irmã menor no Orfanato das Irmãs de São José. A família estava desfeita e era abandonada no orfanato onde moraria por muitos anos. Em 19 de Março de 1873, com 13 anos, recebeu a Primeira Comuhão e o Sacramento do Crisma. Continuou a morar no orfanato até receber um diploma de professora de jardim de infância.

No entanto, ao invés de trabalhar como professora, sentiu-se chamada à vida religiosa, começando seu noviciado com as Irmãs Vicentinas, em Siena. Teve que enfrentar um novo revés, pois ficou muito doente de 1887, sendo enviada para uma casa de repouso. Depois de um ano, já recuperada, retornou ao convento em Siena, mas desta vez não foi aceita pelas superioras que avaliaram-na negativamente. Tinha já 27 anos e enfrentava um novo fracasso na vida.

Quatro anos depois, em 17 de Dezembro de 1891 participou de um retiro espiritual onde conheceu o Padre Luigi Terra, que tinha um plano de fundar uma nova ordem de irmãs da caridade dedicadas a cuidar dos doentes. Luigi convidou-a para entrar na tal ordem, mas, na prática, ela foi a primeira a aceitar. Em 19 de Março de 1893, ela e duas companheiras receberam o escapulário e o hábito de religiosas da Ordem Terceira de São Camilo, quando professou os votos e assumiu o nome de Giuseppina (Josefina). Imediatamente foi nomeada superiora geral da ordem e com a ajuda de um frade camiliniano, começou a redigir os estatutos da ordem. Distintivo da ordem, é que o hábito tem uma grande cruz vermelha no centro.

Vivendo em grande pobreza, os números começam a aumentar. Ao final de 1893 já são 14 irmãs, uma casa é fundada em Cremona, em 1894 outra casa em Brindisi. E novos problemas surgem, o Papa Leão XIII decidiu proibir o estabelecimento de novas ordens na Arquidiocese de Roma e não aprovou as Irmãs de São Camilo. No entanto, com o apoio do Cardeal Lucido Parocchi, elas conseguem a aprovação de uma "associação de caridade". 

Outra provação aparece na sua vida com fofocas maliciosas sobre sua relação com o Padre Tezza. O superior do padre decide proibi-lo de qualquer contato com Josefina e as irmãs, incluindo não confessá-las ou celebrar missas. Padre Tezza aceita e começa a rezar paa que seu sofrimento ocorra  em favor do desenvolvimento da ordem. Em 1900, foi enviado para Lima, Peru, como missionário, separando-se totalmente das irmãs. Ele faleceu no Peru em 1923 e foi beatificado em 4 de Novembro de 2001.

Com as tribulações de Padre Luigi, Josefina assumiu totalmente as responsabilidades da Ordem, fundando novas casas na Itália, França, Bélgica e até Argentina, visitando-as, incentivando as mais jovens e coordenando com as autoridades locais onde exerciam sua missão de auxiliar os pobres. Em 1909, a Ordem foi aprovada para atuar em Roma.

Ao final do ano seguinte caiu doente, com problemas cardíacos. Sentindo que o fim aproximava-se, escreveu: "Tenham coragem! Acima de tudo é Deus que conduz a ordem, não sou eu. E do paraíso poderei fazer o que não faço neste mundo com perfeição, rezar por todas vocês. Tenham fé que se eu não me recuperar, este é o melhor."  Josefina faleceu em 23 de Fevereiro de 1911 e foi enterrada em Roma, depois seus restos mortais seriam transferidos para a principal casa da ordem em Grottaferrata. 

A Congregação foi aprovada em caráter temporária pelo Papa Pio XI em 1922 em caráter definitivo em 17 de Junho de 1931. Atualmente são mais de 800 irmãs em vários países europeus, América Latina e África.

Os dois milagres reconhecidos durante o processo de canonização ocorreram na Argentina e Brasil: 

  • em 1993, em Buenos Aires, uma moça estava num hospital que as irmãs atendiam, ela tinha uma forma de cancer no pescoço que afetou sua espinha e terminou por paralisá-la. As irmãs começaram uma novena pela sua cura, e ao longo de nove dias ela foi melhorando, recuparando seus movimentos e o cancer desaparecendo. Ao final da novena, pode sair caminhando do hospital, totalmente curada. 
  • em 2005, a Congregação estava construindo uma casa de repouso para velhos em Sinop, Mato Grosso. Um dos operários, Arno Klauck caiu de uma altura de mais de 10 metros. Durante a queda, em frente de várias testemunhas, ouviram-no gritar "Madre Josefina, ajude-me". Exceto por alguns arranhões, os médicos no hospital não constataram nada, nem um único osso quebrado. O vídeo (em italiano) mostra a Superiora Geral da Congregação, Madre Laura Biondi contando o milagre de Sinop e uma neta do irmão Augusto recordando algumas histórias da família. 
Santa Josefina Vannini foi canonizada em 13 de Outubro de 2019 pelo Papa Francisco. 

