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13 de fev. de 2014

Forme-se Cristo em vós

Diz o Apóstolo: Sede como eu. Embora judeu por nascimento, desprezo em meu espírito as prescrições segundo a carne. Porque também eu, como vós, sou homem. Em seguida, com delicadeza, ele os faz reconsiderar sua caridade, para que não o tratem como inimigo. Assim fala: Irmãos, suplico-vos, não me ofendestes em nada. Como se dissesse: “Não julgueis que desejo ofender-vos”.

Por isto diz ainda: Filhinhos, para que o imitem como pai. A quem, continua, dou de novo à luz até que Cristo se forme em vós. Fala principalmente na pessoa da santa mãe Igreja, pois declara em outro lugar: Tornei-me pequenino entre vós, como mãe que acalenta seus filhos.

Santo Agostinho em seu escritório, de Sandro Boticelli.
Igreja de Todos os Santos, Florença, Itália
No crente, Cristo se forma, pela fé, no homem interior, chamado à liberdade da graça, manso e humilde de coração, que não se envaidece pelos méritos de suas obras, que são nulas. Se ele começa a ter algum mérito, deve-o à própria graça. A este pode chamar seu mínimo e identificá-lo consigo aquele que disse: O que fizestes a um dos mínimos meus, a mim o fizestes. Cristo é formado naquele que recebe a forma de Cristo. Recebe a forma de Cristo quem adere a Cristo com espiritual amor.

Disto decorre que, imitando-o, se torne o que ele é, na medida que lhe é possível. Quem diz estar em Cristo, fala João, deve caminhar como também ele caminhou.

Visto como os homens são concebidos pelas mães para se formar e, uma vez formados, são dados à luz do nascimento, surpreendem-nos as palavras: De novo dou à luz até que Cristo se forme em vós. Temos de entender este novo parto como a aflição dos cuidados que ele suporta por aqueles pelos quais sofre até que Cristo nasça. De novo sofre as dores do parto por causa da sedução perigosa que os perturba. Semelhante solicitude a respeito deles, que o faz dizer estar em dores do parto, pode continuar até que cheguem à medida da idade perfeita de Cristo, de maneira que já não se deixem levar por todo vento de doutrina. Não está solícito, portanto, em relação à fé inicial deles, pois já haviam nascido, mas quanto a seu fortalecimento e perfeição. Assim é que ele diz: A quem de novo dou à luz, até que Cristo se forme em vósCom outras palavras refere-se ao mesmo sofrimento: Os meus cuidados de todos os dias, a solicitude por todas as Igrejas. Quem se enfraquece sem que eu também me torne fraco? quem tropeça, que eu não me ponha a arder?

-- Do Comentário sobre a Carta aos Gálatas, de Santo Agostinho, bispo (século V)

23 de dez. de 2011

Manifestação do mistério escondido


 
Único é o Deus que conhecemos, irmãos, e não por outra fonte que não seja a Sagrada Escritura. Devemos, pois, saber o que ela anuncia e compreender o que ensina. Creiamos no Pai como ele quer ser acreditado; glorifiquemos o Filho como ele quer ser glorificado; e recebamos o Espírito Santo como ele quer se dar a nós. Consideremos tudo isso, não segundo nosso próprio arbítrio e interpretação pessoal, nem fazendo violência aos dons de Deus, mas como ele próprio nos ensinou pelas santas Escrituras.

Quando só existia Deus, e não havia ainda nada que existisse com ele, decidiu criar o mundo. Criou-o por seu pensamento, sua vontade e sua palavra; e o mundo começou a existir como ele quis e realizou. Basta-nos apenas saber que nada coexistia com Deus. Não havia nada além dele, só ele existia e era perfeito em tudo. Nele estava a inteligência, a sabedoria, o poder e o conselho. Tudo estava nele e ele era tudo. E quando quis e como quis, no tempo que havia estabelecido, manifestou o seu Verbo, por quem fez todas as coisas.

Deus possuía o Verbo em si mesmo, e o Verbo era imperceptível para o mundo criado; mas fazendo ouvir sua voz, Deus tornou-o perceptível. Gerando-o como luz da luz, enviou como Senhor da criação aquele que é sua própria inteligência. E este Verbo, que no princípio era visível apenas para Deus e invisível para o mundo, tornou-se visível para que o mundo, vendo-o manifestar-se, pudesse ser salvo. O Verbo é verdadeiramente a inteligência de Deus que, ao entrar no mundo, se manifestou como o servo de Deus. Tudo foi feito por ele, mas ele procede unicamente do Pai. Foi ele quem deu a lei e os profetas; e ao fazê-lo, impulsionou os profetas a falarem sob a moção do Espírito Santo para que, recebendo a força da inspiração do Pai, anunciassem o seu desígnio e a sua vontade.

