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23 de jan. de 2016

Sermão sobre a parábola do filho pródigo

Do Evangelho segundo São Lucas 15, 11-32

Disse Jesus: Um homem tinha dois filhos. O mais moço disse a seu pai: Meu pai, dá-me a parte do patrimônio que me toca. O pai então repartiu entre eles os haveres. Poucos dias depois ajuntando tudo o que lhe pertencia, partiu o filho mais moço para um país muito distante, e lá dissipou sua herança vivendo dissolutamente. Depois de ter esbanjado tudo, sobreveio àquela região uma grande fome: e ele começou a passar penúria. Foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região, que o mandou para os seus campos guardar porcos. Desejava ele fartar-se das vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava. Entrando então em si e refletiu: "Quantos empregados há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome! Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados". Levantou-se, pois, e foi ter com seu pai. Estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e o beijou. O filho lhe disse então: "Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho". Mas o pai disse aos servos: "Trazei-me depressa a melhor (primeira) veste e vesti-lha, e ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Trazei também o bezerro cevado e matai-o; comamos e festejemos. Este meu filho estava morto, e reviveu; tinha-se perdido e foi achado". E começaram a festa...
O Filho Pródigo, de Rembrandt.

I. Não é necessário determo-nos em assunto de que já tratamos; mas se não é o caso de nos demorarmos, sim o é de rememorarmos. Vossa prudência ainda lembra que no domingo passado comentei a parábola, lida no Evangelho de hoje, a do filho pródigo, comentário que no entanto não pude concluir. Deus Nosso Senhor quis, porém, que, passada aquela tribulação, possamos hoje continuar a falar.

Sinto-me obrigado a pagar a dívida do sermão, porque as dívidas de amor sempre devem ser pagas. Assista-me Deus para que meus poucos recursos possam satisfazer a vossa expectativa.

II. O homem que tem dois filhos é Deus que tem dois povos: o filho mais velho é o povo judeu; o menor, os gentios (NT: atualizando, os que estão na Igreja e os que estão fora).

O patrimônio que este recebeu do Pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo o que Deus nos deu para que O conhecêssemos e Lhe déssemos culto. Tendo recebido este patrimônio, o filho menor "partiu para um país muito distante". Distância significa: o esquecimento de seu Criador. "Dissipou sua herança vivendo dissolutamente": gastando e não ajuntando; malbaratando tudo o que tinha e não adquirindo o que não tinha, isto é, consumindo toda sua capacidade em luxúria, em ídolos, em todo tipo de desejos perversos, aos que a Verdade denominou meretrizes.

III. Não é de admirar que essa orgia acabasse em fome. "Sobreveio àquela região uma grande fome"; fome não de pão visível mas da verdade invisível. E, por causa da fome, "foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região": entenda-se o diabo, o senhor dos demônios, sob cujo poder caem todos os curiosos, pois a curiosidade é o pestilento abandono da verdade.

À margem de Deus, por entregar-se a seus próprios recursos, foi submetido à servidão e lhe tocou o ofício de apascentar porcos, o que significa a servidão mais extrema e imunda que costuma alegrar os demônios: não foi por acaso que o Senhor, quando expulsou a legião dos demônios, permitiu que entrassem na piara de porcos.

Alimentava-se então das vagens de porcos sem poder saciar-se. Vagens são as vistosas doutrinas do mundo: servem para ostentar mas não para sustentar; alimento digno para porcos, mas não para homens: próprias para dar aos demônios deleitação, mas não aos fiéis justificação.

IV. Até que, por fim, tomou consciência do lugar em que tinha caído; do quanto tinha perdido; Quem tinha ofendido e a quem se tinha submetido. Reparai no que diz o Evangelho: "Entrando em si..."; primeiramente, voltou-se para si e só assim pôde voltar para o pai. Dizia talvez: "O meu coração me abandonou (isto é: saí de mim mesmo)" (Sl 40,13); daí que fosse necessário, antes, voltar para si mesmo e assim perceber que se encontrava longe do pai. É o que diz a Escritura quando corrige a alguns, dizendo: "Voltai, pecadores, ao coração! (isto é: voltai, pecadores, a vós mesmos!)" (Is 46,8). Voltando para si mesmo, encontrou-se miserável: "Encontrei, diz ele, a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor" (Sl 116,3-4). "Quantos empregados, diz ele, há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome!" (...)

V. Levantou-se e voltou. Ele, caído por terra depois de contínuos tropeços. O pai o vê ao longe e sai-lhe ao encontro. É dele que fala o Salmo: "Entendeste meus pensamentos de longe" (Sl 139,2). Que pensamentos? Aqueles que o filho tinha em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados". Ele ainda nada tinha dito, só pensava em dizer. O pai, porém, ouvia como se o filho já o estivesse dizendo.

