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13 de dez. de 2017

Perguntas sobre a Eucaristia - Alimento Sagrado

Ao longo da Bíblia, em diversas ocasiões, se apresenta um banquete proporcionado por Deus. Adão e Eva tem todas as frutos e alimentos do Paraíso ao seu dispor, o povo do deserto alimentou-se do maná por quarenta anos, Cristo multiplicou pães e peixes para alimentar uma multidão, e há a Última Ceia, na Páscoa Judaica, que Cristo compartilha com seus apóstolos. Em todas estas pcasoões, o alimento é útil para matar a fome corporal, mas também cria uma comunhão espiritual com Deus. Estas perguntas são exatamente sobre este Sacrum Convivium, o Banquete Sagrado. 

1. Que graças a Eucaristia confere àqueles que a recebem?

A Comunhão aumenta a nossa união com Cristo. Receber a Eucaristia na comunhão traz consigo, como fruto principal, a união íntima com Cristo Jesus. De fato, o Senhor diz: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em Mim e Eu nele» (Jo 6, 56). A vida em Cristo tem o seu fundamento no banquete eucarístico: «Assim como o Pai, que vive, Me enviou, e Eu vivo pelo Pai, também o que Me come viverá por Mim» (Jo 6, 57):

Quando, nas festas do Senhor, os fiéis recebem o corpo do Filho, proclamam uns aos outros a boa-nova: "Cristo ressuscitou!". Eis que também agora a vida e a ressurreição são conferidas àquele que recebe Cristo. Este alimento também conserva, aumenta e renova a vida da graça recebida no Batismo. A vida cristã precisa de ser alimentada pela Comunhão eucarística até à hora da morte, em que nos será dado como viático.

A Comunhão afasta-nos do pecado. O corpo de Cristo que recebemos na Comunhão é entregue por nós e o sangue que nós bebemos é derramado pela multidão, para remissão dos pecados. É por isso que a Eucaristia não pode unir-nos a Cristo sem nos purificar, ao mesmo tempo, dos pecados cometidos, e nos preservar dos pecados futuros:

A Eucaristia preserva-nos dos pecados mortais futuros. Quanto mais participarmos na vida de Cristo e progredirmos na sua amizade, mais difícil nos será romper com Ele pelo pecado mortal. 

A Eucaristia faz a Igreja. Os que recebem a Eucaristia ficam mais estreitamente unidos a Cristo. Por isso mesmo, Cristo une todos os fiéis num só corpo: a Igreja. No Batismo fomos chamados a formar um só corpo. A Eucaristia realiza esta vocação: "O cálice da bênção que abençoamos, não é comunhão com o sangue de Cristo? O pão que partimos não é comunhão com o corpo de Cristo? Uma vez que há um único pão, nós, embora muitos, somos um só corpo, porque participamos desse único pão" (1 Cor 10, 16-17).

* Resposta baseada no Catecismo da Igreja Católica (CIC) parágrafos 1391-1397.

2. O que o Profeta Isaías fala sobre a Celebração da Missa?

Em Isaías (2,1-5), o profeta prediz que todas as nações se reunirão no Monte Santo, onde a Palavra de Deus será ensinada e ouvida por todo se Deus governará acima muitos povos. Esta é uma descrição de uma Santa Missa nos dias atuais: a mesma Missa, o meso sacrifício eucarístico é oferecido em todas as nações, a mesma Palavra de Deus é proclamada diariamente na Ásia, África, Europa, Oceânia e Américas. Muitos fiéis se deixam governar mansamente por este justo juiz, Deus.

3. Como São Mateus foi chamado a ser apóstolo?

Em Mateus 9, 9-13, temos este relato: "Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, que estava sentado no posto do pagamento das taxas. Disse-lhe: Segue-me. O homem levantou-se e o seguiu. Como Jesus estivesse à mesa na casa desse homem, numerosos publicanos e pecadores vieram e sentaram-se com ele e seus discípulos. Vendo isto, os fariseus disseram aos discípulos: "Por que come vosso mestre com os publicanos e com os pecadores?" Jesus, ouvindo isto, respondeu-lhes: "Não são os que estão bem que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide e aprendei o que significam estas palavras: Eu quero a misericórdia e não o sacrifício (Os 6,6). Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores."

Daí se vê claramente que o São mateus foi chamado para participar deste Banquete Sagrado, não para ser discípulo, apóstolo ou pescador de homens, isto viria no futuro. Em primeiro lugar, foi chamado para se alimentar com Jesus. E não apenas Mateus, mas também outros pecadores, como nós, foram e são chamados a receber a Eucaristia. A Igreja é para os pecadores, não é um grupo selecionado de almas santas, como pensavam os fariseus.

4. Como Adão e Eva pecaram contra a Eucaristia?

Adão e Eva foram convidados a participar deste Banquete Sagrado que Deus lhes preparara, podiam comer todas as frutas e animais, tudo estava ao seu dispor exceto uma árvore. Imagine agora você numa grande festa, com os melhores pratos e bebidas sendo servidos, pois nesta posição estavam Adão e Eva. Mas eles insistiram em não participar do Banquete, preferiram outra comida, sobre a qual foram advertidos que estava contaminada. É como se você, em vez de continuar na festa, resolvesse sair do salão e se alimentar daquilo que já está sendo jogado no lixo. Assim, Adão e Eva romperam a aliança que Deus lhes propusera.

5. Qual a relação entre a Última Ceia e a Eucaristia?

Além da óbvia relação de que a Sagrada Eucaristia foi estabelecida durante a Última Ceia, quando Cristo santificou o pão e vinho, declarou serem seu corpo e sangue, repartiu-os com seus apóstolos e ordenaou que isto seja feito sempre em sua memória, há uma relação espiritual importante:

A Última Ceia foi uma Páscoa judaica, na qual todos os milagres realizados por Deus são relembrados pelo povo judeu. Toda Ceia judaica é uma grande ação de graças pela vida que tem. Nela canta-se o Dayenu, um canto onde recorda-se que Deus salvou seus primigênitos da morte, retirou o povo do Egito, abriu o mar para o povo passar e fugir dos soldados do Faraó, os alimentou com o maná e água no deserto,  deu os mandamentos no Monte Sinai, deu-lhes a Terra Prometida e construiu o Santo Templo em Jerusalém. Por tudo isto, deve-se dar graças ao Senhor. 

