30 de dez de 2010

A missão dos bispos em relação à Igreja de Roma

Se nos preocupamos em ser o que devemos ser e queremos conhecer o significado do nosso nome – bispos e pontífices – temos necessidade de considerar e imitar com solicitude as pegadas d’Aquele que, constituído por Deus sumo sacerdote eterno, Se ofereceu por nós ao Pai no altar da cruz. Do alto do Céu observa atentamente todas as nossas obras e intenções, para dar a cada um o que merecemos.

Fomos encarregados de representá-lo na terra, recebemos o glorioso nome de bispos, a honra de tal dignidade e colhemos ainda nesta terra o fruto de nossos trabalhos espirituais. Sucedemos aos Apóstolos e aos homens apostólicos na mais alta responsabilidade das Igrejas, para que por meio do nosso ministério seja destruído o poder do pecado e da morte e para que a casa de Cristo, edificada na fé e no progresso das virtudes, cresça até formar um templo santo no Senhor (Ef 2,21).
Santo Tomás Becket nasceu em Londres. Pertencia
ao clero e foi chanceler do Reino, sendo eleito
bispo em 1162. Defendeu corajosamente a Igreja
contra o rei Herique II. Foi exilado por seis anos. De
volta à Inglaterra, teve ainda muito que sofrer, até
ser assassinado por guardas do rei em 1170.

É certamente grande o número dos bispos. No dia da nossa consagração prometemos ser solícitos e diligentes no dever de ensinar e governar, assim o professamos cada dia com as nossas palavras; queira Deus que a fidelidade prometida se confirme pelo testemunho das obras. A messe é abundante; e para a ceifar e armazenar no celeiro do Senhor não bastaria nem um nem poucos bispos.

Quem se atreve a duvidar que a Igreja de Roma é a cabeça de todas as Igrejas e a fonte da doutrina católica? Quem ignora que as chaves do reino dos Céus foram entregues a Pedro? Porventura não é verdade que a estrutura de toda a Igreja se edifica sobre a fé e a doutrina de Pedro, até que cheguemos todos ao estado de homem perfeito, na unidade da fé e no conhecimento do Filho de Deus? (Ef 4,13)

É preciso que sejam muitos os que plantam, muitos os que regam, porque o progresso da pregação e o crescimento dos povos o exigem. Se o povo do Antigo Testamento, que tinha um só altar, precisava de muitos servidores, com maior razão agora, com a grande afluência dos gentios, – a quem, para suas oferendas não bastaria toda a madeira do Líbano, e para seus holocaustos não chegariam todos os animais do Líbano e nem sequer os animais de toda a Judeia, – serão necessários muitos ministros.

Seja quem for o que planta e o que rega, Deus não dá o crescimento senão àquele que planta e rega sobre a fé de Pedro e segue a sua doutrina.

É Pedro quem há de pronunciar-se sobre as causas mais graves, que devem ser examinadas pelo Pontífice Romano e pelos magistrados da santa mãe Igreja por ele designados, pois enquanto participam da sua solicitude exercem o poder que ele lhes confia.

Recordai, finalmente, como se salvaram os nossos pais, de que modo e em meio de quantas tribulações foi crescendo a Igreja; de quantas tempestades saiu incólume a barca de Pedro que tem Cristo como timoneiro; como os nossos antepassados receberam a sua recompensa e como a sua fé se mostrou mais brilhante no meio da tribulação.

É assim que caminha a multidão dos santos, para que seja sempre verdadeira esta palavra: Só recebe a coroa quem combate segundo as regras (2Tm 2,5).
 
-- Das Cartas de Santo Tomás Becket, bispo (século XII)

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