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5 de fev. de 2018

Sadoc, o Sacerdote



Sadoc foi nomeado sacerdote pelo Rei Davi (2Sm 8, 17). Quando Davi teve que fugir de Jerusalém, Sadoc e outros sacerdotes seguiram-no levando a Arca da Aliança, mas o Rei ordenou que permanecessem na cidade, onde ajudaram muitíssimo pois puderam contar ao Rei os planos de Absalão (2Sm 15, 24-35) e, também, como porta-voz do Rei junto aos anciãos, coonvencendo-os a apoiar o retorno do Rei.

Nos últimos dis do Rei, que já estava muito velho, seu filho Abiatar fez-se o novo rei, sem a aprovação do pai. Davi, então, tornou pública sua decisão ao nomear seu filho Salomão para o cargo. Em uma cerimônia presidida por Sadoc,  Salomão foi ungido, que ali iniciou o reinado, e, por sua vez, nomeou Sadoc como sumo sacerdote em retribuição à sua fidelidade ao Rei Davi. Assim a Bíblia narra a coroação de Salomão (1 Reis 1:38-40):

O sacerdote Sadoc desceu com o profeta Natã, Banaías, filho de Jojada, os cereteus e os feleteus; fizeram montar Salomão na mula de Davi e conduziram-no a Gião. Tomou o sacerdote Sadoc no tabernáculo o chifre de óleo e ungiu com ele Salomão. A trombeta soou e todo o povo pôs-se a gritar: Viva o rei Salomão! Depois toda a gente voltou atrás dele, tocando flauta e fazendo grandes festas, de modo que a terra vibrava com suas aclamações.

Inspirado por este trecho bíblico, em 1727 George Handel compôs "Sadoc, o Sacerdote" para a coroação do Rei George II, e desde então tem sido utilizado em todas coroações, incluindo a mais recente da Rainha Elizabete II. O texto é curto:

Zadok the Priest, and Nathan the Prophet anointed Solomon King.
And all the people rejoiced, and said:
God save the King! Long live the King!
May the King live for ever,
Amen, Allelujah.

Tradução:
Sadoc, o Sacerdote; e Natã, o Profeta, ungiram Salomão como Rei.
E todo povo se alegrou e disse:
Deus salve o Rei! Vida longa ao Rei!
Possa o Rei viver para sempre!
Amém! Aleluia!

Na liturgia pode ser utilizada não apenas em coroações ou quando as leituras se referem ao tema específico, mas também para os noivos em um casamento, trocando King e Queen na letra, conforme o caso.

-- autoria própria

25 de jun. de 2014

Verdadeira, perfeita e eterna amizade

* Nota: Jônatas era o filho mais velho do Rei Saul, natural sucessor no trono, ao invés de Davi, que havia se tornado famoso em Israel após matar o gigante Golias, liderando o exército pelo seu exemplo de bravura e confiança em Deus. 

Jônatas, jovem de grande nobreza, sem olhar para a coroa régia nem para o futuro reinado fez um pacto com Davi, igualando assim, pela amizade, o súdito ao senhor. Deu preferência a Davi, mesmo quando este foi expulso por seu pai o rei Saul, tendo de se esconder no deserto, como condenado à morte, destinado à espada. Jônatas então humilhou-se para exaltar o amigo perseguido: Tu,são suas palavras, serás rei e eu serei o segundo depois de ti.

            Que espelho estupendo da verdadeira amizade! Admirável! O rei, furioso contra o servo, excitava todo o país contra um possível rival do reino. Assim, acusava sacerdotes de traição, trucidando-os por uma simples suspeita. Percorria as matas, esquadrinhava os vales, cercava com suas tropas os montes e penhascos, fazendo todos prometerem tornar-se vingadores da indignação real.

            Entretanto, Jônatas, o único que poderia ter razão de invejar, só ele julgou dever resistir a seu pai, oferecendo a paz ao amigo, aconselhando-o em tão grande adversidade, preferindo a amizade ao reino: Tu serás rei e eu serei o segundo depois de ti. Em contraste, vede como o pai estimulava a inveja do adolescente contra o amigo, apertava-o com repreensões, amedrontava-o com ameaças de ser despojado do reino, prometendo privá-lo da nobreza.

            Quando pronunciou sentença de morte contra Davi, Jônatas não abandonou o amigo. Por que deve morrer Davi? que culpa tem? que fez ele? Tomou sua vida em suas mãos e feriu o filisteu e tu te alegraste. Por que então irá morrer? A tais palavras, louco de cólera, o rei tentou transpassar Jônatas, com a lança contra a parede, ameaçando aos gritos: Filho de mãe indigna, bem sei que gostas dele para vergonha tua, confusão e infâmia de tua mãe. Depois vomitou todo o veneno sobre o coração do jovem, acrescentando incentivo à sua ambição, alimento à inveja, estímulo à rivalidade e à amargura: Enquanto viver o filho de Isaí, não se estabelecerá o teu reino.