Nós cristãos, também devemos dar graças a Deus que nos deu seu único filho em favor de nossos pecados, nos conduz à vida eterna pela Ressuirreição, perdoa nossos pecados, nos alimenta com seu corpo e sangue a cada Eucaristia, nos dá a sua palavra para orientar a nossa vida, nos livra de cometermos pecados mortais, alimenta nossa alma. É esta ação de graças, tudo isto que temso para agradecer a Deus a cada Missa.

* autoria própria.







8 de jul. de 2015

Celebração da Eucaristia no século II

Dai graças assim, primeiro sobre o cálice: “Nós te damos graças, Pai nosso, pela santa videira de Davi, teu servo, que nos deste a conhecer por Jesus, teu servo; a ti a glória pelos séculos”.

            Em seguida, sobre o pão partido: “Nós te damos graças, ó Pai nosso, pela vida e ciência que nos deste a conhecer por Jesus, teu servo; a ti a glória pelos séculos. Do mesmo modo como este pão estava espalhado pelos montes e, colhido, tornou-se uma só coisa, assim, desde os confins da terra, se reúne tua Igreja em teu reino; porque te pertencem a glória e o poder, por Jesus Cristo, nos séculos”.

            Ninguém coma ou beba da vossa eucaristia que não tenha sido batizado em nome do Senhor. De fato, sobre isto disse ele: Não jogueis aos cães as coisas santas.

            Refeitos, dai graças assim: “Nós te damos graças, Pai santo, por teu santo nome, cujo trono puseste em nossos corações, e pela ciência, pela fé e imortalidade, que nos manifestaste por Jesus, teu servo; a ti a glória pelos séculos”. Senhor onipotente, tu criaste tudo por causa de teu nome, deste aos homens o alimento e a bebida, a fim de te agradecerem; a nós, porém, concedeste o alimento e a bebida espirituais e a vida eterna, por teu servo. Antes de tudo te damos graças por seres poderoso; a ti a glória pelos séculos.

            Lembra-te, Senhor, de tua Igreja para defendê-la de todo mal e torná-la perfeita em tua caridade; reúne-a, santificada, dos quatro ventos em teu reino que lhe preparaste; porque teu é o poder e a glória pelos séculos.

            Venha a graça e passe este mundo! Hosana ao Deus de Davi! Quem é santo, aproxime-se; se não o for, faça penitência; Maranatha, amém.

            Congregados no dia do Senhor, parti o pão e dai graças, depois de terdes confessado vossos pecados, a fim de ser puro vosso sacrifício. Todo aquele, porém, que tiver uma desavença com seu companheiro, não se junte a vós antes de se terem reconciliado, para que não seja profanado vosso sacrifício. Pois foi o Senhor que disse: Em todo lugar e em todo tempo oferecer-me-eis um sacrifício puro, porque sou o grande rei, diz o Senhor, e é admirável o meu nome entre as nações.

-- Do antigo opúsculo “Doutrina dos doze Apóstolos” (século II)

1 de jul. de 2014

O Corpo e Sangue de Cristo após a Missa

A orientação geral é consumir todo pão (hóstias) e vinho consagrados durante a Missa, mas usualmente algumas hóstias são mantidas no Tabernáculo. O Corpo de Cristo, sob a aparência de pão,  mantido, diz-se "reservado, após a Missa é chamado de Santíssimo Sacramento. Há várias razões para reservá-lo:

  • utilizá-lo para ministar Eucaristia aos doentes e outras pessoas justamente impossibilitadas de ir a Missa
  • poder ser exposto, de maneira digna, para adoração dos fiéis
  • em Procissões do Santíssimo Sacramento, mais comum no Dia de Corpus Christi, mas também possível em outras datas.
É fundamental ressaltar que o Pão e Vinho consagrados continuam a ser Corpo e Sangue de Cristo ao terminar a Missa, uma vez transformados não há como retornar à forma original. Uma vez que a substância foi alterada, a presença do Corpo e Sangue persiste enquanto as espécies eucarísticas existirem sob a forma de hóstia e vinho. Este é um antigo ensinamento da Igreja, já afirmado por São Cirilo de Alexandria na Carta ao Bispo de Arsinoe: Cristo não é alterado, nem seu santo corpo; o poder da consagração e a graça da salvação são perpétuas.

Desta forma, o Santíssimo Sacramento deve ser tratado com a maior reverência durante e após a Missa. Antes de tudo, deve ser guardado no Tabernáculo, mantido trancado para evitar qualquer forma de profanação. O Tabernáculo deve ser colocado num local adequado dentro da Igreja ou Capela, especificamente preparado para tal e adequado para permitir que fiéis entrem em oração/adoração. 

De acordo com a tradição da Igreja Romana, devemos fazer uma genuflexão ao estarmos em frente ao Santíssimo. Na Igreja Ortodoxa, a tradição é inclinar-se e fazer um Sinal da Cruz. Ambos gestos denotam reverência, respeito e adoração. 

Não é adequado organizar reuniões ou manter conversas casuais no mesmo ambiente do Santíssimo Sacramento. É importante que a Igreja mantenha um local adequado para tais ocasiões. 

-- De um texto da USCCB (United States Conference of Catholic Bishops) sobre a Eucaristia (2001)

-- Tradução própria

19 de jun. de 2014

Corpus Christi

Queridos irmãos e irmãs!

Na vigília da sua Paixão, durante a Ceia pascal, o Senhor tomou o pão nas suas mãos assim ouvimos há pouco no Evangelho e, tendo pronunciado a bênção, partiu-o e "entregou-o aos discípulos, dizendo: "Tomai: isto é o meu corpo". Depois, tomou o cálice, deu graças e entregou-lho. Todos beberam dele. E Ele disse-lhes: "Isto é o meu sangue da aliança, que vai ser derramado por todos"" (Mc 14, 22-24). Toda a história de Deus com os homens está resumida nestas palavras. Não foi só recolhido e interpretado no passado, mas antecipado também no futuro a vinda do Reino de Deus ao mundo. Aquilo que Jesus diz, não são simplesmente palavras. O que Jesus diz, é acontecimento, o acontecimento central da história do mundo e da nossa vida pessoal. Estas palavras são inexauríveis. Gostaria de meditar convosco neste momento apenas um aspecto.