Por vezes, em meio a uma tribulação ou tentação, alguém pensa em orar, e, no próprio ato de pensar o que irá dizer a Deus na oração, considera que é filho e que, como tal, tem direito a reivindicar a misericórdia do Pai. E diz de si para si: "Direi a meu Deus isto e aquilo; não temo que, em lhe dizendo isto, e chorando, não seja eu atendido pelo meu Deus". Geralmente, Deus já o está atendendo quando ele diz estas coisas; e mesmo antes, quando as cogita, pois mesmo o pensamento não está oculto ao olhar de Deus. Quando o homem delibera orar, já lá está Aquele que lá estará quando ele começar a oração.

E assim se diz em outro Salmo: "Eu disse: confessarei minha iniqüidade ao Senhor" (Sl 32,5). Vede como se trata ainda de algo interior a ele, de um mero projeto e, contudo, acrescenta imediatamente: "E tu já perdoaste a impiedade de meu coração" (Sl 32,5). Quão próxima está a misericórdia de Deus daquele que se confessa! Não, Deus não está longe de quem tem um coração contrito, como está escrito: "Deus está próximo dos que trituram seu coração" (Sl 34,19). E neste triturar seu coração no país da penúria, retornava ao coração para moê-lo. Soberbo, abandonara seu coração; irado com santa indignação, a ele retorna.

Indignou-se contra si mesmo, contra o mal que há em si, para se emendar; retornou para merecer o bem do pai. Indignou-se conforme a sentença: "Irai-vos para não pecar" (Sl 4,5). Pois quem está arrependido fica irado e, por estar indignado consigo mesmo, se pune.

Daí surgem aquelas práticas próprias do penitente que verdadeiramente se arrepende, verdadeiramente se dói, sente ira contra si mesmo. Certamente, é indício dessa ira o bater no peito: o que a mão faz externamente, a consciência o faz internamente: golpeia-se nos pensamentos, ou melhor, produz a morte em si mesmo. E, matando-se, oferece a Deus o "sacrifício de um espírito atribulado. Deus não despreza um coração contrito e humilhado" (Sl 51,19). E, assim, raspando, quebrando, humilhando seu coração, leva-o à morte.

VI. Embora tivesse ainda somente a disposição de falar ao pai, cogitando em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei...", o pai, que de longe já conhece essas cogitações, foi ao seu encontro.

Que significa "ir ao encontro" senão antecipar-se pela misericórdia? Pois, "estava ainda longe, quando seu pai o viu, e, movido pela misericórdia, correu-lhe ao encontro". Por que foi movido pela misericórdia? Porque o filho tinha confessado sua miséria. "E correndo-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço", isto é, pôs o braço sobre o pescoço dele.

Ora, o braço do Pai é o Filho: deu-lhe, portanto, Cristo para carregar: uma carga que não pesa, mas alivia. "Meu jugo é suave, diz Cristo, e meu fardo é leve" (Mt 11,30). Ele se apoiava sobre o que estava de pé e, por apoiar-se, impedia-o de tornar a cair. Tão leve é o fardo de Cristo que não só não pesa, mas, pelo contrário, até ergue.

Não que o fardo de Cristo seja uma carga dessas que se chamam leves (não há carga, por mais leve que seja, que não tenha algum peso). Pode-se carregar um fardo pesado, um fardo leve ou, ainda, não carregar fardo algum. Anda oprimido quem carrega fardo pesado; menos oprimido quem leva uma carga leve (embora também ande oprimido); com os ombros totalmente desembaraçados, quem não carrega fardo algum. Não é dessa ordem o fardo de Cristo, mas um fardo tal que convém carregá-lo para sentir-se aliviado; se nos desvencilharmos dele, mais carregados nos sentiremos.

E que esta nossa afirmação, irmãos, não vos pareça absurda! Talvez encontremos alguma comparação que vos torne plausível, até em termos de nossa experiência sensível, o que estou dizendo. Um caso, também ele, espantoso e totalmente incrível.

É o seguinte: considerai as aves. Toda ave carrega o peso de suas asas: não reparastes como, quando descem ao chão, recolhem as asas para poder descansar e como que as levam nos costados? Julgais que estão oprimidas pelo peso das asas? Tirai-lhe este peso e cairão: quanto menos pesarem as asas, menos pode a ave voar.

Alguém que, a título de misericórdia, as privasse deste peso, não estaria sendo misericordioso. A verdadeira misericórdia está em poupar-lhes esta privação e, se já perderam as asas, em dar-lhes alimento para que readquiram asas pesadas e possam arrancar-se da terra e voar. É bem este o peso que desejava o salmista: "Quem me dará asas como as da pomba para que eu voe e encontre meu repouso?" (Sl 55,7)

Assim, o peso do braço do pai sobre o pescoço do filho não o carregou, mas o aliviou; foi-lhe honroso e não oneroso. Como é, pois, o homem capaz de carregar consigo a Deus se não é porque o está carregando, o Deus que ele carrega?

VII. E o pai ordena que o vistam com a primeira veste, aquela que Adão perdera ao pecar. Tendo recebido o filho em paz, tendo-o beijado, ordena que lhe dêem uma veste: a esperança de imortalidade, conferida no batismo. Ordena que lhe dêem um anel, penhor do Espírito Santo; calçado para os pés, como preparação para o anúncio do Evangelho da paz, para que sejam formosos os pés dos que anunciam a boa nova.

