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12 de jul. de 2013

Creio em Único Deus - Mozart

A Grande Missa em Dó Menor, de Mozart, é uma das obras mais geniais do compositor. Pouco se sabe sobre a criação da obra, em 1782/83, e foi apresentada pela primeira vez na Igreja de Saint Pierre, Salzburg, em 26 de Outubro de 1783. 

Esta missa foi a primeira obra composta por iniciativa de Mozart, sem ter sido encomendada. Isto explica por que demorou tanto na sua composição, pois foi escrita no seu tempo livre, enquanto atendia pedidos de seus clientes. Numa carta ao pai, Mozart explica que foi uma promessa pelo restabelecimento da esposa Constance. No entanto, para os padrões atuais, a missa está incompleta. Por exemplo, como o Credo não era recitado nas missa do Tempo Comum, Mozart musicou apenas a parte inicial da oração.

O vídeo abaixo mostra a apresentação em Cadogan Hall, Londres, em 7 de Julho de 2011. O maestro é Ivor Setterfield; as sopranos são Elizabeth Weisberg e Grace Davidson; acompanhadas pela Orquestra Sinfônica de Trafalgar e Coro Barts. O Coral segue a forma latina da oração.


Credo in unum Deum, Patrem omnipoténtem, factorem cæli et terræ, visibílium ómnium et invisibílium.

Et in unum Dóminum Iesum Christum, Fílium Dei unigénitum, et ex Patre natum, ante ómnia sæcula. Deum de Deo, lumen de lúmine, Deum verum de Deo vero, génitum, non factum, consubstantiálem Patri: per quem ómnia facta sunt. Qui propter nos hómines et propter nostram salútem descéndit de cælis. 
(aqui termina a obra de Mozart)

Et incarnátus est de Spíritu Sancto ex María Vírgine, et homo factus est. Crucifíxus étiam pro nobis sub Póntio Piláto; passus et sepúltus est, et resurréxit tértia die, secúndum Scriptúras, et ascéndit in cælum, sedet ad déxteram Patris. Et íterum ventúrus est cum glória, iudicáre vivos et mórtuos, cuius regni non erit finis.

Et in Spíritum Sanctum, Dóminum et vivificántem: qui ex Patre Filióque procédit. Qui cum Patre et Fílio simul adorátur, et conglorificátur: qui locútus est per Prophétas.
Et unam, sanctam, cathólicam et apostólicam Ecclésiam.
Confíteor unum baptísma in remissiónem peccatorum. Et expecto resurrectionem mortuorum, et vitam ventúri sæculi. Amen.

25 de mar. de 2013

Creio em Deus Pai Todo-Poderoso


A. Fé

A  Fé
Estátua que compõe o Monumento ao Papa
Inocêncio XI, Basílica de São Pedro, Vaticano 
A primeira coisa que um cristão necessita é fé, sem a qual nenhum homem pode se dizer Cristão. A fé confere quatro benefícios:

1. A fé une a alma a Deus, por que pela fé a alma é como que desposada pelo Senhor, conforme Os 2,22: "Desposar-te-ei com fidelidade, e conhecerás o Senhor". Por esta razão, no batismo confessamos nossa fé quando perguntados: "Acreditas em Deus Pai Todo-Poderoso?"; pois o batismo é o primeiro dos sacramentos da fé. Assim diz o Senhor: "Quem crer e for batizado será salvo" (Mc 16,16); sem fé o Batismo é inútil.

Devemos entender que sem fé nenhum homem é aceitável para Deus: "Ora, sem fé é impossível agradar a Deus, pois para se achegar a ele é necessário que se creia primeiro que ele existe" (Hb 11,6).  Comentando Rm 14,23 ("Tudo o que não procede da fé é pecado"), Santo Agostinho afirma: "Sem o reconhecimento da verdade eterna e imutável, toda virtude humana é mera impostura, até para o melhor dos homens". 

2. A fé introduz a vida eterna em nós, pois a vida eterna não é nada mais que conhecer a Deus, pois assim diz Jesus: "a vida eterna consiste em que conheçam a um só Deus verdadeiro". Este conhecimento de Deus inicia pela fé e torna-se perfeito na vida eterna, quando O conheceremos como Ele é: "A fé é o fundamento da esperança" (Hb 11,1). Logo, nenhum homem pode alcançar a felicidade dos céus - que é o verdadeiro conhecimento de Deus - se não conhecê-lO pela fé, como Jesus disse a São Tomé: "Creste, porque me viste. Felizes aqueles que crêem sem ter visto!"(Jo 20,29)

3. A fé é nosso guia na vida presente, pois para viver uma vida correta o homem deve saber o que é necessário para ser um justo. Se o homem tiver que valer-se de seus esforços para descobrir o necessário, talvez nunca chegue a fazê-lo ou consiga apenas após muitíssimos anos. Mas a fé nos ensina tudo que é preciso para uma vida justa, pois aprendemos pela fé que há somente um Deus que recompensa os justos e pune os malfeitores; que há uma vida eterna após esta; e todas as verdades para distinguir entre o bem e o mal. "O justo deve viver na fé" (Hab 2,4). 

Isto fica claro quando observamos que antes da vinda de Jesus nenhum dos filósofos pode identificar, mesmo com grande esforço, a verdade sobre Deus ou como alcançar a vida eterna; e após a vinda de Cristo, qualquer pessoa, por mais simples e sem cultura que seja, é capaz de conhecer a Deus e alcançar a vida eterna. Como foi dito por Isaias (11,9): "a terra esta cheia de ciência do Senhor".

4. A fé nos ajuda a resistir às tentações, pois todas tentações são frutos do Demônio, do mundo ou da carne. Através da fé os santos foram capazes de conquistar o mundo.

  • O Demônio nos tenta a desobedecer a Deus e a não nos sujeitarmos a Deus. A tentação é removida pela fé, pois Deus é Senhor sobre todas as coisas, por isso devemos obedecer a Ele: "Vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar" (1Pe 5,8-9). 
  • O mundo nos tenta atrair pela prosperidade ou medo da adversidade. Superamos estas tentações pela fé porque ela nos assegura a vida eterna e o desprezo das coisas do mundo, sem temores e aflições. Também superamos as tentações pois a fé nos ensina que há males muitos maiores no Inferno que os deste mundo.
  • A carne nos tenta através dos prazeres da vida. Mas a fé nos ensina que se procurarmos os prazeres do mundo perderemos a felicidade eterna: "Em todas as coisas colocamos o escudo da fé" (Ef 6,16). Então entendemos como é lucrativo deixar-se guiar pela fé. 


