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8 de fev. de 2015

Livro Segundo Exortações à vida interior - Capítulo 1 - Da vida interior


  1. O reino de deus está dentro de vós, diz o Senhor (Lc 17,21). Converte-te a Deus de todo o coração, deixa este mundo miserável, e tua alma achará descanso. Aprende a desprezar as coisas exteriores e entrega-te às interiores, e verás chegar a ti o reino de Deus. Pois o reino de Deus é a paz e o gozo no Espírito Santo (Rom 14, 17), que não se dá aos ímpios. Virá a ti Cristo para consolar-te, se lhe preparares no teu interior digna moradia. Toda a sua glória e formosura está no interior (Sl 44,14), e só aí o Senhor se compraz. A miúdo visita ele o homem interior em doce entretenimento, suave consolação, grande paz e familiaridade sobremaneira admirável
  2. Eia, alma fiel, para este Esposo prepara teu coração, a fim de que se digne vir e morar em ti.
    Pois assim ele diz: Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e viremos a ele e faremos nele a nossa morada (Jo 14,23). Dá, pois, lugar a Jesus e a tudo mais fecha a porta. Se possuíres a Cristo, estarás rico e satisfeito. Ele mesmo será teu provedor e fiel procurador em tudo, de modo que não hajas mister de esperar nos homens. Porque os homens são volúveis e faltam com facilidade à confiança, mas Cristo permanece eternamente (Jo 12,34), e firme nos acompanha até ao fim.
  3. Não se há de ter grande confiança no homem frágil e mortal, por mais que nos seja caro e útil; nem nos devemos afligir com excessos, porque, de vez em quando, nos contraria com palavras ou obras. Os que hoje estão contigo amanhã talvez sejam contra ti, e reciprocamente, pois os homens mudam como o vento. Põe toda a tua confiança em Deus, e seja ele o teu temor e amor; ele responderá por ti, e fará do melhor modo o que convier. Não tens aqui morada permanente (Hbr 13,14), e onde quer que estejas, és estranho e peregrino; nem terás nunca descanso, se não estiveres intimamente unido a Jesus.
  4. Para que olhas em redor de ti, se não é este o lugar de teu repouso? No céu deve ser a tua habitação, e como de passagem hás de olhar todas as coisas da terra. Todas passam, e tu igualmente passas com elas; toma cuidado para não te apegares a elas, a fim de que não te escravizem e percam. Ao Altíssimo eleva sempre teus pensamentos, e a Cristo dirige súplica incessante. Se não sabes contemplar coisas altas e celestiais, descansa na paixão de Cristo e gosta de habitar em suas sacratíssimas chagas. Pois, se te acolheres devotamente às chagas e preciosos estigmas de Jesus, sentirás grande conforto em tuas mágoas, não farás mais caso do desprezo dos homens e facilmente sofrerás as suas detrações.
  5. Cristo também foi, neste mundo, desprezado dos homens, e em suma necessidade, entre os opróbrios, o desampararam seus conhecidos e amigos. Cristo quis padecer e ser desprezado; e tu ousas queixar-te de alguém? Cristo teve adversidade e detratores; e tu queres ter a todos por amigos e benfeitores? Como poderá ser coroada tua paciência, se não encontrares alguma adversidade? Se não queres sofrer alguma contrariedade, como serás amigo de Cristo? Sofre com Cristo e por Cristo, se com Cristo queres reinar.
  6. Se uma só vez entraras perfeitamente no Coração de Jesus e gozaras um pouco de seu ardente amor, não farias caso do teu proveito ou dano, ao contrário, te alegrarias com os mesmos opróbrios; porque o amor de Jesus faz com que o homem se despreze a si mesmo. O amante de Jesus e da verdade, e o homem deveras espiritual e livre de afeições desordenadas, pode facilmente recolher-se em Deus, e, elevando-se em espírito, acima de si mesmo, fruir delicioso descanso.
  7. Aquele que avalia as coisas pelo que são, e não pelo juízo e estimação dos outros, este é o verdadeiro sábio, ensinado mais por Deus que pelos homens. Quem sabe andar recolhido dentro de si, e ter em pequena conta as coisas exteriores, não precisa escolher lugar nem aguardar horas para se dar a exercícios de piedade. O homem interior facilmente se recolhe, pois nunca se entrega de todo às coisas exteriores. Não o estorvam trabalhos externos nem ocupações, às vezes necessárias, mas ele se acomoda às circunstâncias, conforme sucedem. Quem tem o interior bem disposto e ordenado não se importa com as façanhas e crimes dos homens. Tanto o homem se embaraça e distrai, quanto se mete nas coisas exteriores.
  8. Se foras reto e puro, tudo te correria bem e se voltaria em teu proveito. Mas, porque ainda não estás de todo morto a ti mesmo, nem apartado das coisas terrenas, por isso muitas coisas te causam desgostos e perturbações. Nada mancha tanto e embaraça o coração do homem como o amor desordenado às criaturas. Se renunciares às consolações exteriores, poderás contemplar as coisas do céu e gozar a miúdo da alegria interior.

