30 de abr de 2012

O primeiro artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Cristão)


Que ensina o primeiro artigo do Creio?
- Que há um só Deus em três pessoas realmente distintas, das quais a primeira é o Pai, o qual é onipresente e do nada criou o Céu, a Terra e todas as coisas que há no Céu e na Terra.

Porque se diz que Deus é Pai?
- Porque é pai de todos os homens que ele criou, conserva e governa. Porque por especial graça é pai dos cristãos, os quais são chamados filhos adotivos de Deus. Porque aqui se trata principalmetne da primeira pessoa da Santíssima Trindade, que é chamada Pai, porque é por natureza pai da segunda, isto é, o Filho.

Porque é o Pai a priemira pessoa da Santíssima Trindade?
- Porque Ele não procede de outra pessoa, mas é o princípio das outras duas pessoas, isto é, do Filho e do Espírito Santo.

O que quer dizer aquela palavra "onipotente" ou "todo-poderoso"?
- Que Deus pode fazer tudo aquilo que desejar.

Deus não pode pecar nem morrer; como se diz que Ele pode tudo?
- Diz-se que Deus tudo pode, posto que não pode pecar nem morrer, porque o pecar ou morrer não é efeito de grande poder ou valor, mas de fraqueza, a qual não pdoe achar-se em Deus que é perfeitíssimo.

Explicai com maior clareza o que quer dizer "Criador do Céu e da Terra".
- Criar quer dizer "tirar do nada" alguma coisa; portanto Deus se diz criador do céu e da terra porque os tirou do nada, assim como todas as cosias que no céu e na Terra se contêm.

O mundo foi criado somente pelo Pai?
- Foi criado igualmente por todas as três pessoas divinas, porque tudo quanto obra uma pessoa, o fazem também as outras duas pessoas.

Porque pois se atribui particularmente ao Pai a Criação?
- Porque sendo o Pai o princípio das outras duas pessoas, com propriedade se diz também princípio de todas as coisas criadas.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

29 de abr de 2012

O Espírito vivifica


O Senhor que nos concede a vida, estabeleceu conosco a aliança do batismo, como símbolo da morte e da vida. A água é imagem da morte e o Espírito nos dá o penhor da vida. Assim, torna-se evidente o que antes perguntávamos: por que a água está unida ao Espírito? É dupla, com efeito, a finalidade do batismo: destruir o corpo do pecado para que nunca mais produza frutos de morte, e vivificá-lo pelo Espírito, para que dê frutos de santidade. A água é a imagem da morte porque recebe o corpo como num sepulcro; e o Espírito, por sua vez, comunica a força vivificante que renova nossas almas, libertando-as da morte do pecado e restituindo-lhes a vida. Nisto consiste o novo nascimento da água e do Espírito:na água realiza-se a nossa morte, enquanto o Espírito nos traz a vida.
Pia Batismal, no Batistério em frente a Catedral de Florença

O grande mistério do batismo realiza-se em três imersões e três invocações, para que não somente fique bem expressa a imagem da morte, mas também a alma dos batizados seja iluminada pelo dom da ciência divina. Por isso, se a água tem o dom da graça, não é por sua própria natureza mas pela presença do Espírito. O batismo, de fato, não é uma purificação da imundície corporal, mas o compromisso de uma consciência pura perante Deus. Eis por que o Senhor, a fim de nos preparar para a vida que brota da ressurreição, propõe-nos todo o programa de uma vida evangélica, prescrevendo que não nos entreguemos à cólera, sejamos pacientes nas contrariedades e livres da aflição dos prazeres e do amor ao dinheiro. Isto nos manda o Senhor, para nos induzir a praticar, desde agora, aquelas virtudes que na vida futura se possuem como condição natural da nova existência.

O Espírito Santo restitui o paraíso, concede-nos entrar no reino dos céus e voltar à adoção de filhos. Dá-nos a confiança de chamar a Deus nosso Pai, de participar da graça de Cristo, de sermos chamados filhos da luz, de tomar parte na glória eterna, numa palavra, de receber a plenitude de todas as bênçãos tanto na vida presente quanto na futura. Dá-nos ainda contemplar, como num espelho, a graça daqueles bens que nos foram prometidos e que pela fé esperamos usufruir como se já estivessem presentes. Ora, se é assim o penhor, qual não será a plena realidade? E, se tão grandes são as primícias, como não será a consumação de tudo?

-- Do Livro Sobre o Espírito Santo, de São Basílio, bispo (século IV)

25 de abr de 2012

A pregação da verdade


Santo Irineu, bispo
A Igreja, espalhada pelo mundo inteiro até os confins da terra, recebeu dos apóstolos e de seus discípulos a fé em um só Deus, Pai todo-poderoso, que criou o céu, a terra, o mar e tudo o que neles existe (cf. At 4,24); em um só Jesus Cristo Filho de Deus, que se fez homem para nossa salvação; e no Espírito Santo, que, pela boca dos profetas, anunciou antecipadamente os desígnios de Deus: a vinda de Jesus Cristo, nosso amado Senhor, o seu nascimento de uma Virgem, a sua paixão e ressurreição de entre os mortos, a ascensão corporal aos céus, a sua futura vinda do céu na glória do Pai. Então ele virá para recapitular o universo inteiro (cf. Ef 1,10) e ressuscitar todos os homens, a fim de que, segundo a vontade do Pai invisível, diante de Cristo Jesus nosso Senhor, Deus, Salvador e Rei, todo joelho se dobre no céu, na terra e abaixo da terra, e toda língua o proclame (cf. Fl 2,10-11), e ele julgue todos os  homens com justiça.

A Igreja recebeu, como dissemos, e guarda com todo cuidado esta pregação e esta fé; apesar de espalhada pelo mundo inteiro, guarda-a como se morasse em uma só casa. Acredita nela como quem possui uma só alma e um só coração; e a proclama, ensina e transmite, como se tivesse uma só boca. Porque, embora através do  mundo haja línguas muito diferentes, a força da Tradição é uma só e a mesma para todos.

25 de Abril, dia de São Marcos
As Igrejas fundadas na Germânia, as que se encontram na Ibéria e nas terras celtas, as do Oriente, do Egito e Líbia, ou as do centro do mundo, não crêem nem ensinam de modo diferente. Assim como o sol, criatura de Deus, é um só e o mesmo para todo o universo, igualmente a pregação da verdade brilha em toda parte e ilumina todos os homens que querem chegar ao conhecimento da verdade.

E dos que presidem às Igrejas, nem mesmo o mais eloqüente, dirá coisas diferentes das que afirmamos, pois ninguém está acima do divino Mestre; nem o orador menos hábil enfraquecerá a Tradição. Sendo uma só e mesma a fé, nem aquele que muito diz sobre ela a aumenta, nem aquele que diz menos a diminui.

-- Do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo

24 de abr de 2012

Nós sofremos com a agitação das ondas, mas é o Senhor que nos transporta

Em tudo aquilo que faz, o Senhor nos ensina como viver aqui na terra. Não há ninguém neste mundo que não seja viajante, ainda que nem todos desejem voltar à pátria. Sofremos com as ondas e as tempestades que decorrem da viagem. Mas, pelo menos, permaneçamos na barca. Pois, se há perigo até dentro da barca, fora da barca a morte é inevitável!  Aquele que nada em alto mar pode ter braços muito possantes; contudo, cedo ou tarde, vencido pela imensidão das águas, é por elas tragado, e desaparece. Assim, é necessário permanecer na barca, isto é, ser transportado pelo lenho, para poder atravessar o mar. 


