31 de dez de 2010

Santa Maria, Mãe de Deus

O Verbo de Deus veio em auxílio da descendência de Abraão, como diz o Apóstolo. Por isso devia fazer-se em tudo semelhante aos irmãos (Hb 2,16-17) e assumir um corpo semelhante ao nosso. Eis por que Maria está verdadeiramente presente neste mistério; foi dela que o Verbo assumiu, como próprio, aquele corpo que havia de oferecer por nós. A Sagrada Escritura, recordando este nascimento, diz: Envolveu-o em panos (Lc 2,7); proclama felizes os seios que o amamentaram e fala também do sacrifício oferecido pelo nascimento deste Primogênito. O anjo Gabriel, com prudência e sabedoria, já o anunciaram a Maria; não lhe disse simplesmente: aquele que nascer em ti, para não se julgar que se tratava de um corpo extrínseco nela introduzido; mas: de ti (cf. Lc 1, 35Vulg.), para se acreditar que o fruto desta concepção procedia realmente de Maria.

Assim foi que o Verbo, recebendo nossa natureza humana e oferecendo-a em sacrifício, assumiu-a em sua totalidade, para nos revestir depois de sua natureza divina, segundo as palavras do Apóstolo: É preciso que este ser corruptível se vista de incorruptibilidade; é preciso que este ser mortal se vista de imortalidade (1Cor 15,53).

Estas coisas não se realizaram de maneira fictícia, como julgam alguns, o que é inadmissível! Nosso Salvador fez-se verdadeiro homem, alcançando assim a salvação do homem na sua totalidade. Nossa salvação não é absolutamente algo de fictício, nem limitado só ao corpo; mas realmente a salvação do homem todo, corpo e alma, foi realizada pelo Verbo de Deus.

A natureza que ele recebeu de Maria era uma natureza humana, segundo as divinas Escrituras, e o corpo do Senhor era um corpo verdadeiro. Digo verdadeiro, porque era um corpo idêntico ao nosso. Maria é portanto nossa irmã, pois todos somos descendentes de Adão.

As palavras de João: O Verbo se fez carne (Jo 1,14) têm o mesmo sentido que se pode atribuir a uma expressão semelhante de Paulo: O Cristo fez-se maldição por nós (cf. Gl 3,13). Pois da intima e estreita união com o Verbo, resultou para o corpo humano em engrandecimento sem par: de mortal tornou-se imortal; sendo animal, tornou-se espiritual; terreno, transpôs as portas do céu.

Contudo, mesmo tendo o Verbo tomado um corpo no seio da Maria, a Trindade continua sendo a mesma Trindade, sem aumento nem diminuição. É sempre perfeita, e na Trindade reconhecemos uma só Divindade; assim, a Igreja proclama um único Deus no Pai e no Verbo. 

-- Das Cartas de Santo Atanásio, bispo (século IV) 

30 de dez de 2010

A missão dos bispos em relação à Igreja de Roma

Se nos preocupamos em ser o que devemos ser e queremos conhecer o significado do nosso nome – bispos e pontífices – temos necessidade de considerar e imitar com solicitude as pegadas d’Aquele que, constituído por Deus sumo sacerdote eterno, Se ofereceu por nós ao Pai no altar da cruz. Do alto do Céu observa atentamente todas as nossas obras e intenções, para dar a cada um o que merecemos.

Fomos encarregados de representá-lo na terra, recebemos o glorioso nome de bispos, a honra de tal dignidade e colhemos ainda nesta terra o fruto de nossos trabalhos espirituais. Sucedemos aos Apóstolos e aos homens apostólicos na mais alta responsabilidade das Igrejas, para que por meio do nosso ministério seja destruído o poder do pecado e da morte e para que a casa de Cristo, edificada na fé e no progresso das virtudes, cresça até formar um templo santo no Senhor (Ef 2,21).
Santo Tomás Becket nasceu em Londres. Pertencia
ao clero e foi chanceler do Reino, sendo eleito
bispo em 1162. Defendeu corajosamente a Igreja
contra o rei Herique II. Foi exilado por seis anos. De
volta à Inglaterra, teve ainda muito que sofrer, até
ser assassinado por guardas do rei em 1170.

É certamente grande o número dos bispos. No dia da nossa consagração prometemos ser solícitos e diligentes no dever de ensinar e governar, assim o professamos cada dia com as nossas palavras; queira Deus que a fidelidade prometida se confirme pelo testemunho das obras. A messe é abundante; e para a ceifar e armazenar no celeiro do Senhor não bastaria nem um nem poucos bispos.

Quem se atreve a duvidar que a Igreja de Roma é a cabeça de todas as Igrejas e a fonte da doutrina católica? Quem ignora que as chaves do reino dos Céus foram entregues a Pedro? Porventura não é verdade que a estrutura de toda a Igreja se edifica sobre a fé e a doutrina de Pedro, até que cheguemos todos ao estado de homem perfeito, na unidade da fé e no conhecimento do Filho de Deus? (Ef 4,13)

É preciso que sejam muitos os que plantam, muitos os que regam, porque o progresso da pregação e o crescimento dos povos o exigem. Se o povo do Antigo Testamento, que tinha um só altar, precisava de muitos servidores, com maior razão agora, com a grande afluência dos gentios, – a quem, para suas oferendas não bastaria toda a madeira do Líbano, e para seus holocaustos não chegariam todos os animais do Líbano e nem sequer os animais de toda a Judeia, – serão necessários muitos ministros.

Seja quem for o que planta e o que rega, Deus não dá o crescimento senão àquele que planta e rega sobre a fé de Pedro e segue a sua doutrina.

É Pedro quem há de pronunciar-se sobre as causas mais graves, que devem ser examinadas pelo Pontífice Romano e pelos magistrados da santa mãe Igreja por ele designados, pois enquanto participam da sua solicitude exercem o poder que ele lhes confia.

Recordai, finalmente, como se salvaram os nossos pais, de que modo e em meio de quantas tribulações foi crescendo a Igreja; de quantas tempestades saiu incólume a barca de Pedro que tem Cristo como timoneiro; como os nossos antepassados receberam a sua recompensa e como a sua fé se mostrou mais brilhante no meio da tribulação.

É assim que caminha a multidão dos santos, para que seja sempre verdadeira esta palavra: Só recebe a coroa quem combate segundo as regras (2Tm 2,5).
 
-- Das Cartas de Santo Tomás Becket, bispo (século XII)

29 de dez de 2010

Na plenitude dos tempos, veio a nós a plenitude da divindade

Deus Pai enviou a paz à terra, por assim dizer, como um saco pelo de sua misericórdia. Um saco que devia romper-se na paixão para derramar o preço de nosso resgate nele escondido; um saco, sim, que embora pequeno estava repleto. Pois, um menino nos foi dado (cf. Is 9,5), mas nele habita toda a plenitude da divindade (Cl 2,9). Quando chegou a plenitude dos temos, veio também a plenitude da divindade.

Veio na carne para se revelar aos que eram, de carne, de modo que, ao aparecer sua humanidade, sua bondade fosse reconhecida. Com efeito, depois que Deus manifestou sua humanidade, sua bondade já não podia ficar oculta. Como poderia expressar melhor sua bondade senão assumindo minha carne? Foi precisamente a minha carne que ele assumiu, e não a de Adão, tal como era antes do pecado.

Poderá haver provas mais eloqüentes de sua misericórdia do que assumir nossa miséria? Poderá haver maior prova de amor do que o Verbo de Deus se tornar como a erva do campo por nossa causa? Senhor, que é o homem, para dele assim vos lembrardes e o tratardes com tanto carinho? (Sl 8,5). Por isso, compreenda o homem até que ponto Deus cuida dele; reconheça bem o que Seus pensa e sente a seu respeito. Não perguntes, é homem, por que sofres, mas por que ele sofreu por ti. Vendo tudo o que fez em teu favor, considera o quanto ele te estima, e assim compreenderás a sua bondade através da sua humanidade. Quanto menor se tornou em sua humanidade, tanto maior se revelou em sua bondade; quanto mais se humilhou por mim, tanto mais digno é agora do meu amor. Diz o Apóstolo: Apareceu a bondade e a humanidade de Deus, nosso Salvador. Na verdade, como é grande e manifesta a bondade de Deus! E dá-nos uma grande prova de bondade Aquele que quis associar à humanidade o nome de Deus.



-- Dos Sermões de São Bernardo, abade (século XII)







28 de dez de 2010

Santos Inocentes: ainda não falam e já proclamam Cristo

A matança dos inocentes, ordenada por Herodes.
Nasceu um pequenino que é o grande Rei. Os magos chegam de longe e vêm adorar, ainda deitado no presépio, aquele que reina no céu e na terra.  Ao anunciarem os magos, o nascimento de um Rei, Herodes se perturba e, para não perder o seu reino, quer matar o recém nascido. No entanto, se tivesse acreditado nele, poderia reinar com segurança nesta terra e para sempre na outra.

Por que temes, Herodes, ao ouvir que nasceu um Rei?  Ele não veio para te destronar, mas para vencer o demônio. Como não compreendes isso, tu te perturbas e te enfureces;  e para que não escape o único menino que procuras, tens a crueldade de  matar tantos outros.

Nem as lágrimas das mães nem o lamento dos pais pela morte de seus filhos, nem os gritos e gemidos das crianças te comovem. Matas o corpo das crianças porque o medo matou o teu coração; e julgas que, se conseguires teu propósito, poderás viver muito tempo, quando precisamente é a própria Vida que queres matar.

Aquele que é a fonte da graça, pequenino e grande ao mesmo tempo, reclinado num presépio, apavora o teu  trono. Por meio de ti, e sem que saibas, realiza os seus desígnios e liberta as almas do cativeiro do demônio.  Recebe como filhos adotivos os filhos dos que eram seus inimigos.

Essas crianças morrem pelo Cristo, sem saberem, enquanto seus pais choram os mártires que morrem. Cristo faz suas legítimas testemunhas aqueles que ainda não falam. Eis como reina aquele que veio para reinar. Eis como já começa a conceder a liberdade aquele que veio para libertar, e dar a salvação aquele que veio para salvar.

Tu,  porém,  Herodes, ignorando tudo isso, te perturbas e te enfureces; e enquanto te enfureces contra o Menino, já lhe prestas homenagem, sem o saberes.

