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6 de jun. de 2022

Maria, Mãe da Igreja

 

Considerando as estreitas relações de Maria com a Igreja, para a glória da Santa Virgem e para nosso conforto, proclamamos Maria Santíssima Mãe da Igreja, isto é, de todo o povo de Deus, tanto dos fiéis como dos Pastores, que lhe chamam Mãe amorosíssima; e queremos que, com este título suavíssimo, a Mãe de Deus seja doravante ainda mais honrada e invocada por todo o povo cristão.

Trata-se de um título que não é novo para a piedade dos cristãos; pois é justamente com este nome de Mãe, de preferência a qualquer outro, que os fiéis e a Igreja toda costumam dirigir-se a Maria. Na verdade, ele pertence à genuína substância da devoção a Maria, achando sua justificação na própria dignidade da Mãe do Verbo Encarnado.

Efetivamente, assim como a Maternidade divina é o fundamento da especial relação de Maria com Cristo e da sua presença na economia da salvação operada por Cristo Jesus, assim também essa Maternidade constitui o fundamento principal das relações de Maria com a Igreja, sendo ela a Mãe daquele que, desde o primeiro instante da sua Encarnação, no seu seio virginal, uniu a si, como Cabeça, o seu Corpo Místico, que é a Igreja. Maria, pois, como Mãe de Cristo, também é Mãe dos fiéis e de todos os Pastores, isto é, da Igreja.

Portanto, é com ânimo cheio de confiança e de amor filial que elevamos o olhar para ela, não obstante a nossa indignidade e fraqueza. Ela, que em Jesus nos deu a fonte da graça, não deixará de socorrer a Igreja com seu auxílio materno, sobretudo neste tempo em que a Esposa de Cristo se empenha, com novo alento, na sua missão salvadora.

A nossa confiança é ainda mais reavivada e corroborada quando consideramos os laços estreitíssimos que prendem esta nossa Mãe celeste ao gênero humano. Embora na riqueza das admiráveis prerrogativas com que Deus a adornou para fazê-la digna Mãe do Verbo Encarnado, ela está, todavia, pertíssimo de nós. Filha de Adão, como nós, e por isto nossa irmã por laços de natureza, ela é, entretanto, a criatura preservada do pecado original em vista dos méritos de Cristo, e que, aos privilégios obtidos junta a virtude pessoal de uma fé total e exemplar, merecendo o elogio evangélico de: Bem-aventurada és tu, porque acreditaste (Lc 1,45).

Na sua vida terrena, ela realizou a perfeita figura do discípulo de Cristo, espelho de todas as virtudes, e encarnou as bem-aventuranças evangélicas proclamadas por Cristo Jesus. Por isso, toda a Igreja, na sua incomparável variedade de vida e de obras, encontra nela a forma mais autêntica de perfeita imitação de Cristo.

--  Do Discurso de São Paulo VI, papa, no encerramento da terceira sessão do Concílio Vaticano II (21 de novembro de 1964)

1 de jan. de 2019

Santo Papa Paulo VI, o papa que moldou a Igreja atual

Diácono Montini no dia de sua ordenação.
Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini nasceu em 26 de Setembro de 1897, seu pai era advogado, jornalista e membro do parlamento italiano, sua mãe vinha de uma família de nobres. Estudou em uma escola mantida pelos jesuítas, depois passou para a escola pública, onde completou o ensino médio. Entrou direto no Seminário em 1916, com 18 anos, e foi ordenado padre em 29 de Maio de 1920. No mesmo ano defendeu sua tese e obteve um doutorado em Direito Canônico, isto com apenas 22 anos. 

Atividades no Vaticano

Em 1920, começou a trabalhar na Secretaria de Estado do Vaticano e em 1923 foi nomeado Núncio Apostólico para a Polônia. Ao ver a política do país e o nacionalismo fanático da população, escreveu avisando que a paz em que estavam vivendo era apenas uma situação transitória entre duas guerras. De fato, a I Grande Guerra já havia sido concluída e a II Grande Guerra começaria justamente pelo ataque a Polônia. 

Retornou a Roma em 1931 como responsável pelo treinamento de novos diplomatas, em 1937 o então Secretário de Estado Cardeal Pacelli o nomeou para o segundo posto na secretaria. Em 1939, quando Pacelli foi eleito Papa Pio XII, manteve a posição, agora trabalhando junto com o novo Secretário de Estado Luigi Maglione. Devido a sua posição, reunia-se com o Papa praticamente todos os dias, até 1954. 

Durante a guerra coordenou os esforços de ajuda aos perseguidos. Apenas na residência de verão dos Papas, Castel Gandolfo, 15 mil pessoas foram abrigadas, eram soldados aliados que haviam fugido dos campos de prisioneiros, judeus ou comunistas; e depois da liberação de Roma, também soldados alemães que haviam auxiliado a Igreja. Giovanni Montini também era responsável pela troca de mensagens secretas entre as igrejas e conventos onde haviam outros refugiados, em seis anos de guerra, foram 10 milhões de mensagens e pedidos de ajuda.

Arcebispo de Milão

Em 1954 foi nomeado Arcebispo de Milão e Secretário da Conferência dos Bispos Italianos, o Papa Pio XII, que já estava adoentado, anuncio da sua cama a nomeação de Montini como um presente para o povo de Milão. Como bispo, ele reorganizou as estruturas de assistência aos pobres da cidade. Uma das suas iniciativas mais importantes foi o programa "Mil vozes", quando todos 500 padres, seminaristas e muitos leigos da diocese foram chamados a anunciar o Evangelho onde o povo se encontrasse: fábricas, casa, escolas, parques, hospitais, hotéis, etc... 