Jesus, como sinal da sua presença, escolheu pão e vinho. Com cada um dos dois sinais doa-se totalmente, e não só uma parte de si. O Ressuscitado não está dividido. Ele é uma pessoa que, mediante os sinais, se aproxima de nós e se une a nós. Mas os sinais representam, a seu modo, cada aspecto particular do Seu mistério e, com o seu típico manifestar-se, querem falar-nos, para que aprendamos a compreender um pouco mais o mistério de Jesus Cristo.

Durante a procissão e a adoração nós olhamos para a Hóstia consagrada o tipo mais simples de pão e de alimento, feito apenas com farinha e água. Assim vemo-lo como o alimento dos pobres, aos quais em primeiro lugar o Senhor destinou a sua proximidade. A oração com a qual a Igreja durante a liturgia da Missa entrega este pão ao Senhor, qualifica-o como fruto da terra e do trabalho do homem. Nele está contida a fadiga humana, o trabalho quotidiano de quem cultiva a terra, semeia e recolhe e finalmente prepara o pão. Contudo o pão não é simples e somente o nosso produto, uma coisa feita por nós; é fruto da terra e portanto também dom. Porque o facto que a terra dá frutos, não é merecimento nosso; só o Criador lhe podia conferir a fertilidade. E agora podemos alargar um pouco mais esta oração da Igreja, dizendo: o pão é fruto da terra e, ao mesmo tempo, do céu.

Pressupõe a sinergia das forças da terra e dos dons do alto, isto é, do sol e da chuva. E também a água, da qual temos necessidade para preparar o pão, não a podemos produzir nós. Num período, no qual se fala da desertificação e sentimos sempre de novo denunciar o perigo de que homens e animais morram de sede nestas regiões sem água neste período damo-nos conta da grandeza do dom também da água e de quanto somos incapazes de o obter sozinhos. Então, olhando mais de perto, vemos este pequeno pedaço de Hóstia branca, este pão dos pobres, como uma síntese da criação. Céu e terra, assim como a actividade e o espírito do homem, concorrem.

A sinergia das forças que torna possível no nosso pobre planeta o mistério da vida e a existência do homem, vem ao nosso encontro em toda a sua maravilhosa grandeza. Assim começamos a compreender porque o Senhor escolhe este pedaço de pão como símbolo seu. A criação com todos os seus dons aspira para além de si mesma a algo de maior. Além da síntese das próprias forças, além da síntese também de natureza e de espírito que, de certa forma, sentimos no pedaço de pão, a criação inclina-se para a divinização, para as santas núpcias, para a unificação com o próprio Criador.

Mas ainda não explicamos profundamente a mensagem deste sinal do pão. O Senhor mencionou o seu mistério mais profundo no Domingo de Ramos, quando lhe foi feito o pedido da parte de alguns para se encontrarem com Ele. Na sua resposta a esta pergunta encontra-se a frase: "Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, lançado à terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (Jo 12, 24). No pão feito de grãos moídos está encerrado o mistério da Paixão.

A farinha, o grão moído, pressupõe morrer e ressuscitar do grão. Ao ser moído e cozido ele tem em si mais uma vez o mesmo mistério da Paixão. Só através do morrer consegue ressuscitar, dá o fruto e a vida nova. As culturas do Mediterrâneo, nos séculos antes de Cristo, intuíram profundamente este mistério. Com base na experiência deste morrer e ressurgir conceberam mitos de divindades que, morrendo e ressuscitando, davam vida nova.

O céu da natureza parecia-lhes como que uma promessa divina no meio das trevas do sofrimento e da morte que nos são impostos. Nestes mitos a alma dos homens, de certa forma, inclinam-se para aquele Deus que se fez homem, se humilhou até à morte na cruz e assim abriu a todos nós a porta da vida. No pão e no seu transformar-se, os homens descobriram como que uma expectativa da natureza, como que uma promessa da natureza de que isto deveria ter existido: o Deus que morre neste mundo conduz-nos à vida.

O que nos mitos era expectativa e que no mesmo grão está escondido como sinal da esperança da criação isto aconteceu realmente em Cristo. Através do seu sofrer e morrer livremente, Ele tornou-se pão para todos nós, e com isto esperança viva e fidedigna: Ele acompanha-nos em todos os nossos sofrimentos até à morte. Os caminhos que Ele percorre connosco e através dos quais nos conduz à vida são caminhos de esperança.

Quando nós olhamos para a Hóstia consagrada em adoração, o sinal da criação fala-nos. Então encontramos a grandeza do seu dom; mas encontramos também a Paixão, a Cruz de Jesus e a sua ressurreição. Mediante este olhar em adoração, Ele atrai-nos para si, para dentro do seu mistério, por meio do qual nos quer transformar como transformou a Hóstia.

A Igreja primitiva encontrou ainda no pão outro simbolismo. A Doutrina dos doze Apóstolos, um livro escrito por volta do ano 100, contém entre as suas orações a afirmação: "Assim como este pão partido estava disperso pelas colinas e ao ser recolhido se tornou uma só coisa, também a tua Igreja dos confins da terra seja reunida no teu Reino" (IX, 4). O pão feito por muitos grãos encerra também um acontecimento de união: o tornar-se pão dos grãos moídos é um processo de unificação. Nós próprios, sendo muitos, devemos tornar-nos um só pão, um só corpo, diz-nos São Paulo (cf. 1Cor 10, 17). Assim o sinal do pão torna-se ao mesmo tempo esperança e tarefa.