Estas coisas Deus faz através de seus servos, isto é, os ministros da Igreja. Acaso eles podem, por si próprios, dar veste, anel e calçados? Não, apenas cumprem seu ministério, desempenham seu ofício; quem dá é Aquele de cujo depósito e de cujo tesouro são extraídos estes dons.

Mandou também matar o bezerro cevado, isto é, que fosse admitido à mesa em que o alimento é Cristo morto. Mata-se o bezerro para todo aquele que, de longe, vem para a Igreja, na qual se prega a morte de Cristo e no Seu corpo o que vem é admitido. Mata-se o bezerro cevado porque o que se tinha perdido foi encontrado.

-- De Santo Agostinho, bispo (século V)

4 de nov. de 2013

Salmo 50: Senhor, tende piedade de mim!

Cada semana da Liturgia das Laudes é marcada na sexta-feira pelo Salmo 50, o Miserere, o Salmo penitencial mais amado, cantado e meditado, hino ao Deus misericordioso elevado pelo pecador arrependido. Já tivemos ocasião, numa catequese precedente, de apresentar o quadro geral desta grande oração. Em primeiro lugar, entra-se na região tenebrosa do pecado para aí levar a luz do arrependimento humano e do perdão divino (cf. vv. 3-11). Depois, exalta-se o dom da graça divina, que transforma e renova o espírito e o coração do pecador arrependido:  esta é uma região luminosa, cheia de esperança e de confiança (cf. vv. 12-21).

Detemo-nos, nesta nossa reflexão na primeira parte do Salmo 50, aprofundando alguns dos seus aspectos. Mas, no começo, desejaríamos mencionar a maravilhosa proclamação divina do Sinai, que é quase o retrato do Deus cantado pelo Miserere:  "Javé! Javé! Deus misericordioso e clemente, vagaroso em encolerizar-Se, cheio de bondade e fidelidade, que mantém a Sua graça até à milésima geração, que perdoa a iniquidade, a rebeldia e o pecado" (Êx34, 6-7).

A invocação inicial eleva-se a Deus para obter o dom da purificação que faça como dizia o profeta Isaías "brancos como a neve" e "como a lã" os pecados, em si semelhantes ao "escarlate" e "vermelhos como a púrpura" (cf. Is 1, 18). O Salmista confessa o seu pecado de forma clara e sem hesitações:  "Reconheço, de verdade, a minha culpa... Contra Vós apenas é que eu pequei, pratiquei o mal perante os vossos olhos" (Sl 50, 5-6).

Por conseguinte entra em cena a consciência pessoal do pecador que se abre para compreender claramente o seu mal. É uma experiência que envolve liberdade e responsabilidade, e leva a admitir que se quebrou o vínculo para construir uma escolha de vida alternativa em relação à Palavra divina. Disto deriva uma decisão radical de mudança. Tudo isto está encerrado naquele "reconhecer", um verbo que em hebraico não significa apenas uma adesão intelectual mas uma opção vital.

É o que, infelizmente, muitos não fazem, como nos adverte Orígenes:  "Há quem, depois de ter pecado, se sinta completamente tranquilo e não se preocupe com o seu pecado nem tocado pela consciência do mal cometido, mas viva como se nada tivesse acontecido. Sem dúvida, esse não poderia dizer:  tenho sempre consciência do meu pecado. Ao contrário, quando, depois do pecado, o pecador se inquieta e se aflige devido ao seu pecado, quando se sente atormentado pelos remorsos, dilacerado sem tréguas e sofre sobressaltos no seu íntimo que se eleva para o contestar, ele, com razão, exclama:  não há paz para os meus ossos face ao aspecto dos meus pecados... Portanto, quando os pecados cometidos se apresentam aos olhos do nosso coração, os revemos um por um, os reconhecemos, nos envergonhamos e arrependemos do que fizemos, então perturbados e aterrorizados, justamente dizemos que não há paz para os nossos ossos face ao aspecto dos nossos pecados..." (Homilias sobre os Salmos, Florença 1991, págs. 277-279).

O reconhecimento e a consciência do pecado é, portanto, fruto de uma sensibilidade adquirida graças à luz da Palavra de Deus.

Na confissão do Miserere há um realce de particular evidência:  o pecado não é compreendido apenas na sua dimensão pessoal e psicológica, mas é analisado sobretudo na sua qualidade teológica. "Contra Vós apenas é que eu pequei" (Sl 50, 6), exclama o pecador, ao qual a tradição deu o rosto de David, consciente do seu adultério com Betsabé, e da denúncia do profeta Natan contra este crime e contra o crime da morte do seu marido, Urias (cf v. 2; 2 Sam 11, 12).