-- Catecismo de São Tomás de Aquino, capítulo I, parte 1.
-- Tradução própria



28 de jul. de 2012

Os três últimos artigos do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)

Que nos ensina o décimo artigo do Credo: a remissão dos pecados?
- Que Deus deixou a sua Igreja o poder de perdoar todos os pecados por meio dos sacramentos.

Fora da Igreja pode-se esperar o perdão dos pecados?
- Certamente não; fora da Igreja  não há remissão dos pecados, nem esperança de salvação.

Que nos ensina o undécimo artigo: a ressurreição da carne?
- Que todos os homens, no fim do mundo, hão de ressuscitar por virtude de Deus Onipotente, recobrando cada um a sua alma e o corpo que dantes tivera.

Que nos ensina finalmente o último Artigo: a vida eterna?
- Que para os bons cristãos esta preparado no Céu um prêmio eterno.

E o que coisa se reserva para os infiéis e para os maus cristãos?
- A eles se dará uma pena no Inferno.

Que quer dizer esta voz, Amém, que no fim dos símbolo se ajunta?
- Quer dizer "assim é", que vem a ser o mesmo que "tudo quanto está dito é verdadeiro, é certo".

 -- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

Outros artigos do Creio:
  • Primeiro artigo: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
  • Segundo artigo: e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
  • Terceiro artigo: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
  • Quarto artigo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  • Quinto artigo: desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
  • Sexto artigo: subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
  • Sétimo artigo:  de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  • Oitavo artigo:  Creio no Espírito Santo
  • Nono artigo:  Creio na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos

13 de jul. de 2012

O nono artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que nos ensina o nono artigo: Creio na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos?
- Que é necessário crer na Santa Igreja Católica e reconhecer a união que há entre todos os membros da Igreja.

O que é Igreja Católica?
- Uma congregação de todos os fiéis que professam a fé e lei de Jesus Cristo, sob o governo dos legítimos pastores e obediência ao Pontífice Romano.

Esta congegação, quem tem por cabeça?
- Tem por sua cabeça invisível Jesus Cristo no céu e por sua cabeça visível na Terra o Romano Pontífice, Vigário de Jesus Cristo.

Porque chama-se "santa" esta Igreja?
- Porque a cabeça, Jesus Cristo, é santa; e tem muitos membros santos; tem a fé, a lei e os santos sacramentos.

O que quer dizer "católica"?
- Quer dizer universal.

E que quer dizer "universal"?
- Significa que a Igreja compreende os fiéis de todos os tempos, todos os lugares, de toda e qualquer idade e qualidade.

Porque logo depois do artigo sobre o Espírito Santo fala-se da Igreja?
- Para mostrar que toda santidade da Igreja provêm do Espírito Santo, que é autor de toda santidade.

O que quer dizer "comunhão dos santos"?
- Refere-se a participação nas orações e boas obras realizadas na mesma Igreja.

E participam deste bem espiritual os gentios, hebreus, hereges, cismáticos, apóstatas e excomungados?
- Não participam porque estão fora da Igreja.

Esta comunicação dos santos se estende também ao céu e ao purgatório?
- Sim, porque os santos rogam a Deus por nós e pelas almas do purgatório; e nós podemos aliviar as mesmas almas com orações, esmolas e outras boas obras.

 -- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)
Outros artigos do Creio:
  • Primeiro artigo: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
  • Segundo artigo: e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
  • Terceiro artigo: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
  • Quarto artigo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  • Quinto artigo: desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
  • Sexto artigo: subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
  • Sétimo artigo:  de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.
  • Oitavo artigo:  Creio no Espírito Santo


7 de jul. de 2012

O oitavo artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)

Que nos ensina o oitavo artigo: Creio no Espírito Santo?

- Que o Espírito Santo é a terceira pessoa da Santíssima Trindade, que é Deus Eterno, Onipotente, Criador e Senhor de todas as coisas, como o Pai e o Filho.

De quem procede o Espírito Santo?

- Procede do Pai e do Filho por via de vontade e amor.

Se o Filho procede do Pai e do Filho, parece que o Pai existia antes do Filho, e os dois antes do Espírito Santo. Como pois se diz ser eternas todas as três pessoas?

- Porque desde a eternidade o Pai tem gerado o Filho, e o Pai e o Filho tem produzido o Espírito Santo; pelo que todos os três são eternos e tem sempre existido sem diferença de tempo.

Se tanto a primeira quanto a segunda Pessoas são puríssimas e santíssimas, porque só à terceira pessoa se atribui o nome de Espírito Santo?

- Porque a primeira pessoa tem o seu próprio nome: Pai; e a segunda é Filho e por isso se atribui à terceira o nome comum de Espírito Santo, para distingui-la das demais; nome que lhe é muito próprio, pois a ela se atribui a obra de santificação.

Pode-se dizer que os Anjos e Almas no céu são também "Espíritos Santos"?

- As criaturas são santas porque são santificadas pelo Espírito Santo, mas somente o Espírito Santo é santo por si mesmo e é ele que nos santifica, por esta razão chama-se Espírito Santo por excelência.

O Pai e o Filho nos santificam também?

- Todas as três pessoas nos santificam igualmente.

Se é assim, porque se atribui ao Espírito Santo papel especial na santificação das almas?

- Porque a santificação das almas é obra de amor; e as obras de amor se atribuem ao Espírito Santo.

 -- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

Outros artigos do Creio:
  • Primeiro artigo: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, Criador do céu e da terra;
  • Segundo artigo: e em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor,
  • Terceiro artigo: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da virgem Maria;
  • Quarto artigo: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado;
  • Quinto artigo: desceu à mansão dos mortos; ressuscitou ao terceiro dia;
  • Sexto artigo: subiu aos Céus; está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
  • Sétimo artigo:  de onde há de vir a julgar os vivos e os mortos.