            Quem não se abalaria com tais palavras? Quem não se encheria de inveja? Que amor, que agrado, que amizade elas não coromperiam, não diminuiriam, não fariam esquecer? Jônatas, o moço cheio de afeição, guardou o pacto da amizade, forte contra as ameaças, paciente contra o furor, desprezou o reino por causa da amizade, esquecido das glórias, bem lembrado da graça. Tu serás rei e eu serei o segundo depois de ti.

            Esta é a verdadeira, perfeita, estável e eterna amizade, aquela que a inveja não corompe, suspeita alguma diminui, não se desfaz pela ambição. Assim provada, não cede; assim batida, não cai; assim sacudida por tantas censuras, mostra-se inabalável e, provocada por tantas injúrias, permanece imóvel. Vai, então, e faze tu o mesmo.

-- Do Tratado sobre a amizade espiritual, do beato Elredo, abade (século XII)

25 de fev. de 2013

Sobre a Interpretação dos Salmos - parte III


* terceira parte (e final) da carta de Santo Atanásio de Antioquia a marcelino sobre os salmos

Capítulo XVII

Esta é a característica que possui o livro dos Salmos, para utilidade dos homens: uma parte dos salmos foram escritos para a purificação dos movimentos da alma; outra parte, para anunciarmos profeticamente a vinda na carne de nosso Senhor Jesus Cristo, como acima dissemos.

Porém, de modo algum devemos passar por alto a razão pela qual os salmos se modulam harmoniosamente e com canto. Alguns simplórios entre nós, se bem crêem na inspiração divina das palavras, sustentam que os salmos se cantam pelo agradável dos sons e para o prazer do ouvido. Isto não é exato. A Escritura para nada buscou o encanto ou a sedução, e sim a utilidade da alma; esta forma foi eleita sobre tudo por duas razões:

Em primeiro lugar, convinha que a Escritura não louvasse a Deus unicamente numa seqüência de palavras rápidas e contínuas, mas sim também com voz lenta e pausada. Em seqüência ininterrupta se lêem a Lei, os Profetas, os livros históricos e o Novo Testamento; a voz pausada é empregada para os Salmos, odes e cânticos. Assim se obtém que os homens expressem seu amor a Deus com todas as suas forças e com todas as suas possibilidades.

A segunda razão apóia em que, como uma boa flauta unifica e harmoniza perfeitamente todos os sons, do mesmo modo requer a razão que os diversos movimentos da alma, como pensamento, desejo, cólera, sejam a origem das distintas atividades do corpo, de modo que o trabalho do homem não seja desarmônico, conflitando consigo mesmo, pensando muito bem e trabalhando muito mal; por exemplo, Pilatos que disse: "Nenhum delito encontro nele para condená-lo à morte" (Jo 18,38), porém trabalhou segundo o querer dos judeus... Ou, que desejando trabalhar mal, estejam impossibilitados de realizá-lo, como os anciãos com Susana... Ou que ainda abstendo-se de adulterar, seja ladrão, ou, sem ser ladrão seja homicida, ou, sem ser assassino seja blasfemador.

Capítulo XVIII

Para impedir que surja essa desarmonia interior, a razão requer que a alma, que possui o pensamento de Cristo (cf. 1Cor 2,16), como disse o Apóstolo, faça que este lhe sirva de diretor, que domine nele suas paixões, ordenando os membros do corpo para que obedeçam a razão. Como pleito para a harmonia, nesse saltério que é o homem, o Espírito deve ser fielmente obedecido, os membros e seus movimentos devem ser dóceis obedecendo a vontade de Deus. Esta tranqüilidade perfeita, esta calma interior, tem sua imagem e modelo na leitura modulada dos Salmos. Nos damos a conhecer os movimentos da alma através das nossas palavras; por isso o Senhor, desejando que a melodia das palavras fosse o símbolo da harmonia espiritual na alma, fez cantar os Salmos melodiosa, modulada e musicalmente. Precisamente este é o desejo da alma, vibrar em harmonia, como está escrito: "Algum de vós é feliz, que cante!" (Sal 5,13). Assim, salmodiando, se aplaca o que nele haja de confuso, áspero ou desordenado e o canto cura até a tristeza: "Por que estás triste, alma minha, por que me perturbas?" (Sal 41,6.12 e 42,5); reconhecer seu erro confessando: "Quase resvalaram minhas pisadas" (Sal 72,2); e no temor fortalecer a esperança: "O Senhor está comigo: não temo; que poderá fazer-me aquele homem?" (Sal 117,6).

