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6 de abr. de 2020

A avareza espiritual

Muitos principiantes têm às vezes também grande avareza espiritual. Mal se contentam com o espírito que Deus lhes dá,; andam muito desconsolados e queixosos por não acharem, nas coisas espirituais, o consolo desejado. 

Muitos nunca se fartam de ouvir conselhos e aprender regras da visa espiritual; querem ter sempre grande cópia de livros sobre este assunto. Se ocupam mais em ler do que em se exercitarem na mortificação e perfeição da pobreza interior do espírito, como deveriam. 

Além disto, carregam-se de imagens e rosários, ora deixam uns, ora tomam outros; vivem a trocá-los e destrocá-los; querem-nos, já desta maneira, já dequela outra, afeiçoando-se mais a esta cruz do que àquela, por lhes parecer mais interessante. Também vereis a outros bem munidos de Agnus Dei, relíquias e santinhos, como as crianças com brinquedos. 

 Condeno, em tudo isto, a propriedade do coração e o apego ao  e curiosidades destas coisas; pois esta maneira de agir é muito contrária à pobreza de espírito, que só põe os olhos na substância da devoção, e se aproveita somente do que lhe serve para tal fim, cansando-se de tudo mais. 

A verdadeira piedade há de brotar do coração, firmando-se na verdade e solidez, significadas nestas coisas espirituais; o resto é apego e propriedade de imperfeição, que é necessário cortar, a fim de atingir algo da perfeição.

-- São João da Cruz, no livro A Noite Escura da Alma.  (século XVI)

25 de dez. de 2019

O pranto do homem em Deus, e no homem a alegria

Quando foi chegado o tempo
Em que de nascer havia,
Assim como o desposado,
Do seu tálamo saía
Abraçado à sua esposa,
Que em seus braços a trazia;
Ao qual a bendita Mãe
Em um presépio poria
Entre pobres animais
Que então por ali havia.

Os homens davam cantares,
Os anjos a melodia,
Festejando o desposório
Que entre aqueles dois havia.

Deus, porém, no presépio
Ali chorava e gemia;
Eram jóias que a esposa
Ao desposório trazia;
E a Mãe se assombrava
Da troca que ali se via:
O pranto do homem em Deus,
E no homem a alegria;
Coisas que num e no outro
Tão diferente ser soía.

-- São João da Cruz, Romance Cristológico e Trinitário, 9o. romance (século XVI)

6 de jun. de 2013

Chama de amor viva - S. João da Cruz

Em suas obras, São João apresenta o caminho de purificação da alma, ou seja, a posse progressiva e jubilosa de Deus, até que a alma chegue a sentir que ama a Deus com o mesmo amor com que é por Ele amada. A poesia Chama de amor viva continua nesta perspectiva, descrevendo mais pormenorizadamente o estado de união transformadora com Deus. A comparação utilizada por João é sempre a do fogo: assim como o fogo, quanto mais arde e consome a madeira, tanto mais se torna incandescente até se tornar chama, também o Espírito Santo, que durante a noite obscura purifica e limpa a alma, com o tempo ilumina-a e aquece-a como se fosse uma chama. A vida da alma é uma festa contínua do Espírito Santo, que deixa entrever a glória da união com Deus na eternidade.

Oh chama de amor viva,
Que eternamente feres
Da minha alma o mais profundo ponto!
Já que não és esquiva,
Acaba já, se queres;
Rasga o tecido deste suave encontro.

Oh cativeiro suave!
Oh deliciosa chaga!
0h toque delicado! Oh mão querida,
Que à vida eterna sabe,
Toda a dívida paga!
Matando, a morte transforme em vida.

Oh lâmpadas de fogo,
Em cujos resplendores
As profundas cavernas do sentido,
Que esteva escuro e cego,
Com estranhos primores
Calor e luz dão junto ao seu querido!

Quão manso e amoroso
Acordas em meu seio,
Onde em segredo, solitário, moras;
E em teu aspirar gostoso,
De bem e glória cheio,
Quão delicadamente me enamoras.