De maneira análoga nos fala também o sinal do vinho. Mas, enquanto o pão nos remete para a quotidianidade, para a simplicidade e para a peregrinação, o vinho expressa o requinte da criação: a festa da alegria que Deus nos quer oferecer no fim dos tempos e que já antecipa agora sempre de novo levemente mediante este sinal. Mas o vinho também fala da Paixão: a videira deve ser podada repetidamente para assim ser purificada; as uvas devem amadurecer sob o sol e sob a chuva e deve ser esmagada: só através desta paixão amadurece um vinho precioso.

Na festa de Corpus Christi olhamos sobretudo para o sinal do pão. Ele recorda-nos também a peregrinação de Israel durante os quarenta anos no deserto. A Hóstia é o nosso maná com o qual o Senhor nos alimenta é verdadeiramente o pão do céu, mediante o qual Ele se doa a si mesmo. Na procissão nós seguimos este sinal e assim seguimos a Ele próprio.

E imploramo-l'O: guia-nos pelos caminhos desta nossa história! Mostra sempre de novo à Igreja e aos seus Pastores o caminho justo! Olha para a humanidade que sofre, que vagueia insegura entre tantas interrogações; olha para a fome física e psíquica que a atormenta! Concede aos homens pão para o corpo e para a alma! Dá-lhe trabalho! Concede-lhe luz! Concede-te a ti mesmo a ela!

Purifica e santifica todos nós! Faz-nos compreender que só mediante a participação na tua Paixão, mediante o "sim" à cruz, à renúncia, às purificações que nos impões, a nossa vida pode amadurecer e alcançar o seu verdadeiro cumprimento. Reúne-nos de todos os confins da terra. Une a tua Igreja, une a humanidade dilacerada! Concede-nos a tua salvação! Amém!

-- Homilia do Papa Bento XVI na Solenidade de Corpus Christi - 2006

26 de jan. de 2014

O pão e vinho da Eucaristia são meros símbolos?

Em geral chamamos de "símbolo" um objeto que contém outro significado além de si mesmo, muitas vezes uma idéia mais geral ou abstrata. Por exemplo, uma Ferrari é um símbolo de riqueza. O pão e vinho transformados são verdadeiramente Corpo e Sangue de Cristo, não meros símbolos. Como escreveu São João Damasceno: O pão e vinho não representam o corpo e sangue de Cristo. De modo nenhum! Pois são o atual corpo do Senhor, como Ele mesmo disse: "Este é o meu corpo"; não uma representação do meu corpo, mas "meu corpo", não uma representação do meu sangue, mas "meu sangue". 

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que o Corpo e Sangue de Cristo veêm até nós em forma sacramental. Em outras palavras, Cristo está presente na aparência de pão e vinho, não na forma de corpo e sangue humanos. 

Não podemos presumir que compreendemos todos motivos por trás das ações de Deus, mas parece ser evidente que Deus utiliza o simbolismo de nos alimentarmo-nos de pão e vinho para iluminar significados mais profundos da Comunhão com Cristo Jesus. Por exemplo, assim como o alimento nutri o corpo, a Eucaristia é alimento espiritual para nossa alma. Compartilhar uma refeição estabelece um certo grau de comunhão entre as pessoas que dela participam; na Eucaristia, o povo de Deus entra em comunhão não apenas entre si, mas também com Pai, Filho e Espírito Santo. Ainda, como explica São Paulo, um único pão compartilhado na refeição eucarística é uma indicação da unidade da Igreja, um único corpo de Cristo (Cor 10,17). Em outro exemplo, os grãos individuais do trigo e as pequenas uvas devem ser colhidas, amassadas e moídas até se integrarem em um único pão ou vinho; lembrando assim os sofrimentos pelos quais o corpo humano de Cristo suportou, um sofrimento que deve ser aceito também pelos seus seguidores. 

Portanto, é claro pelas palavras de Cristo e ensinamento dos apóstolos que o pão e vinho são seu Corpo e Sangue, mas o gesto da Eucaristia comporta muitos simbolismos que a inteligência é capaz de compreender. 

-- De um texto da USCCB (United States Conference of Catholic Bishops) sobre a Eucaristia (2001)

-- Tradução própria

25 de jan. de 2014

Como o pão e o vinho se transformam em Corpo e Sangue de Cristo?

Na celebração da Eucaristia, Cristo glorificado torna-se presente na aparência de pão e vinho de uma maneira única e adequado para a Eucaristia. Na linguagem teológica, durante o ato de consagração a "substância" do pão e vinho são transformados pelo poder do Espírito Santo na "substância" do Corpo e Sangue de Cristo. Ao mesmo tempo, a "aparência" de pão e vinho persistem. "Substância" e "aparência", em termos filosóficos, como adotados por teólogos medievais como São Tomas de Aquino, tem significados específicos para explicar a fé. A "aparência" refere-se aos atributos físicos, aquilo que pode ser visto, tocado, provado e medido; a "substância" descreve as realidades não visíveis, aquelas compreendidas pela fé, não por experiências físicas.  Durante a Eucaristia ocorre a "transubstanciação", uma modificação da "substância" do pão e vinho, enquanto no nível físico a "aparência" permanece. De acordo com a fé católica, podemos falar em presença real de Cristo na Eucaristia porque a transubstanciação ocorre (Catecismo, 1376).

Este é um grande misterio da fé - podemos comprendê-lo através dos ensinamentoos de Cristo nas Escrituras e tradição da Igreja. Todas as mudanças que ocorrem no mundo envolvem características físicas, sendo de algum modo perceptíveis. Algumas vezes a aparência se altera, mas a substância permanece a mesma. Por exemplo, a água que se transforma em gelo ou a criança que gradualmente se transforma em adulto - é a mesma água, a mesma pessoa - a mesma substância com diferentes aparências.  Outras vezes, a substância e aparência mudam. Por exemplo, quando uma pessooa come uma fruta, esta é incorporada ao corpo da pessoa - já não é mais "fruta", de algum modo se transformou no corpo da pessoa, mudou sua aparência e substância, as características de "fruta" se perderam. 