Ó imenso dom da graça!  Que méritos tinham aquelas crianças para obterem tal vitória?  Ainda não falam e já proclamam o Cristo. Não podem  ainda mover  os membros para a luta e já ostentam a palma da vitória!  
 
-- Dos Sermões de São Quodvultdeus, bispo (século V)

27 de dez de 2010

O Sacramento da Eucaristia

A Sagrada Eucaristia é o maior de todos os sacramentos, no qual não apenas a graça é mais plena dada à nós, mas também o autor da graça é recebido. Duas coisas são necessárias saber a respeito deste sacramento para que um cristão possa viver e morrer justamente. 

Primeiro, que deve receber este alimento sagrado, como diz o Senhor: Em verdade, em verdade vos digo: se não comerdes a carne do Filho do Homem, e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós mesmos (Jo 6,53).

Em segundo lugar, que deve receber dignamente este excelente alimento, assim fala o apóstolo na Epístola aos Coríntios: Aquele que o come e o bebe sem distinguir o corpo do Senhor, come e bebe a sua própria condenação (1Co 11,9). Mas a questão é, com que frequência podemos receber este alimento e qual preparação é suficiente para possamos dignamente, ou, no mínimo, não indignamente,nos aproximarmos deste banquete. 

Quanto ao primeiro ponto, há muitos e diferentes costumes na Igreja Católica. Nos primeiros tempos da Igreja, os fiéis recebiam a Sagrada Eucaristia muito frequentemente. Por isso, São Cipriano no seu discurso sobre o Pai Nosso, explica estas palavras "nos dai o pão nosso de cada dia" como uma referência a Sagrada Eucaristia; e ele ensina que este sacramento deve ser recebido diariamente, exceto se houver algum impedimento grave. Após, quando a caridade se esfriou, muitos negaram a eucaristia por vários anos.

O Papa Inocente III publicou um decreto que pelo menos uma vez ao noa, na época da Páscoa, os fiéis, homens e mulheres, são obrigados a receber um Eucaristia. Mas a opinião comum dos doutores parece ser mais pia e admirável, de que os fiéis de se aproximar da eucaristia todos os domingos e nas grandes festas. A sentença, supostamente de Santo Agostinho, é muito comum entre os escritores espirituais: quanto a receber a eucaristia diariamente eu nem aconselho nem condeno, mas eu aconselho e exorto a recebê-la todos os domingos. Embora o texto "Dogmas Eclesiásticos" de onde esta opinião foi retirada, parece não ter sido escrito por Santo Agostinho, mas por outro escritos ainda mais antigo, suas doutrinas não são contrárias ao que o Santo claramente ensina na sua Epístola a Januário, "que não erram aqueles que aconselham a comunhão diária, nem aqueles que entendam não deve ser recebida tão frequentemente. Por certo, quem defende esta doutrina não pode se opor ao que sugerem a comunhão dominical. Esta é a opinião de São Jerônimo, pois podemos aprender no Comentário sobre a Epístola aos Gálatas, quando fala sobre o capítulo quarto: apesar de ser correto para nós mantermos um jejum perpétuo ou estarmos sempre rezando; e continuamente nos alegrarmos no dia do Senhor recebendo seu corpo; contudo aos judeus não é lícito imolar um cordeiro.

Quanto ao segundo ponto, relativo à preparação adequada para receber tão grande sacramento, que podemos receber por nossa salvação, e não por nosso julgamento ou condenação, é importante que nossa alma esteja em estado de graça, e não manchada por um pecado mortal. Por isso é chamado "alimento" e é dado em forma de pão, por que alimentos não são dados a pessoas mortas, somente aos vivos.

Quem come deste pão viverá eternamente (Jo 6,58b), diz Nosso Senhor; e no mesmo texto, a minha carne é verdadeiramente uma comida (Jo 6,55a). O Concílio de Trento acrescenta que para uma preparação digna, não é suficiente que o fiel em pecado mortal apenas reconheça seu pecado, mas que deve também expiar seus pecados através do sacramento da Penitência, se tiver uma oportunidade. E mais, como este sacramento não é apenas alimento, mas também remédio, e o melhor e mais saudável remédio, que o homem doente deve desejar sua saúde e a cura de todos os males dos vícios, especialmente os advindo da luxúria, avareza e orgulho. Santo Ambrósio ensina no quinto livro dos sacramentos: "aqueles que estão feridos necessitam tratamento, nós estamos feridos por que sob o pecado; e o remédio é a sagrada e santa Eucaristia". E São Boaventura afirma: "quem se considerar indigno, considere quão necessitado está de um médico, quão débil está". São Bernardo, no Sermão sobre a Ceia do Senhor, adverte que quem sentir propensões malignas ou qualquer outra desordem da alma sendo curada, deve atribuir ao sagrado sacramento.

A Última Ceia, de Tintoretto. Nota-se a presença de servos e anjos na cena, numa composição bem diferente da tradicional pintura de Leonardo da Vinci. A pintura encontra-se na Igreja de San Giorgio Maggiore, em Veneza.
Ainda, este sacramento não é apenas alimento para os fiéis e medicina para os doentes, é também o mais qualificado e amoroso médico, devendo ser recebido com grande alegria e reverência. A casa de nossa alma deve ser adornada com todo tipo de virtudes, especialmente fé, esperança, caridade, devoção e os frutos de boas ações, como a oração, jejuns a esmolas. Estes ornamentos o doce convidado de nossa alma requer, enquanto não se detêm em nossos bens. Reflita, também, que o médico que nos visita é Nosso Rei e Senhor, cuja pureza é infinita, solicitando a mais pura habitação. Escute São Crisóstomo, em um dos seus sermões ao povo de Antioquia: "Quão puro deve ser quem oferece tal sacrifício! Não devem ser as mãos daquele que divide o corpo mais puras que o raios do sol? Não deve a língua ser cheia de fogo espiritual?"

Portanto, quem desejar viver e morrer justamente, deve entrar no segredo de seu coração e, fechando a porta, estar sozinho com Deus, e examinar seu coração, olhar para si atentamente e considerar com que frequência e preparação tem recebido o corpo do Senhor; e se considerar que pela graça de Deus tem sido digno, tem se nutrido e curado gradualmente de sua fraquezas espirituais, que tem avançado diariamente mais e mais nas virtudes e boas ações; então poderá exultar com temor, não com medo de um servo, mas com casta alegria filial.

Mas, se alguém satisfeito com uma comunhão anual, não der maior importância a este sacramento salvador, e esquecendo de comer o pão espiritual, preferir alimentar e engordar seu corpo enquanto sua alma enfraquece e desfalece, deve ser advertido que esta em tão mal estado e muito longe do reino de Deus. Comunhão anual é aceita pelo Concílio, não porque devamos procurá-la apenas uma vez ao ano, mas por que devemos nos aproximar dela ao menos uma vez ao ano, exceto se desejarmos ser cortados da Igreja e condenados ao inferno. Quem age assim, e muitos o fazem, recebem o Senhor em Seu sacramento, não com amor filial, mas com medo servil; e logo retornam aos restos dos porcos, aos prazeres do mundo, aos ganhos temporais e honras passageiras. 

Então, na hora da morte, ouvem as palavras dirigidas ao rico glutão: Filho, lembra-te de que recebeste teus bens em vida (Lc 16,25). Mas se uma pessoa, frequentemente se aproxima deste sacramento, aos domingos ou todos os dias, ou se for um padre, deve avaliar se não está em pecado mortal, se tem realizado boas ações, se está desinteressado das coisas mundanas. Se, como os do mundo, estiver correndo atrás de dinheiro, prazeres carnais, honras e dignidades, este homem certamente come e bebe sua condenação; e quanto mais se aproxima dos sacramentos, mais imita o traidor Judas, de quem o Senhor falou: Melhor lhe seria que nunca tivesse nascido (Mc 14,21).

Mas ninguém, enquanto viver, deve desesperar de sua salvação. Se, ao relembrar em seu coração seus anos e trabalhos, perceber que se desviou do caminho da salvação, reflita que ainda há tempo para arrepender-se; começar séria penitência, e retornar ao caminho da verdade.

Antes de concluir o capítulo, acrescento o que São Boaventura escreveu, na sua vida de São Francisco, sobre a admirável piedade e amor do santo para com a Eucaristia, que do seu inflamado amor nossa tepidez e frieza podem se incendiar: Ele queimou com o mais íntimo amor de sua alma por este abençoado sacramento, até assombrar-se por esta admirável condescência e caridade sem limites. Em geral, quão distantes deste santo estamos, não apenas muitos leigos, mas também os ministros, que oferecem o Sacrifício com indevida pressa, que nem eles mesmos percebem o que estão fazendo, nem deixam os fiéis atentos ao serviço sagrado.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)


25 de dez de 2010

Homília de Natal, Papa Bento XVI


Papa Bento XVI durante a celebração da Missa de Natal, 2010.

Amados irmãos e irmãs!
«Tu és meu filho, Eu hoje te gerei» – com estas palavras do Salmo segundo, a Igreja dá início à liturgia da Noite Santa. Ela sabe que esta frase pertencia, originariamente, ao rito da coroação do rei de Israel. O rei, que por si só é um ser humano como os outros homens, torna-se «filho de Deus» por meio do chamamento e entronização na sua função: trata-se de uma espécie de adopção por parte de Deus, uma acta da decisão, pela qual Ele concede a este homem uma nova existência, atraindo-o para o seu próprio ser. De modo ainda mais claro, a leitura tirada do profeta Isaías, que acabámos de ouvir, apresenta o mesmo processo numa situação de tribulação e ameaça para Israel: «Um menino nasceu para nós, um filho nos foi concedido. Tem o poder sobre os ombros» (9, 5). A entronização na função régia é como um novo nascimento. E, precisamente como recém-nascido por decisão pessoal de Deus, como menino proveniente de Deus, o rei constitui uma esperança. O futuro assenta sobre os seus ombros. É o detentor da promessa de paz. Na noite de Belém, esta palavra profética realizou-se de um modo que, no tempo de Isaías, teria ainda sido inimaginável. Sim, agora Aquele sobre cujos ombros está o poder é verdadeiramente um menino. N’Ele aparece a nova realeza que Deus institui no mundo. Este menino nasceu verdadeiramente de Deus. É a Palavra eterna de Deus, que une mutuamente humanidade e divindade. Para este menino, são válidos os títulos de dignidade que lhe atribui o cântico de coroação de Isaías: Conselheiro admirável, Deus forte, Pai para sempre, Príncipe da paz (9, 5). Sim, este rei não precisa de conselheiros pertencentes aos sábios do mundo. Em Si mesmo traz a sapiência e o conselho de Deus. Precisamente na fragilidade de menino que é, Ele é o Deus forte e assim nos mostra, face aos pretensiosos poderes do mundo, a fortaleza própria de Deus.