Capítulo XIX

Os que não lêem desta maneira os cânticos divinos, não salmodiam sabiamente, mas buscam seu deleite, e merecem reprovação, já que o louvor não é formoso na boca do pecador (cf. Eclo. 15,9). Porém, quando se cantam da maneira que acima mencionamos, de modo que as palavras se vão proferindo ao ritmo da alma e em harmonia com o Espírito, então cantam em uníssono a boca e a mente; ao cantar assim, são úteis a si mesmos e aos ouvintes bem dispostos. O bem-aventurado Davi, por exemplo, cantando para Saul, alegrava a Deus e alijava de Saul a perturbação e a loucura, devolvendo-lhe a tranqüilidade à sua alma. De idêntica maneira os sacerdotes ao salmodiar, aportavam a calma à alma das multidões, induzindo-as a cantar unânimes com os coros celestiais. O fato de que os Salmos se recitem melodiosamente, não é em absoluto indício de buscar sons prazenteiros, e sim reflexo da harmoniosa composição da alma. A leitura mensurada é símbolo da índole ordenada e tranqüila do espírito. Louvar a Deus com pratinhos sonoros, com a cítara e o saltério de dez cordas, é, a sua vez, símbolo e indicação de que os membros do corpo estão harmoniosamente unidos do modo que estão as cordas; de que os pensamentos da alma atuam qual címbalos, recebendo todo o conjunto, movimento e vida a impulsos do espírito, já que viveram, como está escrito, e com o Espírito fazem morrer as obras do corpo (cf. Rom. 8,13). Quem salmodia desta maneira harmoniza sua alma levando-a do desacordo ao acorde, de modo que, falando-se em natural acordo nada a perturbe, ao contrário da imaginação pacificada que deseja ardentemente os bens futuros. Bem disposta pela harmonia das palavras, olvida suas paixões, para centrada, gostosa e harmoniosamente em Cristo conceber os melhores pensamentos.

Capítulo XX

É portanto necessário, filho meu, que todo o que lê este livro o faça com pureza de coração, aceitando que se deve à divina inspiração, e, beneficiando-se dele por isso mesmo, como dos frutos do jardim do paraíso, empregando-os segundo as circunstâncias e a utilidade de cada um deles.

Estimo, com efeito, que nas palavras deste livro se contem e descrevam todas as disposições, todos os afetos e todos os pensamentos da vida humana e que fora destes não há outros.

Há necessidade de arrependimento ou confissão; se lhes surpreenderam a aflição ou a tentação; se és perseguido ou se escapou a emboscadas; se estás triste, em dificuldades ou tens algum dos sentimentos acima mencionados; ou se vives prosperamente, havendo triunfado sobre teus inimigos, desejando louvar, dar graças ou bendizer ao Senhor... Para qualquer destas circunstâncias, deve-se falar o ensinamento adequado nos Salmos divinos. Que eleja aqueles relacionados com cada um desses argumentos, recitando-os como se ele os proferira, e adequando os próprios sentimentos aos neles expressados.

Capítulo XXI

De modo algum se busque adorná-los com palavras sedutoras, modificar suas expressões ou trocá-las totalmente; leia e cante-se o que está escrito, sem artifícios, para que os santos varões que nos legaram esses salmos, reconheçam o tesouro de sua propriedade, conosco há pouco tempo, ou melhor, o faça o Espírito Santo, que falou através deles, e, ao constatar que nossos discursos são eco perfeitos dos seus, venham em nossa ajuda. Pois sendo a vida dos santos melhor que a do resto, portanto melhores e mais poderosas se tenham, com toda verdade, suas palavras que nós agregamos. Pois com essas palavras agradaram a Deus e, ao proferi-las, eles lograram - como o disse o Apóstolo - conquistar reinos, fizeram justiça, alcançaram as promessas, cerraram a boca aos leões; apagaram a violência do fogo, escaparam do fio da espada, curaram suas enfermidades, foram valentes na guerra, rechaçaram exércitos estrangeiros e as mulheres recobraram ressuscitados a seus mortos (cf. Hb 11, 33-35).

