17 de ago de 2015

Magnificat: Derrubou do trono os poderosos, exultou os humildes, saciou de bens os indigentes e despediu de mãos vazias os ricos

Derrubou do trono os poderosos e exaltou os humildes. Essas palavras da Bem-aventurada Virgem, segundo as explicações dos santos Doutores, aplicam-­se aos bons e aos maus anjos, aos anjos humildes e aos anjos soberbos, aos anjos obedientes a Deus e aos revoltados contra Ele. Os bons anjos reconhecem que Deus os tirou do nada e que de sua divina bondade receberam todas as perfeições que a Deus atribuem, rendendo-Lhe homenagem por elas e só reservando para si o nada. Razão pela qual Deus os faz passar do estado de graça, em que se acham, ao estado de glória, cumulando-os com os bens inestimáveis que se encerram na bem-aventurada eternidade.

Os maus anjos, ao contrário, contemplando as excelências com que Deus os ornou em sua criação, nelas se comprazem e delas se apropriam e glorificam como se as possuíssem por si mesmos, por uma soberba e uma insuportável arrogância que obrigam a divina justiça a despojá-los de todas as suas perfeições e claridade, reduzi-los a uma extrema miséria e pobreza, e precipitá-los no fundo do inferno.

Santo Agostinho aplica essas mesmas palavras, humildes e soberbos. Os humildes, diz ele, reconhecem que nada possuem de si mesmos e que tem necessidade extrema do auxílio e da graça do céu; mas os soberbos se persuadem de que estão cheios de graça e de virtude. Por isso, Deus se compraz em derramar seus dons sobre aqueles e em retirá-los destes.

Essas mesmas palavras se entendem ainda, conforme o pensamento de vários santos Doutores, a respeito de todos os pobres que têm o coração desapegado das coisas da terra, e que amam e abraçam a pobreza por amor dAquele que, possuindo todos os tesouros da Divindade, quis fazer-Se pobre por nosso amor, a fim de nos dar a posse das riquezas eternas. Mas, é necessário estendê-las especialmente aos que se despojaram voluntariamente de todas as coisas, pelo santo voto de pobreza, a fim de imitar mais perfeitamente o nosso divino Salvador e sua Mãe santissima, em seu estado de pobreza, pobreza tão grande que o Filho de Deus pronunciou as palavras: As raposas tem seus covis, as aves do céu os seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde repousar a cabeça.

Eis outra explicação destas palavras, a qual é de grande consolação. É ainda uma profecia da sacrossanta Mãe de Deus, a qual compreende uma conversão extraordinária que se deve realizar por todo o mundo, conversão dos infiéis, dos judeus, dos hereges e dos falsos cristãos, conversão predita e anunciada desde muito tempo pelo oráculo das santas Escrituras. Essa grande conversão foi revelada pelo Espírito Santo, não só aos Profetas da antiga Lei, mas também aos mais santos e santas da Lei nova. Não nos assegura o grande Apóstolo São Paulo que todos os judeus se converterão e que sua conversão será seguida pela de todo o mundo? A esse respeito, rogo-vos considerardes que não existem no mundo homens mais opostos a Deus, mais contrários ao nosso Salvador, mais inimigos de sua religião, e por conseguinte mais afastados da conversão, que eles. Se, não obstante tudo isto, Deus lhes deve fazer essa misericórdia, há grandes motivos para crer que não a recusará a todos os outros homens.

Então se realizará a grande profecia da Rainha dos Profetas: Derrubará do trono os poderosos, exultará os humildes; não talvez em toda a perfeição que seria de desejar, e de modo a não restar pessoa alguma na terra sem o conhecimento e o amor de Deus. Mas, embora essa conversão não seja talvez geral, será todavia um magnífico e delicioso banquete para todos quantos tem uma grande fome e ardente sede da glória de Deus e da salvação das almas.

Oh! que grandes tesouros encerra a pobreza voluntária, pois disse Nosso Senhor: Bem-aventurados os pobres, tanto que deles é o reino dos céus. Oh! quão perigosa é a posse das riquezas, pois disse Aquele que é a verdade eterna: "Ai de vós, ó ricos! porque tendes aqui a vossa consolação". Por isso, se amais as riquezas, não ameis as falsas riquezas da terra; amai porém as verdadeiras riquezas do céu, que são o temor e o amor de Deus, a caridade para com o próximo, a humildade, a obediência, a paciência, a pureza e as outras virtudes cristãs que vos estabelecerão na posse de um eterno império.

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

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