15 de nov de 2010

A importância do jejum

Seguindo a ordem dada pelo anjo, agora falaremos sobre o jejum. Nossa intenção é explicar a arte de viver justamente, porque nos preparará para morrermos justamente. Para jejuar de maneira correta, três coisas são suficientes, assim como escrevemos sobre a oração: a necessidade, os frutos e um método apropriado.
 
A necessidade de jejuar é dupla, derivada da lei humana e divina. Da divina, nos fala o profeta Joel: Por isso, agora ainda - oráculo do Senhor -, voltai a mim de todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos de luto (Jl 2,12). A mesma linguagem utiliza o profeta Jonas, que testemunha sobre os ninivitas, que para acalmar a ira de Deus, proclama um jejum; e, no entanto, na época não havia nada dito sobre jejum na lei. Da mesma forma aprendemos das palavras de Nosso Senhor: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á. (Mt 6,17-18).
Profeta Jonas, ícone da Igreja Ortodoxa
Russa, pintado no século XVI (Monastério
de Khizi, Karelia, Russia)
Podemos acrescentar as palavras de um dos santos padres, Santo Agostinho, que fala: "nos Evangelhos e epístolas, ao longo de todo Novo Testamento, eu vejo o jejum como um preceito. Mas em certos dias nos é dito para não jejuarmos; e os dias em que devemos jejuar não está definido pelo Senhor ou apóstolos." São Leão (Papa Leão I) diz em seu sermão sobre o jejum: "aquilo que era figura das coisas futuras foram deixadas, uma vez que o seu significado foi realizado. Mas a utilidade de jejuar não passou com o Novo Testamento; deve ser piedosamente observado, pois o jejum é sempre lucro para a alma e o corpo". As palavras "Adorarás o Senhor teu Deus e a ele só servirás" (Lc 4,8) foram dadas aos primeiros cristãos. São Leão não quer dizer que os cristãos devem jejuar da mesma maneira que os judeus estavam acostumados. Mas, que o preceito dado aos judeus deve ser observado também pelos cristãos seguindo a determinação dos pastores da igreja quanto ao tempo e maneira.
 
Os frutos e as vantagens do jejum são facilmente provadas. Primeiro, é útil porque ajuda a preparar a alma para a oração e contemplação das coisas divinas, com disse o anjo Rafael: a oração é boa com jejum. Moisés por quarenta dias preparou sua alma jejuando, antes de falar com Deus; Elias jejuou por quarenta dias, com o objetivo de estar pronto, tanto quanto permite as limitações humanas, para conversar com Deus; e Daniel, por um jejum de três semanas, estava preparado para receber as revelações de Deus. A Igreja definiu jejuns nas vigílias de grandes festividades, para que os cristãos estejam prontos ao celebrar as solenidades divinas. Os santos padres falam desta utilidade do jejum. Não posso deixar de citar São João Crisóstomo: o Jejum é um suporte para a alma, nos dá asas para subir aos céus e apreciar as mais altas contemplações.
 
Outra vantagem do jejum é que sacrifica a carne; e tal jejum é particularmente agradável a Deus, pois a Ele agrada quando crucificamos a carne, com seus vícios e concupicências, como São Paulo nos ensina na Epístola aos Gálatas e diz sobre si mesmo: Ao contrário, castigo o meu corpo e o mantenho em servidão, de medo de vir eu mesmo a ser excluído depois de eu ter pregado aos outros (1Co 9,27). De maneira semelhante falam Teófilo, São Ambrósio, São Cipriano, São Basílio, São Jerônimo e Santo Agostinho. E nos ofício das orações, a Igreja canta: "Carnis terat superbiam potûs cibique Parcitas." (Moderação na bebida e comida sacrificam o orgulho da carne).
 
Outra vantagem é que honramos Deus em nossos jejuns, porque quando jejuamos em sua intenção, nos o honramos. Assim fala o apóstolo Paulo na Epístola aos Romanos: Eu vos exorto, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, a oferecerdes vossos corpos em sacrifício vivo, santo, agradável a Deus: é este o vosso culto espiritual (Rm 12,1). Deste culto espiritual, São Lucas fala quando menciona a profetisa Ana: Depois de ter vivido sete anos com seu marido desde a sua virgindade, ficara viúva, e agora com oitenta e quatro anos não se apartava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações (Lc 2,37). O grande Concílio de Nicéia no V Canon, pede jejum durante a Quaresma, como um presente solene oferecido pela Igreja para Deus. Da mesma maneira escreve Tertuliano no seu livro "Ressureição da Carne", onde ele chama alimentos secos e já sem sabor tomados tardiamente como sendo sacrifícios agradáveis a Deus; e São Leão I, no segundo sermão sobre o jejum fala que para seguramente receber todo os frutos do jejum, o sacrifício de abstinência é mais valioso quando oferecido para Deus, aquele que nos dá tudo que precisamos.
 
A quarta vantagem do jejum é ser realizado como penitência por um pecado. Muitos exemplos na Sagradas Escrituras provam este ponto. Os ninivitas agradaram a Deus pelo jejum, como testifica Jonas. Os judeus fizeram o mesmo, jejuando com Samuel ganharam a vitória sobre os inimigos. O ímpio rei Acab, jejuando e vestindo roupa de sacos, satisfez parcialmente a Deus. Nos tempos de Judite e Ester, os judeus obtiveram misericórdia de Deus por nenhum outro sacrifício além de jejuns, choros e lutos.
 
Por fim, jejuar é meritório e muito poderoso para obter favores divinos. Ana, embora já com o ventre seco, mereceu por jejuns ter um filho. São Jerônimo interpreta assim esta passagem: ela chorou e não tomou alimentos e então Ana, por sua abstinência, mereceu dar à luz um filho. Sara, por um jejum de três dias, libertou-se de um demônio, como podemos ler no livro de Tobias. Mas também há uma passagem importante no Evangelho de São Mateus: Quando jejuares, perfuma a tua cabeça e lava o teu rosto. Assim, não parecerá aos homens que jejuas, mas somente a teu Pai que está presente ao oculto; e teu Pai, que vê num lugar oculto, recompensar-te-á (Mt 6,17-18).
 
As palavras "recompensar-te-á" indica que dará um prêmio; em oposição a outra palavra: Quando jejuardes, não tomeis um ar triste como os hipócritas, que mostram um semblante abatido para manifestar aos homens que jejuam. Em verdade eu vos digo: já receberam sua recompensa (Mt 6,16). Pois os hipócritas ao jejuarem, recebem seu prêmio, ou seja, a admiração humana; os justos também recebem seu prêmio, o reconhecimento divino.
 
-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)
-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português. O texto em inglês está disponível aqui.

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