20 de jun. de 2012

O sexto artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que nos ensina o sexto artigo do Credo: subiu aos céus e está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso?

- Que Jesus Criso subiu aos céus à vista dos seus discípulos no quadragésimo dia depois da sua Ressurreição; e que sendo como Deus, igual ao Pai na glória, como homem foi exaltado sobre todos os anjos e Santos, constituído Senhor de todas as coisas.

Porque demorou por quarenta dias a sua subida aos céus?
- Para estabelecer com várias aparições o mistério da sua Ressurreição e para instruir sempre mais e confirmar os apóstolos nas verdades da fé.

Subiu Ele aos céus enquanto Deus ou enquanto homem?
- Subiu enquanto homem, porque enquanto Deus já está presente em todo lugar.

Porque se diz que Cristo subiu aos céus; e de sua mão santíssima, que foi assunta aos céus, isto é, levada?
- Porque Cristo, sendo Deus e homem, por virtude própria subiu aos céus, mas sua mãe, como criatura, ainda que entre todas a mais digna, subiu ao céu por virtude de Deus.

Que querem dizer aquelas palavras: está sentado à direita de Deus Pai Todo-Poderoso? Tem Deus por ventura mão direita ou esquerda?
- O Pai não tem mão direita, nem esquerda; mas assim se diz para que possamos compreender a Glória que Jesus Cristo enquanto homem recebeu sobre todas as criaturas; pois assim dizemos no mundo e entendemos que a pessoa ocupa o lugar mais honorífico. 

Porque se diz que Cristo está sentado? Por ventura esta ele realmente sentado no céu?
- Diz-se que está sentado para fazermos entender que ele está na posse pacífica da sua Glória, como soberano e absoluto Senhor de todas as coisas.

7 de jun. de 2012

O quinto artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que coisa nos ensina o quinto artigo: desceu à mansão dos mortos e essuscitou no terceiro dia?
- Que havendo Jesus Cristo expirado, passou logo a sua Alma ao Limbo dos Santos Padres, para libertá-los, e que ressuscitou ao terceiro dia.

E que faziam no Limbo aquelas almas?
- Estavam ali entretidas, como em repouso, com a esperança da vinda do verdadeiro Messias, Jesus Cristo.

Que esperavam do Messias aquelas almas?
- Serem libertadas, como foram, e introduzidas por Ele no Céu.

E porque não tinham já lá entrado?
- Porque pelo pecado de Adão estava fechado o Céu, e era muito justo que Jesus Cristo, que com sua morte lhes abriu as portas do Céu, fosse o primeiro a entrar lá.

E porque esperar até o terceiro dia para ressuscitar?
- Para mostrar com mais evidência que fora verdadeiramente morto.

A Ressurreição de Jesus Cristo foi como a ressurreição de outros homens?
- Não, porque Jesus Cristo ressurgiu por sua própria virtude, e os outros pelas virtudes de Jesus.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

15 de mai. de 2012

O terceiro artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Cristão)

Que nos ensina o terceiro artigo do Creio: que foi concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria?
- Que o Filho de Deus tomou um corpo e uma alma, como nós temos, por obra do Espírito Santo, no ventre de uma virgem chamada Maria, e que dessa virgem nasceu.

Que quer dizer: por obra do Espírito Santo?
- Quer dizer que o Espírito Santo do puro sangue da Virgem Maria formou um corpo, e nele criou a Alma; e a esse corpo e a essa alma se uniu o Filho; sendo verdadeiro Deus, começou a ser também verdadeiro Homem.


Concorreram tambem o Pai e  o Filho para formar este corpo e criar esta alma?
- Sim, para isso concorreram todas as três pessoas divinas.

Pois porque se diz somente "por obra do Espírito Santo"?
- Porque essa é uma obra da bondade e do amor; e obras da bondade e do amor se atribuem ao Espírito Santo.

Quantas naturezas estão em Jesus Cristo?
- Duas: a natureza divina e a natureza humana.

E quantas pessoas?
- Uma só, isto é, a segunda pessoa da Santíssima Trindade.

Quando se diz o Filho de Deus e o Filho de Maria, trata-se da mesma pessoa?
- Sim, entende-se a mesma pessoa, um só Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem.

Logo a Virgem Maria é mãe de Deus?
- Assim é, porque é mãe de Jesus Cristo verdadeiro Deus.

E Maria se conservou sempre virgem?
- Sempre permaneceu virgem, antes do parto e depois do parto.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

6 de mai. de 2012

O segundo artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Cristão)


Que coisa nos ensina o segundo artigo: Creio em Jesus Cristo, seu único filho, Nosso Senhor?
- Que o Filho de Deus é a segunda pessoa da Santíssima Trindade; que Ele é Deus eterno, Onipotente, Nosso Criador e Senhor, como o Pai; que Ele se fez homem para salvar-nos; que o Filho de Deus feito homem se chama Jesus Cristo.

Porque se chamada Filho a segunda pessoa?
- Porque desde a eternidade é gerado pelo Pai por via de entendimento e conhecimento.

Porque se chama seu filho único?
- Porque só ele é filho de Deus Pai por natureza.

Porque se chama Jesus o filho de Deus feito homem?
- Chama-se Jesus, que quer dizer Salvador, que nos salvou da morte eterna merecida pelos nossos pecados.

Porque se chama também Cristo?
- Chama-se também Cristo, que significa Ungido, ou consagrado, porque antigamente se ungia os reis, sacerdotes e profetas. Jesus é o Rei dos Reis, Sumo Sacerdote e Sumo Profeta.

E na verdade foi ele também ungido, consagrado, como os outros, com uma unção corporal?
- Não, mas a unção de Jesus Cristo é a divindade que nele habita.

Porque se diz que Jesus Cristo é Nosso Senhor?
- Porque, como Deus, é Nosso Senhor absoluto, tanto como Pai; e enquanto homem, é também nosso supremo Senhor, porque nos resgatou com o seu Sangue da escravidão do demônio.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

30 de abr. de 2012

O primeiro artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Cristão)


Que ensina o primeiro artigo do Creio?
- Que há um só Deus em três pessoas realmente distintas, das quais a primeira é o Pai, o qual é onipresente e do nada criou o Céu, a Terra e todas as coisas que há no Céu e na Terra.