O Verbo, portanto, se tornou visível, como diz São João. Este repete em síntese o que os profetas haviam dito, demonstrando que aquele era o Verbo por quem tinham sido criadas todas as coisas: No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus; e o Verbo era Deus. Tudo foi feito por ele e sem ele nada se fez (Jo 1,1.3). E, mais adiante, prossegue: O mundo foi feito por meio dele, mas o mundo não quis conhecê-lo. Veio para o que era seu, os seus, porém, não o acolheram (Jo 1,10-11).

-- Do Tratado contra a heresia de Noeto, de Santo Hipólito, presbítero. (século III)

19 de dez. de 2011

A Encarnação redentora


A glória do homem é Deus; mas quem se beneficia das obras de Deus e de toda a sua sabedoria e poder é o homem.

Semelhante ao médico que demonstra sua competência no doente, assim Deus se manifesta nos homens. Eis por que o Apóstolo Paulo diz: Deus encerrou todos os homens na desobediência, a fim de exercer misericórdia para com todos (Rm 11,32). Referia-se ao homem que, por ter desobedecido a Deus, perdeu a imortalidade, mas depois obteve misericórdia, recebendo a adoção por intermédio do Filho de Deus.

Se o homem acolhe, sem orgulho nem presunção, a verdadeira glória que procede das criaturas e do criador, isto é, de Deus todo-poderoso que dá a tudo a existência, e se permanece em seu amor, na obediência e na ação de graças, receberá dele uma glória ainda maior, progredindo sempre mais, até se tornar semelhante àquele que morreu por ele.

Com efeito, Cristo se revestiu de uma carne semelhante à do pecado (Rm 8,3) para condenar o pecado e, depois de o condenar, expulsá-lo da carne. Tudo isso para incentivar o homem a tornar-se semelhante a ele, destinando-o a ser imitador de Deus, colocando-o sob a obediência paterna, a fim de que visse a Deus e tivesse acesso ao Pai. O Verbo de Deus habitou no homem e se fez filho do homem, para acostumar o homem a compreender a Deus e Deus a habitar no homem, segundo a vontade do Pai.

Por esse motivo, o sinal de nossa salvação, o Emanuel nascido da Virgem (cf. Is 7,11.14), foi dado pelo próprio Senhor; pois seria ele quem salvaria os homens, já que não poderiam salvar-se por si mesmos. Por isso São Paulo proclama a fraqueza do homem, dizendo: Estou ciente de que o bem não habita em mim (Rm 7,18), indicando que o bem de nossa salvação não vem de nós, mas de Deus. E ainda: Infeliz que sou! Quem me libertará deste corpo de morte? (Rm 7,24). E logo mostra quem o liberta: A graça de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. Rm 7,25).

Também Isaías diz: Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: “Criai ânimo, não tenhais medo! Vede, é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus; é ele que vem para nos salvar” (cf. Is 35,3-4). Na verdade, nossa salvação não poderia vir de nós mesmos, mas unicamente do socorro de Deus.

-- Do Tratado sobre as Heresias, de Santo Irineu, bispo (século II)

7 de dez. de 2011

Maria, mãe de Deus - um guia de leituras bíblicas (parte I)


Maria da humildade.
Obra de Domenico di Bortolo, 1433)
O papel importante que desempenha a mãe de Jesus na tradição cristã está esboçado nas Escrituras desde a revelação. Se a primeira geração cristã centrou seu interesse no ministério de Jesus, do batismo até a Páscoa (At 1,22; 10,37ss; 13,24ss), foi porque deveria responder a urgência da missão apostólica. Era normal que os relatos sobre a infância de Jesus aparecessem tardíamente. 