-- autoria própria.



24 de jan. de 2017

A devoção deve ser praticada de modos diferentes

Na criação, Deus Criador mandou às plantas que cada uma produzisse fruto conforme sua espécie. Do mesmo modo, ele ordenou aos cristãos, plantas vivas de sua Igreja, que produzissem frutos de devoção, cada qual de acordo com sua categoria, estado e vocação.
São Francisco de Sales, 24 de Janeiro

A devoção deve ser praticada de modos diferentes pelo nobre e pelo operário, pelo servo e pelo príncipe, pela viúva, pela solteira ou pela casada. E isto ainda não basta. A prática da devoção deve adaptar-se às forças, aos trabalhos e aos deveres particulares de cada um.

Dize-me, por favor, Filotéia, se seria conveniente que os bispos quisessem viver na solidão como os cartuxos; que os casados não se preocupassem em aumentar seus ganhos mais que os capuchinhos; que o operário passasse o dia todo na igreja como o religioso; e que o religioso estivesse sempre disponível para todo tipo de encontros a serviço do próximo, como o bispo. Não seria ridícula, confusa e intolerável esta devoção?

Contudo, este erro absurdo acontece muitíssimas vezes. E no entanto, Filotéia, a devoção quando é verdadeira não prejudica a ninguém; pelo contrário, tudo aperfeiçoa e consuma. E quando se torna contrária à legítima ocupação de alguém, é falsa, sem dúvida alguma.

A abelha extrai seu mel das flores sem lhes causar dano algum, deixando-as intactas e frescas como encontrou. Todavia, a verdadeira devoção age melhor ainda, porque não somente não prejudica a qualquer espécie de vocação ou tarefa, mas ainda as engrandece e embeleza.

Toda a variedade de pedras preciosas lançadas no mel, tornam-se mais brilhantes, cada qual conforme sua cor; assim também cada um se torna mais agradável e perfeito em sua vocação quando esta for conjugada com a devoção: o cuidado da família se torna tranquilo, o amor mútuo entre marido e mulher, mais sincero, o serviço que se presta ao príncipe, mais fiel, e mais suave e agradável o desempenho de todas as ocupações.

É um erro, senão até mesmo uma heresia, querer excluir a vida devota dos quartéis de soldados, das oficinas dos operários, dos palácios dos príncipes, do lar das pessoas casadas. Confesso, porém, caríssima Filotéia, que a devoção puramente contemplativa, monástica e religiosa de modo algum pode ser praticada em tais ocupações ou condições. Mas, para além destas três espécies de devoção, existem muitas outras, próprias para o aperfeiçoamento daqueles que vivem no estado secular.
Portanto, onde quer que estejamos, devemos e podemos aspirar à vida perfeita.

-- Da Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales, bispo - (Séc.XVII)

23 de set. de 2016

A vocação dos presbíteros à perfeição

Pelo sacramento da Ordem, os presbíteros são configurados com Cristo sacerdote, na qualidade de ministros da Cabeça, para construir e edificar todo o seu corpo que é a Igreja, como cooperadores da ordem episcopal. De fato, já pela consagração do batismo receberam, como todos os cristãos, o sinal e o dom de tão grande vocação e graça para que, apesar da fraqueza humana, possam e devam procurar a perfeição, segundo a palavra do Senhor: Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48). 

Os sacerdotes, porém, estão obrigados por especial motivo a atingir tal perfeição, uma vez que, consagrados a Deus de modo novo pela recepção do sacramento da Ordem, se transformaram em instrumentos vivos de Cristo, eterno Sacerdote, a fim de poderem continuar através dos tempos sua obra admirável que reuniu com suma eficiência toda a família humana. 

Como, pois, cada sacerdote, a seu modo, faz as vezes da própria pessoa de Cristo, é também enriquecido por uma graça especial, para que, no serviço dos homens a ele confiados e de todo o povo de Deus, possa alcançar melhor a perfeição daquele a quem representa, e para que veja a fraqueza do homem carnal curada pela santidade daquele que por nós se fez Pontífice santo, inocente, sem mancha, separado dos pecadores (Hb 7,26). 

Cristo, a quem o Pai santificou, ou melhor, consagrou e enviou ao mundo, se entregou por nós, para nos resgatar de toda a maldade e purificar para si um povo que lhe pertença e que se dedique a praticar o bem (Tt 2,1), e assim, pela Paixão, entrou na sua glória. De modo semelhante, os presbíteros, consagrados pela unção do Espírito Santo e enviados por Cristo, mortificam em si mesmos as obras da carne e dedicam-se totalmente ao serviço dos homens, e assim podem progredir na santidade pela qual foram enriquecidos em Cristo, até atingirem a estatura do homem perfeito. 

Deste modo, exercendo o ministério do Espírito e da justiça, se forem dóceis ao Espírito de Cristo que os vivifica e dirige, firmam-se na vida espiritual. Pelas próprias ações sagradas de cada dia, como também por todo o seu ministério, exercido em comunhão com o bispo e com os outros presbíteros, eles mesmos se orientam para a perfeição da vida. 