14 de dez. de 2012

Conhecimento do mistério escondido em Cristo Jesus

* Hoje, 14 de Dezembro, é a festa litúrgica de São João da Cruz, um dos doutores da Igreja. 

Embora os santos doutores tenham explicado muitos mistérios e maravilhas, e pessoas  devotadas a esse estado de vida os conheçam, contudo, a maior parte desses mistérios  está por ser enunciada, ou melhor, resta para ser entendida.

Por isso é preciso cavar fundo em Cristo, que se assemelha a uma mina riquíssima, contendo em si os maiores tesouros; nela por mais que alguém cave em profundidade, nunca encontra fim ou termo. Ao contrário, em toda cavidade aqui e ali novos veios de novas riquezas.

Por este motivo o apóstolo Paulo falou acerca de Cristo: Nele estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência de Deus (Cl 2, 3). A alma não pode ter acesso a estes tesouros, nem consegue alcançá-los se não houver antes atravessado e entrado na espessura dos trabalhos, sofrendo interna e externamente e sem ter primeiro recebido de Deus muitos benefícios intelectuais e sensíveis e sem prévio e contínuo exercício espiritual.

Tudo isto é, sem dúvida, insignificante; são meras disposições para as sublimes profundidades do conhecimento dos mistérios de Cristo, a mais alta sabedoria a que se pode chegar nesta vida.

Quem dera reconhecessem os homens ser totalmente impossível chegar à espessura das riquezas e da sabedoria de Deus! Importa antes entrar na espessura das labutas, suportar muitos sofrimentos, a ponto de renunciar à consolação e ao desejo dela. Com quanta razão a alma, sedenta da divina sabedoria, escolhe antes em verdade entrar na espessura da cruz.

Por isso, São Paulo exortava os efésios a não desanimarem nas tribulações, a serem fortíssimos, enraizados e fundados na caridade, para que pudessem compreender, com todos os santos, qual a largura, o comprimento, a altura, a profundidade, e conhecer o amor de Cristo, que ultrapassa todo conhecimento, a fim de serem cumulados até receber toda a plenitude de Deus (Ef 3, 17-19).

Já que a porta por onde se pode entrar até esta preciosa sabedoria é a cruz, e é porta estreita, muitos são os que cobiçam as delícias que por ela se alcançam; pouquíssimos os que desejam por ela entrar.

-- Do Cântico espiritual, de São João da Cruz, presbítero (século XVI)

21 de set. de 2011

Canções entre a Alma e o Esposo, de São João da Cruz


1. Onde é que te escondeste,
Amado, e me deixaste com gemido?
Como o cervo fugiste,
Havendo-me ferido;
Saí, por ti clamando, e eras já ido.

2. Pastores que subirdes
Além, pelas malhadas, ao Outeiro,
Se porventura virdes
Aquêle a quem mais quero,
Dizei-Ihe que adoeço, peno, e morro.

3. Buscando meus amores,
Irei por êstes montes e ribeiras;
Não colherei as flôres,
Nem temerei as feras,
E passarei os fortes e fronteiras.

4. Ó bosques e espessuras,
Plantados pela mão de meu Amado!
Ó prado de verduras,
De flôres esmaltado,
Dizei-me se por vós tle há passado!

5. Mil graças derramando,
Passou por êstes soutos com presteza,
E, enquanto os ia olhando,
Só com sua figura
A todos revestiu de. formosura.

6. Quem poderá curar-me?!
Acaba de entregar-te já deveras;
Não queiras enviar-me
Mais mensageiro algum,
Pois não sabem dizer-me o que desejo.

7. E todos quantos vagam,
De ti me vão mil graças relatando,
E todos mais me chagam;
E deixa-me morrendo
Um "não sei quê", que ficam balbuciando.

8. Mas como perseveras,
Ó vida, não vivendo onde já vives?
Se fazem com que morras
As flechas que recebes
Daquilo que do Amado em ti concebes?

