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15 de fev. de 2014

Daniel 3 - Cântico das Criaturas

No capítulo 3 do Livro de Daniel encontra-se inserida uma luminosa oração litânica, um verdadeiro e peculiar Cântico das criaturas, que a Liturgia das Laudes nos propõe várias vezes, em diversos fragmentos.

Ouvimos agora a parte fundamental, um grandioso coro cósmico, emoldurado por duas antífonas que o resumem:  "Bendito sois no firmamento dos céus, digno de louvor e glória eternos! Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor, a ele glória e louvor eterno!" (vv. 56-57).

Entre estas duas aclamações desenvolve-se um solene hino de louvor, que se exprime com o convite repetido "bendizei":  formalmente, trata-se apenas de um convite a bendizer a Deus dirigido a toda a criação; na realidade, trata-se de um cântico de agradecimento que os fiéis elevam ao Senhor por todas as maravilhas do universo. O homem faz-se voz da criação inteira para louvar e agradecer a Deus.

Este hino, cantado por três jovens hebreus que convidam todas as criaturas a louvar a Deus, nasce numa situação dramática. Os três jovens, perseguidos pelo soberano da Babilónia, encontram-se imersos na fornalha ardente devido à sua fé. E contudo, mesmo se estavam prestes a sofrer o martírio, eles não hesitam em cantar, em rejubilar, em louvar. O sofrimento áspero e violento da prova desaparece, parece que se dissolve na presença da oração e da contemplação.

É precisamente esta atitude de abandono confiante que suscita a intervenção divina.

De fato, como afirma a sugestiva narração de Daniel, "O anjo do Senhor, porém, tinha descido até Azarias e seus companheiros, na fornalha, e afastava o fogo. Mudou o lugar da fornalha em lugar onde soprava como que uma brisa matinal:  o fogo nem sequer os tocou e nem lhes causou qualquer mal nem a menor dor" (vv. 49-50). Os pesadelos desaparecem como o nevoeiro ao sol, os receios dissipam-se, o sofrimento é eliminado quando todo o ser humano se torna louvor e confiança, expectativa e esperança. Eis a força da oração quando é pura, intensa, abandono total a Deus, providencial e redentor.

O cântico dos três jovens faz desfilar diante dos nossos olhos uma espécie de procissão cósmica, que parte do céu povoado de anjos, onde também brilham o sol, a lua e as estrelas. Lá de cima Deus derrama sobre a terra o dom das águas que estão acima dos céus (cf. v. 60), isto é, as chuvas e a brisa matinal (cf. v. 64).
Contudo, eis que começam também a soprar os ventos, a explodir os relâmpagos e a irromper as estações com o calor e com o gelo, com o fervor do verão, mas também com a geada, o gelo, a neve (cf. vv. 65-70.73). O poeta insere no cântico de louvor ao Criador também o ritmo do tempo, o dia e a noite, a luz e as trevas (cf. vv. 71-72). No final o olhar poisa também sobre a terra, partindo dos cumes dos montes, realidades que parecem unir terra e céu (cf. vv. 74-75).

Eis que então se unem no louvor a Deus as criaturas vegetais que germinam na terra (cf. v. 76), as nascentes que trazem vida e frescor, os mares e os rios com as suas águas abundantes e misteriosas (cf. vv. 77-78). De facto, o cantor evoca também "os monstros marinhos" ao lado dos peixes (cf. v. 79), como sinal do caos aquático primordial ao qual Deus impôs regras para serem observadas (cf. Sl 3-4; Job 38, 8-11; 40, 15; 41, 26).

Depois  é  a  vez  do  grande  e  variado  reino  animal,  que  vive  e  se  move nas águas, na terra e nos céus (cf. Dn 3, 80-81).

O último ator da criação que entra na cena é o homem. Primeiro, o olhar alarga-se a todos os "filhos do homem" (cf. v. 82); depois, a atenção concentra-se em Israel, o povo de Deus (cf. v. 83); a seguir, é a vez de quantos se consagraram totalmente a Deus não só como sacerdotes (cf. v. 84), mas também como testemunhas de fé, de justiça e de verdade. São os "servos do Senhor", os "espíritos e as almas dos justos", os "mansos e humildes de coração" e, entre eles, sobressaem os três jovens, Ananias, Azarias e Misael, que deram voz a todas as criaturas num louvor universal e perene (cf. vv. 85-88).

Ressoaram constantemente os três verbos da glorificação divina, como numa ladainha:  "bendizei, louvai, exaltai" o Senhor. Esta é a alma autêntica da oração e do cântico:  celebrar o Senhor sem parar, na alegria de pertencer a um coro que engloba todas as criaturas.