A presença de Cristo na Eucaristia é única pois o pão e vinho consagrados são realmente Corpo e Sangue de Cristo, embora não tenham as características físicas de um corpo humano. Esta presença real é completa, Cristo está totalmente ali - corpo, alma e divindade - o pão e vinho já não podem conter o Corpo e Sangue glorificados. Como observa São Tomás de Aquino, Cristo não diz "este pão representa meu corpo", mas "este é o meu corpo"

Estando presente na aparência de corpo e sangue, Cristo se dá para nós em uma forma apropriada para pessoas comerem e beberem. Também, esta presença real corresponde à uma virtude da fé, pois não pode percebida de outra forma que não seja pela fé. Isto afirma São Boaventura: "não há dificuldades sobre Cristo estar presente no sacramento como um sinal; a grande dificuldade está no fato que Ele está presente realmente no Sacramento, assim como está presente nos céus. Acreditar nisto é especialmente meritório."  

-- De um texto da USCCB (United States Conference of Catholic Bishops) sobre a Eucaristia (2001)

-- Tradução própria

6 de jun. de 2012

Homília de Corpus Christi


Procissão de Corpus Christi, por Carl Emil Doepler
1. A instituição da Eucaristia, sacrifício de Melquisedec e a multiplicação dos pães:  é este o sugestivo tríptico que nos é apresentado pela liturgia da Palavra na solenidade de Corpus Domini.

No centro, a instituição da Eucaristia. Na primeira Carta aos Coríntios, que há pouco escutámos, São Paulo evocou com palavras específicas este evento, acrescentando:  Sempre que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciais a morte do Senhor até que Ele venha (1 Cor11, 26). "Sempre", portanto também nesta tarde, no coração do Congresso Eucarístico Internacional, nós, ao celebrarmos a Eucaristia, anunciamos a morte redentora de Cristo e reavivamos no nosso coração a esperança do encontro definitivo com Ele.

Conscientes disto, após a consagração, como que respondendo ao convite do Apóstolo, proclamamos: Anunciamos a vossa morte, Senhor, proclamamos a vossa ressurreição, enquanto aguardamos a vossa vinda.

2. O olhar alarga-se aos outros elementos do tríptico bíblico, posto hoje diante da nossa meditação:  o sacrifício de Melquisedec e a multiplicação dos pães.

A primeira narração, brevíssima mas de grande relevo, é tirada do Livro do Génesis e foi proclamada na primeira Leitura. Ela fala-nos de Melquisedec, "rei de Salém" e "sacerdote do Deus altíssimo", o qual abençoou Abrão e "ofereceu pão e vinho" (Gn 14, 18). A esta passagem faz referência o Salmo 109, que atribui ao Rei-Messias um singular carácter sacerdotal por direta investidura de Deus:  "Tu és sacerdote para sempre / segundo a ordem de Melquisedec" (v. 4).

Na vigília da sua morte na cruz, Cristo instituiu no Cenáculo a Eucaristia. Também Ele ofereceu pão e vinho, que "nas suas mãos santas e veneráveis" (Cânone Romano) se tornaram o seu Corpo e o seu Sangue, oferecidos em sacrifício. Deste modo, Ele cumpria a profecia da antiga aliança, ligada à oferenda sacrifical de Melquisedec. Precisamente por isso recorda a Carta aos Hebreus "Ele... tornou-Se para todos os que Lhe obedecem fonte de salvação eterna, tendo sido proclamado por Deus Sumo Sacerdote, segundo a ordem de Melquisedec" (5, 7-10).

No Cenáculo é antecipado o sacrifício do Gólgota:  a morte na cruz do Verbo Encarnado, Cordeiro imolado por nós, Cordeiro que tira os pecados do mundo. Na dor de Cristo é remida a dor de todo o homem; no seu sofrimento é o sofrimento humano que adquire um valor novo; na sua morte é vencida para sempre a nossa morte.

3. Fixemos agora o olhar na narração evangélica da multiplicação dos pães que completa o tríptico eucarístico, hoje proposto à nossa atenção. No contexto litúrgico do Corpus Domini, esta perícope do evangelista Lucas ajuda-nos a compreender melhor o dom e o mistério da Eucaristia.

Jesus tomou os cinco pães e os dois peixes, elevou os olhos ao céu, abençoou-os, partiu-os e deu-os aos Apóstolos, para que os distribuíssem ao povo (cf. Lc 9, 16). Todos observa São Lucas comeram e ficaram saciados e ainda se encheram dozes cestos de fragmentos que sobraram (cf.ibid., v. 17).

Trata-se dum prodígio surpreendente, que constitui como que o início de um longo processo histórico:  o constante multiplicar-se na Igreja do Pão da vida nova para os homens de toda a raça e cultura. Este ministério sacramental foi confiado aos Apóstolos e aos seus sucessores. E eles, fiéis à recomendação do divino Mestre, não cessam de partir e de distribuir o Pão eucarístico de geração em geração.

O Povo de Deus recebe-o com devota participação. Deste Pão de vida, remédio de imortalidade, nutriram-se inúmeros santos e mártires, haurindo dele a força para resistir também a duras e prolongadas tribulações. Eles acreditaram  nas  palavras  que  um  dia  Jesus pronunciou em Cafarnaum:  "Eu sou o pão  vivo,  descido  do  céu.  Se  alguém comer deste pão, viverá eternamente" (Jo 6, 51).

Cristo quis unir a sua presença salvífica no mundo e na história ao sacramento da Eucaristia.

4. "Eu sou o pão vivo, descido do céu!".

Depois de termos contemplado o extraordinário "tríptico" eucarístico, constituído pelas Leituras hodiernas, fixemos agora os olhos do espírito directamente no mistério. Jesus define-Se "o Pão da vida", e acrescenta:  "O pão que hei-de dar é a minha carne pela vida do mundo" (Jo 6, 51).

Mistério da nossa salvação! Cristo único Senhor ontem, hoje e sempre quis unir a sua presença salvífica no mundo e na história ao sacramento da Eucaristia. Quis fazer-Se pão partido, para que todo o homem pudesse nutrir-se da sua própria vida, mediante a participação no Sacramento do seu Corpo e do seu Sangue.

