13 de fev de 2014

Uma breve história do casamento cristão - parte II

Continuando este breve apanhado histórico, vou abordar os ensinamentos dos primeiros padres da Igreja. Por muito tempo na história da Igreja não houve um ritual específico para celebrar casamentos. Na Didaqué, documento que descreve a vida nas primeiras comunidades, não há nenhuma referência a esta celebração e casais podiam dar-se em casamento em qualquer local. No entanto, Santo Inácio de Antioquia, ao escrever para o Bispo Policarpo de Esmirna, em torno de 110, comentou: "Quando um homem e uma mulher se unem, é importante que estejam em acordo com o bispo, que seu casamento seja agradável a Deus e não apenas para satisfazer seus desejos." 

Tertuliano (c.160-c.255) fala de cristãos pedindo "permissão" para casar aos seus padres e escreveu nestes termos: Como poderia descrever adequadamente a felicidade do casamento em comunhão com a Igreja, no qual sacrifício se fortalece, a benção acrescenta um selo ao casal, os anjos estão presentes como testemunhas e o Pai dá seu consentimento? Pois nem mesmo na Terra os filhos podem casar-se legalmente sem  o consentimento de seus pais. Quão belo então, o casamento de dois cristãos, dois unidos em uma mesma esperança, um desejo, um caminho na direção da vida que seguirão, um só na prática da religião. São como irmão e irmã, servos do mesmo Mestre. Nada pode dividi-los, nem a carne nem o espírito. Os noivos são, em verdade, dois em uma só carne e também um só espírito. Podem rezar juntos, culturar a Deus juntos, jejuar juntos, instruirem um ao outro, encorajar um ao outro. Lado a lado podem visitar a Igreja e participar do banquete de Deus, lado a lado enfrentam as dificuldades e perseguições, compartilham a consolação de Deus. Não devem ter segredos um para o outro, não evitam a companhia do outro nem querem mal ao seu companheiro. Podem visitar os doentes e assistir aos necessitados, dar esmolas tranquilamente, realizar exercícios de piedade diariamente. Não precisam fazer o sinal da Cruz furtivamente, nem temer o companheiro, nem silenciar sobre as bençãos de Deus. Salmos e hinos podem cantar juntos, dedicando-se para ver quem canta melhor para agradar a Deus. Vendo tal casal, Cristo rejubila de alegria e a eles concede Sua paz. Onde estiverem dois ou mais presentes, ali também está Jesus, e onde está Jesus, o mal não prevalecerá.

São Cipriano, Bispo de Cártago, recomenda que cristãos não devem casar com pagãos para mais livremente poderem exercer sua fé. Dirigindo-se às virgens consagradas, exorta-as a evitarem vestimentas extravagantes, atividades como festas excessivas e ir aos banhos públicos acompanhada de homens. Assim escreveu: O primeiro desejo de Deus foi de crescer e multiplicar-vos, o segundo é controlar seus desejos. Enquanto o mundo era ainda inabitado, era importante sermos fertéis afim de habitarmos a terra. Agora que o mundo já está ocupado, podemos aceitar a virgindade, viver à maneira dos eunucos, desde que eunucos em favor do reino de Deus. O Senhor não apenas ordena isto, como também exorta, mas também não impõe como uma ordem, um peso, pois concede liberdade para escolhermos.  

Argumentando contra a heresia maniqueísta, que condenava o casamento, São Jerônimo argumentou: Não concordamos com as opiniões de Maniqueu e seguidores, que são contrários ao casamento, nem nos deixamos levar pelo erro de Taciano, que pensa que todo intercurso é um ato impuro; eles condenam e rejeitam não apenas o casamento mas também todo alimento que Deus criou para uso dos homens. Sabemos que em uma grande casa há não apenas vasos de ouro e prata, mas também há os de madeira e barro. Enquanto honramos o casamento, preferimos a virgindade, que é um fruto do casamento sadio. Ou por acaso a prata deixará de ser prata apenas por que o ouro é mais valioso? E também escreveu: Alguém pode dizer: "Como podes condenar o casamento que é abençoado por Deus? Não é necessário condenar o casamento apenas por que a virgindade é preferível. Não trata-se aqui de igualar o mal ao bem. A glória de Deus está reservada também às mulheres casadas, pois o Senhor ordenou: crescei e multiplicai-vos. O lugar dos que seguem a Deus é o céu.

São Jerônimo argumentou ainda que o casamento poderia distrair a pessoa da oração e que, neste aspecto, a virgindade é preferível: Se pretendermos rezar todo tempo, nunca poderemos dar a atenção devida ao conjuge, pois neste tempo não estariamos rezando. Referindo-se aos clérigos, disse: Um padre deve oferecer sacrifícios permanentemente em favor do povo, portanto deve permanecer em oração. E se deve permanecer em oração, não pode atender às obrigações do casamento.

Santo Agostinho (354-430) desenvolveu uma teologia sacramental do casamento, em especial no livro Sobre os Dons do Matrimônio. Para ele, três valores são fundamentais no matrimônio: fidelidade, como sendo algo mais profundo que o mero aspecto sexual; filhos, que devem ser aceitos com amor, nutridos com afeto e ensinados sobre os preceitos da religião Cristã; e o sacramento, cuja indissolubilidade é um sinal de abençoada união eterna de Deus. Quanto à virgindade, comentou: Eu sei o que dizem por aí: "Suponha que todos decidissem pela virgindade, como poderia a raça humana sobreviver? Desejaria apenas que tivessem uma preocupação sincera com a caridade, um coração puro e boa consciência, pois aí, então, a Cidade de Deus (a Igreja) espalharia-se mais rapidamente e o fim dos tempos adviria gloriosamente. Tendo sido seguidor do Maniqueísmo em sua juventude, conhecia bem os ensinamentos desta seita, e sobre virgindade/casamento afirmou: Casamento e fornicação não são dois males, pois tem naturezas diferentes; casamento e virgindade são duas bençãos, embora a segunda seja melhor.  

Como vimos, vários santos e doutores da Igreja defenderam o casamento como algo abençoado por Deus, ordenado deste o princípio como sendo entre um homem e uma mulher. E dentro de um casamento, ambos podem ajudar-se e crescer na fé. A virgindade era considerada como superior, e de acordo com São Jerônimo, necessária para os sacerdotes. Santo Agostinho fala em fidelidade, prole e sacramento indissolúvel, e seu pensamento irá influenciar a Idade Média, como veremos na próxima parte. 

-- Autoria própria

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