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8 de jul. de 2017

É necessário o padre dizer "eu te absolvo" após a Confissão?

A perfeição de todo ser ou ato está relacionada à sua forma. Da mesma forma, um sacramento perfeito tem uma forma perfeita, a forma perfeita dos sacramentos é aquela que torna visível o seu efeito. Ora, o sacramento da penitência consiste na remoçãodo pecado, essa remoção é expressa pelo sacerdote quando diz: Eu te absolvo.  Pois, os pecados são como amarras, segundo aquilo da Escritura: O homem será preso por suas próprias faltas e ligado com as cadeias de seu pecado (Pv 5,22). Portanto é claro que esta é a frase é convenientíssima para ressaltar o que acontece na Penitência, que somos libertos de nossos pecados quando ouvimos: Eu te absolvo.

Esta mesma perfeição de forma é visível em outros sacramentos. A forma do batismo é "Eu te batizo"; e a da confirmação "Eu te assinalo com o sinal da cruz e te confirmo com o crisma da salvação". Estas palavras são acompanhadas pelo uso da matéria, da água e dos santos óleos. No sacramento da Eucaristia, a consagração ocorre também com a ajuda da matéria, o pão e vinho, mas a verdade da consagração é expressa quando o sacerdote diz: "Isto é o meu corpo". Mas o sacramento da penitência não consiste na consagração de matéria nenhuma nem utiliza qualquer matéria santificada; mas antes, na remoção do pecado, quando o sacerdote declara: Eu te absolvo.

Agora vamos discutir alguns argumentos contrários e respondê-los:

1. Se Cristo não disse "Eu te absolvo", porque os sacerdotes usam esta frase?

A frase em questão é tirada das próprias pa­lavras que Cristo disse a Pedro: Tudo o que ligares sobre a terra, será ligado nos céus (Mt 18,18). "Eu te absolvo" é a forma que a Igreja utiliza na absolvição sacramental para indicar que os pecados estão desligados - desvinculados - da pessoa.

2. Nas absolvições dadas em público, o padre não diz "Eu te absolvo".


Objeção: No uso comum, em certas absolvições públicas na Igreja, o celebrante não fala no modo indicativo, dizendo "Eu te absolvo", mas em modo de súplica, dizendo "Que Deus oni­potente tenha misericórdia de vós", ou, "Deus onipo­tente vos dê a absolvição". Ainda, o Papa Leão (I) disse: "não podemos obter o perdão de Deus senão pelas súplicas dos sacerdotes".

Resposta: As absolvições dadas em público são orações voltadas à remissão dos pecados veniais. A oração do sacerdote não está, objetivamente, perdoando os pecados cometidos por cada pessoa, mas pedindo a Deus que os absolva. No sacramento da Penitência há algo mais, os pecados são efetivamente perdoados, e isto é confirmado quando o sacerdote declara "Eu te absolvo".

3. Somente Deus pode absolver os pecados


Objeção: Absolver e perdoar são sinônimos. Como diz Santo Agostinho, somente Deus pode perdoar os pecados, purificar-nos interiormente deles Logo, osacerdote não deveria dizer "Eu te absolvo".

Resposta:  Só Deus, pela sua autoridade, pode perdoar os pecados. Os sacerdotes, através do seu minis­tério, são instrumentos de Deus em todos sacramentos. É a virtude divina que realiza a obra interiormente, realizando aquilo que é visível nos sinais sacramen­tais, suas palavras e gestos. Isto é claro pelo que Cristo disse a Pedro: "Tudo o que desatares sobre a terra, etc."; e também aos discípulos: "Aos que vós perdoardes os pecados, ser-­lhes-ão perdoados" (Jo 20, 23). Eu te absolvo está de acordo com as palavras ditas pelo Senhor quando deu o po­der das chaves. Como o sacerdote absolve na qualidade de ministro, se acrescentam palavras concernentes à primária autoridade de Deus, e são: Eu te absolvo em nome do Padre e do Filho e do Espírito Santo; ou seja, por virtude da paixão de Cristo; ou, por autoridade de Deus. Não sendo porém esse acréscimo determinado pelas palavras de Cristo, como no batismo, isso é deixado ao arbítrio dos sacerdotes.

4. Milagres de cura são realizados por Deus, mas parece que o milagre do perdão dos pecados é realizado pelo sacerdote.


Objeção: Assim como o Senhor deu aos discípulos o poder de absolver dos pecados, tam­bém lhes deu o poder de curar as enfermidades e expulsar os demônios. Ora, para curar os enfermos os Apóstolos não pronunciavam as palavras "Eu te curo", mas ­O Senhor Jesus Cristo te cure. Logo, parece que os sacerdotes, recebendo um poder outorgado por Cristo aos Apóstolos, não devem usar da fórmula - Eu te absolvo; mas - Cristo te dê a absol­vição.


Resposta: Aos Apóstolos não foi dado o poder de, por si mesmos, curarem os en­fermos, mas que estes fossem curados pelas ora­ções deles. Foi-lhes porém conferido o poder de celebrar os sa­cramentos. Por onde, nos sacramentos pode usar o modo indicativo - Eu te absolvo - mas quando curar doenças ou expulsam demônios, falam em forma de súplica - Que Deus te cure. Mas isto não é absoluto, às vezes, pois Pedro ordenou ao coxo - O que tenho isso te douEm nome de Jesus Cristo levanta-te e anda.

5. A absolvição dos pecados seria dependente de uma revelação de Deus, que não ocorre comumente a cada confissão. 


Objeção: Como lemos no Evangelho, antes de Cristo ter dito a Pedro: "Tudo o que ligares sobre a terra, etc.", disse-lhe: "Bem-aventurado és, Simão, filho de João, porque não foi a carne e sangue quem te revelou, mas sim meu Pai, que está nos céus (Mt 16, 17)"Assim, parece que o sacerdote, a quem não foi nenhuma feita revelação, diz presunçosamente "Eu te absolvo".


Resposta: Os sacramentos da Lei Nova não só signi­ficam, mas também realizam o que significam, e isto nos assegura a revelação "geral" da nossa fé, não sendo necessária uma revelação particular a cada sacramento.  Quando o sacerdote batiza alguém, o declara interiormente purificado, por palavras e por atos que não somente significam, mas produzem essa purificação; assim também quando diz  "Eu te absolvo", declara o penitente absolvido, não só significativa, mas também efetivamente.   Tanto no batismo quanto na penitência, o sacerdote age com a certeza da fé. Assim também todos outros sacramen­tos da lei nova produzem por si mesmos um efeito, em virtude da paixão de Cristo. 

Ao penitente que acreditar nesta absolvição, os horizontes se abrem. Como exemplo, Santo Agostinho declara: "Não é vergonhosa nem difícil, depois de perpetrado, mas expiado o adultério, a reconciliação dos cônjuges, quando, pelo poder das chaves do reino dos céus, não se tem mais dúvida sobre a remissão dos pecados".

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 3, de São Tomás de Aquino


1 de jul. de 2017

A confissão é necessária para a Salvação?

Será a confissão necessária para a Salvação? Não basta apenas confessar os pecados para Deus? Vejamos o que diz São Tomás de Aquino:

Há dois modos de um ato ser necessário à salvação:

  • obrigatório: trata-se de atos sem os quais não se pode alcançar a salvação, como a graça de Cristo e o sacramento do batismo pelo qual renascemos em Cristo. 
  • condicional, como o sacramento da penitência, pois é necessário apenas àqueles que estão em pecado. Conforme diz a Escritura: Assim, Senhor, Deus dos justos, não pediste penitência para os justos, para Abraão, Isaac e Jacó, que não pecaram contra Ti, mas pediste penitência para mim, que sou pecador (*) E na Carta a Tiago: Ora, o pecado, quando tiver sido realizado, gera a morte (Tg 1,5). 

Logo, para alcançar a salvação, é necessário que o pecador seja purificado do pecado, o que não pode ocorrer sem o sacramento da penitência, no qual a virtude da paixão de Cristo, a absolvição do sacerdote e a confissão do pecador cooperam com a graça para perdoar o pecado.

Por onde é claro que o sacramento da penitência é necessário à salvação, depois do pecado; assim como o remédio é necessário ao corpo de quem caiu em grave doença.

1. Mas arrepender-se de seus pecados não é suficiente?

O Salmo 126, 5-6 diz que "Os que semeiam entre lágrimas, colherão com alegria. Na ida, caminham chorando, os que levam a semente. Na volta, virão com alegria, quando trouxerem os seus feixes". E sobre esta tristeza que salva, São Paulo escreveu aos Coríntios: Porque a tristeza segundo Deus opera arrependimento para a salvação, da qual ninguém se arrepende; mas a tristeza do mundo opera a morte (2Co 7,10). Logo, o arrependimento sem a penitência bastaria à salvação.