Assim como os discípulos, que escutaram admirados o seu discurso em Cafarnaum, também nós percebemos que esta linguagem não é fácil de ser entendida (cf. Jo 6, 60). Poderíamos às vezes ser tentados a dar-lhe uma interpretação relativa. Mas isto levar-nos-ia para longe de Cristo, como aconteceu para aqueles discípulos que "a partir de então já não andavam com Ele" (Jo 6, 66).

Nós queremos ficar com Cristo e, por isso, dizemos-lhe com Pedro:  "Senhor, para quem havemos nós de ir? Tu tens palavras de vida eterna" (Jo 6, 68). Com a mesma convicção de Pedro, ajoelhamo-nos hoje diante do Sacramento do altar e renovamos a nossa profissão de fé na presença real de Cristo.

Este é o significado da celebração, que o Congresso Eucarístico Internacional, no ano do Grande Jubileu, evidencia com força particular. É este também o sentido da solene procissão que, como todos os anos, dentro de pouco se deslocará desta praça até à Basílica de Santa Maria Maior.

Com humilde ufania acompanharemos o Sacramento eucarístico ao longo das ruas da cidade, ao lado dos edifícios onde o povo vive, se alegra, sofre; no meio dos negócios e escritórios nos quais se desenvolve a actividade quotidiana. Levá-lo-emos ao contacto com a nossa vida insidiada por mil perigos, oprimida por preocupações e sofrimentos, submetida ao lento mas inexorável desgaste do tempo.

Levá-lo-emos, fazendo chegar-lhe a homenagem dos nossos cânticos e súplicas:  "Bone Pastor, panis vere... Bom Pastor, verdadeiro pão Dir-Lhe-emos com confiança ó Jesus, tende piedade de nós / nutri-nos e defendei-nos / levai-nos aos bens eternos.
Vós que tudo sabeis e podeis / que nos nutris sobre a terra / conduzi os vossos irmãos / à mesa do céu / na alegria dos vossos santos".


Amém!

-- Homília na Solenidade de Corpus Christi, Papa João Paulo II, em 22 de Junho de 2000.

13 de abr. de 2012

O pão do céu e a bebida da salvação



Na noite em que foi entregue, nosso Senhor Jesus Cristo tomou o pão e, depois de dar 
graças, partiu-o e deu-o a seus discípulos, dizendo: “Tomai e comei: isto é o meu corpo”. Em seguida, tomando o cálice, deu graças e disse: “Tomai e bebei: isto é o meu sangue” (cf. Mt 26,26-27; 1Cor 11,23-24). Tendo, portanto, pronunciado e dito sobre o pão: Isto é o meu corpo, quem ousará duvidar? E tendo afirmado e dito: Isto é o meu sangue, quem se atreverá ainda a duvidar e dizer que não é o seu sangue?

Recebamos, pois, com toda a convicção, o Corpo e o Sangue de Cristo. Porque sob a forma de pão é o corpo que te é dado, e sob a forma de vinho, é o sangue que te é entregue. Assim, ao receberes o corpo e o sangue de Cristo,te transformas com ele num só corpo e num só sangue. Deste modo, tendo assimilado em nossos membros o seu corpo e o seu sangue, tornamo-nos portadores de Cristo; tornamo-nos, como diz São Pedro, participantes da natureza divina (2Pd 1,4).

Outrora, falando aos judeus, dizia Cristo: Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós (cf. Jo 6,53). Como eles não compreenderam o sentido espiritual do que lhes era dito, afastaram-se escandalizados, julgando estarem sendo induzidos por Jesus a comer carne humana.

Na Antiga Aliança havia os pães da propiciação; por pertencerem ao Velho Testamento, já não mais existem. Na Nova Aliança, porém, trata-se de um pão do céu e de um cálice da salvação que santificam a alma e o corpo. Assim como o pão é próprio para a vida do corpo, também o Verbo é próprio para a vida da alma.

Por isso, não consideres o pão e o vinho eucarísticos como se fossem elementos simples e vulgares. São realmente o corpo e o sangue de Cristo, segundo a afirmativa do Senhor. Muito embora os sentidos te sugiram outra coisa, tema firme certeza do que a fé te ensina.

Se foste bem instruído pela doutrina da fé, acreditas firmemente que aquilo que parece pão, embora seja como tal sensível ao paladar, não é pão, mas é o corpo de Cristo. E aquilo que parece vinho, muito embora tenha esse sabor, não é vinho, mas é o sangue de Cristo. Antigamente, bem a propósito, já dizia Davi nos salmos: O pão revigora o coração do homem, e o óleo ilumina a sua face (Sl 103,15). Fortifica, pois, teu coração, recebendo esse pão espiritual e faze brilhar a alegria no rosto de tua alma.

Com o rosto iluminado por uma consciência pura, contemplando como num espelho a glória do Senhor, possas caminhar de claridade em claridade, em Cristo Jesus, nosso Senhor, a quem sejam dadas honra, poder e glória pelos séculos sem fim. Amém.

-- Das Catequeses de Jerusalem (século IV)
-- A imagem é o quadro Última Ceia, de Tintoretto pintado em 1592-94.

21 de nov. de 2011

Presença real de Cristo na Eucaristia


1. Este ensinamento do bem-aventurado Paulo foi estabelecido como suficiente para vos assegurar acerca dos divinos mistérios, dos quais tendo sido julgados dignos, vos tornastes concorpóreos e consangüíneos com Cristo. O próprio Paulo proclama precisamente: Na noite em que foi entregue, Nosso Senhor Jesus Cristo, tomando o pão e depois de ter dado graças, partiu-o e o deu a seus discípulos, dizendo: Tomai, comei, isto é o meu corpo. E tomando o cálice e tendo dado graças, disse: Tomai, bebei, isto é o meu sangue (Mt 26,26).

2. Se ele em pessoa declarou e disse do pão: Isto é o meu corpo, quem se atreveria a duvidar doravante? E quando ele afirma categoricamente e diz: Isto é o meu sangue, quem duvidaria dizendo não ser seu sangue? Outrora, em Caná da Galiléia, por própria autoridade, transformou a água em vinho. Não será digno de fé quando transforma o vinho em sangue? Convidado às bodas corporais, realizou, este milagre maravilhoso. Aos companheiros do esposo não se concederá, com muito mais razão, a alegria de desfrutar do seu corpo e sangue?

