24 de out de 2012

Salmo 23: O Senhor entra no seu templo


Caríssimos Irmãos e Irmãs:

1. O antigo cântico do Povo de Deus, que agora acabamos de ouvir, ressoava no fundo do templo de Jerusalém. Para poder captar com clareza a ideia-base que atravessa este hino, é necessário ter bem  presentes  três  dos  seus  pressupostos fundamentais. O primeiro diz respeito à verdade da criação:  Deus criou o mundo e é o seu Senhor. O segundo refere-se ao juízo ao qual Ele submete as suas criaturas:  devemos apresentar-nos a Ele para sermos interrogados sobre o que realizamos. O terceiro é o mistério da vinda de Deus:  Ele vem ao mundo e à história, e deseja ter livre acesso, para estabelecer com os homens uma relação de profunda comunhão. Um comentador moderno escreveu:  "Estas são três formas elementares da experiência de Deus e da relação com Deus; nós vivemos por obra de Deus, perante Deus e podemos viver com Deus" (G. Ebeling, Sobre os Salmos, Bréscia 1973, pág. 97).

2. A estes três pressupostos correspondem as três partes do Salmo 23, que agora procuraremos aprofundar, considerando-as como três partes de um tríptico poético e orante. A primeira é uma brve aclamação ao Criador, ao qual pertence a terra com os seus habitantes (vv. 1-2). É uma espécie de profissão de fé no Senhor da criação e da história. A criação, segundo a antiga visão do mundo, é concebida como uma obra arquitectónica:  Deus lança as bases da terra sobre o mar, símbolo das águas desordenadas e destruidoras, sinal do limite das criaturas, condicionadas pelo nada e pelo mal. A realidade está suspensa sobre este abismo e é a obra criadora e providencial de Deus que a conserva no ser e na vida.

3. Do horizonte cósmico a perspectiva do Salmista limita-se ao microcosmo de Sião, "o monte do Senhor". Estamos agora na segunda parte do Salmo (vv. 3-6). Estamos diante do templo de Jerusalém. A procissão dos fiéis dirige aos guardas da porta santa uma pergunta inicial:  "Quem será digno de subir ao monte do Senhor? Quem poderá permanecer em seu lugar santo?". Os sacerdotes como se verifica também em alguns textos bíblicos chamados pelos estudiosos "liturgia de entrada" (cf. Sl 14; Is 33, 14-16; Mq 6, 6-8) respondem fazendo o elenco das condições para poder ter acesso à comunhão com o Senhor no culto. Não se trata de normas meramente rituais e exteriores que devem ser cumpridas, mas de empenhos morais e existenciais a serem praticados. É quase como um exame de consciência ou um acto penitencial que precede a celebração litúrgica.

4. São três as exigências apresentadas pelos sacerdotes. Em primeiro lugar é preciso ter "mãos inocentes e um coração puro". "Mãos" e "coração" recordam a ação e a intenção, isto é, todo o ser do homem que deve estar radicalmente orientado para Deus e para a sua lei. A segunda exigência é a de "não dizer mentiras" que, na linguagem bíblica, não remete apenas para a sinceridade mas sobretudo para a luta contra a idolatria, sendo os ídolos falsos deuses, ou seja, "mentira". Desta forma, recorda-se o primeiro mandamento do Decálogo, a pureza da religião e do culto. Por fim, eis a terceira condição que diz respeito às relações com o próximo:  "não jurar com perfídia contra o próximo". A palavra, como sabemos, numa civilização oral como era a do antigo Israel, não podia ser instrumento de engano, mas ao contrário, símbolo de relações sociais inspiradas na justiça e na rectidão.

5. Desta forma, chegamos à terceira parte que descreve indiretamente a entrada jubilosa dos fiéis no templo para se encontrarem com o Senhor (vv. 7-10). Num sugestivo jogo de apelos, perguntas e respostas, apresenta-se a revelação progressiva de Deus, marcada por três dos seus títulos solenes:  "Rei da glória, Senhor forte e poderoso, Senhor dos exércitos". As portas do templo de Sião são personificadas e convidadas a levantar os seus dintéis para deixar entrar o Senhor que toma posse da sua casa.

O cenário triunfal, descrito pelo Salmo nesta terceira parte poética foi utilizada pela liturgia cristã do Oriente e do Ocidente para recordar tanto a vitoriosa descida de Cristo ao inferno, da qual fala a Primeira Carta de Pedro (cf. 3, 19), como a gloriosa ascensão ao céu do Senhor ressuscitado (cf. Act 1, 9-10). O mesmo Salmo ainda é cantado em coros alternados pela liturgia bizantina na noite pascal, da mesma forma como era utilizado pela liturgia romana, no final da procissão dos ramos, no segundo Domingo da Paixão. A solene liturgia da abertura da Porta Santa, durante a inauguração do Ano Jubilar, permitiu-nos reviver com intensa comoção interior os mesmos sentimentos vividos pelo Salmista quando atravessou a porta do antigo Templo de Sião.

6. O último título, "Senhor dos exércitos", não tem como poderia parecer à primeira vista um carácter marcial, mesmo se não exclui uma referência às tropas de Israel. Ao contrário, está dotado de um valor cósmico:  o Senhor, que agora está para vir ao encontro da humanidade dentro do espaço limitado do santuário de Sião, é o Criador que tem por exército todas as estrelas do céu, ou seja, todas as criaturas do universo que lhe obedecem. No livro do profeta Baruc lê-se:  "As estrelas brilham nos seus postos e alegram-se. Ele chama-as e elas respondem:  "Aqui estamos". E, jubilosas, dão luz ao Seu criador" (Br 3, 34-35). O Deus infinito, omnipotente e eterno adapta-se às criaturas humanas, aproxima-se delas para as encontrar, ouvir e entrar em comunhão com elas. E a liturgia é a expressão deste encontro na fé, no diálogo e no amor.

-- Papa João Paulo II, na audiência de 20 de Junho de 2001

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