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30 de out. de 2020

A palavra de Deus é viva e eficaz

A palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes (Hb 4,12). Quão grande seja o poder e quanta sabedoria na palavra de Deus, estas palavras o demonstram aos que buscam a Cristo, que é o verbo, poder e sabedoria de Deus. Coeterno com o Pai no princípio, este verbo no tempo determinado revelou-se aos apóstolos e, por eles anunciado, foi humildemente recebido na fé pelos povos que creem. Está, portanto, o verbo no Pai, o verbo nos lábios, o verbo no coração.  

Esta palavra de Deus é viva; o Pai deu-lhe ter a vida em si mesmo, do mesmo modo como tem ele a vida em si mesmo. Por isto é não apenas viva, mas a vida, conforme ele disse a seu respeito: Eu sou o caminho, a verdade e a vida (Jo 14,6). Sendo a vida, é vivo de forma a ser vivificante. Pois, como o Pai ressuscita os mortos e vivifica-os, também o Filho vivifica a quem quer (Jo 5,21). É vivificante ao chamar o morto do sepulcro: Lázaro, vem para fora (Jo 11,42).  

Quando esta palavra é pregada pela voz do pregador que se escuta no exterior, ele dá a esta voz a palavra de poder, percebida interiormente. Por ela, os mortos revivem e com seus louvores são suscitados filhos de Abraão. É, portanto, viva esta palavra no coração do Pai, viva na boca do pregador, viva no coração daquele que crê e ama. Sendo assim viva, não há dúvida de ser também eficaz.  

É eficaz na criação das coisas, eficaz no governo do mundo, eficaz na redenção do universo. Que de mais eficaz, de mais poderoso? Quem dirá seus portentos, fará ouvir todo o seu louvor? (Sl 105,2). É eficaz ao agir, eficaz ao ser anunciada. Pois não volta vazia, mas tem êxito em tudo a quanto é enviada. 

Eficaz e mais penetrante do que a espada de dois gumes (Hb 4,12), quando é crida e amada. O que será impossível a quem crê, ou difícil a quem ama? Quando este verbo fala, suas palavras transpassam o coração quais setas agudas do poderoso. Como pregos profundamente cravados, entram e penetram até o mais íntimo. Porque é mais aguda do que a espada de dois gumes esta palavra, já que é mais poderosa do que toda a força e poder para abrir, e mais sutil do que a maior argúcia do engenho humano. Mais que toda sabedoria humana e a sutileza das palavras doutas, é ela penetrante.

-- Das Obras de Balduíno de Cantuária, bispo (século XII)

18 de fev. de 2017

São Jerônimo e a tradução da Bíblia

São Jerônimo nasceu na Dalmácia, próximo a atual capital da Eslovênia, provavelmente no ano de 347, em uma família com boas condições financeiras que pode custear seus estudos. 
São Jerônimo em seu estúdio, pintado por
Domenico Ghirlandaio (1480)

Em torno do ano 360 foi enviado a Roma para estudar retórica e filosofia, também aprendeu latim e um pouco de grego para ler os autores clássicos na língua original. Em Roma conheceu a fé católica, mas tinha a vida despreocupada de um jovem, cometendo os pecados habituais da juventude, como ele mesmo relatou em seus escritos. 

Quando enfim converteu-se, passou a ter um vida asceta, viajou para a Alemanha a fim de estudar Teologia, até decidir por uma vida de eremita nos desertos da Síria. Em um sonho, foi advertido por Deus que deveria abandonar totalmente a leitura dos poetas clássicos e se concentar unicamente em livros teológicos. Com o auxílio de judeus convertidos, aprendeu o hebraico e conheceu a versão hebraica do Velho Testamento e Evangelhos. 

Em 378 ou 379 foi ordenado em Antioquia e viajou para Constantinopla onde estudou as Sagradas Escrituras com São Gregório Nazianzeno. Em 382 foi a Roma para participar de um Concílio que discutiria a composição da Bíblia. Na capital permaneceu por três anos, auxiliando o Papa Dâmaso e traduzindo o Novo Testamento do grego para o latim. Suas catequeses atraíram algumas mulheres ricas para uma vida de austeridade e oração, incluindo Santa Paula, mas, no geral, tornaram-no antipático para a maioria do povo.