São Marcos os ignora, contentando-se a mencionar somente duas vezes a mãe de Jesus (Mc 3,31-35; 6,3). São Mateus os conhece, porém centra os relatos em José, o descendente de Davi, que recebe mensagens celestiais (Mt 1,20s; 2,13.20.22); e no nome de Jesus, o filho da Virgem (Mt 1,18-25). São Lucas destaca María plenamente; ela desempenha um papel principal, é uma personagem importante; está presente também nas origens da Igreja, no Cenáculo  (At 1,14). Finalmente, São João enquadra a vida de Jesus entre cenas marianas (Jo 2,1-12; 19,25ss). Tanto em Caná, como no Calvário, define Maria primeiro como aquela que crê, depois como mãe dos discípulos. Esta tomada de consciência progressiva de Maria não é mero amadurecimento psicológico, pois reflete um conhecimento mais profundo do mistério de Jesus, inseparável da "mulher" da qual escolheu nascer (Gal 4,4). 

Alguns títulos marianos são especialmente importantes e merecem atenção.

I. A Filha de Sião

1. María aparece em primeiro lugar semelhante a outras mulheres da época. Como testemunham os textos da época e as numerosas Marías do NT, seu nome, o mesmo de uma irmã de Moisés (Ex 15,20), era comum na época de Jesus. Em aramaico significa provavelmente «princesa» ou «senhora». Lucas, apoiando-se em tradições da Palestina, apresenta María como uma piedosa mulher judía, fielmente submissa a lei (Lc 2,22.27.39), falando nos mesmos termos do AT l ao responder ao anjo (Lc 1,38). O Magnificat é uma compilação de salmos e se inspira principalmente no cântico de Ana (Lc 1,46-55; 1Sm 2,1-10).

2. Todavía, segundo Lucas, María não é uma mulher simples judía. Nas cenas da anunciação e da visitação (Lc 1,26-56) apresenta María como a filha de Sião, no exato sentido que tinha esta expressão no AT: a personificação do povo de Deus. Quando o anjo diz "regojiza" (Lc 1,28), não é uma saudação comum, mas evoca as promessas da vinda do Senhor a sua cidade santa (Sf 3,14-17; Zc 9,9). O título «cheia de graças», a faz objeto especial do amor divino e lembra várias personagens importantes da história do povo judaico. Estes indicios literários correspondem a função que exerce María nestas cenas: somente ela recebe,  em nome da casa de Jacó, o anuncio da salvação; ela aceita e faz assim possível seu cumprimento.  Finalmente, no Magnificat combina sua gratidão pessoal (Lc 1,46-49) com outros em que fala em nome da raça de Abraão, com reconhecimento e júbilo (Lc 1,50-55).

II. A Virgem

1. A virgindade de María na concepção de Jesus se afirma em dois textos independentes (Lc 1,26-38; Mt 1,18-23). Está confirmada por alguns testemunhos antigos de João: os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus (Jo 1, 13). A virgindade está, portanto, solidamente testemunhada; seu sentido é expreseado claramente por São Mateus como uma realização da profecia (Is 7,14); São Lucas também refere-se a mesma profecía (Lc 1,31s).

2. María desejava a virgindade? Seu casamento com José exige, a primeira vista, uma resposta negativa. Além disso, é sabido que Israel não dava grande valor religioso a la virgindade (Jz 11,37s). São Lucas, porém, relata uma fato importante. Ao anjo que lhe anuncia sua maternidade, objeta María: Como será isto, pois não conheço homem? (Lc 1,34). A frase não é clara e tem recibido muitas interpretacões. A mais tradicional, sustentada por estudiosos, é esta: María é a esposa legal de José. Se neste matrimonio mantem relações conjugais normais (que a língua bíblica designa pela palavra «conhecer», p. e., Gn 4,1), o anúncio de sua maternidade não pode cria nenhum problema. José pertece a família de Davi; seu filho pode ser o Messías anunciado pelo anjo. Então a pergunta perde significado. Porém, seu significado permite outra tradução: "pois não quero conhecer nenhum homem". Indicaria em Maria um propósito de virgindade. Esta decisão seria surpreendente para uma jovem esposa, mas estudos indicam que não era totalmente estranha na Palestina da época. Além disso, uma jovem que desejasse guardar virgindade não poderia recusar um casamento decidido pelo seu pai. Portanto, bem examinado, o texto é favorável a virgindade de Maria.