Esse lenho que transporta a nossa fraqueza é a cruz do Senhor, da qual trazemos o sinal, e que nos impede de ser tragado pelo mundo. Nós sofremos com a agitação das ondas, mas é o Senhor que nos transporta.A barca que transporta os discípulos, isto é, a Igreja atravessa as águas, e as tempestades das provações assaltam-na. O vento contrário, ou seja, o demônio que faz oposição à Igreja, não se acalma. Ele se esforça por impedi-la de chegar ao repouso. Mas grande é aquele que intercede por nós. 


Com efeito, na tumultuosa navegação em que pelejamos, ele transmite confiança, vem ao nosso encontro e nos reconforta, de medo que, abalados pela barca, nós nos deixemos abater e nos atiremos ao mar. Pois, mesmo se a barca é sacudida, é ainda assim, uma barca: só ela transporta os discípulos e recebe Cristo. Ela está em grande perigo sobre o mar, mas fora dela, logo pereceremos. Mantém-te firme na barca, e ora ao Senhor. Todos os conselhos podem faltar; o leme torna-se insuficiente; as velas estendidas, mais perigosas que úteis. Quando todos os socorros e as forças humanas falharem, só resta aos marinheiros o propósito de orar e erguer os corações para Deus. Por acaso, aquele que conduz os navegantes até o porto, irá abandonar a Igreja e não a conduzirá ao repouso?

-- Sermão 75, Santo Agostinho, bispo (século V)

23 de abr de 2012

A Oração do Creio (Compêndio da Doutrina Cristã)


Qual a primeira parte da Doutrina Cristã?
- O Símbolo dos Apóstolos, vulgarmente chamado o Credo ou Creio.

Porque vós chamais o Credo de "Símbolo dos Apóstolos"?
- Chama-se Símbolo porque é uma divisa, com a qual se podem distinguir os cristãos dos fiéis. E chama-se Dos Apóstolos porque o compuseram os Santos Apóstolos, para dar a todos os cristãos uma e mesma regra do que devem crer, a qual contivesse os principais artigos da Fé.

Quantos são os artigos que estão no Credo?
- São doze.

Por favor, dizei os distintamente.
1: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, criador do céu e da terra,
2: e em Jesus Cristo, seu único filho, Nosso Senhor,
3: concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria,
4: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado,
5: desceu à mansão dos mortos, ressuscitou no terceiro dia,
6: subiu aos céus e está sentado a direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
7: de onde irá julgar os vivos e os mortos.
8: Creio no Espírito Santo,
9: na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos
10: na remissão dos pecados,
11: na ressurreição do corpo
12: e na vida eterna. Amém.

O que quer dizer aquela palavra que proferis no princípio do Símbolo, "Creio"?
- Quer dizer eu tenho por sumamente verdadeiro tudo o que nestes doze artigos se contem; e tudo isso Creio mais firmemente do que se o visse com os próprios olhos.

Porque credes tão firmemente nestes artigos e em todas os outras verdades que crê e ensina a Igreja Católica?
- Porque são todas verdades reveladas por Deus, o qual não pode enganar nem enganar-se.

Que coisa contem em suma estes artigos?
- Tudo o que principalmente se deve crer de Deus, de Jesus Cristo e da sua Igreja.

É de muito proveito rezar frequentemente o Creio?
- É coisa utilíssima para imprimir-se cada vez mais no coração os artigos da fé.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

18 de abr de 2012

Parabéns ao Papa Bento XVI


O Papa Bento XVI foi eleito em 19 de Abril de 2005 para ser o sucessor de Pedro e líder da Igreja. Neste período tem feito homílias e diversos textos realmente notáveis, verdadeiros frutos do Espírito Santo. Alguns poucos foram publicados aqui. Vai abaixo uma pequena lista:


Significado da Páscoa


Queridos irmãos e irmãs!

"Et resurrexit tertia die secundum Scripturas" 
"Ressuscitou no terceiro dia segundo as Escrituras"

Cada domingo, com o Credo, renovamos a nossa profissão de fé na ressurreição de Cristo, acontecimento surpreendente que constitui a chave de volta do cristianismo. Na Igreja tudo se compreende a partir deste grande mistério, que mudou o curso da história e que se torna atual em cada celebração eucarística. Mas existe um tempo litúrgico no qual esta realidade central da fé cristã, na sua riqueza doutrinal e inexaurível vitalidade, é proposta aos fiéis de modo mais intenso, para que cada vez mais a redescubram e mais fielmente a vivam:  é o tempo pascal. Cada ano, no "Santíssimo Tríduo de Cristo crucificado, morto e ressuscitado", como lhe chama Santo Agostinho, a Igreja repercorre, num clima de oração e de penitência, as etapas conclusivas da vida terrena de Jesus:  a sua condenação à morte, a subida ao Calvário carregando a cruz, o seu sacrifício pela nossa salvação, a sua deposição no sepulcro. No "terceiro dia", depois, a Igreja revive a sua ressurreição:  é a Páscoa, passagem de Jesus da morte para a vida, na qual se cumprem em plenitude as antigas profecias. Toda a liturgia do tempo pascal canta a certeza e a alegria da ressurreição de Cristo.

Queridos irmãos e irmãs, devemos constantemente renovar a nossa adesão a Cristo morto e ressuscitado por nós:  a sua Páscoa é também a nossa Páscoa, porque em Cristo ressuscitado é-nos dada a certeza da nossa ressurreição. A notícia da sua ressurreição dos mortos não envelhece e Jesus está sempre vivo; e vivo é o seu Evangelho. "A fé dos cristãos observa Santo Agostinho é a ressurreição de Cristo". Os Atos dos Apóstolos explicam-no claramente:  Deus ofereceu a todos um motivo de crédito com o fato de O ter ressuscitado dentre os mortos (At 17, 31). De fato, não era suficiente a morte para demonstrar que Jesus é verdadeiramente o Filho de Deus, o Messias esperado. No decorrer da história muitos consagraram a sua vida a uma causa considerada justa e morreram! E permaneceram mortos. A morte do Senhor demonstra o amor imenso com que Ele nos amou até ao sacrifício por nós; mas só a sua ressurreição é "prova certa", é certeza de que quanto Ele afirma é verdade que vale também para nós, para todos os tempos. Ressucitando-o, o Pai glorificou-o. São Paulo assim escreve na Carta aos Romanos:  Se confessares com a tua boca o Senhor Jesus e creres no teu coração que Deus O ressuscitou dentre os mortos, serás salvo (Rm 10, 9).

É importante reafirmar esta verdade fundamental da nossa fé, cuja verdade histórica é amplamente documentada, mesmo se hoje, como no passado, não falta quem de modos diversos a põe em dúvida ou até a nega. O enfraquecimento da fé na ressurreição de Jesus consequentemente torna débil o testemunho dos crentes. De fato, se faltar na Igreja a fé na ressurreição, tudo pára, tudo desmorona. Ao contrário, a adesão do coração e da mente a Cristo morto e ressuscitado muda a vida e ilumina toda a existência das pessoas e dos povos. Não é porventura a certeza de que Cristo ressuscitou que dá coragem, audácia profética e perseverança aos mártires de todos os tempos? Não é o encontro com Jesus vivo que converte e fascina tantos homens e mulheres, que desde o início do cristianismo continuam a deixar tudo para o seguir e pôr a própria vida ao serviço do Evangelho? Se Cristo não ressuscitou  é  vã  a  nossa  pregação e vã a nossa fé (1 Cor 15, 14). Mas ressuscitou!