Na verdade, as palavras do rito da coroação em Israel não passavam de palavras rituais de esperança, que de longe previam um futuro que haveria de ser dado por Deus. Nenhum dos reis, assim homenageados, correspondia à sublimidade de tais palavras. Neles, todas as expressões sobre a filiação de Deus, sobre a entronização na herança dos povos, sobre o domínio das terras distantes (Sal 2, 8) permaneciam apenas presságio de um futuro – como se fossem painéis sinalizadores da esperança, indicações apontando para um futuro que então era ainda inconcebível. Assim o cumprimento da palavra, que tem início na noite de Belém, é ao mesmo tempo imensamente maior e – do ponto de vista do mundo – mais humilde do que a palavra profética deixava intuir. É maior, porque este menino é verdadeiramente Filho de Deus, é verdadeiramente «Deus de Deus, Luz da Luz, gerado, não criado, consubstancial ao Pai». Fica superada a distância infinita entre Deus e o homem. Deus não Se limitou a inclinar o olhar para baixo, como dizem os Salmos; Ele «desceu» verdadeiramente, entrou no mundo, tornou-Se um de nós para nos atrair a todos para Si. Este menino é verdadeiramente o Emanuel, o Deus-connosco. O seu reino estende-se verdadeiramente até aos confins da terra. Na imensidão universal da Sagrada Eucaristia, Ele verdadeiramente instituiu ilhas de paz. Em todo o lado onde ela é celebrada, temos uma ilha de paz, daquela paz que é própria de Deus. Este menino acendeu, nos homens, a luz da bondade e deu-lhes a força para resistir à tirania do poder. Em cada geração, Ele constrói o seu reino a partir de dentro, a partir do coração. Mas é verdade também que «o bastão do opressor» não foi quebrado. Também hoje marcha o calçado ruidoso dos soldados e temos ainda incessantemente a «veste manchada de sangue» (Is 9, 3-4). Assim faz parte desta noite o júbilo pela proximidade de Deus. Damos graças porque Deus, como menino, Se confia às nossas mãos, por assim dizer mendiga o nosso amor, infunde a sua paz no nosso coração. Mas este júbilo é também uma prece: Senhor, realizai totalmente a vossa promessa. Quebrai o bastão dos opressores. Queimai o calçado ruidoso. Fazei com que o tempo das vestes manchadas de sangue acabe. Realizai a promessa de «uma paz sem fim» (Is 9, 6). Nós Vos agradecemos pela vossa bondade, mas pedimos-Vos também: mostrai a vossa força. Instituí no mundo o domínio da vossa verdade, do vosso amor – o «reino da justiça, do amor e da paz».

«Maria deu à luz o seu filho primogénito» (Lc 2, 7). Com esta frase, São Lucas narra, de modo absolutamente sóbrio, o grande acontecimento que as palavras proféticas, na história de Israel, tinham com antecedência vislumbrado. Lucas designa o menino como «primogénito». Na linguagem que se foi formando na Sagrada Escritura da Antiga Aliança, «primogénito» não significa o primeiro de uma série de outros filhos. A palavra «primogénito» é um título de honra, independentemente do facto se depois se seguem outros irmãs e irmãs ou não. Assim, no Livro do Êxodo, Israel é chamado por Deus «o meu filho primogénito» (Ex 4, 22), exprimindo-se deste modo a sua eleição, a sua dignidade única, o particular amor de Deus Pai. A Igreja nascente sabia que esta palavra ganhara uma nova profundidade em Jesus; que n’Ele estão compendiadas as promessas feitas a Israel. Assim a Carta aos Hebreus chama Jesus «o primogénito» simplesmente para O qualificar, depois das preparações no Antigo Testamento, como o Filho que Deus manda ao mundo (cf. Heb 1, 5-7). O primogénito pertence de maneira especial a Deus, e por isso – como sucede em muitas religiões – devia ser entregue de modo particular a Deus e resgatado com um sacrifício de substituição, como São Lucas narra no episódio da apresentação de Jesus no templo. O primogénito pertence a Deus de modo particular, é por assim dizer destinado ao sacrifício. No sacrifício de Jesus na cruz, realiza-se de uma forma única o destino do primogénito. Em Si mesmo, Jesus oferece a humanidade a Deus, unindo o homem e Deus de uma maneira tal que Deus seja tudo em todos. Paulo, nas Cartas aos Colossenses e aos Efésios, ampliou e aprofundou a ideia de Jesus como primogénito: Jesus – dizem-nos as referidas Cartas – é o primogénito da criação, o verdadeiro arquétipo segundo o qual Deus formou a criatura-homem. O homem pode ser imagem de Deus, porque Jesus é Deus e Homem, a verdadeira imagem de Deus e do homem. Ele é o primogénito dos mortos: dizem-nos ainda aquelas Cartas. Na Ressurreição, atravessou o muro da morte por todos nós. Abriu ao homem a dimensão da vida eterna na comunhão com Deus. Por fim, é-nos dito: Ele é o primogénito de muitos irmãos. Sim, agora Ele também é o primeiro duma série de irmãos, isto é, o primeiro que inaugura para nós a vida em comunhão com Deus. Cria a verdadeira fraternidade: não a fraternidade, deturpada pelo pecado, de Caim e Abel, de Rómulo e Remo, mas a fraternidade nova na qual somos a própria família de Deus. Esta nova família de Deus começa no momento em que Maria envolve o «primogénito» em faixas e O reclina na manjedoura. Supliquemos-Lhe: Senhor Jesus, Vós que quisestes nascer como o primeiro de muitos irmãos, dai-nos a verdadeira fraternidade. Ajudai-nos a tornarmo-nos semelhantes a Vós. Ajudai-nos a reconhecer no outro que tem necessidade de mim, naqueles que sofrem ou estão abandonados, em todos os homens, o vosso rosto, e a viver, juntamente convosco, como irmãos e irmãs para nos tornarmos uma família, a vossa família.

No fim, o Evangelho de Natal narra-nos que uma multidão de anjos do exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens que Ele ama» (Lc 2, 14). A Igreja ampliou este louvor que os anjos entoaram à vista do acontecimento da Noite Santa, fazendo dele um hino de júbilo sobre a glória de Deus. «Nós Vos damos graças por vossa imensa glória». Nós Vos damos graças pela beleza, pela grandeza, pela bondade de Deus, que, nesta noite, se tornam visíveis para nós. A manifestação da beleza, do belo, torna-nos felizes sem que devamos interrogar-nos sobre a sua utilidade. A glória de Deus, da qual provém toda a beleza, faz explodir em nós o deslumbramento e a alegria. Quem vislumbra Deus, sente alegria; e, nesta noite, vemos algo da sua luz. Mas a mensagem dos anjos na Noite Santa também fala dos homens: «Paz aos homens que Ele ama». A tradução latina desta frase, que usamos na Liturgia e remonta a São Jerónimo, interpreta diversamente: «Paz aos homens de boa vontade». Precisamente nos últimos decénios, esta expressão «os homens de boa vontade» entrou de modo particular no vocabulário da Igreja. Mas qual é a tradução justa? Devemos ler, juntas, as duas versões; só assim compreendemos rectamente a frase dos anjos. Seria errada uma interpretação que reconhecesse apenas o agir exclusivo de Deus, como se Ele não tivesse chamado o homem a uma resposta livre e amorosa. Mas seria errada também uma resposta moralizante, segundo a qual o homem com a sua boa vontade poder-se-ia, por assim dizer, redimir a si próprio. As duas coisas andam juntas: graça e liberdade; o amor de Deus, que nos precede e sem o qual não O poderemos amar, e a nossa resposta, que Ele espera e até no-la suplica no nascimento do seu Filho. O entrelaçamento de graça e liberdade, o entrelaçamento de apelo e resposta não podemos dividi-lo em partes separadas uma da outra. Ambas estão indivisivelmente entrançadas entre si. Assim esta frase é simultaneamente promessa e apelo. Deus precedeu-nos com o dom do seu Filho. E, sempre de novo e de forma inesperada, Deus nos precede. Não cessa de nos procurar, de nos levantar todas as vezes que o necessitamos. Não abandona a ovelha extraviada no deserto, onde se perdeu. Deus não se deixa confundir pelo nosso pecado. Sempre de novo recomeça connosco. Todavia espera que amemos juntamente com Ele. Ama-nos para que nos seja possível tornarmo-nos pessoas que amam juntamente com Ele e, assim, possa haver paz na terra.

Lucas não disse que os anjos cantaram. Muito sobriamente, escreve que o exército celeste louvava a Deus e dizia: «Glória a Deus nas alturas…» (Lc 2, 13-14). Mas desde sempre os homens souberam que o falar dos anjos é diverso do dos homens; e que, precisamente nesta noite da jubilosa mensagem, tal falar foi um canto no qual brilhou a glória sublime de Deus. Assim, desde o início, este canto dos anjos foi entendido como música vinda de Deus, mais ainda, como convite a unirmo-nos ao canto com o coração em júbilo pelo facto de sermos amados por Deus. Diz Santo Agostinho: Cantare amantis est – cantar é próprio de quem ama. Assim ao longo dos séculos, o canto dos anjos tornou-se sempre de novo um canto de amor e de júbilo, um canto daqueles que amam. Nesta hora, associemo-nos, cheios de gratidão, a este cantar de todos os séculos, que une céu e terra, anjos e homens. Sim, Senhor, nós Vos damos graças por vossa imensa glória. Nós Vos damos graças pelo vosso amor. Fazei que nos tornemos cada vez mais pessoas que amam juntamente convosco e, consequentemente, pessoas de paz. Amen.