Capítulo XXII

Todo o que agora lê essas mesmas palavras [dos Salmos], tenha confiança que por elas Deus virá instantaneamente em nossa ajuda. Se está afligido, sua leitura procurará um grande consolo; se é tentado ou perseguido, ao cantá-las saldará fortalecido e como mais protegido pelo Senhor, que já havia protegido antes ao autor, e fará que ouçam (os inimigos) o diabo e seus demônios. Se há pecado, voltará a si e deixará de fazê-lo; se não há pecado, se estimará ditoso ao saber que corre em procura dos verdadeiros bens; na luta, os Salmos darão as forças para não apartar-se jamais da verdade; ao contrário, convencerá aos impostores que tratavam de induzi-lo ao erro. A garantia de tudo isso não é um mero homem mas sim a mesma Escritura divina. Deus ordenou a Moisés escrever o grande Cântico, ensinando-o ao povo; ao que ele constituíra como chefe, lhe ordenou transcrever o Deuteronômio, guardando-o entre suas mãos e meditando continuamente suas palavras, pois seus discursos são suficientes para trazer à memória a recordação da virtude e aportar ajuda aos que os meditam sinceramente. Quando Josué, filho de Nuná penetrou na terra prometida, vendo os acampamentos inimigos e os reis amorreus reunidos, todos em som de guerra, em lugar de armas ou espadas, empunhou o livro do Deuteronomio; o leu diante de todo o povo, recordando as palavras da Lei, e havendo armado o povo, saiu vencedor sobre os inimigos. O rei Josías, depois do descobrimento do livro e sua leitura pública, não albergava já temor algum de seus inimigos. Quando o povo saía à guerra, a Arca contendo as tábuas da Lei ia adiante do exército, sendo proteção mais que suficiente, sempre que não houvera entre os portadores ou no seio do povo prevalência de pecado ou hipocrisia. Pois se necessita que a fé vá acompanhada pela sinceridade para que a Lei dê resposta à oração.

Capítulo XXIII
Ao menos eu, o ancião, escutei da boca de homens sábios, que antigamente, em tempos de Israel, bastava a leitura da Escritura para por em fuga os demônios e destruir as armadilhas estendidas por eles aos homens. Por isso, me dizia [meu interlocutor], são de todo condenáveis aqueles que, abandonando estes livros, compõem outros com expressões elegantes, fazendo-se chamar exorcistas, como ocorreu aos filhos do judeu Esceva, quando tentaram exorcizar dessa maneira! Os demônios se divertem e burlam quando os escutam; pelo contrário tremem diante das palavras dos santos e nem ouvi-las podem. Pois nas palavras da Escritura está o Senhor e ao não poder suportás-las gritam: "Te rogo que não me atormentes antes do tempo!" (Lc 8,28). Com somente a presença do Senhor se consumiam. Do mesmo modo, Paulo dava ordens aos espíritos impuros e os demônios se submetiam aos discípulos. E a mão do Senhor caiu sobre Eliseu, o profeta, de modo que profetizou aos três reis acerca da água quando, por ordem sua, o salmista cantava ao som do saltério. Inclusive agora, se um está preocupado pelos que sofrem, leia os Salmos e lhes ajudará muitíssimo, demostrando igualmente que o que sofre é firme e verdadeiro; ao vê-lo, Deus concede a completa saúde aos necessitados. Sabendo-o, o santo disse no salmo 118: "Meditarei sobre teus decretos, não olvidarei tuas palavras", e também: "Teus decretos eram meus cantos, no lugar de minha peregrinação. Nelas encontrarão salvação ao dizer: 'se tua lei não fosse minha meditação, já haveria perecido em minha humilhação'".

Também Paulo buscava confirmar a seu discípulo, ao dizer: "Medita estas coisas; vive entregue a elas para que teu aproveitamento seja manifestado a todos" (1 Tim 4,15). Pratica-o igualmente tu, lê com sabedoria os Salmos e poderás, sob a direção do Espírito, compreender o significado de cada um. Imitarás a vida que levaram os varões santos, que entusiasmados pelo Espírito de Deus isto tudo disseram.


8 de out. de 2012

Só a Deus a honra e a glória

"Sede bendito... para todo o sempre, Senhor, Deus do nosso pai Israel!" (1 Cr 29, 10). Este intenso cântico de louvor, que o primeiro livro das Crónicas põe nos lábios de Davi, faz-nos reviver a explosão de alegria com que a comunidade da antiga aliança saudou os grandes preparativos realizados com vista à construção do templo, fruto de um compromisso conjunto do rei e de muitos que tinham trabalhado com ele. Como que competiam em generosidade, porque isto exigia uma morada que não "se destina a um homem, mas ao Senhor Deus" (1 Cr 29, 11).

Ao reler aquele acontecimento, séculos depois, o Cronista intui os sentimentos de Davi e de todo o povo, a sua alegria e admiração por quantos tinham oferecido a sua contribuição:  "O povo alegrava-se com as suas oferendas voluntárias, pois era de coração generoso que as faziam ao Senhor. O próprio rei Davi sentiu alegria" (1 Cr 299).

Este é o contexto em que nasce o Cântico. Mas ele só considera brevemente a satisfação humana, para pôr a glória de Deus imediatamente no centro da atenção:  "A Vós, Senhor, a grandeza... a Vós, Senhor, a realeza...". A grande tentação que está sempre à espreita, quando se realizam obras pelo Senhor, é a de nos colocarmos a nós mesmos no centro, como se nos sentíssemos credores de Deus. Davi, pelo contrário, atribui tudo ao Senhor. Não é o homem, com a sua inteligência e a sua força, o primeiro artífice de quanto se realizou, mas sim o próprio Deus.