Em agosto de 385, Jerônimo partiu para a Terra Santa, passando a morar próximo de Belém até sua morte em 420. Graças a caridade, em especial de Santa Paula, podia adquirir muitos livros, o que foi essencial para a sua grande herança: uma nova tradução da Bíblia. 

A tradução da Bíblia

Até aquele momento, todas as traduções para o latim dos livros do Antigo Testamento eram baseadas em livros gregos, a chamada versão dos Setenta (ou Septuaginta). A Bíblia dos Setenta foi traduzida do hebraico para o grego por rabinos morando em Atenas, por cerca de 200 anos (300 AC-100 AC), ou seja, muitos se envolveram no trabalho, a qualidade variava bastante e algumas idéias da sociedade grega se infiltraram no texto. Acrescente-se a possibilidade de erros na tradução adicional do grego para o latim e a qualidade do texto resultante não era ideal.

Ao compararem a versão latina com o texto hebraico e identificarem notáveis diferenças, os estudiosos da época tomaram uma posição muito curiosa: os judeus estariam alterando os textos para confundir os católicos. 

Foi neste ponto que São Jerônimo tomou uma decisão fundamental: não apenas utilizou os textos hebraicos originais, abandonando a tradução dos Setenta, como pediu auxílio aos rabinos de Jerusalém para compreender as passagens mais difíceis. Em várias cartas, São Jerônimo dedicou-se a explicar suas escolhas e, muitas vezes, recomendava que consultassem os rabinos acerca do Velho Testamento pois eles conheciam o texto melhor que muitos cristãos. 

A tradução de São Jerônimo, chamada Vulgata, no início foi duramente criticada pois diferia bastante dos livros utilizados na época. Santo Agostinho, que também tinha estudado os textos clássicos e falava latim e grego, foi fundamental pelo apoio que deu a São Jerônimo ao notar a qualidade do trabalho. Por fim, a Vulgata foi plenametne aceita na Igreja e utilizada ao longo dos séculos, servindo de base para as primeiras traduções em outras línguas, inclusive as de Martinho Lutero e outros protestantes. Apenas nos séculos XIX e XX, com o uso de técnicas mais de tradução e novos achados arqueolóogicos, que o trabalho de São Jerônimo começou a ser aprimorado, mas certamente ainda é uma influência fundamental na Bíblia que lemos diriamente.

-- autoria própria

2 de abr. de 2016

Torá, a Lei que Jesus conhecia

Em Mt 5, 18 encontramos Jesus Cristo afirmando:  “Porque em verdade vos digo que, até que passem o céu e a terra, não será omitido nem um só i (iota=letra), uma só virgula da Lei, sem que tudo seja realizado”.  A qual Lei exatamente Jesus refere-se? Talvez lhe venha a cabeça a palavra "Torá". Pois não apenas a Torá era conhecida por Jesus, mas toda rica tradição judaica, as quais Ele repetidamente utiliza ao longo dos Evangelhos.

Um dos livros da Sinagoga de Colônia, Alemanha.
Para os mais tradicionais, a Torá deve ser sempre
escrita à mão, nnunca impressa.
A palavra Torá significa instrução, ensinamento e se constitui na Lei. O termo Torá é um pouco dúbio, pois tem diferentes sentidos dependendo do contexto. No mais limitado, refere-se aos cinco livros de Moisés: Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio. No sentido mais amplo, refere-se à todos os escritos sagrados do Judaísmo, que os cristãos conhecem como Velho Testamento. Ou ainda, pode até incorporar outros escritos e ensinamentos de Rabinos. 