Este argumento é parcial, pois apenas a boa intenção e o arrependimento não são suficientes para libertar do pecado; se bastassem, não haveria causa para tristezas. Mas quando a boa intenção é vencida pelo pecado, não pode ser restituída plenamente sem a penitência, pois a tristeza com os pecados remete ao passado, a absolvição dos pecados impulsiona o futuro.

A caridade não é suficiente para apagar os pecados?

A Escritura diz: A caridade cobre todos os delitos (Pv 10,12). E a seguir: Os pecados purificam-se pela misericórdia e pela fé (Pv 16,6). Ora, se o objetivo deste sacramento é só purificar os pecados, tendo caridade, fé e misericórdia, podemos alcançar a salvação, mesmo sem o sacramento da penitência.

Nem a fé, nem a caridade nem a misericórdia podem, sem a penitência, tirar-nos do estado de pecado. Pois a caridade não exige que nos arrependamos da ofensa cometida contra o amigo, nem que nos reconciliemos com ele. A fé requer que, pela virtude da paixão de Cristo, nos justifiquemos dos nossos pecados. E por fim também a misericórdia pede que reparemos pela penitência a nossa miséria, em que nos precipitou o pecado, segundo aquilo da Escritura: o pecado é a vergonha dos povos (Pv 14,34). Donde o outro dito da Escritura: deixa lá a tua oferta diante do altar e vai primeiro reconciliar-te com teu irmão (Mt 5:24).

Cristo não perdoou sem confissão ou penitência?

Os sacramentos da Igreja começaram com a instituição de Cristo. Ora, como lemos no Evangelho, Cristo perdoou a mulher adúltera, sem penitência (cf Jo 8,1-11). Logo, parece não ser a penitência necessária à salvação.

Pela excelência do poder, que só Cristo tinha, é que concedeu à mulher adúltera o efeito do sacramento da penitência - a remissão dos pecados - sem esse sacramento; embora não sem a penitência interior, que operou nela pela graça.

-- adaptado da Suma Teológica, III parte, questão 84, artigo 5, de São Tomás de Aquino

 (*) Este trecho de 2Cr 11 não está incluído na Bíblia Católica atual, mas faz parte de várias versões históricas, é um apêndice na Vulgata, provavelmente usada por São Tomás de Aquino, e ainda é mantido na versão luterana. 

14 de dez. de 2016

Quatro enganos comuns sobre o Sacramento da Reconciliação

Todos cometemos pecados e precisamos do
Sacramento da Reconciliação, a exemplo do
nosso Papa Francisco. 
O Sacramento da Reconciliação é essencial para o cristão por propiciar uma reaproximação com Cristo ao dar uma oportunidade ao fiel católico de reconhecer as suas faltas e, se delas estiver arrependido, ser perdoado por Deus. É um hábito salutar para  a alma procurar este sacramento com certa frequência ou sempre que houver algo pesando na consciência, pois considera-se que seu efeito purificador é salutar, sendo benéfico para a saúde espíritual e, muitas vezes, também para a saúde psicológica e física. 

No entanto, há algumas objeções que as pessoas costumam fazer, que gostaria de esclarecer, com a ajuda de São Tomás de Aquino.

1. A confissão não é necessária pois basta a graça de Deus

O sacramento da Reconciliação apaga os pecados que a pessoa tenha cometido e estes pecados podem ser um impedimento real para a Salvação da Alma, logo é um sacramento necessário para a Salvação. Assim como o Batismo apaga o pecado original, a confissão e a penitência apagam os pecados cometidos ao longo da vida. E, sim, todos nós cometemos pecados, maiores ou menores, mais ainda assim pecados.

Na confissão o penitente expia seus pecados temporais humilhando-se, reconhecendo-se fraco, e se submetendo ao padre, que representa a Deus, que tem o poder concedido por Deus de recomendar uma justa penitência e perdoar os pecados. Como apenas o sacerdote tem este poder, é importante confessar para um padre, não basta "falar com Deus".

2. Cristo perdoou alguns, como Pedro, Maria Madalena e Paulo, sem nem mesmo confessarem, pois Ele já sabia os pecados cometidos.

Se queres que um doutor cure tuas doenças é necessário que explique teus problemas. Se queres que Deus cure tuas fraquezas, fortaleça tua saúde espiritual, é necessário que confesses estas fraquezas, teus pecados. 

Além disso, os Evangelhos são como um resumo da vida de Cristo, como São Lucas diz, não haveria livros para contar todos os milagres e maravilhas realizados por Cristo. Assim é bem possível que eles tenham confessado seus pecados, apenas que este fato não tenha sido registrado. Além disso, apenas Cristo, enquanto Deus, tem o poder da onisciência, não nossos padres. 

3.  A confissão não é necessária por que a pessoa pode desculpar seus próprios erros, afinal são "seus" pecados. 

É verdade que a pessoa, por sua própria e livre vontade, resolveu cometer más ações, e que, neste sentido, pode ser o único causador dos seus pecados. Mas seus pecados nunca estão restritos apenas a ele, sempre afetam outras pessoas. Por exemplo, contar uma mentira atinge outra pessoa, que agirá de acordo com o que ouviu, não de acordo com a verdade. 

Alguns pecados tem uma grande repercussão, outros menor, mas sempre outros são afetados. Neste sentido, o homem não basta a si mesmo, é necessário que escute a outro, que irá analisar a situação e recomendar o remédio (penitência) adequado. Assim, confessar para um padre é fundamental.

4. O padre sempre repete a mesma penitência, já posso ir rezando uns Pai-Nossos pelos meus pecados. Ou a penitência é sempre "levezinha", eu mesmo acho merecer algo bem maior.

Achar que a penitência sempre deve ser proporcional à gravidade do pecado é comparar um sacramento ao processo judicial, onde crimes mais graves são punidos de maneira mais forte, esquecendo a Misericórdia de Deus. O sacramento é eficaz não pelo tamanho da penitência, mas pelo poder do sacramento, que só é possível se efetivamente ministrado por um sacerdote.

-- texto adaptado da Suma Teológica (suplemento da 3a. parte, questão 6, artigo 1), de São Tomás de Aquino.  


11 de nov. de 2014

Enquanto estamos aqui na terra, façamos penitência

Enquanto estamos aqui na terra, façamos penitência. Com efeito, somos argila na mão do artífice. Se o oleiro, tendo feito um vaso, e, em suas mãos, este se entorta ou quebra, de novo torna a fazê-lo. Se, porém,se decidiu a pô-lo no forno, nada mais há que fazer. Assim também nós, enquanto estamos no mundo e temos tempo, façamos, de coração, penitência pelos pecados cometidos, para sermos salvos pelo Senhor.

Porque depois de sairmos do mundo já não mais poderemos reconhecer os nossos pecados nem fazer penitência. Por este motivo, irmãos, se fizermos a vontade do Pai, mantivermos casto nosso corpo e guardarmos os preceitos do Senhor, alcançaremos a vida eterna. O Senhor disse no evangelho: Se não fordes fiéis no pouco, quem vos confiará o muito? Pois eu vos digo: quem é fiel no pouco também será fiel no muito (cf. Lc 16,10-11). Quis dizer: Guardai casto o corpo e imaculado o caráter, para que sejamos dignos de receber a vida.

E ninguém venha dizer que a carne não será julgada nem ressurgirá. Confessai: em que fostes salvos, em que recobrastes a vista, se não foi vivendo ainda nesta carne? Convém-nos, portanto, proteger a carne como templo de Deus. Tal qual fostes chamados no corpo, assim no corpo ireis. Cristo Senhor, que nos salvou, era antes só espírito e fez-se carne e assim nos chamou. Do mesmo modo também nós receberemos a recompensa neste corpo. 

Amemo-nos, pois, uns aos outros, para entrarmos todos no reino de Deus. Enquanto temos tempo de ser curados, entreguemo-nos a Deus médico, dando-lhe a paga. Que paga? A penitência brotada de um coração sincero. Com efeito, ele prevê todas as coisas e conhece o que se passa em nosso íntimo. Louvemo-lo, pois, não só de boca, mas de coração, para que nos receba como filhos. De fato o Senhor disse: Meus irmãos são aqueles que fazem a vontade de meu Pai (cf. Lc 8,21s).

-- Homília de um autor desconhecido, do século II

27 de jan. de 2014

Unidade da Igreja - parte VII

O pecado dos confessores

[* Os confessores eram os cristão que afirmavam a fé perante os perseguidores, e por um motivo ou outro, não eram condenados a morte. ].