Por conseguinte, o pecado não é apenas uma questão psicológica ou social, mas é um acontecimento que prejudica a relação com Deus, violando a sua lei, recusando o seu projecto na história, alterando a escala dos valores, "mudando as trevas em luz e a luz em trevas", isto é, "chamando bem ao mal e mal ao bem" (cf. Is 5, 20). Antes de ser uma possível afronta contra o homem, o pecado é antes de mais traição a Deus. São emblemáticas as palavras que o filho desprovido de bens pronuncia diante de seu pai, pródigo de amor:  "Pai, pequei contra o Céu isto é, contra Deus e contra ti!" (Lc 15, 21).

A este ponto o Salmista introduz outro aspecto, mais diretamente relacionado com a realidade humana. Foi a frase que suscitou muitas interpretações e que também foi relacionada com a doutrina do pecado original:  "Eis que eu nasci na culpa, e a minha mãe concebeu-me pecador" (Sl50, 7). O orante deseja indicar a presença do mal dentro do nosso ser, como é evidente na menção da concepção e do nascimento, uma forma de exprimir toda a existência partindo da sua origem. Mas o Salmista não relaciona formalmente esta situação com o pecado de Adão e Eva, isto é, não fala explicitamente de pecado original.

Contudo, é evidente que, segundo o texto do Salmo, o mal se esconde nas próprias profundezas do homem, é inerente à sua realidade histórica e, por isso, é decisivo o pedido da intervenção da graça divina. O poder do amor de Deus supera o poder do pecado, o rio transbordante do mal pode menos do que a água fecundante do perdão:  "Onde abunda o pecado, superabunda a graça"(Rm 5, 20).

Por este caminho, a teologia do pecado original e toda a visão bíblica do homem pecador são indirectamente recordados com palavras que deixam, ao mesmo tempo, entrever a luz da graça e da salvação.

Como teremos ocasião de descobrir no futuro, voltando a falar deste Salmo e dos versículos seguintes, a confissão da culpa e a consciência da própria miséria não levam ao terror ou ao pesadelo do juízo, mas à esperança da purificação, da libertação, da nova criação.

De fato, Deus salva-nos "não por causa das obras da justiça que tivéssemos feito, mas por misericórdia, mediante o batismo de regeneração e renovação do Espírito Santo, que derramou sobre nós abundantemente por Jesus Cristo, nosso Salvador" (Tit 3, 5-6).


-- Papa João Paulo II, na audiência de 8 de Maio de 2002

9 de mar. de 2013

Quarto Domingo da Quaresma - Ano C

O Filho Pródigo, Rembrandt

O quarto domingo da Quaresma é um tanto único pois é chamado de "Laetare", da alegria, quebrando um pouco o tempo penitencial e já anunciando a Páscoa que se aproxima. As vestes são da cor rosa e flores podem adornar o altar. De acordo com o RICA (Rito para Iniciação de Cristãos Adultos), é o dia indicado para o segundo escrutínio dos batizandos.

A primeira leitura relembra a celebração da primeira Páscoa na Terra Prometida. A intervenção direta de Deus, o maná, já não era necessário, pois o povo havia recebido uma terra que emanava frutos e mel. 

Na segunda leitura, uma carta de São Paulo aos Coríntios, o apóstolo anuncia o Kerygma brevemente: Jesus Cristo trouxe a salvação para os homens, pelo amor que o Pai nutre por cada um de nós, nossos pecados estão perdoados, é possível nos reconcialiarmos com Deus. Esta é a justiça de Deus.

O Evangelho conta a história do Filho Pródigo, a terceira de uma sequência chamada de Parábolas da Misericórdia: a ovelha perdida, a moeda perdida e o filho pródigo. Essencialmente ela nos mostra um Deus que é um Pai amoroso. Inicia com o Filho pedindo a parte dele na herança pois já não acredita no Pai, quer distância da família. Esta é a escolha do filho: o mundo com suas extravagâncias, ganâncias e falsas promessas. Enquanto deixou-se guiar pelo seu orgulho, porque sabia desde sempre que seu pai tinha muitos bens, o jovem persistiu no mundo, não com Deus; experimentou claramente a futilidade da sua vida, tristeza e humilhação, 

Até que deixou seu orgulho quebrar-se, preparou-se para ser humilhado pelo pai e irmão; retornou para seu Deus Pai. Reconheceu-se pecador e orgulhoso e rumou para casa. O pai corre em sua direção, da mesma forma que o pastor busca a ovelha perdida e a mulher procura a moeda perdida. É um Deus vigilante, esperando pelo seu filho, cada um de nós, dia e noite, de maneira perfeita, sem desesperar ou desistir. Este pai não apenas acolhe o jovem, como lhe dá presentes e prepara uma festa. Na parábola temos a figura do pai perfeito, que não diz uma palavra para recriminar seu filho, não sai de sua boca sequer um "eu te avisei", ou algo do tipo. 

Por fim, há o filho mais velho, nem por isso mais sábio ou menos orgulhoso. Manteve-se com o Pai, mas talvez visando a herança que teria. E quando ela está ameaçada porque o pai consome o melhor dela para receber o irmão, reclama. O Pai é obrigado a corrigi-lo, pois ainda não enxergou o seu erro, mas já duvida do seu Pai. 