No consistório que elegeu o Papa João XXIII, mesmo não sendo cardeal, Arcebispo Montini foi votado para suceder Pio XII. Quando o Concílio Vaticano II foi anunciado, ele foi indicado como membro da Comissão de Preparação e, a pedido do Papa, passou a morar em Roma. Além do concílio, foi enviado pelo Papa para representá-lo em diversos países, na África, Brasil e Estados Unidos.  

Papa PauloVI

Em 21 de Junho de 1963 foi escolhido como o novo Papa, assumindo o nome de Paulo VI. No seu diário escreveu: "Antes eu já era solitário, mas agora minha solidão é completa". Sua primeira decisão fundamental foi concluir o Concílio Vaticano II, emfrentando grandes controvérsias dentro e fora da Igreja. Apesar de tudo, em 8 de Dezembro de 1965 o Concílio foi concluído e seus textos publicados. A parte mais visível é a autorização para celebrar missas na língua de cada país, mas há outros aspectos fundamentais para a Igreja, como o chamado a santidade para todos membros da Igreja, a aproximação com outras igrejas cristãs e reorganização da Curia Romana.  

Além disso, escreveu encíclicas que são decisivas para a Igreja atual: Mysterium Fidei, onde reafirma a presença de Cristo na Eucaristia; Populorum Progressio, sobre a necessidade de salários justos e boas condições de trabalhos para todos; Sacerdotalis Caelibatus, sobre a prática de celibato por padres na igreja ocidental; e, acima de todas, Humanae Vitae, sobre o verdadeiro amor conjugal, que inclui uma discussão sobre práticas de contracepção:

O amor conjugal exprime a sua verdadeira natureza e nobreza, quando se considera na sua fonte suprema, Deus que é Amor (1Jo 4, 8), "o Pai, do qual toda a paternidade nos céus e na terra toma o nome". (Ef 3, 15)

O matrimônio não é, portanto, fruto do acaso, ou produto de forças naturais inconscientes: é uma instituição sapiente do Criador, para realizar na humanidade o seu desígnio de amor. Mediante a doação pessoal recíproca, que lhes é própria e exclusiva, os esposos tendem para a comunhão dos seus seres, em vista de um aperfeiçoamento mútuo pessoal, para colaborarem com Deus na geração e educação de novas vidas.

Depois, para os batizados, o matrimônio reveste a dignidade de sinal sacramental da graça, enquanto representa a união de Cristo com a Igreja. 

Ainda como Papa, elegeu como cardeais seus três sucessores: Alberto Luciano (João Paulo I), Karol Wojtyla (João Paulo II) e Joseph Ratzinger (Bento XVI). 

Morte e canonização

Em 14 de Julho de 1978, o Papa Paulo VI estava bastante adoentado e foi para Castel Gandolfo repoousar. Tinha problemas de respiração e necessitava de oxigênio. No domingo 6 de Agosto, participou da Missa da Missa do seu leito. ao receber a Eucaristia, sofreu um ataque cardíaco, mas resistiu por mais três horas, falecendo às 21:41. Por seu pedido, foi enterrado na terra, na cripta do Vaticano e não em uma tomba ornamentada.  


Dois milagres de cura foram reconhecidos pelo Vaticano, ambos de crianças ainda no ventre das suas mães, que nasceram saudáveis após seus pais orarem pela intercessão do santo. Sua canonização ocorreu em 14 de Outubro de 2018, tendo sido celebrada pelo Papa Francisco. 

-- autoria própria

30 de dez. de 2016

As lições de Nazaré

Nazaré é a escola onde se começa a compreender a vida de Jesus: a escola do Evangelho.

Aqui se aprende a olhar, a escutar, a meditar e penetrar o significado, tão profundo e tão misterioso, dessa manifestação tão simples, tão humilde e tão bela, do Filho de Deus. Talvez se aprenda até, insensivelmente, a imitá-lo.

Papa Paulo VI
Aqui se aprende o método que nos permitirá compreender quem é o Cristo. Aqui se descobre a necessidade de observar o quadro de sua permanência entre nós: os lugares, os tempos, os costumes, a linguagem, as práticas religiosas, tudo de que Jesus se serviu para revelar-se ao mundo. Aqui tudo fala, tudo tem um sentido.

Aqui, nesta escola, compreende-se a necessidade de uma disciplina espiritual para quem quer seguir o ensinamento do Evangelho e ser discípulo do Cristo.

Ó como gostaríamos de voltar à infância e seguir essa humilde e sublime escola de Nazaré! Como gostaríamos, junto a Maria, de recomeçar a adquirir a verdadeira ciência e a elevada sabedoria das verdades divinas.

Mas estamos apenas de passagem. Temos de abandonar este desejo de continuar aqui o estudo, nunca terminado, do conhecimento do Evangelho. Não partiremos, porém, antes de colher às pressas e quase furtivamente algumas breves lições de Nazaré.

Primeiro, uma lição de silêncio. Que renasça em nós a estima pelo silêncio, essa admirável e indispensável condição do espírito; em nós, assediados por tantos clamores, ruídos e gritos em nossa vida moderna barulhenta e hipersensibilizada. O silêncio de Nazaré ensina-nos o recolhimento, a interioridade, a disposição para escutar as boas inspirações e as palavras dos verdadeiros mestres. Ensina-nos a necessidade e o valor das preparações, do estudo, da meditação, da vida pessoal e interior, da oração que só Deus vê no segredo.