Não deveis estranhar, irmãos diletíssimos, que até entre os confessores haja alguns que caíram nestes crimes (apostasia). Acontece também que alguns deles cometam outros pecados graves e vergonhosos. A confissão da fé não torna uma pessoa imune das ciladas do demônio. A quem ainda vive neste mundo ela não comunica uma perpétua segurança contra as tentações, os perigos e o ímpeto dos ataques mundanos. Se assim fosse, não veríamos, em confessores, os roubos, os estupros e os adultérios, que agora, com imensa tristeza, devemos lamentar em alguns deles.
Catedral de São Sebastião, Rio de Janeiro

Quem quer que seja um confessor, ele não poderá ser maior, melhor e mais amigo de Deus que Salomão. Entretanto, este, durante o tempo em que se manteve nos caminhos do Senhor, conservou a benevolência com que o mesmo Senhor o tinha favorecido, mas quando se desviou destes caminhos, perdeu também a benevolência do Senhor (3Rs 11,9).

Por isto diz a Escritura: "Segura o que tens, para que um outro não tome a tua coroa" (Ap 3,11). Se lá o Senhor ameaça tirar a alguém a coroa da justiça, é sinal que quem renuncia à justiça fica privado também da coroa.

A honra da confissão aumenta o dever do bom exemplo

A confissão da fé é um preâmbulo da glória, mas não é ainda a posse da coroa. Não é a glória definitiva, mas só o início do mérito. Está escrito: "O que perseverar até o fim, este será salvo" (Mt 10,22). Tudo pois o que fazemos antes do fim é só um passo com o qual vamos subindo ao monte da salvação, mas só ao fim da subida chegaremos à posse perfeita do cume.

Trata-se de um confessor? Ora, depois da confissão da fé, o perigo torna-se maior, porque o adversário está mais enraivecido contra ele.

É confessor? Por isto, mais do que nunca, deve permanecer fiel ao Evangelho do Senhor, ele que pelo Evangelho conseguiu esta honra. Diz o Senhor: "A quem muito é dado, muito será pedido e a quem é concedida maior dignidade, deste exigem-se maiores serviços" (Lc 12,48). Ninguém se deixe levar à perdição pelo mau exemplo de algum confessor. Ninguém aprenda, do seu modo de proceder, a injustiça, a arrogância ou a perfídia.

É confessor? Seja humilde e tranqüilo em todo o seu comportamento, seja disciplinado e modesto, de modo que, como é chamado confessor de Cristo, imite também aquele Cristo que confessa "Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado" (Lc 18,14). Assim disse ele, e foi exaltado pelo Pai, porque, sendo ele a Palavra, a Virtude e a Sabedoria de Deus Pai, se humilhou a si mesmo na terra. E como poderia amar a altivez, ele que, com a sua lei nos preceituou a humildade, e, em prêmio da sua humildade, recebeu do Pai o nome mais sublime? (Fl 2,9)

Alguém foi confessor de Cristo? Muito bem, mas, depois, por sua culpa, não sejam blasfemadas a majestade e a santidade do próprio Cristo. A língua que confessou a Cristo não seja maldizente nem sediciosa, não se ouça vociferando em altercações e brigas; depois de palavras tão divinas de louvor não vá vomitando veneno de serpente contra os irmãos e contra os sacerdotes de Deus.

Em suma, se alguém, depois da confissão, se tornou culpável e detestável, se aviltou a sua confissão com maus comportamentos, se manchou a sua vida com torpezas indignas, se, afinal, abandonou a Igreja, na qual se tornara confessor, e, quebrando a harmonia da unidade, trocou a fé de então com a perfídia, um tal homem não pode lisonjear-se, presumindo da sua confissão, de ser como que predestinado ao prêmio da glória. Ao contrário, por isto mesmo, aumentaram seus títulos para o castigo.

Elogio dos confessores

Catedral do Bom Pastor, San Sebastian,
Espanha.
Vemos também que chamou a Judas entre os Apóstolos, e este Judas, em seguida, traiu o Senhor. A fé e a perseverança dos Apóstolos não esmoreceram pelo fato que Judas traidor tinha pertencido ao seu grupo. Igualmente em nosso caso: a santidade e a dignidade dos confessores não ficam destruídas, se naufragou a fé em alguns deles.

O bem-aventurado apóstolo Paulo diz numa das suas cartas: "Se alguns decaíram da fé, será que a sua infidelidade tornou vã a fidelidade de Deus? De modo algum. De fato, Deus é verídico e todo homem é mentiroso" (Rom 3,3-4; Sl 115,11).

A maioria e a parte melhor dos confessores mantém-se no vigor da sua fé e na verdade da lei e da disciplina do Senhor. Lembrando-se de ter alcançado a graça e a benevolência de Deus na Igreja, não se afastam da paz da mesma Igreja. Nisto merecem mais amplo louvor pela sua fé, porque, desligando-se da perfídia daqueles que já foram seus companheiros na confissão, resistiram ao contágio do mal. Iluminados pela luz verdadeira do Evangelho, brilhando na pura e cândida claridade do Senhor, mostram-se tão dignos de encômio na conservação da paz de Cristo, quanto o foram no combate, quando se tornaram vencedores do demônio.

-- São Cipriano de Cártago (século III)

12 de mar. de 2013

A misericórdia do Senhor para com os pecadores que se convertem

São Máximo, o Confessor (c.580-662)

Os pregadores da verdade e os ministros da graça divina, todos os que, desde o princípio até os nossos dias, cada um a seu tempo, expuseram a vontade salvífica de Deus, dizem que nada lhe é tão agradável e conforme a seu amor como a conversão dos homens a ele com sincero arrependimento.

E para dar a maior prova da bondade divina, o Verbo de Deus Pai (ou melhor, o primeiro e único sinal de sua bondade infinita), num ato de humilhação que nenhuma palavra pode explicar, num ato de condescendência para com a humanidade, dignou-se habitar no meio de nós, fazendo-se homem. E realizou, padeceu e ensinou tudo o que era necessário para que nós, seus inimigos e adversários, fôssemos reconciliados com Deus Pai e chamados de novo à felicidade eterna que havíamos perdido.

O Verbo de Deus não curou apenas nossas enfermidades com o poder dos milagres. Tomou sobre si as nossas fraquezas, pagou a nossa dívida mediante o suplício da cruz, libertando-nos dos nossos muitos e gravíssimos pecados, como se ele fosse o culpado, quando na verdade era inocente de qualquer culpa. Além disso, com muitas palavras e exemplos, exortou-nos a imitá-lo na bondade, na compreensão e na perfeita caridade fraterna. 

Por isso dizia o Senhor: Eu não vim chamar os justos, mas sim os pecadores para a conversão (Lc 5,32). E também: Aqueles que têm saúde não precisam de médicos, mas sim os doentes (Mt 9,12). Disse ainda que viera procurar ao velha desgarrada e que fora enviado às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Do mesmo modo, pela parábola da dracma perdida, deu a entender mais veladamente que viera restaurar no homem a imagem divina que estava corrompida pelos mais repugnantes pecados. E afirmou: Em verdade eu vos digo, haverá alegria no céu por um só pecador que se converte (cf. Lc 15,7).

Por esse motivo, contou a parábola do bom samaritano: àquele homem que caíra nas mãos dos ladrões, e fora despojado de todas as vestes, maltratado e deixado semimorto, atou-lhe as feridas, tratou-as com vinho e óleo e, tendo colocado em seu jumento, deixou-o numa hospedaria para que cuidassem dele; pagou o necessário para o seu tratamento e ainda prometeu, dar na volta, o que porventura se gastasse a mais.

Mostrou-nos ainda a condescendência e bondade do pai que recebeu afetuosamente o filho pródigo que voltava, como o abraçou porque retornara arrependido, revestiu-o de novo com as insígnias de sua nobreza familiar e esqueceu todo o mal que fizera. Pela mesma razão, reconduziu ao redil a ovelhinha que se afastara das outras cem ovelhas de Deus e fora encontrada vagueando por montes e colinas. Não lhe bateu nem a ameaçou nemextenuou de cansaço; pelo contrário, colocando-a em seus próprios ombros, cheio de compaixão, trouxe-a sã e salva para o rebanho.

E deste modo exclamou: Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo (Mt 11,28-29). Ele chamava de jugo os mandamentos ou a vida segundo os preceitos evangélicos; e quanto ao peso, que pela penitência parecia ser grande e mais penoso, acrescentou: O meu jugo é suave e o meu fardo é leve (Mt 11,30). 

Outra vez, querendo nos ensinar a justiça e a bondade de Deus, exortava-nos com estas palavras: Sede santos, sede perfeitos, sede misericordiosos, como também vosso Pai celeste é misericordioso (cf. Mt 5,48; Lc 6,36). E: Perdoai, e sereis perdoados (Lc 6,37). Tudo quanto quereis que os outros vos façam, fazei também a eles (Mt 7,12).