9. Por que, pois, hás chagado
Este meu coração, o não saraste?
E, já que mo hás roubado,
Por que assim o deixaste
E não tomas o roubo que roubaste?

10. Extingue os meus anseios,
Porque ninguém os pode desfazer;
E vejam-te meus olhos,
Pois dêles és a luz,
E para ti somente os quero ter.

11. Mostra tua presença!
Mate-me a tua vista e formosura;
Olha que esta doença
De amor jamais se cura,
A não ser com a presença e com a figura.

12. Ó cristalina fonte,
Se nesses teus semblantes prateados
Formasses de repente
Os olhos desejados
Que tenho nas entranhas debuxados !

13. Aparta-os, meu Amado, E, das noites, os mêdos veladores:
Que eu alço o vôo.

(Esposo)
Oh! volveite, columba,
Que o cervo vulnerado
No alto do outeiro assoma,
Ao sôpro de teu vôo, e fresco toma.

(Esposa)
14. No Amado acho as montanhas,
Os vales solitários, nemorosos,
As ilhas mais estranhas,
Os rios rumorosos,
E o Sussurro dos ares amorosos;

15. A noite sossegada,
Quase aos levantes do raiar da aurora;
A música calada,
A solidão sonora,
A ceia que recreia e que enamora.

16. Caçai-nos as rapôsas,
Que está já tôda em flor a nossa vinha;
Enquanto destas rosas
Faremos uma pinha;
E ninguém apareça na colina!

17. Detém-te, Aquilão morto!
Vem, Austro, que despertas os amôres:
Aspira por meu hôrto,
E corram seu olores,
E o Amado pascerá por entre as flores.

18. Ó ninfas da Judéia,
Enquanto pelas flôres e rosais
Vai recendendo o âmbar,
Ficai nos arrabaldes
E não ouseis tocar nossos umbrais.

19. Esconde-te, Querido!
Voltando tua face, olha as montanhas;
E não queiras dizê-Io,
Mas olha as companheiras
Da que vai pelas ilhas mais estranhas.

(Esposo)
20. A vós, aves ligeiras,
Leões, cervos e gamos saltadores,
Montes, vales, ribeiras,
Águas, ventos, ardores.

21. Pelas amenas liras
E cantos de sereias, vos conjuro
Que cessem vossas iras,
E não toqueis no muro,
Para a Esposa dormir sono seguro.

22. Entrou, enfim, a Esposa
No horto ameno por ela desejado;
E a seu sabor repousa,
O colo reclinado
Sôbre os braços dulcíssimos do Amado.

23. Sob o pé da macieira,
Ali, comigo foste desposada;
Ali te dei a mão,
E foste renovada
Onde a primeira mãe foi violada.

(Esposa)
24. Nosso leito é florido,
De covas de leões entrelaçado,
Em púrpura estendido,
De paz edificado,
De mil escudos de ouro coroado.

25. Após tuas pisadas
Vão discorrendo as jovens no caminho,
Ao toque de centelha,
Ao temperado vinho,
Dando emissões de bálsamo divino.

26. Na interior adega
Do Amado meu, bebi; quando saía,
Por tôda aquela várzea
Já nada mais sabia,
E o rebanho perdi que antes seguia.

27. Ali me abriu seu peito
E ciência me ensinou mui deleitosa;
E a êle, em dom perfeito,
Me dei, sem deixar coisa,
E então lhe prometi ser sua esposa.

28. Minha alma se há votado,
Com meu cabedal todo, a seu serviço;
Já não guardo mais gado,
Nem mais tenho outro ofício,
Que só amar é já meu exercício.

29. Se agora, em meio à praça,
Já não fôr mais eu vista, nem achada,
Direis que me hei perdido,
E, andando enamorada,
Perdidiça me fiz e, fui ganhada.

30. De, flores e esmeraldas,
Pelas frescas manhãs bem escolhidas,
Faremos as grinaldas
Em teu amor floridas,
E num cabelo meu entretecidas.