7 de ago. de 2013

Ninguém é um monstro, Deus ama a todos

Nos últimos dias alguns fatos me conduziram à esta pequena catequese: (1) a capa da revista Rolling Stones estampa o jovem que colocou as bombas em Boston, matando muitos e causando seríssimas lesões em outros mais, com a manchete: Como um estudante promissor e popular transformou-se em um islâmico radical e tornou-se um monstro; (2) Ariel Castro que sequestrou três meninas, estuprou-as e torturou-as por uma década e ainda frequentava uma igreja cristã aos domingos, foi julgado. Aceitou prisão perpétua e mais 1000 anos de pena. Durante o julgamento, afirmou que não é um monstro; (3) foi lançado no Brasil o filme Hannah Arendt, sobre o julgamento de um criminoso nazista que embarcou milhares e milhares de judeus para os campos de concetração, popularmente dito um monstro.

O primeiro fato é que ninguém nasce um assassino cruel, terrorista ou tarado sexual, por serem  encarnações do Demônio. Isto é coisa de filme. Todos escolhem, em um certo momento da vida, este caminho, consideram-no aceitável. Alguns justificam por questões políticas, vingança, guerra, doença mental, traumas de infância, etc... Talvez se atendidas a tempo, crimes e tristezas poderiam ser evitados, mas somos todos livres, Deus nos deu esta liberdade, para escolhermos um caminho errado.

Como cristãos somos chamados a termos uma visão completamente diferente destas pessoas. Diz São Paulo, estamos no mundo, mas não somos do mundo. Não devemos seguir a imprensa e também chamá-los de monstros. Deus criou todas as criaturas à sua imagem com o desejo de que tornem-se santas. Todas são pessoas como eu e tu, com as mesmas capacidades, por mais aterrador que possa parecer.

Deus nos ama profundamente e perdoa todos nossos pecados, como Pai perfeito e amoroso que somente Ele sabe ser. Cristo nos ensinou claramente quantas vezes devemos perdoar: setenta vezes sete, por toda a vida, sempre. Tods nós somos pecadores, um tanto distantes do plano de Deus. Considere São Pedro e Judas Iscariotes: ambos trairam a Deus, mas São Pedro deu-se conta que Deus o amava e era capaz de perdoar seu pecado.  

E como disse uma das meninas sequestradas durante o julgamento de Ariel Castro: eu posso perdoá-lo. Não que ela já tenha perdoado, ou que vá ser fácil, ou possível apenas com suas forças. Acho que o Espírito Santo terá que atuar seriamente e ajudá-la neste perdão. Mas, sim, tanto ela quanto cada um de nós pode perdoar e rezar por quem despezaríamos, inclusive pelos piores criminosos. 

-- autoria própria

29 de jun. de 2012

O sétimo artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que nos ensina o sétimo artigo: donde há de vir a julgar os vivos e os mortos?
- Que o mesmo Cristo Nosso Senhor no fim do mundo virá do céu, cheio de glória e majestade para julgar todos os homens, dando a cada um o prêmio e castigo que tiver merecido.

Se cada um logo depois da morte tem de ser julgado por Jesus Cristo no juízo particular, porque havemos de ser julgados no Juízo Universal?
- Por muitas razões: (1) para glória de Deus; (2) para glória de Jesus Cristo; (3) para glória também dos santos; (4) para confusão dos maus; (5) finalmente para que o corpo, com a alma, tenha a sua sentença de glória ou de pena.

Porque será esse juízo para a glória de Deus?
- Para que saibam todos, com quanta justiça Deus governa o mundo, posto que agora se vê algumas vezes os bons em aflição e os maus em prosperidade.

Porque para glória de Jesus Cristo?
- Porque tendo ele sido injustametne condenado pelos homens, lhe é devido o aparecer uma vez como Juiz Supremo de todos na face de todo o mundo.

Porque será também esse Juízo para a glória dos santos?
- Porque muitos deles morreram difamados pelos maus; e pede a razão que em presença do mundo sejam glorificados.

