15 de ago de 2015

Magnificat: Sua misericórdia se estende, de geração em geração, sobre os que o temem

Jan Provoost: o tríptico de Nossa Senhora da Misericórdia

Depois de ter glorificado a Deus pelos favores infinitos com que A cumulou, e de ter feito a admirável profecia: "todas as gerações me chamarão Bem-aventurada", profecia que compreende um mundo  de maravilhas que o Onipotente operou e há de operar em todos os séculos e por toda a eternidade, para tornar essa Virgem Mãe gloriosa e venerável em todo o universo: eis uma outra profecia, cheia de consolação para todo o gênero humano, especialmente para aqueles que temem a Deus, pois essa divina Maria nos declara que a misericórdia de Deus se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem.

Qual é essa misericórdia? "É o nosso boníssimo Salvador", diz Santo Agostinho. Por isto, o Pai eterno é chamado Pai das misericórdias, porque Pai do Verbo encarnado, que é a própria misericórdia. É desta misericórdia que o profeta pedia a Deus, em nome de todo o gênero humano, a vinda a este mundo pelo mistério da Encarnação, quando dizia: "Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia, e dai-nos o vosso Salvador"

Pois, como o Verbo encarnado é todo amor e todo caridade, é também todo misericórdia. Deus é sempre misericordioso por natureza e por essência, diz São Jerônimo, e sempre pronto a salvar por sua clemência os que não pode salvar por sua justiça. Mas somos tão desgraçados e tão inimigos de nós mesmos que, quando a misericórdia se nos apresenta para salvar-nos, nós lhe voltamos as costas e a desprezamos.

É pela Encarnação que o Filho de Deus exerceu a sua misericórdia, segundo as palavras do Príncipe dos Apóstolos: "que nos regenerou segundo a sua grande misericórdia" (I Pedro, I, 3). Pois todos os efeitos de misericórdia que o Salvador operou sobre os homens, desde o início do mundo até agora, e operará por toda a eternidade, procederam e procederão do adorável mistério de sua Encarnação, como de sua fonte e princípio primeiro. é por isso que Davi, pedindo perdão de seus pecados, ora desta maneira: "ó meu Deus, tende piedade de mim segundo a vossa grande misericórdia".

Três coisas são necessárias à misericórdia. A primeira é ter compaixão da miséria alheia; pois é misericordioso quem traz no coração, por compaixão, as misérias dos miseráveis. A segunda, é ter uma grande vontade de socorrê-los em suas misérias. A terceira, é passar da vontade à ação. Ora, o nosso bom Redentor encarnou-Se para exercer em nós a sua grande misericórdia.

Pois, fazendo-se homem, e tomando um corpo e um coração capaz de sofrimento e dor como o nosso, Ele se encheu de tal compaixão de nossas misérias e as levou em seu coração com tanta dor, que não há palavras para exprimi-la. Pois, de um lado, tendo um amor infinito por nós, como um pai boníssimo por seus filhos; e, de outro lado, tendo sempre diante dos olhos todos os males do corpo e do espírito, todas as angústias, todas as tribulações, todos os martírios e tormentos que seus filhos deveriam padecer até o fim do mundo; seu Coração foi dilacerado por mil dores, extremamente sensíveis e penetrantes, as quais Lhe teriam dado mil vezes a morte, se o seu amor, mais forte que a morte, não Lhe houvesse conservado a vida, a fim de sacrificá-la por nós na cruz.

Na verdade, o que não fez Ele e o que não sofreu para livrar-nos efetivamente de todas as misérias temporais e eternas nas quais nos tinham mergulhado os nossos pecados? Todas as ações de sua vida, e de uma vida de trinta e três anos, e de uma vida divinamente humana e humanamente divina; todas as virtudes que praticou, todos os passos e peregrinações que fez sobre a terra, todos os trabalhos que passou e todas as humilhações, privações e mortificações que suportou; todos os seus jejuns, preces, vigílias, pregações; todos os seus sofrimentos, chagas, dores, a sua morte crudelíssima e cheia de opróbrio, o seu precioso Sangue derramado até à última gota; todas essas coisas, digo eu, não foram todas essas coisas empregadas, não só para libertar-nos de toda espécie de males, mas também para dar-nos a posse de um império eterno, cheio de uma imensidade de glória, grandezas, alegrias, felicidades e bens inconcebíveis e inefáveis?

Mas que significam as palavras seguintes: Sua misericórdia se estende de geração em geração sobre aqueles que O temem? Significam, segundo a expressão dos santos Doutores, que, assim como o nosso Salvador encarnou-Se e morreu por todos os homens, derrama também os tesouros de suas misericórdias sobre todos aqueles que não lhes opõem obstáculos, mas que O temem. De modo que, assim como me é uma fonte inexaurível de graça e de misericórdia, acha também um soberano prazer em comunicá-las continuamente a seus filhos, em todo tempo e em todo lugar.

Mas não quis fazer inteiramente só essa grande obra. Pois, além de fazer todas as coisas com o seu Pai e o seu divino Espirito, quis ainda associar a sua Mãe santissima nas grandes obras de sua misericórdia. Não é bom que o homem esteja só, disse Deus, quando quis dar a primeira mulher ao primeiro homem: façamos-lhe um adjutório semelhante a Ele. Assim, o novo homem, que é Jesus, quer ter um adjutório que é Maria, e seu Pai eterno Lhe concede para ser sua coadjutora e cooperadora na grande obra da salvação do mundo, que é a obra de sua grande misericórdia.

Maria é pois a administradora da misericórdia, porque Deus A encheu inteiramente de uma bondade, de uma doçura, de uma liberalidade extraordinária e de um poder sem igual, a fim de que Ela queira e possa assistir, proteger, amparar e consolar todos os aflitos, todos os miseráveis, e todos quantos a Ela recorrerem em suas necessidades. É o que Ela faz continuamente para com os indivíduos, os reinos, as províncias, as cidades, as casas e até para com todo o mundo, segundo as palavras de um dos mais santos e mais sábios Padres da Igreja, São Fulgêncio: "Há muito que o céu e a terra se teriam reduzido ao nada de que foram tirados, se Maria os não sustentasse".

-- Da Explicação do Magnificat, de São João Eudes (século XVII)

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