Porque se diz que Deus é Pai?
- Porque é pai de todos os homens que ele criou, conserva e governa. Porque por especial graça é pai dos cristãos, os quais são chamados filhos adotivos de Deus. Porque aqui se trata principalmetne da primeira pessoa da Santíssima Trindade, que é chamada Pai, porque é por natureza pai da segunda, isto é, o Filho.

Porque é o Pai a priemira pessoa da Santíssima Trindade?
- Porque Ele não procede de outra pessoa, mas é o princípio das outras duas pessoas, isto é, do Filho e do Espírito Santo.

O que quer dizer aquela palavra "onipotente" ou "todo-poderoso"?
- Que Deus pode fazer tudo aquilo que desejar.

Deus não pode pecar nem morrer; como se diz que Ele pode tudo?
- Diz-se que Deus tudo pode, posto que não pode pecar nem morrer, porque o pecar ou morrer não é efeito de grande poder ou valor, mas de fraqueza, a qual não pdoe achar-se em Deus que é perfeitíssimo.

Explicai com maior clareza o que quer dizer "Criador do Céu e da Terra".
- Criar quer dizer "tirar do nada" alguma coisa; portanto Deus se diz criador do céu e da terra porque os tirou do nada, assim como todas as cosias que no céu e na Terra se contêm.

O mundo foi criado somente pelo Pai?
- Foi criado igualmente por todas as três pessoas divinas, porque tudo quanto obra uma pessoa, o fazem também as outras duas pessoas.

Porque pois se atribui particularmente ao Pai a Criação?
- Porque sendo o Pai o princípio das outras duas pessoas, com propriedade se diz também princípio de todas as coisas criadas.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

23 de abr. de 2012

A Oração do Creio (Compêndio da Doutrina Cristã)


Qual a primeira parte da Doutrina Cristã?
- O Símbolo dos Apóstolos, vulgarmente chamado o Credo ou Creio.

Porque vós chamais o Credo de "Símbolo dos Apóstolos"?
- Chama-se Símbolo porque é uma divisa, com a qual se podem distinguir os cristãos dos fiéis. E chama-se Dos Apóstolos porque o compuseram os Santos Apóstolos, para dar a todos os cristãos uma e mesma regra do que devem crer, a qual contivesse os principais artigos da Fé.

Quantos são os artigos que estão no Credo?
- São doze.

Por favor, dizei os distintamente.
1: Creio em Deus Pai, Todo-Poderoso, criador do céu e da terra,
2: e em Jesus Cristo, seu único filho, Nosso Senhor,
3: concebido pelo poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria,
4: padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado,
5: desceu à mansão dos mortos, ressuscitou no terceiro dia,
6: subiu aos céus e está sentado a direita de Deus Pai Todo-Poderoso,
7: de onde irá julgar os vivos e os mortos.
8: Creio no Espírito Santo,
9: na Santa Igreja Católica, na comunhão dos santos
10: na remissão dos pecados,
11: na ressurreição do corpo
12: e na vida eterna. Amém.

O que quer dizer aquela palavra que proferis no princípio do Símbolo, "Creio"?
- Quer dizer eu tenho por sumamente verdadeiro tudo o que nestes doze artigos se contem; e tudo isso Creio mais firmemente do que se o visse com os próprios olhos.

Porque credes tão firmemente nestes artigos e em todas os outras verdades que crê e ensina a Igreja Católica?
- Porque são todas verdades reveladas por Deus, o qual não pode enganar nem enganar-se.

Que coisa contem em suma estes artigos?
- Tudo o que principalmente se deve crer de Deus, de Jesus Cristo e da sua Igreja.

É de muito proveito rezar frequentemente o Creio?
- É coisa utilíssima para imprimir-se cada vez mais no coração os artigos da fé.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

16 de nov. de 2011

No Batismo renunciamos a Satanás


São Miguel combatendo a Satanás

1. Desde há muito tempo desejava falar-vos, filhos legítimos e muito amados da Igreja, sobre estes espirituais e celestes mistérios. Mas como sei bem que a vista é mais fiel que o ouvido, esperei a ocasião presente, para encontrar-vos, depois desta grande noite, mais preparados para compreender o que se vos fala e levar-vos pelas mãos ao prado luminoso e fragrante deste paraíso. Além disso, já estais melhor preparados para apreender os mistérios todo divinos que se referem ao divino e vivificante batismo. Uma vez, pois, que vos proporemos uma mesa com doutrinas de iniciação perfeita, é necessário ensinar-vos com precisão, para penetrardes o sentido do que se passou convosco nesta noite batismal.

2. Entrastes primeiro no batistério. Depois vos voltastes para o Ocidente e atentos escutastes. Recebestes então a ordem de estender a mão, e renunciastes a satanás como se estivesse ali presente. É preciso que saibais que na história antiga há uma figura deste gesto. Quando o faraó, o mais inumano e cruel tirano, oprimia o povo livre e nobre dos hebreus, Deus enviou Moisés a tirá-los desta penosa escravidão dos egípcios. Com sangue de cordeiro eram ungidas as ombreiras das portas, a fim de que o exterminador passasse pelas casas que ostentassem o sinal do sangue. Assim, o povo dos hebreus foi admiravelmente libertado. Quando, depois da libertação, faraó os perseguiu e viu o mar abrir-se maravilhosamente diante deles, avançou mesmo assim ao encalço deles e, submerso instantaneamente, foi engolido pelo Mar Vermelho.

3. Passai agora comigo das coisas antigas às novas, da figura à realidade. Lá Moisés foi enviado por Deus ao Egito; aqui Cristo, do seio do Pai, foi enviado ao mundo. Aquele para tirar o povo oprimido do Egito; Cristo para livrar os que no mundo são acabrunhados pelo pecado. Lá o sangue do cordeiro afastou o anjo exterminador; aqui o sangue do Cordeiro Imaculado, Jesus Cristo, constitui um refúgio contra os demônios. Aquele tirano perseguiu até o mar este povo antigo; e a ti, o demônio atrevido, impudente e príncipe do mal, te segue até as fontes mesmas da salvação. Aquele afogou-se no mar; este desaparece na água da salvação.