-- Das Cartas de São Máximo, o Confessor, abade (século VII)

12 de mai. de 2012

Cristo nos confiou o ministério da reconciliação


São Cirilo de Alexandria

Os que possuem o penhor do Espírito e vivem na esperança da ressurreição, como se já possuíssem aquilo que esperam,podem dizer que desde agora não reconhecem a ninguém segundo a carne; pois somos todos espirituais e isentos da corrupção da carne. Com efeito, desde que brilhou para nós a Luz do Unigênito de Deus, fomos transformados no próprio Verbo que dá vida a todas as coisas. E assim como nos sentíamos acorrentados pelos laços da morte, quando reinava o pecado, agora ficamos livres da corrupção, ao chegar a justiça de Cristo.

Por conseguinte, doravante ninguém vive mais sob o domínio da carne, isto é, sujeito à fraqueza carnal. A ela com certeza, entre outras coisas, deve ser atribuída a corrupção. Neste sentido afirma o apóstolo Paulo: Se uma vez conhecemos Cristo segundo a carne,agora já não o conhecemos assim (2Cor 5,16). Como se quisesse dizer: O Verbo se fez carne e habitou entre nós (Jo 1,14), sujeitando-se à morte segundo a carne, para a salvação de todos. Foi deste modo que o conhecemos; todavia, desde este momento, já não é mais assim que o reconhecemos. É verdade que ele conserva a sua carne, pois resuscitou ao terceiro dia, e vive no céu, à direita do Pai; mas a sua existência é superior à vida da carne. Tendo morrido uma vez, Cristo não morre mais; a morte já não tem poder sobre ele. Pois aquele que morreu, morreu para o pecado uma vez por todas; mas aquele que vive, é para Deus que vive (Rm 6,9-10).

Então, se ele se apresentou diante de nós como modelo de vida, é absolutamente necessário que também nós, seguindo seus passos, façamos parte daqueles que não vivem mais na carne mas acima da carne. É o que diz o grande Paulo, com toda razão: Se alguém está em Cristo, é uma nova criatura. O mundo velho desapareceu. Tudo agora é novo (2Cor 5,17). Fomos justificados pela fé em Cristo e terminou o domínio da maldade. Uma vez que ele resuscitou por nossa causa, calcando aos pés o poder da morte, nós conhecemos aquele que por sua própria natureza é o verdadeiro Deus. É a ele que prestamos culto em espírito e verdade, por intermédio de seu Filho que distribui sobre o mundo as bênçãos divinas do Pai.

Por esse motivo, São Paulo diz com muita sabedoria: Tudo vem de Deus que, por Cristo, nos reconciliou consigo (2Cor 5,18). Realmente, o mistério da encarnação e a renovação a que ela deu origem não se realizaram sem a vontade do Pai. É por Cristo que temos acesso ao Pai, como ele próprio afirma: ninguém pode ir ao Pai senão por ele. Portanto, tudo vem de Deus que, por Cristo, nos reconciliou consigo e nos confiou o ministério da reconciliação.

-- Dos Comentários sobre a Segunda Carta aos Coríntios, de São Cirilo de Alexandria, bispo (século V)

4 de nov. de 2011

Meios de preparar-se para a morte


A Morte de São José, por Giuseppe Crispi. A direita, Jesus
abençoa seu pai; a esquerda, a Virgem Maria ora por ele. Os
anjos aguardam, para conduzi-lo aos céus. No chão, as
ferramentas de carpinteiro que já não são mais necessárias.
 
Todos cremos que temos de morrer, que só uma vez havemos de morrer e que não há coisa mais importante que esta, porque do instante da morte depende a eterna bem-aventurança ou a eterna desgraça.

Todos sabemos também que da boa ou má vida depende o ter boa ou má sorte. Como se explica, pois, que a maior parte dos cristãos vivem como se nunca devessem morrer, ou como se importasse pouco morrer bem ou mal? Vive-se mal porque não se pensa na morte: "Lembra-te de teus novíssimos, e não pecarás jamais." É preciso persuadirmo-nos de que a hora da morte não é o momento próprio para regular contas e assegurar com elas o grande negócio da salvação. As pessoas prudentes deste mundo tomam, nos negócios temporais, todas as precauções necessárias para obter tal benefício, tal cargo, tal casamento conveniente, e, com o fim de conservar ou restabelecer a saúde do corpo, não deixam de empregar os remédios adequados. Que se diria de um homem que, tendo de apresentar-se ao concurso de uma cadeira, esperasse, para adquirir a indispensável habilitação, até ao momento de acudir aos exercícios? Não seria um louco o comandante de uma praça que esperasse vê-la sitiada para fazer provisões de víveres e armamentos?

Não seria insensato o navegante que aguardasse a tempestade para munir-se de âncoras e cabos?... Tal é, todavia, o procedimento do cristão que difere até à hora da morte o regular o estado de sua consciência. Quando cair sobre eles à destruição como uma tempestade... então invocar-me-ão e não os escutarei... Comerão os frutos do seu mau proceder (Pr 1,27.28.31).

A hora da morte é tempo de confusão e de tormenta. Então os pecadores implorarão o socorro do Senhor, mas sem conversão verdadeira, unicamente com o receio do inferno, em que se vêem próximos a cair. É por este motivo justamente que não poderão provar outros frutos que os de sua má vida. Aquilo que o homem semeou, isto também colherá (Gl 6,8). Não bastará receber os Sacramentos, mas será preciso morrer detestando o pecado e amando a Deus sobre todas as coisas. 

Como, porém, poderá aborrecer os prazeres ilícitos aquele que até então os amou?... Como amará a Deus sobre todas as coisas aquele que até esse instante tiver amado mais as criaturas do que a Deus? O Senhor chamou loucas - e na verdade o eram - as virgens que queriam preparar as lâmpadas quando já chegava o esposo. Todos temem a morte repentina, que impede regular as contas da alma. Todos confessam que os Santos foram verdadeiros sábios, porque souberam preparar-se para a morte antes que essa chegasse... E nós, que fazemos nós? Queremos correr o perigo de nos prepararmos para bem morrer, quando a morte nos estiver já próxima? Façamos agora o que nesse transe quiséramos ter feito... Oh! quanto é terrível então recordar o tempo perdido, e sobretudo o tempo mal empregado!... O tempo que Deus nos concedeu para merecer, mas que passou para nunca voltar. 

Que angústia nos dará o pensamento de que já não é possível fazer penitência, freqüentar os sacramentos, ouvir a palavra de Deus, visitar Jesus Sacramentado, fazer oração! O que está feito, está feito (Lc 16,21). 

Seria necessário ter então mais presença de espírito, mais tranqüilidade e serenidade para confessar-se bem, para dissipar graves escrúpulos e tranqüilizar a consciência... mas já não é tempo! (Ap 10,6). 

Já que é certo, meu irmão, que tens de morrer, prostra-te aos pés do Crucifixo; agradece-lhe o tempo que sua misericórdia te concede para regular tua consciência, e passa em revista a seguir todas as desordens de tua vida passada, especialmente as de tua mocidade. Considera os mandamentos Divinos: recorda os cargos e ocupações que tiveste, as amizades que cultivastes; anota tuas faltas e faze - se ainda a não fizeste - uma confissão geral de toda a tua vida... Oh! quanto contribui a confissão geral para pôr em boa ordem a vida de um cristão.

Cuida que essa conta sirva para a eternidade, e trata de resolvê-la como se a apresentasses no tribunal de Jesus Cristo. Afasta de teu coração todo afeto mau e todo rancor ou ódio. Satisfaze qualquer motivo de escrúpulo acerca dos bens alheios, da reputação lesada, de escândalos dados, e propõe firmemente fugir de todas as ocasiões em que possas perder a Deus. Pensa que aquilo que agora parece difícil, impossível te parecerá no momento da morte. 

O que mais importa é que resolvas pôr em execução os meios de conservar a graça de Deus. Esses meios são: ouvir Missa diariamente; meditar nas verdades eternas; fazer, ao menos uma vez por semana, a confissão e receber a comunhão; visitar todos os dias o Santíssimo Sacramento e a Virgem Maria; assistir aos exercícios das congregações ou irmandades a que pertenças; praticar a leitura espiritual; fazer todas as noites exame de consciência; escolher alguma devoção especial à Virgem, como jejuar todos os sábados, e, por fim, propor recomendar- se a Deus e à sua Mãe Santíssima, invocando a miúdo, sobretudo no tempo da tentação, os santíssimos nomes de Jesus e Maria. 

Tais são os meios com que podemos alcançar uma boa morte e a salvação eterna. 

Exercer essas práticas será sinal evidente de nossa predestinação. 