E qual será a confusão dos maus?
- Grandíssima será a sua confusão, principalmente daqueles que em vida pretenderam ser estimados como bons e virtuosos, vendo manifesto a todo mundo os seus pecados, ainda os mais ocultos.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

7 de jun. de 2012

O quinto artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Católica)


Que coisa nos ensina o quinto artigo: desceu à mansão dos mortos e essuscitou no terceiro dia?
- Que havendo Jesus Cristo expirado, passou logo a sua Alma ao Limbo dos Santos Padres, para libertá-los, e que ressuscitou ao terceiro dia.

E que faziam no Limbo aquelas almas?
- Estavam ali entretidas, como em repouso, com a esperança da vinda do verdadeiro Messias, Jesus Cristo.

Que esperavam do Messias aquelas almas?
- Serem libertadas, como foram, e introduzidas por Ele no Céu.

E porque não tinham já lá entrado?
- Porque pelo pecado de Adão estava fechado o Céu, e era muito justo que Jesus Cristo, que com sua morte lhes abriu as portas do Céu, fosse o primeiro a entrar lá.

E porque esperar até o terceiro dia para ressuscitar?
- Para mostrar com mais evidência que fora verdadeiramente morto.

A Ressurreição de Jesus Cristo foi como a ressurreição de outros homens?
- Não, porque Jesus Cristo ressurgiu por sua própria virtude, e os outros pelas virtudes de Jesus.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

30 de abr. de 2012

O primeiro artigo do Creio (Compêndio da Doutrina Cristão)


Que ensina o primeiro artigo do Creio?
- Que há um só Deus em três pessoas realmente distintas, das quais a primeira é o Pai, o qual é onipresente e do nada criou o Céu, a Terra e todas as coisas que há no Céu e na Terra.

Porque se diz que Deus é Pai?
- Porque é pai de todos os homens que ele criou, conserva e governa. Porque por especial graça é pai dos cristãos, os quais são chamados filhos adotivos de Deus. Porque aqui se trata principalmetne da primeira pessoa da Santíssima Trindade, que é chamada Pai, porque é por natureza pai da segunda, isto é, o Filho.

Porque é o Pai a priemira pessoa da Santíssima Trindade?
- Porque Ele não procede de outra pessoa, mas é o princípio das outras duas pessoas, isto é, do Filho e do Espírito Santo.

O que quer dizer aquela palavra "onipotente" ou "todo-poderoso"?
- Que Deus pode fazer tudo aquilo que desejar.

Deus não pode pecar nem morrer; como se diz que Ele pode tudo?
- Diz-se que Deus tudo pode, posto que não pode pecar nem morrer, porque o pecar ou morrer não é efeito de grande poder ou valor, mas de fraqueza, a qual não pdoe achar-se em Deus que é perfeitíssimo.

Explicai com maior clareza o que quer dizer "Criador do Céu e da Terra".
- Criar quer dizer "tirar do nada" alguma coisa; portanto Deus se diz criador do céu e da terra porque os tirou do nada, assim como todas as cosias que no céu e na Terra se contêm.

O mundo foi criado somente pelo Pai?
- Foi criado igualmente por todas as três pessoas divinas, porque tudo quanto obra uma pessoa, o fazem também as outras duas pessoas.

Porque pois se atribui particularmente ao Pai a Criação?
- Porque sendo o Pai o princípio das outras duas pessoas, com propriedade se diz também princípio de todas as coisas criadas.

-- Compêndio da Doutrina Cristã, por São Roberto Belarmino (século XVI)

12 de fev. de 2012

Primeira hierarquia: querubins, serafins e tronos


Todos os nomes atribuídos às inteligências celestes  designam capacidades para eles receberem a semelhança divina. 

Querubim em hebraico significa "aquele que arde". Significa também "massa de conhecimento e efusão de sabedoria". 

A primeira hierarquia é a mais sublime de todas e graças a sua proximidade com Deus recebe primeiro que as outras as aparições Dele e os seus nomes revelam o modo como se ligam a Ele. 

Os Serafins têm como qualidades especiais o movimento perpétuo em torno dos segredos divinos, o calor, a profundidade, o ardor dum constante movimento que não conhece diminuição, o poder de elevarem eficazmente as suas semelhanças aos que lhes são inferiores, comunicando-lhes o mesmo ardor a mesma chama e o mesmo calor. Eles têm o poder de purificarem a evidente e indestrutível aptidão para conservarem a sua própria luz, o seu poder de iluminação e a faculdade de abolirem todas as trevas. 

