29 de out de 2016

Como é bom e suave teu espírito, Senhor, em todas as coisas!

Com a indizível benignidade de sua clemência, o Pai eterno dirigiu o olhar para esta alma, e começou a falar:

“Caríssima filha, determinei com firmeza usar de misericórdia para com o mundo e quero providenciar acerca de todas as situações dos homens. Mas o homem ignorante julga levar à morte aquilo que lhe concedo para a vida, e assim se torna muito cruel, para si próprio; no entanto, dele eu cuido sempre. Por isso quero que saibas: tudo quanto dou ao homem provém da suprema providência.

E o motivo está em que, tendo criado com providência, olhei em mim mesmo e fiquei cativo da beleza de minha criatura. Porque foi de meu agrado criá-la com grande providência à minha imagem e semelhança. Mais ainda, dei-lhe a memória para guardar meus benefícios em seu favor, por querer que participasse de meu poder de Pai eterno.

Dei-lhe, além disto, a inteligência para conhecer e compreender na sabedoria de meu Filho a minha vontade, porque sou com ardente caridade paterna o máximo doador de todas as graças. Concedi-lhe também a vontade de amar, participando da clemência do Espírito Santo, para poder amar aquilo que a inteligência vise e conhecesse.

Isto fez minha doce providência. Ser o único capaz de entender e de encontrar seu gozo em mim com alegria imensa na minha eterna visão. E como de outras vezes te falei, pela desobediência de vosso primeiro pai Adão, o céu estava fechado. Desta desobediência decorreram depois todos os males no mundo inteiro.

Para fazer desaparecer do homem a morte de sua desobediência, em minha clemência providenciei, entregando-vos meu Filho unigênito com grande sabedoria, para que assim reparasse vosso dano. Impus-lhe uma grande obediência, a fim de que o gênero humano se livrasse do veneno que se difundira no mundo pela desobediência de vosso primeiro pai. Assim, como que cativo de amor e com verdadeira obediência, correu com toda a rapidez, correu à ignominiosa morte sacratíssima, deu-vos a vida, não pelo vigor de sua humanidade, mas da divindade”.

-- Do Diálogo sobre a Providência divina, de Santa Catarina de Sena, virgem (século XIV)

28 de out de 2016

Como o Pai me enviou, também eu vos envio

Nosso Senhor Jesus Cristo designou guias e doutores do mundo e dispensadores de seus divinos mistérios. Semelhantes a lâmpadas, ordenou-lhes que esclarecessem e iluminassem não apenas o país dos judeus, mas todos os que existem sob o sol e em todo o universo, os homens e habitantes da terra. É verdadeiro aquele que disse: Ninguém se arroga esta honra, mas quem foi chamado por Deus (Hb 5,4). Pois nosso Senhor Jesus Cristo chamou ao nobilíssimo apostolado, antes de todos os outros, os seus discípulos. 

Os santos Apóstolos foram colunas e firmamento da verdade. A eles diz que os envia da mesma forma como foi enviado pelo Pai. Mostrou assim, ao mesmo tempo, a dignidade do apóstolo e a glória incomparável do poder que lhe foi dado; como também, parece-me, sugerindo a meta da vida apostólica. 

Pois, se julgava que devia enviar seus discípulos do mesmo modo como o Pai o enviara, como não se seguiria necessariamente que seus futuros imitadores iriam conhecer a que fim o Pai enviara o Filho? Por isto, declarando em vários lugares a finalidade de sua missão, dizia: Não vim chamar os justos, mas os pecadores para a conversão (cf. Mt 9,13). E também: Desci do céu não para fazer minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou. Deus não enviou seu Filho ao mundo para julgar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele (Jo 3,17). 

Resumindo assim, em poucas palavras, o objetivo do apostolado, diz que foram enviados por ele, como ele o fora pelo Pai e soubessem ter recebido a missão de chamar os pecadores à conversão; de curar os doentes de corpo e de espírito; de não procurar, no ministério, sua vontade, mas a daquele por quem foram enviados; e de salvar o mundo por sua doutrina. Não será difícil saber quanto os santos apóstolos se esforçaram por bem realizar todas estas tarefas, se leres os escritos dos Atos dos Apóstolos e de São Paulo.

