10 de mar de 2012

Família e imigração ilegal

Vamos então para um dos raros textos pessoais que publico aqui. Para quem não sabe, moro no estado de Nova  Iorque (EUA) há pouco mais de três anos. Igreja Católica, pelo menos nesta região, significa um grande número de hispânicos e, em menor número, brasileiros. Os hispânicos vêm de diferentes países, principalmente México, República Dominicana e Porto Rico. Mas há originários de toda América Central e do Sul. No geral, países bem mais pobres que os EUA, com sérios problemas de desemprego e violência.

Santa Francesca Cabrini, uma imigrante que
teve dificuldades para obter o visto de
entrada nos EUA.
Aqui tenho participado de vários encontros, diversas paróquias, em que as pessoas colocam um pouco da sua experiência frente aos acontecimentos da vida. E neste fim de semana soube de mais uma história um tanto trágica envolvendo imigrantes e ilegalidade. Um casal com quatro filhos morava numa vila da América Central, numa daquelas localidades onde há apenas duas ou três famílias e todos são meio que aparentados. Decidiram então vir para os EUA. O casal veio com o filho de 15 anos e o bebê de ano e meio. Deixaram duas meninas morando na casa e sob cuidados da parentela/vizinhança. Infelizmente, as meninas viraram moças, atraíram a atenção de alguns homens que invadiram a casa, violentaram-nas e mataram-nas. Os parentes só perceberam dois dias após.

Esta é a história trágica desta família, mas ela reflete uma realidade comum: apenas uma parte da família vem para os EUA com o objetivo de organizar a vida e, depois, os demais virem. Por exemplo, o marido vem na frente para ir trabalhando e ganhando dinheiro. A esposa permance no país de origem. Separados milhares de quilômetros, a carência afetiva e falta de companheirismo tornam o casal presa fácil do adultério. Com a distância, haja santidade. E a família assim se desfaz.

Outro arranjo é deixarem os filhos com parentes, enquanto os pais migram para os EUA. Por melhores que sejam os avós, tios ou amigos, estes filhos sentem-se abandonados e traídos pelos pais. Se os pais adotivos tem outros filhos, há muitas queixas de tratamento diferenciado. E na falta dos pais, a gang do bairro, a turma do bar ou qualquer outro que se interesse por eles pode levá-los a uma vida dificil. E como podem imaginar, se impor limites aos próprios filhos já é dificil, em geral não há energia para educar estes abandonados. Mesmo quando a família é reunida novamente, com todos vindo para os EUA, os sentimentos, culpas e distanciamento deixam suas marcas permanentes.

Até aqui, não me referi ainda a situação legal. Porto-riquenhos, por exemplo, não necessitam de vistos para viajar e trabalhar nos EUA e estes desajustes familiares também ocorrem entre eles. Mas se a migração for ilegal, as circunstâncias podem tornar tudo ainda pior.

Entrar pelo México, guiado por membros de gangues e caminhando pelo deserto esta cada vez mais perigoso. As gangues perceberam que podem usar as jovens como prostitutas e os moços como soldados na sua guerra. E, na hipótese de tudo dar certo, o transporte custa entre 10 a 15 mil doláres por pessoa. Se as patrulhas americanas prenderem a pessoa, ela pode passar meses na prisão até os arranjos diplomáticos para a deportação serem completados. Se tudo der certo, o imigrante passará a viver uma vida sob constante perigo, medo da polícia e demais autoridades.

Um problema é que como ilegal, fica mais difícil inclusive sair dos EUA. Visitar parentes no país de origem é arriscadíssimo, pois há que passar novamente a fronteira de alguma forma. Então, não basta pagar a passagem de avião. A viagem passa a ser totalmente incerta e muito mais cara. O que fazer então numa emergência, como falecimento de um filho, pai ou mãe? Arriscar tudo e ir ao enterro? Ou permanecer por aqui, sem a devida despedida? E se o pai muito adoentado pede para o filho ir visitá-lo pela última vez? Não ir e guardar uam culpa para  o restante da vida? E de novo entra a questão da família, por que ir apenas um, digamos o pai, e os filhos ficarem é perigoso por que há uma séria possibilidade de não retornar, pelo menos com brevidade.

Coloco tudo isto porque destas dúvidas aproveita-se o demônio para realmente destruir as pessoas, terminar com casamentos, fazer as pessoas caregarem culpas que influenciam a sua vida e dos filhos, como diz a Bíblia, por sete gerações. 

Primeiro, afirmo que a família deve permanecer unida e reunida. Planejar uma separação de meses é como um suicídio matrimonial, abrir portas para tentações variadas e arriscar demais. O casal deve, dentro do possível, viajar juntos, e óbvio, com todos os filhos. Quanto a isto não importa se a situação é legal ou não.

Já viver como clandestino não me parece cristão pois há a constante necessidade de mentir ou omitir. Além disso, a obrigação do visto não é uma lei que atenta contra a vida ou família, que por consciência o cristão não deva obedecer. Dar dinheiro para gangues ajudarem na travessia da fronteira é também alimentar vícios de muitos, dos membros das gangues e outros para quem eles venderão drogas e armas. Tambem é arriscar, frente aos fatos inesperados da vida, não cumprir o dever cristão de, por exemplo, estar ao lado de pais doentes. Portanto, a ilegalidade pode ser motivo de muitos pecados, devendo ser evitada. Se a pessoa não pode ou deseja continuar vivendo em uma cidade, Deus criou um mundo bastante grande, cheio de alternativas interessantes.

E quanto aos casal lá do início, cujas filhas foram mortas este mês, a situação é ainda mais complicada por que a mãe está presa aguardando ser extradida; e o pai tem que permanecer nos EUA pois entrou com pedido de asilo para toda família. Rezemos por eles e pelos advogados da Arquidiocese que estão tentando uma solução razoável.  


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