Os Querubins designam aptidões a conhecerem e a contemplarem a Deus, a receberem os mais altos dons da Sua Luz, a contemplarem na sua potência primordial o esplendor divino, a acolherem em si a plenitude dos dons que transmitem sabedoria e a comunicá-los em seguida às essências inferiores graças a expansão da própria sabedoria que lhes foi transmitida. Os Tronos, sublimes e luminosos, indicam a ausência total de qualquer concessão aos bens inferiores e a tendência contínua para os cumes, que sublinha bem o fato de eles nada terem em comum com o que lhes está abaixo. Eles indicam a sua infalível aversão a toda indignidade, a grande concentração de toda a sua capacidade para se manterem constante e firmemente perto do Altíssimo, a capacidade de receberem indiferentemente todas as visitações da Divindade, o privilégio que têm de servirem de assento a Deus e o seus zelos em se abrirem aos dons de Deus. 

Essa é a explicação de seus nomes na medida do que nos é possível revelar aos homens. 

Resta-nos dizer o que entendemos pela suas hierarquias. Que o objetivo de toda hierarquia é imitar constantemente a Deus; que toda a função hierárquica consiste em acolher e transmitir a pureza sem mistura da luz divina e da sabedoria, como já o dissemos. 

Agora proponho-me a mostrar o que as Escrituras revelam das suas hierarquias. 

Esses seres angélicos constituem uma só hierarquia  inteiramente homogênea. Devemos pensar que eles são puros não apenas por estarem livres de todo o pecado e de tudo o que é profano, mas porque eles ignoram toda a imaginação material; porque estão acima de toda a fraqueza; porque a sua sublime pureza ultrapassa a  de quaisquer outras inteligências angélicas; porque conservam sem qualquer perda ou corrupção a estabilidade perpétua do poder que possuem de estarem em harmonia com Deus. 

Eles são igualmente contemplativos. Não porque contemplem intelectualmente símbolos nem porque se elevem espiritualmente através de santas alegorias, mas porque recebem em toda a plenitude o saber de uma Luz superior através da contemplação desse Ser Sobreessencial e triplamente luminoso, que está na origem e no princípio de toda a beleza. 

Eles têm igualmente o mérito de entrarem em comunhão com Jesus através de uma verdadeira proximidade, pois tomam parte no conhecimento de Suas operações divinas, uma vez que lhes foi dada no mais alto grau a capacidade de imitarem a Deus. Eles entram em contato tanto quanto lhes é possível com as virtudes, pelas quais Ele exerce a Sua ação divina face aos homens e manifesta o Seu amor por eles. 

Eles são perfeitos não pela iluminação de uma sabedoria que lhes permitiria analisar a variedade dos santos mistérios, mas pela plenitude duma deificação, pela ciência superior que possuem na qualidade de mensageiros das operações divinas. É diretamente de Deus que eles recebem a iniciação sagrada e é graças a esse poder de se elevarem diretamente até Deus, que eles devem a superioridade sobre todos os outros seres. 

Os teólogos mostram claramente que as ordens inferiores das essências celestes aprendem de seus superiores tudo o que lhes concernem às operações divinas, enquanto que a ordem mais elevada é iniciada por Deus. Eles nos revelam, que certos anjos são iniciados por aqueles que possuem um nível mais elevado que o seu e que aprendem através desses, que Deus é o Senhor das potências celestes, o Rei da Glória, que sob a forma humana subiu aos céus. Outros recebem de Jesus Cristo a sua iniciação sem intermediários, recebendo d’Ele antes de todos os outros a revelação da obra redentora que Ele levou a cabo por amor aos homens. "Eu sou (responderá Ele) O que falo a justiça, e venho para defender e salvar" (Is 63:1). 

Assim é, tanto quanto eu posso conhecer, essa primeira ordem das essências celestes, aquela que rodeia a Deus e que se situa na Sua vizinhança, aquela que envolve o Seu perpétuo conhecimento. Ela pode não somente contemplar, mas ainda receber iluminações e sustentar-se do maná divino. Digna ao mais alto nível, de entrar em comunhão e em cooperação com Deus, essa primeira ordem assemelha-se tanto quanto pode à bondade dos poderes e das operações próprias a Deus. 

É por isso que a teologia nos transmite os hinos que cantam esses anjos, onde se manifesta o caráter transcendente da sua sublime iluminação.  Se ousarmos utilizar uma imagem terrena, eles se assemelham à voz de uma torrente tempestuosa quando gritam:  "Bendita seja a glória do Senhor, que se vai do seu lugar" (Ez 3:12). Outros anjos entoam o hino célebre e venerável: "Santo, Santo, Santo, é o Senhor Deus dos exércitos, toda a terra está cheia da Sua glória" (Is 6:3). 

Nessa primeira ordem das essências celestes estão os lugares divinos, onde segundo a expressão das Sagradas Escrituras a Divindade "repousa". Essa ordem ensina também aos outros anjos que a Divindade é una. Una em Três Pessoas e que Ela exerce a sua Providência benfeitora desde as essências que vivem no céu até as mais baixas criaturas terrenas, pois Ela é o Princípio e a Causa de toda a essência e é Ela que envolve o universo inteiro de modo sobreessencial num abraço irresistível. 