4. Entretanto, ouves, com a mão estendida, dizer como a um presente: «Eu renuncio a ti, satanás». Quero também falar-vos porque estais voltados para o Ocidente, pois é necessário. O Ocidente é o lugar das trevas visíveis e como aquele [satã] é trevas, tem o seu poder nas trevas. Por essa razão, simbolicamente olhais para o Ocidente e renunciais a este príncipe tenebroso e sombrio. O que então cada um de vós, de pé, dizia? Renuncio a ti, satanás, a ti mau e crudelíssimo tirano: já não temo, dizias, a tua força. Pois Cristo a destruiu, fazendo-me participe de seu sangue e de sua carne, a fim de abolir a morte pela morte e eu não estar eternamente sujeito à escravidão. Renuncio a ti, serpente astuta e capaz de todo mal. Renuncio a ti, que armas insídias e, simulando amizade, praticaste toda sorte de iniqüidade e sugeriste a nossos primeiros pais a apostas ia. Renuncio a ti, satanás, artífice e cúmplice de todo mal.

5. Em seguida, numa segunda fórmula, és ensinado a dizer: «E a todas as tuas obras». Obras de satanás são todos os pecados, aos quais é necessário renunciar, assim como quem foge de um tirano atira para longe de si todas as armas dele. Todo o gênero de pecado está, pois, incluído nas obras do diabo. Aliás, sabes que tudo quanto dizes naquela hora tremente está inscrito nos livros invisíveis de Deus. Se, pois, fores surpreendido fazendo algo contrário a estes, serás julgado como transgressor. Renuncias, portanto, às obras de satanás, isto é, a todas as ações e pensamentos contrários à promessa.

6. Depois dizes: «E a toda a sua pompa». Pompa do diabo é a mania do teatro, das corridas de cavalo, da caça e de toda vaidade desta espécie. Dela pede o santo ser livrado, dizendo a Deus: «Não permitais que meus olhos vejam a vaidade». Não te entregues desenfreadamente à mania do teatro, onde se encontram os espetáculos obscenos dos atores, executados com insolências e com toda sorte de indecências, e com danças furiosas de homens efeminados. Nem tampouco sejas daqueles que na caça se expõem a si mesmos às feras, para contentar o infeliz ventre, os quais, querendo regalar o estômago com petiscos, se tornam alimentos dos animais selvagens. Exprimindo-me melhor, por causa deste seu deus, o ventre, arriscam sua vida em combate singular. Foge também das corridas de cavalos, espetáculo insano que leva as almas à perdição. Porque tudo isto é pompa do diabo.

7. Mas ainda tudo o que é exposto nos templos dos ídolos e nas suas festas, quer sejam carnes ou pães ou coisas semelhantes, inquinados pela invocação dos demônios infames, são contados como pompa do diabo. Pois, assim como o pão e o vinho da eucaristia, antes da santa epiclese da adorável Trindade, eram simplesmente pão e vinho, mas depois da epiclese o pão se torna corpo de Cristo e o vinho sangue de Cristo, da mesma maneira estes alimentos que pertencem à pompa de satanás, por sua própria natureza simples, tornam-se, pela invocação dos demônios, impuros.

8. Depois disto tu dizes: «E a teu culto». Culto do diabo é a prece feita nos templos dos ídolos, tudo que se faz em honra dos simulacros inanimados: acender luzes ou queimar incenso perto de fontes e rios, como fazem alguns que, enganados por sonhos e demônios, chegam a isso, crendo que encontram a cura de doenças corporais. Não vás atrás destas coisas. Augúrios, adivinhação, agouros, amuletos, inscrições em lâminas, magias ou outras artes más são culto do diabo. Foge, portanto, de tudo isto. Se a eles sucumbes, depois de teres renunciado a satanás e aderido a Cristo, experimentarás um tirano mais cruel. Aquele que antes te tratou talvez como familiar e te libertou da dura escravidão, agora está fortemente irritado contra ti. De Cristo serás privado e experimentarás àquele [satanás]. Não ouviste o que a antiga história nos conta de Lot e suas filhas? Não se salvou ele com as filhas, tendo alcançado a montanha, enquanto sua mulher se transformou em estátua de sal para sempre, constituindo uma recordação de sua má vontade e de seu olhar curioso para trás? Cuida, pois, de ti mesmo e não te voltes novamente para trás, depois de teres posto a mão no arado, para a prática amarga desta vida. Foge antes para a montanha para junto de Jesus Cristo, a pedra talhada não por mãos e que encheu a terra.

9. Quando, então, renuncias a satanás, rompendo todo pacto com ele, quebras as velhas alianças com o inferno. Abre-se para ti o paraíso de Deus, que ele plantou para o lado do oriente, donde por sua transgressão foi expulso nosso primeiro pai. Disto é símbolo o te voltares do Ocidente para o Oriente, lugar da luz. Então te foi ordenado que dissesses: «Creio no Pai e no Filho e no Espírito Santo e no único batismo de penitência». Disto vos falamos extensamente, nas catequeses anteriores, como no-lo permitiu a graça de Deus.

10. Fortalecido por estas palavras, vigia. Pois nosso adversário o diabo, como foi lido, anda ao redor, buscando a quem devorar. Deveras, nos tempos anteriores a este, a morte devorava, poderosa. Depois do batismo sagrado da regeneração , Deus enxugou toda lágrima de todas as faces.Com efeito, já não choras por teres te despido do velho homem, mas estás em festa porque te revestiste com a vestimenta da salvação, Jesus Cristo.

11. Tudo isto se realizou no edifício exterior. Se aprouver a Deus, quando nas Catequeses Mistagógicas seguintes entrarmos no Santo dos Santos, conheceremos, então, os símbolos das coisas que lá se realizam.
A Deus glória, poder e magnificência, com o Filho e o Espírito Santo pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Primeira Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados, de São Cirilo de Jerusalém (século IV).

Demais Catequeses:





25 de out. de 2011

Recomendações para uma vida cristã


Santo Éfrem (306-373) é especialmente
venerado pela Igreja Ortodoxa Síria. 