Os cinco primeiros livros são a Torá de Moisés, pois os judeus acreditam que foram entregues a Moisés por Deus, enquanto o povo de Israel peregrinava no deserto em direção à Canaã. Inclusive a pate que descreve a morte de Moisés (Dt 32,50-52) teria sido uma profecia sobre o futuro de Moisés. O nome dos livros é retirado das primeiras palavras de cada um deles, obviamente em hebraico; as encíclicas papais seguem esta mesma tradição:


  • Bereshit = No princípio ... ; livro do Gênesis
  • Shemot = Os nomes ...; livro do Êxodo
  • Vayikrah = E chamou ...; livro do Levítico
  • Bamidbar = No deserto ...; livro de Números
  • Devarim - As palavras ...; livro do Deuteronômio


Além dos livros iniciais, temos a Tanakh, que incorpora todos os livros sagrados. As Igreja Cristãs colocam todos estes livros como parte da Bíblia, embora com algumas divisões um pouco diferentes. Então, na Tanakh temos:

Os profetas:

  • Josué
  • Juízes
  • Samuel (1 e 2)
  • Reis (1 e 2)
  • Isaías
  • Jeremias
  • Ezequiel

Os doze profetas menores, tratados como um único livro:

  • Oséias
  • Naum
  • Joel
  • Habacuque
  • Amós
  • Sofonias
  • Obadias
  • Ageu
  • Jonas
  • Miquéias
  • Zacarias
  • Malaquias

E outros livros inspirados por Deus:

  • Salmos
  • Provérbios
  • Cântico dos Cânticos
  • Rute
  • Lamentações
  • Eclesiastes
  • Ester
  • Profético
  • Daniel
  • Esdras-Neemias
  • Crônicas (1 e 2)

As Igrejas Católica e Ortodoxa acrescentam outros livros que não fazem parte da Tanakh ("Bíblia judaica") mas que eram estudados nas sinagogas por muitos séculos antes de Cristo:

  • Tobias
  • Judite
  • Macabeus (1 e 2)
  • Sabedoria
  • Eclesiástico
  • Baruc

Para os judeus não há Novo Testamento, os Evangelhos e cartas não fazem parte da escrituras judaicas. 

Além dos escritos sagrados, há também a tradição, chamada de Torá Oral, que procura explicar os detalhes da Lei e como praticá-los na vida diária. A Torá Oral teria sido ensinada pelo próprio Deus para Moisés, tendo sido passada de geração em geração, inclusive para Jesus Cristo e seus apóstolos, até que no século II foi compilada e escrita. Alguns comentários foram acrescentados ateó o século V, quando tomou a forma atual e é chamada de Talmud. Os judeus são convidados a estudar uma página do Talmud diariamente.

A partir da Idade Média, os judeus começaram a se defrontar com questões cujas respostas não estavam explícitas na Torá, devido às mudanças dos costumes, línguas e tecnologia. Em geral, rabinos mais eruditos, com base em passagens da Torá e Talmud, atualizam os ensinamentos e recomendam os procedimentos mais adequados para situações concretas. Estes escritos foram compilados ao longo do tempo e hoje podem ser acessados em sites específicos. E continua a expandir-se, por exemplo, com recomendações sobre cirurgia plástica e a maneira judaica (kosher) de utilizar a máquina de lavar pratos após os banquetes festivos de Páscoa. 

-- autoria própria



9 de jan. de 2016

Lectio Divina

A Lectio Divina é a leitura crente e orante da Palavra de Deus. Na sua origem, ela nada mais é que a leitura que os cristãos faziam da Bíblia para animar sua fé, esperança e amor. Ela é tão antiga quanto a própria Igreja, que vive da Palavra de Deus e dela depende como a água da sua fonte (Dei Verbum 7.10.21).

Inicialmente, não era uma leitura organizada e metódica, mas era a própria Tradição que se transmitia, de geração em geração, através da prática do povo cristão. A expressão Lectio Divina vem de Orígenes. Ele diz que, para ler a Bíblia com proveito, é necessário um esforço de atenção e de assiduidade: "Cada dia, de novo, como Rebeca, temos de voltar à fonte da Escritura!" E o que não se consegue com o próprio esforço, assim ele diz, deve ser pedido na oração, "pois é absolutamente necessário rezar para poder compreender as coisas divinas". Deste modo, assim ele concluiu, chegaremos a experimentar o que esperamos e meditamos.