-- Homília da Noite de Natal, 24-25 de Dezembro de 2010, Papa Bento XVI (século XXI)

24 de dez de 2010

O Nascimento de Jesus

Hoje as portas da esterilidade abrem-se, e uma porta virginal e divina avança: a partir dela, por ela, o Deus que está acima de todos os seres deve vir ao mundo corporalmente, segundo a expressão de Paulo, ouvinte dos segredos inefáveis. Hoje, da raíz de Jessé saiu uma vergôntea, de onde surgirá para o mundo uma flor substancialmente unida à divindade.

Presépio
Hoje, a partir da natureza terrena, um céu foi formado sobre a terra por Aquele que outrora o tornara sólido separando-o das águas, elevando o firmamento nas alturas. É um céu verdadeiramente mais divino e mais elevado que o primeiro, porque Aquele que no primeiro céu criara o sol Se elevou a Si próprio neste novo como um sol de justiça. Sim, há n’Ele duas Naturezas, apesar da loucura dos Acéfalos, e uma só Pessoa, mesmo que os Nestorianos se encolerizem! A Luz eterna, proveniente da Luz eterna antes de todos os séculos, o Ser, imaterial e incorpóreo, tomou um corpo desta mulher, e como um esposo que sai para fora de seu tálamo, assim fez Deus, tornando-se como tal filho da raça terrena. Como um gigante Ele alegra-Se de percorrer os caminhos da nossa natureza, de Se encaminhar, pelos Seus sofrimentos, para a morte, de atar o homem forte e lhe arrancar os seus bens, isto é, a nossa natureza, e de reunir na terra celeste a ovelha errante.

Hoje, o Filho do Carpinteiro, O Verbo universalmente ativo d’Aquele que tudo construiu por Ele, o Braço Poderoso do Deus Altíssimo, querendo afiar pelo Espírito - que é como o seu dedo – a lâmina embotada da natureza, construiu para Si uma escada viva, cuja base está firmada na terra, com o cimo a tocar os céus: Deus repousa sobre ela. É dela a figura que Jacó contemplou, e por ela Deus desceu da Sua imobilidade, ou melhor, inclinou-Se com condescendência, tornando-Se assim visível sobre a terra, e conversando com os homens. Estes símbolos representam a Sua vinda ao meio de nós, o seu abaixamento condescendente, a sua existência terrena, o verdadeiro conhecimento d’Ele próprio, dado a todos aqueles que estão sobre a terra. A escada espiritual, a Virgem, está fixa na terra, pois na terra ela tem a sua origem, mas a sua cabeça eleva-se até ao céu. A cabeça de toda a mulher é o homem, mas para ela, que não conheceu homem, Deus Pai ocupa o lugar de sua cabeça: pelo Espírito Santo, Ele concluiu uma aliança e, como semente divina e espiritual, enviou o Seu Filho e Verbo, força omnipotente. Em virtude do beneplácito do Pai, não é por uma união natural, mas é superando as leis da natureza, pelo Espírito Santo e pela Virgem Maria, que o Verbo Se fez carne e habitou entre nós. É por aqui que se vê que a união de Deus com os homens se cumpre pelo Espírito Santo.

Quem puder entender, que entenda; Quem tem ouvidos para ouvir, que ouça. Descartemos as representações corporais: a divindade jamais sofreu mudança, oh homens! Aquele que sem alteração gerou Seu Filho a primeira vez segundo a natureza, sem alteração O gera agora de novo segundo a economia. Disto é testemunha a palavra de Davi, antepassado de Deus: O Senhor disse-me: "Tu és Meu Filho, Eu hoje te gerei".

-- Sermão sobre a Natividade de Maria, de São João Damasceno (século VIII)


23 de dez de 2010

O Natal é Hoje



O Nascimento de Jesus
O anúncio essencial do Natal é a Encarnação do Filho de Deus. A Palavra do Pai faz-se carne e habita entre nós (Jo. 1, 14). Vem para o homem. Para todos os homens. Ao chegar a plenitude dos tempos, enviou Deus o seu Filho, nascido duma mulher, ... para que nós recebêssemos a adoção de filhos (Gl. 4, 4). Como, com frequência, o revelaram os Padres e os Teólogos antigos, Deus faz-se homem para que o homem se torne Deus. O próximo Natal será esse "hoje", em que se dá esta "admirável permuta". Um "hoje" que nunca chegará ao ocaso, enquanto na terra nascer um homem que na sua pessoa, mostre gravada para além da sua fragilidade intrínseca de criatura terrena, a real imagem e semelhança com Deus, a dignidade de filho do Pai, de remido por Cristo. Para isto nasce Jesus, neste "hoje" do Natal, tão bem comentado por um escritor do Oriente: Neste dia nasceu o Senhor, vida e salvação dos homens. Operou-se hoje a reconciliação da divindade com a humanidade, e da humanidade com a divindade ... Deu-se hoje a morte das trevas e a vida do homem. Abriu-se hoje um caminho dos homens para Deus, e um caminho de Deus para a alma ... De fato, antes, toda a criação lançou um grito, arrastada para a corrupção da queda de Adão, que era rei dessas realidades. Mas o Senhor veio renovar, Ele próprio, como convinha, a verdadeira imagem de Deus, e recriá-la ... Hoje consuma-se a união, a comunhão e a reconciliação entre as realidades celestes e as terrenas: Deus e homem (Pseudo-Macário, Hom. 52).

Nasce o Redentor do homem. Nasce, com Ele, a humanidade. E nasce, com Ele, a Igreja, como muito bem sublinhou Santo Ambrósio, comentando o nascimento de Cristo: Reparai nos primórdios da Igreja que surge: Cristo nasce, e os pastores (isto é, os Bispos) começam a vigiar para reunir no átrio do Senhor os rebanhos dos Gentios. Compete à Igreja, pela sua missão primordial — nascida esta com Cristo nascido, e d'Ele recebida com solene mandamento — defender a dignidade do homem: de cada homem, como escrevi na minha primeira Encíclica, porque todos e cada um foram compreendidos no mistério da Redenção, e com todos e cada um Cristo se uniu para sempre, através deste mistério. Todo o homem vem ao mundo concebido no seio materno e nasce da própria mãe, e é precisamente por motivo do mistério da Redenção que ele é confiado à solicitude da Igreja. Tal solicitude diz respeito ao homem todo, inteiro, e está centrada sobre ele, de modo absolutamente particular. O objeto destes cuidados da Igreja é o homem na sua única e singular realidade humana.
 
-- Discurso ao Sacro Colégio durante a audiência para a apresentação de boas-festas, Papa João Paulo II, em 22 de Dezembro de 1979.
 

O Verbo de Deus

Único é o Deus que conhecemos, irmãos, e não por outra fonte que não seja a Sagrada Escritura. Devemos, pois, saber o que ela anuncia e compreender o que ensina. Creiamos no Pai como ele quer ser acreditado; glorifiquemos o Filho como ele quer ser glorificado; e recebamos o Espírito Santo como ele quer se dar a nós. Consideremos tudo isso, não segundo nosso próprio arbítrio e interpretação pessoal, nem fazendo violência aos dons de Deus, mas como ele próprio nos ensinou pelas santas Escrituras.


Cristo Pantokrator

Quando só existia Deus, e não havia ainda nada que existisse com ele, decidiu criar o mundo. Criou-o por seu pensamento, sua vontade e sua palavra; e o mundo começou a existir como ele quis e realizou. Basta-nos apenas saber que nada coexistia com Deus. Não havia nada além dele, só ele existia e era perfeito em tudo. Nele estava a inteligência, a sabedoria, o poder e o conselho. Tudo estava nele e ele era tudo. E quando quis e como quis, no tempo que havia estabelecido, manifestou o seu Verbo, por quem fez todas as coisas.

Deus possuía o Verbo em si mesmo, e o Verbo era imperceptível para o mundo criado; mas fazendo ouvir sua voz, Deus tornou-o perceptível. Gerando-o como luz da luz, enviou como Senhor da criação aquele que é sua própria inteligência. E este Verbo, que no princípio era visível apenas para Deus e invisível para o mundo, tornou-se visível para que o mundo, vendo-o manifestar-se, pudesse ser salvo. O Verbo é verdadeiramente a inteligência de Deus que, ao entrar no mundo, se manifestou como o servo de Deus. Tudo foi feito por ele, mas ele procede unicamente do Pai. Foi ele quem deu a lei e os profetas; e ao fazê-lo, impulsionou os profetas a falarem sob a moção do Espírito Santo para que, recebendo a força da inspiração do Pai, anunciassem o seu desígnio e a sua vontade.

O Verbo, portanto, se tornou visível, como diz São João. Este repete em síntese o que os profetas haviam dito, demonstrando que aquele era o Verbo por quem tinham sido criadas todas as coisas: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus; e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por ele e sem ele nada se fez (Jo 1,1.3). E, mais adiante, prossegue: O mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não quis conhecê-lo. Veio para o que era seu, os seus, porém, não o acolheram (Jo 1,10-11).

-- Do Tratado contra a heresia de Noeto, de Santo Hipólito, presbítero. (século III)

21 de dez de 2010

A visitação da Virgem Maria

O Anjo anunciara à Virgem Maria coisas misteriosas. Para fortalecer sua fé com um exemplo, anunciou-lhe a maternidade de uma mulher idosa e estéril, como prova de que é possível a Deus tudo que ele quer.

Logo ao ouvir a notícia, Maria dirigiu-se às montanhas, não por falta de fé na profecia ou falta de confiança na mensagem, nem por duvidar do exemplo dado, mas guiada pela felicidade de ver cumprida a promessa, levada pela vontade de prestar um serviço, movida pelo impulso interior de sua alegria.

A Visitação da Virgem Maria.
Já plena de Deus, aonde ir depressa senão às alturas? A graça do Espírito Santo ignora a lentidão. Manifestam-se imediatamente os benefícios da chegada de Maria e da presença do Senhor, pois quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança exultou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo (Lc 1,41).

Notai como cada palavra está escolhida com perfeita precisão e propriedade: Isabel foi a primeira a ouvir a voz, mas João foi o primeiro a pressentir a graça; aquela ouviu segundo a ordem da natureza, este exultou em virtude do mistério. Ela percebeu a chegada de Maria, ele, a do Senhor; a mulher ouviu a voz da mulher, o menino sentiu a presença do Filho; elas proclamam a graça de Deus, eles realizam-na interiormente, iniciando no seio de suas mães o mistério de misericórdia; e, por um duplo milagre, as mães profetizam sob a inspiração de seus filhos.