Uma lição de vida familiar. Que Nazaré nos ensine o que é a família, sua comunhão de amor, sua beleza simples e austera, seu caráter sagrado e inviolável; aprendamos de Nazaré o quanto a formação que recebemos é doce e insubstituível: aprendamos qual é sua função primária no plano social.

Uma lição de trabalho. Ó Nazaré, ó casa do “filho do carpinteiro”! É aqui que gostaríamos de compreender e celebrar a lei, severa e redentora, do trabalho humano; aqui, restabelecer a consciência da nobreza do trabalho; aqui, lembrar que o trabalho não pode ser um fim em si mesmo, mas que sua liberdade e nobreza resultam, mais que de seu valor econômico, dos valores que constituem o seu fim. Finalmente, como gostaríamos de saudar aqui todos os trabalhadores do mundo inteiro e mostrar-lhes seu grande modelo, seu divino irmão, o profeta de todas as causas justas, o Cristo nosso Senhor.

-- Das Alocuções do papa Paulo VI (Alocução pronunciada em Nazaré a 5 de janeiro de 1964)

14 de jun. de 2014

Pregamos a Cristo até os confins da terra

Ai de mim se não evangelizar! Por ele, pelo próprio Cristo, para tanto fui enviado. Eu sou apóstolo e também testemunha. Quanto mais distante o país, quanto mais difícil a missão, com tanto mais veemência a caridade me aguilhoa. É meu dever pregar seu nome: Jesus é Cristo, o Filho do Deus vivo. É aquele que nos revelou o Deus invisível, ele, o primogênito de toda criatura, ele, em quem tudo existe. É o mestre redentor dos homens: por nós nasceu, morreu e ressuscitou.
Visita do Papa Paulo VI a uma favela nas Filipinas, em 1970.

É ele o centro da história e do universo. Ele nos conhece e ama, o companheiro e o amigo em nossa vida, o homem das dores e da esperança. Ele é quem de novo virá, para ser o nosso juiz, mas também – como confiamos – a eterna plenitude da vida e nossa felicidade.

Jamais cessarei de falar sobre ele. Ele é a luz, é a verdade,mais ainda, é o caminho, a verdade e a vida. É o pão e a fonte de água viva, saciando a nossa fome e a sede. É o pastor, o guia, o modelo, a nossa força, o nosso irmão. Assim como nós, mais até do que nós, ele foi pequenino, pobre, humilhado, trabalhador, oprimido, sofredor. Em nosso favor falou, fez milagres, fundou novo reino onde os pobres são felizes, onde a paz é a origem da vida em comum, onde são exaltados e consolados os de coração puro e os que choram, onde são saciados os que têm fome de justiça, onde podem os pecadores encontrar perdão e onde todos se reconhecem irmãos.

Vede, este é o Cristo Jesus, de quem já ouvistes falar, em quem muitíssimos de vós já confiam, pois sois cristãos. A vós, portanto, ó cristãos, repito seu nome, a todos o anuncio: Cristo Jesus é o princípio e o fim, o alfa e o ômega, o rei do mundo novo, a misteriosa e suprema razão da história humana e de nosso destino. É ele o mediador e como que a ponte entre a terra e o céu. É ele, o Filho do homem, maior e mais perfeito do que todos por ser o eterno, o infinito, Filho de Deus e Filho de Maria, bendita entre as mulheres, sua mãe segundo a carne, nossa mãe pela comunhão com o Espírito do Corpo místico.

Jesus Cristo, não vos esqueçais, é a nossa inalterável pregação. Queremos ouvir seu nome até os confins da terra e por todos os séculos dos séculos!

-- Papa Paulo VI, homília pronunciada em uma missa em Manila, Filipinas, em 29 de Novembro de 1970.

2 de jan. de 2014

A Sagrada Eucaristia é um mistério de fé

Primeiro que tudo, queremos recordar uma verdade, que muito bem conheceis e é absolutamente necessária no combate a qualquer veneno de racionalismo. Verdade, que muitos mártires selaram com o próprio sangue, e célebres Padres e Doutores da Igreja professaram e ensinaram constantemente. É a seguinte: a Eucaristia é um Mistério altíssimo, é, propriamente, o Mistério da fé, como se exprime a Sagrada Liturgia: "Nele só, estão concentradas, com singular riqueza e variedade de milagres, todas as realidades sobrenaturais", como muito bem diz o nosso predecessor Leão XIII de feliz memória.[4]

São João Crisóstomo, que, como sabeis, tratou com tanta elevação de linguagem e tão iluminada piedade o Mistério Eucarístico, exprimiu-se nos seguintes termos precisos, ao ensinar aos seus féis esta verdade: "Inclinemo-nos sempre diante de Deus sem o contradizermos, embora o que Ele diz possa parecer contrário à nossa razão e à nossa inteligência; sobre a nossa razão e a nossa inteligência, prevaleça a sua palavra. Assim nos comportemos também diante do Mistério (Eucarístico), não considerando só o que nos pode vir dos nossos sentidos, mas conservando-nos fiéis às suas palavras. Uma palavra sua não pode enganar".[5]

Idênticas afirmações encontramos freqüentemente nos Doutores Escolásticos. Estar presente neste Sacramento o verdadeiro Corpo e o verdadeiro Sangue de Cristo, "não é coisa que se possa descobrir com os sentidos, diz Santo Tomás, mas só com a fé, baseada na autoridade de Deus. Por isso, comentando a passagem de São Lucas, 22,19: Isto é o meu corpo que será entregue por vós", diz São Cirilo: "Não ponhas em dúvida se é ou não verdade, mas aceita com fé as palavras do Salvador; sendo Ele a Verdade, não mente.[6]

Repetindo a expressão do mesmo Doutor Angélico, assim canta o povo cristão: Enganam-se em ti a vista, o tato e o gosto. Com segurança só no ouvido cremos: creio tudo o que disse o Filho de Deus. Nada é mais verdadeiro do que esta palavra de verdade.