-- Do livro Hierarquia Celeste, atribuído a Dionísio o Areopagita

Os anjos


* Vou publicar nesta semana uma sequência de capítulos do livro Hierarquia Celeste, atribuído a Dionísio, o Areopagita, um dos discípulos diretos de São Paulo em Atenas, citado no Atos dos Evangelhos: "Assim saiu Paulo do meio deles. Todavia algumas pessoas, agregando-se a ele, abraçaram a fé; entre as quais foi Dionísio, o areopagita..." (At 17:33-34). No entanto, análises mais modernas do texto indicam que ele teria sido escrito não antes do século V. De qualquer modo, o conteúdo é considerado uma expressão autêntica da tradição católica. 

Teto do Batistério de São João, em Florença/Itália.
Cada círculo representa um nível da hieraquia celeste.
Quais e quantas são as ordens desses seres que vivem no Céu? Como é que cada  hierarquia recebe a sua consagração ou o seu aperfeiçoamento? Afirmo que apenas o Princípio Divino poderia responder exatamente a essas questões. Mas os seres angélicos não ignoram nem as qualidades que lhes são próprias, nem a hierarquia sagrada que os rege e que não pertence a este mundo. 

É impossível conhecermos os segredos das inteligências que vivem no céu, a menos que Deus nos revele por intermédio dessas mesmas inteligências, as quais não ignoram a sua própria natureza. Portanto, não faremos nada de nossa própria autoria e nos contentaremos em expor na medida dos nossos conhecimentos essas visões angélicas, tal como os santos teólogos as contemplam e tal como eles a nós revelaram.

Os seres angélicos dividem-se em três ordens e possuem nove nomes:

- A primeira ordem rodeia a Deus de modo permanente e está unida a Ele constantemente. Ela está em primeiro lugar e não possui qualquer mediação: são os Tronos santíssimos e os batalhões notáveis por seus números de olhos e de asas que recebem os nomes de Querubins e Serafins. Eles têm uma proximidade de Deus superior a todos os outros. Essa ordem de três batalhões formam uma só e constitui a primeira hierarquia de nível igual. 

- A segunda ordem compõe-se de  Virtudes,  Dominações e  Potestades constituindo a segunda hierarquia. 

- A terceira ordem constitui a última hierarquia celeste. É a ordem dos Anjos, Arcanjos e Principados.


25 de jul. de 2011

São Tiago e São João: participantes da paixão de Cristo

São Tiago
Os filhos de Zebedeu pedem a Cristo: Deixa-nos sentar um à tua direita e outro, à tua esquerda (Mc 10,37). Que resposta lhes dá o Senhor? Para mostrar que no seu pedido nada havia de espiritual, e se soubessem o que pediam não teriam ousado fazê-lo, diz: Não sabeis o que estais pedindo (Mt 20,22), isto é, não sabeis como é grande, admirável e superior aos próprios poderes celestes aquilo que pedis. Depois acrescenta: Por acaso podeis beber o cálice que eu vou beber? (Mt 20,22). É como se lhes dissesse: “Vós me falais de honras e de coroas; eu, porém, de combates e de suores. Não é este o tempo das recompensas, nem é agora que minha glória há de se manifestar. Mas a vida presente é de morte violenta, de guerra e de perigos”.

Reparai como o Senhor os atrai e exorta, pelo modo de interrogar. Não perguntou: “Podeis suportar os suplícios? podeis derramar vosso sangue? Mas indagou: Por acaso podeis beber o cálice? E para os estimular, ainda acrescentou: que eu vou beber? Assim falava para que, em união com ele, se tornassem mais decididos. Chama sua paixão de batismo, para dar a entender que os sofrimentos haviam de trazer uma grande purificação para o mundo inteiro. Então os dois discípulos lhe disseram: Podemos (Mt 20,22). Prometem imediatamente, cheios de fervor, sem perceber o alcance do que dizem, mas com a esperança de obter o que pediam.
São João Evangelista, quadro de Velasquez

Que afirma o Senhor? De fato, vós bebereis do meu cálice (Mt 20,23), e sereis batizados com o batismo com que eu devo ser batizado (Mc 10,39). Grandes são os bens que lhes anuncia, a saber: “Sereis dignos de receber o martírio e sofrereis comigo; terminareis a vida com morte violenta e assim participareis da minha paixão”. Mas não depende de mim conceder o lugar à minha direita ou à minha esquerda. Meu Pai é quem dará esses lugares àqueles para os quais ele os preparou (Mt 20,23). Somente depois de lhes ter levantado os ânimos e de tê-los tornado capazes de superar a tristeza é que corrigiu o pedido que fizeram.