A criança exultou, a mãe ficou cheia do Espírito Santo. A mãe não se antecipou ao filho; mas estando o filho cheio do Espírito Santo, comunicou-o a sua mãe. João exultou; o espírito de Maria também exultou. A alegria de João se comunica a Isabel; quanto a Maria, porém, não nos é dito que recebesse então o Espírito, mas que seu espírito exultou. – Aquele que é incompreensível agia em sua mãe de modo incompreensível – Isabel recebe o Espírito Santo depois de conceber; Maria recebeu antes. Por isso, Isabel diz a Maria: Feliz és tu que acreditaste (cf. Lc 1,45).

Felizes sois também vós, que ouvistes e acreditastes, pois toda alma que possui a fé concebe e dá à luz a Palavra de Deus e conhece suas obras.

Esteja em cada um de vós a alma de Maria para engrandecer o Senhor: em cada um esteja o espírito de Maria para exultar em Deus. Embora segundo a natureza haja uma só Mãe do Cristo, segundo a fé o Cristo é o fruto de todos; pois toda alma recebe o Verbo de Deus desde que, sem mancha e libertada do pecado, guarda a castidade com inteira pureza.

Toda alma que alcança esta perfeição, engrandece o Senhor como a alma de Maria o engrandeceu e seu espírito exultou em Deus, seu Salvador.

Na verdade, o Senhor é engrandecido, como lemos noutro lugar: Comigo engrandecei ao Senhor Deus (Sl 33,4). Não que a palavra humana possa acrescentar algo ao Senhor, mas porque ele é engrandecido em nós: a imagem de Deus é o Cristo e assim, quando alguém age com piedade e justiça, engrandece essa imagem de Deus, a cuja semelhança foi criado; e, engrandecendo-a, participa cada vez mais da grandeza divina.

-- Da Exposição sobre o Evangelho de São Lucas, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)


20 de dez de 2010

O Sacramento do Crisma

Após o batismo segue o sacramento do Crisma (ou Confirmação), do qual podemos tirar motivos para viver justamente, não menos poderosos que aqueles deduzíveis do Batismo; ainda que o Batismo seja um sacramento mais necessário que o Crisma, este é mais nobre que o primeiro. Isto é evidente pelo ministro, a matéria e o efeito.

Ícone bizantino para a Festa de Pentecostes.
O ministro normal do batismo é um padre, ou em caso de necessidade, qualquer um; já o ministro do Crisma é um Bispo, e por dispensa do Papa, somente um padre. A matéria do batismo é a água comum, já o Crisma é  uma mistura de óleo sagrado com bálsamo, consagrado pelo Bispo. O efeito do batismo é a graça e o caráter, como requeridos para criar uma criança espiritual, de acordo com as palavras de São Pedro: Como crianças recém-nascidas desejai com ardor o leite espiritual que vos fará crescer para a salvação (1Pe 2,2). O efeito do Crisma é também a graça e um caráter, tais como necessários para um soldado lutar contra inimigos invisíveis; como diz São Paulo: Pois não é contra homens de carne e sangue que temos de lutar, mas contra os principados e potestades, contra os príncipes deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal (espalhadas) nos ares (Ef 6,12).

No batismo, um pouco de sal é colocado na boca do infante, no Crisma um leve sopro nos é dado, tal que o soldado cristão aprenda a lutar, não pela força, mas pela temperança. Para facilmente entendermos qual o dever de uma pessoa marcada pelo Crisma, ou seja, um soldado cristão devemos considerar o que os apóstolos receberam na sua Confirmação no Domingo de Pentecostes. Eles não foram confirmados com o crisma, mas receberam de Cristo, nosso mais alto sacerdote, o efeito do sacramento sem o sacramento. Receberam três dons: sabedoria, eloquência e caridade, no mais alto grau, e também o poder dos milagres, muito útil para converter nações de pagãos para a verdadeira fé. Estes dons foram significados pelas “línguas de fogo” vistas naquele dia, enquanto o som de um poderoso vento era ouvido ao mesmo tempo. A luz do fogo significa a sabedoria, o calor a caridade, a for de línguas o dom da eloquência, e o vento o dos milagres.

 O sacramento da nossa Confirmação não outorga os dons de falar em línguas  nem o dos milagres, uma vez que eram necessários, não como uma vantagem dos Apóstolos, mas em favor da conversão dos pagãos. Mas nos outorga os dons da sabedoria espiritual e caridade, que são a paciência e gentileza, e como um sinal da mais rara e preciosa virtude da paciência.

O Bispo dá ao crismando um suave sopro para que lembre-se que está se tornando um soldado de Cristo, não para agredir, mas para persistir; não para atacar aos outros, mas para suportá-los. Na guerra dos cristãos, ele luta não contra o visível, mas inimigos invisíveis; para tanto Cristo, nosso comandante e conquistador, foi pregado na cruz e lutou contra as forças do inferno.  Então os apóstolos também lutaram, tão logo confirmados, foram severamente açoitados pelo conselho dos judeus, e saíram de lá cheios de alegria, por terem sido achados dignos de sofrer afrontas pelo nome de Jesus (At 5,41). A graça da confirmação tem este efeito, que um homem injustamente acusado, não pensa em vingança, mas agradece pelo sofrimento.   

Deixemos então que quem tenha sido confirmado entre na câmara do seu coração e diligentemente inquira se tem mantido os dons do Espírito Santo, especialmente a sabedoria e fortaleza. Deixemos que examine, eu repito, se possui a sabedoria dos santos que estimavam os bens eternos e desprezavam os terrenos; se tem a fortaleza de soldados de Cristo, que suporta mais injúrias do comete contra outros. E para que eventualmente não seja engando, deixemos que examine sua consciência. Se entender que está sempre pronto para atos de caridade, não desejando riquezas; e se tiver sido caluniado, pensa prontamente em perdão, não em vingança; pode exultar em seu coração por ter uma alma de filho adotado por Deus.

Mas se, após ter recebido a Confirmação, perceber ser avarento, passional e impaciente; ter dificuldades para distirbuir dinheiro para aliviar a necessidade dos pobres; ao contrário, se ver que está sempre pronto para em cada oportunidade lucrar, pronto para a vingança e não perdoar ofensas, terá ele recebido o sacramento, mas não as suas graças?

O que tenho dito é voltado para quem aproxima-se do sacramento quando adulto. Estes devem permanecer temerosos, para que o pecado não os domine gradualmente, adiando a penitência por um longo tempo, até que extinga-se o espírito recebido, perdendo a graça do Espírito Santo. Assim deve ser entendido o que disse o apóstolo: Não extingais o Espírito (1Ts 5,19). A pessoa exingue o Espírito Santo, que nele habita, destruindo em si mesmo a graça de Deus.

Que, portanto, deseja viver justamente, e após, morrer justamente,  deve estimar profundamente a graça dos sacramentos, que são vasos que carregam tesouros celestiais; e devem estimar estes sacramentos, pois uma vez perdidos, não podem ser recuperados. Assim é com o Crisma, quando recebemos tesouros incomparáveis. Ainda que o caráter deste sacramento não possa ser destruído, este caráter sem as graças não traz nenhum conforto, apenas aumenta nossa confusão.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)

17 de dez de 2010

Teu desejo é a tua oração

Teu desejo é a tua oração; se o desejo é contínuo, também a oração é contínua. Não foi em vão que o Apóstolo disse: Orai sem cessar (1Ts 5,17). Será preciso ter sempre os joelhos em terra, o corpo prostado, as mãos levantadas, para que ele nos diga: Orai sem cessar? Se é isto que chamamos orar, não creio que possamos fazê-lo sem cessar.

Há outra oração interior e contínua: é o desejo. Ainda que faças qualquer outra coisa, se desejas aquele repouso do sábado eterno, não cessas de orar. Se não queres cessar de orar, não cesses de desejar.

Se teu desejo é contínuo, a tua voz é contínua. Ficarás calado, se deixares de amar. Quais são os que se calaram? Aqueles de quem foi dito: A maldade se espalhará tanto, que o amor de muitos esfriará (Mt 24,12).

O arrefecimento da caridade é o silêncio do coração; o fervor da caridade é o clamor do coração. Se tua caridade permanece sempre, clamas sempre; se clamas sempre, desejas sempre; se desejas, tu te recorda do repouso eterno.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Agostinho, bispo (século V)

16 de dez de 2010

Tende os pensamentos de Cristo

Pensar como Jesus Cristo, sentir como Jesus Cristo, amar como Jesus Cristo, agir como Jesus Cristo, conver­sar como Jesus Cristo, falar como Jesus Cristo. Enfim, conformar toda a nossa vida à de Cristo, revestir-nos de Jesus Cristo!

Nisto consiste o único interesse, a ocupação essencial e primária de todo cristão; porque cristão signi­fica alter Christus, outro Cristo. Salvar-se-á aquele que for encontrado conforme à imagem de Cristo. E, para con­formar-nos à vida de Cristo, é necessário antes de tudo estudá-la, conhecê-la, meditá-la. Não porém nos aspectos exteriores, mas penetrando os sentimentos, afetos, dese­jos, intenções de Jesus Cristo, buscando tudo fazer em perfeita união com ele.

Santo Henrique de Ossó e
Cervello (1840-1896).
É o próprio Jesus, com sua bondade e palavras, quem nos convida a agir assim. Mas como aprenderemos, por exemplo, sua mansidão e humildade? Como em cada ação nos colocaremos diante de Cristo para imitá-lo, se não co­nhecemos os sentimentos de seu Coração ao realizá-la? Porque Cristo viveu, comeu, dormiu, falou, calou-se, ca­minhou, cansou-se, repousou, suou, padeceu fome, sede, pobreza, numa palavra: trabalhou, sofreu, morreu por nós, pela nossa salvação. Portanto, devemos representar-nos Jesus ao natural e realmente; não de maneira teórica e ide­al, que nos levaria a não amá-lo e a não imitá-lo em tudo, como é nosso dever. Jesus é nosso irmão, carne de nossa carne, sangue de nosso sangue, ossos de nossos ossos.
Este é o meu Jesus, Deus e homem verdadeiro, vivo, pessoal, que se fez visível sobre esta terra, que viveu, conversou conosco por trinta e três anos. De fato, Verbo eterno do Pai, por nossa salvação desceu do céu, encarnou-se, sofreu, morreu, ressuscitou, subiu ao céu, permanecendo entre nós, no Santíssimo Sacramento do altar, até a consumação dos séculos, para ser nosso companheiro, conforto, alimento.