Pelo que diz respeito ao passado, confiai no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vos dá estas luzes porque quer salvar-vos, e esperai na intercessão de Maria, que vos obterá as graças necessárias. Com a vida assim regulada, e a esperança posta em Jesus e Maria, quanto nos ajuda Deus, e que força não adquire a alma! Coragem, pois, meu leitor, entrega-te todo a Deus, que te chama, e começa a gozar dessa paz que até agora, por culpa tua, não experimentaste. Pode, porventura, uma alma desfrutar paz maior que a de poder dizer todas as noites, ao descansar: se viesse esta noite a morte, morreria, segundo espero, na graça de Deus!? Que consolação se, ao ouvir o fragor do trovão, ao sentir a terra tremer, pudermos esperar resignadamente a morte, se Deus assim o tiver determinado! 
A Morte da Virgem Maria, obra de Caravaggio.
Maria Madalena e os apóstolos lamentam a morte da Virgem.
Considerada por demais triste, pois não há nenhum
elemento que sujira sua Assunção aos céus, a obra foi
recusada pelos frades que a encomendaram.

É necessário o cuidado de nos acharmos em qualquer tempo, como quiséramos estar na hora da morte. Bem-aventurados os mortos que morrem no Senhor (Ap 14,13). Diz Santo Ambrósio que morrem felizmente aqueles que ao morrer já estão mortos para o mundo, ou seja desprendidos dos bens que por força então hão de deixar. Por isso, é necessário que desde já aceitemos o abandono de nossa fazenda, a separação de nossos parentes e de todos os bens terrenos. Se não o fizermos voluntariamente durante a vida, forçosa e necessariamente o teremos de fazer na morte, com a diferença de que então não será sem grande dor e grave perigo de nossa salvação eterna. Adverte-nos, neste propósito, Santo Agostinho, que constitui grande alívio, para morrer tranqüilo, regular em vida os interesses temporais, fazendo previamente as disposições relativas aos bens que temos de deixar, a fim de que na hora derradeira somente pensemos em nossa união com Deus. Convirá então só ocupar-se das coisas de Deus e da glória, pois são demasiadamente preciosos os últimos momentos da vida para dissipá-los em assuntos terrenos. No transe da morte se completa e se aperfeiçoa a coroa dos justos, porque é então que se recolhe a melhor soma de méritos, abraçando as dores e a própria morte com resignação ou amor. 

Mas não poderá ter na morte estes bons sentimentos quem neles não se exercitou durante a vida. Para este fim alguns fiéis praticam, com grande aproveitamento, a devoção de renovar em cada mês o protesto da morte, com todos os atos em tal transe próprios de um cristão, e isto depois de receber os sacramentos da confissão e comunhão, imaginando que se acham moribundos e a ponto de sair desta vida. 

O que se não faz na vida, difícil é fazê-lo na morte. A grande serva de Deus, irmã Catarina de Santo Alberto, filha de Santa Teresa, suspirava na hora da morte, exclamando: "Não suspiro, minhas irmãs, por temor à morte, pois há vinte e cinco anos que a espero; suspiro porque vejo tantos pecadores iludidos que esperam para reconciliar-se com Deus até à hora da morte, quando apenas poderão pronunciar o nome de Jesus". 

Examina, pois, meu irmão, se teu coração tem apego a qualquer coisa da terra, a determinadas pessoas, honras, riquezas, casa, sociedade ou diversões, e considera que não hás de viver aqui eternamente. 

Virá o dia, talvez próximo, em que deverás deixar tudo. Por que, neste caso, manter o afeto nessas coisas, correndo risco de ter morte inquieta?... 

Oferece-te, desde já, por completo a Deus, que pode, quando lhe aprouver, privar-te desses bens. Quem quiser morrer resignado, há de ter resignação desde agora em todos os acidentes contrários que lhe possam suceder; e há de afastar de si os afetos às coisas da terra. - Afigura-te que vais morrer - diz São Jerônimo - e facilmente conseguirás desprezar tudo. 

Se ainda não escolheste estado de vida, toma aquele que na hora da morte quererias ter escolhido e que possa proporcionar-te um trânsito mais consolador à eternidade. Se já tens um estado, faze tudo que ao morrer quiseras ter feito nesse estado. Procede como se cada dia fosse o último da vida, cada ação a derradeira que praticas; a última oração, a última confissão, a última comunhão. Imagina que estás moribundo, estendido sobre o leito, e que ouves aquelas palavras imperiosas: Sai deste mundo. Quanto estes pensamentos nos podem ajudar a caminhar bem e a menosprezar as coisas mundanas! Bem-aventurado aquele servo, a quem o seu senhor, quando vier, achar procedendo assim (Mt 24,46). Aquele que espera a toda hora a morte, ainda que esta venha subitamente, não pode deixar de morrer bem.

-- Do Livro Preparação para a Morte, de Santo Afonso Maria Ligório (século XVII)

17 de set. de 2011

Conselhos espirituais de São João de Deus

Cada um nós caminha na estrada preparada por Deus. Alguns são chamados a serem monges, outros cléricos, outros eremitas. Outros, ainda, são chamados ao matrimônio. Deus chamou-nos, podemos salvar nossas almas, se assim o desejarmos. 

A Deus devemos três coisas: amor, serviço e reverência. Devemos amá-lo como nosso Pai celestial acima de todas as coisas do mundo. Devemos servi-lo como nosso mestre, não pelo prêmio que nos promete, mas pela sua bondade. Devemos reverenciá-lo como nosso criador, nunca pronunciando seu santo nome, exceto para agradecê-lo e bendizê-lo. 

Cara duquesa, quando te sentires deprimida, reflete sobre a paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo e seus preciosos sofrimentos e, então, experimentarás grande consolação. Contemple a vida de Cristo. O que foi ela senão uma longa sequencia de afazeres e sofrimentos para nos dar o exemplo? Durante o dia, Ele pregava às multidões. Durante as noites, Ele rezava. Por que então, poderíamos nós, pobre pecadores que somos, procurar confortos e riquezas?

Se somos mestres de todo mundo, não podemos estar em melhores condições. Se nós tivéssemos mais riquezas, não poderíamos estar mais contentes. Realmente feliz é quem, apesar de tudo, coloca seu coração em Jesus Cristo. Ele nos deu tudo, assim como desejas fazê-lo. Confesse que amas a Jesus Cristo mais que qualquer coisa no mundo. E nele e por ele, teus próximos. Então vais salvar tua alma. 

-- De uma carta de São João de Deus à uma amiga, duquesa. (século XV). Tradução particular. 

22 de jul. de 2011

Cristo morreu por todos

O Livro Confissões de Santo Agostinho é a primeira autobiografia
escrita no Ocidente, quando tinha cerca de 40 anos, narra os pecados
que havia cometido através de uma vida imortal e como se dedicou
ao Maniqueísmo e Astrologia, dos quais se converteu graças aos
argumentos de Santo Ambrósio e orações de sua mãe, Santa Mônica.
É um livro fundamental na história do Cristianismo, cuja leitura
é recomendada.
Aquele que em tua secreta misericórdia revelaste aos humildes e lhes enviaste para que nos ensinasse a humildade, o verdadeiro mediador, esse mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, apareceu entre os pecadores mortais como justo mortal: mortal com os homens, justo com Deus. Sendo a recompensa da justiça a vida e a paz, pela justiça unida a Deus, ele destruiu a morte dos ímpios justificados, através dessa morte que desejou igual à deles. Quanto nos amaste, Pai bom, que não poupaste teu Filho único, mas por nós, ímpios, o entregaste! Como nos amaste, quando por nós ele não julgou rapina ser igual a ti, fez-se obediente até à morte da cruz, ele, o único livre entre os mortos, com poder de entregar sua vida e o poder de retomá-la! Tudo ele fez por nós, diante de ti vitorioso e vítima, vitorioso porque vítima. Por nós, diante de ti sacerdote e sacrifício, sacerdote porque sacrifício. Fazendo de nós, servos, filhos para ti, nascendo de ti, a nós servindo.

Com muita razão minha grande esperança está nele, porque curarás todas as minhas fraquezas, por aquele que se assenta à tua direita e intercede por nós. De outro modo, desesperaria. Pois são muitas e grandes estas minhas fraquezas. São muitas e enormes. Porém muito maior é teu remédio. Teríamos podido pensar que teu Verbo estava longe de unir-se aos homens e entregarmo-nos ao desespero, se ele não se tivesse feito carne e habitado entre nós. Apavorado com meus pecados e como peso de minha miséria, eu revolvia no espírito e pensava em fugir para o deserto. Mas me impediste e me fortaleceste dizendo-me: Para isto Cristo morreu por todos, para que os que vivem não mais vivam para si, mas para aquele que por eles morreu.

Agora, Senhor, lanço em ti meus cuidados para viver e considerarei as maravilhas de tua lei. Tu conheces minha ignorância e fragilidade: ensina-me, cura-me! O teu Único, em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e da ciência, me remiu por seu sangue. Não me caluniem os soberbos, porque reflito no preço dado por mim. Como, bebo, distribuo e, pobre, desejo saturar-me dele entre aqueles que dele comem e são saciados. Com efeito, louvarão o Senhor aqueles que o procuram.