3. Portanto, com toda certeza recebemo-los como corpo e sangue de Cristo. Em forma de pão te é dado o corpo, e em forma de vinho o sangue, para que te tornes, tomando o corpo e o sangue de Cristo, concorpóreo e consangüíneo com Cristo. Assim nos tornamos portadores de Cristo (cristóforos), sendo nossos membros penetrados por seu corpo e sangue. Desse modo, como diz o bem-aventurado Pedro, «tornamo-nos participes da natureza divina».

4. Falando, outrora, aos judeus Cristo dizia: Se não comerdes minha carne e não beberdes meu sangue, não tereis a vida em vós (Jo 6,53). Como não entendessem espiritualmente o que era dito, escandalizados, se retiraram, imaginando que o Salvador os incitava a comer carne humana.

5. Também no Antigo Testamento havia pães de proposição. Mas esses pães, por pertencerem à antiga aliança, tiveram fim. Na nova aliança o pão celeste e o cálice de salvação santificam a alma e o corpo. Pois, como o pão se adequa ao corpo, assim o Verbo se harmoniza com a alma.

6. Não consideres, portanto, o pão e o vinho como simples elementos. São, conforme a afirmação do Mestre, corpo e sangue. Se os sentidos isto te sugerem, a fé te confirma. Não julgues o que se propõe segundo o gosto, mas pela fé tem firme certeza de que foste julgado digno do corpo e sangue de Cristo.

7. O bem-aventurado Davi te anuncia a força [deste mistério] dizendo: Preparaste para mim a mesa à vista de meus inimigos (Sl 22, 5). Com isso ele quer dizer: Antes de tua vinda os demônios preparavam para os homens uma mesa contaminada e manchada, cheia de poder diabólico. Mas depois de tua vinda, ó Senhor, tu preparaste diante de mim uma mesa. Quando o homem diz a Deus: Tu preparaste diante de mim uma mesa , que outra coisa quer ele insinuar, senão a mística e espiritual mesa, que Deus nos preparou em oposição ao adversário, isto é, em oposição ao demônio? Sim, é isso mesmo. Pois a primeira mesa tinha comunhão com os demônios, essa, ao contrário, comunhão com Deus. Ungiste de óleo minha cabeça (Sl 23, 5). Com o óleo te ungiu a cabeça, sobre a fronte, pelo sinal que tens de Deus, a fim de que te tornes assinalado santo de Deus. E teu cálice inebria-me como o melhor (Sl 23,5). Vês aqui mencionado o cálice que Jesus tomou em suas mãos e sobre o qual rendeu graças dizendo: Este é o meu sangue, que é derramado por todos, em remissão dos pecados (Mc 14,24-25).

8. Por isso também Salomão, aludindo a essa graça, disse: Vem, come teu pão na alegria (Ecle 9,7), o pão espiritual. Vem designa o apelo salutar e que faz bem-aventurado. E bebe, de bom coração, teu vinho (Ecle 9,7), o vinho espiritual. Derrama o óleo sobre tua cabeça (vês aqui mais uma alusão à unção mística?) Traja sempre vestes brancas, já que Deus sempre favorece as tuas obras (Ecle 9,8). Pois agora Deus se agradou de tuas obras. Antes de te aproximares da graça eram tuas obras vaidade das vaidades. Todavia agora, tendo despido as velhas vestes e revestido espiritualmente a veste branca, é necessário estar sempre vestido de branco. Não dizemos isso absolutamente porque é preciso estar trajado de branco, mas porque deves, em realidade, revestir a veste branca, brilhante e espiritual, a fim de dizeres com o bem-aventurado Isaías: Com grande alegria me rejubilei no Senhor, porque me fez revestir a vestimenta da salvação e me cobriu com a túnica da alegria (Is 61,10).

9. Tendo aprendido e estando seguro de que o que parece pão não é pão, ainda que pareça pelo gosto, mas o corpo de Cristo, e o que parece vinho não é vinho, mesmo que o gosto o queira, mas o sangue de Cristo  e porque sobre isto dizia vibrando Davi: O pão fortalece o coração do homem, para que no óleo se regozije o semblante (Sl 104,15) fortalece o teu coração, tomando este pão como espiritual e regozije-se o semblante de tua alma. Oxalá, tendo a face descoberta, em consciência pura, contempleis a glória do Senhor, para ir de glória em glória, em Cristo Jesus Senhor Nosso, a quem a glória pelos séculos dos séculos. Amém.

-- Quarta Catequese Mistagógica aos Recém-iluminados, de São Cirilo de Jerusalém (século IV)
Demais Catequeses:





8 de mai. de 2011

A Celebração da Eucaristia

A ninguém é permitido participar da Eucaristia, a não ser àquele que, admitindo como verdadeiros os nossos ensinamentos e tendo sido purificado pelo batismo para a remissão dos pecados e a regeneração, leve uma vida como Cristo ensinou.

Pois não é pão ou vinho comum o que recebemos. Com efeito, do mesmo modo como Jesus Cristo, nosso salvador, se fez homem pela Palavra de Deus e assumiu a carne e o sangue para a nossa salvação, também nos foi ensinado que o alimento sobre o qual foi pronunciada a ação de graças com as mesmas palavras de Cristo e, depois de transformado, nutre nossa carne e nosso sangue, é a própria carne e o sangue de Jesus que se encarnou.

Os apóstolos, em suas memórias que chamamos evangelhos, nos transmitiram a recomendação que Jesus lhes fizera. Tendo ele tomado o pão e dado graças, disse: Fazei isto em memória de mim. Isto é o meu corpo (Lc 22,19; Mc 14,22); e tomando igualmente o cálice e dando graças, disse: Este é o meu sangue (Mc 14,24), e os deu somente a eles. Desde então, nunca mais deixamos de recordar estas coisas entre nós. Como que possuímos, socorremos a todos os necessitados e estamos sempre unidos uns aos outros. E por todas as coisas com que nos alimentamos, bendizemos o Criador do universo, por seu Filho Jesus Cristo e pelo Espírito Santo.