Mais ainda: é São Boaventura quem afirma: Estar Cristo no Sacramento como num sinal, nenhuma dificuldade tem; estar no Sacramento verdadeiramente, como no céu, tem a maior das dificuldades: é pois sumamente meritório acreditá-lo.[7]

O mesmo dá a entender o Evangelho ao contar que muitos discípulos de Cristo, ao ouvirem falar de comer carne e beber sangue, voltaram as costas e abandonaram o Senhor, dizendo: Duras são estas palavras! Quem pode escutá-las? Perguntando então Jesus se também os Doze se queriam retirar, Pedro afirmou, com decisão e firmeza, a fé sua e a dos Apóstolos, com esta resposta admirável: Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna [8]

Ao magistério da Igreja confiou o Redentor divino a palavra de Deus tanto escrita como transmitida oralmente, para que a guardasse e interpretasse. É esse magistério que devemos seguir, como estrela orientadora, na investigação desse Mistério, convencidos de que "embora não esteja ao alcance da razão e embora se não explique com palavras, continua sempre a ser verdade aquilo que há muito se proclama com a fé católica genuína e é objeto de crença em toda a Igreja". [9]

Ainda não é tudo. Salva a integridade da fé, é necessário salvar também a maneira exata de falar, não aconteça que, usando nós palavras ao acaso, entrem no nosso espírito, o que Deus não permita, idéias falsas como expressão da crença nos mais altos mistérios. Vem a propósito a advertência de Santo Agostinho sobre o modo diverso como falam os filósofos e os cristãos: "Os filósofos, escreve o Santo, falam livremente, sem medo de ferir os ouvidos das pessoas religiosas em coisas muito difíceis de entender. Nós, porém, devemos falar segundo uma regra determinada, para evitar que a liberdade de linguagem venha a causar maneiras de pensar ímpias, mesmo quanto ao sentido das palavras".[10]

Donde se conclui que se deve observar religiosamente a regra de falar, que a Igreja, durante longos séculos de trabalho, assistida pelo Espírito Santo, estabeleceu e foi confirmando com a autoridade dos Concílios, regra que, muitas vezes, se veio a tornar sinal e bandeira da ortodoxia da fé. Ninguém presuma mudá-la, a seu arbítrio ou a pretexto de nova ciência. Quem há de tolerar que fórmulas dogmáticas, usadas pelos Concílios Ecumênicos a propósito dos mistérios da Santíssima Trindade e da Encarnação, sejam acusadas de inadaptação à mentalidade dos nossos contemporâneos, e outras lhes sejam temerariamente substituídas? Do mesmo modo, não se pode tolerar quem pretenda expungir, a seu talante, as fórmulas usadas pelo Concílio Tridentino ao propor a fé no Mistério Eucarístico. Essas fórmulas, como as outras que a Igreja usa para enunciar os dogmas de fé, exprimem conceitos que não estão ligados a uma forma de cultura, a determinada fase do progresso científico, a uma ou outra escola teológica, mas apresentam aquilo que o espírito humano, na sua experiência universal e necessária, atinge da realidade, exprimindo-o em termos apropriados e sempre os mesmos, recebidos da linguagem ou vulgar ou erudita. São, portanto, fórmulas inteligíveis em todos os tempos e lugares.

Pode haver vantagem em explicar essas fórmulas com maior clareza e em palavras mais acessíveis, nunca, porém, em sentido diverso daquele em que foram usadas. Progrida a inteligência da fé, contanto que se mantenha a verdade imutável da fé. O Concílio Vaticano I ensina que nos dogmas "se deve conservar perpetuamente aquele sentido que, duma vez para sempre, declarou a Santa Madre Igreja, e que nunca é lícito afastarmo-nos desse sentido, pretextando e invocando maior penetração".

-- Carta Encíclica Mysterium Fidei, Papa Paulo VI, em 3 de Setembro de 1965

16 de ago. de 2013

Visão cristã do desenvolvimento econômico

Papa Paulo VI
O desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento econômico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo, como justa e vincadamente sublinhou um eminente especialista: "não aceitamos que o econômico se separe do humano; nem o desenvolvimento, das civilizações em que ele se incluiu. O que conta para nós, é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira".

Nos desígnios de Deus, cada homem é chamado a desenvolver-se, porque toda a vida é vocação. E dado a todos, em germe, desde o nascimento, um conjunto de aptidões e de qualidades para as fazer render: desenvolvê-las será fruto da educação recebida do meio ambiente e do esforço pessoal, e permitirá a cada um orientar-se para o destino que lhe propõe o Criador. Dotado de inteligência e de liberdade, é cada um responsável tanto pelo seu crescimento como pela sua salvação.