Para São Bento, a LD conduz à perfeição: para São Bernardo, infunde sabedoria; para São Ferreolo, cria o fervor espiritual; para Bernardo Ayglier, dissipa a cegueira da monte, ilumina o entendimento, sana a debilidade do espírito, sacia a fome da alma produz a contrição do coração. 

Seus frutos são:

1 . Viver, pensar e falar como a Bíblia: As idéias, expressões, imagens da Escritura se convertem no patrimônio espiritual . A Bíblia passa a formar parte integrante da personalidade. Ao apropriar-se da palavra de Deus, a pessoa vive, pensa e fala com a Bíblia e como a Bíblia. 

2. Maturidade na fé: a LD edifica e constrói a alma porque o homem é o que lê. O homem novo que cada um se empenha ser no batismo, chega, pela LD, à maturidade. O homem novo, para ser interlocutor válido de Deus precisa ter a Escritura enraizada em si, isto é, se torna a própria substância da pessoa e conceber continuamente a Palavra de Deus no coração. 

3. Piedade objetiva: a LD edifica-se sobre acontecimentos, modelos e mistérios reais com que o cristão procura identificar-se e não se baseia em imaginação e sentimentalismo.

4. Vida de oração: Ao responder às interpelações de Deus, em sua Palavra a pessoa ora, fala com Deus louvando, agradecendo, suplicando e intercedendo, de acordo com a sua situação.

5. Experiência de Deus: significa estar unido a Deus por meio de Cristo. A alma da pessoa sente-se íntima e fortalecida com a presença dele. A pessoa sabe, percebe, saboreia a sua presença.

6. Alegria interior: São Paulino de Nola assim descreve a prática da LD: "Viver com a palavra de Deus, meditá-las sem saber nada fora delas, não te parece que é ter aqui na terra uma morada do reino celeste?".

MÉTODO DOS QUATRO DEGRAUS

A sistematização da LD em quatro degraus veio no séc XII, Por volta do ano 1150, através de um monge cartuxo, chamado Guigo. Disse ele: "Certo dia, durante o trabalho manual, quando estava refletindo sobre a atividade do espírito humano, de repente se apresentou à minha mente a escada dos quatro degraus espirituais: a leitura, a meditação, a oração, a contemplação. É verdade, a escada tem poucos degraus, mas ela é de uma altura tão imensa e inacreditável que, enquanto a sua extremidade inferior se apoia na terra, a parte superior penetra nas nuvens e investiga os segredos do céu"

1. Leitura

A leitura é o primeiro passo para se conhecer e amar a Palavra de Deus. Não se ama o que não se conhece. É o primeiro passo para familiarizar-se com a Bíblia, para que ela se torne nossa palavra, capaz de expressar nossa vida e nossa história, pois ela “foi escrita para nós que tocamos o fim dos tempos” (1Cor 10,11).

A leitura é o ponto de partida, não é o ponto de chegada. Recomenda Orígenes: “Vejam se seguram as palavras divinas de forma a não deixá-las cair, escapar das mãos, e assim perdê-las. Quero exortá-los com um exemplo tirado dos costumes religiosos. Quem assiste habitualmente aos Divinos Mistérios sabe com que precaução, cheia de respeito, segura o Corpo do Senhor, quando lhe é entregue; não vá cair alguma migalha e perder-se uma parte do tesouro sagrado. Sentir-se-ia culpado, e com razão, se por negligência alguma coisa se perder: Se quando se trata do Corpo do Senhor se tem tanto cuidado, como pensar que negligenciar a Palavra de Deus tem menos importâcia?” 