Davi expressa desta forma a profunda verdade de que tudo é graça. Num certo sentido, aquilo que foi colocado à disposição para o templo, não é senão a restituição, além disso extremamente exígua, de quanto Israel recebeu no inestimável dom da aliança que Deus estipulou com os antepassados. Na mesma linha, Davi dá mérito ao Senhor por tudo o que constituiu a sua sorte, tanto em campo militar como nos sectores político e económico. Tudo vem d'Ele!

Daqui, o impulso contemplativo destes versículos. Parece que ao autor do Cântico não bastam as palavras, para professar a grandeza e o poder de Deus. Ele considera-O sobretudo na especial paternidade demonstrada a Israel, "nosso pai". Este é o primeiro título que exige o louvor "agora e sempre".

Na recitação cristã destas palavras, não podemos deixar de recordar que esta paternidade se revelou de modo completo na encarnação do Filho de Deus. Ele, só Ele, é que pode falar a Deus chamando-lhe, em sentido próprio e afectuosamente, "Abba" (Mc 14, 36). Ao mesmo tempo, através do dom do Espírito, é-nos comunicada a sua filiação que nos torna "filhos no Filho". A bênção do antigo Israel por parte de Deus Pai adquire para nós a intensidade que Jesus nos manifestou, ensinando-nos a chamar a Deus "Pai nosso".

Depois, o olhar do autor bíblico alarga-se da história da salvação para todo o cosmos, a fim de contemplar a grandeza de Deus Criador:  "Tudo, nos céus e na terra, é vosso!". E ainda, "Vós sois soberano sobre todas as coisas". Como no Salmo 8, o orante do nosso Cântico ergue a cabeça para a o firmamento infinito, dirigindo em seguida o olhar admirado para a imensidão da terra e tudo vê submetido ao domínio do Criador. Como expressar a glória de Deus? As palavras sobrepõem-se, numa espécie de sucessão mística:  grandeza, poder, glória, majestade e esplendor; e depois, ainda força e potência. Tudo o que o homem experimenta de belo e de grande deve referir-se Àquele que está na origem de todas as coisas e que tudo governa. O homem sabe que tudo quanto possui é dádiva de Deus, como salienta Davi, dando continuidade ao Cântico:  "Quem  sou  eu  e  quem  é  o meu  povo,  para  que  possamos  fazer-vos  voluntariamente  estas  oferendas?" (1 Cr 29, 14).

Este pano de fundo da realidade, como dom de Deus, ajuda-nos a conjugar os sentimentos de louvor e de reconhecimento do Cântico com a autêntica espiritualidade do ofertório, que na liturgia cristã nos faz viver sobretudo na celebração eucarística. É o que emerge da dupla oração com que o sacerdote oferece o pão e o vinho, destinados a tornar-se Corpo e Sangue de Cristo:  "Da vossa bondade recebemos este pão, fruto da terra e do trabalho do homem, e apresentamo-lo a Vós para que se torne para nós alimento de vida eterna". Esta oração é repetida sobre o vinho. Sentimentos análogos são sugeridos tanto pela divina Liturgia bizantina, como pelo antigo Canon Romano, quando na anamnese eucarística exprimem a consciência de oferecer como dom a Deus, as coisas d'Ele recebidas.

A última aplicação desta visão de Deus é realizada pelo Cântico, tendo em vista a experiência humana da riqueza e do poder. Estas duas dimensões apareceram enquanto Davi predispunha o necessário para construir o templo. Também para ele mesmo podia ser uma tentação, aquela que é uma tentação universal:  agirmos como se fôssemos árbitros absolutos daquilo que possuímos, fazendo disto um motivo de orgulho e de injustiça em relação ao próximo. A oração cadenciada neste Cântico leva o homem à sua dimensão de pobre, que tudo recebe.

Então, os reis desta terra são unicamente uma imagem do Reino divino:  "a Vós, Senhor, a realeza!". Os abastados não podem esquecer-se da origem dos seus próprios bens:  "É de Vós que vêm a riqueza e a glória". Os poderosos devem saber reconhecer-se em Deus, como fonte "de toda a grandeza e de todo o poder". O cristão é chamado a interpretar estas expressões, contemplando com exultação Cristo ressuscitado, glorificado por Deus "acima de todo o Principado, Potestade, Virtude e Dominação" (Ef 1, 21).

Cristo  é  o  verdadeiro  Rei  do  universo!

-- Papa João Paulo II, na audiência de 6 de Junho de 2001

15 de jun. de 2012

O que há de mais agradável que um salmo?