Mas cada homem é membro da sociedade: pertence à humanidade inteira. Não é apenas tal ou tal homem; são todos os homens, que são chamados a este pleno desenvolvimento. As civilizações nascem, crescem e morrem. Assim como as vagas na enchente da maré avançam sobre a praia, cada uma um pouco mais que a antecedente, assim a humanidade avança no caminho da história. 

Este crescimento pessoal e comunitário ficaria comprometido se se alterasse a verdadeira escala dos valores. É legítimo o desejo do necessário, e o trabalho para o alcançar é um dever: se alguém não quer trabalhar, que também não coma (2Ts 3,10). Mas a aquisição dos bens temporais pode levar à cobiça, ao desejo de ter sempre mais e à tentação de aumentar o poder. A avareza pessoal, familiar e nacional, pode afetar tanto os mais desprovidos como os mais ricos e suscitar em uns e outros um materialismo que sufoca o espírito.

Tanto para os povos como para as pessoas, possuir mais não é o fim último. Qualquer crescimento é ambivalente. Embora necessário para permitir ao homem ser mais homem, torna-o contudo prisioneiro no momento em que se transforma no bem supremo que impede de ver mais além. Então os corações se endurecem e os espíritos fecham-se, os homens já não se reúnem pela amizade mas pelo interesse, que bem depressa os opõe e os desune. A busca exclusiva do ter, forma então um obstáculo ao crescimento do ser e opõe-se à sua verdadeira grandeza: tanto para as nações como para as pessoas, a avareza é a forma mais evidente do subdesenvolvimento moral.

Enchei a terra e dominai-a (Gn 1, 28): logo desde a primeira página, a Bíblia ensina-nos que toda a criação é para o homem, com a condição de ele aplicar o seu esforço inteligente em valorizá-la e, pelo seu trabalho, por assim dizer, completá-la em seu serviço. Se a terra é feita para fornecer a cada um os meios de subsistência e os instrumentos do progresso, todo o homem tem direito, portanto, de nela encontrar o que lhe é necessário.

Se alguém, gozando dos bens deste mundo, vir o seu irmão em necessidade e lhe fechar as entranhas, como permanece nele a caridade de Deus? (Jo 3,17) Sabe-se com que insistência os Padres da Igreja determinaram qual deve ser a atitude daqueles que possuem em relação aos que estão em necessidade: "não dás da tua fortuna, assim afirma santo Ambrósio, ao seres generoso para com o pobre, tu dás daquilo que lhe pertence. Porque aquilo que te atribuis a ti, foi dado em comum para uso de todos. A terra foi dada a todos e não apenas aos ricos". 

-- Papa Paulo VI, Encíclica Populorum Progressio, 26 de Março de 1967

13 de mai. de 2013

Homília de Pentecostes e ordenação sacerdotal


Mas uma outra circunstância, verdadeiramente pentecostal, enche de realidade e de esplendor esta celebração festiva: a ordenação sacerdotal destes Diáconos. A vós, caríssimos eleitos, dirige-se agora a Nossa saudação.

Teríamos tanto para vos dizer, mas o momento presente não permite que façamos um longo discurso. Além disso, não queremos introduzir novos pensamentos aos já tão numerosos, que enchem os vossos espíritos e que vós também reunistes para este momento solene. Vamos tentar resumir numa palavra tudo aquilo que se pode dizer e pensar sobre o acontecimento de que sois protagonistas e se está para realizar. E a palavra é: transmissão. Transmissão de um poder divino, de uma capacidade prodigiosa de acção, que, de per si, compete unicamente a Cristo. Traditio potestatis, colação de um poder. Imaginai que Jesus Cristo, mediante a imposição das Nossas mãos e as palavras significativas, que conferem ao gesto a virtude sacramental, desce do alto e vos infunde o seu Espírito, o Espírito Santo, vivificador e poderoso, que vem até vós, não só como nos outros sacramentos, para habitar em vós, mas também para vos tornar capazes de realizar determinadas ações, próprias do Sacerdócio de Cristo, para vos fazer Seus ministros eficazes, para vos constituir veículos da Palavra e da Graça, modificando assim as vossas pessoas, de modo que elas possam, não só representar Cristo, mas também, de certo modo, agir como Ele, por meio de uma delegação que imprime um "caráter" indelével nos vossos espíritos e que vos torna, cada um de vós, como alter Christus, semelhantes a Ele.

Este prodígio, recordai-o sempre, realiza-se em vós; não para vós, mas sim para os outros, para a Igreja, que é o mesmo que dizer, para o mundo que devemos salvar. O vosso poder é como a função de um órgão especial, em benefício de todo um corpo. Tornais-vos instrumentos, ministros e servos ao serviço dos irmãos.

Compreendeis, sem dúvida, as relações que nascem desta eleição das vossas pessoas. São relações com Deus, com Cristo, com a Igreja e com a humanidade. Compreendeis que deveres de oração, de caridade e de santidade brotam da vossa ordenação sacerdotal. Compreendeis que consciência deveis formar continuamente em vós mesmos, para vos manterdes à altura da missão que recebestes. Compreendeis, por fim, com que mentalidade espiritual e humana devereis encarar o mundo, com que sentimentos e com que virtudes deveis exercer o vosso ministério, com que dedicação e com que coragem deveis consumar a vossa vida no espírito de sacrifício, unidos ao sacrifício de Cristo.