O anúncio que ouvimos constantemente de novo nestes dias é precisamente este:  Jesus ressuscitou, é o Vivente e nós podemos encontrá-Lo. Como o encontraram as mulheres que, na manhã do terceiro dia, o dia depois do sábado, tinham ido ao sepulcro; como o encontraram os discípulos, surpreendidos e perturbados com o que as mulheres tinham contado; como o encontraram muitas outras testemunhas nos dias depois da sua ressurreição. E, também depois da sua Ascensão, Jesus continuou a permanecer presente entre os seus amigos como tinha prometido:  E Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo (Mt 28, 20). O Senhor está conosco, com a sua Igreja, até ao fim dos tempos. Iluminados pelo Espírito Santo, os membros da Igreja primitiva começaram a proclamar o anúncio pascal abertamente e sem receio. E este anúncio,  transmitido  de  geração em geração, chegou até nós e ressoa todos os anos na Páscoa com poder sempre novo.

Especialmente nesta Oitava de Páscoa a liturgia convida-nos a encontrar pessoalmente o Ressuscitado e a reconhecer a sua acção vivificante nos acontecimentos da história e do nosso viver quotidiano. Hoje, quarta-feira, é-nos proposto por exemplo o episódio comovedor dos dois discípulos de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). Depois da crucifixão de Jesus, imersos na tristeza e na desilusão, eles regressavam a casa desconfortados. Durante o caminho falavam entre si de quanto tinha acontecido naqueles dias em Jerusalém; foi então que Jesus se aproximou, começou a falar com eles e a admoestá-los:  Ó homens sem inteligência e lentos de espírito em crer em tudo quanto os profetas anunciaram! Não tinha o Messias de sofrer essas coisas para entrar na Sua glória? (Lc 24, 25-26). Começando depois por Moisés e por todos os profetas, explicou-lhes em todas as Escrituras o que se referia a Ele. O ensinamento de Cristo a explicação das profecias foi para os discípulos de Emaús como uma revelação inesperada, luminosa e confortadora. Jesus dava uma nova chave de leitura da Bíblia e agora tudo parecia claro, orientado precisamente para este momento. Conquistados pelas palavras do viandante desconhecido, pediram-lhe que ceasse com eles. E Ele aceitou e pôs-se à mesa com eles. Refere o evangelista Lucas:  Entrou para ficar com eles e, quando Se pôs à mesa, tomou o pão, pronunciou a bênção e, depois de o partir, entregou-lho (Lc 24, 29-30). E foi precisamente naquele momento que se abriram os olhos e os dois discípulos o reconheceram, mas Ele desapareceu da sua presença (Lc 24, 31). Cheios de admiração e de alegria comentaram:  Não estava o nosso coração a arder cá dentro, quando Ele nos falava pelo caminho e nos explicava as escrituras? (Lc 24, 32).

Em todo o ano litúrgico, particularmente na Semana Santa e na Semana de Páscoa, o Senhor está a caminho connosco e explica-nos as Escrituras, faz-nos compreender este mistério:  tudo fala d'Ele. E isto deveria fazer arder os nossos corações, para que se possam abrir também os nossos olhos. O Senhor está conosco, mostra-nos o verdadeiro caminho. Como os dois discípulos reconheceram Jesus ao partir o pão, hoje, ao partir o pão, também nós reconheçamos a sua presença. Os discípulos de Emaús reconheceram-no e recordaram-se dos momentos em que Jesus tinha partido o pão. E este partir o pão faz-nos pensar precisamente na primeira Eucaristia celebrada no contexto da Última Ceia, onde Jesus partiu o pão e assim antecipou a sua morte e a sua ressurreição, dando-se a si mesmo aos discípulos. Jesus parte o pão também connosco e para nós, faz-se presente connosco na Santa Eucaristia, doa-se a Si mesmo e abre os nossos corações. Possamos também nós encontrar e conhecer Jesus na Santa Eucaristia, no encontro com a sua Palavra, nesta dupla Mesa da Palavra, do Pão e do Vinho consagrados. Todos os domingos a comunidade revive a Páscoa do Senhor e recebe do Salvador o seu testamento de amor e de serviço fraterno. Queridos irmãos e irmãs, a alegria destes dias torne ainda mais firme a nossa fiel adesão a Cristo crucificado e ressuscitado. Sobretudo, deixemo-nos conquistar pelo fascínio da sua ressurreição. Ajude-nos Maria a ser mensageiros da luz e da alegria da Páscoa para tantos irmãos nossos. Desejo mais uma vez a todos votos cordiais de Boa Páscoa.


-- Papa Bento XVI, 26 de Março de 2008.

17 de abr de 2012

Santo Anselmo de Aosta


Prezados irmãos e irmãs

Santo Anselmo, bispo de Cantuária
Em Roma, na colina do Aventino, encontra-se a Abadia beneditina de Santo Anselmo. Como sede de um Instituto de estudos superiores e do Abade Primaz dos Beneditinos Confederados, ela é um lugar que une em si a oração, o estudo e o governo, precisamente as três atividades que caracterizam a vida do Santo ao qual é dedicada: Anselmo de Aosta, de quem se recorda este ano o IX centenário da morte. 

As múltiplas iniciativas, promovidas especialmente pela diocese de Aosta para esta fausta celebração, puseram em evidência o interesse que continua a suscitar este pensador medieval. Ele é conhecido também como Anselmo de Bec e Anselmo de Cantuária, devido às cidades com as quais esteve em contato. 

Quem é esta figura à qual três localidades distantes entre si e situadas em três nações diferentes — Itália, França e Inglaterra — se sentem particularmente ligadas? Monge de intensa vida espiritual, excelente educador de jovens, teólogo com uma extraordinária capacidade especulativa, sábio homem de governo e defensor intransigente da Libertas Ecclesiae, da liberdade da Igreja, Anselmo é uma das personalidades eminentes da Idade Média, que soube harmonizar todas estas qualidades graças a uma profunda experiência mística, que sempre orientou o seu pensamento e a sua acção.

Santo Anselmo nasceu em 1033 (ou no início de 1034) em Aosta, primogénito de uma família nobre. O pai era homem rude, dedicado aos prazeres da vida e dissipador dos seus bens; a mãe, ao contrário, era mulher de costumes excelsos e de profunda religiosidade. Foi ela que se ocupou da primeira formação humana e religiosa do filho, que depois confiou aos Beneditinos de um priorado de Aosta. Anselmo, que quando era criança — como narra o seu biógrafo — imaginava a morada do bom Deus entre os cumes altos e nevados dos Alpes, uma noite sonhou que tinha sido convidado para esta mansão maravilhosa pelo próprio Deus, que se entreteve prolongada e afavelmente com ele e, no final, ofereceu-lhe de comer "um pão extremamente cândido"

Este sonho deixou-lhe a convicção de ser chamado a cumprir uma alta missão. Com quinze anos de idade, pediu para ser admitido na Ordem beneditina, mas o pai opôs-se com toda a sua autoridade e não cedeu sequer quando o filho, gravemente enfermo e sentido-se próximo da morte, implorou o hábito religioso como conforto supremo. Depois da sua cura e da morte prematura da mãe, Anselmo atravessou um período de dissipação moral: descuidou os estudos e, dominado pelas paixões terrenas, tornou-se surdo ao chamamento de Deus. Saiu de casa e começou a viajar pela França em busca de novas experiências. 

Depois de três anos, tendo chegado à Normandia, foi à Abadia beneditina de Bec, atraído pela fama de Lanfranco de Pavia, prior do mosteiro. Para ele foi um encontro providencial e decisivo para o resto da sua vida. Com efeito, sob a guia de Lanfranco, Anselmo retomou vigorosamente os estudos e, em breve tempo, tornou-se não apenas o pupilo predileto, mas também o confidente do mestre. A sua vocação monástica reacendeu-se e, depois de uma avaliação atenta, com 27 anos de idade, entrou na Ordem monástica e foi ordenado sacerdote. A ascese e o estudo abriram-lhe novos horizontes, fazendo-lhe reencontrar, a nível muito mais elevado, aquela familiaridade com Deus, que ele tivera quando era criança.