-- Do Livro das Confissões, de Santo Agostinho, bispo (século V)

14 de mar. de 2011

Confissões, de São Patrício - parte final

Certa vez São Patrício teve que explicar o que era a Santíssima Trindade. Usando um trevo de três folhas, explicou que assim como o trevo era um, embora constituído de três folhas, assim é a Santíssima Trindade, três pessoas em unidade. Daí se ver difundida na cultura popular irlandesa a figura do trevo de três folhas.

Eis que invoco o testemunho divino sobre minha alma como prova de que não estou mentindo: nem escreveria a vós para dar ocasião de lisonja ou avareza, nem esperaria pela honra de qualquer de vós; suficiente na verdade é a honra que não é vista, mas na qual o coração confia; fiel é o que promete; ele nunca mente.

São Patrício segurando um trevo de três folhas.
Mas vejo que aqui mesmo tenho sido exaltado sobremodo pelo Senhor, eu não era digno de que ele me concedesse isso, porquanto eu sei com certeza que a pobreza e a calamidade se adequariam melhor a mim do que a riqueza e o deleite (mas Cristo o Senhor se fez pobre por nós) eu realmente miserável e infeliz sou e mesmo que quisesse a riqueza não posso, nem é este meu próprio juízo; porque cotidianamente espero ser morto, traído ou reduzido à servidão se a ocasião surgir, mas nada temo por causa das promessas celestiais, porque me lancei nas mãos de Deus onipotente, que reina para todo o sempre, assim como diz o profeta: “lançai a sua carga sobre Deus e ele vos sustentará”.

Eis que agora recomendo minha alma ao meu fidelíssimo Deus, por quem cumpro a minha missão apesar da minha insignificância, mas porque ele não faz acepção de pessoas e me escolheu para esta obra para que eu fosse um dos menores de seus ministros.

Por esta razão eu devo retribuí-los por tudo que ele me tem retribuído. Mas o que deveria dizer ou prometer ao meu Senhor, só tenho aquilo que ele próprio me concedeu? Mas deixe que ele sonde meu coração e minhas entranhas porque almejo muito por isso, demasiadamente até, e estou pronto para que ele me conceda beber do seu cálice, assim como concedeu a outros que o amaram.

Pela vontade do meu Deus, que eu jamais seja separado do seu povo que ele ganhou nos lugares mais remotos da terra. Eu oro a Deus para que ele me dê perseverança e que ele me conceda ser uma fiel testemunha por amor a ele desde agora até o tempo da minha passagem ao meu Deus.

E se em qualquer momento fiz algo bom por amor ao meu Deus, a quem amo, imploro que ele me conceda, derramar meu sangue pelo seu nome, junto com os convertidos e cativos, seja mesmo eu insepulto ou meu cadáver miserável seja partido membro a membro pelos cães ou pelas feras selvagens, ou ainda devorado pelos pássaros do céu. Certamente penso que se isso ocorresse a mim, eu ganharia como recompensa minha alma e meu corpo, porque além de qualquer dúvida naquele dia ressuscitaremos na claridade do sol, isto é, na glória de Cristo nosso redentor, como filhos do Deus vivo e co-herdeiros de Cristo, destinados a ser conforme a sua imagem, porque através dele, por ele e nele, reinaremos.

Pois o sol que vemos nasce todos os dias para nós sob seu comando, mas nunca governará e nem irá durar o seu esplendor, mas antes todos os que o adoram irão desgraçadamente a punição; mas nós que acreditamos e adoramos o verdadeiro sol, Cristo, que nunca morrerá, nem aquele que fizer a sua vontade, mas permanecerá para sempre exatamente como Cristo permanece para eternamente, e que reina com Deus pai todo poderoso e com o Espírito Santo antes do começo dos tempos e agora e para sempre. Amém.

Pois o sol que vemos nasce todos os dias para nós sob seu comando, mas nunca governará e nem irá durar o seu esplendor, mas antes todos os que o adoram irão desgraçadamente a punição; mas nós que acreditamos e adoramos o verdadeiro sol, Cristo, que nunca morrerá, nem aquele que fizer a sua vontade, mas permanecerá para sempre exatamente como Cristo permanece para eternamente, e que reina com Deus pai todo poderoso e com o Espírito Santo antes do começo dos tempos e agora e para sempre. Amém.

Mas eu imploro aos que crêem e temem a Deus, que se dignem a examinar, bem como receber este texto composto pelo pecador Patrício, indouto, escrito na Irlanda, que ninguém jamais atribua a minha ignorância, qualquer coisa insignificante que eu possa ter exposto segundo agrado de Deus, mas aceite e verdadeiramente acredite que isso foi um dom de Deus. Esta é a minha confissão antes de morrer.

-- Das Cartas de São Patrício, (século V)
-- texto retirado do site Patrística Brasil, onde o autor traduziu do latim.

1 de mar. de 2011

Confissões, de São Patrício - parte II

São Patríco não teve oportunidade de estudar muito quando jovem. Não obstante, era muito inteligente, aprimorou-se nos essenciais da fé e tornou-se muito familiar com as Escrituras, embora alguns estudiosos questionem onde exatamente ocorreu o seu preparo e educação. Independente da duração e local de seu aprendizado, Patricio provou ser um brilhante missionário e um grande pastor. Paladium foi indicado em 431 pelo Papa Celestino (422-432), mas morreu ou, como parece ser mais provável, não teve sucesso e foi para a Escócia. Em seu lugar foi indicado Patricio, o qual foi consagrado bispo e enviado para a missão na Irlanda. Nos próximos 24 anos, Patricio viajou por todos as cinco províncias da ilha e conseguiu a conversão de praticamente todo o povo irlandês. Ele escreveu , pouco antes de sua morte "........ vim passar anos na Irlanda onde quase ninguém tinha conhecimento de Deus .....e temos agora um povo do Senhor, e são chamados Filhos de Deus......"

Seguimos agora com a segunda parte do texto intitulado Confissões.


E depois de uns poucos anos eu estava de novo na Bretanha com meus pais, que me acolheram como um filho e rogaram-me intensamente que eu, após ter passado por  tantas tribulações que nunca partisse para longe deles; e neste lugar naturalmente vi numa  visão noturna um homem vindo como que da Irlanda, cujo nome era Victoricus, com  inumeráveis cartas, e deu para mim uma delas e logo no princípio da carta estava escrito: “A  voz dos irlandeses” e enquanto eu recitava o princípio da carta, pareceu-me naquele momento  ouvir as vozes daqueles que estavam perto da floresta de Vocluti que fica perto do mar  ocidental, e ainda exclamavam como se fosse uma só voz: “Nós te rogamos, santo jovem,  venha e caminhe novamente entre nós” e eu estava tão profundamente tocado no meu coração  que nem pude ler mais e assim despertei. Graças a Deus, porque depois de muitos anos, o  Senhor concedeu-lhes a sua súplica.
Entre as lendas relacionadas à São
Patríco, conta-se que teria expulsado
as cobras da Irlanda. .

E outra noite –não sei, Deus o sabe, se dentro de mim ou próximo a mim- foram pronunciadas algumas palavras bem próximo, eu as ouvi, mas não pude compreendê-las, a não ser no final: “Aquele que deu a sua vida por ti, o próprio é que fala dentro de ti.” E deste modo acordei jubiloso.

E uma outra vez, o vi orando em mim, era como que dentro do meu corpo e o ouvia acima de mim, isto é, acima do homem interior, e lá orava fortemente com gemidos, e no meio disto eu estava pasmo e admirado e pensava quem seria esse que orava dentro de mim, mas após o final da oração foi-me revelado que era o Espírito, e assim fui desperto e recordei-me das palavras do apóstolo: O Espírito nos auxilia na debilidade de nossas orações, pois não sabemos orar como convém. Mas o próprio Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis, que não podemos narrar, e mais uma vez: O Senhor, nosso advogado intercede por nós.

E quando fui posto a prova por alguns dos meus senhores, que vieram até mim e relembraram os meus pecados contra o meu árduo episcopado. Naquele dia especialmente, fui fortemente abalado e poderia ter caído de uma vez por todas; mas o Senhor me poupou um convertido e peregrino, pelo amor do seu próprio nome, de forma benévola veio em minha assistência quando estava sendo esmagado. Eu oro a Deus que não lhes será imputado como um pecado que eu caísse em desgraça e desonra.