A vida eterna consiste em conhecer sempre mais a Jesus Cristo, nossa única felicidade no tempo e na eternidade. Quão feliz será a alma que aprender cada dia esta lição e a puser em prática! Que suave pensamento: Viverei, come­rei, dormirei, falarei, calarei, trabalharei, padecerei, tudo farei e sofrerei em união com Jesus, conformando-me à divina intenção e aos sentimentos com que Jesus agiu e quer que sejam os meus no agir ou padecer! Aquele que assim proceder — e devemos todos fazê-lo — viverá, na terra, vida de céu; transformar-se-á em Jesus e poderá re­petir com o Apóstolo: já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim.

-- De Santo Henrique de Ossó e Cervello, presbítero (século XIX)

15 de dez de 2010

Com a vinda de Cristo, Deus torna-se visível aos homens

Há um só Deus que, por sua palavra e Sabedoria, criou e harmonizou todas as coisas.

Sua palavra é nosso Senhor Jesus Cristo, que nos últimos tempos se fez homem entre os homens, para unir o fim ao princípio, isto é, o homem a Deus.

Por isso, os profetas que tinham recebido dessa mesma Palavra o carisma profético, anunciaram sua vinda segundo a carne; mediante essa vinda, realizou-se a união e a comunhão de Deus com o homem, conforme a vontade do Pai. Desde o começo a Palavra de Deus tinha anunciado que Deus seria visto pelos homens, que viveria e conversaria com eles na terra, que se faria presente à sua criatura, para salvá-la e ser percebido por ela, livrando-nos das mãos de todos os que nos odeiam (Lc 1,71), isto é, de todo o espírito de pecado, e fazendo que o sirvamos em justiça e santidade enquanto perdurarem nossos dias (Lc 1,74-75). E assim unido ao Espírito de Deus, o homem tenha acesso a Gloria do Pai.

Os profetas anunciavam que Deus seria visto pelos homens, conforme diz também o Senhor: Felizes os puros de coração, porque verão a Deus (Mt 5,8).


Cristo, parte do afresco O Último Julgamento, de Giotto,
na Capela Arena, em Pádua.

Contudo, ninguém pode ver a Deus na sua grandeza e gloria inenarrável e continuar vivendo (cf. Ex33,20), porque o Pai é inacessível. Mas em seu amor, sua bondade e sua onipotência, ele chega a conceder aos que o amam o dom de ver a Deus; isto é que anunciavam os profetas, pois o que é impossível aos homens, é possível a Deus (Lc 18,27).

O homem, por si mesmo, não poderá ver a Deus. Mas Deus, se quiser, será visto pelos homens, por aqueles que ele quiser. Deus que tudo pode, foi visto outrora em visão profética por meio do Espírito, deixa-se ver agora por meio de seu Filho, graças à adoção filial, e será visto finalmente no reino dos céus como Pai. Com efeito, o Espírito prepara o homem para o Filho de Deus, o Filho conduz o homem para o Pai e o Pai lhe dá a imortalidade na vida eterna, que é fruto da contemplação de Deus.

Assim como os que vêem a luz estão na luz e recebem a sua claridade, também os que vêem a Deus estão em Deus e recebem sua claridade. A claridade de Deus vivifica; portanto, os que vêem a Deus recebem a vida.

-- Do Tratado contra as Heresias, de Santo Irineu, bispo (século II)


13 de dez de 2010

Deus nos amou primeiro

Somente vós sois realmente Senhor, vós para quem dominar sobre nós é salvar-nos; enquanto, para nós, servir-vos nada mais é do que ser salvo por vós.

Senhor, de vós procede a bênção e a salvação para vosso povo. Mas que salvação é esta senão a graça que no concedais de vos amar e de ser amados por vós?

Por isso, Senhor, quisestes que o Filho que está a vossa direita, o homem que fortaleceste para vós, fosse chamado Jesus, isto é, Salvador: pois ele vai salvar o povo de seus pecados (Mt 1,21) e em nenhum outro há salvação (At 4,12).Ele nos ensinou a amá-lo, ao nos amar primeiro e até à morte de cruz. Por seu amor e sus dileção, suscita nosso amor por ele, que nos amou primeiro e até o fim.

-- Do Tratado sobre a Contemplação de Deus, de Guilherme, abade do Mosteiro de Saint-Thierry (século XII)

O Sacramento do Batismo

Comecemos pelo primeiro sacramento. O Batismo, sendo o primeiro, é justamente chamado de “porta” dos sacramentos, por que, a menos que o Batismo preceda a todos, ninguém está em estado de receber os demais.

No Batismo, as seguintes cerimônias são observadas: antes de tudo, quem está sendo batizado deve fazer uma profissão de fé nas crenças da Igreja Católica, por si mesmo ou por outro. Depois, é chamado a renunciar ao demônio, suas ações e glórias. Por terceiro, é batizado em Jesus Cristo e transferido das amarras do demônio para dignidade de filho de Deus, herdeiro de Deus, co-herdeiro de Cristo. Em quarto lugar, vestimentas brancas são colocadas sobre o batizado, que é exortado a manter-se puro e imaculado até sua morte. Em quinto, uma vela acesa é segura em suas mãos, significando as boas ações que devem ser somadas à uma vida inocente por todo tempo que permaneça vivo. Então, o Senhor fala no Evangelho: Assim, brilhe vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus (Mt 5,16).

Estas são as principais cerimônias que a Igreja utiliza na administração do Batismo. Omito algumas que não se relacionam ao propósito do texto. Destas observações, cada um de nós pode facilmente descobrir se tem levado uma vida correta desde seu Batismo até o momento atual. Mas eu fortemente desconfio que poucos realizam tudo que prometeram fazer, e que deveriam ter feito. Porque muitos são os chamados, e poucos os escolhidos (Mt 22,14); e também, estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram (Mt 7,14).
O Batismo de Jesus

Comecemos pelo Credo Apostólico. Quantos do povo e das ordens menores sequer lembram-se dele, ou o aprenderam, ou apenas sabem suas palavras, mas não o sentido! E mesmo assim, em seu batismo responderam por si ou através de seus padrinhos, que acreditam em cada um dos seus artigos. Mas se Cristo habita em nossos corações pela fé, com diz o apóstolo, como Ele pode habitar nos corações daqueles que mal conseguem repetir o Credo, e muito menos tê-lo em seu coração? E se Deus, pela fé purifica nossos corações, como explica São Pedro, como se sustentará nos corações daqueles que não tem fé em Cristo, embora tenham recebido o Batismo a seu tempo! Estou falando de adultos, não de crianças. Crianças são justificadas por possuírem a graça, fé, esperança e caridade, mas quando crescem para a maturidade, devem aprender o Credo e acreditarem em seus corações de acordo com a fé Cristã “na justiça” e confessar com suas bocas “a salvação”.

Repito: todos os cristãos são perguntados, diretamente ou através de seus padrinhos, se renunciam ao demônio, suas ações e glórias. E respondem: Eu renuncio. Mas quantos renunciam apenas por falar, mas não em realidade! Deus vê a todas as coisas e não pode ser enganado. Aqueles, no entanto, que desejam ter uma vida boa e uma morte boa, devem deixá-Lo entrarem em seu coração e não enganarem a si mesmos; e considerarem séria e atentamente, várias vezes, se colocam amor nas glórias deste mundo e nos pecados que são obras do demônio; ou se dão espaço para Deus em seus corações, palavras e ações. E então, sua boa consciência irá consolá-los ou uma má consciência o conduzirá para a penitência.

Em nenhum outro rito é manifestada a bondade de Deus de maneira tão sublime e maravilhosa, tal que, se dispendermos dias e noites em admiração e agradecimentos por ela, não faríamos nada semelhante a tal benefício. Bom Deus! Quem pode compreender, que não está maravilhado; quem não se dissolve em pias lágrimas quando considera que o homem, justamente condenado ao inferno, é subitamente conduzido ao mais glorioso reino através do Batismo! Assim como tão grande benefício deve ser admirado, tão mais deve ser detestada a ingratidão daqueles que mal tenham chegado à idade da razão começam a renunciar aos benefícios de Deus e tornam-se escravos do demônio. Pois que é isto senão entregar sua juventude à concupiscência da carne, à concupiscência dos sentidos e ao orgulho da vida, que tornar-se amigo de demônio e negar Cristo Nosso Senhor em atos e palavras? Pouco é o número daqueles que, ajudados por uma graça especial de Deus, cuidadosamente preservam sua graça batismal; ou por verdadeira penitência, renunciam ao demônio, e retornando ao serviço de Deus, perseveram até o final de seus dias, livrando-se de morte miserável. Como expressa o profeta Jeremias, suportam o jugo do Senhor desde sua juventude. Mas, se não procedermos desta maneira, não podemos ter uma vida justa, nem sermos livrados de uma morte miserável.

Na quarta cerimônia o batizado recebe as vestes brancas e é ordenado a permanecer assim até comparecer perante o Senhor. Este rito significa a vida inocente, adquirida pela graça do Batismo, que deve ser preservada até a morte. Mas quem pode enumerar os enganos do demônio, o inimigo perpétuo da raça humana, que não deseja nada mais que desfigurar esta veste com toda espécie de mancha? Muito poucos, no entanto, podem dizer ter vivido uma longa e não ter adquirido manchas em suas vestes. Muito mais difícil é caminhar de maneira imaculada, e grandiosa será a coroa de uma vida inocente. Aqueles que desejarem uma vida e uma morte justas, deve ter cuidados para preservar suas vestes brancas. E, ao perceberem alguma mancha, devem lavá-la no sangue do cordeiro, por contrição verdadeira e lágrimas penitenciais. Quando Davi chorou seu pecado por um longo tempo, começou a ter esperança no perdão, e dando graças a Deus, disse confiantemente: Aspergi-me com um ramo de hissope e ficarei puro. Lavai-me e me tornarei mais branco do que a neve (Sl 50,9).