Deus é um pai amoroso, atento aos filhos, que alimentou o povo no deserto, atendeu suas dificuldades no momento difícil; enviou Cristo para nos trazer a salvação; e aguarda ansioso que a aceitemos. Alegremo-nos!

1 de nov. de 2012

Hino de Tobit: Deus castiga e salva

Tobit e Ana com o bode, Rembrandt, 1626.
Rijksmuseum (Amsterdam)

1. "De toda a minha alma louvarei o meu Deus, Rei do céu" (Tb 13, 9). Quem pronuncia estas palavras, no cântico agora proclamado, é o velho Tobit, do qual o Antigo Testamento traça uma breve história edificante, no livro que toma o nome do filho, Tobias.

Para compreender plenamente o sentido deste hino, é preciso considerar as páginas narrativas que o precedem. A história passa-se entre os israelitas exilados em Nínive. O autor sagrado olha para eles, escrevendo muitos séculos depois, para os apontar aos irmãos e irmãs de fé, dispersos no meio de um povo estrangeiro e tentados a abandonar as tradições de seus pais. O retrato de Tobit e da sua família é oferecido como um programa de vida. Ele é o homem que, apesar de tudo, permanece fiel à lei e, em particular, à prática da esmola. Sobre ele se abate a infelicidade com a chegada inesperada da pobreza e da cegueira, mas não lhe falta a fé. E a resposta de Deus não tarda a chegar, através do anjo Rafael, que guia o jovem Tobias numa viagem perigosa, preparando-o para um matrimónio feliz e, enfim, curando o pai Tobit da cegueira.

A mensagem é clara:  quem faz o bem, sobretudo abrindo o coração à necessidade do próximo, agradará ao Senhor e, ainda que seja posto à prova, experimentará, por fim, a Sua benevolência.

2. É sobre este fundo que tomam todo o seu realce as palavras do nosso hino. Ele convida a olhar para o alto, para "Deus que vive eternamente", para o seu reino que "dura por todos os séculos". A partir deste olhar voltado para Deus se desenvolve um breve esboço de teologia da história, em que o Autor sagrado procura responder à interrogação que o Povo de Deus, disperso e provado, apresenta a si mesmo:  porque é que Deus nos trata assim? A resposta faz um apelo conjunto à justiça e à misericórdia divina:  "castiga-vos por causa das vossas iniquidades, mas a seguir, compadece-se de vós" (cf v. 5). O castigo aparece assim como uma espécie de pedagogia divina, onde, todavia, a última palavra é sempre reservada à misericórdia:  "Ele castiga e compadece-se, conduz ao sepulcro e dele faz sair; nada existe que escape à sua mão" (v. 2 ).

Podemos, pois, confiar de modo absoluto em Deus, que nunca abandona a sua criatura. Aliás, as palavras do hino conduzem-nos a uma perspectiva, que atribui um significado salvífico à própria situação de sofrimento, fazendo do exílio uma ocasião para testemunhar as obras de Deus:  " louvai-O, filhos de Israel, diante dos gentios, porque Ele dispersou-vos no meio deles, para proclamar a sua grandeza" (vv. 3-4).

3. Deste convite a ler o exílio como chave providencial, a nossa meditação pode alargar-se na consideração do sentido misteriosamente positivo que assume a condição de sofrimento, quando é vivida no abandono à vontade de Deus. Algumas passagens no Antigo Testamento, esboçam já este tema. Basta pensar na história narrada pelo livro do Génesis, sobre José vendido pelos irmãos (cf. Gn 37, 2-36) e destinado a ser, no futuro, o seu salvador. E como esquecer o livro de Jó? Aqui, é verdadeiramente o homem inocente que sofre e não encontra explicação para o seu drama, senão confiando na grandeza e sabedoria de Deus (cf. Job 42, 1-6).

Para nós, que lemos cristãmente estas passagens do Antigo Testamento, o ponto de referência não pode deixar de ser a Cruz de Cristo, na qual se encontra uma resposta profunda para o mistério da dor no mundo.

4. Aos pecadores que são julgados pelas suas injustiças (cf. v. 5), o hino de Tobit dirige um apelo à conversão e abre a perspectiva maravilhosa de uma "recíproca" conversão de Deus e do homem:  "Convertei-vos a Ele, com todo o vosso coração e com toda a vossa alma, para praticar a verdade na sua presença. Ele voltar-Se-á para vós e não vos ocultará a Sua face" (v. 6). É muito eloquente este uso da mesma palavra "conversão" para a criatura e para Deus, embora com significado diverso.

Se o autor do Cântico pensa, porventura, nos benefícios que acompanham o "regresso" de Deus, ou seja, o seu renovado favor para com o povo, nós devemos pensar sobretudo, à luz do mistério de Cristo, no dom que consiste no próprio Deus. O homem tem necessidade dele, mesmo mais do que dos seus dons. O pecado é uma tragédia não tanto porque nos atrai os castigos de Deus, mas porque O repele do nosso coração.