-- Do Comentário sobre o Evangelho de João, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V)

27 de out de 2016

Nas coisas criadas está impressa a imagem da Sabedoria

A forma da sabedoria foi criada em nós e está em tudo. É, portanto, muito justo que a verdadeira e
Santo Atanásio de Alexandria
criadora Sabedoria reivindique como própria sua forma em todas as coisas e diga: O Senhor me criou em suas obras (cf. Pr 8,22). Visto ser a sabedoria existente em nós quem fala, o Senhor a nomeia como bem próprio.  

Não é, portanto, criado aquele que é o criador, mas por causa de sua imagem nas obras criadas, fala destas como de si mesmo. Do modo como o Senhor diz: Quem vos recebe a mim recebe (Mt 10,40), porque sua imagem está em nós, embora não incluído entre as coisas criadas, por ser sua forma e imagem criada nas obras, diz como de si mesmo: O Senhor no início de seus caminhos me criou (Pr 8,22).  

A forma da sabedoria foi dada às criaturas para que o mundo nelas reconhecesse o Verbo, seu artífice, e pelo Verbo,o Pai. Na verdade é o mesmo que Paulo ensina: Porque o que se pode conhecer de Deus é manifesto para eles, Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo, através de suas criaturas as realidades invisíveis são contempladas pela inteligência (cf. Rm 1,19-20). Por conseguinte, o Verbo, por natureza, de modo algum é criado, mas este trecho deve ser entendido a respeito da sabedoria que se diz estar e ser verdadeiramente em nós.

Entretanto, se alguém não quiser acreditar nisto, responda-me: há ou não sabedoria nas coisas criadas? Se não há nenhuma, como é que o Apóstolo se queixa com as palavras: Pois que, na sabedoria de Deus, o mundo não conheceu a Deus pela sabedoria? (1Cor 1,21). Ou se não existe sabedoria, por que se comemora na Escritura a multidão dos sábios? Pois o sábio atemorizado afasta-se do mal (Pr 14,16), e com sabedoria constrói a casa (Pr 24,3).

O Eclesiastes também diz: A sabedoria do homem iluminará seu rosto (Ecl 8,1); e censura os temerários com as palavras: Não digas: Por que é que os tempos passados foram melhores do que os presentes? Não foi com sabedoria que indagaste isto (Ecl 7,10).

Então, se nas coisas criadas há sabedoria, como o filho de Sirac atesta: Difundiu-a em todas as suas obras e em todos os mortais conforme seu dom, e concedeu-a aos que o amam (Eclo 1,7-8), esta efusão não foi absolutamente da Sabedoria em sua natureza que subsiste por si mesma e é unigênita, mas daquela que se expressa no mundo. Que há, pois, de incrível que a própria Sabedoria criadora e verdadeira diga a respeito da sabedoria e ciência, forma ou figura suas, difundidas no mundo, como se fosse de si mesma: O Senhor me criou em suas obras? A sabedoria existente no mundo não é criadora, mas foi criada nas coisas; por ela os céus narram a glória de Deus e o firmamento anuncia as obras de suas mãos (Sl 18,2).

-- Dos Discursos contra os arianos, de Santo Atanásio, bispo

21 de out de 2016

O Espírito intercede por nós

Quem pede ao Senhor aquele único bem e o procura com empenho, pede cheio de segurança e não teme ser-lhe prejudicial o recebê-lo; sem ele, nada do que puder receber como convém lhe adiantará. Pois é a única verdadeira vida e a única feliz. Contemplar eternamente a maravilha do Senhor, imortais e incorruptos de corpo e de espírito. Em vista desta única vida tudo o mais se há de pedir sem impropriedade. Quem a possuir terá tudo quanto desejar. Nem desejará o que não convém e que ali nem mesmo pode existir.