A última cerimônia é colocar a vela acesa na mão do batizando; como dissemos acima, significa as boas ações, que devem somar-se à uma vida santa. Que estas boas ações devem ser realizadas por quem renasceu através do Batismo, o apóstolo nos ensina: Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia, e não somente a mim, mas a todos aqueles que aguardam com amor a sua aparição (2Tm 4, 7-8). Aqui, em poucas palavras, são mencionadas as boas ações, combater as tentações do demônio, que anda ao redor de vós como o leão que ruge, buscando a quem devorar (I Pe 5,8). Também, os batizados devem completar a “carreira” em observância aos mandamentos, como afirma o Salmo: Correrei pelo caminho de vossos mandamentos, porque sois vós que dilatais meu coração (Sl 118, 32). Devem, em resumo, preservar a fidelidade ao mestre multiplicando seus talentos, cultivando sua vinha, atendendo ao seu rebanho, governando sua família ou de algum outro modo apontado pelo Todo Poderoso. Nosso Senhor deseja admitir-nos como filhos adotivos em sua herança eterna; isto poderia ser realizado pela sua grande glória e poder, mas aprouve à sabedoria divina requerer nossas boas ações, realizadas de acordo com sua graça e por nossa livre vontade, para merecermos a alegria eterna. A sua mais nobre e gloriosa herança não será dada àqueles que dormem, vadiam e são preguiçosos; mas aos atentos e laboriosos, àqueles que  perseverarem nas boas obras até o final.

Que cada um examine suas obras e diligentemente inquira se seu modo de viver,o conduz a uma vida justa e uma morte boa. Se sua consciência testemunha que combateu o bom combate contra seus vícios, concupiscências e todas as tentações da velha serpente, e que está por concluir uma boa carreira considerando todos os mandamentos do Senhor, sem reprovações, então pode exclamar como o Apóstolo: Resta-me agora receber a coroa da justiça, que o Senhor, justo Juiz, me dará naquele dia (2 Tm 4,8). Mas, se após um exame cuidadoso de sim mesmo, sua consciência testemunhar que no combate com inimigo foi ferido; que seus dardos venenosos penetram-lhe a alma; que falhou em realizar boas obras, que não correu infatigável, mas muitas vezes deixou-se descansar; que não perseverou na fidelidade às coisas que Deus lhe confiou, mas retirou para si parte do lucro, por vanglória ou admiração das pessoas; ou qualquer outra coisa que lhe apresente a consciência; deve buscar imediatamente o remédio da penitência, e não adiar para outro momento por qualquer motivo que lhe pareça importante, por que não sabemos nem o nosso dia, nem nossa hora.


-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)

12 de dez de 2010

A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino

Até o momento já publiquei vários posts baseado no livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, abrangendo a primeira parte do livro, sobre práticas cristãs, até o capítulo IX. Pela lista abaixo, fica evidente que alguns capítulos resultaram em mais de um post.
Os próximos sete capítulos que completam o livro falam sobre os sacramentos, um capítulo para cada sacramento.

Escolhi este livro por dois motivos: (1) achei excelente e (2) até onde pesquisei, não está disponível em língua portuguesa. Assim, achei que seria muito útil para todos uma tradução, mesmo que parcial. O texto original , no qual tenho me baseado, está disponível neste link.

Gostaria de deixar claro que esta tradução é de minha responsabilidade, não sou tradutor nem tenho formação específica na área. Apenas resido nos EUA e por isso tenho certa facilidade com a língua inglesa. Algumas frases ou parágrafos do livro, escrito em um inglês um pouco mais arcaico são mais dificeis para traduzir e, eventualmente, não traduzo para evitar confusões. Outro problema é quanto a textos citados de outros santos que já foram publicados em português, mas que não tenho cópia a disposição para utilizar a tradução adequada. Em geral, se não encontro o texto na Internet, evito uma tradução própria simplesmente não postando o trecho. As citações bíblicas baseiam-se na versão da Ave Maria, disponível no site Bíblia Online.

Escrevo isto para que fique claro não se tratar de um trabalho completo ou profissional. Não acho adequado sua utilização em trabalhos acadêmicos ou publicações oficiais. Mas afirmo que tenho o máximo cuidado em ser fiel às ideias de São Roberto Belarmino.

8 de dez de 2010

A Imaculada Conceição de Maria



Virgem Maria, de Velazquez

A refulgente coroa de glória com que a puríssima fronte da virgem Mãe de Deus foi cingida por Deus mais nos parece resplandecer se recordarmos o dia em que, há cem anos, nosso predecessor de feliz memória, Pio IX, rodeado de um imponente cortejo de cardeais e de bispos, declarou, proclamou e definiu solenemente com infalível autoridade "que a doutrina que defende que a beatíssima virgem Maria foi preservada de toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concepção, por singular graça e privilégio de Deus onipotente e em atenção aos merecimentos de Jesus Cristo salvador do gênero humano, foi revelada por Deus e que, por isso, deve ser admitida com fé firme e constante por todos os fiéis".

Em primeiro lugar, o fundamento desta doutrina encontra-se nas Sagradas Escrituras, na qual Deus criador de todas as coisas, depois da miserável queda de Adão, dirige à tentadora e corruptora serpente estas palavras que muitos santos Padres, Doutores da Igreja e autorizados intérpretes aplicam à virgem Mãe de Deus: "Porei inimizades entre ti e a mulher, entre a tua descendência e a dela..." (Gn 3,15). Ora, se, por algum tempo, a bem-aventurada virgem Maria fosse privada da graça divina, como inquinada, na sua concepção, pela mancha hereditária do pecado, ao menos naquele momento, embora brevíssimo, não haveria entre ela e a serpente aquela perpétua inimizade de que se fala, desde a mais antiga tradição até à solene definição da Imaculada Conceição, mas, ao contrário, haveria certa sujeição.

Além disso, como a santíssima Virgem é saudada com as palavras "cheia de graça" (Lc 1,28) - isto é kekaritoméne e "bendita entre todas as mulheres", claramente se manifesta com essas palavras, como aliás sempre a tradição católica entendeu, que, com essa singular e solene saudação, nunca até então ouvida, se quer significar que a Mãe de Deus foi a sede de todas as graças divinas, e ornada com todos os carismas do Espírito Santo, e, mais ainda, com o tesouro quase infinito e inexaurível abismo deles, de tal forma que nunca esteve sujeita à maldição

 Considerados diligentemente, como convém, esses louvores da bem-aventurada virgem Maria, quem ousará duvidar de que aquela que é mais pura que os anjos, que sempre permaneceu pura, estivesse sujeita a qualquer espécie de pecado, em qualquer momento, por mínimo que fosse? Com toda a razão Santo Efrém se dirige ao divino Filho dela com estas palavras: "Na realidade, só vós e vossa Mãe é que sois completamente belos. Não há em vós, Senhor, e nem em vossa Mãe mancha alguma". Com essas palavras, claramente se vê que entre todos os santos e santas, somente de uma se pode dizer, quando se fala de qualquer mancha do pecado, que nem sequer é possível a questão, e que este singularíssimo privilégio, a mais ninguém concedido, o alcançou do Senhor, porque foi elevada à dignidade de Mãe de Deus. Com efeito, esta excelsa missão que foi solenemente reconhecida e sancionada no Concílio de Éfeso contra a heresia de Nestório, e acima da qual nenhuma outra maior parece existir, exige a graça divina em toda a sua plenitude e a alma libertada de qualquer mancha e requer, depois de Cristo, a mais alta dignidade e santidade. Na verdade, dessa sublime missão da Mãe de Deus, nascem, como duma misteriosa e limpidíssima fonte, todos os privilégios e graças que adornam, duma forma admirável e numa abundância extraordinária, a sua alma e a sua vida. Por isso, com razão declara São Tomás de Aquino: "A bem-aventurada virgem Maria, pelo fato de ser Mãe de Deus, tem do bem infinito, que é Deus, certa dignidade infinita". E um ilustre escritor desenvolve e explica esse mesmo pensamento, com estas palavras: "A bem-aventurada virgem Maria... é Mãe de Deus: por isso, é puríssima e santíssima, de tal maneira que, depois de Deus, não podemos conceber outra pureza maior".

Ao completar-se, pois, um século desde que o pontífice máximo, Pio IX, de imortal memória, definiu solenemente esse singular privilégio da virgem Mãe de Deus, apraz-nos resumir e concluir toda a questão com estas palavras do mesmo pontífice, quando afirmou que esta doutrina, segundo o juízo dos Padres, foi consignada na Sagrada Escritura, por eles mesmos transmitida, expressa por tantos e tão graves testemunhos e celebrada por tantos monumentos célebres da veneranda antigüidade e finalmente proposta pelo mais alto e autorizado juízo da Igreja, de forma que nada é mais doce e mais querido para os sagrados pastores e para os féis do "que honrar, venerar, invocar e pregar, por toda a parte, com o mais fervoroso ardor, a virgem Mãe de Deus concebida sem pecado original".

-- Da Carta Apostólica Fulgens Corona, Papa Pio XII (em 8 de Setembro de 1959)

7 de dez de 2010

A noite escura da mortificação da alma

Para atingir o estado sublime de união com Deus, é indispensável à alma atravessar a noite escura da mortificação dos apetites, e da renúncia a todos os prazeres deste mundo. As afeições às criaturas são diante de Deus como profundas trevas, de tal modo que a alma, quando aí fica mergulhada, torna-se incapaz de ser iluminada e revestida da pura e singela claridade divina. A luz é incompatível com as trevas, como no-lo afirma S. João ao dizer que as trevas não puderam compreender a luz ( Jo 1, 5 ).

A alma enamorada das grandezas e dignidades ou muito ciosa da liberdade de seus apetites está diante de Deus como escrava e prisioneira e como tal — e não como filha — é tratada por Ele, porque não quis seguir os preceitos de sua doutrina sagrada que nos ensina: Quem quer ser o maior deve fazer-se o menor, e o que quiser ser o menor seja o maior. A alma não poderá, portanto, chegar à verdadeira liberdade de espírito que se alcança na união divina; porque sendo a escravidão incompatível com a liberdade, não pode esta permanecer num coração de escravo, sujeito a seus próprios caprichos; mas somente no que é livre, isto é, num coração de filho. Neste sentido Sara diz a Abraão, seu esposo, que expulse de casa a escrava e seu filho: Expulsa esta escrava e seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com meu filho Isaac ( Gn 21, 10 ).

