15 de dez de 2011

Maria, mãe de Deus - um guia de leituras bíblicas (parte II)

IV: A PRIMEIRA FIEL

Os evangelistas retratam Maria como uma pessoa de fé, submetida a incertezas, da mesma forma que todos os fiéis.

Visitação, altar da Igreja de Santa Maria de Lucca
1. A revelação

Desde a anunciação, Jesus é o objeto de fé de maria, que é iluminada por mensagens baseadas no AT. O filho se chamara Jesus, será filho do altíssimo, filho de David, rei de Israel, o Messias anunciado. Na apresentação no templo, Maria ouve as profecias do servo de Deus aplicadas ao seu Filho: será ele luz para as nações, sinal de contradição.

A estas palavras, é necessário acrescentar, mesmo que os textos bíblicos não o digam, que ela experimentou em seio a vida de uma criança que será o Messias, mantendo o silêncio e a pobreza. E, mais tarde, quando seu Filho lhe fala, utiliza o mesmo tom abrupto das profecias, Maria deve reconhecer nestas palavras a independência e autoridade do Filho, a superioridade da fé sobre a maternidade carnal.

2. A fidelidade de Maria 

São Lucas relatou as reações de Maria ante as revelações divinas: sua dúvida (Lc 1,29), sua dificuldade (Lc 1,34), sua surpresa frente ao oráculo de Simeão (Lc 2,23), sua incompreensão da palavra de Jesus no templo (Lc 2,50). Frente a um mistério que supera sua inteligência, reflete sobre a mensagem (Lc 1,29; Lc 2,33), reflete sobre este acontecimento misterioso, conservando sua lembrança, meditando em seu coração (Lc 2,19.51).

Aceita a palavra de Deus, ainda que transtorne seus projetos (Mt1,19). Suas respsotas ao chamamento divino, visitação, apresentação de Jesus no templo, são também atos em que vemos Deus agindo através de Maria: ela santifica o precursor, se oferece ao Pai. Fiel, guarda o silêncio quando seu Filho assume uma vida pública e assim permanece até a cruz.

3. O Magníficat.

No cântico de Maria, São Lucas transmite uma tradição israelita que conservou não tanto as palavras de Maria mas muito mais o sentido de sua oração, modelo para o povo de Deus. Seguindo a forma clássica de um salmo de ação de graças e servindo-se de temas tradicionais do saltério, Maria celebra uma novidade: o reino de Deus está presente. Nela e por ela a salvação é anunciada, a promessa é cumprida, o mistério das bem-aventuranças é realizado. A fé de Maria é a mesma do povo de Deus: uma fé humilde, que não se abala pelas dificuldades e dúvidas, que se alimenta ao meditar sobre a salvação e pelo serviço generoso (Jo 3,21; Jo 7,17; Jo 8,31s). Em razão desta fé, guarda a palavra de Deus e Jesus mesmo a proclama bem-aventurada, por Lhe ter levado em suas entranhas(Lc 11,27s).

A Muher do Apocalipse, obra de Peter Rubens.
V. MARIA E A IGREJA


1. A Virgem

Maria, exemplo de fidelidade, chamada à salvação pela graça de Deus, resgatada pelo sacrifício de seu Filho, ocupa um lugar especial na Igreja. Nela vemos o mistério da Igreja vivido em plenitude por uma alma que aceita a palavra divina com toda fé. A Igreja, esposa de Cristo (Ef 5,32), uma esposa virgem (Ap 21,2), que Cristo mesmo santificou purificando-a (Ef 5,25ss). Toda alma cristã, participando desta vocação, torna-se como "esposa de Cristo virgem e pura" (2Cor 11,2). A fidelidade da Igreja a este chamado divino se realiza primeiro em Maria, e já na forma mais perfeita. Este é o sentido da virgindade, a qual Deus nos convida, e a maternidade de Maria não diminui, senão consagrou. Na história da Igreja, com sua atitude, Maria adota posição contrária a de Eva (2Cor 11,3).

2. A mãe

Além disso, Maria se encontra numa posição única, que não pertence a nenhum outro membro da Igreja. Ela é a mãe, o ser humano do qual o Filho de Deus se nutre e nasce. Esta função é a que permite associá-la à Filha de Sião (Sf 3,14; Lc 1,28). Se a nova humanidade é comparável à mulher, cujo primigênito é Cristo (Ap 12,5), como negar que o mistério se realizou concretamente em Maria, que esta mulher e mãe não é um símbolo puro? Neste ponto, a relação entre Maria e a Igreja se afirma com força, através da mulher arrebatada por Deus dos ataques da serpente (Ap 12, 13-16), enquanto Eva, a primeira mulher, foi enganada pela serpente (2Cor 11,3; Gn 3,13). Maria é ao mesmo tempo a Igreja, pois a sua missão também é um desígnio e Deus em favor da salvação do homens. Por isto, a tradição associa Maria e a Igreja, chamando-a de "nova Eva" e Jesus de "novo Adão".

3. O mistério de María.

Ao examinarmos a Escritura percebemos que há uma relação entre o mistério da Igreja e o de Maria. O mistério da Igreja revela e explica o mistério de Maria, que o viveu de forma oculta.  Em Maria e na Igreja há o mistério da virgindade, o mistério nupcial no qual Deus é o esposo, o mistério da maternidade, da filiação e da atuação do Espírito Santo (Lc 1,35; Mt 1,20; Rm 8,15), primeiro em frente Cristo (Lc 1,31; Ap 12,5), e mais tarde nos membros da sua Igreja, seu corpo (Jo 19,26s; Ap 12,17). 

O mistério da virgindade implica uma pureza total, fruto da graça de Cristo, que faz Maria e a Igreja "santa e imaculada"(Ef 5,27). Neste ponto se manisfesta o sentido da concepção imaculdade Maria. O mistério da maternidade implica uma união total com  Cristo, em sua vida terrena, até a cruz (Lc 2,35; Jo 19,25s; Ap 12,13), e na glória da sua ressurreição (Ap 21). Este é o sentido da Assunção de Maria. Imaculada conceição e assunção: estes termos que marcam a vida de Maria, dos quais as Escrituras não falam explicitamente, se manisfestam na vida da igreja, até o ponto em que esta mesma Igreja os descobriu. 

Não trata-se de elevar Maria até o nível de Jesus, como mediadora junto ao mediador. Ela foi "cheia de graças" por parte de Deus (Lc 1,28) mas se mantém no mesmo nível dos demais membros da Igreja "cheios e graça no seu amado" (Ef 1,6). Porém foi por meio dela que o Filho de Deus, mediador único, se fez irmão de todos os homens e estabeceu uma relação orgânica com todos nós, que podemos nos nutrir da Igreja, que é o seu corpo (Col 1,18).  A atitude dos cristãos frente a Maria deve ser determinada por este fato fundamental, uma relação estreita com a Igreja, nossa Mãe (Sal 87,5; Jo 19,27). 



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