Quando, em 1063, Lanfranco se tornou abade de Caen, Anselmo, após apenas três anos de vida monástica, foi nomeado prior do mosteiro de Bec e mestre da escola claustral, revelando dotes de educador requintado. Não gostava dos métodos autoritários; comparava os jovens com plantas pequenas que se desenvolvem melhor se não permanecem fechadas na estufa, e concedia-lhes uma liberdade "sadia". Era muito exigente consigo mesmo e com os outros na observância monástica, mas em vez de impor a disciplina, empenhava-se a fazê-la seguir com a persuasão. 

Quando faleceu o abade Herluino, fundador da Abadia de Bec, Anselmo foi eleito unanimemente seu sucessor: corria o mês de Fevereiro de 1079. Entretanto, numerosos monges tinham sido chamados para Cantuária, a fim de levar aos irmãos da outra margem do canal da Mancha a renovação em curso no continente. A sua obra foi bem aceite, a tal ponto que Lanfranco de Pavia, abade de Caen, se tornou o novo Arcebispo de Cantuária e pediu a Anselmo que transcorresse um certo período com ele para instruir os monges e para o ajudar na difícil situação em que se encontrava a sua comunidade eclesial, depois da invasão dos Normandos. A permanência de Anselmo revelou-se muito fecunda; ele conquistou simpatia e estima, a tal ponto que, com a morte de Lanfranco, foi escolhido para lhe suceder na sede arquiepiscopal de Cantuária. Recebeu a solene consagração episcopal em Dezembro de 1093.

Anselmo comprometeu-se imediatamente numa luta enérgica pela liberdade da Igreja, apoiando com coragem a independência do poder espiritual em relação ao temporal. Defendeu a Igreja contra as ingerências indevidas das autoridades políticas, sobretudo dos reis Guilherme, o Vermelho, e Henrique I, encontrando encorajamento e apoio no Romano Pontífice, a quem Anselmo demonstrou sempre uma adesão intrépida e cordial. Esta fidelidade custou-lhe, em 1103, também a amargura do exílio da sua sede de Cantuária. E somente quanto, em 1106, o rei Henrique I renunciou à pretensão de conferir as investiduras eclesiásticas, assim como à cobrança dos impostos e à confiscação dos bens da Igreja, Anselmo pôde regressar à Inglaterra, onde foi recebido festivamente pelo clero e pelo povo. Assim, concluiu-se felizmente a longa luta por ele empreendida com as armas da perseverança, da determinação e da bondade. 

Este santo Arcebispo, que suscitava tanta admiração ao seu redor onde quer que fosse, dedicou os últimos anos da sua vida principalmente à formação moral do clero e à pesquisa inteletual a respeito de temas teológicos. Faleceu no dia 21 de Abril de 1109, acompanhado pelas palavras do Evangelho proclamado na Santa Missa daquele dia: "Vós estivestes sempre junto de mim nas minhas provações, e Eu disponho a vosso favor do Reino, como meu Pai dispõe dele, a fim de que comais e bebais à minha mesa..." (Lc 22, 28-30). O sonho daquele banquete misterioso, que quando era criança tivera precisamente no início do seu caminho espiritual, encontrava assim a sua realização. Jesus, que o tinha convidado para se sentar à sua mesa, acolheu Santo Anselmo, na sua morte, no reino eterno do Pai.

"Deus, rogo-vos, desejo conhecer-vos, quero amar-vos e poder regozijar-me em Vós. E se nesta vida não sou capaz disto na medida plena, que eu possa pelo menos progredir cada dia, até alcançar a plenitude" (Proslogion, cap. 14). Esta oração permite compreender a alma mística deste grande santo da época medieval, fundador da teologia escolástica, a quem a tradição cristã atribuiu o título de "Doutor Magnífico", porque cultivou um desejo intenso de aprofundar os Mistérios divinos, porém na plena consciência de que o caminho de busca de Deus nunca termina, pelo menos nesta terra. A clareza e o rigor lógico do seu pensamento tiveram sempre como finalidade "elevar a mente à contemplação de Deus" (Ibid., Proemium). Ele afirma claramente que quem tem a intenção de fazer teologia não pode contar somente com a sua inteligência, mas deve cultivar ao mesmo tempo uma profunda experiência de fé. A atividade do teólogo, segundo Santo Anselmo, desenvolve-se assim em três fases: a fé, dom gratuito de Deus, a acolher com humildade; a experiência, que consiste em encarnar a palavra de Deus na própria existência quotidiana; e portanto o verdadeiro conhecimento, que jamais é fruto de raciocínios assépticos, mas sim de uma intuição contemplativa. A este propósito, parecem mais úteis do que nunca também hoje, para uma investigação teológica sadia e para quem quer que deseje aprofundar as verdades da fé, as suas célebres palavras: "Não tento, Senhor, penetrar a vossa profundidade, porque não posso sequer de longe comparar com ela o meu intelecto; mas desejo entender, pelo menos até um certo ponto, a vossa verdade, em que o meu coração crê e ama. Com efeito, não procuro compreender para crer, mas creio para compreender" (Ibid., 1).

Caros irmãos e irmãs, o amor pela verdade e a sede constante de Deus, que assinalaram toda a existência de Santo Anselmo, sejam um estímulo para cada cristão a procurar, sem nunca se cansar, uma união cada vez mais íntima com Cristo, Caminho, Verdade e Vida. Além disso, o zelo repleto de coragem que distinguiu a sua obra pastoral, e que às vezes lhe causou incompreensões, amarguras e até o exílio, seja um encorajamento para os Pastores, para as pessoas consagradas e para todos os fiéis, a amar a Igreja dIe Cristo, a rezar, a trabalhar e a sofrer por ela, sem nunca a abandonar nem atraiçoar. Conceda-nos esta graça a Virgem Mãe de Deus, por quem Santo Anselmo nutriu devoção terna e filial. "Maria, o meu coração quer amar-te — escreve Santo Anselmo — e os meus lábios desejam ardentemente louvar-te".

-- Papa Bento XVI, 23 de Setembro de 2009

* Dia 21 de Abril é festa litúrgica de Santo Anselmo.

Porque os homens são levados ao politeísmo


Os homens são levados ao politeísmo por quatro motivos:
São Tomás de Aquino, doutor da Igreja.

O primeiro, é a fraqueza da inteligência humana. Há homens, cuja fraqueza de inteligência não lhes permitiu ir além das coisas corpóreas, e, por isso, não acreditaram na existência de alguma natureza superior aos seres corpóreos.

Pensaram então que, entre aqueles seres corpóreos, os mais belos e mais dignos deveriam presidir e dirigir o mundo, e prestaram a eles um culto divino. Consideraram como sendo os corpos mais sublimes, os astros do céu: o sol, a lua e as estrelas. Acontece com eles o que aconteceu com aquele homem que, desejando ver o rei, foi à corte e confundiu com o rei quem logo encontrou bem vestido ou exercendo alguma função de ministro. 

Refere-se a esses o Livro do Profeta Isaías: Levantai bem alto os olhos e vede a terra por baixo. Os céus evaporar-se-ão como a fumaça, a terra envelhecer-se-á como as vestes e os seus habitantes perecerão como ela. Mas a minha salvação será eterna, e a minha justiça não terá fim (51, 6).

O segundo motivo, é a adulação dos homens. Muitos desejando adular os reis e os senhores, tributaram-lhes a honra devida a Deus. Obedeceram e se submeteram a eles. Houve quem os endeusassem após a morte, e houve os que os endeusaram também em vida. Lê-se na Escritura: Todos saibam que Nabucodonosor é deus da terra, e além dele outro deus não há (Jud. 5, 29).