31. Só naquele cabelo
Que em meu colo a voar consideraste,
Ao vê-lo no meu colo,
Nele preso ficaste,
E num só de meus olhos te chagaste.

32. Quando tu me fitavas,
Teus olhos sua graça me infundiam'
E assim me sobreamavas, '
E nisso mereciam
Meus olhos adorar o que em ti viam.

33. Não queiras desprezar-me,
Porque, se cor trigueira em mim achaste,
Já podes ver-me agora,
Pois, desde que me olhaste,
A graça e a formosura em mim deixaste.

34. Eis que a branca pombinha
Para a arca, com seu ramo, regressou;
E, feliz, a rolinha
O par tão desejado
Já nas ribeiras verdes encontrou.

35. Em solidão vivia,
Em solidão seu ninho há já construído;
E em solidão a guia,
A sós, o seu Querido,
Também na solidão, de amor ferido.

36. Gozemo-nos, Amado!
Vamo-nos ver em tua formosura,
No monte e na colina,
Onde brota a água pura;
Entremos mais adentro na espessura.

37. E, logo, as mais subidas
Cavernas que há na pedra, buscaremos;
Estão bem escondidas;
E juntos entraremos,
E das romãs o mosto sorveremos.

38. Ali me mostrarias
Aquilo que minha alma pretendia,
E logo me darias,
Ali, tu, vida minha,
Aquilo que me deste no outro dia.

39. E o aspirar da brisa,
Do doce rouxinol a voz amena,
O souto e seu encanto,
Pela noite serena,
Com chama que consuma sem dar pena.

40. Ali ninguém olhava;
Aminadab tampouco aparecia;
O cerco sossegava;
Mesmo a cavalaria,
Só à vista das águas, já descia.

Explicação de São João da Cruz:

1. A ordem seguida nestas canções vai desde que uma alma começa a servir a Deus até chegar ao último estado de perfeição, que é o matrimônio espiritual; por isso, nas mesmas canções, tocam-se os três estados ou vias de exercício espiritual, pelos quais passa a alma até atingir o dito estado. Estas vias são: purgativa, iluminativa e unitiva. E são explicadas algumas propriedades e efeitos em relação a cada uma delas.

2. As primeiras canções tratam dos principiantes, isto é, da via purgativa. As seguintes tratam dos adiantados, quando se faz o desposório espiritual, e esta é a via iluminativa. Depois, seguem-se outras canções, referentes à via unitiva, que é a dos perfeitos, onde se realiza o matrimônio espiritual. Esta via unitiva, já dos perfeitos, vem depois da iluminativa que é própria dos adiantados. As últimas canções,
enfim, tratam do estado beatífico, único intento da alma chegada ao estado de perfeição.


7 de dez. de 2010

A noite escura da mortificação da alma

Para atingir o estado sublime de união com Deus, é indispensável à alma atravessar a noite escura da mortificação dos apetites, e da renúncia a todos os prazeres deste mundo. As afeições às criaturas são diante de Deus como profundas trevas, de tal modo que a alma, quando aí fica mergulhada, torna-se incapaz de ser iluminada e revestida da pura e singela claridade divina. A luz é incompatível com as trevas, como no-lo afirma S. João ao dizer que as trevas não puderam compreender a luz ( Jo 1, 5 ).

A alma enamorada das grandezas e dignidades ou muito ciosa da liberdade de seus apetites está diante de Deus como escrava e prisioneira e como tal — e não como filha — é tratada por Ele, porque não quis seguir os preceitos de sua doutrina sagrada que nos ensina: Quem quer ser o maior deve fazer-se o menor, e o que quiser ser o menor seja o maior. A alma não poderá, portanto, chegar à verdadeira liberdade de espírito que se alcança na união divina; porque sendo a escravidão incompatível com a liberdade, não pode esta permanecer num coração de escravo, sujeito a seus próprios caprichos; mas somente no que é livre, isto é, num coração de filho. Neste sentido Sara diz a Abraão, seu esposo, que expulse de casa a escrava e seu filho: Expulsa esta escrava e seu filho, porque o filho da escrava não será herdeiro com meu filho Isaac ( Gn 21, 10 ).