Gerrit van Honthorst (1590-1656),
King David Playing the Harp (1611),
Centraal Museum, Utrecht, Holland
Davi já bem dizia: Louvai ao Senhor, porque é bom o salmo; a nosso Deus, alegre e belo louvor. E é verdade! O salmo é bênção para o povo, a glória de Deus, o louvor da multidão, o aplauso de todos, a palavra do universo, a voz da Igreja, a canora confissão da fé, a devoção cheia de valor, a alegria da liberdade, o clamor do regozijo, a exultação da alegria. O salmo abranda a ira, desfaz a preocupação, consola na tristeza. Ele é a proteção noturna, o diurno ensinamento, um escudo no temor, uma festa na santidade, a imagem da tranqüilidade, o penhor de paz e de concórdia, fazendo, à semelhança da cítara, um só cântico de muitas e diferentes vozes. Na aurora do dia, ressoa o salmo. Repercute o salmo ao cair da noite. Rivalizam no salmo a doutrina e a graça: ao mesmo tempo canta-se para deleite e aprende-se para instrução. O que é que não te ocorre ao ler os salmos?

Neles leio: Cântico para o amado e logo me inflamo de desejo da sagrada caridade. Neles encontro a graça das revelações, os testemunhos da ressurreição, os dons da promessa. Por eles aprendo a evitar o pecado, desaprendo de envergonhar-me da penitência pelas minhas faltas.

O que é o salmo senão o instrumento das virtudes com que o venerável Profeta, tangendo-o com a palheta do Espírito Santo, faz ressoar pelo mundo a doçura da música celeste? Ao mesmo tempo em que ele, coordenando por meio de liras e cordas, isto é, das coisas mortas, a distinção dos diversos sons, dirigia o cântico do divino louvor para as realidades supremas. Ensinava com isso, em primeiro lugar, que devíamos morrer ao pecado e, em seguida, discernir em nossa vida mortal as várias obras de virtude pelas quais nossa gratidão se eleva até Deus.

Davi ensinou que devemos cantar no íntimo de nós mesmos, salmodiar no íntimo, como Paulo cantava, pois dizia: Orarei com o espírito, orarei com a mente; salmodiarei com o espírito, salmodiarei com a mente. Ensinou também que devíamos ordenar nossa vida e seus atos para a visão das realidades superiores, a fim de que o gosto pela doçura não excite os instintos do corpo, com os quais não se redime nossa alma, ao contrário se torna pesada. E, no entanto, o santo Profeta lembra-se de salmodiar para a redenção de sua alma, quando diz: Salmodiarei a ti, ó Deus, na cítara, Santo de Israel; ao cantar a ti jubilarão meus lábios e minha alma que remiste.

-- Dos Comentários sobre os Salmos, de Santo Ambrósio, bispo (século IV)

2 de fev. de 2011

O Sacramento da Extrema Unção - parte 2


Após o sentido da visão, temos a audição, que não deve ser guardado com menos atenção e diligência. E com os ouvidos, a língua também deve ser guardada, pois é o instrumento da fala: pois as palavras, boas ou más, não são ouvidas exceto após serem pronunciadas utilizando a língua. E esta, se não for cuidadosamente guardada, é a causa de muitos males, como diz São Tiago: Assim também a língua é um pequeno membro, mas pode gloriar-se de grandes coisas. Considerai como uma pequena chama pode incendiar uma grande floresta. Também a língua é um fogo, um mundo de iniqüidades (Tg 3,5).

Nesta passagem o apóstolo nos ensina três coisas: primeiro, que guardar a língua cuidadosamente é algo muito difícil; por isso muito poucos, senão apenas os perfeitos, podem efetivamente fazê-lo; segundo, que de uma língua má, as maiores injurias e maldades podem surgir em um curto período de tempo. Isto é explicado pela comparação com uma fagulha, que se não for imediatamente extinta, pode consumir a floresta inteira. Assim, uma palavra descuidada, pode provocar suspeitas de outras culpas, de onde podem surgir disputas, brigas, homicídios e a ruína de famílias. São Tiago, em verdade, ensina que a língua não é meramente algo ruim por si mesma, mas ela pode incluir uma multitude de problemas; ele até mesmo a chama de "mundo de iniquidades". Isto por que quase todos os crimes, como adultérios e assaltos, são planejados utilizando a língua; outros como perjúrios e falsos testemunhos, são perpetrados pela língua; e todos são defendidos, através de desculpas rotas ou falsas, também pela língua.

Assim, a língua pode ser chamada de "mundo de iniquidades", por que através dela muitos pecados contra Deus são cometidos, por blasfêmia e perjúrio; contra o próximo, por difamação e fofoca; e contra si mesmo, mentindo sobre boas obras que de fato não tenha realizado.