O terceiro motivo provém da afeição carnal para os filhos e parentes. Alguns, levados por excessivo amor pelos parentes, levantaram-lhes estátuas após a morte, e, assim foram conduzidos a prestar culto divino àquelas estátuas. É a eles que se refere a Escritura: Deram os homens às pedras e à madeira um nome incomunicável, porque submeteram-se demais a afeição aos reis (Sab. 14, 21).

A quarta razão, pela qual os homens são levados a acreditar na existência de muitos deuses, é a malícia do diabo. Este, desde o início, quis ser igual a Deus: Colocarei meu trono no Aquilão, subirei aos céus e serei semelhante ao Altíssimo (Is. 14, 13). Até hoje ele não revogou essa vontade. Por isso esforça-se o mais possível para que os homens o adorem e lhe ofereçam sacrifícios. Não lhe satisfaz o ofertório de um cão ou de um gato, mas deleita-se quando lhe é prestado o culto devido a Deus. Disse o demônio a Cristo: Dar-te-ei tudo isto se de joelho me adorares (Mat. 4,9). Para que fossem adorados como deuses, os demônios entraram nos ídolos e por meio destes davam respostas. Lê-se na Escritura: Todos os deuses dos povos são demônios (Sl. 95, 5). Quando os gentios oferecem sacrifícios, fazem-no aos demônios, não a Deus (I Cor. 10,20).

É muitíssimo desagradável a consideração dessas quatro causas do politeísmo, mas representam realmente as razões pelas quais os homens acreditam na existência de muitos deuses. Muitas vezes eles não manifestam pelas palavras ou pelo coração que acreditam em muitos deuses, mas pelo atos. Aqueles que acreditam que os astros podem modificar a vontade dos homens, que para agir esperam certas épocas, naturalmente consideram os astros como deuses que dominam os outros seres e que fazem prodígios. Por isso somos advertidos pela Escritura: Não temei os sinais dos astros que os gentios temem, porque as suas leis são vãs (Jer. 10, 2).

Também aqueles que obedecem aos reis, ou aos que não devem obedecer, mais que a Deus, constituem a essas pessoas como os seus deuses. Adverte-nos também a Escritura: Convém mais obedecer a Deus que aos homens (At. 5, 29). Assim também os que amam os filhos e os parentes mais que a Deus, revelam pelos atos que acreditam em muitos deuses. Ou mesmo aqueles que amam mais os alimentos que a Deus, aos quais se refere S. Paulo com estas palavras: Dos quais o ventre é deus (Tm 3, 19).

Os que praticam a feitiçaria e se entregam aos sortilégios acreditam nos demônios como se eles fossem deuses, porque pedem aos demônios o que só se pode pedir a Deus, como sejam revelações e conhecimentos de coisas secretas ou futuras. Como tudo isso é falso, devemos acima de tudo acreditar que há um só Deus.

-- Do Sermão sobre o Credo, de São Tomás de Aquino (século XIII)

16 de abr de 2012

O que é a Doutrina Cristã? (Compêndio da Doutrina Cristã)


Sois vós cristão?
- Sou pela graça de Deus.

Por que dizeis pela graça de Deus?
- Porque o ser cristão é um dom de Deus, e o primeiro de todos os dons, o qual nós não podemos merecer.

Que entendeis por ser cristão?
- É cristão aquele que sendo batizado, crê e confessa a Doutrina Cristã.

Que coisa é a Doutrina Cristã?
- Entendo a doutrina que Nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou para mostrar-nos o caminho da salvação.

É necessário aprender a Doutrina ensinada por Jesus Cristo?
- É certamente necessário e não podem salvar-se os que por negligência deixarem de aprendê-la.

Quantas são as partes principais e mais necessárias desta Doutrina?
- São quatro: o Credo, o Pai Nosso, os Dez Mandamentos e os Sete Sacramentos.

Que coisa nos ensina o Credo?
- O Credo nos ensina os principais artigos da nossa santa fé.

Que coisa nos ensina o Pai Nosso?
- O Pai Nosso nos ensina tudo o que havemos de desejar, esperar e pedir a Deus.

Que coisa nos ensinam os Dez Mandamentos?
- Os Dez Mandamentos nos ensinam tudo o que devemos fazer para agradar a Deus, que tudo consiste em amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.

Que coisa nos ensinam os Sete Sacramentos?
- Ensinam quais são os meios e isntrumentos com que o Senhor comunica suas graças e infunde, ou aumenta em nós, as virtudes da fé, esperança e caridade.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

13 de abr de 2012

O pão do céu e a bebida da salvação


Santa Ceia, de Ivanici Gonçalves

Na noite em que foi entregue, nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão e, depois de dar graças, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei: isto é o meu corpo”. Em seguida, tomando o cálice, deu graças e disse: “Tomai e bebei: isto é o meu sangue” (cf. Mt 26,26-27; 1Cor 11,23-24). Tendo, portanto, pronunciado e dito sobre o pão: Isto é o meu corpo, quem ousará duvidar? E tendo afirmado e dito: Isto é o meu sangue, quem se atreverá ainda a duvidar e dizer que não é o seu sangue?

Recebamos, pois, com toda a convicção, o Corpo e o Sangue de Cristo. Porque sob a forma de pão é o corpo que te é dado, e sob a forma de vinho, é o sangue que te é entregue. Assim, ao receberes o corpo e o sangue de Cristo,te transformas com ele num só corpo e num só sangue. Deste modo, tendo assimilado em nossos membros o seu corpo e o seu sangue, tornamo-nos portadores de Cristo; tornamo-nos, como diz São Pedro, participantes da natureza divina (2Pd 1,4).

Outrora, falando aos judeus, dizia Cristo: Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós (cf. Jo 6,53). Como eles não compreenderam o sentido espiritual do que lhes era dito, afastaram-se escandalizados, julgando estarem sendo induzidos por Jesus a comer carne humana.

Na Antiga Aliança havia os pães da propiciação; por pertencerem ao Velho Testamento, já não mais existem. Na Nova Aliança, porém, trata-se de um pão do céu e de um cálice da salvação que santificam a alma e o corpo. Assim como o pão é próprio para a vida do corpo, também o Verbo é próprio para a vida da alma.

Por isso, não consideres o pão e o vinho eucarísticos como se fossem elementos simples e vulgares. São realmente o corpo e o sangue de Cristo, segundo a afirmativa do Senhor. Muito embora os sentidos te sugiram outra coisa, tema firme certeza do que a fé te ensina.

Se foste bem instruído pela doutrina da fé, acreditas firmemente que aquilo que parece pão, embora seja como tal sensível ao paladar, não é pão, mas é o corpo de Cristo. E aquilo que parece vinho, muito embora tenha esse sabor, não é vinho, mas é o sangue de Cristo. Antigamente, bem a propósito, já dizia Davi nos salmos: O pão revigora o coração do homem, e o óleo ilumina a sua face (Sl 103,15). Fortifica, pois, teu coração, recebendo esse pão espiritual e faze brilhar a alegria no rosto de tua alma.

Com o rosto iluminado por uma consciência pura, contemplando como num espelho a glória do Senhor, possas caminhar de claridade em claridade, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem sejam dadas honra, poder e glória pelos séculos sem fim. Amém.

-- Das Catequeses de Jerusalem (século IV)

11 de abr de 2012

A encarnação do Filho de Deus (Compêndio da Doutrina Cristã)


Qual das três pessoas da Santíssima Trindade se fez homem?
- A segunda pessoa, que é o Filho.

E de que modo veio a fazer-se Homem?
- Tomando um corpo e uma alma, como a que nós temos, no puríssimo ventre da Virgem Maria por obra do Espírito Santo.

Como se chama este mistério?
- Chama-se o Mistério da Encarnação.

Que significa esta palavra: "encarnação"?
- Quer dizer que o Filho de Deus se fez homem, tomando corpo e alama, como nós temos.