Todas as delícias e doçuras que a vontade saboreia nas coisas terrenas, comparadas aos gozos e às delícias da união divina, são suma aflição, tormento e amargura. Assim todo aquele que prende o coração aos prazeres terrenos é digno diante do Senhor de suma pena, tormento e amargura, e jamais poderá gozar os suaves abraços da união de Deus. Toda a glória e todas as riquezas das criaturas, comparadas à infinita riqueza que é Deus, são suma pobreza e miséria. Logo a alma afeiçoada à posse das coisas terrenas é profundamente pobre e miserável aos olhos do Senhor, e por isto jamais alcançará o bem-aventurado estado da glória e riqueza, isto é, a transformação em Deus; porque há infinita distância entre o pobre e indigente, e o sumamente rico e glorioso.

A Sabedoria divina, ao se queixar das almas que caem na vileza, miséria e pobreza, em conseqüência da afeição que dedicam ao que é elevado, grande e belo segundo a apreciação do mundo, fala assim nos Provérbios: A vós, ó homens, é que eu estou continuamente clamando, aos filhos dos homens é que se dirige a minha voz. Aprendei, ó pequeninos, a astúcia e vós, insensatos, prestai-me atenção. Ouvi, porque tenho de vos falar acerca de grandes coisas. Comigo estão as riquezas e a glória, a magnífica opulência, e a justiça. Porque é melhor o meu fruto que o ouro e que a pedra preciosa, e as minhas produções melhores que a prata escolhida. Eu ando nos caminhos da justiça, no meio das veredas do juízo, para enriquecer aos que me amam e para encher os seus tesouros ( Prov 8, 4-6.18-21 ). A divina sabedoria se dirige aqui a todos os que põem o coração e a afeição nas criaturas. Chama-os de "pequeninos" porque se tornam semelhantes ao objeto de seu amor, que é pequeno. Convida-os a ter prudência  e a observar que ela trata de grandes coisas e não de pequenas como eles. Com ela e nela se encontram a glória e as verdadeiras riquezas desejadas, e não onde eles supõem. A magnificência e justiça lhe são inerentes; e exorta os homens a refletir sobre a superioridade de seus bens em relação aos do mundo. Ensina-lhes que o fruto nela encontrado é preferível ao ouro e às pedras preciosas; afinal, mostra que sua obra na alma está acima da prata mais pura que eles amam. Nestas palavras se compreende todo gênero de apego existente nesta vida.


-- Do Tratado "Subida do Monte Castelo", de São João da Cruz, presbítero  (século XVI)

6 de dez. de 2010

Deus nos falou por Cristo

O motivo principal por que na antiga Lei eram lícitas as perguntas feitas a Deus, e convinha aos profetas e sacerdotes desejarem visões e revelações divinas, era não estar ainda bem fundada a fé nem estabelecida a Lei evangélica. Era assim necessário que se interrogasse a Deus e ele respondesse, ora por palavras, ora por visões e revelações, ora por meio de figuras e símbolos ou finalmente por muitas outras maneiras de expressão. Porque tudo o que respondia, falava e revelava, eram mistérios da nossa fé ou verdades que a ela se referiam ou a ela conduziam.

A Antecipação da Vinda de Cristo
por São João da Cruz, obra de
Nicolo Lorenese, 1686.
Agora, já estando firmada a fé em Cristo e promulgada a Lei evangélica nesta era de graça, não há mais razão para perguntar a Deus, daquele modo, nem para que ele responda como antigamente. Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua única Palavra (e não há outra), disse-nos tudo de uma vez nessa Palavra e nada mais tem a dizer.