Então os outros dez discípulos ficaram irritados contra os dois irmãos (Mt 20,24). Vedes como todos eles eram imperfeitos, tanto os que tentavam ficar acima dos outros, como os dez que tinham inveja dos dois? Mas, como já tive ocasião de dizer, observai- os mais tarde e vereis como estão livres de todos esses sentimentos. Prestai atenção como o mesmo apóstolo João, que se adianta agora por este motivo, cederá sempre o primeiro lugar a Pedro, quer para usar da palavra,quer para fazer milagres, conforme se lê nos Atos dos Apóstolos. Tiago, porém, não viveu muito mais tempo. Desde o princípio, pondo de parte toda aspiração humana, elevou-se a tão grande santidade que bem depressa recebeu a coroa do martírio.

-- Das Homilias sobre Mateus, de São João Crisóstomo, bispo (Século IV)

28 de jun. de 2011

Constituição Benedictus Deus - Papa Bento XII

* A constituição Benedictus Deus, do Papa XII, definiu que, logo após a morte corporal, as almas totalmente puras são admitidas à contemplação da essência de Deus face à face. Este documento é considerado ex-cathedra, ou seja, infalível e declara uma verdade da fé cristã.

Papa Bento XII governou a Igreja de 22 de
Dezembro de 1334 até sua morte em 25 de
Abril de 1342.
Por esta constituição, que permanecerá perpetuamente em vigência, Nós, com apostólica autoridade, definimos:

Que, conforme a disposição geral de Deus, as almas de todos os santos que partiram deste mundo antes da paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo, assim como as dos santos apóstolos, mártires, confessores, virgens e dos outros fiéis que morreram após o recebimento do santo batismo de Cristo – dado que não tinham necessidade de serem purificadas ao morreram, ou não há de ser quando no futuro morrerem, ou se, então, nelas tiver havido algo a purificar e tiverem sido purificadas após a morte – e as almas das crianças renascidas pelo mesmo batismo de Cristo e das que serão quando forem batizadas, e morreram antes do uso do livre-arbítrio, logo depois de sua morte e da purificação mencionada aos que precisavam de tal purificação, mesmo antes de reassumir os seus corpos e antes do juízo universal, após a ascensão ao céu de Nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, estiveram, estão e estarão no céu, no reino dos céus e no paraíso celeste, com Cristo, junto da companhia dos santos Anjos.

E que depois da paixão e morte de Nosso Senhor Jesus Cristo viram e vêem a essência divina com uma visão intuitiva e até face a face – sem a mediação de qualquer criatura como objeto de visão, mas a essência divina se revela a eles de forma imediata, desnuda, clara e manifesta –; e que aqueles que vêem assim, gozam plenamente da mesma essência divina, e, dessa forma, por essa visão e fruição, as almas daqueles que já morreram são verdadeiramente bem-aventuradas e possuem a vida e o descanço eterno, como também as dos que mais tarde hão de morrer verão a essência divina e gozarão dela antes do juízo universal; e que esta visão da essência divina a sua fruição fazem cessar nessas almas os atos de fé e de esperança, uma vez que a fé e a esperança são propriamente virtudes teologais; e, depois que esta visão intuitiva face a face e esta fruição teve e tiver nelas início, esta visão e fruição – sem qualquer interrupção ou privação desta visão e fruição –, permanecem ininterruptos e hão de assim continuar até o juízo final e, a partir dele, por toda a eternidade.

Definimos também que, de acordo com a geral disposição de Deus, as almas daqueles que morrem em pecado mortal atual, logo depois de sua morte descem ao inferno, onde com as penas infernais são atormentadas, e que, todavia, no dia do juízo, todos os homens hão de comparecer “diante do tribunal de Cristo” com os seus corpos para prestar contas de suas ações, “para que cada um receba o que lhe toca segundo o que fez quando estava no corpo, seja de bem ou de mal” (II Cor. 5, 10).

 
Decretado no 29º dia de janeiro, do ano de Nosso Senhor de 1336, segundo de nosso pontificado.

Bento PP. XII

24 de mai. de 2011

Explicação Catequética do Credo - artigo XI: Creio na Ressurreição do Corpo



Juízo Final e a Missa de São Gregório.
No alto aparece Jesus Cristo, acompanhado dos santos,
julgando as almas no Dia do Juízo Final. A esquerda,
anjos salvam as almas do Purgatório; crianças estão
no limbo e; em outra parte do Purgatório, almas nadam
num rio. A direita, demônios queimam e atormentam as
almas no Inferno, enquanto o próprio Diabo ataca Judas
Iscariotes. Ao centro, São Gregório celebra a Santa Missa.