Gostaríamos de concluir a nossa meditação dando voz aos Padres da Igreja,  como  Orígenes,  Hipólito,  Basílio de Cesareia e Ambrósio de Milão, que comentaram a narração dos seis dias da criação (cf. Gn 1, 1-2, 4a) precisamente em conexão com o Cântico dos três jovens.

Limitamo-nos a citar o comentário de Santo Ambrósio, o qual, ao referir-se ao quarto dia da criação (cf. Gn 1, 14-19), imagina que a terra fala e, ao falar sobre o sol, encontra todas as criaturas unidas no louvor a Deus:  "Bom é deveras o sol, porque serve, ajuda a minha fecundidade, alimenta os meus frutos. Ele foi-me dado para o meu bem, está submetido comigo às canseiras. Geme comigo, para que chegue a adopção dos filhos e a redenção do género humano, para que possamos ser, também nós, libertados da escravidão. Ao meu lado, juntamente comigo louva o Criador, juntamente comigo eleva um hino ao Senhor nosso Deus. Onde o sol bendiz, ali bendiz a terra, bendizem as árvores de fruto, bendizem os animais, bendizem comigo as aves".

Ninguém é excluído da bênção do Senhor, nem sequer os monstros do mar (cf. Dn 3, 79). Com efeito, Santo Ambrósio prossegue:  "Até as serpentes louvam o Senhor, porque a sua natureza e o seu aspecto revelam aos nossos olhos alguma beleza e mostram ter a sua justificação".

Com mais razão nós, seres humanos, devemos acrescentar a este concerto de louvor a nossa voz feliz e confiante, acompanhada por uma vida coerente e fiel.

-- Papa João Paulo II, 10 de Julho de 2002

10 de abr. de 2013

Cântico de Daniel: Todas as criaturas louvem ao Senhor

Queridos irmãos e irmãs,

O cântico que acabou de ser proclamado é constituído pela primeira parte de um longo e bonito hino que se encontra inserido na tradução grega do livro de Daniel. Cantam-no três jovens hebreus lançados numa fornalha por terem recusado adorar a estátua do rei de Babilónia, Nabucodonosor. Outra parte do mesmo cântico é proposto pela Liturgia das Horas para as Laudes do domingo, na primeira e na terceira semana do Saltério litúrgico.

O livro de Daniel, como se sabe, reflete as esperanças e expectativas apocalípticas do povo eleito, o qual, na época dos Macabeus (II século a. C.) lutava para poder viver de acordo com a Lei dada por Deus.

Na fornalha, os três jovens, milagrosamente preservados das chamas, cantam um hino de louvor dirigido a Deus. Este hino é semelhante a uma ladainha, repetitiva e, ao mesmo tempo, nova:  as suas invocações elevam-se até Deus como espirais de incenso, que percorrem o espaço em formas semelhantes mas nunca iguais. A oração não teme a repetição, como o apaixonado não hesita declarar infinitas vezes à amada todo o seu afecto. Insistir nas mesmas questões é sinal de intensidade e de numerosas formas nos sentimentos, nas pulsações interiores e nos afetos.

Ouvimos proclamar o início deste hino  cósmico,  contido  no  terceiro  capítulo  de  Daniel,  nos  versículos  52-57. É  a  introdução,  que  precede  o  grandioso  desfile  das  criaturas  envolvidas no  louvor.  Um  olhar  panorâmico para todo  o  cântico  no  seu  prolongamento litânico,  faz-nos  descobrir  uma  sucessão de elementos que constituem o enredo de todo o hino. Ele começa com seis invocações dirigidas diretamente a Deus; a elas, segue-se um apelo universal a "todas as obras do Senhor", para que abram os seus lábios imaginários ao louvor (cf. v. 57).

É esta a parte sobre a qual hoje refletimos e que a liturgia propõe para as Laudes do domingo da segunda semana. Logo a seguir, o cântico prolonga-se convocando todas as criaturas do céu e da terra para louvar e engrandecer o seu Senhor.

O nosso trecho inicial será retomado outra vez pela liturgia, nas Laudes do domingo da quarta semana. Por isso, escolheremos agora apenas alguns elementos para a nossa reflexão. O primeiro é o convite ao louvor:  "Bendito, sois, Senhor...", que, no final, se transforma em "Bendizei...!".

Existem na Bíblia duas formas de bênção, que se entrelaçam entre si. Por um lado, encontra-se a que vem de Deus:  o Senhor abençoa o seu povo (cf. Nm 6, 24-27). É uma bênção eficaz, fonte  de  fecundidade,  felicidade  e  prosperidade.  Por  outro,  encontra-se  o louvor que da terra se eleva para o céu. O homem, beneficiado pela generosidade  divina,  bendiz  a  Deus,  louvando-o, agradecendo-lhe, exclamando:  "Bendiz, ó minha alma, o Senhor!" (Sl 102, 1; 103, 1).