É este o sentido do texto em que São Paulo busca persuadir os hebreus a se afastarem daqueles primitivos modos de tratar com Deus, previstos na lei de Moisés, e a fixarem os olhos unicamente em Cristo, dizendo: Muitas vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes dias, que são os últimos, ele nos falou por meio de seu Filho (Hb 1,1-2). Por estas palavras o Apóstolo dá a entender que Deus emudeceu, por assim dizer, e nada mais tem a falar, pois o que antes dizia em parte aos profetas, agora nos revelou no todo, dando-nos o Tudo, que é o seu Filho.

Se agora, portanto, alguém quisesse interrogar a Deus, ou pedir-lhe alguma visão ou revelação, faria injúria a Deus não pondo os olhos totalmente em Cristo, sem querer outra coisa ou novidade alguma. Deus poderia responder-lhe deste modo: Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o! (Mt 17,5). Já te disse todas as coisas em minha Palavra. Põe os olhos unicamente nele, pois nele tudo disse e revelei, e encontrarás ainda mais do que pedes e desejas.

Desde o dia em que, no Tabor, desci com meu Espírito sobre ele, dizendo: Este é o meu Filho amado, no qual eu pus todo o meu agrado. Escutai-o!, aboli todas as antigas maneiras de ensinamento e resposta. Se falava antes, era para prometer o Cristo; se me interrogavam, eram perguntas relacionadas com o pedido e a esperança da vinda do Cristo, no qual haviam de encontrar todo o bem – como agora o demonstra toda a doutrina dos evangelhos e dos apóstolos.

-- Do Tratado "A Subida ao Monte Carmelo", de São João da Cruz, presbítero (século XVI)

20 de out. de 2010

A Noite Escura, São João da Cruz


São João da Cruz
Em uma noite escura
De amor em vivas ânsias inflamada
Oh! Ditosa ventura!
Saí sem ser notada,
´stando já minha casa sossegada.
Na escuridão, segura,
Pela secreta escada, disfarçada,
Oh! Ditosa ventura!
Na escuridão, velada,
´stando já minha casa sossegada.

Em noite tão ditosa,
E num segredo em que ninguém me via,
Nem eu olhava coisa alguma,
Sem outra luz nem guia
Além da que no coração me ardia.

Essa luz me guiava,
Com mais clareza que a do meio-dia
Aonde me esperava
Quem eu bem conhecia,
Em lugar onde ninguém aparecia.

Oh! noite, que me guiaste,
Oh! noite, amável mais do que a alvorada
Oh! noite, que juntaste
Amado com amada,
Amada no amado transformada!

Em meu peito florido
Que, inteiro, para ele só guardava,
Quedou-se adormecido,
E eu, terna o regalava,
E dos cedros o leque o refrescava.

Da ameia a brisa amena,
Quando eu os seus cabelos afagava,
Com sua mão serena
Em meu colo soprava,
E meus sentidos todos transportava.

Esquecida, quedei-me,
O rosto reclinado sobre o Amado;
Tudo cessou. Deixei-me,
Largando meu cuidado
Por entre as açucenas olvidado.

Comentário de São João da Cruz
A alma conta nesta primeira canção o modo e maneira que teve de sair, segundo sua visão, de si e todas as coisas do mundo, morrendo por verdadeira mortificação de todas elas e de si mesma, para viver a vida doce e saborosa de Deus. E diz que este sair de si e todas as coisas foi uma noite escura, que aqui se entende pela contemplação purgativa, que causa passivamente na alma uma negação de si mesma e todas as coisas.

E esta saída, diz ela aqui, que pode fazer com a força e calor que para tanto lhe deu o amor de seu Esposo na dita contemplação escura. Enfatiza a boa sorte que teve em caminhar com Deus por esta noite, com tão grande sucesso que nenhum dos três inimigos, que são o mundo, o demonio e a carne, que sempre contrariam este caminho, puderam lhe impedir; por quanto esta noite de contemplação purificativa fez adormecer e amortecer na casa de sua sensualidade todas as paixões e apetites através de desejos e movimentos contrários.

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