38. Injustiça pode ser feita à infinita bondade e justiça de Deus se não acreditarmos firmemente que Deus não pode falhar nunca ao retribuir de forma abundante todos aqueles que lhe servem fielmente na obediência exata da sua santa lei, ou, por outro lado, falhar ao punir adequadamente os ímpios e escarnecedores de Deus, obstinados transgressores de seus mandamentos. Portanto, acreditamos, com certeza, que haverá ressurreição do corpo, que todos homens, sem exceção, aqueles que viveram no passado, vivem hoje em dia, e ainda viverão nesta terra, retornarão à vida e receberão os mesmos corpos que lhes pertencia antes de morrerem, e passarão a eternidade em glória ou tormentos. Porque é necessário que o Deus Nosso Senhor, o mais justo e incorruptível, conforte com alegrias imortais os santos que durante sua vida mortal sujeitaram seus membros e sentidos a contínuos combates para não separararem-se do amor de Deus, pois sofreram muitos insultos e golpes de seus perseguidores, que lhes perseguiam com violência selvagem para força-los a ofender a Deus. De maneira virtuosa, os santos mantiveram suas almas e corpos no dever, privando-se de muitos prazeres, sofrendo dores, tormentos e, muitas vezes, cruéis castigos, é justo então que suas almas e corpos recebam nos céus seu quinhão de descanso e glória.

39. Também é apropriado que os corpos dos homens ímpios, que durante sua vida, apesar das advertências da lei divina, deixaram-se fartar nos prazeres da licensiosidade e todo tipo de vício, seguindo suas paixões de glutonia e impurezas contrárias aos mandamentos de Deus, devam ser punidos eternamente contra as suas vontades, em fogos que nunca se extinguem, expiando seus apetites sexuais indulgentes e promíscuos, e então, ainda que muito tarde, conheçam o grande mal que provocaram e como é inútil uma criatura desprezar e provocar a Deus, adorável acima de todas as coisas. Por estas razões, como disse, toda humanidade, bons e ímpios, irãoo ressuscitar no Dia do Julgamento Final, suas almas retornarão aos seus corpos que receberão no primeiro nascimento e animarão até a morte. Estarão unidas de um modo que jamais se dissolverá, e de acordo com os méritos de cada um, irão para os céus reinar com Jesus Cristo na glória do Paraíso, ou para o Inferno, junto com o Demônio para o sofrimento eterno. Isto São Judas confessa quando dia: Creio na ressurreição do corpo.


-- Explanação Catequética do Credo para os Habitantes das Ilhas Molucas, por São Francisco Xavier (século XVI)

14 de abr. de 2011

Explicação Catequética do Credo - artigo V: Desceu à mansão dos mortos e ressuscitou no terceiro dia

* Artigo IV: Creio em Jesus Cristo, que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado

Descida de Cristo ao Limbo, de Andrea de Firenze, Igreja de
Santa Maria Novella, Florença.
20. E então, a mais Sagrada alma, separada do corpo de Jesus e permanecendo unida à divindade do Filho de Deus, como tem sido desde sempre, desceu ao Limbo. O Limbo é um local abaixo da terra onde estão as almas dos santos padres, profetas, patriarcas e muitos outros, reunidas à espera da vinda do Filho de Deus, pois sabem que as conduzirá para a abóboda do Paraíso. Pois desde o início da criação, homens bons tem vivido, tem sido amigos e tementes de Deus, pois livremente entenderam e professaram as santas verdades e nunca abandonaram sua fé frente aos perversos que se opuseram a elas. Estas almas reprovaram pecadores, corrigiram a maldade daqueles que se opuseram a Deus, o criador de todos. Mas homens corruptos e criminosos não aceitaram suas censuras, pela inspiração e assistência do Demônio, arranjaram falsas testemunhas, perseguiram boas pessoas, amigas de Deus, com todo tipo de maldade, fazendo-as prisioneiras, banindo-as das cidades, injuriando-as e insultando-as.

21. Correspondendo às grandes diferenças de vida entre os homens bons e os perversos, é muito diferente o estado destas almas que separaram-se de seus corpos. Todas almas daqueles que durante a sua vida foram virtuosos, quando a morte libertou a alma das ligações com o corpo, dirigiram-se para este lugar a pouco mencionado, chamado Limbo, localizado logo abaxo da superfície da terra. Lá não há, como no lugar chamado Inferno, fogos, tormentos ou dores. Tais punições são reservadas aos perversos, enquanto que as almas daqueles que agradaram a Deus repousam numa abençoada paz.