Meu bem-amado no Senhor,
Quando desejardes dar alguma resposta, deves por em tua boca, antes de mais nada, a humildade uma vez que sabes muito bem que, por ela, todo o poder do inimigo se reduz a nada. Tu conheces a bondade do teu Mestre, que foi blasfemado, e como Ele se fez humilde e obediente inclusive até a morte. Filho meu, trabalha por ti mesmo para firmar a humildade em tua boca, em teu coração e em teu colo, pois há um mandamento que a exige. Lembra-te de Davi, que vangloriava-se por sua humildade e disse: Porque me humilho, o Senhor me libertou e me abençoou (Sal 29 [30], 8-12). Filho meu, apega-te à humildade e farás com que as virtudes de Deus te acompanhem. E se permanecerdes no estado de humildade, nenhuma paixão, qualquer que seja, poderá dominar-te. Não existe medida para a beleza do homem que é humilde. Não há paixão, qualquer que seja, capaz de dominar o homem humilde; e não há medida para a sua beleza. O homem humilde é um sacrifício a Deus. O coração de Deus e de seus anjos descansam naquele que é humilde. Mais ainda: quando os anjos o glorificam, é porque houve uma razão para ele obter todas as virtudes; porém, aquele que se revestiu da humildade não necessita de nenhuma razão além de se Ter feito humilde.
Filho meu, estas são as virtudes da humildade. Filho meu, conserva a paz, pois está escrito: Aquele que é sábio, nesse momento conservará a paz (Am 5, 13). Mantém a paz até que te questionem. E quando te questionarem, fale usando palavras humildes; comporta-te também de maneira humilde. Não lamentes. Se a pergunta exigir extensa resposta, senta-te. Nunca fales enquanto os outros estiverem usando palavras de desprezo; mas, alegremente, não esqueças que teus pensamentos devem ser estes: “não escutei [as palavras de desprezo]”. Prestai tua máxima atenção, porém, à toda palavra valiosa, pois está escrito: “Se tu deixas passar a palavra e não a escuta, te enganas a ti mesmo, filho meu no Senhor”. Te dei mandamentos desde o princípio; guarda-os desde a juventude. Examina o que diz Paulo; disse: Desde o tempo em que eras um menino, conhecias a Santa Escritura, que tem o poder para te salvar (2Tim 3,15). Aprende toda regra dos preceitos do monge, e faz-te querido em todos os teus trabalhos. Se tu, que sois jovem, vais para o deserto e te estabeleces em um local muito grande para ti e vês que Deus ali está, não deixes esse lugar para ir para outro, porque estais descontente. Deixa que o deserto em que te estabeleceste te seja suficiente, não deixeis que Ele se ofenda, pois está escrito: “Não é uma pequena coisa contrária que provocará a ira nos homens”.
No deserto em que te estabeleceste mantém esta maneira de agir e não fujas de um lugar para outro. Não te dirija à morada de ninguém para lamentar no que crês, muito menos por causa dos desejos do teu estômago. Não estejas em companhia do homem agitado e problemático, mas assegura-te em continuar com tua vida silenciosa; não estejas também na boca dos teus irmãos. Te suplico, meu amado no Senhor, que deixeis que tua meta principal seja aprender; escutar com atenção (ou obedecer) te dará a paz, pois está escrito: “O proveito da instrução não é a prata”. Cuida-te para jamais deixar de escutar (ou desobedecer). Que a palavra de Saul não se realize em ti, nem em tua geração, pois Deus é mais facilmente persuadido pela obediência do que pelo sacrifício (cf. 1 Sam 15, 22).
Estas são, então, as regras do ofício do monge: deves comer com os irmãos; não levantes a cabeça enquanto não tiver terminado de comer; come com a roupa que te deixas ver em público; se acontecer de serdes o último a ser servido, não digas: “Traga-me logo, pois aqui está sentado alguém maior que tu”; quando desejares beber da garrafa de água, não deixes que tua garganta cause confusão como um homem comum; quando estiverdes sentado no meio dos irmãos e desejares cuspir, não o faça no meio deles, mas afasta-te a certa distância e então cospe.
Quando estiverdes dormindo em algum lugar com os irmãos, não permitas que pessoa alguma se aproxime a menos de um cotovelo de distância. Se o trabalho for tranqüilo, não durmas sobre a esteira, mas dobra-a pois sois um homem jovem. Não durmas estendido, nem tampouco de costas, para que teus sonhos não te molestem.
Quando estiverdes caminhando com os irmãos, mantém-te sempre a alguma distância deles, pois quando caminhas com um irmão fazes com que teu coração esteja ocioso. Se estiverdes usando sandálias nos pés e o que caminha contigo não as têm, desata-as e caminha como ele, pois está escrito: “Sofrereis”.
Faz o trabalho do pregador. Faça-o cuidadosamente enquanto estiverdes em tua habitação. Não comas enquanto o sol estiver brilhando. Não acendas a fogueira para ti apenas, ou te transformarás num homem exibido. Quando for necessário aquecer-se, chama algum homem pobre e miserável que está contigo no deserto, e serás elogiado, ao dizer: “Não posso comer sozinho o meu pão”.
Se estiverdes numa montanha ou em um lugar onde há algum irmão doente, visita-o duas vezes ao dia: de manhã, antes de começardes a trabalhar com tuas mãos, e à tarde; pois está escrito, meu amado no Senhor: Estive doente e tu me visitaste (Mt 25, 36. 43). Quando um irmão morre na montanha onde estás, não te sentes na cela onde consegues ouvir a notícia, mas vai sentar-te com ele e chora sobre ele; pois está escrito: “Chora pelo homem falecido e caminha com ele até que seja enterrado”, pois esta é a última coisa que se pode fazer por seu irmão. Saúda seu corpo com compaixão, dizendo: “Lembra-te de mim diante do Senhor”.
Filho meu, faz tudo o possível para observar as coisas que escrevi para ti, pois elas são as regras do ofício do monge. Deixa que a morte se aproxime de ti de dia e de noite, pois tu sabes que conheces ela e te dirá: “Eu nunca a pus em meu coração. Meus pés estão no umbral e viverei até cruzar o umbral da porta”. Filho meu, põe sempre toda a tua mente diante de Deus e não deixes que todos estes pensamentos instáveis te desviem do caminho. Tem sempre em vista os castigos que vêm. Enquanto estiverdes em tua habitação, faz-te semelhante a Deus.
Se um irmão vem até ti, regozija-te com ele. Saúda-o. Prepara água para seus pés. Não esqueça isto. Que ele reze. Ficai sentado. Saúda suas mãos e seus pés. Não o incomodes com perguntas como: “De onde vens?”; pois está escrito: Desta maneira, alguns, sem saber, têm recebido anjos em sua morada (Heb 12, 2). Crê naquele que veio a ti da mesma forma como crerias em Deus. Se ele for um homem mais virtuoso que tu, diga-lhe humildemente: “Que teu favor esteja sobre mim”, o que equivale a dizer: “Tu és meu mestre”. Guarda tua comida e come com ele. E se tiverdes algum compromisso, desmarca-o; pois está escrito: “Filho meu, sempre me traz prazer acompanhar o homem que quer caminhar”. Deves regozijar-te com ele e estar feliz. Fazei o máximo que puder para que te bendiga três vezes, para que a bênção do anjo que entrou com ele venha sobre ti.
E como exige a mesma fé da Igreja Católica, não te desvies dela, nem te ponhas fora dela. Cremos em só Deus, Pai todo-poderoso, e em seu Filho único, Jesus Cristo, nosso Senhor, por quem foi feito o universo, e no Espírito Santo, ou seja, [cremos] na Santíssima Trindade, a divindade plena. Ele [Jesus] é Deus, Ele estava com Deus, Ele é a Luz que vem da Luz, Ele é o Senhor que vem do Senhor. Ele foi gerado, não criado. Foi gerado como homem. Ele não é uma criatura, é Deus. Foi gerado pela Santíssima Virgem Maria, a mulher que levou Deus em seu seio. Ele tomou a carne do homem para o nosso bem, [veio] à terra e dela ascendeu. Escolheu pregadores, os Santos Apóstolos, cujas vozes, conforme o que está escrito, têm sido ouvidas em toda a terra (Sal 18 [19],4). Fui crucificado e traspassado com uma lança. Daí veio a nossa salvação, Água e Sangue, isto é, o Batismo e o glorioso Sangue; quem não recebeu o Sangue, não foi batizado.
Faz isto, filho meu. Mantém esta fé e o Deus da paz estará contigo, e te salvará, e te libertará, e estarás em paz pelo resto dos teus dias. A salvação está no Senhor, filho querido, no Senhor. Lembra-te de mim, amado no Senhor, por Jesus, o Cristo, nosso Senhor, a quem pertencem a glória e o poder pelos séculos dos séculos. Amém.
-- Carta de Santo Éfrem da Síria para um outro monge (século IV)