Encarnaram-se também o Pai e o Espírito Santo?
- O Pai e o Espírito Santo não se encarnaram, somente o Filho.

Estavam juntamente com o Filho?
- Sim, estavam juntamente com Ele porque uma Pessoa não pode estar sem as outras.

Quando o Filho de Deus se fez homem, deixou de ser Deus?
- Não deixou de ser Deus; mas ficando verdadeiramente Deus, começou a ser também verdadeiramente homem.

Como se chama o Filho de Deus feito homem?
- Jesus Cristo.

Quem é o Pai de Jesus Cristo?
- O Pai de Jesus Cristo é o Eterno Pai, que é a primeira pessoa da Santíssima Trindade.

Não teve Ele também algum pai terreno
- Não teve jamais algum pai terreno, mas somente mãe, a Virgem Maria.

Logo São José não foi seu Pai?
- Certamente não foi seu Pai, mas somente seu guarda, ou como se diz comumente, pai putativo.

Para que se fez homem o Filho de Deus?
- Para salvar-nos.

E nós seríamos salvos se o Filho de Deus não se fizesse homem?
- Não nos salvaríamos, pois éramos escravos do demônio e para sempre exclusos do céu.

E porque não podíamos salvar-nos?
- Pelo pecado de Adão, nosso primeiro pai.

Qual foi este pecado?
- Um pecado de desobediência.

Que mal nos trouxe este pecado de Adão?
- O pecado original, a ignorância, a inclinação ao pecado, a morte, e todas as outras misérias.

Que fez pois Jesus Cristo para salvar-nos?
- Padeceu e morreu numa cruz.

Como se faz alguma memória deste mistério?
- Com o benzer-se, como se diz, com o sinal da cruz.

Qual é o sinal de Cristo?
- É o sinal da cruz?

Como fazeis o sinal da cruz?
- Faça o sinal da cruz pondo a mão direita na testa dizendo "em nome do Pai"; e logo descendo com a mão ao peito, dizendo "e do Filho"; dai toco com a mão o ombro esquerdo e o direito, dizendo "e do Espírito Santo"; e depois com as mãos juntas, diz-se "Amem".

Que coisas contem este sinal da cruz?
- Contem os dois mistérios principais da nossa fé: a Unidade e a Trindade. A Unidade significada na palavra "em nome"; e a Trindade na invocação ao "Pai, Filho e Espírito Santo". Mostra-se também o Mistério da Encarnação e morte de Jesus Cristo no sinal da cruz.

É de algum proveito fazer ste sinal da cruz?
- É coisa de suma utiidade, contanto que se faça atenta e devotamente.

Em que tempo convem usar este sinal da cruz?
- Ao levantar-se da cama; ao dispor-se a dormir; ao entrar e sair da Igreja; no príncipio a oração e de outras obras de piedade.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

10 de abr de 2012

Homília Pascal - Papa Bento XVI - 2012


Queridos irmãos e irmãs!

A Páscoa é a festa da nova criação. Jesus ressuscitou e nunca mais morre. Arrombou a porta que dá para uma nova vida, que já não conhece doença nem morte. Assumiu o homem no próprio Deus. A carne e o sangue não podem herdar o Reino de Deus disse São Paulo na Primeira Carta aos Coríntios (15, 50). E todavia Tertuliano, escritor eclesiástico do século III, a propósito da ressurreição de Cristo e da nossa ressurreição, não temeu escrever: "Tende confiança, carne e sangue! Graças a Cristo, adquiristes um lugar no Céu e no Reino de Deus". Abriu-se uma nova dimensão para o homem. A criação tornou-se maior e mais vasta. 

A Páscoa é o dia duma nova criação, mas por isso mesmo, neste dia, a Igreja começa a liturgia apresentando-nos a criação antiga, para aprendermos a compreender bem a nova. E assim, na Vigília Pascal, a Liturgia da Palavra começa pela narração da criação do mundo. A propósito desta e no contexto da liturgia deste dia, são particularmente importantes duas coisas. 

Em primeiro lugar, a criação é apresentada como uma totalidade da qual faz parte o fenômeno do tempo. Os sete dias são imagem duma totalidade que se desenvolve no tempo, aparecendo os dias ordenados até ao sétimo, o dia da liberdade de todas as criaturas para Deus e de umas para as outras. Por conseguinte, a criação está orientada para a comunhão entre Deus e a criatura; a criação existe para que haja um espaço de resposta à glória imensa de Deus, um encontro de amor e liberdade. 

Em segundo lugar, na Vigília Pascal, a Igreja fixa a atenção sobretudo na primeira frase da narração da criação: Deus disse: “Faça-se a luz”! (Gn 1, 3). Emblematicamente, a narração da criação começa pela criação da luz. O sol e a lua são criados somente no quarto dia. A narração da criação designa-os como fontes de luz, que Deus colocou no firmamento do céu. Deste modo, priva-os propositalmente do caráter divino que as grandes religiões lhes tinham atribuído. Não! Não são deuses de modo algum; são corpos luminosos, criados pelo único Deus. Entretanto já os precedera a luz, pela qual a glória de Deus se reflete na natureza do ser que é criado.

Que pretende a narração da criação dizer com isto? A luz torna possível a vida; torna possível o encontro; torna possível a comunicação; torna possível o conhecimento, o acesso à realidade, à verdade. E, tornando possível o conhecimento, possibilita a liberdade e o progresso. O mal esconde-se. Por conseguinte, a luz aparece também como expressão do bem, que é luminosidade e cria luminosidade. É de dia que podemos trabalhar. O fato de Deus ter criado a luz significa que Ele criou o mundo como espaço de conhecimento e de verdade, espaço de encontro e de liberdade, espaço do bem e do amor. A matéria-prima do mundo é boa; o próprio ser é bom. E o mal não vem do ser que é criado por Deus, mas existe só em virtude da sua negação. É o «não».

Na Páscoa, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Deus disse novamente: Faça-se a luz!. Antes tinham vindo a noite do Monte das Oliveiras, o eclipse solar da paixão e morte de Jesus, a noite do sepulcro. Mas, agora, é de novo o primeiro dia; a criação recomeça inteiramente nova. Faça-se a luz!:  disse Deus. E a luz foi feita. Jesus ressuscita do sepulcro. A vida é mais forte que a morte. O bem é mais forte que o mal. O amor é mais forte que o ódio. A verdade é mais forte que a mentira. A escuridão dos dias anteriores dissipou-se no momento em que Jesus ressuscita do sepulcro e Se torna, Ele mesmo, pura luz de Deus. Isto, porém, não se refere somente a Ele, nem se refere apenas à escuridão daqueles dias. Com a ressurreição de Jesus, a própria luz é novamente criada. Ele atrai-nos a todos, levando-nos atrás de Si para a nova vida da ressurreição e vence toda a forma de escuridão. Ele é o novo dia de Deus, que vale para todos nós.

Mas isto, como pode acontecer? Como é possível chegar tudo isto até nós, de tal modo que não se reduza a meras palavras, mas se torne uma realidade que nos envolve? Por meio do sacramento do Batismo e da profissão da fé, o Senhor construiu uma ponte até nós, pela qual o novo dia nos alcança. No Batismo, o Senhor diz a quem o recebe: Fiat lux – faça-se a luz. O novo dia, o dia da vida indestrutível chega também a nós. Cristo toma-te pela mão. Daqui para a frente, serás sustentado por Ele e assim entrarás na luz, na vida verdadeira. Por isso, a Igreja antiga designou o Batismo como photismos – iluminação.