Sabeis tudo isto, mas não deveis deixar de refletir sobre estas realidades, durante toda a duração — e desejamos que seja longa e serena — da vossa peregrinação terrena. Nunca deveis temer, filhos caríssimos. Nunca deveis duvidar do vosso sacerdócio. Nunca vos deveis isolar do vosso Bispo e da função que ele exerce na Igreja. Nunca o deveis trair. E nada mais vos dizemos por agora. Vamos apenas repetir por vós a oração que fizemos noutra ocasião, pelos sacerdotes que então ordenámos.

Hoje, vamos rezar por vós deste modo:

Vinde, Espírito Santo, e dai a estes ministros, dispensadores dos mistérios de Deus, um coração novo, que reavive neles toda a formação e a preparação que receberam, que advirta, qual surpreendente revelação, o sacramento recebido, e que corresponda sempre, com novo vigor, como hoje, aos incessantes deveres do seu ministério ao serviço do vosso Corpo Eucarístico e do vosso Corpo Místico: um coração novo, sempre jovem e alegre.

Vinde, Espírito Santo, e dai a estes ministros, discípulos e apóstolos de Cristo Senhor, um coração puro, habituado a amá-1'O só a Ele, que é Deus convosco e com o Pai, com a plenitude, a alegria e a profundidade que só Ele sabe infundir, quando é o objecto supremo e total do amor de um homem que vive da Vossa graça; um coração puro que não conheça o mal, senão para o definir, para o combater e fugir dele; um coração puro, como o de uma criança, capaz de se entusiasmar e trepidar.

Vinde, Espírito Santo, e dai a estes ministros do Povo de Deus um coração grande, aberto à Vossa silenciosa e potente palavra inspiradora e fechado a todas as ambições mesquinhas, alheio a qualquer desprezível competição humana, e todo compenetrado do sentido da Santa Igreja; um coração grande e ávido de se assemelhar ao coração do Senhor Jesus e desejoso de encerrar dentro de si as proporções da Igreja e as dimensões do mundo; grande e forte para amar a todos, para servir a todos e para sofrer por todos; grande e forte para superar todas as tentações e provações, todo o tédio, todo o cansaço, toda a desilusão e toda a ofensa; um coração grande, forte e constante, quando for necessário, até ao sacrifício, um coração cuja felicidade é palpitar com o coração de Cristo e cumprir humilde, fiel e virilmente a vontade divina.

E esta a Nossa oração, que hoje elevamos a Deus por vós. Ela estende-se em bênção a toda a assembleia presente, aos vossos companheiros, aos vossos mestres e, especialmente, aos vossos parentes.

Chegou o momento da ação: nela está o Pentecostes.

-- Papa Paulo VI, homília na Celebração de Pentecostes e Ordenação Scerdotal de 278 diáconos de diversos continentes, em 17 de maio de 1970

-- A homília completa está disponível aqui.

11 de mai. de 2011

Maria, Mãe da Igreja e Advogada dos fiéis

Por ocasião das cerimónias religiosas que têm lugar nestes dias em Fátima, Portugal, em honra da Virgem Mãe de Deus, onde acorrem numerosas multidões de fiéis para venerarem o seu coração maternal e compassivo, desejamos mais uma vez chamar a atenção de todos os filhos da Igreja para o inseparável vínculo que existe entre a maternidade espiritual de Maria e os deveres que têm para com Ela os homens resgatados.

Julgamos ser de grande utilidade para as almas dos fiéis considerar duas verdades muito importantes para a renovação da vida cristã.

A primeira verdade é esta: Maria é Mãe da Igreja, não só por ser Mãe de Jesus Cristo e sua íntima colaboradora na nova economia da graça, quando o Filho de Deus n’Ela assumiu a natureza humana para libertar o homem do pecado mediante os mistérios da sua carne, mas também porque brilha à comunidade dos eleitos como admirável modelo de virtude.

Depois de ter participado no sacrifício redentor de seu Filho, e de maneira tão íntima que mereceu ser por Ele proclamada Mãe não somente do discípulo João, mas – seja consentido afirmá-lo – do género humano, por este de algum modo representado, Ela continua agora no Céu a desempenhar a sua função materna de cooperadora no nascimento e desenvolvimento da vida divina em cada alma dos homens remidos.

Mas de que modo coopera Maria no crescimento da vida da graça nos membros do Corpo Místico? Antes de tudo, pela sua oração incessante, inspirada por uma ardentíssima caridade. A Virgem Santa, de facto, gozando embora da contemplação da Santíssima Trindade, não esquece os seus filhos que caminham, como Ela outrora, na peregrinação da fé; pelo contrário, contemplando-os em Deus e conhecendo bem as suas necessidades, em comunhão com Jesus Cristo que está sempre vivo para interceder por nós, deles se constitui Advogada, Auxiliadora, Amparo e Medianeira.

No entanto, a cooperação da Mãe da Igreja no desenvolvimento da vida divina nas almas não consiste apenas na sua intercessão junto do Filho. Ela exerce sobre os homens remidos outra influência importantíssima, a do exemplo, segundo a conhecida máxima: as palavras movem, o exemplo arrasta. Realmente, tal como os ensinamentos dos pais adquirem maior eficácia quando são acompanhados pelo exemplo duma vida conforme as normas da prudência humana e cristã, assim também a suavidade e o encanto das excelsas virtudes da Imaculada Mãe de Deus atraem irresistivelmente as almas para a imitação do divino modelo, Jesus Cristo, de que Ela foi a mais perfeita imagem.

Mas nem a graça do divino Redentor nem a poderosa intercessão de sua e nossa Mãe espiritual poderiam conduzir-nos ao porto da salvação, se a tudo isso não correspondesse a nossa perseverante vontade de honrar Jesus Cristo e a Virgem Mãe de Deus com a fiel imitação das suas sublimes virtudes.