Todos temos dificuldades em ler. Há o vício de ler em diagonal, ler depressa demais, ler para encher o tempo, falta de gosto pela leitura, falta de tempo, de interesse, de método. Pertencemos à civilização da imagem, espectadores passivos da TV ou das revistas. Ler, copiar o texto mais de uma vez. Ler os lugares paralelos indicados na Bíblia ou nas notas. “A Escritura se interpreta por si mesma” é o grande critério rabínico da LD.

A Palavra pode ser difícil, estranha, exigente, não dizer nada. Há vazios, silêncios. Não fugir do vazio da tentação de escutar rádio ou folhear revista é lamentável. Não ter medo de sentir a incapacidade de rezar e de o experimentar é uma graça. Não leias simplismente com os olhos, mas procura imprimir o texto em teu coração

O objetivo da leitura é ler e estudar o texto até que ele, sem deixar de ser ele mesmo, se torne espelho para nós mesmos e nos reflita algo da nossa própria experiência de vida. A leitura deve familiarizar-nos com o texto a ponto de ele se tornar nossa palavra. Cassiano dizia: “Penetrados dos mesmos sentimentos em que foi escrito o texto, tornamo-nos, por assim dizer, os seus autores”. E aí, como que de repente, damo-nos conta de que, por meio dele, Deus está querendo falar conosco e nos dizer alguma coisa. Nesse instante, dobramos a cabeça, fazemos silêncio a brimos o ouvido: “Vou ouvir o que o Senhor nos tem a dizer!” (Sl 85,9). É nesse momento que a leitura se transforma em meditação. 

2. Meditação

A meditação vai responder à pergunta: o que diz o texto para mim, para nós? A meditação indica o esforço que se faz para atualizar o texto e trazê-lo para dentro do horizonte da nossa vida e realidade tanto pessoal como social. O texto deve falar-nos. 

Guigo dizia: “A meditação é uma diligente atividade da mente que, com a ajuda da própria razão, procura conhecimento da verdade oculta”. Através da leitura, descobrimos o contexto da época. No entanto, a fé nos diz que esse texto, apesar de ser de outra época e de outro contexto, tem algo a nos dizer hoje.

Uma primeira forma de se realizar a meditação é sugerida pelo próprio Guigo. Ele manda usar a mente e a razão para poder descobrir a “verdade oculta”. Entra-se em diálogo com o texto, com Deus, fazendo perguntas que obrigam a esar a razão e que procuram trazer o texto para dentro do horizonte da nossa vida. Por exemplo: Quais os conflitos de ontem que existem hoje? 

A outra forma é repetir o texto, ruminá-lo até descobrir o que ele tem anos dizer. É o que Maria fazia quando ruminava as coisas no coração (Lc 2,19-51). É o que recomenda o salmo ao justo: “Meditar dia e noite na lei do Senhor” (Sl 1,2). É o que Isaías define com tanta precisão: “Sem Iahweh, o teu nome e a lembrança de ti resumem todo o desejo da nossa alma” (Is 26,8). 

Após ter feito a leitura e ter descobrido o seu sentido para nós, é bom procurarmos resumir tudo numa frase, de preferência do próprio texto bíblico, para ser levada conosco na memória e ser repetida e mastigada durante o dia, até se misturar com o nosso próprio ser.

A meditação aprofunda a dimensão pessoal da Palavra de Deus. Na Bíblia, quem dirige a Palavra é Deus, E Ele o faz com muito amor. Uma palavra de amor recupera forças, libera energias, recria a pessoa, o coração se dilata até adquirir a dimensão do próprio de Deus, que pronuncia a Palavra. “Pela leitura se atinge a casca da letra, e se tenta atravessá-la para, na meditação, atingir o fruto do Espírito” (São Jerônimo). O Espírito age dentro da Escritura (2Tm 3,16). Através da meditação, ele se comunica a nós, nos inspira, cria em nós os sentimentos de Jesus Cristo (Fl 2,5), ajuda-nos a descobrir o sentido pleno das palavras de Cristo (Jo 16,13). É o mesmo Espírito que enche a vastidão da terra (Sb 1,7). No passado ele animava os Juízes e Profetas, hoje ele também nos anima.