3. E qual sentido Maria dava a esta virgindade? Entre os essênios da época, o celibato era justificado como uma estado de pureza, significava a abstenção de pecados da carne. Maria não expressa seus motivos, mas pelo relato de São Lucas, haveria razões mais espirituais e positivas. O anjo do Senhor a chama de "muito amada". Já Maria que ser sua "serva", com um gesto nobre (Lc 1,38). Sua virgindade seria assim uma consagração, um dom de amor exclusivo ao Senhor. Isto já aparece esboçado no AT. Embora não fale em virgindade religiosa, não cessa de pedir um amor fiel e exclusivo ao Senhor (Dt 6,5). Maria, desta forma, reservando-se inteiramente a Ele, responde ao chamamento dos profetas (Oseias, Jeremias, Ezequiel, ..), de muitos salmos (Sl 16; Sl 23; Sl 42; Sl 63; Sl 84) e dos livro dos Cânticos dos Cânticos.

4. A menção à "irmãos" de Jesus (Mc 3,31; Mc 6,3; Jo 7,3; At 1,14; 1Cor 9,5; Gal 1,19) tem conduzido vários críticos a supor que Maria não manteve a virgidnade após o nascimento de Jesus. Esta opinião contradiz a tradição, que não atribui nenhum outro filho a Maria. Tam'bem é sabido que na língua original, "irmão" poderia se referir a parentes próximos e aliados de Jesus.


III. A MÃE

Em todos os relatos da tradição evangélica, Maria é, acima de tudo, a mãe de Jesus. Diversos textos utilizam este título (Mc 3,31; Lc 2,48; Jo 2,1-12; 19,25s). E isto define toda sua função na obra da salvação. 

1. A maternidade é voluntária, como destaca o relato da Anunciação (Lc 1,26-38). Ante a notícia inesperada, São Lucas deixa claro que a preocupação é como conciliar este chamado de Deus com a virgindade. O anjo responde que aceitar a maternidade também permitirá aceitar a virgindade. Maria, completamente esclarecida, aceita; é a serva do Senhor, como foram servos Abraão, Moisés e os profetas; seu serviço, como o deles; é aceito em liberdade.

Stabat Mater.
Obra de Gentile da Fabriano, 1410.
2. Quando Maria dá a luz, sua tarefa, como a de todas as mães, está apenas começando. Deve educar a Jesus. Com José compartilha suas responsabilidades, leva o filho ao templo para apresentá-lo ao Senhor. Recebe de Simeão, como resposta, o anúncio de sua missão (Lc 2,29-32.34s).

3. Maria ainda é a mãe quando Jesus chega a idade adulta. Está junto do filho nos momentos decisivos (Mc 3,21.31; Jo 19,25ss). Aos doze anos, israelita já em idade considerada adulta, Jesus proclama a seus pais que deve, antes de tudo, obedecer a seu Pai celestial (Lc 2,49). Quando inicia sua missõ em Caná, suas palavras a Maria, "mulher deixa-me" (Jo 2,4) são as de um filho preocupada com sua responsabilidades, que reinvidica independência. No futuro, Maria aparece masi como uma mulher fiel (Mc 3,32-35; Lc 11,27s).

4. Tudo se consuma na cruz. Simeão, ao prever o destino de Jesus, já havia anunciado que a espada iria atravessar a alma de maria e unir-la ao sacrifício de seu filho redentor (Lc 2,34s). Esta consumada sua amternidade, como descreve São João (Jo 19,25ss). Maria está em pé junto da cruz. Jesus lhe chama "mulher", que indica sua autoridade de Senhor. Mostrando a Maria o discípulo presente, diz: "Eis o teu filho", chamando-a a uma nova maternidade, mãe do povo de Deus, que será agora seu papel. São Lucas insinua esta missão mostrando-a em oração com os apóstolos, a espera do Espírito Santo (At 1,14). 



3 de mai. de 2010

A nova criação

Apareceu um novo nascimento, uma nova vida, um novo modo de viver; a própria natureza foi transformada. Que nascimento é este? É o daqueles que não nasceram do sangue nem da vontade da carne nem da vontade do homem, mas de Deus mesmo (Jo 1,13).

Tu perguntas: como isto pode acontecer? Escuta-me, vou te explicar em poucas palavras. Este novo ser é concebido pela fé; é dado à luz pela regeneração do batismo; tem por mãe a Igreja que o amamenta com sua doutrina e tradições. Seu alimento é o pão celeste; sua idade adulta é a santidade; seu matrimônio é a familiaridade com a sabedoria; seus filhos são a esperança; sua casa é o reino; sua herança e riqueza são as delicias do paraíso; seu fim não é a morte, mas aquela vida feliz e eterna que está preparada para o que dela são dignos.

-- dos Sermões de São Gregório de Nissa, bispo (século IV)

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