É, pois, dever de todos os cristãos imitar religiosamente os exemplos de bondade que lhes deixou a Mãe do Céu. É esta a segunda verdade sobre a qual nos agrada chamar a vossa atenção. É em Maria que os cristãos podem admirar o exemplo que lhes mostra como realizar, com humildade e magnanimidade, a missão que Deus confiou a cada um neste mundo, em ordem à sua eterna salvação e à do próximo.

Uma mensagem de suma utilidade parece chegar hoje aos fiéis da parte d’Aquela que é a Imaculada, a toda santa, a cooperadora do Filho na restauração da vida sobrenatural das almas. A santa contemplação de Maria incita-os, de facto, à oração confiante, à prática da penitência, ao santo temor de Deus, e recorda-lhes com frequência aquelas palavras com que Jesus Cristo anunciava estar perto o reino dos Céus: Arrependei-vos e acreditai no Evangelho, bem como a sua severa advertência: Se não vos arrependerdes, perecereis todos de maneira semelhante.

Comemorando-se este ano o vigésimo quinto aniversário da solene consagração da Igreja a Maria Mãe de Deus e ao seu Coração Imaculado, feita pelo Nosso Predecessor Pio XII no dia 31 de Outubro de 1942, por ocasião da Rádio-Mensagem à Nação Portuguesa – consagração que Nós mesmo renovámos no dia 21 de Novembro de 1964 – exortamos todos os filhos da Igreja a renovar pessoalmente a sua própria consagração ao Coração Imaculado da Mãe da Igreja e a viver este nobilíssimo ato de culto com uma vida cada vez mais conforme à vontade divina, em espírito de serviço filial e devota imitação da sua celeste Rainha.

-- Da Exortação Apostólica Signum Magnum do Papa Paulo VI (século XX)


-- Esta é a leitura recomendada para o Ofício das Leituras pelo Secretariado Nacional de Liturgia (de Portugal).



15 de fev. de 2011

Deus deu-se a conhecer por Jesus Cristo

Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele. Esta economia da revelação realiza-se por meio de acções e palavras ìntimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido. Porém, a verdade profunda tanto a respeito de Deus como a respeito da salvação dos homens, manifesta-se-nos, por esta revelação, em Cristo, que é, simultâneamente, o mediador e a plenitude de toda a revelação.

Deus, criando e conservando todas as coisas pelo Verbo (Jo. 1,3), oferece aos homens um testemunho perene de Si mesmo na criação (Rom. 1, 1-20) e, além disso, decidindo abrir o caminho da salvação sobrenatural, manifestou-se a Si mesmo, desde o princípio, aos nossos primeiros pais. Depois da sua queda, com a promessa de redenção, deu-lhes a esperança da salvação (Gén. 3,15), e cuidou contìnuamente do género humano, para dar a vida eterna a todos aqueles que, perseverando na prática das boas obras, procuram a salvação (Rom. 2, 6-7). No devido tempo chamou Abraão, para fazer dele pai dum grande povo (Gén. 12,2), povo que, depois dos patriarcas, ele instruiu, por meio de Moisés e dos profetas, para que o reconhecessem como único Deus vivo e verdadeiro, pai providente e juiz justo, e para que esperassem o Salvador prometido; assim preparou Deus através dos tempos o caminho ao Evangelho.

Depois de ter falado muitas vezes e de muitos modos pelos profetas, falou-nos Deus nestes nossos dias, que são os últimos, através de Seu Filho (Heb. 1, 1-2). Com efeito, enviou o Seu Filho, isto é, o Verbo eterno, que ilumina todos os homens, para habitar entre os homens e manifestar-lhes a vida íntima de Deus (Jo. 1, 1-18). Jesus Cristo, Verbo feito carne, enviado como homem para os homens fala, portanto, as palavras de Deus (Jo. 3,34) e consuma a obra de salvação que o Pai lhe mandou realizar (Jo. 5,36; 17,4). Por isso, Ele, vê-lo a Ele é ver o Pai (Jo. 14,9), com toda a sua presença e manifestação da sua pessoa, com palavras e obras, sinais e milagres, e sobretudo com a sua morte e gloriosa ressurreição, enfim, com o envio do Espírito de verdade, completa totalmente e confirma com o testemunho divino a revelação, a saber, que Deus está connosco para nos libertar das trevas do pecado e da morte e para nos ressuscitar para a vida eterna.

Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há-de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (1 Tim. 6,14; Tit. 2,13).

A Deus que revela é devida a obediência da fé (Rom. 16,26; Rom. 1,5; 2 Cor. 10, 5-6); pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus oferecendo a Deus revelador o obséquio pleno da inteligência e da vontade e prestando voluntário assentimento à Sua revelação. Para prestar esta adesão da fé, são necessários a prévia e concomitante ajuda da graça divina e os interiores auxílios do Espírito Santo, o qual move e converte a Deus o coração, abre os olhos do entendimento, e dá a todos a suavidade em aceitar e crer a verdade. Para que a compreensão da revelação seja sempre mais profunda, o mesmo Espírito Santo aperfeiçoa sem cessar a fé mediante os seus dons.

-- Constituição Dogmática Dei Verbum Sobre a Revelação Divina (capítulo I), Papa Paulo VI, em 18 de Novembro de 1965




8 de out. de 2010

A Doutrina Social da Igreja

Finalidade imediata da doutrina social é a de propor os princípios e os valores que possam suster uma sociedade digna do homem. Entre estes princípios, o da solidariedade em certa medida compreende todos os demais: ele constitui um dos princípios basilares da concepção cristã da organização social e política.