A meditação é uma atividade pessoal e também comunitária. A partilha do que cada um sente, descobre e assume no contato com a Palavra de Deus é muito mais do que só a soma das palavras de cada um, é o sentido Eclesial da Bíblia.

3. Oração

O que o texto me faz dizer, nos faz dizer a Deus? Guigo descreve a importância da oração: ”vendo, pois, a alma que não pode por si mesma atingir a desejada doçura do conhecimento e da experiência, e que, “quando mais se aproxima do fundo do coração” (Sl 63,7), tanto mais distante é Deus (cf. Sl 63,8), ela se humilha e se refugia na oração. E diz: “Senhor, que não és contemplado senão pelos corações puros, eu procuro, pela leitura e pela meditação, qual é, e como pode ser adquirida a verdadeira doçura do coração, a fim de por ela conhecer-te ao menos um pouco”.

A oração, provocada pela meditação, inicia-se por uma atitude de admiração silenciosa e de adoração ao Senhor. A partir daí brota a nossa resposta à Palavra de Deus. Fala agora a Deus, responde-lhe, responde aos convites, aos apelos, às inspirações, aos pedidos, às mensagens que te dirigiu através da Palavra compreendida no Espírito Santo. Não vês que foste escolhido no seio da Trindade, no inefável colóquio entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo? Não te detenhais mais a refletir demasiado; entra em diálogo e fala como um amigo fala a seu amigo (Dt 34,10). Não procureis mais confirmar teus pensamentos com os seus, mas busca a Ele. 

A meditação tinha por fim a oração. É agora o momento. Enzo Bianchi recomenda: Nada de tagarelice, fala-lhe com segurança, com confiança e sem medo, longe de todo olhar sobre ti mesmo, mas encantado com seu rosto que emergiu do texto no Cristo Senhor. Dá livre curso a tuas capacidades criativas de sensibilidade, de emoção, evocação, e coloca-se a serviço do Senhor. Não posso dar-te muitas indicações porque cada qual sabe reconhecer o encontro com seu Deus, mas não pode ensiná-lo aos outros, nem descrevê-lo em si mesmo. Que se pode dizer do fogo, quando este está dentro dele? Que se pode dizer da oração-contemplação no fim da Lectio Divina, a não ser que é a sarça ardente na qual o fogo queima? 

É importante que esta oração espontânea não seja só individual, mas também tenha sua expressão comunitária em forma de partilha. Na oração reflete-se ainda o itinerário pessoal de cada um no seu caminhar em direção a Deus e no seu esforço de se esvaziar-se de si para dar lugar a Deus, ao irmão, à comunidade. É aqui que se situam as noites escuras com suas crises e dificuldades, com seus desertos e tentações, rezadas, meditadas e enfrentadas à luz da Palavra de Deus (Mt 4,1-11).

4. Contemplação

Cada vez, porém, que se chega ao último degrau, este se torna patamar para um novo começo. Ele recria a alma fatigada, nutre a que tem fome, sacia a sua aridez, faz-lhe esquecer tudo que é terretre, vivifica-a, mortificando-a por um admirável esquecimento de si mesma, e, embriagando-se, torna-a sóbria.

São Paulo, na carta aos Romanos, depois de falar da História da Salvação, do chamado dos pagãos, que erámos nós, e da salvação final dos judeus, exclama: “Ó abismo da riqueza, da sabedoria e da ciência de Deus! Como são insondáveis seus juízos e impenetravéis seus caminhos! Quem conhece o pensamento do Senhor? Quem se tornou seu conselheiro?”. É um grito de admiração. De louvor, de adoração, de contemplação. 

Contemplação é também a capacidade de perceber a presença de Deus em tudo, nos acontecimentos, na história, nos outros. Esta presença unifica os casos da vida. Guigo diz: “A leitura busca a doçura da vida bem-aventurada, a meditação a encontra, a oração a pede e a contemplação a saboreia. A leitura leva comida sólida à boca, a meditação a mastiga e rumina, a oração prova o seu gosto e a contemplação é o gosto da doçura já alcançada”. O que mais chama a atenção nos escritos de Guigo é a insistência em descrever a contemplação como uma saborosa curtição da doçura que relativiza tudo e, como que por um instante, antecipa algo da alegria que “Deus preparou para aqueles que o amam” (1Cor 2,9).