A  bênção  divina  é  muitas  vezes mediada  pelos  sacerdotes  (cf.  Nm  6, 22-23.27; Sir 50, 20-21)  através  da imposição  das  mãos;  ao  contrário, o louvor humano é expresso no hino litúrgico, que a assembleia dos fiéis eleva ao Senhor.

Outro elemento que consideramos no âmbito do trecho agora proposto à nossa meditação é constituído pela antífona. Poderíamos imaginar que o solista, no templo repleto de povo, entoasse o louvor:  "Bendito sois vós, Senhor...", enumerando as várias maravilhas divinas, enquanto a assembleia dos fiéis repetia constantemente a fórmula:  "Sois digno de louvor e de glória pelos séculos dos séculos". Era o que já acontecia com o Salmo 135, o chamado "Grande Hallel", ou seja, o grande louvor, onde o povo repetia:  "É eterna a vossa misericórdia", enquanto um solista enumerava os vários atos de salvação realizados pelo Senhor em favor do seu povo.

Objeto de louvor, no nosso Salmo, é em primeiro lugar o nome "glorioso e santo" de Deus, cuja proclamação ressoa no templo, também ele "santo glorioso". Os sacerdotes e o povo, enquanto contemplam, na fé, Deus que está sentado "no trono do Seu reino", sentem o Seu olhar sobre si, que "penetra os abismos" e esta consciência faz surgir do seu coração o louvor. "Bendito... bendito...". Deus, que "está sentado em cima dos querubins" e tem como habitação o "firmamento do céu", contudo está próximo do seu povo, que por isso se sente protegido e seguro.

A proposta deste cântico repetida na manhã de domingo, a Páscoa semanal dos cristãos, é um convite a abrir os olhos diante da nova criação que teve origem precisamente com a ressurreição de Jesus. Gregório de Nissa, um Padre da Igreja grega do quarto século, explica que com a Páscoa do Senhor "são criados um novo céu e uma nova terra... é plasmado um homem diferente renovado à imagem do seu criador através do nascimento do alto" (cf. Jo 3, 3.7). E continua:   "Assim  como  quem  olha para  o  mundo  sensível  deduz  por  meio das  coisas  visíveis  a  beleza  invisível... assim  quem  olha  para  este  novo mundo da criação eclesial vê nele Aquele que se tornou tudo em todos, orientando a mente pela mão, através das coisas compreensíveis da nossa natureza racional, isto é, para quem supera a compreensão humana" (Langerbeck H.,Gregorii Nysseni Opera, VI, 1-22 passim, pág. 385).

Por conseguinte, ao entoar este cântico, o crente cristão é convidado a contemplar o mundo da primeira criação, entrevendo nele o perfil da segunda, inaugurada com a morte e a ressurreição do Senhor Jesus. E esta contemplação conduz a todos pela mão, para entrarem, quase dançando de alegria, na única Igreja de Cristo.

-- Papa João Paulo II, na audiência de 12 de Dezembro de 2001

22 de set. de 2012

Cântico de Daniel - Toda criatura louve ao Senhor

Queridos irmãos e irmãs,


1. "Obras do Senhor, bendizei todas o Senhor" (Dn 3, 57). Uma serenidade cósmica invade este Cântico tirado do livro de Daniel, que a Liturgia das Horas propõe para as Laudes do Domingo na primeira e terceira semanas. E esta maravilhosa oração de ladainha condiz bem com o Dies Domini, o Dia do Senhor, que em Cristo ressuscitado nos faz contemplar o ápice do desígnio de Deus sobre o cosmos e a história. Com efeito, n'Ele, Alfa e Ómega, Princípio e Fim da história (cf.Ap 22, 13), a própria criação adquire o sentido completo porque, como recorda João no prólogo do seu Evangelho "tudo começou a existir por meio d'Ele" (Jo 1, 3). Na Ressurreição de Cristo encontra-se o vértice da história da salvação, abrindo a vicissitude humana para o dom do Espírito e da adopção filial, à espera do retorno do Esposo divino, que entregará o mundo a Deus Pai (cf. 1 Cor 15, 24).