A santidade dos presbíteros, por sua vez, contribui muitíssimo para o desempenho frutuoso do próprio ministério; pois, embora a graça divina possa realizar a obra da salvação também por meio de ministros indignos, contudo Deus prefere, segundo a lei ordinária, manifestar as suas maravilhas através daqueles que, dóceis ao impulso e direção do Espírito Santo, pela sua íntima união com Cristo e santidade de vida, podem dizer com o Apóstolo: Eu vivo, mas não eu, é Cristo que vive em mim (Gl 2,20).

-- Do Decreto Presbyterorum ordinis sobre o ministério e a vida dos presbíteros, do Concílio Vaticano II (século XX)

1 de fev. de 2015

Da diligente emenda de toda a nossa vida

  1. Sê vigilante e diligente no serviço de Deus, e pergunta-te a miúdo: a que vieste, para que deixaste o mundo? Não será para viver por Deus e tornar-te homem espiritual? Trilha, pois, com fervor o caminho da perfeição, porque em breve receberás o prêmio dos teus trabalhos; nem te afligirão, daí por diante, temores nem dores. Agora, terás algum trabalho; mas depois acharás grande repouso e perpétua alegria. Se tu permaneceres fiel e diligente no seu serviço, Deus, sem dúvida, será fiel e generoso no prêmio. Conserva a firme esperança de alcançar a palma; não cries, porém segurança, para não caíres em tibieza ou presunção.
    Ora e trabalha
  2. Certo homem que vacilava muitas vezes, ansioso, entre o temor e a esperança, estando um dia acabrunhado pela tristeza, entrou numa igreja, e diante dum altar, prostrado em oração, dizia consigo mesmo: Oh! se eu soubesse que havia de perseverar! E logo ouviu em si a divina respostas: Se tal soubesses, que farias? Faze já o que então fizeras, e estarás bem seguro. Consolado imediatamente, e confortado, abandonou-se à divina vontade, e cessou a ansiosa perplexidade. Desistiu da curiosa indagação acerca do seu futuro aplicando-se antes em conhecer qual fosse a vontade e o perfeito agrado de Deus para começar e acabar qualquer boa obra.

    1. Espera no Senhor e faze boas obras, diz o profeta, habita na terra e serás apascentado com suas riquezas (Sl 36,3). Há uma coisa que esfria em muitos o fervor do progresso e zelo da emenda: o horror da dificuldade ou o trabalho da peleja. Certo é que, mais que os outros, aproveitam nas virtudes aqueles que com maior empenho se esmeram em vencer a si mesmos naquilo que lhes é mais penoso e contrariam mais suas inclinações. Porque tanto mais aproveita o homem, e mais copiosa graça merece, quanto mais se vence a si mesmo e se mortifica no espírito.
    2. Não custa igualmente a todos se vencer e mortificar-se. Todavia, o homem diligente e porfioso fará mais progressos, ainda que seja combatido por muitas paixões, que outro de melhor índole, porém menos fervoroso em adquirir as virtudes. Dois meios, principalmente, ajudam muito a nossa emenda, e vêm a ser: apartar-se valorosamente das coisas às quais viciosamente se inclina a natureza, e porfiar em adquirir a virtude de que mais se há mister. Aplica-te também a evitar e vencer o que mais te desagrada nos outros.
  3. Procura tirar proveito de tudo: se vês ou ouves relatar bons exemplos, anima-te logo a imitá-los; mas, se reparares em alguma coisa repreensível, guarda-te de fazê-la, e, se em igual falta caíste, procura emendar-te logo dela. Assim como tu observas os outros, também eles te observam a ti. Que alegria e gosto ver irmãos cheios de fervor e piedade, bem acostumados e morigerados! Que tristeza, porém, e aflição, vê-los andar desnorteados e descuidados dos exercícios de sua vocação! Que prejuízo descurar os deveres do estado e aplicar-se ao que Deus não exige!
  4. Lembra-te da resolução que tomaste, e põe diante de ti a imagem de Jesus crucificado. Com razão te envergonharás, considerando a vida de Jesus Cristo, pois até agora tão pouco procuraste conformar-te com ela, estando há tanto tempo no Caminho de Deus. O religioso que, com solicitude e fervor, se exercita na santíssima vida e paixão do Senhor, achará nela com abundância tudo quanto lhe é útil e necessário, e escusará buscar coisa melhor fora de Jesus. Oh! se entrasse em nosso coração Jesus crucificado, quão depressa e perfeitamente seríamos instruídos!
  5. O religioso cheio de fervor tudo suporta de boa vontade e executa o que lhe mandam. O relaxado e tíbio, porém, encontra tribulação sobre tribulação, sofrendo de toda parte angústias: é que ele carece da consolação interior e lhe é vedado buscar a exterior. O religioso que transgride a regra anda exposto a grande ruína. Quem busca a vida cômoda e menos austera, sempre estará em angústias, porque uma ou outra coisa sempre lhe desagrada.
  6. Que fazem tantos outros religiosos que guardam a austera disciplina do claustro? Raro saem, vivem retirados, sua comida é parca, seu hábito grosseiro, trabalham muito, falam pouco, vigiam até tarde, levantam-se cedo, rezam muito, lêem com frequência e conservam-se em toda a observância. Olha como os cartuxos, os cistercienses, e os monges e monjas das diversas ordens se levantam todas as noites para louvar o Senhor. Vergonha, pois, seria, se tu fosses preguiçoso em obra tão santa, quando tamanha multidão de religiosos entoa a divina salmodia.
  7. Oh! se nada mais tivesses que fazer senão louvar a Deus Nosso Senhor de coração e boca! Oh! se nunca precisares comer, nem beber, nem dormir, mas sempre pudesses atender aos louvores de Deus e aos exercícios espirituais! Então serias muito mais ditoso do que agora, sujeito a tantas exigências do corpo! Oxalá não existissem tais necessidades, mas houvesse só aquelas refeições que - ai! - tão raro gozamos!
  8. Quando o homem chega ao ponto de não buscar sua consolação em nenhuma criatura, só então começa a gostar perfeitamente de Deus, e anda contente, aconteça o que acontecer. Então não se alegra pela abundância, nem se entristece pela penúria, mas confia inteira e fielmente em Deus, que lhe é tudo em todas as coisas, para quem nada perece nem morre, mas por quem vivem todas as coisas e a cujo aceno, com prontidão, obedecem.
  9. Lembra-te sempre do fim, e que o tempo perdido não volta. Sem empenho e diligência, jamais alcançarás as virtudes. Se começares a ser tíbio, logo te inquietarás. Se, porém, procurares afervorar-te, acharás grande paz e sentirás mais leve o trabalho com a graça de Deus e o amor da virtude. O homem fervoroso e diligente está preparado para tudo. Mais penoso é resistir aos vícios e às paixões que afadigar-se em trabalhos corporais. Quem não evita os pequenos defeitos pouco a pouco cai nos grandes. Alegrar-te-ás sempre à noite, se tiveres empregado bem o dia. Vigia sobre ti, anima-te e admoesta-te e, vivam os outros como vivem, não te descuides de ti mesmo. Tanto mais aproveitarás, quanto maior for a violência que te fizeres. Amém.
-- Do livro "Imitação de Cristo", capítulo 25 (século XV)