Ali, com efeito, está a fonte da vida, de que temos sede agora na oração, enquanto vivemos na esperança e ainda não vemos o que esperamos; à sombra de suas asas, diante de quem está todo nosso desejo, para embriagarmo-nos da riqueza de sua casa e bebermos da torrente de suas delícias. Porque junto dele está a fonte da vida e à sua luz veremos a luz (cf. Sl 35,8-10), quando se saciar de bens nosso anseio e nada mais haverá a procurar com gemidos, mas só aquilo que no gozo abraçaremos.

Todavia ela é também a paz que supera todo entendimento. Por isso, ao orarmos para obtê-la, não sabemos fazê-lo como convém. Porque não podemos nem mesmo imaginar como é, então não sabemos.

Mas tudo o que nos ocorre ao pensar, afastamos, rejeitamos, desaprovamos. Não é isto o que procuramos, embora não saibamos ainda qual seja. Há em nós, por assim dizer, uma douta ignorância, mas douta pelo Espírito de Deus que vem em auxílio de nossa fraqueza. Tendo o Apóstolo dito: Se, porém, esperamos o que não vemos, aguardamos com paciência, acrescenta: Do mesmo modo o Espírito vem em auxílio de nossa fraqueza; pois não sabemos orar como convém; mas o próprio Espírito intercede com gemidos inexprimíveis. Aquele que perscruta os corações conhece o desejo do Espírito, porque sua intercessão pelos santos corresponde ao desígnio de Deus (Rm 8,25-27).

Não se há de entender isto como se o Santo Espírito de Deus, que é Deus na Trindade imutável e como Pai e o Filho um só Deus, interceda em favor dos santos, como alguém que não seja o mesmo Deus. Na verdade se diz: Interpela em favor dos santos porque faz os santos intercederem. Como se diz: O Senhor, vosso Deus, vos tenta para saber se o amais (Dt 13,4), quer dizer: para vos fazer saber. Por conseguinte faz que os santos intercedam com gemidos inexprimíveis, inspirando-lhes o desejo da maravilha ainda desconhecida que aguardamos pela paciência. Por que e como exprimir o desejo daquilo que se ignora? Na realidade, se se ignorasse totalmente, não se desejaria. Por outro lado, se já se vise, não se desejaria nem se procuraria com gemidos.

-- Da Carta a Proba, de Santo Agostinho, bispo (século V)

16 de out de 2016

São José Sanchez del Rio

O novo santo, canonizado neste domingo, 16 de Outubro, viveu em tempos de perseguição à Igreja Católica. O governo do México declarou guerra a Igreja Católica, levando seus fiéis a defesa através das armas, um movimento conhecido como Cristeiros. Sua  heróica resistência, a Cristiada, começou em 1926.
San José, no dia de seu batismo

O ambiente político no México

A Constituição de 1917 - de inspiração comunista nacionalista - visava erradicar a Igreja Católica no México, através do controle da Igreja pelo governo. A Lei regulamentava os horários de oração, fixava o número de padres, restrigia a participação em missas, batismos, sacramentos e até esmolas.  Os sinos foram proibidos, as escolas e hospitais católicos tomados pelo governos, monastérios foram dissolvidos e até o uso de hábitos foi proibido. Em 1926, sob o governo de Calles, a Igreja foi sumariamente proibida;padres começaram a ser presos, torturados e mortos. 

Isto levou os cristãos a se organizarem para defender sua fé, no que ficou conhecido como a Rebelião dos Cristeiros ou Cristiada. Muito forte no meio rural, adotava táticas de guerrilhas para combater o exército. Apesar das dificuldades iniciais, o movimento foi se organizando e, com o apoio da população local, chegou a ter cerca de 50.000 participantes. 

José Sanchez entra no movimento

José Sanchez nasceu em 28 de Março de 1913, era filho de Macário Sanchez e Maria Arteaga. Muito jovem, viu como a Igreja estava sendo perseguida e decidiu tornar-se um cristeiro. Seus paisestavam relutantes, mas terminaram por dar sua benção quando o comandante local lhes garantiu que seu filho iria apenas auxiliar no acampamento. José, exulltante, declarou que por Cristo faria qualquer coisa.