19 de set. de 2015

25º Domingo do Tempo Comum - 20/09/2015

Mc 9,30-37

Naquele tempo, 30Jesus e seus discípulos atravessavam a Galileia. Ele não queria que ninguém soubesse disso,31pois estava ensinando a seus discípulos. E dizia-lhes: “O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens, e eles o matarão. Mas, três dias após sua morte, ele ressuscitará”.
32Os discípulos, porém, não compreendiam estas palavras e tinham medo de perguntar. 33Eles chegaram a Cafarnaum. Estando em casa, Jesus perguntou-lhes: “O que discutíeis pelo caminho?”
34Eles, porém, ficaram calados, pois pelo caminho tinham discutido quem era o maior.
35Jesus sentou-se, chamou os doze e lhes disse: “Se alguém quiser ser o primeiro, que seja o último de todos e aquele que serve a todos!”
36Em seguida, pegou uma criança, colocou-a no meio deles e, abraçando-a, disse: 37“Quem acolher em meu nome uma destas crianças, é a mim que estará acolhendo. E quem me acolher, está acolhendo, não a mim, mas àquele que me enviou”.
Comentário:
Este trecho do Evangelho inicia com a revelação de Cristo Messias, Filho de Deus, mas também o sofredor (Sb 2,17-20). Diante desta revelação, que não é totalmente entendida pelos discípulos, Ele indica o caminho a seguir na sua ausência: serviço, humildade, acolhida dos pobres; ou seja, uma fé experimentada. 
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 53
  • Sabedoria 2,17-20
Evangelhos
  • Mateus 17, 22-23; 18, 1-5
  • Lucas 9, 43-48
  • Mateus 10, 40
Cartas
  • Tiago3,16-4,3

6 de fev. de 2015

5º Domingo do Tempo Comum - Domingo 08/02/2015

Mc 1,29-39
Naquele tempo, 29Jesus saiu da sinagoga e foi, com Tiago e João, para a casa de Simão e André.
30A sogra de Simão estava de cama, com febre, e eles logo contaram a Jesus.
31E ele se aproximou, segurou sua mão e ajudou-a a levantar-se. Então, a febre desapareceu; e ela começou a servi-los.
32À tarde, depois do pôr do sol, levaram a Jesus todos os doentes e os possuídos pelo demônio. 33A cidade inteira se reuniu em frente da casa.
34Jesus curou muitas pessoas de diversas doenças e expulsou muitos demônios. E não deixava que os demônios falassem, pois sabiam quem ele era.
35De madrugada, quando ainda estava escuro, Jesus se levantou e foi rezar num lugar deserto.
36Simão e seus companheiros foram à procura de Jesus. 37Quando o encontraram, disseram: “Todos estão te procurando”.
38Jesus respondeu: “Vamos a outros lugares, às aldeias da redondeza! Devo pregar também ali, pois foi para isso que eu vim”.
39E andava por toda a Galileia, pregando em suas sinagogas e expulsando os demônios.
Comentário:
Este evangelho é composto por três pequenas histórias: as duas primeiras apresentam Jesus como libertador dos males físicos e espirituais; a terceira fala da missão de Jesus e os apóstolos. Cristo não veio apenas em sentido material, mas também em sentido teológico (Jo 8,42; 13, 3; 16, 27-28). As curas não são um ato de um mágico, mas o ato do salvador dos homens. A cura das doenças torna então o valor de sinal; orienta nosso olhar para uma restauração global do homem; torna-se um momento da ação salvífica de Cristo.
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • Êxodo 22, 20-23
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Salmos 145(146)
  • Isaias 49,9
  • Isaias 61,1
Evangelhos
  • João 8,42-47
  • João 13, 1-20
  • João 16, 26-28