4 de abr. de 2011

Explanação Catequética do Credo - a vida de Jesus Cristo

* Artigos II e III: Creio em Jesus Cristo, o único Filho de Deus, nosso Senhor, concebido pelo Poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria


11. Enquanto isso, Herodes, que estava reinando em Jerusalém, temendo pela queda do seu reinado, ao qual era apaixonadamente agarrado, pensou que poderia ser tomado dele por Jesus Cristo recém-nascido, resolveu matá-lo. Mas esta cruel intenção falhou, pois Jesus foi levado embora antes que Herodes agisse. São José avisado em um sonho pelo Anjo, fugiu de Belém para o Egito, levando consigo Jesus Cristo e a sua mãe Virgem Maria; e por lá permaneceram até Herodes morrer de maneira miserável. Tão grande foi a barbaridade que cometeu, que enfureceu-se contra Belém, e matou todas crianças de dois anos e meio ou menos, pensando que Jesus Cristo estivesse incluído em tal massacre. Isto, no entanto, era falso, pois a Sagrada Família estava à salvo; retornaram do exílio no Egito para a cidade de Nazaré quando José foi avisado em sonho por um Anjo.

12. Quando Jesus alcançou a idade de doze anos foi ao templo em Jerusalém, onde estavam os doutores da Lei, e a eles explicou o que as Escrituras, os profetas e patriarcas, falavam a respeito Dele, que previram o Filho de Deus, demonstrando uma sabedoria tão maravilhosa que todos ouvintes ficaram extasiados. Dali, retornaram a Nazaré, onde Jesus permaneceu até Jesus alcançar cerca de trinta anos, quando foi até o Rio Jordão, onde São João Batista estava batizando grande número de pessoas. Lá João batizou ao Filho de Deus nas águas do Jordão. Então Jesus retirou-se para o deserto, onde por quarenta dias e quarenta noites absteve-se de alimento e água. No deserto, o demónio, não sabendo que se tratava-se fo Filho de Deus, tentou fazê-lo cair nos pecados da glutonia, cobiça e vanglória.


Jesus Cristo derrotando Satanás no deserto.

13. Mas, repelindo todas estas tentações, saiu vitorioso sobre o demônio, caminhou em direção a Galiléia, onde convertou multidões, expulsou muitos demônios, ordenando que abandonassem os corpos que haviam invadido, até mesmo os mais obstinados e rebeldes maus espíritos lhe obedeciam instantaneamente. O povo, justamente admirado, enchia-se de admiração,  espalhava sua fama e falava de sua divina doutrina, explicitada em discursos e ensinamentos de infinita sabedoria, visível em obras e milagres que demonstravam seu poder, especialmente as muitas curas de doentes que padeciam de diferentes males.  Muitos foram persuadidos por seus discursos, que eram feitos com tão grande autoridade, e auxiliavam outros a trazer seus doentes para que Jesus, com o toque de suas mãos, as curasse de qualquer problema, e as enviasse para casa saudáveis e cheias de gratidão.

14. Então Jesus chamou doze Apóstolos e setenta e dois discípulos, que O acompanhavam em sua jornada, de cidade em cidade, vila em vila, ensinando os mistérios do Reino de Deus e pregando para as multidões, confirmando a verdade que Ele ensinava através de grandes e inumeráveis milagres. Aos olhos do povo, na presença de seus apóstolos e discípulos, Jesus restaurou a visão aos cegos, fez falar o mudo, ouvir o surdo, caminhar o paralítico. A visão destes milagres diários confirmava seus apóstolos e discípulos mais e mais na fé em Jesus Cristo. Embora fossem pescadores iletrados e homens rudes, pregavam ao povo a divina doutrina de Jesus Cristo, o Filho de Deus, pois Jesus comunicava a eles tão grande poder e sabedoria, que supriam a falta de estudo e ensinamentos humanos. Quando invocavam o Seu Nome, os apóstolos eram capazes de maravilhas, livrando os homens de diferentes doenças, selando, desta maneira, as verdades que anunciavam, provando de maneira abundante para muitas testemunhas através de sinais miraculosos o caráter Divino de seu testemunho.