30 de set. de 2013

No coração da Igreja serei o amor

Meus imensos desejos me eram um autêntico martírio. Fui, então, às cartas de São Paulo a ver se encontrava uma resposta. Meus olhos caíram por acaso nos capítulos doze e treze da Primeira Carta aos Coríntios. No primeiro destes, li que todos não podem ser ao mesmo tempo apóstolos, profetas, doutores, e que a Igreja consta de vários membros; os olhos não podem ser mãos ao mesmo tempo. Resposta clara, sem dúvida, mas não capaz de satisfazer meu desejo e dar-me a paz.

Perseverei na leitura sem desanimar e encontrei esta frase sublime: Aspirai aos melhores carismas. E vos indico um caminho ainda mais excelente (1Cor 12,31). O Apóstolo esclarece que os melhores carismas nada são sem a caridade, e esta caridade é o caminho mais excelente que leva com segurança a Deus. Achara enfim o repouso.

Ao considerar o Corpo místico da Igreja, não me encontrara em nenhum dos membros enumerados por São Paulo, mas, ao contrário, desejava ver-me em todos eles. A caridade deu-me o eixo de minha vocação. Compreendi que a Igreja tem um corpo formado de vários membros e neste corpo não pode faltar o membro necessário e o mais nobre: entendi que a Igreja tem um coração e este coração está inflamado de amor. Compreendi que os membros da Igreja são impelidos a agir por um único amor, de forma que, extinto este, os apóstolos não mais anunciariam o Evangelho, os mártires não mais derramariam o sangue. Percebi e reconheci que o amor encerra em si todas as vocações, que o amor é tudo, abraça todos os tempos e lugares, numa palavra, o amor é eterno.

Então, delirante de alegria, exclamei: Ó Jesus, meu amor, encontrei afinal minha vocação: minha vocação é o amor. Sim, encontrei o meu lugar na Igreja, tu me deste este lugar, meu Deus. No coração da Igreja, minha mãe, eu serei o amor e desse modo serei tudo, e meu desejo se realizará.

-- Da Autobiografia de Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem (século XIX)

17 de jul. de 2012

O Bom Pastor e as vocações


No quarto domingo de Páscoa, contemplamos Cristo ressuscitado, que diz de Si mesmo: "Eu sou a porta das ovelhas" (Jo 10, 7).