No chamado dia do Sol, reúnem-se em um mesmo lugar todos os que moram nas cidades ou nos campos. Lêem-se as memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas, na medida em que o tempo permite.

Terminada a leitura, aquele que preside toma a palavra para aconselhar e exortar os presentes à imitação de tão sublimes ensinamentos.

Depois, levantamo-nos todos juntos e elevamos as nossas preces; como já dissemos acima, ao acabarmos de rezar, apresentam-se pão, vinho e água.Então o que preside eleva ao céu, com todo o seu fervor, preces e ações de graças, e o povo aclama: Amém. Em seguida, faz-se entre os presentes a distribuição e a partilha dos alimentos que foram eucaristizados, que são também enviados aos ausentes por meio dos diáconos.

Os que possuem muitos bens dão livremente o que lhes agrada. O que se recolhe é colocado à disposição do que preside. Este socorre os órfãos, as viúvas e os que, por doença ou qualquer outro motivo se acham em dificuldade, bem como os prisioneiros e os hóspedes que chegam de viagem; numa palavra, ele assume o encargo de todos os necessitados.

Reunimo-nos todos no dia do Sol, não só porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, criou o mundo, mas também porque neste mesmo dia Jesus Cristo, nosso salvador, ressuscitou dos mortos. Crucificaram-no na véspera do dia de Saturno; e no dia seguinte a este, ou seja, no dia do Sol,aparecendo aos seus apóstolos e discípulos, ensinou-lhes tudo o que também nós vos propusemos como digno de consideração.

-- Da Primeira Apologia a favor dos cristãos, de São Justino, mártir (século I)





6 de mai. de 2010

A Eucaristia - corpo e sangue

Um só morreu por todos. É ele mesmo que em todas as igrejas do mundo, pelo mistério do pão e do vinho nos alimenta, vivifica e santifica. Esta é a carne e este é o sangue do Cordeiro. O pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo (Jo 6,51). Também o seu sangue está expresso sob a espécie do vinho. Jesus mesmo afirma: Eu sou a videira verdadeira (Jo 15,1), manifestando com toda clareza que é seu sangue todo vinho oferecido como sacramento da paixão. O grande patriarca Jacó já profetizara acerca de Cristo, ao dizer: Lavará no vinho a sua túnica e no sangue da uva o seu manto (Gn 49,11).

O Criador e Senhor da natureza, que produz o pão da terra, também transforma o pão no seu próprio Corpo (porque pode fazê-lo e assim havia prometido). Do mesmo modo, aquele que transformou a água em vinho, transforma o vinho no seu sangue.

O que recebes é o corpo daquele pão do céu, e o sangue é daquela videira sagrada. Porque, ao dar o pão e vinho consagrados a seus discípulos, disse-lhes: Isto é o meu corpo. Isto é o meu sangue (Mt 26, 26.28). Acreditemos portanto, naquele em quem pusemos nossa confiança: a Verdade não sabe mentir.

-- Dos Tratados de São Gaudêncio de Bréscia, bispo (Século IV)

22 de abr. de 2010

A Eucaristia e o Corpo de Cristo

Nós somos membros do corpo de Cristo e nos alimentamos das coisas criadas que ele próprio nos dá, fazendo nascer o sol e cair a chuva. Por isso, o Senhor declara que o cálice, fruto da criação, é o seu sangue, que fortalece nosso sangue; e o pão, fruto também da criação, é o seu corpo, que fortalece nosso corpo.

Portanto, quando o cálice de vinho misturado com água e o pão natural recebem a palavra de Deus, transformam-se na eucaristia do sangue e corpo de Cristo. São eles que alimentam e revigoram a substância de nossa carne. Como é possível negar que a carne é capaz de receber o dom de Deus, que é a vida eterna, essa carne que se alimenta com o sangue e o corpo de Cristo e se torna membro do seu corpo?

O apóstolo diz na Carta aos Efésios: Nós somos membros do seu corpo (Ef 5, 30), da sua carne e seus ossos (cf Gn 2, 23); não é de um homem espiritual e invisível que ele fala - o espírito não tem carne, nem ossos (cf Lc 24, 39) - mas sim do organismo verdadeiramente humano, que consta de carne, nervos e ossos, que se nutre com o cálice do seu sangue e se robustece com o pão que é seu corpo.

-- do Tratado contra as heresias, de Santo Irineu, bispo (século II)

15 de abr. de 2010

A Eucaristia é um presente

O sacrifício instituído por Cristo é verdadeiramente um presente concedido como herança: é o dom que ele nos deixou como garantia da sua presença, na noite em que foi entregue para ser crucificado. É o alimento que nos sustenta nos caminhos desta vida até o dia em que, partindo deste mundo, formos ao encontro do Senhor. Pois ele mesmo disse: Se não comerdes a minha carne e não beberdes o meu sangue, não tereis a vida em vós (Jo 6,53).

Com razão se considera o pão como imagem inteligível do Corpo de Cristo. De fato, assim como para fazer o pão é necessário reunir muitos grãos de trigo, transformá-los em farinha, amassar em farinha com água e cozê-la ao fogo, assim também o Corpo de Cristo reúne a multidão de todo o gênero humano e o leva à perfeita unidade de um só corpo por meio do fogo do Espírito Santo.

Do mesmo modo, o vinho do seu sangue, proveniente de muitos cachos, quer dizer, feito das uvas da videira por ele plantada, espremido no lagar da cruz, fermenta por si mesmo em amplos recipientes que são os corações dos fiéis. Todos vós que fostes libertados do Egito e do poder do Faraó, isto é, do demônio, recebei com santa avidez de coração este sacrifício pascal de salvação. E assim, sejamos santificados até o mais íntimo de nosso ser por Jesus Cristo nosso Senhor, que cremos estar presente em seus sacramentos. Seu poder inestimável permanece por todos os séculos.

-- adaptado Dos Tratados de São Gaudêncio, século V

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