Ele um amigo, Trinidad flores, apresentaram-se num acampamento e receberam suas tarefas: carregar água, manter o fogo, servir comida e café, lavar pratos, alimentar os cavalos e limpar os rifles. Além disso, assistia diariamente a missa e rezava o Rosário constantemente. Aprendeu a tocar trompete e, assim, começou a acompanhar os soldados em batalhas.

Em 6 de Fevereiro de 1928, os cristeiros prepararam uma emboscada a tropas federais. Mas o Exército estava preparado e havia levado uma metralhadora. José escondeu-se, mas viu que o líder do grupo estava preso embaixo do cavalo, que estava morto, e de lá não conseguiria sair. José correu até ele, ajudou-o a se desvencilhar e deu seu cavalo para que o líder fugisse. Ele se recusou, mas José insistiu, dizendo que o líder era mais importante e não poderia ser preso. Enquanto o grupo recuava, José ficou para proteger  o grupo. Quando acabou sua munição, foi preso pelos soldados. Convidado a entrar no Exército, respondeu: Vocês me capturaram por que terminou a munição, mas eu não desisti! 

Carta a sua mãe

Na prisão, José escreveu à sua mãe:

Minha querida mãe,

Fui feito prisioneiro em batalha. Imagino que vá morrer em breve, mas eu não me importo. Aceite a vontade de Deus, morrerei feliz ao lado de Cristo. Não se preocupe com minha morte, isto me deixaria triste. Diga a meus irmãos para seguir o exemplo do filho mais novo e fazer a vontade de Cristo. Tenha coragem e envie-me suas bençãos. 

Mande lembranças a todos por uma última vez e receba o coração deste filho que tanto de ama e que desejaria lhe ver uma última vez antes de morrer.

Zelo pela casa de Deus

No dia seguinte à prisão, José e Lorenzo foram transferidos pde Cotija para Sahuayo, onde a igreja estava sendo usada para abrigar soldados e animais. O altar fora desfeito e sua madeira usada para manter o fogo, havia garrafas de cerveja e fezes de animais por todo lado; as imagens de santos foram quebradas, a igreja estava desfigurada.

A prisão de José logo ficou conhecida pelo povo e seu avô, um político local favorável ao governo, foi lhe procurar. Novamente tentou-o convencer a entrar no Exército. José respondeu-lhe: Prefiro morrer, não irei com estes macacos, nunca perseguirei a Igreja! Se me deixarem sair daqui, correrei para o acampamento dos Cristeiros! Viva Cristo Rei, viva a Virgem de Guadalupe!

No dia seguinte, os soldados trouxeram galos de brigas para a Igreja e fizeram apostas. Os animais foram deixados soltos e acabaram voando para cima do tabernáculo. Quando os soldados bêbados dormiram, José quebrou o pescoço de cada um dos galos.

Na manhã seguinte, o general soube o que acontecera, foi até José e perguntou-lhe:
- Você que fez isto? Não sabe quanto custa um bom galo de briga?
- Só sei que a casa de Deus não é um curral.
- Você sabe que posso matá-lo a qualquer hora?
- Atire em mim agora e estarei ao lado do Pai ainda hoje.

O caminho da cruz

Em 10 de fevereiro, o general mandou executar José. Uma tia trouxe-lhe a última refeição, com uma hóstia escondida, no que ela mesmo arriscava sua vida. Foi a última comunhão de José, que disse à tia: Nos veremos no céus, mas não tenha pressa. Por favor, fique e cuide de minha mãe.

Foi decidido que um esquadrão não seria bem visto, pois tratava-se de um menino de 14 anos. Os soldados deram socos e chutes, a cada golpe José gritava "Viva Cristo Jesus!". Fizeram-no então caminhar até o cemitério, os soldados gritavam insultos a ele, a Igreja, Jesus e Maria. José apenas gritava "Viva a Virgem de Guadalupe!"