Basílica de São Pedro - Vaticano
Tal princípio é iluminado pelo primado da caridade "sinal distintivo dos discípulos de Cristo" (cf. Jo 13, 35). Jesus "nos ensina que a lei fundamental da perfeição humana e, portanto, da transformação do mundo, é o mandamento novo do amor" (cf. Mt 22, 40; Jo 15,12; Col 3,14; Tg 2,8). O comportamento da pessoa é plenamente humano quando nasce do amor, manifesta o amor, e é ordenado ao amor. Esta verdade vale também no âmbito social: é necessário que os cristãos sejam testemunhas profundamente convictos e saibam mostrar, com a sua vida, como o amor seja a única força (cf. 1 Cor 12,31-14,1) que pode guiar à perfeição pessoal e social e mover a história rumo ao bem.

Os ensinamentos de João XXIII, do Concílio Vaticano II, de Paulo VI ofereceram amplas indicações da concepção dos direitos humanos delineada pelo Magistério. Na Encíclica Centesimus annus, João Paulo II sintetizou-as num elenco: o direito à vida, do qual é parte integrante o direito a crescer à sombra do coração da mãe depois de ser gerado; o direito a viver numa família unida e num ambiente moral favorável ao desenvolvimento da própria personalidade; o direito a maturar a sua inteligência e liberdade na procura e no conhecimento da verdade; o direito a participar no trabalho para valorizar os bens da terra e a obter dele o sustento próprio e dos seus familiares; o direito a fundar uma família e a acolher e educar os filhos, exercitando responsavelmente a sua sexualidade. Fonte e síntese destes direitos é, em certo sentido, a liberdade religiosa, entendida como direito a viver na verdade da própria fé e em conformidade com a dignidade transcendente da pessoa.

 
O primeiro direito a ser enunciado neste elenco é direito à vida, desde o momento da sua concepção até ao seu fim natural, que condiciona o exercício de qualquer outro direito e comporta, em particular, a ilicitude de toda forma de aborto procurado e de eutanásia. É sublinhado o altíssimo valor do direito à liberdade religiosa: todos os homens devem estar livres de coação, quer por parte dos indivíduos, quer dos grupos sociais ou qualquer autoridade humana; e de tal modo que, em matéria religiosa, ninguém seja forçado a agir contra a própria consciência, nem impedido de proceder segundo a mesma, em privado e em público, só ou associado com outros. O respeito de tal direito assume um valor emblemático do autêntico progresso do homem em todos os regimes, em todas as sociedades e em todos os sistemas ou ambientes.

Quando em âmbitos e realidades que remetem a exigências éticas fundamentais se propõem ou se efetuam opções legislativas e políticas contrárias aos princípios e aos valores cristãos, o Magistério ensina que a consciência cristã bem formada não permite a ninguém favorecer, com o próprio voto, a atuação de um programa político ou de uma só lei, onde os conteúdos fundamentais da fé e da moral sejam subvertidos com a apresentação de propostas alternativas ou contrárias aos mesmos.

 
Um âmbito particular de discernimento dos fiéis leigos diz respeito as escolhas dos instrumentos políticos, ou seja, a adesão a um partido e às outras expressões da participação política. É preciso operar uma escolha coerente com os valores, tendo em conta as circunstâncias efetivas. Em todo o caso, qualquer escolha deve ser radicada na caridade e voltada para a busca do bem comum. As instâncias da fé cristã dificilmente são assimiláveis a uma única posição política: pretender que um partido ou uma corrente política correspondam completamente às exigências da fé e da vida cristã gera equívocos perigosos. O cristão não pode encontrar um partido plenamente às exigências éticas que nascem da fé e da pertença à Igreja: a sua adesão a uma corrente política não será jamais ideológica, mas sempre crítica, a fim de que o partido e o seu projeto político sejam estimulados a realizar formas sempre mais atentas a obter o verdadeiro bem comum, inclusive os fins espirituais do homem.
-- Trechos do Compêndio da Doutrina Social da Igreja. O texto completo está disponível no site do Vaticano - aqui.

27 de jun. de 2010

Pregamos a Cristo

Ai de mim se não evangelizar! (1 Cor 9,16) Por ele, pelo próprio Cristo, para tanto fui enviado. Eu sou apóstolo e também testemunha. Quanto mais distante o país, quanto mais difícil a missão, com tanto mais veemência a caridade me aguilhoa. É meu dever pregar seu nome: Jesus é Cristo, o Filho do Deus vivo (Mt 16,6). É aquele que nos revelou o Deus invisível, ele o primogênito de toda criatura, ele, em quem tudo existe . É o mestre redentor dos homens: por nós nasceu, morreu e ressuscitou.

É ele o centro da história e do universo. Ele nos conhece e ama, o companheiro e amigo em nossa vida, o homem das dores e da esperança. Ele é quem de novo virá, para ser nosso juiz, mas também - como confiamos - a eterna plenitude da vida e nossa felicidade.

-- Das Homílias de Paulo VI, papa (pronunciada em Manila, 29 de novembro de 1970) 

O texto completo desta homília está disponível no site do Vaticano em inglês e italiano. Também há outras homílias e manifestações públicas do Papa Paulo VI durante esta viagem apóstólica a Ásia e Oceânia.

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