Em acréscimo ao testemunho de São Tiago, lembro o profeta Davi: Senhor, livrai minha alma dos lábios mentirosos e da língua pérfida (Sl 119,2). Se este rei tinha medo de uma língua pérfida e mentirosa, o que podem pessoas comuns fazer; e pior ainda, e se forem pessoas pobres, fracas e obscuras? Davi ainda diz: Que ganharás, qual será teu proveito, ó língua pérfida? (Sl 119,3) As palavras são obscuras devido a peculiaridade da estrutura da língua hebraica, mas o sentido parece ser este: não é sem sentido que eu temo uma língua pérfida e mentirosa, por que ela pode causar grande mal, de tal modo que nenhuma outra maldade pode ser acrescida. Davi continua: Flechas agudas de guerreiro, carvões ardentes de giesta (Sl 119,4). Nestas palavras, em elegante comparação, ele define quão grande mal uma língua pode ser, como uma flecha pontiaguda ns mãos de um guerreiro. Flechas são atiradas à distância, e com uma velocidade tão grande que é dificil desviar. E com tais flechas a língua é comparada, e dita que são enviadas por um forte guerreiro. E também, estas flechas são afiadas, ou seja, foram trabalho das mãos de um trabalhador hábil e dedicado. A língua é como um carvão ardente, com poder para queimar tudo, mesmo o que é forte. Portanto, uma língua pérfida e mentirosa é mais perigosa do que as flechas feitas pelo homem; em verdade, lembram as flechas enviadas pelo céu, raios aos quais ninguém pode resistir. Esta descrição de Davi, de uma língua pérfida e mentirosa, é tal que nenhum mal pode ser maior.

Para que esta verdade possa ser claramente compreendida, menciono dois exemplos da Escritura. O primeiro, a perfídia de Doeg, que acusou o sacerdote Aquimelec de ter conspirado com Davi para atingir o Rei Saul (1Sm 22). Era uma calunia e impostura. Mas como Saul, naquele tempo, estava perseguindo Davi, facilmente acreditou em Doeg e ordenou matar imediatamente não apenas Aquimelec, mas todos os outros sacerdotes, oitenta e cinco que não haviam cometido uma única ofensa ao rei. E Saul, não contente com esta matança, ordenou que fossem mortos também todos moradores da cidade de Nobe; e não apenas estendeu sua crueldade contra homens e mulheres, também às crianças, bebês e animais. Da língua pérfida de Doeg, é provável que seja sobre ela que Davi fala no Salmo 119. Deste exemplo podemos ver como pode ser produtiva para o mal uma língua pérfida e mentirosa.

Outro exemplo é do Evangelho segundo São Marcos: quando a filha de Herodíades dançou em frente a Herodes Tetrarca e sua corte, ela ganhou seus favores de tal modo que ele jurou em frente a todos que lhe daria o que pedisse, mesmo que fosse metade do seu reino. Mas a filha se aconselhou com a mãe, e esta lhe disse para pedir a cabeça de São João Batista. Feito o pedido, a cabeça logo lhe foi entregue em uma bandeja.

A cabeça de São João Batista é entregue em uma bandeja.
Quantos crimes cometidos! A mãe pecou mais gravemente, pedindo a mais injusta coisa; Herodes pecou não menos gravemente, ao ordenar a morte de um homem inocente, que era o precursor de Jesus e mais que um simples profeta; sem que sua causa fosse ouvida, sem julgamento, o pedido de uma menina foi atendido durante um banquete festivo. Pouco tempo após, Herodes foi removido do seu governo pelo imperador romano, enviado para um perpétuo banimento. Aquele que jurou dar metade do seu reino, trocou aquele reino pelo banimento. Josefus menciona que a filha de Herodíades, cuja dança causou a morte de São João Batista, ao cruzar uma área congelada, o gelo quebrou sob seu peso e ela caiu com todo seu corpo, mas sua cabeça foi separada do corpo, rolando pelo gelo. Assim todos puderam ver a causa de tão miserável morte. Herodíades morreu pouco depois pela tristeza e a seguiu nos tormentos do inferno. Nicéforo Calisto Xantópulo relata os detalhes desta tragédia no seu livro História Eclesiástica, confirmando os crimes e punições que seguiram o juramento bobo do Tetrarca.

Agora mencionaremos os remédios que um homem prudente deve usar para evitar os pecados da língua. O Rei Davi, no início do Salmo 38, fala: Velarei sobre os meus atos, para não mais pecar com a língua (Sl 38,1). Isto significa que seu eu desejo me guardar dos pecados da língua, devo estar atento aos meus atos; pois não devo falar, nem pensar, nem fazer nada, sem antes examinar e pesar o que farei e direi.