Nomeia-se também Bom Pastor; com aquelas palavras Ele completa em certo sentido esta imagem, dando-lhe nova dimensão:

"Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não entra pela porta no curral das ovelhas, mas sobe por outra parte, é ladrão e salteador. Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas. A este o porteiro abre, e as ovelhas ouvem a sua voz; chama pelo nome as suas ovelhas, e leva-as para fora. E depois de fazer sair todas as ovelhas, vai adiante delas e as ovelhas seguem-no, porque conhecem a sua voz. Mas não seguirão um estranho, antes fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos" (Jo 10, 1-5).

Jesus, portanto, é a porta do redil. Ao atribuir-se esta qualificação, Jesus apresenta-se a si mesmo como o caminho obrigatório para se entrar pacificamente na comunidade dos remidos: Ele é de facto o único mediador, por meio do qual Deus se comunica aos homens e os homens têm acesso a Deus. Quem não passa através desta "porta" é "ladrão e salteador". Através de tal porta, ao contrário, passa a gente seguindo-O a Ele, que é o verdadeiro Pastor.

Tende portanto muito presente — comentava Santo Agostinho — que o Senhor Jesus Cristo é a porta, e é o pastor: é a porta, pois se abre a Si mesmo (na revelação), e é o pastor, pois entra por si mesmo, Para dizer a verdade, ó irmãos, a prerrogativa de pastor comunicou-a também aos Seus membros; e assim é pastor Pedro, e é pastor Paulo, e os outros apóstolos são pastores, e os bons Bispos são pastores. Nenhum de nós, porém, se atreve a dizer que é a porta; Cristo reservou, a Si só, ser a porta, através da qual entram as ovelhas (In Io. Evang. Tr. 47, 3).

Esta imagem de Cristo, que, como único "Bom Pastor", é ao mesmo tempo a "porta das ovelhas", deve estar diante dos olhos de nós todos.

Deveis tê-la diante dos olhos de modo particular vós, caros Irmãos meus, os concelebrantes comigo nesta santa Missa, com que se inaugura o Congresso internacional das Vocações.

[trecho saudando os participantes do Congresso e algumas observações pontuais  - o texto completo esta publicado no site do Vaticano ]*

O problema das vocações sacerdotais — e também das religiosas tanto masculinas como femininas — é, di-lo-ei sem rebuço, o problema fundamental da Igreja. É verificação da sua vitalidade espiritual e é a condição mesma de tal vitalidade. É a condição da sua missão e do seu desenvolvimento.

Isto refere-se tanto à Igreja, na sua missão universal, como também a cada Igreja local, à diocese e por analogia às Congregações religiosas. É necessário portanto considerar este problema em cada uma destas dimensões, se a nossa actividade no sector do despertar das vocações quer ser apropriada e eficaz.

As vocações são o sinal da vitalidade da Igreja. A vida gera vida. Não por acaso o Decreto sobre a formação sacerdotal, tratando do dever de "dar incremento às vocações", sublinha "estar a comunidade cristã obrigada a desempenhar este encargo, primeiro que tudo, com uma vida perfeitamente cristã" (Optatam totius, 2). Como um terreno mostra a riqueza dos próprios sucos vitais pela pujança e viço da messe que nele se desenvolve (a referência à parábola evangélica do semeador é aqui espontânea: cf. Mt 13, 3-23), assim uma Comunidade eclesial dá prova do seu vigor e da sua maturidade com o florescimento das vocações, que chega nela a afirmar-se.

As vocações são também a condição da vitalidade da Igreja. Não há dúvida que esta depende do conjunto dos membros de cada comunidade, do "apostolado comum", em particular do "apostolado dos leigos". Todavia é igualmente certo que, para o desenvolvimento deste apostolado, se revela indispensável precisamente o ministério sacerdotal. Isto, aliás, muito bem o sabem os leigos mesmos. O autêntico apostolado dos leigos baseia-se no ministério sacerdotal — e, por sua vez, manifesta a própria autenticidade conseguindo, além do mais, fazer desabrochar no próprio âmbito novas vocações.

Pode-se perguntar porque estão assim as coisas.

Tocamos aqui a dimensão fundamental do problema, quer dizer, a verdade mesma sobre a Igreja: a realidade da Igreja, assim como foi plasmada por Cristo no mistério pascal e como se vai constantemente plasmando sob a acção do Espírito Santo. Para reconstruir na consciência, ou aprofundar, a convicção a respeito da importância das vocações, deve-se remontar às raízes mesmas de uma sã eclesiologia, assim como elas nos foram desveladas pelo Vaticano II. O problema das vocações, o problema do despertar delas, pertence de modo orgânico àquele grande dever, que se pode chamar "a realização do Vaticano II".

As vocações sacerdotais são a verificação e ao mesmo tempo a condição da vitalidade da Igreja, primeiro que tudo porque esta vitalidade encontra a sua incessante fonte na Eucaristia, como centro e apogeu de toda a evangelização e da plena vida sacramental. Brota daqui a necessidade indispensável da presença do ministro ordenado, que seja capaz de celebrar precisamente a Eucaristia.