22. Abaixo desta região, há outra chamada Purgatório, por ser um lugar para purificação e limpeza, que tornará as almas daqueles não culpados de pecados graves, almas levemente marcadas por pecados veniais, que não incorreram em pecados mortais e ainda não fizeram penitências adequadas para cobrir as dívidas de seus pecados, que pela graça de Deus poderão livrar-se das culpas e pagar por seus erros. Neste local, através de sofrimentos e privações, livram-se dos velhos vícios encrustados nas almas, até pagarem por todos pecados atribuídos a elas; até as almas tornaram-se limpas a ponto de brilharem com intensidade. Então é permitido a elas entrarem em posse de sua herança, sendo uma punição esperarem por esta purificação até o momento justo.

23. A última destas abóbadas abaixo da Terra é propriamente chamado de Inferno, a mais miserável abóbada de chamas que nunca extinguem-se e tormentos tão horríveis e intoleráveis, de diferentes tipos, que se qualquer homem aplicasse a si mesmo tais punições por apenas uma hora de sua vida, mesmo que de maneira imperfeita e como nosso estado permite, a natureza de tais tormentos  seria evidente, veria claramente o grande horror de fazer-se culpado de grandes crimes e maldades sem hesitação, por esporte ou diversão, e correr o risco de terem que suportar tão grandes tormentos por toda eternidade. Lá está Lucifer, príncipe dos espíritos que rebelaram-se contra Deus. Lá estão todos espíritos que o seguiram e desceram aos infernos junto com Lucífer. Lá estão todos homens que, desde o início da humanidade, desprezaram a graça de Deus e tornaram-se culpados de pecados mortais. Aqueles que uma vez colocados nestas chamas do inferno para sofrer eternamente sem esperança e serem atormentados por imensas e inumeráveis dores, sabem com certeza que nunca, por nenhum meio, por toda eternidade, jamais encontrarão remédio ou consolação, por menor que seja.

24. Meus queridos, que loucura é esta nossa, que nos faz vivermos de maneira despreocupada, sem temer o Inferno, enquanto estamos sempre alimentando aquele fogo eterno, empilhando em nossas consciências o peso de nossos pecados, cada dia mais e mais! Não é este um sinal claro que nossa fé é, não apenas fraca, mas inexistente? Podemos professar com nossas bocas, mas nossos atos  refutam a Deus; pois aqueles que se chamam cristãos e permitem-se pecar como se fossem muçulmanos e idólatras, devem certamente pensar que podem enganar-se e mentir quando dizem acreditar em chamas eternas e punições reservadas aqueles que violam as leis de Deus. A Igreja, seja aquela militante composta por pessoas na Terra, ou a triunfante, formada pelos Santos que reinam junto com Deus, nunca reza por aqueles que estão no inferno, pois sabe muito bem que o Paraíso lhes está negado por toda eternidade, toda esperança esta perdida e a ruína é irreparável. Mas a Igreja, tanto a que está na Terra quanto nos Céus, ajuda de maneira caridosa as almas que sofrem no Purgatório, e é cheia de cuidados para com aqueles que ainda estão neste mundo; ela busca obter a graça de Deus para todos, para que livrem-se da miséria e chamas eternas do inferno.

25. Jesus Cristo morreu numa sexta-feira, sua sagrada alma, sempre unida á Divindade, desceu ao Limbo, e livrou todas almas que lá esperavam sua vinda; e no terceiro dia, no Domingo, ele subiu dos mortos, reunindo sua sagrada alma ao corpo que havia abandonado quando morreu na cruz. Neste momento recobrou a vida  e, de posse total de sua imortalidade, apareceu primeiro a Sagrada Virgem Maria, então aos apóstolos, discípulos e a outros que lhe queriam. Assim, todas inseguranças e dúvidas que lhes acometeram  quando de sua morte foram eliminadas e abundantemente compensadas. Ele ainda ofereceu, através do testemunho de seus apóstolos, o perdão aos inimigos e àqueles que lhe crucificaram, e  concedeu sua graça a todos que a aceitaram. Havia grande números destes; e foi maravilhoso como muitos daqueles que obstinadamente não acreditaram em Jesus quando ainda estava vivo, pregando e confirmando seus ensinamentos com grandes milagres; quando Ele já não era mais visto acreditaram no testemunho dos apóstolos sobre a sua Ressurreição e colocaram toda sua esperança Nele, professaram sua crença em Deus Salvador dos homens. E estes que assim consideraram a verdade como sua fortaleza, isto afirmaram com estas palavras: "Creio em Jesus Cristo, que desceu à mansão dos mortos e no terceiro dia ressuscitou".

-- Explanação Catequética do Credo para os Habitantes das Ilhas Molucas, por São Francisco Xavier (século XVI)


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