Porquê? A escuridão que verdadeiramente ameaça o homem é o fato de que ele é, na verdade, capaz de ver e investigar as coisas palpáveis, materiais, mas não vê para onde vai o mundo e donde o mesmo venha; para onde vai a sua própria vida; o que é o bem e o que é o mal. Esta escuridão acerca de Deus e a escuridão acerca dos valores são a verdadeira ameaça para a nossa existência e para o mundo em geral. Se Deus e os valores, a diferença entre o bem e o mal permanecem na escuridão, então todas as outras iluminações, que nos dão um poder verdadeiramente incrível, deixam de constituir somente progressos, mas passam a ser simultaneamente ameaças que nos põem em perigo a nós e ao mundo. Hoje podemos iluminar as nossas cidades de modo tão deslumbrante que as estrelas do céu deixam de ser visíveis. Porventura não temos aqui uma imagem da problemática que toca o nosso ser iluminado? Nas coisas materiais, sabemos e podemos incrivelmente tanto, mas naquilo que está para além disto, como Deus e o bem, já não o conseguimos individuar. Para isto serve a fé, que nos mostra a luz de Deus, a verdadeira iluminação: aquela é uma irrupção da luz de Deus no nosso mundo, uma abertura dos nossos olhos à verdadeira luz.

Por fim, queridos amigos, queria ainda acrescentar um pensamento sobre a luz e a iluminação. Na Vigília Pascal, a noite da nova criação, a Igreja apresenta o mistério da luz com um símbolo muito particular e humilde: o círio pascal. Trata-se de uma luz que vive em virtude do sacrifício: a vela ilumina, consumindo-se a si mesma; dá luz, dando-se a si mesma. Este é um modo maravilhoso de representar o mistério pascal de Cristo, que Se dá a Si mesmo e assim dá a grande luz. Uma segunda idéia, que a reflexão sobre luz da vela nos sugere, deriva do fato de a mesma ser fogo. Ora, o fogo é força que plasma o mundo, poder que transforma; e o fogo dá calor. E aqui se torna novamente visível o mistério de Cristo: Ele, a luz, é fogo; é chama que queima o mal, transformando assim o mundo e a nós mesmos. Quem está perto de Mim, está perto do fogo: assim reza um dito de Jesus, que nos foi transmitido por Orígenes. E este fogo é ao mesmo tempo calor: não uma luz fria, mas uma luz na qual vêm ao nosso encontro o calor e a bondade de Deus.

O Precónio (Pregão pascal), o grande hino que o diácono canta ao início da Liturgia Pascal, de modo muito discreto chama a nossa atenção ainda para outro aspecto. Lembra-nos que o material do círio se fica a dever, em primeiro lugar, ao trabalho das abelhas; e, assim, entra em cena a criação inteira. No círio, a criação torna-se portadora de luz. Mas, segundo o pensamento dos Padres, temos aí também uma alusão implícita à Igreja. Nesta, a cooperação da comunidade viva dos fiéis é parecida com o trabalho das abelhas; constrói a comunidade da luz. Assim podemos ver, no círio, também um apelo dirigido a nós mesmos e à nossa comunhão com a comunidade da Igreja, que existe para que a luz de Cristo possa iluminar o mundo.
Neste momento, peçamos ao Senhor que nos faça sentir a alegria da sua luz, de modo que nós mesmos nos tornemos portadores da sua luz, para que, através da Igreja, o esplendor do rosto de Cristo entre no mundo.


-- Homília da Vigília Pascal, Papa Bento XVI, em 7 de Abril de 2012

6 de abr de 2012

A descida do Senhor à mansão dos mortos


Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. 

Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos. 

O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa.  Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: “O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: “E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará. 

Eu sou o teu Deus, que por tua causa me tornei teu filho; por ti e por aqueles que nasceramde ti, agora digo, e com todo o meu poder, ordeno aos que estavam na prisão: ‘Saí!’; e aos que jaziam nas trevas: ‘Vinde para a luz!’; e aos entorpecidos: ‘Levantai-vos!’ 

Eu te ordeno: Acorda, tu que dormes, porque não te criei para permaneceres na mansão dos mortos. Levanta-te dentre os mortos; eu sou a vida dos mortos. Levanta-te, obra das minhas mãos; levanta-te, ó minha imagem, tu que foste criado à minha semelhança. Levanta-te, saiamos daqui; tu em mim e eu em ti, somos uma só e indivisível pessoa. 

Por ti, eu, o teu Deus, me tornei teu filho; por ti, eu, o Senhor, tomei tua condição de escravo. Por ti, eu, que habito no mais alto dos céus, desci à terra e fui até mesmo sepultado debaixo da terra; por ti, feito homem, tornei-me como alguém sem apoio, abandonado entre os mortos. Por ti, que deixaste o jardim do paraíso, ao sair de um jardim fui entregue aos judeus e num jardim, crucificado. 

Vê em meu rosto os escarros que por ti recebi, para restituir-te o sopro da vida original. Vê na minha face as bofetadas que levei para restaurar, conforme à minha imagem, tua beleza corrompida. 

Vê em minhas costas as marcas dos açoites que suportei por ti para retirar de teus ombros o peso dos pecados. Vê minhas mãos fortemente pregadas à árvore da cruz, por causa de ti, como outrora estendeste levianamente as tuas mãos para a árvore do paraíso. 

Adormeci na cruz e por tua causa a lança penetrou no meu lado, como Eva surgiu do teu, ao adormeceres no paraíso. Meu lado curou a dor do teu lado. Meu sono vai arrancar-te do sono da morte. Minha lança deteve a lança que estava dirigida contra ti. 

Levanta-te, vamos daqui. O inimigo te expulsou da terra do paraíso; eu, porém, já não te coloco no paraíso mas num trono celeste. O inimigo afastou de ti a árvore, símbolo da vida; eu, porém, que sou a vida, estou agora junto de ti. Constituí anjos que, como servos, te guardassem; ordeno agora que eles te adorem como Deus, embora não sejas Deus. 

Está preparado o trono dos querubins, prontos e a postos os mensageiros, construído o leito nupcial, preparado o banquete, as mansões e os tabernáculos eternos adornados, abertos os tesouros de todos os bens e o reino dos céus preparado para ti desde toda a eternidade”. 

-- De uma antiga Homilia no grande Sábado Santo (século IV)

Tenebrae

Tenebrae ("trevas"em latim) é uma celebração cristã que ocorre nos últimos três dias da Semana Santa: quinta, sexta e sábado de Aleluia. A cerimônia distingue-se pelo candelabro de 15 velas, que são apagadas progressivamente ao final de cada salmo. No rito católico, proclama-se os 3 salmos do ofício das leituras, os 3 salmos das laudes e o Benedictus (7a. vela). A vela mais alta é extinta ao final da celebração. Também proclama-se as leituras do ofício do dia. Entre o terceiro e quarto salmos, é lido (ou cantado) um trecho do Livro das Lamentações.

O vídeo abaixo mostra a proclamação de dois salmos durante a celebração na Sexta-Feira Santa de 2009, realizada pelos frades beneditinos, em Oxford.



Este segundo vídeo mostra a proclamação do Livro das Lamentações no Sábado de Aleluia.



Na Paróquia Imaculado Coração de Maria, Scarsdale (Arquidiocese de NY) está havendo celebrações às 9:00 horas da manhã.




5 de abr de 2012

O Cordeiro imolado libertou-nos da morte para a vida


Muitas coisas foram preditas pelos profetas sobre o mistério da Páscoa, que é Cristo, a quem seja dada a glória pelos séculos dos séculos. Amém (Gl 1,5). Ele desceu dos céus à terra para curar a enfermidade do homem; revestiu-se da nossa natureza no seio da Virgem e se fez homem; tomou sobre si os sofrimentos do homem enfermo num corpo sujeito ao sofrimento, e destruiu as paixões da carne; seu espírito, que não pode morrer, matou a morte homicida.