E que dizer, em seguida, dos outros sacramentos, mediante os quais se alimenta a vida da Comunidade cristã? Quem administraria, em particular, o sacramento da penitência, se viessem a faltar os sacerdotes? E este sacramento é o meio estabelecido por Cristo para o renovamento da alma e para a sua activa integração no contexto vital da Comunidade. Quem atenderia ao serviço da Palavra? Todavia, na actual economia da salvação, "a fé depende da pregação e a pregação por sua vez realiza-se pela palavra de Cristo" (Rom 10, 17).

Há ainda as vocações para a vida consagrada. Constituem a verificação e ao mesmo tempo a condição da vitalidade da Igreja, porque tal vitalidade deve encontrar, por vontade de Cristo, a sua expressão no radical testemunho evangélico, prestado ao Reino de Deus no meio de tudo o que é temporal.

O problema das vocações não deixa de ser, caros Irmãos, problema que tenho a peito de modo muito particular. Disse-o em diversas ocasiões. Estou convencido que — não obstante todas as circunstâncias que fazem parte da crise espiritual existente em toda a civilização contemporânea — o Espírito Santo não deixa de operar nas almas. Ele, pelo contrário, opera ainda com maior intensidade. E é precisamente daqui que se abrem, também diante da Igreja de hoje, favoráveis perspectivas em matéria de vocações, contanto que ela procure ser autenticamente fiel a Cristo; contanto que ela ilimitadamente espere no poder da Sua redenção — e procure fazer todo o possível para "ter direito" a "esta confiança".

"Condição da communio específica do Povo de Deus — disse eu noutra circunstância — é a pluralidade das vocações e também a pluralidade dos carismas. É única a vocação cristã comum: a chamada à santidade; e único é o fundamental carisma de ser cristão: o sacramento do baptismo; todavia, sobre o seu fundamento distinguem-se as vocações particulares, como a sacerdotal e a religiosa e, ao lado destas, a vocação dos leigos que, por sua vez, traz consigo todo o conjunto das variedades possíveis. Os leigos, de facto, em diversos modos podem participar da missão da Igreja no seu apostolado.

Servem a comunidade mesma da Igreja, tomando parte, por exemplo, na catequese ou no serviço caritativo e, contemporaneamente, abrem no mundo as estradas em tantos campos do compromisso que lhes é próprio.

Servir a comunhão do Povo de Deus na Igreja significa cuidar das vocações diversas e dos carismas na sua especificidade, e actuar para que se completem reciprocamente, assim como os vários membros no organismo (cf. 1 Cor 12, 12 ss.).

Podemos olhar confiadamente para o futuro das vocações, podemos contar com a eficácia dos nossos esforços que tendem a despertá-las, se afastamos de nós, de modo consciente e decisivo, aquela particular "tentação eclesiológica" dos nossos tempos, que de diversas partes e com múltiplas motivações procura introduzir-se nas consciências e nas atitudes do povo cristão. Quero aludir às propostas que tendem a "laicizar" o ministério e a vida sacerdotal, a substituir os ministros "sacramentais" por outros "ministros" considerados mais em correspondência com as exigências pastorais hodiernas, e também a privar a vocação religiosa do carácter de testemunho profético do Reino, orientando-a exclusivamente para funções de animação social ou mesmo de empenho directamente político. Esta tentação diz respeito à eclesiologia, como lucidamente se expressou o Papa Paulo VI, que, falando na Assembleia Geral da Conferência Episcopal Italiana sobre os problemas do Sacerdócio ministerial, declarava: "O que nos aflige a este propósito é a suposição, mais ou menos penetrada em certas mentalidades, de que se pode prescindir da Igreja como ela é, da sua doutrina, da sua constituição, da sua derivação histórica evangélica e hagiográfica, e é possível inventar-lhe e criar-lhe uma nova, segundo dados esquemas ideológicos e sociológicos, mudáveis eles também e não apoiados em intrínsecas exigências eclesiais; de maneira que se vê por vezes que, a abalar e a enfraquecer a Igreja neste particular, não são tanto os inimigos de fora, quanto alguns filhos seus, alguns que pretendem, de dentro, ser livres promotores dela" (Insegnamenti di Paolo VI, vol. VIII, 1970, p. 302).

Cristo é a porta das ovelhas. Todos os esforços da Igreja — e em particular do vosso Congresso —, todas as orações da nossa assembleia eucarística de hoje, confirmem de novo esta verdade.

Dêem-lhe a eficácia plena. Entrem através dessa "porta" sempre gerações novas de pastores da Igreja. Sempre novas gerações de "administradores dos mistérios de Deus" (1 Cor 4, 1). Sempre novas falanges de homens e mulheres que por meio de toda a sua vida — mediante a pobreza, a castidade e a obediência livremente aceites e professadas — dêem testemunho do Reino, que não é deste mundo e não passa nunca.