5. Por isso, é para o rosto de Deus considerado como Pai que o Cântico dirige o nosso olhar, convidando-nos à bênção e ao louvor:  "Ele é o nosso Senhor e o nosso Deus, é o nosso Pai" (v. 4). Descobre-se que o sentido desta especial "filiação" que Israel experimenta como dom de aliança e que prepara o mistério da encarnação do Filho de Deus. Então, em Jesus, resplandecerá o rosto do Pai e será revelada a sua misericórdia sem limites.

Bastaria pensar na parábola do Pai misericordioso narrada pelo evangelista Lucas. À conversão do filho pródigo não corresponde só o perdão do Pai, mas um abraço de infinita ternura, acompanhado da alegria e da festa:  "Ainda estava longe quando o pai o viu e, enchendo-se de compaixão, correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos" (Lc 15, 20). As expressões do nosso Cântico estão na linha desta comovente imagem evangélica. E dela nasce a necessidade de louvar e agradecer a Deus:  "Contemplai, agora, o que fez por nós, rendei-lhe graças com a vossa boca:  bendizei o Senhor da justiça e exaltai o Rei dos séculos" (v. 7).

-- Papa João Paulo II na audiência de 25 de Julho de 2001.

3 de jan. de 2011

O Sacramento da Confissão

O sacramento da Penitência (ou Confissão) é o próximo. Há três condições relacionadas a ele, a contrição de coração, confissão e penitência. Quem atender estes três requisitos, sem dúvida obtém perdão de seus pecados. Mas devemos atentamente considerar o que significa uma verdadeira contrição, sincera confissão e plena satisfação.

Comecemos pela contrição. O Profeta Joel exclama: Rasgai vossos corações e não vossas vestes (Jl 2,13); quando os hebreus querem expressar seu arrependimento por algum erro, eles rasgam suas vestes. Então o santo profeta alerta que se queremos expressar nosso verdadeiro e íntimo arrependimento frente a Deus  pelos nossos pecados, devemos rasgar nossos corações. E o profeta Davi acrescenta, que não basta apenas rasgá-lo, mas esmagá-lo e reduzi-lo a pó: Meu sacrifício, ó Senhor, é um espírito contrito, um coração arrependido e humilhado, ó Deus, que não haveis de desprezar (Sl 50,19). 

A comparação claramente demonstra que, para agradar a Deus, não é suficiente apenas dizer "eu lamento meus pecados"; mas sentir um arrependimento interior profundo do coração, que raramente é experimentado na ausência de lágrimas e soluços. É maravilhoso como os Santos padres falam sobre a verdadeira contrição. São Cipriano disse em um sermão: "Assim como temos ofendido, devemos chorar; para uma ferida profunda é necessária um longo e cuidadoso tratamento. Nossa penitência não deve ser menor que o crime, devemos continuamente orar, passando o dia em lágrimas e a noite em vigília. Devemos dispender todo nosso tempo em lágrimas e lamentações, permanecendo em cinzas e vestidos de sacos." São Clemente de Alexandria chama a penitência de "batismo por lágrimas"; São Gregório Nazianzeno, afirma: "Devo receber penitentes se vê-los cobertos de lágrimas". Teodoreto escreve: "Os pecados cometidos após o Batismo são curados, mas não tão facilmente como antes, pelas águas da regeneração, mas por muitas lágrimas e trabalhos dolorosos.". Estes e semelhantes são os sentimentos dos Santos Padres sobre a verdadeira contrição.
Santa Maria Madalena lavando os pés de Jesus

Mas hoje muitos se aproximam da confissão parecendo não possuir nenhuma ou a mínima contrição. Aqueles que desejam verdadeiramente se reconciliar com Deus, e viver de maneira justa, para morrer adequadamente, devem entrar no interior de seu coração e fechar a porta para todas as distrações, e, então, falar para si mesmos: "Veja o que fiz, que miserável homem sou cometendo tal pecado! Eu ofendi meu generoso Pai, que me deu todas as coisas, que me amou tanto, que me cobriu de benefícios de todas as maneiras, e tantas provas de amor que tenho visto, na minha vida e de outros irmãos. Mas o que devo dizer a meu Salvador, que me amou até mesmo quando seu inimigo o atacou, e se entregou por mim como oblação e sacrifício a Deus, como um odor de bondade; e eu sou tão ingrato que ainda O ofendi! Meu Deus foi agredido, coroado com espinhos e pregado na cruz, para que possa aplicar um remédio aos meus pecados e ofensas, e eu ainda não cesso de acrescentar pecado sobre pecado!". "Ele, pregado nu na cruz, exclamou que estava sedento pela minha salvação e eu ainda o ofendo com vinagre e o fel mais amargo! Quem poderá me explicar quão alta glória eu cai quando cometi tal e tal pecado? E era herdeiro de um reino eterno, uma vida de eterna alegria; mas desta grande alegria, a maior possível, eu infelizmente cai, por um pequeno  e passageiro prazer, por palavras ofensivas, por uma linguagem blasfema perante Deus, que não me fazem qualquer bem. E para que estado estou, perdendo toda alegria! Vivo como cativo do demônio, meu mais cruel inimigo; e tão logo a carcaça pútrida do meu corpo se dissolver, o que pode ocorrer a qualquer momento; então, instantaneamente e sem nenhuma salvação, eu descerei ao Inferno! Ah, quão miserável sou! Talvez neste dia, nesta verdadeira noite, eu comece a queimar nas chamas eternas! E, frente a todas estas considerações, a ingratitude do mais perverso servo aumente contra o mais amável Pai e Senhor; por mais benefícios Ele me cobriu, por muito mais O ofendi com meus pecados.