15. A grande fama de Jesus e seus discípulos espalhou-se pela Judéia, atraiu a atenção dos chefes da nação, homens que consideravam-se muito importantes, especialmente aqueles chamados fariseus, arrogantes desprezadores de qualquer coisa que não fosse de seu grupo, habitualmente zangavam-se se qualquer outro grupo ou seita obtivesse mesmo que uma pequena fama. É fácil imaginar quão grande inveja atingiu estes homens orgulhosos quando souberam de Jesus Cristo, que censurava sua doutrina, era ouvido com aplausos pelo povo e muito estimado pelas multidões, pois parecia ser eminente a queda do posto mais alto posto de reputação e autoridade onde estavam havia muitos anos, e que este novo Mestre tomaria seu lugar comandando um grupo de simples pescadores. Movidos, pela fúria da inveja, os fariseus colocaram em prática um plano baseado em calúnias para afetar a reputação e a vida de Jesus.


-- Explanação Catequética do Credo para os Habitantes das Ilhas Molucas, por São Francisco Xavier (século XVI)


31 de mar. de 2011

Explanação Catequética do Credo - artigos II e III: Creio em Jesus Cristo, o único Filho de Deus, nosso Senhor, concebido pelo Poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria

7. Oh cristãos, qual será então o destino de nossa miserável fé? Se assim como muitos anjos por um único pecado cometido foram retirados dos céus e jogados nas profundezas do inferno; se Adão e Eva, pelo pecado do orgulho, perderam a abençoada posse do Paraíso terrestre - que esperança podemos ter, nós que nos degradamos por muitos pecados, de todos os tipos, de nos libertarmos de nossas impurezas, de limparmo-nos de nossas sujeiras e ascendermos aos mais altos céus, preparado pelo Deus imortal para nossas almas imortais? Toda esperança estava perdida; a danação e ruína eternas da raça humana eram certas, sem nenhuma alternativa para escarparmos, quando São Miguel,  nosso fiel amigo, e os anjos como ele, permaneceram fiéis, obedientes e em posse deste prêmio pela sua constância, a mais agradável eterna alegria nos céus, todos juntos, compadecidos das calamidades que atingem a raça humana, em humilde súplica aos pés de Deus, desejando alcançar pelas suas preces o remédio para tão grandes males, que pelo pecado de Adão e Eva, espalharam-se como uma grande enchente por todos seus descendentes; assim os santos oram:

8. "Oh Deus dos deuses, mais misericordioso Senhor e Pai de todas as nações, agora que tem chegado a última hora, o dia mais esperado desde o início dos tempos está se aproximando, o dia que o Sagrado Senhor preparou e destinou para demonstrar sua misericórdia à humanidade perdida. Já vemos agora o amanhecer deste dia em que os portões do céu estarão novamente abertos para os filhos de Adão, restaurados pela graça de serem filhos adotados de Deus. Dos Santos Joaquim e Ana nasceu uma filha, Maria por nome, cujas virtudes e santidade ultrapassaram em excelência todas as criaturas menores que Deus. E esta mulher, é tão pura e nobre, de sangue virginal, nem parece ser obra do mesmo infinito e oniciente Deus que formou o corpo do velho homem, o corpo de Adão, à sua semelhança. E neste corpo virginal, formado da mais pura substância, o Todo Poderoso insuflou a mais bela alma, em íntima união, ultrapassando a santidade de todas almas criadas antes dela e que serão criadas no futuro. Neste tempo, Deus resolveu, em conselho da Santíssima Trindade, juntar sua Divina Pessoa com nossa natureza humana no seio da Virgem Maria, de tal modo que desta Virgem, a mais perfeita de todas criaturas, pudesse nascer Jesus Cristo, seu Filho e Salvador do universo. E assim, ó Deus, as Escrituras serão cumpridas, assim como as promessas feitas aos patriarcas e profetas serão plenamente realizadas, em favor daqueles que estão esperando pelo Salvador Jesus Cristo, nosso Senhor e Redentor."

9. Ao ouvir esta prece dos santos anjos, o mais alto, o soberano Senhor e Todo Poderoso Deus, tocado pela infinita compaixão pela nossa imensa miséria, mais claramente compreendida por Ele, enviou dos céus o arcanjo Gabriel para a cidade de Nazaré, onde a Virgem Maria residia. Este anjo, seguindo as ordens de Deus, disse a ela: Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo. Encontraste graça diante de Deus, conceberás e darás à luz um filho, e lhe porás o nome de Jesus (cf. Lc 1, 28-31). Ao ouvir estas palavras, Maria respondeu: Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a tua palavra (Lc 1,38). No instante que a santa virgem deu sua palavra de consentimento ao que era proposto por Deus através do arcanjo, Deus formou em seu ventre, do seu puro sangue, um corpo humano, ao qual Ele uniu, no mesmo instante, a alma de seu Filho. Então a segunda pessoa da Santíssima Trindade se encarnou no ventre da Virgem Maria, somando sua perfeita alma a um perfeito corpo, ambos infinitamente santos.

10. Após, transcorridos nove meses desde o dia da incarnação do Filho de Deus, deu-se seu nascimento. Jesus Cristo, o Salvador da humanidade, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, nasceu da Virgem Maria. Isto professou Santo André: Eu creio em Jesus Cristo, o único Filho de Deus, nosso Senhor,  e ao que São João acrescentou: que foi concebido pelo Poder do Espírito Santo, nasceu da Virgem Maria. Jesus, nosso Senhor e Salvador nasceu em Belém, próximo a Jerusalém. Foi lá que os anjos, a Virgem sua Mãe, São José, os Reis Magos vindos do este e muitos outros, adoraram ao Senhor Soberano.

 -- Explanação Catequética do Credo para os Habitantes das Ilhas Molucas, por São Francisco Xavier (século XVI)

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