Noutra ocasião, trinta anos depois, eles trouxeram contra mim um fato que eu tinha confessado antes de ser diácono. Por causa da ansiedade e inquietude da minha alma, eu contei a um amicíssimo meu o que um dia na minha meninice tinha feito, mais precisamente em um momento, porque ainda não era resistente. Eu não sei, Deus o sabe, se eu tinha 15 anos, e não acreditava no Deus vivo, nem nunca tinha crido desde a minha infância, mas permanecia na morte e na incredulidade até que fui castigado e humilhado cotidianamente pela fome e pela nudez.

Por outro lado, não fui para a Irlanda espontaneamente, estava a ponto de desistir, mas isso, no entanto foi para mim um bem, pois por isso fui repreendido pelo Senhor, e ele preparou-me para que hoje fosse o que eu ainda estava longe de ser, a fim de que eu tivesse o cuidado ou me preocupasse pela salvação dos outros, quando ao contrário, naquela época não pensava em nada além de mim mesmo.

Então naquele dia em que fui reprovado como mencionei acima, eu tive uma visão à noite de um texto diante de minha face sem honra, e enquanto isso, ouvi uma voz divina dizendo para mim: com desgosto vimos a face do escolhido, despido de seu nome, e ele não disse: você viu com desgosto, mas: nós vimos com desgosto. Como se ele mesmo se juntasse a mim, ele então disse: Aquele que te tocar é como se tocasse a menina dos meus olhos.

Por este motivo eu dou graças a ele que em tudo me confortou, para que eu não fosse impedido do caminho que decidi seguir e também da minha obra que para a qual fui chamado por Cristo meu Senhor, porém a partir daí eu senti em mim uma virtude não pouca e a minha fé foi provada na presença de Deus e dos homens.

Por isso então eu digo corajosamente, que minha consciência não me reprova. Nem agora e nem no futuro: Deus é minha testemunha que não tenho mentido nessas palavras que eu vos tenho dito.

Porém eu lamento que por causa de meu amigo íntimo mereçamos ouvir tal palavra. Aquele em que confiei à alma! E descobri por um bom número de irmãos, que diante daquela defesa (que eu não estava presente, nem estava eu na Bretanha, nem foi eu que a provoquei) ele em minha ausência lutou por mim, assim disse-me de sua própria boca: eis que tu serás elevado ao grau do episcopado, ao qual eu não era digno. [mas daí veio ele pouco depois publicamente desonrar-me na presença de todos, bons e maus, e porque anteriormente de forma espontânea e alegre perdoara-me, e o Senhor, que é o maior de todos?].

Já disse o suficiente. Mas ainda assim, não posso esconder o presente de Deus que foi dado a nós na terra do meu cativeiro, porque eu o busquei fortemente e lá o encontrei e ele me preservou de todas as iniqüidades (assim creio) por meio da habitação do seu espírito, que opera em mim até os dias de hoje. Corajosamente de novo, mas Deus sabe, se isso foi concedido a mim por homem, eu podia ter mantido silêncio pelo próprio amor de Cristo.

Assim eu dou incansáveis graças ao meu Deus, que me conservou fiel no dia da minha tentação, de sorte que hoje confiantemente ofereço a ele a minha alma como sacrifício vivo ao Cristo Senhor meu, que me protegeu de todas as minhas angústias, por isso digo: quem sou eu, oh Senhor, qual é minha vocação? Que a mim de uma maneira tão divina aparecestes, para que hoje entre os gentios constantemente eu exaltasse e glorificasse teu nome em qualquer lugar que fosse, não só na bonança, mas também na tribulação, de modo que qualquer coisa que aconteça a mim, seja de bem seja de mal, devo aceitar igualmente e a Deus devo sempre dar graças, que me mostrou que devo indubitavelmente para sempre nele confiar e que me encoraja para que, ignorante, nos últimos dias, ouse encarregar-me de uma obra tão maravilhosa, para que eu possa imitar um daqueles que, há muito tempo, o Senhor pré-ordenou como mensageiros do seu evangelho em testemunho a todos os povos até o fim do mundo, assim vemos e assim está acontecendo: Eis que nós somos testemunhas, porque o evangelho tem sido pregado até lugares mais distantes onde não há ninguém.

-- Das Cartas de São Patrício, (século V)

-- texto retirado do site Patrística Brasil, onde o autor traduziu do latim.  


27 de fev. de 2011

Confissões, de São Patrício - parte I

São Patrício (386-461) foi um missionário cristão, é um dos santos padroeiros da Irlanda, juntamente com Santa Brígida de Kildare e São Columba. Quando tinha dezesseis anos foi capturado e vendido como escravo para a Irlanda, de onde escapou e retornou à casa de sua família seis anos mais tarde. Iniciou então sua vida religiosa e retornou para a ilha de onde tinha fugido para pregar o Evangelho. Converteu centenas de pessoas, muitas delas se tornaram monges. Para explicar como a Santíssima Trindade era três e um ao mesmo tempo utilizava o trevo de três folhas e por isso o mesmo tem papel importante na cultura Irlandesa. É bastane cultuado na Irlanda e Estados Unidos. A catedral de Nova Iorque leva seu nome. Tem-se conhecimento de duas cartas escritas por ele. A primeira, que agora publico, chama-se Confissões, e é como uma auto-biografia.



Eu, Patrício, um pecador, o mais rústico e o menor entre todos os fiéis, profundamente desprezível para muitos, tive por pai o diácono Calpurnius, filho do falecido Potitus, um presbítero que foi morador de um vilarejo chamado Bannavem Taberniae I. Ele tinha uma pequena casa de campo bem próxima, onde eu fui capturado. Naquela época eu tinha cerca de dezesseis anos de idade. Eu ignorava o verdadeiro Deus e junto com milhares de pessoas fui capturado e conduzido ao cativeiro na Irlanda segundo o nosso merecimento, por afastarmos-nos bastante de Deus, não guardamos os seus preceitos, nem sermos obedientes aos nossos sacerdotes, que nos exortavam a respeito da nossa salvação. E o Senhor lançou sobre nós a violência de sua cólera e nos dispersou entre vários povos até os confins da terra, onde agora na minha pequenez, me encontro entre estrangeiros.

E lá o Senhor abriu o entendimento do meu coração de incredulidade, afim de que, mesmo muito tarde, me recordasse dos meus pecados e me convertesse de todo coração ao Senhor meu Deus, que considerou a minha insignificância e teve misericórdia da minha mocidade e ignorância. Ele me protegeu antes que eu o conhecesse e antes que eu soubesse distinguir entre o bem e o mal e me fortificou e consolou como um pai faz ao filho.

Por esta razão não posso me calar, nem seria isto apropriado, diante de tantas dádivas e graças que o Senhor dignou-se a me conceder na terra do meu cativeiro; porquanto esta é nossa maneira de retribuir, afim de que depois da correção de Deus e de reconhecê-lo, exaltar e confessar suas maravilhas diante de todas as nações que estão debaixo do céu.

Porque não há outro Deus, nunca houve antes, nem haverá no futuro, além de Deus Pai não gerado, sem princípio, do qual procede todo o princípio, quem tudo possui, bem como tem nos sido dito; e seu filho Jesus Cristo, que assim como o pai evidentemente sempre existiu, antes do começo dos tempos em espírito com o pai, inefável, criado antes da origem do mundo, e por ele mesmo foram criadas todas as coisas visíveis e invisíveis. Ele foi feito homem, venceu a morte e foi recebido no céu junto do pai, e foi-lhe dado todo poder absoluto sobre todo nome no céu, na terra e no inferno para que assim toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor e Deus, em quem nós cremos e esperamos o advento de sua iminente volta, como juiz dos vivos e dos mortos. Este que dará para cada um segundo os seus feitos, e derramou em nós abundantemente o seu Espírito Santo, o dom e a garantia da imortalidade, que tornou os crentes e obedientes em filhos de Deus e co-herdeiros de Cristo: àquele que confessamos e adoramos, O único Deus na trindade do seu santo nome.

Pois ele mesmo disse por intermédio do profeta: “Invoque-me no dia das suas tribulações e eu te libertarei e tu me glorificarás” e novamente disse: “É honroso revelar e confessar as obras de Deus”. Eu não ignoro o testemunho do meu Senhor, que no Salmo diz: “Tu destróis os que proferem mentira”; e novamente disse: A boca mentirosa traz a morte para a alma . E igualmente o Senhor disse no evangelho: No dia do Juízo os homens prestarão contas de cada palavra vã que disseram.

Por esta razão tenho pensado em escrever, mas até agora tenho hesitado; na verdade temi me expor na língua dos homens, porque não me instrui da mesma maneira que os outros, que têm assimilado bem tanto a lei como as Sagradas Escrituras e nunca mudaram o idioma desde a infância, mas ao contrário, sempre o tem aperfeiçoado. Enquanto a nossa linguagem e idioma foram traduzidos para uma língua estrangeira, assim facilmente se pode provar a partir de uma amostra dos meus escritos a minha qualidade em retórica, a minha instrução e também erudição, porque, está escrito: “A sabedoria será reconhecida pelo modo de falar, no entendimento, e no conhecimento da doutrina da verdade”.