Para quem ler este livro, estes são os sentimentos que devem animar seu coração. Sinceramente, eu espero que obtenham de Deus o dom da contrição. O penitente Davi uma vez entrou no interior de seu coração, após cometer adultério; e tão pronto recebeu a verdadeira contrição, molhou seus aposentos com lágrimas. Pedro também, sendo penitente, entrou em seu coração, após ter negado seu mestre, e imediatamente chorou amargamente. Madalena, sendo penitente, entrou em seu coração, e lavou os pés de Jesus com lágrimas e os secou com seus cabelos. Estes são, portanto, os frutos da contrição, que não podem florescer exceto na solidão do coração.

Agora falarei brevemente da confissão. Sei que muitos se aproximam dela sem tirar nenhum ou mínimo proveito. Isto é consequência de não entrarem em seu coração para se preparem antes da confissão. Alguns são tão negligentes para se confessarem, que apenas genericamente e de maneira confusa, acusam a si mesmos de violarem todos os mandamentos ou de terem cometido todo pecado mortal. Para tais pessoas somente uma absolvição geral pode ser dada, e, em geral, não estão em estado de receberem absolvição alguma.

Outros, ainda, relacionam seus pecados em certa ordem, mas se mencionar pessoas, lugares, momentos, número e outras circunstâncias; esta também é uma negligência perigosa. Uma coisa é atacar um padre, outra um leigo, pois a primeira ofensa pode levar a excomunhão, mas não a segunda. Uma é a ofensa de pecar com uma virgem, outra com pessoa consagrada a Deus, outra com pessoa casada, outra com uma prostituta; uma coisa é ter cometido o pecado uma vez, outra tê-lo repetido muitas vezes.

Ainda, há pessoas que, e isto é mais surpreendente, imaginam que pecados internos, como desejos de fornicação, adultério, homicídio e roubo não são pecados enquanto não cometidos! Nem olhadas imodestas, toques impuros nem palavras lascivas. Esquecem-se que Nosso Senhor expressamente diz: todo aquele que lançar um olhar de cobiça para uma mulher, já adulterou com ela em seu coração (Mt 5,28). 

Quem desejar examinar sua consciência e fazer uma boa confissão, deve primeiro ler alguns livros muito úteis sobre o método de uma confissão, ou, ao menos, consultar um confessor pio e experiente. Então, deixá-lo entrar em seu coração e examinar sua consciência de maneira séria e detalhada, seus pensamentos, desejos, palavras, ações e omissões; no futuro deve abrir sua consciência ao seu diretor espiritual, e humildemente implorar por ele, estando disposto a realizar qualquer penitência que lhe impor.

Por fim, resta falar da penitência, sobre a qual nossos antecessores, muitos homens sábios, tiveram ideias mais elevadas que a maioria de nós parece ter. Como eles seriamente lembram, a penitência é muito mais fácil de ser cumprida na Terra que no Purgatório, assim impunham longas e severas penitências. Por exemplo, muitas penitências continuavam por sete, quinze ou até trinta anos; outras ainda a vida inteira. Sobre a natureza da penitência, jejuns frequentes e longas orações eram pedidas; banhos, passeios, finas vestimentas, jogos e diversões teatrais eram proibidas; em síntese, quase toda a vida dos penitentes era consumida em arrependimento e orações. Vou dar um exemplo. No décimo concílio de Toledo lemos que um bispo chamado Fotamius, que era culpado de alguns pecados de impureza, por sua iniciativa, trancou-se em uma prisão, e lá fez penitência por nove meses; após confessou seu pecado para o concílio de forma escrita e suplicou por perdão. Sabemos que o concílio decretou que deveria passar o resto da vida em penitência, dizendo ao mesmo tempo, que o tratavam mais misericordiosamente que a tradição permitia.