Ao chegar ao cemitério, caminhou até sua cova. Os soldados lhe apunhalaram várias vezes, mas José continuava vivo, falando de Jesus e Maria. Um oficial chegou perto e perguntou-lhe: Agora, o que queres que diga a seus pais? Respondeu-lhe: Diga que nos veremos nos céus! Viva a Cristo Rei! O oficial deu um tiro em sua cabeça.

Após o martírio

O corpo incorrupto do santo. 
Quando os federais deixaram o cemitério, o coveiro correu até a casa de um padre e pediu-lhe um funeral cristão. Padre Ignacio Sanchez era tio de José, chamou os pais do menino e foram ao cemitério. Ali limparam suas feridas, e deram-lhe um digno funeral. Ao sber da santidade de sua morte, muitos começaram a rezar por sua memória e pedir-lhe intercessão em seus problemas. 

Em 1945, o corpo incorrupto de José foi transferido para um altar na Igreja do Sagrado Coração de Jesus, junto com outros mártires cristeiros. Finalmente, em 1996 seus restos mortais foram colocados no batistério da Igreja em que fora mantido preso. José foi beatificado em 22 de Junho de 2004 e canonizado em 16 de Outubro de 2016. 

Viva Cristo Rei! Viva a Virgem de Guadalupe!

-- autoria própria

9 de out de 2016

Meu nome é glorificado entre as nações

Por ocasião da vinda de nosso Salvador, o templo se manifestou sem comparação mais glorioso e mais divino, mais ilustre e excelente do que o antigo. Assim o julga quem percebe a diferença entre o culto da religião da lei e o culto evangélico de Cristo, e entre a realidade e sua sombra.  

A este respeito creio poder dizer o seguinte. Existia um só templo, unicamente, em Jerusalém, e um único povo, o israelita, ali oferecia sacrifícios. Todavia, depois que o Unigênito, sendo o Deus e Senhor que resplandeceu para nós (Sl 117,27), conforme a Escritura, se tornou semelhante a nós, o restante do orbe da terra encheu-se de casas santas e de inumeráveis adoradores que honram com incenso e sacrifícios espirituais o Deus do universo. Foi isto que, segundo me parece, predisse Malaquias, falando em nome de Deus: Porque sou eu o grande rei, diz o Senhor, e meu nome é glorificado entre as gentes e em todo lugar se oferece incenso a meu nome e um sacrifício puro (cf. Ml 1,11).  
O  (Segundo) Templo de Jerusalém no tempo de Jesus Cristo.

É, portanto, verdade que a glória do último templo – entenda-se a Igreja – seria maior. Aos dedicados que trabalham em sua edificação será dada pelo Salvador, como recompensa e dom do céu, o Cristo, paz de todos: por quem temos acesso junto ao Pai no único Espírito (cf. Ef 2,18). É o que afirma: Darei a paz a este lugar e paz da alma para aumento de todos quantos houverem trabalhado para levantar este templo (Ag 2,9). Em outro lugar também diz Cristo: Eu vos dou a minha paz (Jo 14,27). Qual seja sua atuação nestes que o amam, Paulo explica: A paz de Cristo, que ultrapassa todo entendimento, guarde vossos corações e inteligências (cf. Fl 4,7). Igualmente o sábio Isaías orava: Senhor, nosso Deus, dá-nos a paz, pois tu nos tratas como nossas ações merecem (Is 26,12). Porque para quem recebeu uma vez a paz de Cristo,torna-se fácil guardar a própria alma e dirigir o esforço para o dom da virtude bem exercida.

Por isto se declara que será dada a paz a todo aquele que constrói. Seja alguém edificador da Igreja e sacerdote, seja intérprete dos sagrados mistérios, foi estabelecido sobre a casa de Deus. E se cuidar de sua alma, vivendo como pedra viva e espiritual para o templo santo e habitação de Deus no Espírito (cf. Ef 2,22), alcançará por prêmio a salvação sem dificuldade.