Foi levado como cordeiro e morto como ovelha; libertou-nos das seduções do mundo, como outrora tirou os israelitas do Egito; salvou-nos da escravidão do demônio, como outrora fez sair Israel das mãos do faraó; marcou nossas almas como sinal do seu Espírito e os nossos corpos com seu sangue.

Foi ele que venceu a morte e confundiu o demônio, como outrora Moisés ao faraó. Foi ele que destruiu a iniqüidade e condenou a injustiça à esterilidade, como Moisés ao Egito.

Foi ele que nos fez passar da escravidão para a liberdade, das trevas para a luz, da morte para a vida, da tirania para o reino sem fim, e fez de nós um sacerdócio novo, um povo eleito para sempre. Ele é a Páscoa da nossa salvação.

Foi ele que tomou sobre si os sofrimentos de muitos: foi morto em Abel; amarrado de pés e mãos em Isaac; exilado de sua terra em Jacó; vendido em José; exposto em Moisés; sacrificado no cordeiro pascal; perseguido em Davi e ultrajado nos profetas.

Foi ele que se encarnou no seio da Virgem, foi suspenso na cruz, sepultado na terra e, ressuscitando dos mortos, subiu ao mais alto dos céus.

Foi ele o cordeiro que não abriu a boca, o cordeiro imolado, nascido de Maria, a bela ovelhinha; retirado do rebanho, foi levado ao matadouro, imolado à tarde e sepultado à noite; ao ser crucificado, não lhe quebraram osso algum, e ao ser sepultado, não experimentou a corrupção; mas ressuscitando dos mortos, ressuscitou também a humanidade das profundezas do sepulcro.

-- Da Homilia sobre a Páscoa, de Melitão de Sardes, bispo (século II)

4 de abr de 2012

A plenitude do amor


Irmãos caríssimos, o Senhor definiu a plenitude do amor com que devemos amar-nos uns aos outros, quando disse: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Daqui se conclui o que o mesmo evangelista João diz em sua epístola: Jesus deu a sua vida por nós. Portanto, também nós devemos dar a vida pelos irmãos (1Jo 3,16), amando-nos verdadeiramente uns aos outros, como ele nos amou até dar a sua vida por nós.

É certamente a mesma coisa que se lê nos Provérbios de Salomão: Quando te sentares à mesa de um poderoso, olha com atenção o que te é oferecido; e estende a tua mão, sabendo que também deves preparar coisas semelhantes (cf. Pr 23,1-2 Vulg.).

Ora, a mesa do poderoso é a mesa em que se recebe o corpo e o sangue daquele que deu a sua vida por nós. Sentar-se à mesa significa aproximar-se com humildade. Olhar com atenção o que é oferecido, é tomar consciência da grandeza desta graça. E estender a mão sabendo que também se devem preparar coisas semelhantes, significa o que já disse antes: assim como Cristo deu a sua vida por nós, também devemos dar a nossa vida pelos irmãos. É o que diz o apóstolo Pedro: Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, a fim de que sigamos os seus passos (cf. 1Pd 2,21). Isto significa preparar coisas semelhantes. Foi o que fizeram, com ardente amor, os santos mártires. Se não quisermos celebrar inutilmente as suas memórias e nos sentarmos sem proveito à mesa do Senhor, no banquete onde eles se saciaram, é preciso que, como eles, preparemos coisas semelhantes.

Por isso, quando nos aproximamos da mesa do Senhor, não recordamos os mártires do mesmo modo como aos outros que dormem o sono da paz, ou seja, não rezamos por eles, mas antes pedimos para que rezem por nós, a fim de seguirmos os seus passos. Pois já alcançaram a plenitude daquele amor acima do qual não pode haver outro maior, conforme disse o Senhor. Eles apresentaram a seus irmãos o mesmo que por sua vez receberam da mesa do Senhor.

Não queremos dizer com isso que possamos nos igualar a Cristo Senhor, mesmo que, por sua causa, soframos o martírio até o derramamento de sangue. Ele teve o poder de dar a sua vida e depois retomá-la; nós, pelo contrário, não vivemos quanto queremos, e morremos mesmo contra a nossa vontade. Ele, morrendo, matou em si a morte; nós, por sua morte, somos libertados da morte. A sua carne não sofreu a corrupção; a nossa, só depois de passar pela corrupção, será por ele revestida de incorruptibilidade, no fim do mundo. Ele não precisou de nós para nos salvar; entretanto, sem ele nós não podemos fazer nada. Ele se apresentou a nós como a videira para os ramos; nós não podemos ter a vida se nos separarmos dele.

Finalmente, ainda que os irmãos morram pelos irmãos, nenhum mártir derramou o seu sangue pela remissão dos pecados de seus irmãos, como ele fez por nós. Isto, porém, não para que o imitássemos, mas como um motivo para agradecermos. Portanto, na medida em que os mártires derramaram seu sangue pelos irmãos, prepararam o mesmo que tinham recebido da mesa do Senhor. Amemo-nos também a nós uns aos outros, como Cristo nos amou e se entregou por nós.

-- Do Tratado sobre o Evangelho de São João, de Santo Agostinho, bispo (século V)

3 de abr de 2012

Há uma só morte que resgata o mundo e uma só ressurreição dos mortos


O desígnio de nosso Deus e Salvador em relação ao homem consiste em levantá-lo de sua queda e fazê-lo voltar, do estado de inimizade ocasionado por sua desobediência, à intimidade divina. A vinda de Cristo na carne, os exemplos de sua vida apresentados pelo Evangelho, a paixão, a cruz, o sepultamento e a ressurreição não tiveram outro fim senão salvar o homem, para que, imitando a Cristo, ele recuperasse a primitiva adoção filial.

Portanto, para atingir a perfeição, é necessário imitar a Cristo, não só nos exemplos de mansidão, humildade e paciência que ele nos deu durante a sua vida, mas também imitá-lo em sua morte, como diz São Paulo, o imitador de Cristo: Tornando-me semelhante a ele na sua morte, para ver se alcanço a ressurreição dentre os mortos (Fl 3,10).

Mas como poderemos assemelhar-nos a Cristo em sua morte? Sepultando-nos com ele por meio do batismo.Em que consiste este sepultamento e qual é o fruto dessa imitação? Em primeiro lugar, é preciso romper coma vida passada. Mas ninguém pode conseguir isto se não nascer de novo, conforme a palavra do Senhor, porque o renascimento, como a própria palavra indica, é o começo de uma vida nova. Por isso, antes de começar esta vida nova, é preciso pôr fim à antiga. Assim como, no estádio, os que chegam ao fim da primeira parte da corrida, costumam fazer uma pequena pausa e descansar um pouco, antes de iniciar o retorno, do mesmo modo, era necessário que nesta mudança de vida interviesse a morte, pondo fim ao passado para começar um novo caminho.

E como imitar a Cristo na sua descida à mansão dos mortos? Imitando no batismo o seu sepultamento. Porque os corpos dos batizados ficam, de certo modo, sepultados nas águas. O batismo simboliza, pois, a deposição das obras da carne, segundo as palavras do Apóstolo: Vós também recebestes uma circuncisão, não feita por mão humana, mas uma circuncisão que é de Cristo, pela qual renunciais ao corpo perecível. Com Cristo fostes sepultados no batismo (Cl 2,11-12). Ora, o batismo, por assim dizer, lava a alma das manchas contraídas por causa das tendências carnais, conforme está escrito: Lavai-me e mais branco do que a neve ficarei (Sl 50,9). Por isso, reconhecemos um só batismo de salvação, já que é uma só a morte que resgata o mundo e uma só a ressurreição dos mortos, das quais o batismo é figura.

-- Do Livro sobre o Espírito Santo, de São Basílio Magno, bispo (seculo IV)

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