Estes é o caminho pelo qual um homem deve caminhar em sua vida, que é o remédio contra más palavras, e não apenas contra elas, mas também contra más ações, pensamentos e desejos: é pensar antes o que fará, falará ou desejará. Isto define o caráter de um homem: não fazer nada de modo precipitado, mas sempre considerar o que deve ser feito, e se isto concordar com a razão, realizá-lo; se não concordar, deixar de fazê-lo. Assim como as ações devem ser pensadas, também as palavras, desejos e outras ações de uma inteligência. Mas se alguém não puder considerar previamente suas ações e palavras, certamente não é um homem prudente, desejoso da salvação eterna. Um homem que a cada manhã, todos os dias, antes de procurar seus negócios e interesses, se aproxima do seu Deus em oração e suplica para que Ele direcione suas decisões, ações, desejos e pensamentos para a grande glória de Deus e salvação de sua alma. E, ao final do dia, antes de repousar, o homem deve examinar sua consciência e perguntar se acaso ofendeu a Deus em pensamentos, palavras ou atos; e caso encontre máculas, especialmente pecados mortais, não deve fechar seus olhos antes de reconciliar-se com Deus e consigo, verdadeiramente arrepender-se, e fazer firme resolução de guardar seus modos e não cometer os mesmos pecados no dia seguinte.

Sobre o sentido da audição, algumas observações devem ser feitas. Quando uma língua é controlada pela razão, impedindo-a de falar palavras vãs, nada deve ofender o sentido da audição. Há quatro tipos de palavras, em especial, contras as quais nossa audição deve manter-se fechada, pois através de más palavras o pecado pode entrar no coração e corrompê-lo.

Por primeiro, as palavras contra a fé, que a curiosidade muitas vezes ouve com prazer: e se estas penetram no coração, retiram daí a fé, a raiz e o início de todas as boas ações. Nenhuma das palavras dos infiéis é mais perniciosa que aquelas que negam, seja a providência divina ou a imortalidade da alma. Estas afirmações tornam o homem não apenas herético, mas ateístas, abrindo a porta para todo tipo de maldades.

Outra classe de palavras é a difamação, muito ouvidas por todos, mas que destroem a caridade fraternal. Davi, que era um homem de acordo com a vontade de Deus, diz nos Salmos: Em resposta ao meu afeto me acusaram. Eu, porém, orava (Sl 108,4). E como a difamação é muitas vezes ouvida na mesa de refeições, Santo Agostinho mandou gravar estes versos sobre a mesa da sala de jantar:

"Quisquis amat dictis absentftm rodero vitam,
Hanc mensam iiidignam noverit esse sibi."

"Esta mesa não é lugar para detratores,
cuja língua ama os ausentes para causar desgraças".

A terceira espécie de palavras más consiste em bajulação, agradavelmente ouvidas pelos homens; e produzem orgulho e vaidade, a última delas é a rainha de todos os vícios e muito detestada por Deus.

O quarto tipo são aquelas palavras indecentes e canções lascivas; para os amantes deste mundo nada é mais doce, embora nada possa ser mais perigoso, que tais palavras e canções. Canções lascivas são como os cantos das sereias, que encantam os homens, os mergulham no mar e devoram-nos.

Contra todos estes perigos há um remédio salutar. Homens, quando na presença de pessoas que nunca tenham visto antes, ou que não lhe sejam familiares, não tenham a ousadia de difamar o próximo, utilizar palavras heréticas, bajuladoras ou expressões lascivas. Salomão, no início do Livro dos Provérbios, expressa assim este preceito: Ouve, meu filho, a instrução de teu pai: Meu filho, se pecadores te quiserem seduzir, não consintas; se te disserem: Vem conosco, faremos emboscadas, para (derramar) sangue, armaremos ciladas ao inocente, sem motivo, como a região dos mortos devoremo-lo vivo, inteiro, como aquele que desce à cova. Nós acharemos toda a sorte de coisas preciosas, nós encheremos nossas casas de despojos. Tu desfrutarás tua parte conosco, uma só será a bolsa comum de todos nós! Oh, não andes com eles, afasta teus passos de suas sendas, porque seus passos se dirigem para o mal, e se apressam a derramar sangue. Eles mesmos armam emboscadas contra seu próprio sangue e se enganam a si mesmos (Pv 1,8.10-16.18). Este conselho os homens sábios seguem para manter o sentido da audição longe de palavras corruptas; especialmente se estas palavras do Nosso Senhor forem acrescentadas: os inimigos do homem serão as pessoas de sua própria casa (Mt 10,36).

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII)
-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português. O texto em inglês está disponível aqui.
-- como o capítulo é bastante longo, e a tradução demanda tempo, publiquei esta segunda parte enquanto trabalho no restante do texto.







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