Mas porque me desculpar perto da verdade, especialmente com presunção, de modo que somente agora me aproximando da minha velhice posso obter o que não consegui na minha juventude? Porque meus pecados impediram-me de confirmar o que anteriormente tinha lido superficialmente. Mas quem acreditará em mim ainda que repita o que disse antes?

Um jovenzinho, talvez longe disso, quase um garoto imberbe, capturado antes que soubesse o que deveria buscar ou evitar. Então, consequentemente, hoje me envergonho e ardentemente temo expor minha ignorância, porque eu não sou eloqüente assim verdadeiramente, não consigo expressar como o espírito está ávido por fazer e tanto a alma quanto o entendimento se mostram dispostos.

Mas se esta graça fosse me dada como foi aos outros, em gratidão eu verdadeiramente não me calaria, e se por acaso me expus aos outros e me coloquei perante eles com minha ignorância e meu modo lento de falar, verdadeiramente está escrito: “As línguas balbuciantes com velocidade aprendam a falar da paz”. Quanto mais devemos atingi-lo, nós que somos como é dito: Uma carta de Cristo em saudação até os confins da terra...  Escrito em vossos corações não com tinta, mas com o Espírito Santo do Deus vivo. E outra vez mais: O Espírito testifica que até mesmo a vida dos rústicos (rusticidade) é criada pelo Altíssimo.

Por isso eu, o maior dos camponeses , fugitivo, evidentemente ignorante, alguém que não é capaz de prever o futuro, mas sabe com certeza que, em todo o caso, antes de ter sido humilhado, eu era como uma pedra que jazia no lodo profundo. E aquele que tem todo o poder veio a mim e em sua misericórdia me levantou bem alto, colocou-me no topo do muro; e de lá corajosamente devo exclamar em gratidão ao Senhor por tantos benefícios agora e por todo o sempre, benefícios tão grandes que a mente humana não pode estimar.

Dessa maneira, espantem-se grandes e pequenos que temem a Deus e vós, senhores, oradores eloqüentes, ouvi, pois e examinai cuidadosamente. Quem me chamou, eu, um estúpido, do meio daqueles que são vistos como sábios e peritos na lei, poderosos na palavra e em todas as coisas? Eu, verdadeiramente miserável neste mundo, sendo inspirado mais que os outros- contanto que- com temor e reverência e sem querela, fielmente pudesse me mostrar ao povo para quem o amor de Cristo me trouxe e deu-me em minha vida, se eu fosse digno, para servi-los verdadeiramente com humildade e sinceridade.

Assim, pois, na medida da minha fé na trindade, me convém reconhecer e sem noção do perigo, proclamar o dom de Deus e a sua consolação eterna, confiantemente e sem temor difunndir o nome de Deus por toda parte, afim de que mesmo depois da minha morte, eu deixe uma herança para os meus irmãos e filhos e a tantos milhares de homens que batizei no Senhor.

E eu não era digno, nem de tal natureza que o senhor concedesse ao seu pequeno servo, após provações e tantas penas, depois do cativeiro e após muitos anos, tantas graças me desse naquele povo; uma coisa que no tempo da minha juventude eu jamais esperei, nem mesmo imaginei.

Mas, depois que alcancei a Irlanda e que eu passei a apascentar o rebanho cotidianamente e orava várias vezes ao dia, mais e mais o amor de Deus e o meu temor e fé por ele cresceram e o meu espírito tocado de tal maneira, que em dia cheguei a contar mais de cem orações e de noite quantidade semelhante, e ainda ficava nas florestas e nas montanhas, acordava antes da luz do dia para orar na neve, no gelo e na chuva, e nenhum mal eu sentia e nenhuma preguiça estava em mim, como percebo agora, porque o espírito ardia dentro de mim.

E lá naturalmente uma noite no meu sono eu ouvi uma voz dizendo para mim: “Fazes bem em jejuar, pois brevemente partirás para a tua pátria” e novamente muito pouco tempo depois ouvi uma voz me dizendo: “Eis que teu navio está pronto” e não era em um lugar perto não, pelo contrário, estava a duzentas milhas de distância onde eu nunca havia estado e não havia ninguém conhecido. Então pouco tempo depois eu me coloquei em fuga e abandonei o homem com quem estivera seis anos e avancei na virtude de Deus, que dirigiu meu caminho para o bem e eu nada temi até que alcancei aquele navio.

E lá naturalmente uma noite no meu sono eu ouvi uma voz dizendo para mim: “Fazes bem em jejuar, pois brevemente partirás para a tua pátria” e novamente muito pouco tempo depois ouvi uma voz me dizendo: “Eis que teu navio está pronto” e não era em um lugar perto não, pelo contrário, estava a duzentas milhas de distância onde eu nunca havia estado e não havia ninguém conhecido. Então pouco tempo depois eu me coloquei em fuga e abandonei o homem com quem estivera seis anos e avancei na virtude de Deus, que dirigiu meu caminho para o bem e eu nada temi até que alcancei aquele navio.

E naquele mesmo dia o navio estava de partida, e eu disse que tinha condições de navegar com eles. O capitão se desagradou e rispidamente irado respondeu: “de modo algum tente ir conosco” tendo ouvido isto me separei deles para uma pequena cabana onde estava ficando, e no caminho comecei a orar e antes que terminasse a oração escutei um deles gritando bem alto depois de mim: “venha rapidamente, porque os homens estão te chamando” e imediatamente voltei pra junto deles, e começaram a me dizer: “venha, porque de boa fé recebemos-te, faça conosco amizade do modo que desejar” e naquele dia então me recusei a lhes sugar as mamas pelo temor de Deus, mas, entretanto esperava que eles viessem a ter fé em Jesus Cristo, porque eram gentios . Por isso continuei com eles e sem demora nos colocamos ao mar.

E depois de três dias alcançamos a terra e caminhamos vinte e oito dias através de uma região desértil até que a comida acabou e a fome nos alcançou. Um dia o capitão começou a me dizer: “Por que acontece isso Cristão? Tu dizes que teu Deus é grande e onipotente, porque razão você não pode orar por nós? Pois podemos morrer de fome; é provável que jamais vejamos outro ser humano”. Eu então lhes disse confiantemente: convertam-se pela fé de todo o coração ao Senhor Deus meu, pois nada é impossível para ele e hoje mesmo ele mandará alimento para vós em vosso caminho até que se fartem, pois em toda a parte ele traz abundância. E com a graça de Deus isto realmente aconteceu: eis que uma vara de porcos apareceu no caminho diante dos nossos olhos, e muitos dentre os porcos foram mortos. E neste lugar por duas noites permaneceram e fartaram-se daquelas carnes dos porcos e foram revigorados da fome, porque muitos deles desfaleciam e de outra forma teriam sido abandonados semimortos à beira do caminho. Depois disto renderam extremas graças a Deus e eu fui honrado aos seus olhos, e a partir daquele dia tiveram alimento abundantemente, descobriram mel silvestre e ofereceram parte a mim e um deles disse: é um sacrifício; Graças a Deus, deste nada provei.

Na mesma noite eu estava dormindo e Satanás violentamente tentou-me, da forma que eu me lembrarei enquanto neste corpo estiver, ele caiu sobre mim como um enorme rochedo e nenhum dos meus membros podia se mexer. Mas de onde me veio à idéia, ignorante espiritual que sou, de clamar por Elias? Neste meio tempo vi no céu o sol surgindo e durante o clamar “Elias, Elias, com toda a minha força” eis que o esplendor daquele sol caiu sobre mim imediatamente e me sacudiu livrando-me de todo o peso, creio que fui ajudado por Cristo, meu Senhor, e este espírito agora chamava por mim e espero que assim seja no dia da minha aflição, como diz no evangelho: Naquele dia, diz o Senhor, não sois vós que falais, mas o espírito de vosso pai que fala em vós.

E mais uma vez, anos mais tarde fui feito cativo pela segunda vez. Na primeira noite, eu permaneci com eles. Ouvi, então, uma voz divina me dizendo: “você permanecerá dois meses com eles” e assim aconteceu: na sexagésima noite o meu Senhor me libertou das mãos deles.

Além disso, Mesmo na viagem (Deus) nos proveu de alimento, fogo e tempo seco todos os dias, até que no décimo dia encontramos gente. Assim como sugeri mais acima, viajamos vinte e oito dias através de terras desabitadas e de fato na noite que encontramos gente nada tínhamos de alimento.

E depois de uns poucos anos eu estava de novo na Bretanha com meus pais, que me acolheram como um filho e rogaram-me intensamente que eu, após ter passado por tantas tribulações que nunca partisse para longe deles.

-- Das Cartas de São Patrício, (século V

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