2. Neste trecho em forma de ladainha, são como que passadas em revista todas as coisas. O olhar volta-se para o sol, a lua e os astros; detém-se na imensidão das águas, eleva-se rumo às montanhas e contempla as várias situações atmosféricas; passa do calor ao frio, da luz às trevas; considera o mundo mineral e vegetal, analisando as diversas espécies animais. Depois, o apelo torna-se universal:  chama ao princípio os anjos de Deus, atinge todos os "filhos do homem", mas empenha de forma especial o povo de Deus, Israel, os seus sacerdotes, os justos. É um coro imenso, uma sinfonia em que as várias vozes elevam o seu cântico a Deus, Criador do universo e Senhor da história. Recitado à luz da revelação cristã, ele dirige-se a Deus trinitário, como a liturgia nos convida a fazer, acrescentando ao Cântico uma fórmula trinitária:  "Bendigamos ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo".

3. De certa forma, neste Cântico reflete-se a alma religiosa universal, que no mundo vislumbra os vestígios de Deus, elevando-se à contemplação do Criador. Mas no contexto do livro de Daniel, o hino apresenta-se como ação de graças recitado por três jovens israelitas Ananias, Azarias e Misael condenados a morrer queimados numa fornalha, por se terem recusado a adorar a estátua de ouro de Nabucodonosor, mas milagrosamente preservados das chamas. Por detrás deste acontecimento há a singular história de salvação, em que Deus escolhe Israel como seu povo e com ele faz uma aliança. Os três jovens israelitas desejam ser fiéis precisamente a esta aliança, mesmo ao preço de irem ao encontro do martírio na fornalha ardente. A sua fidelidade encontra-se com a  fidelidade  de  Deus,  que  envia  um anjo  para  afastar  deles  as  chamas (cf. Dn 3, 49).

Desta forma, este Cântico coloca-se na linha dos cantos de louvor por um perigo evitado, contidos no Antigo Testamento. Entre eles, é famoso o cântico de vitória que aparece no capítulo 15 do Êxodo, onde os antigos hebreus exprimem o seu reconhecimento ao Senhor por aquela noite em que seriam inevitavelmente aniquilados pelo exército do faraó, se o Senhor não lhes tivesse aberto um caminho entre as águas, fazendo precipitar "no mar o cavalo e o cavaleiro" (v. 1).

4. Não é por acaso que, na solene vigília pascal, a liturgia nos faz repetir todos os anos o hino cantado pelos israelitas no Êxodo. Aquele caminho que lhes foi aberto anunciava profeticamente a nova senda que Cristo ressuscitado inaugurou para a humanidade na noite santa da sua Ressurreição dos mortos. A nossa passagem simbólica através das águas baptismais permite-nos reviver uma experiência análoga de passagem da morte para a vida, graças à vitória sobre a morte, que Jesus alcançou em favor de todos nós.

Ao repetirmos na liturgia dominical das Laudes o Cântico dos três jovens israelitas, nós discípulos de Cristo queremos colocar-nos na mesma onda de gratidão pelas grandes obras realizadas por Deus, tanto na criação como, sobretudo, no mistério pascal.

Com efeito, o cristão vislumbra aqui uma relação entre a libertação dos três jovens, de quem nos fala o Cântico, e a Ressurreição de Jesus. Nesta última, os Atos dos Apóstolos vêem realizada a oração dos fiéis que, como o Salmista, cantam com confiança:  "Tu não abandonarás a minha alma na habitação dos mortos, nem permitirás que o teu Santo conheça  a  decomposição"  (At 2, 27;Sl 15, 10).

A relação deste Cântico com a Ressurreição é bastante tradicional. Existem antiquíssimos testemunhos da presença deste hino na oração do Dia do Senhor, que é a Páscoa semanal dos cristãos. Além disso, as catacumbas romanas conservam restos iconográficos em que se aparecem os três jovens que rezam incólumes no meio das chamas, testemunhando desta maneira a eficácia da oração e a certeza da intervenção do Senhor.

5. "Bendito sois Vós no firmamento dos céus, digno de louvor e glória eternos!" (Dn 3, 56). Ao entoar este hino na manhã de Domingo, o cristão sente-se grato não só pelo dom da criação, mas também porque é destinatário do cuidado paterno de Deus, que em Cristo o elevou à dignidade de filho.

Um cuidado paternal que nos faz considerar com um novo olhar a própria criação e apreciar a sua beleza, na qual se entrevê, como que em filigrana, o amor de Deus. É com estes sentimentos que Francisco de Assis contemplava a criação e elevava o seu louvor a Deus, nascente última de toda a beleza. Torna-se espontâneo imaginar que a exaltação deste texto bíblico ecoava na sua alma quando, em São Damião, depois de ter alcançado o vértice do sofrimento no corpo  e  no  espírito,  compôs  o " Cântico  do  irmão  sol"  (cf. Fontes Franciscanas, 263).

-- Papa João Paulo II, na audiência de 2 de Maio de 2001

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