Cristo — Porta das ovelhas — abra-se de par em par para o futuro do Povo de Deus em toda a terra.

E aceite tudo o que, segundo as nossas débeis forças — mas apoiando-se na imensidade da Sua graça — procuramos fazer para despertar as vocações.

Interceda por nós nestas iniciativas a humilde Serva do Senhor, que é o modelo mais perfeito de todos os chamados; Ela que é chamada do Alto respondeu: "Faça-se em mim segundo a tua palavra" (Lc 1, 38).

-- Homília do Papa João Paulo II, em 10 de Maio de 1981.

6 de set. de 2011

Dar-se totalmente a Deus

Porque devemos dar-nos totalmente a Deus? Porque Deus deu-se a Si mesmo por nós. Se Deus, que não nos deve nada, está disposto a dar-nos nada mesmo que a Si mesmo, poderíamos responder apenas com uma fração de nós? Dar-nos totalmente é um meio de recebermos Deus. Eu para Deus e Deus para mim. Eu vivo para Deus e renuncio ao meu próprio eu e, desta maneira, induzo Deus a viver para mim. Portanto, para possuir a Deus, devemos deixar que ele possua a nossa alma. 

* Madre Teresa de Cálcuta explicou desta maneira um voto especial que fez em particular e guardou segredo, exceto para seu confessor. O voto era dar-se totalmente a Deus, não negar-lhe nada, sob pena de pecado mortal. Segundo ela, queria dar a Deus algo muito bonito e beber o cálice até a última gota. 

25 de jan. de 2011

São Paulo tudo suportou

O que é o homem, quão grande é a dignidade da nossa natureza e de quanta virtude é capaz a criatura humana, Paulo o mostrou mais do que qualquer outro. Cada dia ele subia mais alto e aparecia mais ardente, cada dia lutava com energia sempre nova contra os perigos que lhe surgiam pela frente, de acordo com o que ele próprio afirmava: Esqueço-me do que já passou e avanço para as coisas que estão à minha frente (Fl 3,13). Sentindo a morte já iminente, incitava os outros a comungarem da sua alegria, dizendo: Alegrai-vos e congratulai-vos comigo (Fl 2,18). Frente aos perigos, às injúrias e aos insultos, igualmente se alegra, e escreve aos Coríntios: Sinto complacência nas minhas enfermidades, nos ultrajes, nas perseguições (2Cor 12,10); porque sendo estas, segundo afirmava as armas da justiça, mostrava que disto lhe vinha um grande proveito.

No meio das insídias dos inimigos, conquistava contínuas vitórias, triunfando de todos os seus assaltos. E, em todo o lado, sofrendo pancadas, injúrias e maldições, como se fosse conduzido em cortejo triunfal, cumulado de troféus, nelas se gloriava e dava graças a Deus, dizendo: Sejam dadas graças a Deus, que sempre triunfa em nós (2Cor 2,14). Avançava ao encontro da humilhação e das ofensas que tinha de suportar por causa da pregação, com mais entusiasmo do que o que pomos nós em alcançar o prazer das honras; punha mais empenho na morte do que nós na vida; ansiava mais pela pobreza do que nós pelas riquezas; e desejava sempre mais o trabalho sem descanso do que nós o descanso depois do trabalho. Uma única coisa o assustava e lhe metia medo: ofender a Deus; e uma única coisa desejava: agradar sempre a Deus.

Só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto considerava-se o mais feliz de todos os homens; sem isto para nada lhe servia a amizade dos senhores e dos poderosos. Preferia ser o último com este amor, isto é, ser do número dos réprobos, do que encontrar-se no meio dos homens famosos pela consideração e pela honra, mas privado do amor de Cristo.

Para ele, o maior e único tormento era separar-se deste amor; esta era a sua geena, o seu único castigo, este o infinito e intolerável suplício.

Gozar do amor de Cristo era para ele a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens; e fora disto, em nada punha tristeza ou alegria. De tudo o que se pode ter neste mundo, nada lhe era agradável ou desagradável. Desprezava todas as coisas que admiramos, como se despreza a erva apodrecida. Para ele, tanto os tiranos como as multidões enfurecidas eram como mosquitos.

Considerava como jogos de crianças os mil suplícios, os tormentos e a própria morte, contanto que pudesse sofrer alguma coisa por Cristo.
-- Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo.

19 de jan. de 2011

A vocação à Santidade

Se alguém quiser me seguir, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e me siga (Mt 16,24). Parece dura e pesada a ordem do Senhor: quem quiser segui-lo, tem que renunciar a si mesmo. Mas não é duro nem pesado quem ordena, pois ele próprio nos ajuda a cumprir seu preceito.

Como é verdade o que lhe dizem no salmo: Seguindo as palavras de vossos lábios, percorri duros caminhos (Sl 16,4), também é verade o que ele nos disse: O meu jugo é suave e meu fardo é leve (Mt 11,30). A caridade torna leve tudo quanto é duro no preceito.