Mas hoje em dia somos tão fracos e delicados que um jejum a pão e água por uns dias, junto com salmos penitenciais e orações a serem recitadas em certos momentos, algumas esmolas dadas aos pobres, parecem muito severas até mesmo contra crimes e ofensas enormes. Quanto mais nos tratarmos bem nesta vida, mais a justiça de Deus nos fará sofrer no Purgatório, exceto, claro, se a eficácia de nossa verdadeira contrição for tal que, acompanhada de ardente caridade, pela misericórdia de Deus, obtivermos o perdão de nossos pecados e penas merecidas por termos cometidos. Um coração contrito e humilde, magnificamente satisfaz a compaixão de Deus Nosso Pai; por sua imensa doçura e bondade, que ele não pode outra coisa fazer a não ser correr ao encontro do seu filho pródigo arrependido, abraça-lo, beijá-lo, desejar a paz e secar todas as suas lágrimas, e enchê-lo de lágrimas de júbilo, mais doce que o mel.

-- Do Livro A Arte de Morrer Bem, de São Roberto Belarmino, bispo (século XVIII) 

-- Nota: sempre que possível procuro utilizar textos traduzidos por profissionais e publicados com autorização de nossas autoridades eclesiais. Este, no entanto, foi traduzido por mim, a partir do livro em Inglês, por não tê-lo encontrado traduzido para o Português. O texto em inglês está disponível aqui.




12 de set. de 2010

O Filho Pródigo (Lc 15, 11-32), sermão de Santo Agostinho

O patrimônio que o filho recebeu do Pai é a inteligência, a mente, a memória, o engenho e tudo o que Deus nos deu para que O conhecêssemos e Lhe déssemos culto. Tendo recebido este patrimônio, o filho menor "partiu para um país muito distante". Distância significa: o esquecimento de seu Criador. "Dissipou sua herança vivendo dissolutamente": gastando e não ajuntando; malbaratando tudo o que tinha e não adquirindo o que não tinha, isto é, consumindo toda sua capacidade em luxúria, em ídolos, em todo tipo de desejos perversos, aos que a Verdade denominou meretrizes.

Não é de admirar que essa orgia acabasse em fome. "Sobreveio àquela região uma grande fome"; fome não de pão visível mas da verdade invisível. E, por causa da fome, "foi pôr-se a serviço de um dos senhores daquela região": entenda-se o diabo, o senhor dos demônios. Alimentava-se então das vagens de porcos sem poder saciar-se. Vagens são as vistosas doutrinas do mundo: servem para ostentar mas não para sustentar; alimento digno para porcos, mas não para homens: próprias para dar aos demônios deleitação, mas não aos fiéis justificação.

Até que, por fim, tomou consciência do lugar em que tinha caído; do quanto tinha perdido; Quem tinha ofendido e a quem se tinha submetido. Reparai no que diz o Evangelho: "Entrando em si..."; primeiramente, voltou-se para si e só assim pôde voltar para o pai. Dizia talvez: "O meu coração me abandonou (isto é: saí de mim mesmo)" (Sl 40,13); daí que fosse necessário, antes, voltar para si mesmo e assim perceber que se encontrava longe do pai. É o que diz a Escritura quando increpa a alguns, dizendo: "Voltai, pecadores, ao coração! (isto é: voltai, pecadores, a vós mesmos!)" (Is 46,8). Voltando para si mesmo, encontrou-se miserável: "Encontrei, diz ele, a tribulação e a dor e invoquei o nome do Senhor" (Sl 116,3-4). "Quantos empregados, diz ele, há na casa de meu pai, que têm pão em abundância, e eu, aqui, a morrer de fome!"

Levantou-se e voltou. Ele, caído por terra depois de contínuos tropeços. O pai o vê ao longe e sai-lhe ao encontro. É dele que fala o Salmo: "Entendeste meus pensamentos de longe" (Sl 139,2). Que pensamentos? Aqueles que o filho tinha em seu interior: "Levantar-me-ei e irei a meu pai, e dir-lhe-ei: Meu pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me como a um dos teus empregados". Ele ainda nada tinha dito, só pensava em dizer. O pai, porém, ouvia como se o filho já o estivesse dizendo.

E assim se diz em outro Salmo: "Eu disse: confessarei minha iniqüidade ao Senhor" (Sl 32,5). Vede como se trata ainda de algo interior a ele, de um mero projeto e, contudo, acrescenta imediatamente: "E tu já perdoaste a impiedade de meu coração" (Sl 32,5). Quão próxima está a misericórdia de Deus daquele
que se confessa!

E o pai ordena que o vistam com a primeira veste, aquela que Adão perdera ao pecar. Tendo recebido o filho em paz, tendo-o beijado, ordena que lhe dêem uma veste: a esperança de imortalidade, conferida no batismo. Ordena que lhe dêem um anel, penhor do Espírito Santo; calçado para os pés, como preparação para o anúncio do Evangelho da paz, para que sejam formosos os pés dos que anunciam a boa nova.

Estas coisas Deus faz através de seus servos, isto é, os ministros da Igreja. Acaso eles podem, por si próprios, dar veste, anel e calçados? Não, apenas cumprem seu ministério, desempenham seu ofício; quem dá é Aquele de cujo depósito e de cujo tesouro são extraídos estes dons.

-- Do Sermão sobre o Filho Pródigo, de Santo Agostinho, século IV.

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