Todas as delícias e doçuras que a vontade saboreia nas coisas terrenas, comparadas aos gozos e às delícias da união divina, são suma aflição, tormento e amargura. Assim todo aquele que prende o coração aos prazeres terrenos é digno diante do Senhor de suma pena, tormento e amargura, e jamais poderá gozar os suaves abraços da união de Deus. Toda a glória e todas as riquezas das criaturas, comparadas à infinita riqueza que é Deus, são suma pobreza e miséria. Logo a alma afeiçoada à posse das coisas terrenas é profundamente pobre e miserável aos olhos do Senhor, e por isto jamais alcançará o bem-aventurado estado da glória e riqueza, isto é, a transformação em Deus; porque há infinita distância entre o pobre e indigente, e o sumamente rico e glorioso.

A Sabedoria divina, ao se queixar das almas que caem na vileza, miséria e pobreza, em conseqüência da afeição que dedicam ao que é elevado, grande e belo segundo a apreciação do mundo, fala assim nos Provérbios: A vós, ó homens, é que eu estou continuamente clamando, aos filhos dos homens é que se dirige a minha voz. Aprendei, ó pequeninos, a astúcia e vós, insensatos, prestai-me atenção. Ouvi, porque tenho de vos falar acerca de grandes coisas. Comigo estão as riquezas e a glória, a magnífica opulência, e a justiça. Porque é melhor o meu fruto que o ouro e que a pedra preciosa, e as minhas produções melhores que a prata escolhida. Eu ando nos caminhos da justiça, no meio das veredas do juízo, para enriquecer aos que me amam e para encher os seus tesouros ( Prov 8, 4-6.18-21 ). A divina sabedoria se dirige aqui a todos os que põem o coração e a afeição nas criaturas. Chama-os de "pequeninos" porque se tornam semelhantes ao objeto de seu amor, que é pequeno. Convida-os a ter prudência  e a observar que ela trata de grandes coisas e não de pequenas como eles. Com ela e nela se encontram a glória e as verdadeiras riquezas desejadas, e não onde eles supõem. A magnificência e justiça lhe são inerentes; e exorta os homens a refletir sobre a superioridade de seus bens em relação aos do mundo. Ensina-lhes que o fruto nela encontrado é preferível ao ouro e às pedras preciosas; afinal, mostra que sua obra na alma está acima da prata mais pura que eles amam. Nestas palavras se compreende todo gênero de apego existente nesta vida.


-- Do Tratado "Subida do Monte Castelo", de São João da Cruz, presbítero  (século XVI)

6 de dez de 2010

Deus nos falou por Cristo

O motivo principal por que na antiga Lei eram lícitas as perguntas feitas a Deus, e convinha aos profetas e sacerdotes desejarem visões e revelações divinas, era não estar ainda bem fundada a fé nem estabelecida a Lei evangélica. Era assim necessário que se interrogasse a Deus e ele respondesse, ora por palavras, ora por visões e revelações, ora por meio de figuras e símbolos ou finalmente por muitas outras maneiras de expressão. Porque tudo o que respondia, falava e revelava, eram mistérios da nossa fé ou verdades que a ela se referiam ou a ela conduziam.

A Antecipação da Vinda de Cristo
por São João da Cruz, obra de
Nicolo Lorenese, 1686.
Agora, já estando firmada a fé em Cristo e promulgada a Lei evangélica nesta era de graça, não há mais razão para perguntar a Deus, daquele modo, nem para que ele responda como antigamente. Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua única Palavra (e não há outra), disse-nos tudo de uma vez nessa Palavra e nada mais tem a dizer.

É este o sentido do texto em que São Paulo busca persuadir os hebreus a se afastarem daqueles primitivos modos de tratar com Deus, previstos na lei de Moisés, e a fixarem os olhos unicamente em Cristo, dizendo: Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio de seu Filho (Hb 1,1-2). Por estas palavras o Apóstolo dá a entender que Deus emudeceu, por assim dizer, e nada mais tem a falar, pois o que antes dizia em parte aos profetas, agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é o seu Filho.

Se agora, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, faria injúria a Deus não pondo os olhos totalmente em Cristo, sem querer outra coisa ou novidade alguma. Deus poderia responder-lhe deste modo: Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o! (Mt 17,5). Já te disse todas as coisas em minha Palavra. Põe os olhos unicamente nele, pois nele tudo disse e revelei, e encontrarás ainda mais do que pedes e desejas.

Desde o dia em que, no Tabor, desci com meu Espírito sobre ele, dizendo: Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!, aboli todas as antigas maneiras de ensinamento e resposta. Se falava antes, era para prometer o Cristo; se me interrogavam, eram perguntas relacionadas com o pedido e a esperança da vinda do Cristo, no qual haviam de encontrar todo o bem – como agora o demonstra toda a doutrina dos evangelhos e dos apóstolos.

-- Do Tratado "A Subida ao Monte Carmelo", de São João da Cruz, presbítero (século XVI)

Como dar esmolas

Agora iremos discutir um pouco o método de dar esmolas; pois é especialmente necessário para viver bem e ter uma morte feliz.

Primeiro, devemos dar esmolas com pura intenção de agradar a Deus e não obter reconhecimento humano. Isto Nosso Senhor nos ensina quando diz: Quando, pois, der esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas ruas, para serem louvados pelos homens.Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que fez a direita. (Mt 6,2-3). Santo Agostinho expõe esta passagem assim: a mão esquerda significa a intenção de dar esmolas para obter honras mundanas e outras vantagens temporais; a mão direita significa a intenção de conceder esmolas para ganahr a vida eterna, ou para glória de Deus, e por caridade ao próximo.

Segundo, nossas esmolas devem ser dadas pronta e voluntariamente, tal que não pareça ter sido extorquida através de súplicas, nem adiada dia após dia. O homem sábio diz: Não digas ao teu próximo: Vai, volta depois! Eu te darei amanhã, quando dispões de meios (Pv 3,28). Abraão, temente a Deus, pediu aos anjos para ir à casa dele, não esperou que lhe pedissem, e disse a Ló para fazer o mesmo. E lemos que Tobias também não esperou que o pobre viesse a ele, mas procurou-os por si mesmo.

Terceiro, devemos das esmolas com alegrias, não tristeza. O Eclesiástico diz para mostrar contentamento. São Paulo escreve: Dê cada um conforme o impulso do seu coração, sem tristeza nem constrangimento. Deus ama o que dá com alegria (2 Cor 9,7).

Quarto, nossas esmolas devem ser dadas com humildade, pois o homem rico deve lembrar que recebe muito mais do que el dá. Sobre este ponto, São Gregório fala: quando der bens terrenos, o homem encontrará muito proveito em controlar seu orgulho e relembrar cuidadosamente as palavras de seu Mestre celestial: eu vos digo: fazei-vos amigos com a riqueza injusta, para que, no dia em que ela vos faltar, eles vos recebam nos tabernáculos eternos (Lc 16,9). Para através de suas amizades adquirir tabernáculos eternos, aqueles que dão, sem dúvida, devem lembrar de oferecer seus dons para os pobres, não para os ricos.

Em Jope havia uma discípula chamada Tabita - em
grego, Dorcas. Esta era rica em boas obras e
esmolas que dava (At 9,36).
Quinto, nossas esmolas devem ser dadas abundantemente, em proporção aos nossos bens. Assim fez e nos ensinou Tobias, o mais generoso em dar esmolas: se tiveres muito, dá abundantemente; se tiveres pouco, dá desse pouco de bom coração (Tb 4,9). E o apóstolo ensina que as esmolas devem ser dadas para alcançar a benção, não com avareza. São João Crisóstomo acrescenta: não apenas dar, mas dar abundantemente, isto é esmola. E, no mesmo sermão, repete: aqueles que desejam ser ouvidos por Deus quando dizem "tenha piedade de mim, oh Deus", de acordo com a divina misericórdia, devem ter misericórdia para com os pobres, na medida de suas posses.

Por fim, acima de todas as coisas, quem desejar ser salvo e ter uma boa morte, diligentemente deve perguntar-se, através de leituras e meditações, ou consultando homens santos e sábios, se suas supérfluas riquezas podem ser mantidas sem cometer pecado, ou se devem dá-las para os pobres; o que deve ser compreendido como supérfluo e quais são os bens necessários. Pode ocorrer que algumas riquezas moderadas sejam supérfluas, enquanto outras grandes riquezas seja absolutamente essenciais.

E desde que este tratado não requer estudos escolásticos aprofundados, irei brevemente citar algumas passagens da Escritura e Santos Padres. As Escrituras dizem: não podeis servir a Deus e à riqueza (Mt 6,24) e quem tem duas túnicas dê uma ao que não tem; e quem tem o que comer, faça o mesmo (Lc 3,11). E no capítulo 12 de São Lucas é dito sobre quem tem grandes riquezas, que nem sabe o que fazer com elas: Insensato! Nesta noite ainda exigirão de ti a tua alma. E as coisas, que ajuntaste, de quem serão? (Lc 12,20). Santo Agostinho explica que estas palavras indicam que o homem rico perecerá porque não sabe utilizar suas riquezas supérfluas.

São João Crisóstomo afirma em sua 34a. homília ao povo de Antioquia: tens algumas posses? O interesse dos pobres está confiado a ti, sejam teus bens frutos de justos trabalhos ou herdados de teus pais. São Agostinho, nos Comentários sobre o Salmo 147: nossos bens supérfluos pertencem aos pobres; se não forem dados a eles, nós possuímos o que não temos direito. São Leão fala: bens temporais são dados para nós pela liberalidade de Deus, e Ele pedirá contas deles, pois foram concedidos a nós. São Tomás ensina que as riquezas temporais que possuímos, por lei natural pertencem aos pobres. E também que o Senhor nos pede para dar aos pobres não apenas a décima parte, mas todos bens supérfluos. O mesmo autor assegura que esta é a opinião comum de todos teólogos. E acrescento também, que se alguém quiser obedecer estritamente a letra da lei, não é apenas convidado a dar seus bens para os pobres, é obrigado a fazê-lo pela lei da caridade, pois tanto faz se escaparmos do inferno por seguirmos a lei ou por verdadeira caridade.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII) 

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