-- Do Comentário sobre Ageu, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V)

3 de out de 2016

Todos os que desejamos alcançar as promessas do Senhor, devemos imitá-lo em tudo

São Cipriano e Santa Justina, sua seguidora, foram
decapitados na cidade de Nicomedia. Diz-se que o
carrasco, Teoctistus, vendo a vendo a fé destes santos,
ajoelhou-se e declarou-se cristão, tendo o mesmo destino. 
Eu vos saúdo, irmãos caríssimos, ansioso por gozar da vossa presença, se o lugar onde estou me permitisse ir até vós. Que me poderia acontecer de mais desejável e alegre que estar junto a vós neste momento,para apertar essas mãos, puras e inocentes, que por fidelidade ao Senhor recusaram os sacrifícios sacrílegos?  

Que haveria para mim de mais agradável e sublime que beijar agora os vossos lábios que proclamaram a glória do Senhor, como também ser visto por vossos olhos que, desprezando o mundo, se tornaram dignos de contemplar a Deus?

Mas, como não me é dada essa alegria, eu vos envio esta carta, que me substituirá ante os vossos olhos e ouvidos. Por ela vos felicito e ao mesmo tempo exorto a perseverardes fortes e inabaláveis na proclamação da glória celeste. Uma vez no caminho da graça do Senhor, deveis prosseguir com espírito forte até conquistardes a coroa, tendo o Senhor como protetor e guia, pois ele disse: Eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo (Mt 28,20).

Ó cárcere feliz, iluminado pela vossa presença! Ó cárcere feliz, que leva para o céu os homens de Deus! Ó trevas mais luminosas que o próprio sol e mais brilhantes que a luz deste mundo, onde estão agora colocados os templos de Deus, que são os vossos corpos santificados pela proclamação da fé!

Nada mais ocupe agora vossas mentes e corações,senão os preceitos divinos e os mandamentos celestes, pelos quais o Espírito Santo sempre vos animou a suportar os sofrimentos. Ninguém pense na morte mas na imortalidade nem no sofrimento passageiro, mas na glória eterna. Pois está escrito: É preciosa aos olhos do Senhor a morte dos seus justos (Sl 115,15). E também: É um sacrifício agradável a Deus um espírito que sofre; Deus não desprezará um coração contrito e humilhado (Sl 50,19).

E ainda em outro lugar fala a Escritura divina dos tormentos que consagram os mártires de Deus e os santificam pelas provações dos sofrimentos: Embora tenham suportado tormentos diante dos homens, sua esperança está cheia de imortalidade. Julgarão as nações e dominarão os povos, e o Senhor reinará sobre eles para sempre (Sb 3, 4.8).

Assim, quando vos lembrais de que ides julgar e reinar com o Cristo Senhor, a alegria é que deve prevalecer em vós, superando os suplícios presentes pela exultação futura. Bem sabeis que, desde o princípio, a justiça está em luta com o mundo: logo na origem da humanidade, o justo Abel foi assassinado, como depois dele todos os justos, profetas e apóstolos enviados por Deus.

A todos eles o Senhor quis dar a si mesmo como exemplo, ensinando que só aqueles que seguissem o seu caminho poderiam entrar em seu reino: Quem ama a sua vida neste mundo, perdê-la-á. E quem odeia a sua vida neste mundo, conservá-la-á para a vida eterna (Jo 12,25). E ainda: Não temais os que matam os corpos, não podem, contudo, matar a alma; temei antes aquele que pode matar na geena a alma e o corpo (Mt 10,28).

São Paulo também nos exorta a imitar em tudo o Senhor, se desejamos alcançar as suas recompensas. Diz ele: Somos filhos de Deus. E, se somos filhos, somos também herdeiros – herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo; se realmente sofremos com ele, é para sermos também glorificados com ele (Rm 8,17).

-- Das Cartas de São Cipriano, bispo e mártir (século III)

LinkWithin

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...