Que significa: Tome a sua cruz? Quer dizer: suporte tudo o que custa e então me siga. Na verade, quem começar a seguir meus exemplos e preceitos, encontrará nuitos que o critiquem, que o impeçam, que tentem dissuádi-lo, mesmo entre os que parecem discípulos de Cristo. Andavam com Cristo os que proibiam os cegos de clamar por ele. Tu, portanto, no meio das ameaças, de carinhos ou proibições, sejam quias forem, se quiseres seguir a Cristo, transforma tudo em cruz: suporta, carrega e não sucumba!


Simão de Cirene carrega a cruz de Cristo

Estamos num mundo santo, bom, reconciliado, salvo, ou melhor, em vias de salvação, mas desde já salvo em esperança - pois já fomos salvos, mas na esperança (Rm 8,24). Com efeito, neste mundo, que é a Igreja, seguidora fiel de Cristo, disse ele a todos: Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo (Mt 16,24).

Esta palavra não deve ser ouvida como dirigida apenas às virgens e não às esposas; nem só para as viúvas e não para as casadas; nem só para os  monges e não para os maridos; nem só para os clérigos e não para os leigos. Pois toda a Igreja, todo o corpo, todos os seus membros, diferentes e distribuídos segundo suas próprias tarefas, devem seguir o Cristo.

Siga-o toda a Igreja que é uma só, siga-o a pomba, siga-o a esposa, redimida e dotada pelo sangue do Esposo. Nela encontra lugar tanto a integridade das virgens como a castidade das viúvas e o pudor dos casais.

Estes membros, que nela encontram seu lugar, sigam o Cristo, cada um segundo a sua vocação, posição ou medida. Renunciem a si mesmos, isto é, não se vangloriem; tomem a sua cruz, quer dizer, suportem no mundo, por amor de Cristo, tudo o que lançarem contra eles. Amem o único que ilude, o único que não é enganado nem engana; amem-no, porque é verdade aquilo que promete. Como suas promessas tardam, a fé vacila. Mas sê constante, perseverante, suporta a demora e terás tomado a cruz.

-- Dos Sermões de Santo Agostinho, bispo (século V)

17 de jan. de 2011

A Vocação de Santo Antão

Depois da morte de seus pais, tendo ficado sozinho com uma única irmã ainda pequena, Antão, que tinha uns dezoito ou vinte anos, tomou conta da casa e da irmã.

Santo Antão, fundador do monaquismo cristão 
Mal haviam passado seis meses desde o falecimento dos pais, indo um dia à igreja, como de costume, refletia consigo mesmo sobre o motivo que levara os apóstolos a abandonarem tudo para seguir o Salvador; e por qual razão aqueles homens de que se fala nos Atos dos Apóstolos vendiam suas propriedades e depositavam o preço aos pés dos apóstolos para ser distribuído entre os pobres. Ia também pensando na grande e maravilhosa esperança que lhes estava reservada nos céus. Meditando nestas coisas, entrou na igreja no exato momento em que se lia o evangelho, e ouviu o que o Senhor disse ao jovem rico: Se tu queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres. Depois vem e segue-me, e terás um tesouro no céu (Mt 19,21).
Antão considerou que a lembrança dos santos exemplos lhe tinha vindo de Deus, e que aquelas palavras eram dirigidas pessoalmente para ele. Logo que voltou da igreja, repartiu com os habitantes da aldeia as propriedades que herdara da família (possuía trezentos campos lavrados, férteis e muito aprazíveis) para que não fossem motivo de preocupação, nem para si próprio nem para a irmã. Vendeu também todos os móveis e distribuiu com os pobres a grande quantia que obtivera, reservando apenas uma pequena parte por causa da irmã.

Entrando outra vez na igreja, ouviu o Senhor dizer no evangelho: Não vos preocupeis com o dia de amanhã (Mt 6,34). Não podendo mais resistir, até aquele pouco que restara, deu-o aos pobres. Confiou a irmã a uma comunidade de virgens consagradas que conhecia e considerava fiéis, para que fosse educada no Mosteiro. Quanto a ele, a partir de então, entregou-se a uma vida de ascese e rigorosa mortificação, nas imediações de sua casa.
Trabalhava com as próprias mãos, pois ouvira a palavra da Escritura: Quem não quer trabalhar, também não deve comer (1Ts 3,10). Com uma parte do que ganhava comprava o pão que comia; o resto dava aos pobres.

Rezava continuamente, pois aprendera que é preciso rezar a sós sem cessar (1Ts 5,17). Era tão atento à leitura que nada lhe escapava do que tinha lido na Escritura; retinha tudo de tal forma que sua memória acabou por se substituir aos livros.
Todos os habitantes da aldeia e os homens honrados que tratavam com ele, vendo um homem assim, chamavam-no amigo de Deus; uns o amavam como a filho, outros como a irmão.

-- Da Vida de Santo Antão, escrita por Santo Atanásio, bispo (século IV)

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