31 de jan. de 2015

4º Domingo do Tempo Comum - Domingo 01/02/2015

Evangelho (Mc 1,21-28)
21Na cidade de Cafarnaum, num dia de sábado, Jesus entrou na sinagoga e começou a ensinar.
22Todos ficavam admirados com o seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade, não como os mestres da Lei.
23Estava então na sinagoga um homem possuído por um espírito mau. Ele gritou: 24“Que queres de nós, Jesus Nazareno? Vieste para nos destruir? Eu sei quem tu és: tu és o Santo de Deus”. 25Jesus o intimou: “Cala-te e sai dele!”
26Então o espírito mau sacudiu o homem com violência, deu um grande grito e saiu. 27E todos ficaram muito espantados e perguntavam uns aos outros: “O que é isto? Um ensinamento novo dado com autoridade: Ele manda até nos espíritos maus, e eles obedecem!” 28E a fama de Jesus logo se espalhou por toda a parte, em toda a região da Galileia.
Comentário:
Graças ao Espírito recebido no Batismo, Jesus inaugura sua missão conforme foi prescrita (Mc 1,9). Ele ensina como o Servo de Isaias 42, 1-4; expulsando os espíritos impuros, mostrando seu poder (Lc 10, 18-19; Jo 12, 32; Ap 12, 9-12). O grito do Espírito (v. 24) é semelhante ao da viuva de Sarepta para o profeta Elias (1Rs 17,18), numa clara comparação de Jesus com os profetas que o procederam. A pergunta que todos fazem "o que é isto?", "quem é Jesus Cristo?", volta ao longo de toda a primeira parte do Evangelho de Marcos, que finalmente será respondida por Pedro: Ele é o Cristo, Filho de Deus (Mc 8, 29).
Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
  • 1 Reis 17,17-24
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Isaías 42, 1-9
Evangelhos
  • Marcos 1, 9-11
  • Marcos 2,12; 3,11; 4,41; 5, 41-42; 6, 2-3; 7,37
  • Marcos 8, 27-29
  • Lucas 10, 17-20
Cartas
  • Apocalipse 12, 7-12

24 de jan. de 2015

3º Domingo do Tempo Comum - Domingo 25/01/2015

Mc 1,14-20
14Depois que João Batista foi preso, Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: 15“O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!”
16E, passando à beira do mar da Galileia, Jesus viu Simão e André, seu irmão, que lançavam a rede ao mar, pois eram pescadores.
17Jesus lhes disse: “Segui-me e eu farei de vós pescadores de homens”.
18E eles, deixando imediatamente as redes, seguiram a Jesus.
19Caminhando mais um pouco, viu também Tiago e João, filhos de Zebedeu. Estavam na barca, consertando as redes; 20e logo os chamou. Eles deixaram seu pai Zebedeu na barca com os empregados, e partiram, seguindo Jesus.
Comentário:
Este trecho, paralelo a Mt 4, 12.17-22, oferece duas características próprias de Marcos: Jesus está pregando o Evangelho de Deus e convida aos ouvintes a crer (vv 14-15). O termo evangelho, à luz da citação a Isaias (1,3), adquire um sentido religioso e indica a alegre notícia da salvação messiânica, isto é, o tempo em que será instaurado na terra o reino de Deus (Is 40, 9; 52, 7). Esta realidade implica uma mudança de mentalidade (a conversão), exemplificada no chamado aos discípulos, que ecoa o convite de Jonas para todo povo, inclusive os ninivitas, que não eram judeus, a crer em Deus (Jn 3,1-5).
 Leituras Relacionadas
Antigo Testamento
Livros Históricos
Livros Sapienciais e Proféticos
  • Isaías 1,2-3
  • Isaías 40, 9-11
  • Isaias 52, 7-12
  • Jonas 3, 1-10
Evangelhos
  • Mateus 4, 12-22
  • Mateus 12, 38-42
  • Lucas 5,1-11
  • Lucas 11, 29-32
Cartas

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